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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

As charges e a influência do Humor durante a Segunda Guerra Mundial


Vinícius Liebel[1]

A charge, enquanto parte da mídia jornalística, pode ser considerada um elemento formador de opinião pública. Sua força enquanto tal pode ser comprovada pela simples análise destas fontes, na qual verificamos a crítica ou a apologia a determinada ideologia ou governo.

Sua força é comprovada quando buscamos na teoria psicanalítica freudiana indícios que corroboram a eficiência do desenho humorístico enquanto meio propagandístico e influenciador de opiniões. Freud, em sua obra O Chiste e sua relação com o Inconsciente, traz-nos um tratado psicanalítico sobre a natureza do humor, suas ações e influências no inconsciente. Considerando as charges como uma das manifestações contemporâneas mais correntes de humor, buscamos nos apropriar deste discurso clássico e analisar como a charge pode repercutir na consciência de um indivíduo, pela produção do chiste e pelo riso.

O riso, para Freud, seria um liberador das emoções reprimidas. Desta forma, por trazer o prazer da liberação do stress emocional, a risada seria uma manifestação individual e egoísta. “O riso compensa, em seus efeitos, o dispêndio contínuo de energia, exigido para manter as proibições que a sociedade impõe e os indivíduos internalizaram.”[2] O prazer que a ato de rir traz ao indivíduo é, como toda espécie de prazer, de alguma forma, embriagante. A embriaguez então causada no indivíduo fortalece a idéia transmitida pelo fato desta idéia estar acompanhada do prazer proporcionado pela risada. O próprio ato de rir já é um indício da aceitação, por parte do indivíduo, da idéia passada. Assim,



Ele (o chiste) ademais subornará o ouvinte com sua produção de prazer, fazendo com que ele se alinhe conosco sem uma investigação mal detida, exatamente como em outras freqüentes ocasiões fomos subornados por um chiste inocente que nos levou a superestimar a substância de uma afirmação expressa chistosamente. Tal fato é revelado à perfeição na expressão “die Lacher auf seine Seite ziehen” (trazer os que riem para nosso lado).[3]



Conforme observamos, o humor seria uma das formas de protesto ou propaganda mais eficientes que podemos utilizar. As charges, por serem veiculadas em jornais e na grande mídia, têm um alcance maior que um gracejo contado numa roda de amigos. Por seu caráter mordaz, têm também a natureza da crítica e da revolta, e é dessa característica que resulta, em grande parte, a simpatia natural que sentimos por estes desenhos, pois “rimos delas, mesmo se mal-sucedidas, simplesmente porque consideramos um mérito a rebelião contra a autoridade”[4], o que nos passa a idéia de poder satirizar, por alguns instantes, um poder central. O chargista poderá tratar, através de seus desenhos, de características e críticas que não poderia tratar abertamente, seja por conta da censura ou de convenções morais. Ao passá-las para o desenho, está promovendo uma pequena “rebelião” contra o objeto da crítica, e, muito provavelmente sem saber, arrebanhando adeptos de suas opiniões pelo poder do riso.

Observaremos melhor essas colocações analisando uma de nossas fontes e verificando tais características nesse desenho.




THE THREE GANGSTERS. Londres: [s.n.], 1941. 1 cartão postal: pb.



O desenho acima reflete claramente antipatia ante os três principais membros do Terceiro Reich: Goebbels, Ministro da Propaganda do Reich, Goering, considerado, até 1945, o segundo homem do governo alemão, e Hitler, o Führer nazista. Veiculado em cartões postais ingleses a partir de 1941, o desenho sobrepõe as caricaturas de Goebbels e Goering a corpos de macacos, sugerindo que ambos pensariam e agiriam como tal, bem como teriam semelhanças físicas. Outro aspecto satirizante, este referido à figura de Goering, é a ostensiva coleção de medalhas em seu peito, característica marcante que foi utilizada por vários dos caricaturistas do Comandante em Chefe da Luftwaffe.

A caricatura de Hitler, por sua vez, revela um julgamento quanto ao seu instinto belicoso. A caracterização do Führer na figura universalmente reconhecida da morte traz um aspecto muito mais crítico que a simples ridicularização de seus comparsas no mesmo desenho, contando também com o caráter cômico.

Os psicanalistas defendem que o riso causado pela figura facilitaria a apropriação destas caracterizações no julgamento pessoal do indivíduo que a observa. Desta forma, a idéia do autor da gravura, de que Hitler é a personificação da morte e do mal e de que seus comandados não passam de animais seria apropriada pelo observador.

O humor aqui utilizado tem, portanto, um propósito: o de desmobilizar a crença pública quanto ao personagem histórico Adolf Hitler e o sistema político que ele representa. Por sua vez, Pierre Ansart nos coloca uma diferenciação dual na relação do humor com a esfera política: em um sistema pluralista como a Democracia, no qual as paixões políticas são constantemente reprimidas e cortadas a fim de manter o equilíbrio do sistema, o humor tem como função promover a multiplicidade de opiniões e a descrença quanto aos elementos nocivos, mas, principalmente, evitar as demonstrações apaixonadas das massas para com esses mesmos elementos. Sua ridicularização estabelece uma situação de inferioridade, um julgamento de valores no qual o ser político torna-se bizarro e ridículo, afastando os indivíduos pela descrença causada. Inserindo Henri Bergson na discussão, o humor trata de promover uma homogeneização da sociedade.

Nossas fontes primárias são charges e caricaturas produzidas em dois sistemas e conjunturas distintas, porém, próximas se levarmos em conta a relação entre humor e política atentada por Ansart: o regime autoritário no Brasil de Getúlio Vargas e o regime totalitário alemão de Adolf Hitler. A natureza dessas fontes, entretanto, apesar de pertencerem a conjunturas semelhantes, são diferentes. Enquanto os desenhos brasileiros são produzidos por indivíduos e veículos desligados do Estado, a saber, por Belmonte e Chichorro, respectivamente da Folha da Manhã, de São Paulo, e do jornal O Dia, de Curitiba, onde a crítica velada, característica própria das charges, poderia encontrar espaço, as charges alemãs têm seu lugar em um jornal controlado pelo Estado nazista, o Der Stürmer. Pautando nossa pesquisa na caracterização do regime nazista, sua ideologia e seus líderes, buscamos analisar de que forma as charges destes diferentes autores cumpriam o papel propagandístico de que falamos anteriormente.

O primeiro caso analisado é o de Belmonte, criador do personagem Juca Pato e considerado por muitos o maior chargista brasileiro. O título é justificado, pois poucos como Belmonte conseguiram sintetizar, em um único desenho, tantas considerações e análises de um determinado fato ou situação. Utilizando-se do semblante do personagem retratado ou do ambiente em que se encontra, dos objetos que o rodeiam ou das manchetes de jornais que evocam o assunto, o autor condensa sua opinião e sua visão em um quadro de alguns centímetros quadrados e a apresenta ao leitor, como podemos observar a seguir:




Fonte: BELMONTE. Música Maestro. São Paulo: Folha da Noite, 1940.



Aqui, Belmonte faz referência ao caráter belicoso de Hitler, numa charge que podemos considerar uma pioneira entre muitas outras que fariam críticas diretas e agudas em relação ao líder alemão e sua ideologia. Neste desenho, datado de 09 de agosto de 1940 e publicado na Folha da Noite, o Führer é retratado como maior fomentador do conflito, acusado de alimentar a morte através de uma grande carnificina, mantida através dos vários bombardeios aéreos que atingiram o território britânico. O título do desenho, “No Restaurante ‘Ao Relâmpago’”, é uma referência direta à Blitzkrieg promovida pelos alemães principalmente no início do conflito mundial. Hitler como chef do restaurante, atende aos pedidos da Morte, que exige que seu pedido seja atendido rapidamente: “Então, como é? Essa comida vem ou não vem?!”. No menu do dia, escrito no quadro abaixo da janela da cozinha, encontramos pratos não usuais, como “consome de Bombas, Filet de Granadas, Salada de dinamite à Krupp Stukas e Paraquédas, RAF em churrasco, Gazes e micróbios, Whisky fervendo, Guarda-chuva torrado, etc, etc etc, surprezas.”

Os pratos servidos no restaurante “Ao Relâmpago” trazem nomes de armamentos utilizados durante a guerra, como bombas e granadas, e de divisões das forças armadas alemãs, como os pára-quedistas e os Krupp Stukas. Há ainda a referência ao guarda-chuva de Chamberlain, que no restaurante é servido torrado. Desta forma, Belmonte coloca a impossibilidade de paz naquele momento e a guerra como o fracasso definitivo das negociações diplomáticas que visavam o fim das agressões, promovidas pelo ex-primeiro-ministro inglês. De forma semelhante ao que acabamos de expor, Belmonte se utiliza de diferentes técnicas para manipular seus desenhos, como o cinismo, o nonsense e a alusão. Na crítica ao contra-senso das decisões tomadas pelos líderes nazistas e das posições que sustentavam referentes aos mais variados assuntos, encontramos a chave para o pensamento de Belmonte, para a linha editorial de seu jornal e para a opinião formada por seus leitores.

O segundo caso é o desenho humorístico de Alceu Chichorro, jornalista paranaense e figura constante nas reuniões intelectuais curitibanas. Assim como Belmonte, Chichorro criou um personagem, Chico Fumaça, que ilustrava as aspirações da classe média e que expressava as idéias do autor. A presença de Fumaça orienta as ações nos desenhos. Seu olhar direciona as atenções do público leitor e suas colocações passam as opiniões de seu criador e de seu jornal.

