sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sulcando os mares: Um historiador do império português enfrenta a "Atlantic History"


A.J.R. Russell-Wood

Professor Doutor - Departamento de História - Universidade John Hopkins - Baltimore - Maryland - 21218 - Estados Unidos. E-mail: russwood@jhu.edu


RESUMO

Esta contribuição para a história tem duas dimensões. A que predomina é a historiográfica: a gênese e evolução da "Atlantic history", as suas características, ênfases e metodologia, e como diverge da história consciente de um quadro imperial. A segunda é um praticum: quer dizer, a minha tentativa em conceitualizar e organizar um artigo sobre "o Atlântico luso-afro-brasileiro" no período de cerca 1660 até cerca de 1760, segundo o que entendo ser as normas e preceitos do "Atlantic history". Fruto de tal experiência, concluo com avaliação em respeito dos prós e contras, do "Atlantic history", em comparação com outras historiografias e faço observações a respeito do seu potencial para abrir novos ramos de pesquisa para a História do Brasil Colonial.

Palavras-chave: Historiografias; Atlântico luso-afro-brasileiro; Atlantic history.



ABSTRACT

This contribution to history has two dimensions of which one predominates, being the historiography: the genesis and evolution of the "Atlantic History", its characteristics, emphases and methodology, and how it diverges from the conscious history of an imperial framework. The second is a practicum: that is to say, my attempt in conceptualizing and organizing an article about the "Luso-Afro-Brazilian Atlantic" in the period around 1660 up to around 1760" according to what is understood as the guidelines and precepts of the "Atlantic History". From the fruit of such experiences, I conclude with an evaluation of the pros and cons of the "Atlantic History", in comparison with other historiographies, and make observations with respect to its potential to open up new lines of research into Brazilian colonial history.

Keywords: Historiography; Luso-Afro-Brazilian Atlantic; Atlantic History.


Introdução: modos de escrever história em debate

Uma historiografia mais antiga, dos impérios europeus ultramarinos, tendia a manter o foco nas conquistas e nos atos de possessão, no povoamento e na colonização, no comércio, na evangelização, e no processo de governança. Essa historiografia nunca questionou que as habilidades técnicas, o conhecimento da tecnologia, a inovação e a criatividade fossem exclusivamente europeus. As populações autóctones eram vistas mais como receptoras passivas do que proativas. Essas histórias foram geralmente escritas a partir de uma perspectiva metropolitana e a única função dos colonos e a razão de ser das colônias era prover matérias-primas, ouro e prata, e pedras preciosas para a metrópole. Esta "história diplomática", baseada nos arquivos governamentais, tratou dos indivíduos das altas camadas sociais, de poder e autoridade no governo das nações, e foi notável pelas suas atitudes elitistas. No caso da historiografia brasileira, já os historiadores Capistrano de Abreu (1853-1927) e Sérgio Buarque de Holanda (1902-82) adotaram perspectivas de homens da colônia. O historiador marxista Caio Prado Júnior (1907-90) tratou da colonização portuguesa, mas insistiu em indicar outros processos, próprios da colônia: formação de um mercado interno de alimentos: criação de gado, de suínos e produção de queijo no sul de Minas Gerais.

Nas décadas de 60 e 70 do século XX, as perspectivas dos historiadores europeus e estadunidenses mudaram e passaram a incluir outras perspectivas não-européias, a reconhecer o multiculturalismo, e a dar a devida importância ao papel da mulher. Houve uma outra aproximação subsequente à história social e cultural que pode ser caracterizada como "uma perspectiva de baixo para cima", na qual o foco foi mais popular e enfatizou as atividades sociais, políticas e econômicas de indivíduos e coletividades das camadas baixas ou médias e daquele "povo sem voz".

No caso dos impérios de reinos ou estados europeus, raramente houve nesta historiografia uma dimensão comparativa entre impérios, e mesmo nos exemplos dos impérios como o britânico, o holandês, o português ou o francês, que estiveram em dois hemisférios, em vez de se aproveitar de seu potencial para estudá-los globalmente, eles têm sido divididos entre Oriente e Ocidente1. Grande parte da historiografia tem sucumbido à fragmentação disciplinar em sub-campos da história: história institucional; história das burocracias; estudos prosopográficos dos burocratas dos impérios. No caso do império português, há até mesmo uma grande ausência do gênero de história que é mais popular com o público: a saber, biografias.

