Mostrando postagens com marcador Código Da Vinci. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Código Da Vinci. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Leonardo da Vinci - O homem de todos os códigos


Leonardo da Vinci - O homem de todos os códigos
Cinco séculos depois de sua morte, Da Vinci continuasendo um mistério. Afinal, o que há em sua vida e em sua obra que justifique as polêmicas em que vivem metendo seu nome?
por Celso Miranda e Cíntia Cristina Da Silva
Talvez nenhuma pessoa jamais tenha representado tão bem um período da história quanto Leonardo da Vinci. Chamado de “o homem da Renascença” (época caracterizada pela valorização do homem e da natureza), ele, ao longo de seus 67 anos de vida, envolveu-se até o pescoço nos experimentos científicos e artísticos que marcaram o fim da Idade Média na Europa. Da Vinci foi brilhante em praticamente todas as atividades em que se meteu: foi pintor, engenheiro, inventor, músico (compunha e tocava lira), arquiteto, escultor, astrônomo e escritor. E fez tudo isso de uma forma inovadora, revolucionária – genial mesmo.

Por isso, e por outro tanto de coisas que você vai ler nesta matéria, sempre foi motivo de polêmica. Durante sua vida, em suas centenas de biografias, e mesmo hoje, quase 500 anos depois de sua morte, o que se escreve sobre ele ainda faz aumentar a aura de mistério que cerca sua vida e sua obra. “Já foi dito que ele é o verdadeiro autor do Sudário de Milão, que se auto-retratou na Mona Lisa, que era maníaco-depressivo e que praticava experiências de alquimia”, diz a americana Sarah B. Benson, do departamento de Arte da Universidade de Princeton, em Nova York. Daí a dizer que ele foi líder de uma sociedade secreta e que escondeu em suas obras mensagens cifradas que provam que Jesus escapou da crucificação e fugiu com Maria Madalena para a França, tido filhos e vivido felizes para sempre, como afirma o escritor inglês Dan Brown no livro O Código Da Vinci – que agora virou filme –, vai uma grande diferença. Mas, afinal, o que há na vida e na obra de Da Vinci que levanta tanta polêmica? O que se sabe realmente sobre ele? Por que tanta gente acredita que ele foi um misterioso guardião de segredos indecifráveis?

Filho ilegítimo de Caterina, uma camponesa de 16 anos, e de Ser Piero di Antonio, um tabelião 30 anos mais velho, Leonardo nasceu no dia 15 de abril de 1452, num povoado perto de Vinci, a cerca de 50 quilômetros de Florença, na Itália. Na época, a Itália nem era um país, mas um amontoado de cidades-reinos, como Milão, Verona, Nápoles, Gênova, Veneza, além da própria Florença, que rivalizavam entre si e se organizavam em volta do poder religioso e político de Roma e do papa.

A instabilidade política da região não afetou, no entanto, a infância do pequeno Leo, que cresceu sob os cuidados do pai e da madastra, que lhe proporcionaram educação básica: aprendeu a ler, escrever e amarrar os sapatos. E, tirando o talento precoce para as artes, nada em sua juventude fazia prever destino tão especial. Foi na adolescência (conceito, aliás, que ainda não existia, ou seja, não havia um período de transição entre a infância e a condição de adulto – as crianças eram consideradas pequenos adultos, apenas ainda muito fracos ou muito estúpidos para assumir as funções de um adulto) que o gênio de Leonardo começou a surgir. Segundo seu primeiro biógrafo, o italiano Giorgio Vasari, que escreveu Vite dei Più Eccellenti Architetti, Pinttori et Escultori Italiani (“Vida dos melhores arquitetos, pintores e escultores italianos”, inédito em português) apenas 30 anos após a morte de Da Vinci, consta que ele aprendeu sozinho latim, matemática, anatomia humana e física. Passava horas tentando melhorar um desenho. Quando morava com o pai, em Vinci, Leonardo foi encarregado de ilustrar o escudo de um fazendeiro local. Escolheu fazer uma coisa inspirada na mitológica Medusa, aquela que tinha cobras no lugar dos cabelos. Para realizar o trabalho da maneira mais realista, reuniu serpentes, lagartos e outros pequenos animais para servirem como modelo. Um dia seu pai entrou no ateliê e encontrou o filho trabalhando em meio a animais em decomposição. Estava tão absorto que nem sentia o mau cheiro dos bichos mortos. Teve 17 meios-irmãos: 12 por parte de pai e cinco por parte de mãe.

