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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Projeto Brasília

A comemoração dos 50 anos da capital do Brasil abre espaço para estudar como os centros urbanos se desenvolvem

Rita Trevisan

O TRAÇADO DA CIDADE A capital, desenhada por Lucio Costa, fugiu ao plano original antes mesmo da inauguração. Foto: Acervo/Arquivo público do Distrito Federal

Ela é uma cidade planejada, título que caracteriza poucos centros urbanos no Brasil (Palmas, Belo Horizonte, Goiânia, Londrina e Maringá) e no mundo (Washington, Filadélfia e Boston, nos Estados Unidos, Buenos Aires, na Argentina, Canberra, na Austrália, Alexandria, no Egito, e Nova Délhi, na Índia). E, embora 2010 seja o ano de seu cinquentenário, Brasília é bem mais antiga simbolicamente. Em 1823, José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838), um dos articuladores da independência, propôs que a capital brasileira saísse do Rio de Janeiro e fosse para o interior, longe dos portos litorâneos. Quase 70 anos depois, foi instaurada uma comissão, composta de médicos, geólogos, astrônomos, botânicos e outros especialistas, para estudar a topografia e outras características da região do Planalto Central e apresentar um relatório ao governo sobre a ideia. Mas a cidade somente começou a ser de fato concretizada em 1955, quando o perímetro foi traçado para que, no ano seguinte, as obras tivessem início.

Essas informações revelam que Brasília é mais do que a sede dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Ela oferece vários aspectos para abordar em aula, para ir além do que os livros didáticos tradicionalmente propõem estudar (por exemplo, o funcionamento das estruturas políticas e o que a construção da cidade representou para o país).

Como as cidades são organizadas? De que maneira os cidadãos se relacionam e modificam o espaço do entorno? Essas são questões interessantes para debater com a garotada tendo nossa capital como pano de fundo (leia a sequência didática).

A dinâmica humana alterou a cidade planejada

Enquanto na maioria das cidades os bairros se desenvolvem ao redor e na vizinhança do centro, no Plano Piloto de Brasília, concebido pelo arquiteto Lucio Costa (1902-1976), eles foram implantados distantes do coração da metrópole. O objetivo era permitir que trabalho, casa e espaços coletivos estivessem próximos uns dos outros e os bairros fossem independentes. "A ambição de Costa era muito maior do que criar uma localidade funcional. Ele desejava instituir um espaço capaz de oferecer os benefícios da modernidade a todos os cidadãos de maneira equitativa", afirma Aldo Paviani, professor titular da Universidade de Brasília (UnB), pesquisador associado do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (Neur) e organizador de diversas obras sobre a capital. Costa propôs também que ela tivesse uma dimensão monumental, além de um grande número de superfícies arborizadas. Todas essas ideias são resultado da forte influência do suíço Charles Edouard Jeanneret-Gris (1887-1965), dito Le Corbusier, que ao lado de Oscar Niemeyer é considerado um dos grandes arquitetos do século 20.

TRABALHO ÁRDUO O canteiro de obras para construir a capital atraiu migrantes de todo o país em busca de emprego
Foto: Acervo/Arquivo público do Distrito Federal

Porém, do papel à realidade, muita coisa mudou. É importante que os alunos compreendam que a cidade foi pensada para reunir, no máximo, 600 mil habitantes, mas a explosão demográfica já conturbava o traçado de Costa antes mesmo da inauguração. O grande número de migrantes, atraídos pela promessa de muitas ofertas de empregos e uma vida melhor, provocou um movimento de exclusão socioespacial, que acabou por marcar Brasília, tal como ocorre em outros espaços urbanos. "A migração intensa em 1958 exigiu que fosse criado o primeiro núcleo periférico, Taguatinga. Para lá foram transferidos milhares de trabalhadores que ocupavam as favelas próximas ao Núcleo Bandeirante, construído para abrigar os operários que construíram a capital. Com a chegada de mais migrantes, outras 28 regiões administrativas foram estabelecidas ao redor do centro", explica Paviani. Hoje, a despeito da modernização da cidade, esses núcleos revelam pobreza, carência da população em diversas áreas e falta de postos de trabalho.