Já no início da década de 1970 houve uma iniciativa da parte de um grupo de historiadores da Universidade Johns Hopkins, liderados por Jack P. Greene, que lançaram uma iniciativa com antropólogos e adotaram o Atlântico como campo de pesquisa caracterizada por metodologias interdisciplinárias e uma perspectiva comparativa. Procuraram fugir do molde imperial ou nacionalista para atravessar divisas e fronteiras, para estudar os movimentos das pessoas, de animais, de plantas e mercadorias numa escala não apenas Atlântica mas global, para reconstituir o ir e vir de idéias, estilos, modas e artes. A intenção foi reunir estudiosos de várias disciplinas que contribuíram para a criação de uma nova perspectiva e uma aproximação original à riqueza de facetas do Atlântico e da interconectividade dos povos nos continentes banhados pelas suas ondas2. Inicialmente, a nossa intenção foi apenas oferecer uma nova perspectiva sobre os países, continentes, povos, culturas, e instituições ao redor do oceano. Esta iniciativa despertou a atenção de outros acadêmicos: economistas, geógrafos, psicólogos sociais e sociólogos. A imprensa universitária lançou monografias por historiadores e antropólogos que faziam parte de uma série chamada "Atlantic History and Culture". O conceito de "Atlantic History" ia sendo aceito pelos estudiosos de múltiplas disciplinas como valioso campo de pesquisa e contexto para organizar informações. Compartilharam da perspectiva original e foram amplificando-a e reformulando-a. Passaram duas décadas. Começou a institucionalização: criação de programas de Estudos Atlânticos, sobretudo nos Estados Unidos, mas também na Europa e mesmo na Austrália; inauguração de cursos a todos os níveis, inclusive de pós-graduação e doutoramento; e cátedras dedicadas à História do Atlântico. Muitos estudiosos foram incentivados a considerar novos campos de pesquisa, a revisitar campos já trabalhados, e a reconhecer novos horizontes. Para outros, a "Atlantic History" ia sendo consagrada como um discreto ramo de estudos, debaixo da panóplia ampla da disciplina de história. Nestes últimos dez anos, houve uma verdadeira onda de monografias cujos títulos incluem a palavra "Atlântico", a maior parte da autoria de historiadores.

Este novo ramo de história deve a sua popularidade (alguns dizem "modista") e a rapidez de aceitação de um número crescente de aderentes em parte ao fato de ser concebido e promovido por historiadores dos mais eminentes na constelação acadêmica. Assim, o meu ponto de partida será a consideração das suas definições. Bernard Bailyn, professor da universidade de Harvard, ofereceu a seguinte: "durante o período moderno (ca. 1500-1800), a Europa ocidental, a África ocidental, e as Américas foram bastante integradas em vários aspectos para merecerem ser considerados como uma única entidade"3. Por sua parte, recentemente Jack P. Greene definiu este novo ramo da História assim:

A Atlantic History é um constructo analítico e uma categoria explícita de análise histórica que os historiadores têm delineado para ajudá-los na organização dos estudos de algumas das marchas dos acontecimentos da época moderna: o surgimento no século quatorze, e desenvolvimento subsequente da bácia Atlântica como um sítio onde deviam ser localizados várias formas de intercâmbio: demográfico, econômico, social, e cultural inter alia, entre e dentro dos quatro continentes ao redor do Oceano Atlântico -Europa, África, América do Sul, e a América do Norte - e todas as ilhas contíguas a estes continentes e naquele oceano.4

O ilustre historiador britânico Sir John Elliott observou que se trata do estudo "da criação, da destrução, e da criação de novo de comunidades como resultado do movimento através e ao redor da bacia do Atlântico, de indivíduos, de mercadorias, de práticas culturais e de valores"5.