Quando tinha lá seus 20 anos, foi aceito como aprendiz no ateliê do artista Andrea Verrochio, em Florença. Lá conseguiu seus primeiros trabalhos e, com o tempo, obteve notoriedade – de bom pintor e de nunca entregar suas obras no prazo. Ficaram famosas suas pinturas inacabadas. Algumas chegaram aos nossos dias, como o retrato de São Jerônimo, em exposição no Museu do Vaticano. Trabalhou para a Igreja, fez amigos entre os poderosos e conseguiu alguma fortuna. Foi patrocinado por Lorenzo de Médici, o todo-poderoso de Florença, e em 1502 acabou nomeado arquiteto e engenheiro geral para as regiões de Marche e Romagna por César Bórgia, o capitão-geral do exército (e filho) do papa Alexandre VI. Outro fã de suas obras foi Ludovico Sforza, duque de Milão.

Leonardo nunca se casou e na juventude, em 1476, chegou a ser réu no processo de sodomia de Jacopo Saltarelli, um colega aprendiz como ele, mas a acusação foi arquivada. Viajou pela Europa e cultivou inimigos tão poderosos e brilhantes como ele. Michelângelo, um de seus maiores rivais, costumava se referir a Leonardo como “aquele tocador de lira de Milão”. Emigrou para a França, onde foi amigo do rei. Dos reis, na verdade. Tornou-se o preferido da corte de Luís XII e, mais tarde, amigo pessoal e confidente de seu sucessor, Francisco I. Dele ganhou uma casinha (o castelo de Cloux), onde viveu seus últimos dias. Morreu em 1519, dizem, dormindo. Segundo seu desejo, seu caixão foi acompanhado por 60 mendigos. Leonardo deixou um legado enorme entre quadros, desenhos e manuscritos. Apenas pouco mais de 20 de suas pinturas sobrevivem até hoje, entre elas algumas das mais famosas pinturas de todos os tempos, como a Mona Lisa e A Última Ceia. Fora os protótipos de invenções que só seriam concretizadas séculos depois, como o pára-quedas, o escafandro e o tanque de guerra.

Lado oculto

Legal, deixa ver se até agora eu entendi: o cara era um gênio. Foi um baita artista e se tornou símbolo de um tempo de incríveis mudanças na Europa e no mundo. Da Vinci viveu na mesma época que Cristóvão Colombo, Maquiavel, Michelângelo, Martinho Lutero e Nostradamus. Imagine: enquanto ele pintava Mona Lisa, Pedro Álvares Cabral navegava pelo Atlântico em direção ao Brasil. Mas até agora eu não sei por que a vida dele ou suas telas deram margem a teorias conspiratórias. Então talvez tenha chegado a hora de perguntar: Leonardo era tão diferente e misterioso assim? Sua obra ou sua vida permitiram que tantos anos depois tanta coisa fosse inventada sobre ele?

A resposta é sim. Da Vinci dava sopa para o azar. E, apesar de ele ser, de certa forma, típico de seu tempo, tinha lá suas manias. Primeiro, criou sua própria linguagem em código. Quando não escrevia ao contrário, da direita para a esquerda – fazendo que sua caligrafia só fosse compreendida quando vista no espelho –, usava um tipo de taquigrafia estranhíssima, na qual usava parte de palavras ou símbolos e não letras para exprimir idéias. Se isso não é dar mole para os conspiradores de plantão, então diga lá: o que é?

”Seus interesses ultrapassavam o campo artístico”, afirma Christopher Witcombe, professor do departamento de História da Arte da Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos. Ele especulou pela anatomia, biologia, física e engenharia. Leonardo amava sua arte e acreditava que “o amor a qualquer coisa é produto do conhecimento, sendo o amor mais ardente quanto mais seguro é o conhecimento”, conforme escreveu. Era um profundo estudioso das técnicas que, segundo sua visão, seriam complementares à sua arte. Ele dissecou corpos humanos e de animais para compreender a posição de ossos e como funcionavam músculos e tecidos. Desenvolveu e utilizou lentes para projetar imagens e melhor reproduzir seus modelos, desenvolvendo técnicas aplicáveis às suas obras, como os planos de perspectiva, ponto de fuga etc. Estudou a química das substâncias para desenvolver suas próprias tintas, especulou sobre a matemática e a filosofia. Da Vinci foi um cientista-artista tão fascinado pelos mistérios do Universo e pelos enigmas do corpo humano quanto pelas possibilidades de aplicar esses conhecimentos em suas obras.

Mas, tirando a letra invertida, o resto não era coisa assim tão rara na Europa do fim do século 15, época em que as fronteiras entre ciência, misticismo, e arte não eram tão definidas. Leonardo cruzou esses limites mais vezes e com muito mais facilidade que os sacoleiros de Ciudad del Este. “As linhas mestras do pensamento renascentista, das quais Leonardo era não só um seguidor, mas um entusiasta, misturavam o humanismo grego a experiências alquimistas e conhecimentos herméticos. E isso aliado a experimentações protocientíficas, como dissecação de cadáveres e observação de astros, que estão na raiz do nascimento das modernas medicina e astrofísica”, diz Witcombe. Ciência e misticismo andavam de mãos dadas no fim do século 15, começo do 16. E ambas eram muito mal vistas pela Igreja.