Ao atentarmos para as charges produzidas por Chichorro que fazem referências ao regime nacional-socialista, podemos observar dois momentos distintos: no primeiro, que compreende o período entre os anos de 1933, data de ascensão de Hitler ao cargo de chanceler, e 1942, ano da entrada do Brasil no conflito, a visão daqueles elementos é bastante branda. A origem de tal amenidade no trato do assunto tem várias possibilidades, que vão desde uma orientação editorial voltada ao público curitibano, que tinha visões otimistas acerca do regime alemão, até uma possível simpatia velada do autor para com a ideologia nazista. As razões para este comportamento de seus desenhos, entretanto, não passam de conjecturas.

O segundo momento que podemos visualizar é iniciado no ano de 1942, quando o Brasil ingressa no conflito junto aos Aliados. A partir de então, como era de se esperar, os desenhos passam a criticar e satirizar o regime de Adolf Hitler e suas ações. Interessante nesta fase de Chichorro é a sutileza das críticas, não lançando mão do horrendo em suas charges, mas se utilizando sim de um humor sadio, que beira à inocência.




ELOY. O Dia. 15 jan. 1943.



Na charge aqui exposta, produzida no ano de 1943, já situada, portanto, na segunda fase de Chichorro, podemos visualizar o humor brando do autor. Baseada em notícia de diários estrangeiros, no caso, de Estocolmo, que noticiavam que “o estado de saúde de Hitler era precário e a conselho médico, o füehrer (sic.) estaria usando óculos pretos”, a charge mostra um Hitler de postura autoritária, demonstrando deter (ou com a ilusão de deter) o poder sobre a África. A situação é denunciada, além pela pose do líder alemão, pela placa que no plano superior do desenho aponta para o continente africano. A ilusão do domínio do continente negro é causada pelo uso dos óculos escuros, que, como o título da charge proclama, causa uma “ilusão ensombrada” à vista do Führer.

O complemento do desenho é feito pelo diálogo travado entre Chico Fumaça e dona Marcolina, que observam Hitler: “ – Mas porque (sic.) os óculos pretos, Fumaça? – É para ter uma ilusão da conquista da.... África!...”. Aqui, Fumaça cumpre seu papel de observador e de humorista, ao satirizar a atitude do ditador e, de forma indireta, sua ambição de conquistar aquela região.

O terceiro caso analisado nesta apresentação é o do chargista Philippe Ruprecht, alemão que desenhava para o semanário Der Stürmer, editado em Nuremberg. A característica principal das charges publicadas neste jornal é que buscavam fixar nas mentes dos alemães os principais preceitos nacional-socialistas, dentre os quais se destaca o anti-semitismo. Novamente recorremos a Henri Bergson ao destacar uma “função social” para estas charges, qual seja, a de preparar a sociedade para o extermínio dos judeus em território alemão. O exemplo a seguir poderá ilustrar melhor esta questão.




FIPS. Der Stürmer, ago 1934. Nuremberg. In BYTWERK, Randall. Julius Streicher – Nazi Editor of the notorious anti-semitic newspaper Der Stürmer. New York, Cooper, 2001. p. 84.



Visualizamos então a técnica da associação sendo utilizada na difamação do povo judeu. Aqui, um morcego que carrega a estrela de Davi no peito e que tem as feições características do indivíduo judeu representado nas charges de Rupprecht, surge nos céus espalhando terror e morte no seu caminho. O título, Der Vampyr[5], já demonstra a conotação que a charge pretende imprimir: a do judeu sugador e aproveitador. A legenda ratifica esta idéia ao dizer Vom Teufel in die Welt gesegt er stets die Völker quält und hekt[6]. Em linhas gerais, o significado da frase evoca uma qualificação dos judeus como povo do inferno, cuja principal ação no mundo abençoado, ou seja, o mundo germanizado, seria a de atormentar e sugar os cidadãos arianos. As charges do Der Stürmer se prestavam, portanto, para a degeneração do alvo (principalmente os judeus, mas também comunistas, católicos e maçons) através da utilização de um humor grosseiro, com alusões diretas, valendo-se de títulos e legendas para melhor transparecer sua intenção. Trata-se de um produto destinado a um público muito definido, qual seja, o ariano adepto ou simpatizante das idéias nazistas, em especial do anti-semitismo, e predisposto a acatar as opiniões expostas.

A partir destes três casos aqui analisados, podemos tirar algumas conclusões. Com o Der Stürmer a população alemã passou a “ver” a quebra da harmonia social que os judeus promoveriam e, como não havia a possibilidade deste “erro” se corrigir sozinho, passou-se a aceitar a idéia da extirpação deste “corpo estranho” da sociedade. Em outros termos, o humor de Rupprecht serviu como uma alavanca para o ódio dos arianos para com os judeus, não se dirigindo à “inteligência pura”[7], como pregava Bergson, mas a um dos sentimentos mais recônditos do ser humano, qual seja, o ódio. A busca era por uma uniformização das idéias raciais e da moral do povo alemão, negando nesse processo a moral cristã, judaica ou qualquer outra e impondo a moral do Partido Nazista, processo acelerado e intensificado pelo Terror empreendido pela polícia secreta e pelas outras formas de propaganda empregadas, como panfletos e discursos radiofônicos.

De forma semelhante, através do riso, Belmonte e Chichorro buscaram transmitir a visão da ruptura que os nazistas e suas idéias impunham à harmonia européia e mundial. Em seus casos, entretanto, as palavras e as imagens não eram direcionadas aos instintos ou às emoções dos ouvintes, mas sim à percepção racional destes diante das denúncias feitas pelos autores. Em outras palavras, eram direcionadas à inteligência pura. Porém, da mesma forma, visavam minar aqueles que tinham simpatias pelo Nazismo ou simplesmente arrebanhar a opinião dos indiferentes. Buscavam também, portanto, uma homogeneização da sociedade através da uniformização de sua mentalidade.

Neste sentido, as charges têm seu lugar no espaço público, na arena de discussões. Sua função de expositora e de formadora de opiniões permanece marcante, seja como crítica a um governo ou como apoio ao mesmo, seja em Democracias ou Ditaduras. Da mesma forma que os chargistas atuaram nas décadas de 30, combatendo ou alicerçando políticas governamentais, hoje ainda se destacam na formação da opinião popular, aliando-se ao poder vigente ou a ele se opondo; as charges continuam tendo grande atração para os leitores e ainda possuem a capacidade de influenciar, de alguma forma, a sociedade.


[1] Mestrando no curso de Pós-graduação em História pela Universidade Federal do Paraná.


[2] Cf. SALIBA, Elias Thomé. Raízes do Riso – A representação humorística na história brasileira: da Belle Époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo. Cia das Letras, 2002. P. 23.


[3] FREUD, Sigmund. O Chiste e sua relação com o Inconsciente. Rio de Janeiro. Imago, 1977. p. 123.


[4] Ibid. p. 125.


[5] Trad. O Vampiro.


[6] Trad. Do demônio no mundo abençoado ele sempre agita e atormenta o povo.


[7] BERGSON, Henri. O Riso. São Paulo: Martins Fontes, 2001. p. 4.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

O nazismo era um movimento de esquerda ou de direita?


Camilla Costa
BBC Brasil

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Em meio a crise econômica e política na Alemanha, nazismo trazia ideia de "revolução social". mas só para os "arianos"

"Cara, cai na real! Ser de esquerda é ser a favor de milhares de mortes causadas pelo comunismo e nazismo no mundo. Reflita!", diz uma mensagem de janeiro no Twitter. "O socialismo/comunismo é uma ideologia de esquerda irmã do nazismo", diz outra do final de abril. Outro participante da rede social pergunta: "Quantas pessoas será que estão em grupos de libertários no Facebook discutindo se nazismo é esquerda ou direita neste exato momento?".

A discussão sobre se o movimento nazista alemão - cujo governo matou milhões de pessoas e levou à Segunda Guerra Mundial - teria as mesmas origens do marxismo ferve nas redes sociais há alguns meses, com a crescente polarização do debate político no Brasil.

Mas historiadores entrevistados pela BBC Brasil esclarecem o que dizem ser uma "confusão de conceitos" que alimenta a discussão - e explicam que o movimento se apresentava como uma "terceira via".

"Tanto o nazismo alemão quanto o fascismo italiano surgem após a Primeira Guerra Mundial, contra o socialismo marxista - que tinha sido vitorioso na Rússia na revolução de outubro de 1917 -, mas também contra o capitalismo liberal que existia na época. É por isso que existe essa confusão", afirma Denise Rollemberg, professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense (UFF).

"Não era que o nazismo fosse à esquerda, mas tinha um ponto de vista crítico em relação ao capitalismo que era comum à crítica que o socialismo marxista fazia também. O que o nazismo falava é que eles queriam fazer um tipo de socialismo, mas que fosse nacionalista, para a Alemanha. Sem a perspectiva de unir revoluções no mundo inteiro, que o marxismo tinha."

O projeto do movimento nazista, segundo Rollemberg, previa uma "revolução social para os alemães", diferentemente do projeto dos partidos de direita da época, "que vinham de uma cultura política do século 19, de exclusão completa e falta de diálogo com as massas".

Mesmo assim, ela diz, seria complicado classificá-lo no espectro político atual. "Eles rejeitavam o que era a direita tradicional da época e também a esquerda que estava se estabelecendo. Eles procuravam se mostrar como um terceiro caminho", afirma.

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Nacionalismo

A ideia de uma "revolução social para a Alemanha" deu origem ao Partido Nacional-Socialista alemão, em 1919. O "socialista" no nome é um dos principais argumentos usados nos debates de internet que falam no nazismo como um movimento de esquerda, mas historiadores discordam.