Como neófito neste novo ramo da história, o meu propósito aqui consiste em submeter um período na história do Atlântico de fala portuguesa a uma análise que reflete os que parecem ser os critérios e características desta "nova" história: um exercício na integração das múltiplas dimensões do mundo Atlântico, uma ênfase sobre aqueles aspectos que ultrapassam/transcendem as fronteiras políticas ou nacionais; as conexões, interconectividade, redes e diásporas que ligam a Europa, as Américas e a África; intercâmbio, seja de indivíduos, de flora e fauna, de mercadorias e produtos, seja de línguas, de culturas, de manifestações de fé, e de costumes e práticas tradicionais; um Atlântico caracterizado pelo movimento, pelo vaivém, e transições, e a vários ritmos de aceleração; e um mundo onde instituições, mesmo reinos, se formam, reformulam-se de um modo distinto, fragmentam-se, apenas para reaparecerem com uma nova configuração. Um conceito inerente a esta história é que nenhuma parte possa existir em isolamento. Um evento - epidemia, seca, guerra, fome - em uma parte tem repercussões e ressoa em outras partes. Esta história é quintessencialmente humana - um exame da condição humana, como os indivíduos lutam e vencem, como enfrentam os obstáculos e como aguentam pobreza, fome, opressão, e doença - sem levar em consideração as distinções de pigmentação, de crenças religiosas, de etnicidade, do gênero, e de status social ou econômico. Revela o que os povos à orla do Atlântico têm em comum e onde existem divergências.



O Atlântico luso-afro-brasileiro

A minha abordagem não será diretamente institucional ou política. Muito do que eu vou descrever ocorreu sem a intervenção direita ou a iniciativa da Coroa portuguesa. A estrutura e o contexto não serão nem imperiais nem institucionais. Na minha narrativa, a burocracia do Império ocupará um segundo plano ou estará ausente. Várias considerações me levaram a escolher o período que vai desde ca 1660 até ca 1760. Foi um século bastante constante geograficamente, depois dos predatórios holandeses e ocupações em Angola, São Tomé e Príncipe e no Brasil, sendo a única perda irremediável aquela da feitoria e Fortaleza de São Jorge da Mina pelos Holandeses em 1637 e subsequentes conquistas de Samá (1640) e Axém (1642), terminando assim uma presença portuguesa na costa do golfo da Guiné. O Atlântico voltou a merecer a atenção da coroa portuguesa, depois de um período na primeira metade do século XVI de obsessão com o Oriente, incentivada pela redução do império português oriental a Goa, Damão, Diu, Bassein, Macao, parte de Timor e algumas fortalezas. Demográficamemte, o centro de gravidade populacional de portugueses ficou nas ilhas do Atlântico e nas colônias portuguesas ao redor do oceano. Este século (ca 1660-ca 1760) testemunhou avanços em movimentos migratórios, de colonização, de urbanização, de atividades comerciais, de agricultura, e de economias de maior diversidade. A primeira metade do século dezoito marcou a idade do ouro e de diamantes no Brasil com repercussões não apenas para as outras colônias mas também para a situação doméstica em Portugal, para as relações entre a metrôpole e o ultramar, e também para as relações entre Portugal e países europeus, sobretudo a Inglaterra e o Vaticano. As resoluções diplomáticas e alianças com Holanda, França e Inglaterra, o fim de hostilidades com a Espanha e a independência de Portugal em 1668 não garantiram a autonomia portuguesa perante pressões econômicas e comerciais da parte da Inglaterra e de outros países europeus que ameaçaram as atividades comerciais portuguesas no Atlântico. A história portuguesa no Atlântico exige ser considerada dentro do contexto internacional, de interações com nações e estados europeus e não europeus, pelo fato de que este Mundo Português no Atlântico sempre foi irrevogavelmente vinculado às regiões e aos mares e oceanos para além do Cabo de Boa Esperança e para além do Estreito de Magalhães6.