A única fronteira que não se devia atravessar naquela época era a religiosa. Com o sagrado era difícil brincar, ainda mais no caso de um artista, numa época em que a Igreja (assim mesmo, com letra maiúscula, para indicar a instituição com sede em Roma e representada em toda a Europa por bispos e padres católicos) era a principal cliente de pinturas e esculturas. Segundo a professora Sarah B. Benson, os artistas renascentistas escondiam suas crenças e convicções pessoais em pinturas encomendadas pela igreja. Além disso, Da Vinci de fato recheava suas pinturas de símbolos e mensagens cifradas. “Ele realmente espalhou uma série de símbolos não-cristãos em seus quadros – que vão dos que aparecem agora no cinema e foram citados por Dan Brown (leia quadros a partir da pág. 28) – até pintar a si mesmo como João Batista e o anjo Gabriel em algumas obras”, afirma Sarah. Em A Virgem das Rochas, ele introduziu plantas utilizadas em rituais mágicos.

Virou mito

Tá, ok: o cara era o típico renascentista. Um gênio, metido com alquimia e medicina primitiva. Entendi. Era um tremendo pintor também, que desenvolveu técnicas revolucionárias. Mas esse não é o assunto desta matéria. Nosso desafio é explicar por que essa obra genial se presta até hoje a interpretações pouco convencionais, com claras tendências fantasiosas. Para o historiador norte-americano George Gorse, da Universidade de Pomona, nos Estados Unidos, a resposta pode estar na própria arte e no talento de Da Vinci. “Sua obra é universal, pois fala com cada pessoa de maneira particular. E é isso que o torna mais interessante e faz com que, após tantos anos, ele continue sendo uma figura indecifrável, tão sedutora quanto a imensidão e a beleza de sua obra. Sempre haverá o que ser descoberto sobre um artista tão genial”, diz George.

Isso equivaleria a dizer, com um pouco menos de frufru, que a universalidade da obra de Leonardo (isso que faz cada pessoa ver um – ou algum – sentido nas pinturas dele) fez com que ela atravessasse o tempo, tornando-se algo cujo significado fosse adaptado aos diferentes períodos da história e continuasse fascinando a imaginação de tanta gente. Menos frufru ainda? Então lá vai: a obra de Leonardo atravessou os séculos, adaptando-se aos gostos e linguagens de cada época. Como ícones de um passado comum, suas obras foram assumindo um caráter que tem muito mais a ver com o espírito do tempo presente do que com o tempo ou a realidade que o autor procurou exprimir. Ou seja, fala muito mais sobre o tempo de quem a vê (seja hoje, seja no século 19) do que sobre o tempo de quem a pintou ou de quem está retratado nela.

Por exemplo, na década de 1960, sua obra mais famosa, a Mona Lisa, se tornou símbolo da cultura pop. Quando resolveu promover o Dadaísmo, movimento artístico que pregava o absurdo e o desprezo pela arte tradicional, Marcel Duchamp (1889-1968) pintou bigodes na Mona Lisa. Ele não poderia ter escolhido obra mais representativa para mandar seu recado. Tornou-se símbolo de uma arte descartável, presa em molduras de madeira, vazia de significado. Um rosto de mulher, como uma foto de Marilyn Monroe, que pode ser copiada, e copiada, e copiada.

Hoje, o que nos leva de volta à obra de Da Vinci é outra coisa. Procuramos no passado respostas para os anseios que a sociedade moderna tem. Na era da superciência, os homens tendem a procurar respostas mais simples. Afinal, deve existir alguma resposta lógica para tudo, não é? Deve haver algo que nos conecte a todos. Uma rede que faça sentido, uma “matrix”, um código que explique quem somos e por que estamos aqui. Vivemos numa época propícia para teorias que desconstroem a realidade como a conhecemos, oferecendo uma versão convincente – e mais fascinante – da vida, da nossa história, do nosso passado.

Por fim, há um fator que faz de Da Vinci um forte candidato às conspirações. Ele é famoso. E esse fato se virou contra Leonardo. “Parte do mistério que se imputa à obra, à vida e a tudo que se relacione com Da Vinci é motivado pelo simples fato de ele ser famoso”, diz George. Ou seja, ele é famoso porque se fala dele. E fala-se dele porque ele é famoso. O que adiantaria se Travis Di Montemore tivesse escondido segredos em suas obras? (Travis quem? Pois é.)

“Da Vinci entrou para a história como um dos homens mais brilhantes que pisaram esta Terra e também como um dos mais misteriosos”, diz o historiador inglês Kenneth Clark, professor de História da Arte em Oxford e ex-curador do Museu Britânico. “E, por mais que se escreva sobre ele, apesar das muitas interpretações a que sua vida e obra dêem margem, ainda haverá espaço e material suficientes para se formularem muitas outras teorias sobre ele.”