Os efeitos provocados por 2,5 milhões de pessoas que residem em Brasília atualmente também precisam ser enfocados em sala. Definitivamente, a cidade escapou do modelo de urbanismo inicial e o que se vê num passeio pelas ruas é a repetição de alguns dos problemas que afligem outras localidades: centro lotado, trânsito pesado etc.

Pesquisando todos esses aspectos em fontes históricas e registros de fatos recentes, os estudantes vão entrar em contato com a dinâmica das cidades e relacionar esse processo com o histórico das ações humanas, do qual eles próprios fazem parte.
Revista Nova Escola

sexta-feira, 11 de março de 2011

Rio de Janeiro - Encanto não se transfere

Como foram os melancólicos (mas nem tanto)
últimos dias do Rio de Janeiro como sede do governo


Sérgio Rodrigues

Foto: Aliam Milan/Agência Tyba
Noite ilustrada
À porta do Teatro Municipal, em noite de gala, o chofer do Simca Chambord à espera
dos passageiros
Rio de Janeiro - 3 | 3 | 1959

No dia 21 de abril de 1960, o último do Rio de Janeiro como capital da República, dois de seus principais cronistas – nenhum deles carioca de nascimento, o que era típico de uma metrópole que se pretendia a "síntese do Brasil" – viveram experiências opostas. O capixaba Rubem Braga se desgarrou dos amigos que iam conferir o desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco, um evento sintomaticamente bagunçado, promovido sem dinheiro e com escassez de policiamento pelo Departamento de Turismo da prefeitura para comemorar o nascente estado da Guanabara. Depois de ver no Leme os fogos de artifício que saudaram a meia-noite, Braga entrou solitário numa boate e, ao sair, constatou melancolicamente que a lua minguante era agora uma "lua estadual".

Naquele momento, o pernambucano Nelson Rodrigues estava longe de tudo isso – do Rio e da melancolia –, em plena festa de inauguração de Brasília, esta sim uma comemoração rica, financiada por um "crédito especial de
Cr$ 150 milhões", como noticiou na primeira página o jornal antibrasilienseTribuna da Imprensa. Contrariando sua lendária aversão a viagens, Nelson tinha aceitado carona num dos ônibus que o Centro de Preparação de Oficiais da Reserva (CPOR) – onde um de seus filhos prestava serviço militar – alugara para levar oitenta estudantes secundaristas aos festejos. A caravana saiu do Rio no dia 20 para uma desconfortável viagem de vinte horas. Em troca da hospedagem no Planalto Central, o maior dramaturgo brasileiro negociou enviar para o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, uma crônica a ser publicada no dia 22, o primeiro da Federação redesenhada.

O cisma aberto em sua elite cultural deixa claro que o Rio de Janeiro chegou aos últimos momentos de seus 71 anos como capital da República – e dos 197 desde que se tornara sede da colônia, em 1763 – imerso em confusão. Uma confusão construída paralelamente ao trabalho dos candangos, crônica por crônica, samba por samba, conversa por conversa, pelo menos desde o início de 1957, quando começou a ficar evidente até para os céticos que Juscelino Kubitschek não estava brincando ao dizer que levaria a capital embora. Aquilo seria bom para o Brasil, mas ruim para a cidade? Um desastre para ambos? Excelente para todos, com exceção dos barnabés? O Rio, agora autônomo, ganharia mais atenção de seus governantes? Brasília dividiu os brasileiros em duas facções, a dos "mudancistas" e a dos "antimudancistas". Era natural que a capital preterida fosse palco das principais batalhas.

Quem não chora não mama

Havia muita reclamação, mas a população do Rio aceitara Brasília – Ibope*

80% acreditavam que JK tinha acelerado o desenvolvimento brasileiro

73% aprovavam a mudança da capital

62% acreditavam que a nova capital traria benefícios ao país

24% desaprovavam a iniciativa

* Pesquisa realizada em março de 1960

Não se tratava de mera rixa de literatos. A novidade de concreto armado que brotara em tempo recorde no meio de Goiás era um ímã de aventureiros em busca de enriquecimento rápido, mas deixava apavorados os funcionários públicos federais habituados à vizinhança da praia e ao consumo elegante na Galeria Menescal – destes, apenas 1,1% tinha sido transferido para Brasília a tempo da inauguração. Políticos amotinados ameaçavam criar um Senado paralelo no Rio, alegando falta de condições de trabalho na Novacap. Na área da cultura popular, o racha ganhou corpo nos sambas antípodas de Billy Blanco e Ataulfo Alves. O primeiro, que em 1957 chegou a ter sua execução proibida extraoficialmente na Rádio Nacional, apregoava que, por não ser "índio nem nada", não iria para Brasília, "nem eu nem minha família". O segundo rebuscava a rima com o nome da nova capital para tomar o rumo oposto: "Levo comigo Conceição e Dorotília / violão e tamborim. / Vou fazer samba em Brasília".