A esfera de influência portuguesa no Atlântico nesse período se extendia do Sul do Marrocos até Benguela na África, e do Rio Amazonas até o Rio da Prata na América do Sul. As possessões portuguesas tinham os extremos de geodiversidade e de biodiversidade: características físicas, de clima, de atividades sísmicas, de solos e de vegetações. Cada região era sui generis. Na pior das hipóteses, isso levava a um isolamento comercial e demográfico; na melhor, a cultivos e exportações complementares, à integração em redes comerciais e migratórias maiores e a intercâmbios de pessoas e culturas. A característica dominante era o oceano. O Atlântico desempenhou o papel de estabelecer os ritmos do império, influenciava a governança, as comunicações, o comércio, a migração, os intercâmbios culturais, os movimentos de flora e fauna e até mesmo como os indivíduos se autoidentificavam. Rotas conectavam todos os pontos no Atlântico português e facilitavam o intercâmbio entre a África e a América portuguesas. Os arquipélagos portugueses eram pontos de articulação entre o norte e o sul e entre o leste e o oeste7.

O Atlântico sempre foi central para a história de Portugal. A partir do final do século XVII houve intensa atividade de construção de navios em estaleiros particulares no Brasil. Isso se acelerou no século XVIII, com as embarcações para as rotas africanas e européias. Lá pelo final do século, provavelmente, eram construídas mais embarcações em estaleiros brasileiros do que em Portugal. Embarcações para a carreira da Índia também eram construídas em estaleiros reais no Brasil. Em geral, as embarcações para o comércio Atlântico eram agora mais bem construídas, maiores, com mais capacidade, e incorporavam mudanças na enxárxia, nos equipamentos e nas velas8. O preço para entrar e fazer parte do comércio Atlântico era muito menor do que para a rota do Cabo. Nenhuma rota no Atlântico excedia três meses de um porto a outro. Isso era um incentivo para indivíduos, consórcios de comerciantes e homens de negócio se encarregarem de construir embarcações relativamente baratas e rápidas. Uma combinação de condições de mercado, oferta e procura, carregamentos mais volumosos, mais transbordos, e uma infraestrutura mais sofisticada - instalações portuárias, modos mais sofisticados e pessoal mais habilitado em estivar, agentes bancários, e seguradoras - contribuíram para o uso ainda mais intenso do Atlântico por Portugal e suas colônias9. O tempo e a distância exigiam um custo para os marinheiros e suas famílias. As condições a bordo eram parcas e as rações eram pouco adequadas. Os sistemas de vento que variavam sazonalmente e as partidas fora da época expunham as tripulações a ficarem parados nas calmarias saindo de Portugal ou sofrendo severas condições climáticas a caminho de regresso. Os marinheiros estavam frequentemente em más condições quando embarcavam, suscetíveis a doenças, e eram hospitalizados nos portos brasileiros ou em Luanda. Marinheiros deixando o navio no Brasil e a mortalidade a bordo levavam a constantes alterações e a tripulações incompletas. As tripulações incluíam africanos, afro-brasileiros, europeus não-portugueses e, às vezes, orientais.

O meu ponto de partida será os indivíduos que contribuíram para as formulações e reformulações do mundo Atlântico Português e que fizeram com que ele funcionasse. Portugueses emigraram para todo o Atlântico. O período entre 1660 e 1760 viu uma mudança de perfil dos emigrantes cujas ocupações eram em grande parte ligadas à agricultura ou ao artesanato, para emigrantes caracterizados pela diversidade ocupacional, com habilidades de níveis mais altos, tais como mestres em seus ofícios, boticários, advogados e médicos. Homens de negócios experimentados tornaram-se comuns. Famílias metropolitanas enviavam parentes para portos no Atlântico norte e sul para adquirir experiência e construir redes de clientes. A emigração ainda era predominantemente de homens solteiros, mas (dependendo da origem, do destino, e da época) havia mais unidades familiares. Os principais fatores para a emigração variavam. Fatores que empurravam indivíduos incluíam epidemias, fome, guerra, indisponibilidade de terras adequadas para ganhar a vida, e leis de primogenitura. Fatores que atraíam abrangiam espírito de aventura, expectativas pouco realistas e a ignorância. Para alguns, ficar significava uma sentença de prisão, perseguição religiosa ou as galeras. Para outros com bens, uma profissão, habilidades ou talentos, as colônias representavam a oportunidade para uma posição financeira mais segura e status social. Somente o ato de atravessar o Atlântico já provocava um autoenobrecimento. Viver no exterior sendo um português de nascimento poderia carregar uma marca inacessível para os pares em Portugal. A circunstância do nascimento melhorava a capacidade de um homem migrante de encontrar uma parceira no casamento ou o tornava elegível para um cargo público numa colônia, o que era negado aos nascidos no local. O lugar de nascimento, a ortodoxia religiosa e a "pureza de sangue" racial poderiam ser mais importantes no exterior do que em Portugal. No Brasil e na África portuguesa, uma hierarquia social era baseada numa complexa mistura de fatores, incluindo cor, percepções, e "qualidades" pessoais. A aquisição de prestígio e o reforço do status social eram incentivos poderosos para a migração.