Em tempo, Travis Di Montemore foi um pintor italiano – de pais franceses – que obteve sucesso e fama no século 16. Seus dotes artísticos eram disputados por reis, sua atenção pelas rainhas. Caiu no esquecimento no século 18 e nunca, nunca mais alguém ouviu falar dele. Nem Dan Brown.



Da Vinci x Dan Brown
Leonardo esconde símbolosem suas obras ou o mistérioestá nos olhos de quem vê?
O segredo de Mona Lisa

Hoje protegido por um vidro à prova de balas no Museu do Louvre, em Paris, o sorriso mais famoso do mundo é também o mais polêmico. Dan Brown, em O Código Da Vinci , sugere que ele esconde um segredo: o nome “Mona Lisa” seria um anagrama feito com o nome das divindades egípcias Amon (masculino) e Ísis (feminino). A tela seria, então, a forma que Da Vinci encontrou de elevar o caráter sagrado das mulheres (e de Maria Madalena), igualando-as ao elemento masculino. No entanto, é pouco provável que essa fosse a intenção de Leonardo. Ele não conhecia a mitologia do antigo Egito, que só entraria em evidência no Ocidente no século 19. A tese de Brown também levantaria dúvidas sobre a identidade da modelo retratada (já se disse que ela seria o próprio Da Vinci). Mas o mais provável é que Lisa Gherardini, mulher de Francesco del Giocondo (daí o outro nome pelo qual a tela é conhecida, La Gioconda), seja a dona do sorriso.


Duas versões e um enigma
Em 1483, os monges da igreja de São Francisco Grande, em Milão, pediram a Leonardo uma pintura que mostrasse a Virgem Maria ladeada por anjos. Um rigoroso contrato sugeria até as cores das roupas dos personagens e marcava a entrega para dali a oito meses. Leonardo não cumpriu o prazo e, quando terminou a obra, ela não foi aceita. Uma outra versão da tela, concluída por ajudantes do pintor, foi finalmente entregue em 1508. Hoje A Virgem das Rochas está exposta na Galeria Nacional, em Londres. Já a primeira versão, que está no Louvre (em O Código Da Vinci, pistas são escondidas atrás dela), teria sido recusada por causa de detalhes heréticos: numa desconcertante inversão de papéis, é o pequeno João Batista que abençoa Jesus, enquanto, com a mão esquerda, Maria parece ameaçar João. Sob os dedos curvados dela, que parecem segurar uma cabeça, o anjo Uriel faz um gesto como se a estivesse decapitando. Tudo, claro, interpretações mais ou menos consagradas por obras anteriores a O Código. “Jamais saberemos se Da Vinci quis dizer alguma coisa com isso, mas o fato é que essas cenas foram tiradas, ou suavizadas, na segunda versão”, diz a historiadora Sarah B. Benson, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. “Outro motivo pelo qual provavelmente a primeira versão foi rejeitada é que no cenário atrás dos personagens apareciam algumas espécies de plantas utilizadas em rituais pagãos.” A tela é inspirada no animismo, uma linha de pensamento comum naquela época, segundo o qual a natureza teria vida e alma.

Pentagrama humano
Numa das primeiras cenas do livro (e do filme), um homem esvai-se em sangue. Antes de morrer, no entanto, ele resolve dar uma pista sobre seu assassino e se deita com os braços e pernas abertos no centro de um círculo, formando um pentagrama humano. A imagem macabra é uma referência ao desenho mais famoso de Leonardo, conhecido como Homem Vitruviano. A obra é uma referência ao tratado Des Architetura, do engenheiro romano Vitruvius Pollio, que viveu no século 1 a.C. e de quem Leonardo importou o conceito das proporções arquitetônicas e da simetria do corpo humano. “O comprimento dos braços abertos de um homem é igual à sua altura”, escreveu Vitruvius. “Nesse estudo, Da Vinci se inspirou em Pitágoras, o matemático grego que viveu no século 6 a.C. e que acreditava que todo o Universo se sustenta segundo uma ação proporcional e geométrica”, diz o historiador inglês Martin Kemp, professor da Universidade de Oxford. Segundo ele, os princípios da proporção eram uma preocupação comum aos artistas do Renascimento, mas Leonardo levou isso às últimas conseqüências, incorporando às suas obras estudos sobre a simetria dos seres vivos e dos objetos. A inovação de Leonardo ao criar o Homem Vitruviano foi posicioná-lo no centro de um quadrado e de um círculo. “Nessa nova apresentação, o esquema de Vitruvius tornou-se uma realização visual definitiva. É amplamente usado como um símbolo do desenho cósmico da estrutura humana”, afirma Martin.