"Me parece que isso é uma grande ignorância da História e de como as coisas aconteceram", disse à BBC Brasil Izidoro Blikstein, professor de Linguística e Semiótica da USP e especialista em análise do discurso nazista e totalitário.

"O que é fundamental aí é o termo 'nacional', não o termo 'socialista'. Essa é a linha de força fundamental do nazismo - a defesa daquilo que é nacional e 'próprio dos alemães'. Aí entra a chamada teoria do arianismo", explica.

De acordo com Blikstein, os teóricos do nazismo procuraram uma fundamentação teórica e filosófica para defender a ideia de que eles eram descendentes diretos dos "árias", que seriam uma espécie de tribo europeia original.

"Estudiosos na Europa tinham o 'sonho da raça pura' nessa época. Quanto mais próximos da tribo ariana, mais pura seria a raça. E esses teóricos acreditavam que o grupo germânico era o mais próximo. Daí surgiu a tese de que, para serem felizes, tinham que defender a raça ariana, para ficar longe de subversões e decadência. (Alegavam que) a raça pura poderia salvar a humanidade."

A ideia de uma defesa do povo germânico ganhou popularidade em um momento de perda de territórios, profunda recessão e forte inflação após a Primeira Guerra Mundial - e tornou-se o centro do movimento nazista.

"Era preciso recuperar a moral do pobre coitado, que não tinha dinheiro e era 'massacrado pelos capitalistas'", explica Blikstein. Nesse contexto, afirma, o nazismo vendia a ideia de "reeguer o orgulho da nação ariana. O pressuposto disso seria eliminar os não arianos. E essa teoria foi aplicada até as últimas consequências".

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Segundo especialistas, judeus eram perseguidos por simbolizarem dois "inimigos" do nazismo: o capitalismo liberal e o socialismo marxista
'Marxistas e capitalistas'

Mesmo propagando a ideia de que o nazismo planejava uma revolução social na Alemanha - o que incluía, por exemplo, maior intervenção do Estado na economia -, o partido fazia questão de deixar clara sua oposição ao marxismo.

"Os comícios hitleristas eram profundamente antimarxistas", disse à BBC Brasil a antropóloga Adriana Dias, da Unicamp, que é estudiosa de movimentos neonazistas.

"O nazismo e o fascismo diziam que não existia a luta de classes - como defendia o socialismo - e, sim, uma luta a favor dos limites linguísticos e raciais. As escolas nacional-socialistas que se espalharam pela Alemanha ensinavam aos jovens que os judeus eram os criadores do marxismo e que, além de antimarxistas, deveriam ser antissemitas."

Os judeus, aliás, tornaram-se o ponto focal da perseguição nazista porque representavam tanto o socialismo como o capitalismo liberal, mesmo que isso possa parecer antagônico nos dias de hoje.

"Havia uma simbologia do judeu como representante, por um lado, do socialismo revolucionário - porque Marx vinha de uma família judia convertida ao protestantismo, assim como muitos bolcheviques", diz a historiadora Denise Rollemberg.

"Por outro lado, os judeus eram associados ao capitalismo financeiro porque os judeus assimilados (que assumiram as culturas de outros países, para além da nação religiosa) que viviam na Europa tinham uma tradição de empréstimos de dinheiro e de negócios."
'Precisão científica'

A "precisão científica" do extermínio de judeus na Alemanha nazista também dificulta as comparações com a perseguição política no regime socialista soviético, na opinião de Izidoro Blikstein.

"Há muitos genocídios pelo mundo, mas nenhum igual ao nazismo, porque este era plenamente apoiado por falsa teoria científica e linguística e levada até as últimas consequências. A União Soviética também tinha campos de trabalhos forçados, mas não existia uma doutrina para justificar isso", afirma.

"Mas há traços comuns entre o nazismo o regime (soviético) de Stálin. A propaganda, por exemplo, e o fato de que ambos eram regimes totalitários, que controlavam e legislavam sobre a vida pública e também privada do cidadão", admite.

Além dos judeus, o regime nazista também perseguiu democratas liberais, socialistas, ciganos, testemunhas de Jeová e homossexuais - algo que, hoje, contribui para que o nazismo seja classificado como extrema-direita, e o aproxima de grupos que pregam contra a comunidade LGBT, contra imigrantes e contra muçulmanos, por exemplo.

"Todo esse projeto de repressão, censura, campos de concentração e extermínio nazista era direcionado a quem estava fora do que eles chamavam de 'comunidade popular', o povo alemão. Mas alemães que eram democratas liberais e socialistas também eram excluídos por serem contrários ao projeto nazista e colocarem em risco essa comunidade popular", explica Denise Rollemberg.

No entanto, para Blikstein, a ideia de raça é tão central ao nazismo que, assim como não se pode usar o projeto de revolução social para classificá-lo como "esquerda", também é difícil defini-lo como a "direita" que conhecemos hoje.

"Dizer apenas que Hitler era um político de direita é apequenar o nazismo. Foi mais do que direita ou esquerda. Foi uma doutrina arquitetada para defender uma raça, embora esse conceito seja discutível e pouco científico", diz.

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'Crise de referências'

Uma recapitulação do projeto e do regime nazista, de acordo com os especialistas no assunto, aumenta a confusão: deveria haver igualdade social e distribuição de renda, mas imigrantes, judeus, opositores políticos e até filhos "não talentosos" de alemães seriam excluídos dela por serem "menos puros"; o Estado prometia interferir mais na economia para benefício dos cidadãos, mas empresas privadas tiveram os maiores lucros com a máquina de extermínio e de guerra nazista; o movimento dizia defender os trabalhadores, mas sindicatos trabalhistas foram extintos, assim como o direito de greve; o socialismo marxista era considerado ruim, mas o liberalismo também.

Como seria possível defender todas estas ideias ao mesmo tempo?

"Quando o partido foi constituído, ele tinha uma vertente mais à esquerda e uma mais à direita. No início, tinha um discurso bastante antiburguês. Mas ao assumir o poder na Alemanha, o grupo à direita foi fazendo mais alianças com a burguesia e expulsando o grupo à esquerda", diz a historiadora da UFF.

"Além disso, o nazismo nasce no meio de uma crise de referências muito grande após a Primeira Guerra. Muitos passaram de um lado para outro. Os valores muitas vezes vão se embaralhar, e esses conceitos de direita e esquerda atuais não resolvem bem o problema."

Entre historiadores, a tentativa de traçar paralelos entre o nazismo e o fascismo europeus e o regime stalinista na União Soviética também não é nova, segundo Rollemberg.

"Todos eles eram regimes totalitários, mas o totalitarismo pode estar de qualquer lado. Hoje entendemos que há o totalitarismo de direita, como o nazismo e o fascismo, e o de esquerda, como o da União Soviética."

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Teoria da conspiração: o suicídio de Hitler foi forjado?


O corpo do líder nazista jamais foi encontrado. E muita gente jurou tê-lo visto perambulando pelo mundo após a 2ª Guerra Mundial
Mariana Nadai

Sugestão da TdF Letícia Duarte
Ilustra Murilo Araújo
Edição Felipe van Deursen 

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

“Sem corpo, não há crime”
Diz a história que Adolf Hitler se matou no bunker onde se escondia, em Berlim, em 1945, ao final da 2ª Guerra. Ele ingeriu uma cápsula de cianureto e, para garantir, deu um tiro na cabeça. Os nazistas queimaram o corpo, para que os restos jamais fossem encontrados. Ou seja, não dá para cravar que ele se matou

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Mortos-vivos
Outros nazistas dados como mortos “ressuscitaram” anos depois. Foi o caso de Josef Mengele, oficial da SS (a polícia do Estado nazista) e médico no campo de concentração de Auschwitz. O “anjo da morte” foi encontrado no Brasil, anos depois, vivendo como o austríaco Wolfgang Gerhard. Sua identidade foi revelada após a sua morte (verdadeira) por afogamento, em Bertioga, SP. Se Mengele estava vivão depois da guerra, por que Hitler não poderia estar?

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

No rancho fundo
A maioria das teorias que diz que Hitler não morreu durante a guerra afirma que ele cruzou o Atlântico para viver na América Latina. O próprio FBI, a polícia federal dos EUA, decidiu investigar uma possível fuga de Hitler após receber cartas de pessoas que acreditaram tê-lo visto vivo. Segundo esses relatos, ele teria saído da Alemanha em 29 de julho de 1945, viajado em um submarino e chegado são e salvo a um rancho no interior da Argentina

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)


Debaixo do nariz
Em 1946, um homem entrou no S.W. Restaurant, em Washington, EUA, para almoçar. O restaurante estava cheio, mas alguém, ocupando uma mesa de dois lugares, cedeu espaço para que ele se sentasse. Os dois não trocaram uma palavra, mas o homem, que também não teve a identidade revelada, estava certo de que o cavalheiro que lhe deu lugar era Adolf Hitler, de bigode e tudo. O relato foi publicado no New York Journal-American

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Na Colômbia
Em 1948, o jornal colombiano El Tiempo recebeu uma carta dizendo que Hitler estava no país. O autor da carta, cujo nome não foi divulgado, seria a pessoa que o ajudou a se instalar em terras colombianas. Ele teria sido contatado pelos nazistas ainda durante a guerra para criar um refúgio nazista. Além disso, o homem teria guiado a comitiva a entrar pela península de La Guajira para se acomodar em uma de suas fazendas

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

E no Brasil?
No livro Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte, Simoni Renée Guerreiro Dias diz que Hitler se refugiu em Nossa Senhora do Livramento, cidadezinha em Mato Grosso onde ele teria morrido, na clandestinidade, em 1984. Uma foto ao lado de uma mulher negra, com quem ele seria casado, é a principal “prova” da permanência do ditador na cidade, onde ele era conhecido como Adolf Leipzig