As colônias Atlânticas variavam entre aquelas completamente indesejáveis até as altamente desejáveis. As Áfricas Central e Ocidental estavam na primeira categoria. A deportação para Angola podia ser equivalente a uma sentença de morte. Madeira e os Açores eram muito bem consideradas mas, pelos meados do século XVII, estavam superlotadas, e os primeiros migrantes estavam se mudando para o Brasil. O século XVIII viu o Brasil emergir na imaginação popular e na reputação geral como uma terra de oportunidades. Entre as décadas de 1690 e 1750, uma série de descobertas de ouro no Brasil estimulou ondas de emigrantes de Portugal e das ilhas Atlânticas. Junto com as enormes migrações internas, essas descobertas transformaram os padrões de assentamento no Brasil. Alguns migrantes gozaram de grande sucesso, alguns conseguiram somente o suficiente para viver, outros morreram na pobreza e ainda outros foram parte de uma migração reversa. Muitos emigraram esperando ficar no máximo alguns anos no exterior e depois retornar para Portugal para impressionar antigos vizinhos com suas riquezas. Alguns retornaram para Portugal, mas a maioria morreu longe da sua terra natal. Apatia, investimento emocional na família ou financeiro em terras ou no comércio, uma subsistência garantida, uma sensação de conquista, ou a recusa de admitir erros, levavam muitos a permanecer no exterior. Lá pelo final do século XVII e no século XVIII, as cidades e vilas no Brasil tinham planos e planejamento urbano reminiscentes daquelas de Portugal, com instituições religiosas e civis, e sistemas de governo que faziam com que os novatos se sentissem confortáveis. As vilas em Madeira e nos Açores tinham muita coisa em comum com as de Portugal. Luanda, no final do século XVIII, era uma cidade de estilo considerável. Pertencer a uma associação de artesãos, a uma Ordem Terceira ou irmandade em Portugal, também garantia privilégios e o direito de tornar-se membro ou facilitar o ingresso em instituições similares no ultramar.

Portugal não poderia ter criado esse mundo Atlântico sem a ajuda, forçada e voluntária, de não-europeus. Este foi menos o caso em Madeira e nos Açores, onde os nascidos na Europa ou descendentes de europeus eram a maioria, e onde solo, chuvas e topografia favoreciam a agricultura e a pecuária. Em Cabo Verde, Alta e Baixa Guiné, África Central e muitas regiões do Brasil, os nascidos em Portugal e brancos eram uma minoria absoluta. Para construir fortalezas, criar espaços comerciais ou assentamentos no continente africano, onde já havia Estados estabelecidos e sistemas comerciais, era melhor trabalhar através da diplomacia e com a cooperação e a indulgência de governantes locais. Aquelas invasões que os portugueses faziam em Angola eram invariavelmente atribuíveis a soldados nativos ou a intermediários. O clima e as doenças eram hostis aos europeus. Africanos forneciam mão-de-obra e habilidades em plantio, cultivo, colheita, corte de madeira, construção, transporte, satisfação sexual e auxílio militar. Os dois últimos estavam ligados na opinião real, já que era esperado que os filhos (em geral ilegítimos) se tornassem soldados e colonos. Na África, economias locais estavam em mãos africanas, como também estava a aquisição de mercadorias e o seu transporte para os portos, para exportar.