João ou Maria
Centro da polêmica e suposta grande revelação de O Código Da Vinci, uma das mais sublimes pinturas de Leonardo está na parede do refeitório da igreja Santa Maria das Graças, em Milão. Feita sob encomenda do poderoso Ludovico Sforza, mostra a última refeição de Jesus com seus apóstolos. “Esse vinho é o meu sangue derramado por amor a vocês. Esse pão é o meu corpo, comam dele em minha memória”, estaria dizendo Jesus, segundo a tradição cristã. Até aí, tudo bem. O problema é que, segundo o livro, a cena esconde uma série de sinais que provariam o segredo mais bem guardado do últimos 2 mil anos: Maria Madalena teria sido mulher de Jesus e com ele tido filhos. A prova? É ela quem aparece à direita de Jesus, no lugar em que geralmente identificamos João. As feições delicadas que Leonardo deu ao apóstolo seriam, para Dan Brown, um forte indício de sua tese. Segundo Lisa DeBoer, professora de História da Arte na Universidade Westmont, nos Estados Unidos, no entanto, a explicação não convence. “Ele era o discípulo mais jovem e mais próximo de Jesus. Retratá-lo com traços finos e rosto imberbe não foi algo exclusivo de Leonardo, outros artistas renascentistas também o pintaram dessa maneira”, diz Lisa. Outra pista que Leonardo teria dado, segundo o livro, é que o espaço deixado pelo artista entre João (ou Maria) e Jesus forma a inicial “M”.“Essas idéias já existiam na época de Leonardo, mas não há nenhuma dica, nos milhares de textos que ele deixou, de que ele as conhecesse ou compactuasse com elas.”

Saiba mais
Livros

Leonardo Da Vinci, Martin Kemp, Jorge Zahar Editor, 2005 - Breve biografia, belamente ilustrada, feita por um dos maiores especialistas em Leonardo, professor de História da Arte da Universidade de Oxford.

Da Vinci – 101 Segredos do Maior Gênio da Humanidade, Cynthia Phillips e Shana Priwer, Alegro, 2005 - De leitura fácil e ágil, traça um panorama sobre a vida e a obra do mestre.

Leonardo Da Vinci, Kenneth Clark, Penguin, 1993 - Escrito e organizado pelo autor do clássico Civilização, traz biografia, cartas e escritos do artista.

Revista Aventuras na Historia

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Os códigos do Código Da Vinci

A chegada da obra de Dan Brown às telas é um convite à reflexão sobre temas polêmicos por ela tratados: o papel de Maria Madalena, a questão dos merovíngios e a ação da poderosa Opus Dei.

Como explicar o sucesso mundial de O Código Da Vinci? Uma das pistas é revelada pelo autor, Dan Brown, na própria narrativa. Ele escreve que o protagonista, Robert Langdon, professor de Simbologia Religiosa em Harvard, "via o mundo como uma teia de histórias e eventos profundamente entrelaçados", na qual as conexões podiam ser invisíveis, mas estavam "sempre presentes, enterradas logo abaixo da superfície".

Para trançar sua própria teia, isto é, a trama do livro, Brown traz à tona elementos simbólicos tradicionalmente integrados à cultura européia (embora talvez não em seu curso principal) e adiciona generosas doses de suspense e ação. Desse modo se configura um enredo cujo ponto de partida é a existência de uma sociedade secreta, o Priorado de Sião, que desde a Idade Média protege zelosamente um segredo capaz de abalar os fundamentos do cristianismo: a ligação amorosa entre Jesus e Maria Madalena, que gerou uma descendência mais tarde prolongada na linha de reis merovíngios. Leonardo da Vinci, um dos grãos-mestres do Priorado, sugeriu esse relacionamento em seu famoso afresco A última ceia, no qual a figura andrógina à direita de Jesus não seria o apóstolo João, como geralmente se acredita, e sim Maria Madalena. Os interessados em se apoderar das evidências desse segredo, entre os quais religiosos ligados à Opus Dei, não hesitam em matar. O resultado é uma sucessão de crimes e desvendamentos de códigos que prendem o leitor literalmente da primeira à última página - e sem dúvida vão fazer o mesmo com os espectadores do filme.

Quais desses fios são mais resistentes fora da teia de O Código Da Vinci? Quais símbolos têm existência própria, independentemente da imaginação fértil de Dan Brown? É o que se vai verificar em seguida.


Maria Madalena
No texto "Contra-inquérito da História", publicado em Historia no 699, o jornalista francês Jacques Duquesne observa que Maria Madalena "é a mais célebre das santas cristãs, depois de Maria, a mãe de Jesus. Ela é, segundo os Evangelhos, a primeira a vê-lo ressuscitado. Do que advém dela em seguida, sabe-se pouco. Mas a lenda apoderou-se dela desde os primeiros séculos. Uma lenda que não cessou de se enriquecer desde então, já que se supunha ser ela bela e se lhe atribui um passado agitado, sulfuroso e misterioso. E, também, pelo fato de ter-se feito dela a imagem da sensualidade pecadora arrependida, perdoada".