Santa ajuda
Para escapar das tropas russas e se alojar em Mato Grosso, Hitler teria contado com uma importante ajuda: o Vaticano. A Igreja teria dado ao Führer um mapa para encontrar um tesouro jesuíta enterrado próximo a Nossa Senhora do Livramento. Para conseguir chegar ao Brasil sem ser descoberto, Hitler teria passado antes por Argentina, Paraguai e Rio Grande do Sul


(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Por outro lado…
Mesmo sem corpo, tudo indica que Hitler morreu, sim, em 1945
De fato, nazistas dados como mortos fugiram para a América. Além de Mengele, Adolf Eichmann (Argentina), Herbert Kucurs (Rio de Janeiro) e Walter Rauff (Chile) foram alguns figurões encontrados no continente
Quanto a Hitler, a teoria mais aceita pelos historiadores é a de que ele de fato se matou em 30 de abril de 1945 junto de sua companheira, Eva Braun. Mesmo sem evidências físicas da morte, “o mundo precisava de um responsável por todo o mal da guerra”, diz o historiador Oldimar Cardoso
Por mais que o corpo do ditador jamais tenha sido encontrado após a guerra, havia testemunhas, como Rochus Misch, guarda-costas de Hitler. Em entrevista à revista alemã P.M History, ele diz que encontrou o cadáver do patrão no bunker, logo após o suicídio
A investigação do FBI de fato ocorreu: os documentos vieram a público em 2014. Mas nada foi encontrado sobre a suposta permanência de Hitler na Argentina, pois havia “escassa informação” a respeito
O FBI também não encontrou informações suficientes para seguir com a investigação da suposta permanência de Hitler em Washington. Mas, francamente, quem iria se esconder logo na capital de um dos países inimigos na guerra?
A tese de Hitler no Brasil é desacreditada por historiadores. A própria Simoni justifica que encontrar evidências físicas é difícil. Ela investigou o suposto túmulo do ditador em Mato Grosso, mas não encontrou material para fazer exames de DNA
O Vaticano é uma cidade-Estado soberana que, por decreto, se mantém neutro em assuntos internacionais. Segundo documentos oficiais, o papa Pio 12 se absteve de tomar partido na guerra. Mas se isso aconteceu na prática, aí é assunto para outra Teoria da Conspiração…

CONSULTORIA Oldimar Cardoso, doutor em didática da história pela USP, e Simoni Renée Guerreiro Dias, pesquisadora e autora de Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte
Revista Mundo Estranho

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A liberdade de zombar Hitler




A Batalha de Berlim foi a última ocorrida em solo europeu durante a 2ª Guerra Mundial. Na época, a ofensiva soviética contra as forças alemãs tinha como objetivo acabar com o grande conflito antes que os Aliados Ocidentais entrassem na capital do Reich. Nos últimos dias de embate, perante a queda inevitável do seu império, Hitler supostamente cometeu suicídio. Quase em seguida, Berlim se entregou e, sem nenhuma alternativa, em 7 de maio de 1945, a Alemanha assinou a rendição.

Um dia depois, o mundo comemorou o fim da guerra. Nessa altura dos acontecimentos, o Reichstag, símbolo máximo do nazismo, já estava totalmente danificado. Mas no dia 6 de julho de 1945, cerca de 2 meses após a vitória aliada, um mês antes do ataque nuclear a Hiroshima e no dia seguinte à libertação das Filipinas, ele voltou à cena, graças a uma imagem inusitada captada pelo fotógrafo Fred Ramage.

Em um momento de descontração, soldados russos e aliados tanto do exército britânico quanto do americano que estavam em Berlim, superaram suas diferenças e caíram na gargalhada, quando espontaneamente três deles galgaram as ruínas da famosa varanda de Berlim, a partir do qual o ex-líder nazista havia proclamado seu império de mil anos, apenas para imitá-lo.

Apesar do tom irônico, a Imagem para a História dessa edição extrapola esse aspecto, ao simbolizar a liberdade de jovens soldados que apenas queriam demonstrar a alegria, mesmo que de forma grotesca, de ter sobrevivido às atrocidades do grande conflito e, em cumplicidade, resolveram zombar do Führer, homem que, por um longo período, tinha imposto a eles a terrível convivência diária com a morte.
Revista Leituras da História

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Em busca da “guerra boa” dos pracinhas

Historiadores advertem que a FEB deixou legado de cidadania

CARLOS HAAG


A FEB parte para a Itália e soldados se despedem de suas famílias, em foto de abril de 1944

Há exatos 70 anos, no dia 13 de agosto de 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira (FEB). As tropas saíram para o combate no dia 2 de julho de 1944. Pouco antes de o navio-transporte General Mann partir, com 5.075 soldados a bordo, Getúlio Vargas despediu-se dos “pracinhas”: “Soldados da Força Expedicionária. O chefe do governo veio trazer-vos uma palavra de despedida, em nome de toda a nação. O destino vos escolheu para essa missão histórica de fazer tremular nos campos de luta o pavilhão auriverde. É com emoção que aqui vos deixo os meus votos de pleno êxito. Não é um adeus, mas um ‘até breve’, quando ouvireis a palavra da pátria agradecida”.

No retorno, em 1945, a promessa não foi cumprida. “A gestão da desmobilização dos pracinhas foi politicamente conservadora a fim de evitar a participação dos expedicionários nos conflitos de poder do Estado Novo com um progressivo esquecimento social dos expedicionários. Os veteranos foram abandonados pelas autoridades civis e militares e a legislação de benefícios foi apenas praticamente ignorada e houve uma apropriação crescente dos benefícios destinados apenas aos combatentes por não expedicionários”, explica o historiador Francisco César Alves Ferraz, da Universidade Estadual de Londrina e pesquisador visitante da University of Tennessee. Ferraz trabalhou a reintegração social dos pracinhas em A guerra que não acabou (Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2012) e, mais recentemente, nas pesquisas A preparação da reintegração social dos combatentes estadunidenses da Segunda Guerra Mundial (1942-1946) e A reintegração social dos veteranos da Segunda Guerra Mundial: estudo comparativo dos ex-combatentes do Brasil e dos Estados Unidos (1945-1965).

Segundo o pesquisador, diferentemente dos ex-combatentes da Europa e da América do Norte, que fizeram de suas expressões públicas movimentos sociais organizados (o que tornou possível a conquista de benefícios e de reconhecimento social), os veteranos, também pelo seu pequeno número, tiveram pouco sucesso em chamar a atenção da sociedade e do aparelho estatal para seus problemas. Ferraz, que analisou a diferença da reintegração dos ex-combatentes americanos e brasileiros, lembra que, já em 1942, foram encomendados estudos, realizados por diversos órgãos do governo dos EUA, Forças Armadas, comissões do Congresso e iniciativa privada. “Um dos resultados mais expressivos foi o conjunto de leis chamado de G.I. Bill of Rights, que concedia estudo técnico e superior gratuito aos veteranos, transformava o governo federal em fiador de empréstimos bancários e concedia auxílio-desemprego e assistência médica gratuita para os que estiveram em serviço ativo em guerra por pelo menos 90 dias.

Por isso o Departamento de Guerra americano enviou, em 6 de abril de 1945, correspondência ao general comandante das forças do Exército dos EUA no Atlântico Sul, sob as quais os brasileiros estavam subordinados, alertando para a inconveniência da desmobilização imediata da FEB quando do seu retorno ao Brasil. “Uma vez que é a única unidade do Exército brasileiro, inteiramente treinada pelos EUA, considera-se que tem grande valor como um núcleo para o treinamento de outros elementos do Exército brasileiro e como uma contribuição potencialmente valiosa do Brasil à defesa hemisférica”, observa o documento. O aviso já refletia os rumores, iniciados a partir de março de 1945, de que as autoridades militares brasileiras pretendiam desmobilizar sumariamente a FEB, o que aconteceu efetivamente.
Tomada de Monte Castelo pelo Regimento Sampaio, em imagem de fevereiro de 1945

“O Exército fez o possível para marginalizar e desconsiderar quem esteve na linha de frente. Havia enorme preconceito e inveja daqueles que estiveram com a FEB. Toda a experiência adquirida foi desprezada, contrariando o conselho dos EUA para que se vissem os expedicionários como núcleo de um esforço de modernização e renovação do nosso Exército”, analisa o historiador Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que trabalha o tema, entre outros, na pesquisa atual Reintegração social do ex-combatente no Brasil: o caso da Legião Paranaense do Expedicionário (1945-1980). “Na ânsia de se livrarem da FEB, tida como politicamente não confiável pelo Estado e pelos militares, os pracinhas foram rapidamente desmobilizados sem que tivessem se submetido a exames médicos, que mais tarde seriam fundamentais para que obtivessem pensões e auxílios no caso de doenças ou ferimentos adquiridos no front, lembra o professor. Havia temores políticos: a ameaça que representava para o Exército de Caxias esse novo tipo de força militar, mais profissional, liberal e democrático; o medo de que os oficiais febianos pudessem se tornar o fiel da balança político-eleitoral e fossem cooptados pelos comunistas; acima de tudo, temia-se que os expedicionários, entre os quais Vargas tinha grande popularidade, pudessem apoiá-lo e empolgar a população para soluções diferentes daquelas do pacto conservador das elites políticas para a sucessão do antigo líder do Estado Novo.