A situação no Brasil era muito diferente. Portugueses ignoraram a soberania dos ameríndios e se apropriaram das terras em nome do rei. Eles não conseguiam identificar facilmente os líderes indígenas ou reconhecer evidências de organização, religião ou hierarquia social nos autóctones. Os homens ameríndios eram coagidos ao trabalho forçado, apesar das inconsistentes leis proibindo essa prática e as mulheres ameríndias eram tomadas como concubinas. Como um resultado da necessidade portuguesa de ajuda militar ameríndia contra os Holandeses e com os assentamentos no Amazonas, no Sudeste e no Oeste, os portugueses deixaram de descrever ameríndios em termos genéricos no século XVII e passaram a reconhecer a individualidade e a distinção dos povos indígenas. No século XVIII, governadores de Minas Gerais e Mato Grosso faziam propostas para os mais velhos e tentavam cooptá-los ou praticavam a política de dividir para dominar10. No Brasil, africanos e afro-brasileiros forneciam a principal fonte de trabalho físico ou coexistiam com trabalhadores ameríndios em algumas regiões, enquanto a mão-de-obra ameríndia era mais comum nas, sempre moventes, fronteiras. Mulheres africanas e de ascendência africana no Brasil tornavam-se amantes e concubinas de portugueses e luso-brasileiros, mas havia uma maior incidência de relações inter-raciais duradouras e até mesmo de casamentos "nas portas da igreja" do que na África. Uma população mulata tinha um papel proeminente no Brasil, como milicianos, soldados, comerciantes, fazendeiros, colonos e mineradores. Alguns deram grandes contribuições para a música e as artes barrocas11.

África e Brasil apresentavam desafios para os quais os portugueses careciam de vontade, conhecimento ou habilidades para confrontar. Africanos e ameríndios eram essenciais como batedores, guias em trilhas e rios, e para o conhecimento da flora e da fauna nativas. Portugueses dependiam dos ameríndios para compartilhar de seu conhecimento de como colher e usar plantas nativas como comida ou para seu potencial comercial. Alguns africanos e africanas tinham conhecimento de mineração e metalurgia indispensáveis para os mineradores portugueses no Brasil. A economia local e os mercados na África eram as áreas das mulheres, assim como no Brasil, onde o mercado local era dominado por escravas e libertas africanas e afro-brasileiras. Na África e no Brasil os não-europeus não eram somente visíveis nas economias locais, mas contribuíam para a economia do Atlântico. Os poucos comerciantes portugueses e luso-brasileiros em Luanda ou Benguela, no século XVIII, terceirizavam para africanos e luso-africanos a tarefa de viajar para o interior para reunir indivíduos, por troca ou coerção, e levá-los para os portos para o embarque nos navios em direção ao Brasil. Isso empoderava mestiços e intermediários africanos (pombeiros), que também tiravam sua parte nas transações. Isso levava a maiores custos para os agentes ou comerciantes em Benguela ou Luanda e para os intermediários no Brasil, que os repassavam aos compradores em forma de aumento12.

O Atlântico português incluía indivíduos e grupos que tiveram negada a participação completa na empresa colonial. Alguns eram vistos como indesejáveis e, dessa forma, descartáveis13. Ciganos foram perseguidos e ameaçados a cada oportunidade, mas formaram comunidades em Angola e no Brasil. Cristãos-novos se estabeleceram como homens de negócio, comerciantes, plantadores de cana-de-açúcar e mineradores14. Com frequência eles ou seus descendentes se casavam juntando-se a famílias de cristãos-velhos. Alguns tornaram-se padres católicos; consta que outros detinham cargos locais e na coroa, em Angola e, possivelmente no Brasil. Escravos africanos e seus filhos nascidos no Brasil tinham seus movimentos e atividades circunscritos, mas alforriados possuiam roças ou maiores porções de terra, tabernas e lojas, e podem ter ocupado cargos públicos. Indígenas nunca eram totalmente livres de maus-tratos ou assédio, mas muitos fizeram a vida como artesãos nos arredores de vilas ou vendendo sua produção, e indiretamente contribuíram para o comércio Atlântico.