Mais adiante, Duquesne explica que Dan Brown retomou "uma tese já antiga: Maria Madalena teria sido a amante de Jesus, ter-lhe-ia dado um filho e a Igreja, em seguida, teria abafado o caso. [...] Dever-se-ia, talvez, encontrar a origem de todas essas hipóteses no Evangelho de Maria, texto atribuído a Míriam de Magdala, recopiado no início do século V e de origem precisa desconhecida, fazendo-a amiga íntima de Jesus, uma \\'iniciada\\' que transmite seus ensinamentos mais misteriosos. Convém, ainda, lembrar a existência de um Evangelho segundo Felipe, igualmente antigo, cujo texto poderia escandalizar muitos cristãos: \\'O Senhor amava Maria mais do que todos os outros discípulos e beijava-a freqüentemente na boca\\'". Seguindo na mesma direção, outros autores insistem que o episódio evangélico das Bodas de Canaã, no qual Jesus transformou milagrosamente água em vinho, seria um relato "codificado" de suas núpcias com Maria Madalena.

Inúmeros documentos medievais registram a transferência, para a atual França, da discípula dileta de Jesus. Por exemplo, vitrais da magnífica catedral de Chartres mostram cenas da vida de Maria Madalena em solo europeu. A partir daí, sua história se entrelaça com a do Santo Graal. Segundo alguns relatos, ela teria levado para a França o cálice que recolheu o sangue de Jesus crucificado. Por sua vez, Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh, autores de O Santo Graal e a linhagem sagrada (Editora Nova Fronteira), consideram que o vaso seria a própria Maria Madalena, que estava grávida quando viajou para a França e ali deu à luz a filha de Jesus, de nome Sara. Santo Graal seria uma variação de "sangue real", referência à linhagem de Jesus e Maria Madalena, descendentes respectivamente de reis das tribos de Judá e de Benjamin. Diga-se que os autores acusam Dan Brown de ter plagiado suas idéias: mais uma polêmica ligada a O Código Da Vinci.

A partir da segunda metade do século XX, a retomada da importância da dimensão feminina nos fenômenos religiosos aproximou Maria Madalena e a própria Virgem Maria da figura da deusa, símbolo imemorial do feminino. As duas seriam representações desse princípio, que se manifestou, mil anos antes de Cristo, em sacerdotisas como a rainha de Sabá. Indo ainda mais longe no passado, vários pesquisadores afirmam que diversos atributos da divindade egípcia Ísis, mãe de Hórus, foram simplesmente transferidos para a mãe de Jesus. Não por acaso, no início da trama de O Código Da Vinci, Robert Langdon conta que está escrevendo um livro sobre "a iconografia da adoração à deusa - o conceito de santidade feminina e a arte e os símbolos associados a ela".

Merovíngios
A dinastia dos merovíngios recebeu esse nome devido a Meroveu, rei dos francos sálios, que reinou de 447 a 457. Diz a lenda que corria em suas veias o sangue de dois pais diferentes: o rei Clódio, que iniciou a expansão dos francos na Gália, e uma misteriosa criatura aquática conhecida como Quinotauro. Clóvis, neto de Meroveu, subiu ao trono em 481, converteu os francos ao cristianismo em 496, aliou-se à Igreja Católica e derrotou os visigodos do sul da França, estendendo seus domínios até os Pireneus. Com isso, reforçou a hegemonia do catolicismo, pois os visigodos eram seguidores da heresia ariana. O rei também unificou os territórios dos francos, que chegaram a abranger boa parte da França, do oeste da Alemanha, da Suíça e dos Países Baixos.

Com o tempo a dinastia decaiu e débeis monarcas, conhecidos como "rois fainéants" (reis indolentes), entregaram a administração efetiva aos chamados prefeitos do palácio. Um deles, Pepino, o Breve, pai de Carlos Magno, depôs o último soberano merovíngio, Childerico III, e assumiu a coroa dos francos em 751.

No livro Decifrando o Código Da Vinci (Bertrand Brasil), Simon Cox informa que a inserção da suposta filha de Jesus na linhagem merovíngia parece ter ocorrido basicamente por iniciativa dos autores de O Santo Graal e a linhagem sagrada. No entanto, muito antes da publicação da obra e da divulgação dessa tese, autores próximos das doutrinas ocultistas já sugeriam que os descendentes de Clódio e do monstro marinho Quinotauro gozavam de aptidões sobrenaturais, podendo curar os enfermos com um simples toque. Reis-sacerdotes, eles eram "fainéants" porque, a rigor, não precisavam fazer coisa alguma: bastava-lhes portar a coroa e atrair, com isso, as bênçãos divinas para seus súditos. Os alegados poderes de cura dos monarcas franceses, que a partir de Clóvis foram ungidos e coroados na catedral de Reims, constituíam um legado merovíngio.

Priorado de Sião
Elemento central de O Código Da Vinci, o Priorado de Sião reivindicava uma história milenar. Teria sido criado na Terra Santa, por iniciativa de Godofredo de Bulhões, líder da Primeira Cruzada, que conquistou Jerusalém em 1099. Na realidade, o Priorado de Sião surgiu em data posterior. Foi fundado em 1956 por Pierre Plantard, cujas revelações constituem a espinha dorsal do livro de Lincoln, Baigent e Leigh.