O Comando Brasileiro, no Aviso Reservado de 11 de junho, emitido pelo Ministério da Guerra e assinado pelo ministro Dutra, observava que: “Não obstante reconhecer o interesse do público, fica proibido, por motivo de interesse militar, aos oficiais e praças da FEB fazer declarações ou conceder entrevistas sem autorização do Ministério da Guerra”. Para Ferraz, a proibição de falar sobre o histórico das ações é um ato de censura, não de segurança. O objetivo parece ter sido “quebrar o impacto” da chegada da FEB, evitar as declarações que pudessem embaraçar a instituição militar ou envolvê-la nas questões políticas que fermentavam naquele momento.

Isso, segundo ele, fica mais evidente quando se compara com as instruções emitidas ao Grupo de Caça da FAB, enviadas pelo Comando Americano: “Quando você chegar à sua cidade natal, provavelmente a imprensa local desejará entrevistá-lo. Você terá liberdade de falar de suas atividades aos jornalistas, mas não deve especular sobre o futuro de nossas unidades. A guerra continua no Oriente Próximo. Estamos interessados, porém, que a sua história seja contada várias vezes, nos EUA e no Brasil. Boa sorte no futuro”, assinado Charles Myers, brigadeiro do ar.


A luta que levou à vitória de Monte Castelo

A FEB não era bem-vinda também por boa parte dos membros do Exército, os militares de carreira que conseguiram, de alguma forma, escapar da ida à guerra. “O envio de expedicionários, os cidadãos-soldados, era motivo de piada nos quartéis. Quando eles voltaram com prestígio popular, muitos sentiram que poderiam ‘ficar para trás’ em suas carreiras e se iniciou uma conspiração surda da maioria que temia ser ultrapassada em suas promoções e cargos”, observa Dennison Oliveira.

Ferraz, na comparação entre americanos e brasileiros, mostra como um dos pontos importantes na reintegração de veteranos dos dois países foi como lidar com o passado, que trazia justamente essas questões políticas associadas aos ex-combatentes. No caso nacional, a última guerra externa em que houve mobilização de jovens que não eram militares regulares foi a Guerra da Tríplice Aliança (1856-1870), cujo retorno à sociedade foi longe do satisfatório, com a maioria dos veteranos indo parar no Asilo de Inválidos da Pátria. “Uma consequência não planejada pelo Império foi o crescimento da participação ativa de oficiais, inclusive de baixa patente, na política do país. O legado disso foi mais o receio das autoridades pelo protagonismo político dos combatentes do que o reconhecimento dos deveres da sociedade e do Estado com os veteranos de guerra, nota Ferraz. Nos EUA, as mobilizações da Guerra Civil e, em especial, na Primeira Guerra Mundial”, quando os veteranos tiveram suas questões potencializadas com a Depressão e explodiram distúrbios nas ruas americanas, ensinaram as autoridades como fazer a reintegração de seus jovens.

“Eles viram que o perfil dos combatentes recrutados influi diretamente na reintegração social: as chances de sucesso na reentrada da vida profissional e da cidadania aumentam com o maior grau de formação escolar e qualificações profissionais. E também quanto mais igualitário e socialmente distribuído for o recrutamento, melhores as condições de uma recepção positiva da sociedade”, explica Ferraz. No caso da FEB, lembra o pesquisador, todo um arsenal de “jeitinhos” foi utilizado para tirar da unidade filhos de classes mais abastadas. Mesmo assim, apesar da maioria pobre e de baixa escolaridade, a força brasileira exibiu uma amostragem melhor que a média do país.


Desfile de pracinhas na Itália, em 1945

“Sargentos, cabos e soldados eram majoritariamente de origem urbana, alfabetizados, e apresentavam robustez e resistência física, a ponto de a FEB precisar confeccionar uniformes maiores que os do fardamento normal do Exército”, observa o historiador Cesar Campiani Maximiano, pesquisador do Núcleo de Estudos de Política, História e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), autor, entre outros, de Barbudos, sujos e fatigados: soldados brasileiros na Segunda Guerra (Grua, 2010). “Do total de praças, 80,7% eram originários das regiões Sul e Sudeste do país. Os convocados oriundos do Nordeste, escolhidos por suas ótimas condições de saúde e grau de instrução, eram, na maioria, estudantes que serviram como cabos e sargentos, incorporados para suprir a deficiência de graduados experientes”, nota o autor.

Nos EUA, dos primeiros 3 milhões convocados, 47% estavam abaixo dos padrões; entre 1942 e 1943, dos 15 milhões de examinados, 32,4% foram rejeitados por causas físicas ou psiquiátricas e um terço considerado “inaptos para aproveitamento em qualquer grau”. Os americanos queriam apenas o melhor e adotaram critérios rigorosos para isso. A diferença mais gritante, porém, é que não houve distinção de classe no recrutamento para a guerra e um rigoroso controle no sistema de insenções, ao lado de campanha de mobilização da opinião pública, fez com que se recrutassem até o final da guerra mais de 16 milhões de soldados. “Praticamente cada ramo familiar americano tinha um combatente entre os seus, o que ajudou na compreensão dos deveres da sociedade para com aqueles que lutaram”, avalia Ferraz.

No Brasil, apesar das festas, os expedicionários foram rapidamente desmobilizados. “A razão foi política: tanto as autoridades do Estado Novo em decadência quanto as forças políticas de oposição temiam o pronunciamento político dos expedicionários, no que poderia ser a repetição do envolvimento político dos militares no século anterior após a Guerra da Tríplice Aliança”, fala Ferraz. A pressa foi tão grande em acabar com a FEB que os pracinhas já saíram da Itália com seus certificados de baixa e quando chegaram ao Brasil já não estavam mais sob a autoridade do comandante da FEB, mas do comandante militar do então Distrito Federal, não exatamente simpatizante dos febianos.

“A partir de então estavam à própria sorte. Traumas psicológicos de todo o tipo e rotina da luta de sobrevivência no mercado de trabalho dificultaram o retorno dos milhares de brasileiros que estiveram nos campos de batalha. As primeiras leis de amparo só foram aprovadas em 1947”, afirma Dennison de Oliveira. A maioria delas não foi sequer cumprida. Algumas, por sua vez, caíram mal entre os ex-combatentes, como o decreto-lei assinado por Vargas em julho de 1945 que concedia anistia aos militares da FEB, cujo efeito prático foi anistiar aqueles que desertaram no Brasil ao período anterior à campanha militar. Para Oliveira, o ápice foi a chamada Lei da Praia, assinada em 1949 por Dutra. “De acordo com ela, qualquer pessoa enviada à ‘zona de guerra’ tinha direito aos auxílios e pensões. A lei incluía vias navegáveis e cidades no litoral brasileiro que se encontravam nessa ‘zona de guerra’. Assim, seja o soldado que corria perigo e lutava no frio dos Apeninos, seja o bancário que fora transferido para uma cidade litorânea, todos recebiam o mesmo”, diz o historiador.

“Claro que nos EUA também houve dificuldades de reintegração, mas houve um esforço da sociedade em receber os milhões de retornados da guerra. Os seus combatentes seriam conhecidos como a ‘boa geração’, aquela que garantiu a vitória contra a barbárie. Para os veteranos brasileiros, esse reconhecimento não aconteceu”, observa Ferraz. Segundo o historiador, a busca por apoio institucional às necessidades dos veteranos levou-os à aproximação com as Forças Armadas e, logo, com suas práticas políticas, inclusive o golpe de 1964. Transformados em símbolos e apoiadores do regime militar, viraram alvo dos críticos da ditadura do pós-64. “Ao invés de colocar em questão essa identidade entre Exército, governo militar e FEB, esses críticos preferiram investir contra a memória expedicionária, o que só reforçou os laços entre o Exército e os veteranos”, observa Ferraz.

Não se pode negar, é claro, que muitos pracinhas apoiaram o regime militar, até porque na primeira geração dos golpistas tinha alguns febianos, como o primeiro presidente do regime militar, Castello Branco, cuja ascensão ao poder deu a esperança aos veteranos de que seriam “vingados”. Mas as memórias desses combatentes revela outras histórias, como verificou o historiador e brasilianista israelense radicado nos EUA Uri Rosenheck, da Emory University, que pesquisou a FEB em Fighting for home abroad: remembrance and oblivion of World War II in Brazil. Entre os seus objetos de estudo estão as memórias dos ex-combatentes e os monumentos que celebram os expedicionários em “espaços cívicos” das cidades.


 
As tropas da FEB são recebidas na avenida São João em 1945

“No caso dos pracinhas, as memórias são apenas lembranças do passado, mas, por meio de um olhar analítico, elas se revelam como instrumentos de crítica política contemporânea. No caso brasileiro, ler as memórias de guerra é ver como esses homens desafiavam a ditadura militar e condenavam a política armada”, explica Rosenheck, que passou em revista as 150 memórias escritas sobre a FEB. Segundo ele, apesar de publicamente defenderem as suas lideranças, os cidadãos-soldados criticam os militares.

“A maioria das observações tem a ver com a ineficiência do Exército brasileiro, comparado com o similar americano, e o contraste entre os oficiais regulares e reservistas. Critica-se a falta de logística, como eles sofriam no frio por falta de uniformes apropriados, como tiveram que pagar por suas passagens de trem enquanto esperavam para embarcar para o Rio e mesmo a carência de identificações, as dog-tags, que não eram dadas a eles”, conta o brasilianista. As críticas mais ácidas vão para os oficiais do Exército regular, ou seja, o Exército de Caxias em oposição aos voluntários combatentes da FEB. “Eles lembram como esses primeiros tinham percepções antiquadas sobre as relações entre pracinhas e oficiais, sobre a ética e a moral do corpo de oficiais e sobre o profissionalismo em combate real.” Alguns recordam que foram roubados por seus superiores e que decisões eram arbitrárias e baseadas em que tipo de presente poderiam dar para seus oficiais.