Esses indivíduos formavam comunidades. Os ciganos, isolados pela língua, cultura, ocupação e pelo casamento, viviam em comunidades móveis e fixas em áreas costeiras e no sertão do Brasil e em Angola. Cristãos-novos, envolvidos principalmente no comércio e conhecidos como "A Nação Portuguesa", construíram pontes entre os Atlânticos português e espanhol, eram parte de diásporas alcançando a costa do Pacífico, e na América e na Ásia, e permaneceram ativos por todo o final do século XVII. Africanos, luso-africanos e afro-brasileiros - não obstante os constrangimentos da escravidão - compartilhavam heranças étnicas e culturais que sobreviveram à distribuição regional e, no Brasil, eram alimentados pelo influxo regular de novos escravos. Autoridades em Angola arbitrariamente exilavam reis "difíceis" e outros para colônias no Atlântico português e além. Eles eram apenas parte da diáspora africana, por todo o Atlântico caracterizada tanto individualmente quanto coletivamente como sendo transoceânica, transnacional (no sentido Europeu) e transcultural (no sentido Africano), e se envolveram em trocas recíprocas entre o Novo e o Velho Mundos. Alguns formaram assentamentos, dos quais Palmares no Nordeste do Brasil somente foi erradicado na década de 1690, depois de existir por quase um século. Indígenas formaram seus próprios enclaves, assim como os escravos muçulmanos em Salvador15.

Esses grupos compartilhavam pontos em comum: fluência em outras línguas além do português; interação com os portugueses, mas tendo comunidades separadas; fortes tradições culturais e identidades étnicas não-européias; sistemas religiosos existindo independentemente, em paralelo, ou sincreticamente, com o catolicismo. Todos reconheciam que, nas colônias portuguesas, o português era a língua "oficial", os modos de comportamento portugueses eram a norma e o catolicismo era a única religião aceitável. Falar em outras línguas que não o português, deixar de cumprir o critério português do que constituíam condutas e comportamentos aceitáveis, e expressões públicas de fé que não o catolicismo, poderiam resultar em sanções, prisão ou castigos físicos. O fato de tais comunidades terem sobrevivido testifica sua força. Elas resumiam multiculturalismo, intercâmbio, interação e a anômala situação de estar dentro e fora do mundo português. Senegâmbia, na verdade toda a costa da Alta Guiné, fornece exemplos da complexidade e variedade dos componentes que constituíam identidades no Atlântico. Homens portugueses (fugitivos da lei, de perseguição religiosa, ou de credores, aventureiros e lançados ou tangomãos), voluntariamente ou coagidos, desembarcaram na costa da Alta Guiné. Entre esses havia judeus e "Cristãos-Novos". Os últimos com frequência voltavam ao judaísmo. Eles se estabeleceram, casaram com mulheres africanas e tiveram crianças que se misturaram com os povos locais. As crianças mestiças chamavam a si próprias de "portuguesas". Diversas características contribuíam para essa auto-identificação: o comércio como sua principal ocupação; a língua portuguesa que falavam, embora mais tarde se transformasse num crioulo; a adesão ao catolicismo, mas misturado com crenças e práticas islâmicas, cristãs e africanas tradicionais; e culturas materiais, das quais as mais importantes eram as moradias num estilo arquitetônico característico. Marcadores identitários não eram fixos; estavam sempre mudando ou se reconfigurando em novas combinações. Inicialmente, tais colonos e seus descendentes estavam efetivamente além dos limites da influência portuguesa. Dependendo da localização, eles optavam por se colocarem sob a jurisdição portuguesa ao invés de estarem à mercê dos reis locais16. Colonos de Cabo Verde também eram mestiços e, por definição, parte do império português, embora falassem crioulo. Franceses e ingleses se estabeleceram mais tarde na Senegâmbia, trazendo ainda mais interacção social e cultural enquanto preservavam o movimento, a mudança e a fluidez que caracterizavam o início do Moderno Atlântico17.
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Revista História - UNESP