Declarando-se grão-mestre da ordem e descendente do rei merovíngio Sigisberto IV, nascido de um casamento secreto de Dagoberto II, Plantard estava interessado em sustentar a continuidade dessa dinastia até os dias atuais e seus direitos ao trono francês. Assim, jamais endossou formalmente - embora tampouco negasse - a tese levantada pelos três autores, de que a linhagem merovíngia se entrelaçava com a de Jesus.

Em 1984, dois anos depois do lançamento do livro de Lincoln, Baigent e Leigh, Plantard renunciou ao cargo de grão-mestre do Priorado de Sião, que passou à clandestinidade. Em 1992, confessou à justiça francesa que todo o esquema da ordem e os dossiês secretos que lhe davam sustentação não passavam de uma grande fraude montada por ele.

Opus Dei
Resta examinar o grupo religioso que aparece no romance como o principal interessado em ter acesso a qualquer preço ao segredo da linhagem de Jesus: a Opus Dei. Ainda que no final, numa reviravolta do enredo, Dan Brown a "absolva" dos crimes praticados por um de seus membros, fica a idéia de que se trata de uma entidade misteriosa, rica e influente, disposta a tudo para atingir seus objetivos.

Sentindo o golpe, os dirigentes da "Obra" - como a instituição costuma se designar - declararam guerra a O Código Da Vinci, primeiro ao livro e agora ao filme, mobilizando as estruturas e o poder da Igreja Católica para esse combate sem trégua.

Na verdade, muito antes do lançamento do best-seller, o grupo católico fundado em 1928 pelo padre catalão Josemaría Escrivá de Balaguer já era visto por muitos setores como a encarnação do mal. Alguns críticos denunciaram suas ligações com o franquismo e outros regimes autoritários, os vínculos entre seus membros e as elites políticas e econômicas mais conservadoras. Outros a apresentaram como o verdadeiro poder nos bastidores da Santa Sé, por trás do papa João Paulo II e de seu sucessor Bento XVI. Também foram criticadas certas práticas de autodisciplina e penitência, que levavam alguns de seus integrantes a usar cilícios de pontas afiadas sob as roupas e a se flagelar. No livro de Dan Brown, o personagem Silas é um desses penitentes. O autor o faz pronunciar as palavras "a dor é boa", escritas pelo fundador da Opus Dei, quando Silas comete seu primeiro assassinato, em pleno museu do Louvre.

Para se obter uma imagem mais equilibrada dessa entidade, com seus defeitos e virtudes, um bom ponto de partida é a leitura do livro Opus Dei - Os mitos e a realidade (Editora Campus), do jornalista John L. Allen Jr. O autor, que não é militante da organização, levantou dezenas de depoimentos de pessoas favoráveis e contrárias à atuação do grupo, para chegar a uma visão mais isenta das várias dimensões da "Obra". Ele a compara a uma cerveja Guiness Extra Stout, densa e amarga, de alto teor alcoólico e calórico. Ela jamais será a líder do mercado, mas "um público fiel sempre a prestigiará, exatamente porque resiste aos modismos".

Allen Jr. enfatiza um princípio fundamental desenvolvido por Escrivá: a santificação do trabalho e da vida cotidiana. Destino universal de todo cristão, "a santidade não é algo a ser alcançado por meio de preces e da penitência espiritual, mas pelos detalhes mundanos do trabalho cotidiano". Dessa perspectiva, cada um deve executar da melhor maneira possível seu trabalho, manual ou intelectual, oferecendo-o a Deus. Essa concepção se reflete no caráter inovador do apostolado da Opus Dei, que recruta para suas fileiras ou mantém sob sua influência sacerdotes e leigos, católicos e não-católicos, até mesmo não-cristãos. São os leigos, afinal, que podem alcançar, por uma mudança de postura em seu trabalho cotidiano, a santidade nos tempos atuais.

O autor informa que existem diferentes categorias de membros na Opus Dei. Os supernumerários, correspondentes a 70% dos integrantes, são leigos de ambos os sexos que procuram levar uma vida cristã em seu dia-a-dia, sob a orientação espiritual de dirigentes do grupo. Já os numerários, cerca de 20% do total, dedicam-se de corpo e alma à "Obra". Muitos são leigos e profissionais bem-sucedidos, mas fazem voto de celibato, doam a quase totalidade de seus rendimentos à organização e vivem em centros comunitários. É geralmente entre eles que se encontram os portadores de cilícios de pontas de ferro, usados durante algumas horas por dia.

Muitos numerários também recorrem às "disciplinas", um chicote de cordas com que se golpeiam durante as orações.