O mesmo acontecia quando o assunto era racismo. “Em muitas memórias, os soldados se dizem horrorizados com o racismo dos militares americanos, mas em muitos casos nessas memórias se pegam ‘lapsos’ em que se percebe o racismo dos próprios pracinhas. Mas o importante é se perceber que eles preferem atribuir casos de preconceito a ‘ordens de superiores’. Assim, tudo fica como sendo ‘coisa de americano’ ou ‘dos superiores’, separando ‘os soldados’, ‘a FEB’ e por extensão ‘os brasileiros’ dos outros responsáveis por tais atos horríveis, seja pessoas domésticas ou estrangeiras.” Para Rosenheck, as acusações contra comandantes como racistas e incompetentes podem ser entendidas como um ataque implícito sobre as Forças Armadas e seu papel na sociedade. “A crítica não precisa ser explícita para ser efetiva. O fato de que veteranos da maior força de combate militar desde a Guerra do Paraguai critiquem o Exército dá a suas observações credibilidade e força. Tudo está centrado nos militares, não no governo político, na sociedade civil, o que só reforça essa leitura.”

Rosenheck também estudou os monumentos dedicados à FEB, com conclusões semelhantes. “Apesar de dizerem que os pracinhas foram esquecidos, há 192 monumentos dedicados à FEB, com 451 mortos, ou seja, quase três monumentos para cada sete mortos”, conta. São construções que não celebram mortos, mas celebram os vivos, os que voltaram, uma visão pouco militarista. As Forças Armadas estão quase ausentes nos textos que acompanham esses monumentos, com escritos que destacam a democracia, a liberdade, o civismo. Dos 192, 120 foram construídos entre 1945 e 1946, e 32 antes da instalação da ditadura militar. São poucos os que mostram soldados (a maioria é de obeliscos) e a representação visual deles não é de combate. “A narrativa não comunica a importância do Exército ou seu papel na construção da nação, mas os valores de uma sociedade civil”, diz o historiador. “Temos que reconhecer que as ligações da FEB com a história militar são importantes, mas há outras narrativas. É preciso criar ligações entre a história da FEB e outros aspectos da história e sociedade brasileira como um todo”, avisa.
Revista FAPESP

Os indesejáveis

Política imigratória do Estado Novo escondia projeto de branqueamento

CARLOS HAAG

"Navio de emigrantes", de Lasar Segall (1939/41), pintura a óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm

Quando, em 1995, o Arquivo Histórico do Itamaraty foi aberto ao público, parte da documentação revelou que a instituição havia participado da política racista e discriminatória de estrangeiros do Estado Novo, colocando o passado do Ministério das Relações Exteriores na incômoda posição de “porteiro do Brasil”. Uma nova pesquisa, Imigrante ideal (Civilização Brasileira), do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense (UFRF), isenta o Itamaraty de toda a responsabilidade por essa política restritiva. “É um equívoco historiográfico, já que se ignora que, entre 1941 e 1945, o Serviço de Visto estava alocado no Ministério da Justiça, o real responsável pela palavra final da aceitação ou não de estrangeiros”, diz Koifman. Esse foi o único momento na história da República que a atribuição não esteve no âmbito do Itamaraty.

O pesquisador afirma que é a primeira vez que se analisa o papel central do Ministério da Justiça, de seu titular, o jurista Francisco Campos (1891-1968), e de Ernani Reis (1905-1954), parecerista do ministério, burocrata que, através de sua interpretação, dizia, baseado na legislação, quem entrava ou não no país. Suas sugestões quase sempre eram aceitas pelo ministro e se baseavam na seleção dos imigrantes “desejáveis”, que se encaixassem no projeto de “branqueamento” da população brasileira da ditadura Vargas. Negros, japoneses e judeus, assim como idosos e deficientes, não estavam nos padrões estabelecidos e eram recusados como “indesejáveis”.

A pesquisa de Koifman começou quando ele encontrou o decreto-lei 3.175, de 1941, que passava o poder de decisão de concessão dos vistos do Ministério das Relações Exteriores para o Ministério da Justiça. Mas o Serviço de Visto em si não foi criado por decreto, embora existisse com papel timbrado e tudo. Não foi, porém, instituído formalmente e sua verba vinha de outros órgãos. “Ele foi criado para isolar seus técnicos e tomar as decisões de forma puramente técnica e fria. Eles achavam mais fácil negar o visto do que ter de decidir no porto”, conta o historiador. “Todo o processo não chegou a conhecimento público e é nele que o Francisco Campos explica para Vargas por que o Brasil deveria restringir a imigração”, fala.

Funcionários do Itamaraty eram obrigados a informar o ministério com detalhes sobre a pessoa que pedia o visto e aguardar o parecer do ministro para concedê-lo ou não. A desobediência de diplomatas às diretrizes do ministério provocava ação direta de Vargas, que poderia determinar a instauração de inquérito administrativo ou até a demissão sumária do infrator. “Esse controle aumentou quando a situação europeia se agravou com a guerra e a escalada do antissemitismo na Alemanha. Judeus e perseguidos políticos começam a sair da Europa, gerando um aumento da demanda nos consulados. Nesse momento, a política imigratória brasileira se voltou contra eles.”

“No início do Estado Novo cabia ao Itamaraty gerir a política de vistos, mas isso mudou a partir de 1941. Essa troca refletia o debate na elite brasileira sobre qual era o imigrante ‘desejável’ para o ‘aprimoramento’ do povo brasileiro”, fala Koif-man. Vargas era simpatizante aberto do ideário eugênico. Em 1930, num discurso de campanha à Presidência, avisou: “Durante anos pensamos a imigração apenas em seus aspectos econômicos. É oportuno obedecer agora ao critério étnico”. Em 1934, durante a Constituinte, o lobby eugenista, bem organizado, conseguiu a aprovação de artigos baseados nas teorias racistas. O alvo, então, era o japonês. De forma silenciosa foi institucionalizado um sistema de cotas para cada nacionalidade que foi manipulado para restringir a entrada de orientais no país.

“O Brasil não foi o único a adotar medidas restritivas contra imigrantes e até ‘demorou’ a implantá-las. Democracias como os EUA e o Canadá já o faziam nos primeiros anos da década de 1920”, lembra o autor. Mas, uma vez iniciado o processo, foram rápidos. Não satisfeitos com as leis de 1934, setores da elite e intelectuais exigiram uma maior intervenção do Estado e uma seleção mais rigorosa na política imigratória. O resultado foi o decreto-lei 3.010, de 1938: exigia-se do solicitante de vistos que se apresentasse pessoalmente ao cônsul para que o diplomata visse o candidato e relatasse se era branco, negro, ou se tinha alguma deficiência física. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, conta o pesquisador.

O estrangeiro ideal era branco, católico e apolítico. A preferência pessoal de Vargas era pelos portugueses. “A maioria dos imigrantes vindos de Portugal era de origem modesta e instrução limitada, acostumados à ditadura salazarista”, diz Koifman. Europeus, mas sem “ideias dissolventes”, ao contrário dos grupos intelectualizados originários da Alemanha, França, Áustria, entre outros países, que produziam reflexões em jornais e livros sobre as mazelas nacionais. O ministro da Justiça detestava particularmente os intelectuais estrangeiros e chegou a propor o fechamento total do Brasil à imigração enquanto durasse a guerra na Europa, medida que o pragmatismo de Vargas rejeitou.

“O Brasil, que não contribuiu para que se criassem na Europa as perseguições e as dificuldades de vida, não pode se converter numa fácil hospedaria da massa de refugiados. Não nos serve esse white trash, rebotalho branco que todos os países civilizados refugam”, argumentava Campos, também conhecido como “Chico Ciência”. “Um dos inspiradores intelectuais do Estado Novo foi influenciado pelos fascismos português e italiano, defendendo uma legislação imigratória calcada nas teorias eugênicas americanas.” Para Campos, na contramão do entusiasmo pela imigração em voga no país desde o século XIX, estrangeiros só atrasavam o desenvolvimento do país, “parasitas” que nada contribuíam para o progresso nacional. “Os judeus, por exemplo, só se dedicavam a atividades urbanas, ao pequeno comércio. O problema é que Campos e Reis logo perceberam que essas eram as mesmas atividades às quais os portugueses se dedicavam, apontando a Vargas essa contradição, para ira do ditador, que queria imigrantes de Portugal”, fala Koifman.

O que abalou Campos, cuja ideologia não era isenta de interesses pessoais. Chico Ciência disputava as atenções de Vargas com Oswaldo Aranha, então à frente do Itamaraty. Para atacar o rival, martelava a tecla de que, apesar das restrições, estrangeiros continuavam a entrar no Brasil, prova da incompetência do Itamaraty na gestão da questão imigratória. Bem-sucedido, convenceu o ditador da validade de suas ideias e ganhou o poder de seleção de “desejáveis” e “indesejáveis” para o seu Setor de Vistos. Não conseguiu, porém, impor o ideário eugênico que admirava, sendo obrigado a “tropicalizá-lo”. “As raças admiradas pelos americanos eram minoria num país composto majoritariamente por grupos considerados ‘inferiores’”, lembra o historiador. Isso levou Campos a se concentrar no combate aos imigrantes “infusíveis” que, supostamente, tinham um grau de miscigenação baixo e, logo, não serviam ao projeto de “branqueamento” por miscigenação, entre esses, os judeus.
Passaporte cancelado pelos nazistas, mas aceito pelas autoridades brasileiras

“Mas as restrições à entrada de judeus, tema recorrente nos estudos sobre a política imigratória do Estado Novo, devem ser vistas num contexto maior, em que vários outros grupos foram igualmente classificados como “indesejáveis”. Se a condição de judeu dificultava a emissão de um visto, a comprovação da ausência dessa condição tampouco era garantia de um visto”, avisa Koifman. Para o pesquisador, o antissemitismo de um fascista como Campos não era análogo ao racismo dos nazistas. “Após a Intentona Comunista de 1935 o Estado adotou uma visão genérica dos judeus que os associava ao comunismo, um antissemitismo de fundo político compartilhado por Vargas”, observa o pesquisador. Nas palavras de Campos: “Os judeus se tem aproveitado do descuido das autoridades brasileiras. Embora o Brasil não seja fascista ou nacional-socialista, o certo é que esses elementos comunizantes, socialistas, esquerdistas ou liberais leem por uma cartilha que está longe de nos convir”.

Sem negar o antissemitismo de membros individuais do governo e da sociedade brasileira, Koifman acredita que o critério adotado mais importante, ao lado da “ameaça vermelha”, era a capacidade, ou não, da suposta capacidade de “fusão” dos imigrantes. “A preocupação estava no potencial de união de europeus brancos com descendentes de africanos e indígenas, condição necessária para conseguir o ‘aprimoramento’ das gerações futuras”, fala. “O Estado Novo não queria reproduzir o racismo, então muito em voga nos EUA e na Europa. A segregação deveria ser evitada a qualquer custo, pois dificultaria a miscigenação, força-motriz do ‘branqueamento’”, diz. Vargas não tolerava racismos contra grupos étnicos dentro do Brasil.

Esse cuidado também se devia à manutenção de uma boa imagem internacional, para agradar, em especial, os EUA, cuja política racial para os outros não refletia a sua realidade interna. “Ser acusado de racista ativo, nas décadas de 1930 e 1940, colocava qualquer nação, diplomata ou intelectual, em posição constrangedora de alinhamento com a política de exclusão da Alemanha nazista”, explica a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP) e autora do estudo referencial Antissemitismo na era Vargas (1987). “Ainda assim o Estado Novo, por meio do Ministério da Justiça e de uma política nacionalista, não admitia fissuras, combatendo grupos migrantes, vistos como elementos de ‘erosão’. O ideal do regime era a homogeneidade em detrimento da diversidade”, continua.

Ambiguidades
Para o brasilianista Jeffrey Lesser, da Emory University e autor de A questão judaica no Brasil (1995), é preciso cuidado ao retratar as políticas de imigração da época apenas com base em documentos oficiais, do Itamaraty ou do Ministério da Justiça. “Os escritos dão conta das ambiguidades que regiam essa política. Como explicar, por exemplo, a entrada expressiva de judeus logo após os decretos restritivos e a absorção expressiva desses grupos ao lado de árabes e japoneses na sociedade brasileira em fins dos anos 1930”, questiona. Para ele, houve muita incongruência entre discurso e prática, gerando curiosos paradoxos. “Os imigrantes viraram o discurso eugênico de brancura, que os discriminava, em favor de seus interesses e conseguiram conquistar um espaço na sociedade. Perceberem que ser branco no Brasil era melhor do que ser negro e também adotaram a retórica eugênica.”

“Há uma série de boletins policiais sobre brigas entre estrangeiros e negros. Imigrantes pobres não queriam ser vistos como os novos escravos e afirmavam sua superioridade atacando os negros”, conta Lesser. Se os documentos contam uma história, no cotidiana do Estado Novo o movimento xenófobo não funcionou como pretendido. O brasilianista não nega o discurso contra a imigração e o antissemitismo das elites brasileiras, mas, ao estudar casos reais, viu que a ação do governo era mais flexível do que letra “dura” dos papéis timbrados. “Um bom exemplo é que, antes de colocar em vigor, em 1934, as leis que restringiam a entrada de japoneses, o governo brasileiro avisou o ministro das Relações Exteriores do Japão. Um diplomata brasileiro contou ao ministro japonês o que estava para acontecer e o acalmou prometendo que os orientais continuariam a entrar no Brasil, utilizando cotas de países como a Finlândia, que praticamente não eram usadas”, conta. Lesser reuniu outros casos do “jeitinho brasileiro” de tratar os entraves da legislação.

Para o americano, a história mais rocambolesca dessa flexibilidade que não se lê nos arquivos oficiais é a cooptação secreta pelo Itamaraty de funcionários do consulado alemão, para que eles falsificassem a assinatura do cônsul, liberando imigrantes para entrar no Brasil. “Numa palestra chamei o cônsul de nazista e pessoas da plateia ficaram indignadas, mostrando vistos assinados pelo cônsul, a quem chamavam de herói, sem imaginar que eram falsificações”, conta.

Koifman respeita a hipótese de Lesser sobre uma “negociação” das leis, mas afirma que os documentos do Serviço de Visto não sustentam essa visão. “A lei foi, sim, aplicada, e a maleabilidade estava condicionada à origem do imigrante. Basta ver a questão pouco conhecida dos suecos: eles tinham colônia representativa no país e tampouco se interessavam em imigrar para o Brasil, mas o Serviço de Visto estava particularmente interessado na vinda deles” observa.

Como revela o caso de um sueco que passou mal numa viagem, desembarcou para se tratar e, quando percebeu, já estavam tratando do seu visto. Ele não queria ficar no país. “Ao mesmo tempo, muitas pessoas com todas as condições de emigrar, que tinham os documentos necessários, enfrentavam medidas protelatórias e pareceres que dificultavam sua entrada, se não fosse o ‘imigrante ideal’. Isso mostra como os critérios se baseavam na bandeira da eugenia”, explica. Para Koifman, isso desmascara o discurso nacionalista e a flexibilidade com as leis, reduzidos à sua real dimensão: a utopia de aprimoramento étnico. 
 Revista FAPESP

quinta-feira, 20 de março de 2014

Marcha rumo à catástrofe

No dia 22 de junho de 1941, três milhões de soldados alemães invadem a União Soviética. A investida, há 70 anos, durou meses e fez mais vítimas do que qualquer outra, constituindo um ponto de inflexão na História mundial. Após alguns sucessos iniciais, as forças alemãs fracassam , devido à paranoica megalomania de Hitler e à mais abnegada resistência da União Soviética
Por Till Hein e Jonathan Stock

1941 - O ano fatídico (I)
A campanha militar de Hitler na Rússia

A fumaça de uma casa de fazenda em chamas escurece o céu perto de Charkow, no nordeste da Ucrânia. Aparentemente irrefreável, e de início com uma velocidade espantosa, a máquina militar alemã avança rumo ao leste




No dia 22 de junho de 1941, quando tem início o ataque à União Soviética, Fritz Farnbacher, oficial da 4ª Divisão de Panzers (blindados), escreve em seu diário que a maioria de seus camaradas se alegraria "imensamente se finalmente houvesse combates e muito barulho de novo". E que ele está feliz por poder trocar "as atividades muitas vezes enfadonhas do serviço cotidiano" por "uma guerra de verdade".

Nem meio ano depois, ele a chamará de "a mais desgraçada de todas as guerras".

Farnbacher é um dos mais de 3 milhões de soldados da Wehrmacht, as Forças Armadas alemãs, que invadem o maior país do planeta. A ofensiva fará mais vítimas do que qualquer outra da História: cerca de 27 milhões de soviéticos morrem em consequência da invasão de seu território; entre eles, quase 18 milhões de civis, aproximadamente 30% de todas as vítimas da Segunda Guerra Mundial. E durante esse avanço dos alemães, um número ainda maior de órfãos, viúvas e feridos fica para trás, nas mais de 1.700 cidades destruídas pelos bombardeios e nas 70.000 aldeias queimadas da União Soviética.

Trata-se de uma guerra que difere de todas as outras campanhas militares da Modernidade, pois não consiste apenas em um esforço de conquista, mas também numa incursão destrutiva contra porções enormes da população. Uma guerra planejada para ser exatamente assim.

NO DIA 30 DE MARÇO DE 1941
, Hitler explica durante 2 horas e meia, a cerca de 100 de seus generais mais graduados, na nova Chancelaria do Reich, em Berlim, a "luta entre duas visões de mundo", na qual o "bolchevismo" precisa ser destruído.

A "condução da guerra contra a Rússia" deve ser diferente do esquema adotado até então. Nas campanhas militares até aquele momento a justiça para com todos os "criminosos" nos territórios ocupados teria sido "humana demais".

Não se escuta nenhum protesto do alto comando do Exército. Rotineiramente, as explanações do Führer são traduzidas em ordens; diversos esboços operacionais são elaborados e avaliados de diversos ângulos. E então a direção da Wehrmacht emite duas ordens que custarão a vida a centenas de milhares de pessoas.

A primeira permite "liquidar sem dó" os francoatiradores, em vez de levá-los a um tribunal de guerra, como até então fora feito. No caso de a identificação dos atacantes inimigos se revelar impossível, devem ser tomadas "medidas de violência coletiva" contra cidades e vilarejos. Uma simples suspeita bastará para que sejam destruídas aldeias inteiras. Inversamente, crimes de guerra alemães serão tratados com benevolência, sem punições. Uma única exceção será feita: nos episódios de estupros e de pilhagens descontroladas.

A outra decisão se volta contra os comissários políticos soviéticos, aqueles funcionários comunistas destacados para acompanhar toda a unidade do Exército Vermelho e controlar seus integrantes. De acordo com as instruções para o ataque à União Soviética, eles não deverão ser tratados como prisioneiros de guerra, mas sumariamente fuzilados.

A ordem também rompe com a tradição de respeito pelo inimigo, que manda tratar prisioneiros com justiça. Alguns generais suspeitam que, difundida no campo de batalha, essa orientação aumentará a resistência de soldados inimigos. Mesmo assim, o corpo de oficiais expressa admiração por Hitler. Um tenente-general diz aos seus comandantes: "Na antiga Alemanha, uma ordem dessas teria sido impossível, porque ninguém teria tido a coragem de emiti-la".