Existem ainda os adscritos e os cooperadores. Os primeiros aproximam-se dos numerários por seus votos de celibato, mas devido a circunstâncias pessoais moram com suas famílias e não nos centros da Opus Dei. Os cooperadores, por sua vez, não são rigorosamente membros e sim simpatizantes da "Obra", apoiando-a com suas ações e recursos financeiros. Entre eles é possível encontrar, além de católicos, outros grupos de cristãos, judeus, muçulmanos, budistas e indivíduos sem religião.

A Opus Dei é uma organização poderosa no seio da Igreja Católica? Sim, responde John Allen Jr. Ele informa em seu livro que, em 1982, a instituição tornou-se a primeira prelazia pessoal na estrutura eclesiástica católica, e a única a ser estabelecida até agora. Isso significa que o prelado do grupo em Roma, o bispo Javier Echevarría, exerce jurisdição sobre seus membros no tocante a questões relacionadas ao funcionamento interno da "Obra". Em boa medida, esse status protege a atuação dos numerários e supernumerários da interferência dos bispos locais.

Outra evidência do prestígio da organização envolveu seu fundador. Morto em 1975, Josemaría Escrivá foi beatificado em 1992 e canonizado uma década depois. O papa João Paulo II, que colocou, num prazo recorde, Escrivá entre os santos, deu várias demonstrações públicas de apreço ao grupo. O mesmo faz Bento XVI, sucessor do papa falecido em 2005.

Sem dúvida, a Opus Dei ofereceu sustentação a João Paulo II durante todo o seu pontificado, iniciado em 1978, e ajudou a desarticular em 2005 a resistência dos setores mais progressistas da Igreja à escolha do cardeal alemão Ratzinger como ocupante do trono de São Pedro. No entanto, não se pode concluir daí que a "Obra" determine, dos bastidores, as decisões dos pontífices. Ao contrário, muitas vezes ela agiu abertamente como "tropa de choque" disciplinada e obediente à hierarquia eclesiástica, encarregando-se da defesa de medidas desgastantes como a proibição do aborto.

A Opus Dei teve e tem ligações com regimes autoritários e elites conservadoras? Segundo Allen Jr., é preciso, de saída, contextualizar a questão. No tempo da guerra civil na Espanha (1936-1939), Escrivá e a maioria dos católicos do país apoiaram os nacionalistas contra os republicanos. Nas décadas seguintes, a organização forneceu alguns ministros aos governos franquistas e pós-franquistas, em geral quadros de perfil tecnocrático. Em contrapartida, informa o autor, diversos numerários foram presos ou tiveram de se exilar por sua oposição a Franco.

Os sucessores de Escrivá costumam descartar a acusação de serem ligados às elites, lembrando que entre os construtores da "Obra" - menos de 100 mil no mundo inteiro - existem trabalhadores manuais, motoristas de ônibus, donos de lavanderias e outros pequenos negócios e simples donas-de-casa. O livro de Allen Jr. traz depoimentos de alguns desses colaboradores mais humildes. E também do jornalista de Barcelona Luís Foix, militante da organização, que colabora em publicações de centro-esquerda e apóia os socialistas nas eleições. Ele enfatiza a liberdade de opinião existente dentro do grupo, afirmando que ninguém jamais tentou influenciar suas escolhas políticas. "Como membro da Opus Dei, sou totalmente livre", resume.

Mas a diversidade de origens sociais e de opiniões não esconde a presença conservadora em suas fileiras. Allen Jr. observa que, em termos sociológicos, a entidade em geral atrai indivíduos com uma visão de mundo tradicionalista, contrários, por exemplo, ao sexo antes do casamento, ao aborto e às uniões de homossexuais. Na esfera política, ainda que a instituição não se posicione de maneira centralizada e monolítica, não podem ser ignorados os vínculos entre seus integrantes e grupamentos de centro-direita ou mesmo de direita ostensiva, tais como o Partido Popular da Espanha, o Partido Republicano dos Estados Unidos e o Forza Italia, criado pelo primeiro-ministro e magnata da mídia Silvio Berlusconi. Por exemplo, na Espanha, o governo de José María Aznar, primeiro-ministro entre 1996 e 2004 pelo Partido Popular, contou com a participação de três membros da Opus Dei. Na verdade, a organização forneceu a administrações conservadoras da Europa e das Américas uma série de homens públicos que poderiam ser qualificados como tecnocratas esclarecidos. A presença, entre as obras corporativas controladas pela prelazia, de 15 universidades e 11 faculdades de administração sugere que os círculos das elites continuarão a incorporar quadros formados no espírito da "Obra" concebida em 1928 por Josemaría Escrivá.

Todos esses aspectos traçam o esboço de uma organização dinâmica e poderosa, cujos integrantes assumem abertamente sua presença nos círculos de poder em âmbito internacional e na administração do sistema capitalista em tempos de globalização. Nada, porém, que se compare à imagem do grupo quase secreto, influente e inflexível, que transparece nas páginas de O Código Da Vinci.

Cadu Silveira é jornalista.

Revista Historia Viva