As garras do Chanceler se estendem em direção aos celeiros, campos de petróleo e fundições de armas da União Soviética. Esta guerra deverá permitir à Alemanha criar um império que se estenderá do Atlântico aos Montes Urais e, com isso, garantir-lhe supremacia absoluta no mundo.

Somente uma sombra de dúvida, uma fugaz incerteza, acomete o líder do ataque, antes que soe a hora para o avanço das tropas. Em um círculo íntimo, Hitler admite: "Tenho a sensação de estar escancarando uma porta para um lugar escuro, nunca antes visto, sem saber o que se oculta atrás dele".

NO DIA 22 DE JUNHO DE 1941, às 03h15min, começa a ofensiva. A frente se estende por uma linha de quase 1.000km, do Mar Báltico até os Montes Cárpatos (10 dias depois, tropas romenas e alemãs atacarão a União Soviética partindo da Romênia, e assim ampliarão a frente para 1.500km). Nas florestas da Prússia Oriental e da Polônia, centenas de milhares de soldados se esconderam a apenas poucos quilômetros das tropas fronteiriças soviéticas, o plano prevê um ataque surpresa e os guardas da fronteira de fato não desconfiam de nada.


A Wehrmacht quer decidir sua "campanha militar russa" rapidamente, com 3.600 tanques. Mas em muitos lugares o avanço ocorre em estradas de chão batido. A areia penetra nos motores e resulta em mais avarias que acertos contra o adversário. Além disso, faltam mapas; as tropas avançadas são obrigadas a pedir orientações a camponeses, como na foto à direita, parte de um conjunto de coleções particulares descobertas várias décadas após o fim da guerra

Poucas horas antes de o avanço ter início, os alemães retiram a camuflagem de seus veículos, arrastam canhões para fora de seus esconderijos e os posicionam para funcionar. E então, bem mais de 3 milhões de soldados da Wehrmacht cruzam a fronteira, acompanhados por 3.600 Panzers (blindados), 2.700 aviões e mais de 750.000 cavalos atrelados a canhões, veículos de abastecimento e ambulâncias. A maior força militar de ataque que jamais existiu.


ELA ESTÁ ORGANIZADA em três grandes exércitos: o Exército Norte deve atravessar a região do Báltico e avançar sobre Leningrado; o Exército Sul tem por função ocupar a Ucrânia; e o Exército do Meio está encarregado de tomar as cidades de Minsk e Smolensk, para em seguida conquistar Moscou.

Essas três formações estão compostas por 153 Divisões; unidades tão numerosas quanto pequenas cidades, ramificados em uma malha de regimentos, batalhões e companhias, cada qual com seus próprios cavalariços, padeiros, açougueiros e um serviço de correio de campanha.


A 4ª DIVISÃO DE PANZERS de Fritz Farnbacher luta como parte do Exército do Meio; sua tarefa é altamente arriscada. Com seus tanques eles devem romper o mais rápido possível a frente do Exército Vermelho, para cercar o inimigo.

A velocidade é decisiva, insistem seus comandantes incessantemente. Até o final de setembro essa campanha militar tem de ser vencida; para evitar que ela se estenda pelo período das chuvas, que enlameiam as estradas russas durante semanas a fio.

"Não existem paradas; pausas, só para reabastecer", escreve Farnbacher em seu diário. "As refeições são feitas durante a viagem, ou durante os breves intervalos de abastecimento. Só existe uma meta, um destino: Moscou!".

Mil e quarenta quilômetros os separam da capital soviética. Mas 3 semanas depois, serão somente 350km. Já nas primeiras horas do confronto a Wehrmacht conquista quase todas as posições soviéticas nas regiões de fronteira, onde estão estacionados quase 3 milhões de soldados do Exército Vermelho, além de mais de 10.000 tanques e 8.000 aviões de guerra. Mas ninguém alertou as tropas; para elas, o ataque é uma surpresa total, o ditador soviético Josef Stalin havia proibido seus generais de preparar uma defesa eficaz. Ele ignorara os inúmeros indícios de uma movimentação de tropas alemãs, e a possibilidade de um ataque iminente, tomando-os como uma campanha intencional de desinformação.

A metrópole de Brest-Litovsk, localizada diretamente atrás da fronteira soviética, é conquistada em poucos dias. Aqui são principalmente crianças, mães e avós que se rendem às tropas


As fotos coloridas apresentadas nessas páginas foram consideradas perdidas durante muito tempo. Elas se originam dos pertences de três soldados, e documentam o cotidiano da guerra atrás do front

Em visita aos territórios conquistados, o chefe da polícia alemã Heinrich Himmler encontra camponesas locais. Como comandante da SS (sigla de Schutzstaffel, algo como 'Tropa de Proteção') e chefe da polícia, ele é uma das lideranças da guerra contra a guerrilha. É ele também quem se encarrega da germanização dos territórios ocupados, faxina étnica que objetiva o extermínio e a expulsão da população nativa, particularmente dos judeus

Além disso, o Exército Vermelho está muito mal equipado; às vezes, 5 soldados compartilham o mesmo fuzil. Em outras unidades há tão poucas pás que os homens usam seus capacetes de aço para cavar trincheiras.

Seus superiores são também inexperientes. No final da década de 1930, Stalin havia mandado prender ou fuzilar mais de 80% dos oficiais mais graduados como supostos "delatores e inimigos do Estado". Três quartos dos atuais comandantes não estão nem há um ano em seus respectivos cargos.

Acompanhados em terra pelos corpos blindados e pela Infantaria, os bombardeiros Stuka (derivado da palavra alemã Sturzkampfbomber, avião bombardeiro de mergulho) também penetram profundamente em território soviético, realizando ataques a aeroportos, depósitos do exército e entroncamentos ferroviários. Somente nas primeiras horas, bombas alemãs destroem mais de 60 pistas de pouso da Força Aérea soviética. Milhares de aviões explodem em chamas ainda no solo.

As tropas da Wehrmacht são seguidas por quatro grupos de "comandos de operações", cada qual com até 1.000 homens, que vasculham os territórios já conquistados. Esses grupos são constituídos principalmente por unidades da Polícia e membros dos serviços de segurança. Todos estão subordinados à SS, Schutzstaffel (tropa de proteção, em português), a temida organização paramilitar do Partido Nazista de Adolf Hitler. Sua tarefa: "liquidar elementos hostis". Uma terminologia que quer dizer: o assassinato sistemático dos funcionários comunistas e da população judaica.


LABAREDAS ARDEM na noite do dia 27 de junho de 1941 na sinagoga de Bialystok, cidade na Polônia ocupada pelos soviéticos, 300km a oeste de Minsk. Pouco antes, homens do 309º Batalhão da Polícia, que entrara em Bialystok juntamente com uma Divisão de Segurança, haviam trancafiado centenas de judeus no edifício e ateado fogo nele. Em pouco tempo as chamas saltaram para as casas vizinhas na praça do mercado. Mais homens, mulheres e crianças morrem calcinados, sufocam na fumaça ou são mortos a tiros pela polícia durante a fuga. Ao todo, mais de 2.000 pessoas perdem a vida.

No dia seguinte, o tenente-general Johann Pflugbeil, 58 anos, um veterano da 1ª Guerra, originário da Saxônia, elogia todos os participantes do ataque à sinagoga por seu empenho. No diário de guerra, ele justifica a ação alegando que francoatiradores soviéticos tinham se escondido no prédio. Isso é mentira, mas depois do decreto referente a julgamentos criminais de guerra aplicável à campanha na União Soviética, seus homens estão isentos de punições.

A tarefa das divisões de segurança não são os combates no front. Em vez disso, eles devem proteger pontos de apoio de abastecimento, aeroportos e pistas de pouso no interior do país, além de vigiar prisioneiros de guerra e combater os partisans, guerrilheiros do movimento de resistência aos alemães. A maioria dos homens da 221a Divisão de Segurança de Pflugbeil têm mais de 35 anos, e, com essa idade, já não servem mais para o esforço na frente de batalha. A alguns deles foi dito, ainda em casa, que eles estavam sendo convocados "apenas para tarefas de vigilância".

Após a conquista de cidades e vilarejos pela Wehrmacht, os homens de Pflugbeil obrigam os habitantes judeus a usar retalhos amarelos de identificação em suas roupas. Eles os detêm em campos, organizam contingentes de trabalhos forçados ou, simplesmente, os fuzilam como pretensos guerrilheiros (partisans).

A ESTRATÉGIA DOS ataques surpresa na frente Ocidental parece funcionar: no fim de junho, o Exército Central cerca 20 divisões do inimigo. Até o dia 9 de julho as tropas alemãs fazem 325.000 prisioneiros de guerra, e capturam, ou destroem, 3.300 tanques. Em rápidas duas semanas, a liderança alemã já se vê bem próxima da vitória.

No dia 3 de julho, Stalin, que até então havia silenciado, conclama seus cidadãos através de um discurso pelo rádio, para "a grande guerra em defesa da Pátria". Em toda parte, seu povo deve se sublevar, inclusive atrás das linhas alemãs, em uma guerrilha, uma luta de partisans. Os alemães entendem a parte da mensagem dirigida a eles: os cidadãos soviéticos defenderão sua terra natal com todos os meios possíveis, nessas condições, os agressores não podem contar com o respeito aos direitos dos povos. Hitler não se importa: "A guerra de guerrilha", explica ele em uma reunião, "nos oferece a possibilidade de exterminar tudo o que se opuser a nós".
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