A imprensa guardou os melhores registros da briga. O título da crônica que pagou a hospedagem de Nelson Rodrigues em Brasília – e que mereceu chamada de primeira página na Última Hora – era "A derrota dos cretinos". Não foi Rubem Braga o alvo escolhido pelo autor entre os antimudancistas que, sobretudo no Rio e em São Paulo, pululavam na imprensa e nos meios políticos – estes puxados pela retórica inflamada do udenista Carlos Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa e líder das manobras que haviam tentado impedir JK de tomar posse. "A derrota dos cretinos" fazia mira no poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, outro carioca de adoção, que em uma crônica no Correio da Manhã tinha criticado a poeira vermelha do Planalto Central. Em transe épico – o mesmo que o levara a declarar que, "a partir de Juscelino, surge um novo brasileiro" –, Nelson imaginou o dia em que veria Drummond num canteiro de obras da nova capital, "dando rijas e sadias marteladas".

Havia mudancistas mais sóbrios. O escritor paraibano José Lins do Rego defendia a tese corriqueira de que o governo federal precisava se isolar dos "problemas locais" de uma grande cidade. Os antimudancistas também tinham colorações variadas. Enquanto o maranhense Josué Montello lamentava a partida das autoridades federais, "grandes figuras que se ajustavam à importância" do relevo carioca, Rubem Braga mal disfarçava o despeito ao prever que "pelo menos no caráter" faria bem ao Rio a migração da "fauna mais graúda dos animais de rapina" para o Planalto Central. O ciúme era tão disseminado que chegava a ser explícito no texto publicado por David Nasser na revista O Cruzeiro de 7 de maio de 1960: "Obrigado, Juscelino, por haveres trocado esta cidade por uma paixão recente. O Rio te agradece por Brasília, a noiva que preferiste a um velho amor".

Café society. Tratava-se, porém, de um ciúme temperado por autossuficiência. Ao mesmo tempo em que listava as mazelas urbanas que poderiam ter sido resolvidas pelos dutos de dinheiro canalizados para Brasília – falta de água crônica, enchentes, trânsito engarrafado, favelização –, a imprensa da cidade fazia variações sobre o tema "Encanto não se transfere", ilustrado por uma foto da Praia de Copacabana no Jornal do Brasil de 21 de abril de 1960. O "encanto" não englobava pouca coisa. O Rio acabava de adicionar mais um tijolinho ao edifício de sua fama internacional com o sucesso do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus, Palma de Ouro em Cannes. Exportava para o resto do Brasil, via colunismo social e revistas de grande vendagem como O Cruzeiro e Manchete, um espetáculo de boa vida e elegância conhecido como café society e simbolizado pela sofisticação da boate Sacha’s, frequentada até por JK. E embalava tudo isso na batida da bossa nova, produto de sua classe média praiana, que naquele ano de 1960 venderia nos Estados Unidos mais de 1 milhão de cópias de Samba de Uma Nota Só e Desafinado. Como poderia o Peixe Vivo competir com aquilo? "Espírito e coração do Brasil", pontificou o Correio da Manhã em editorial, "continuamos sendo nós."

AE
Despedida
Juscelino, ao lado de dona Sarah, alguns ministros
e funcionários, desce pela última vez a escadaria
do Palácio do Catete
Rio de Janeiro - 20 | 4 | 1960

JK, político hábil, tratou de afagar esse orgulho na despedida. No programa de rádio Voz do Brasil de 19 de abril de 1960, mandou um recado à cidade, dizendo que seus "centros de cultura prosseguirão jorrando a luz que dirige a marcha do Brasil para o seu grande destino". No dia seguinte, ao descer a escadaria do Palácio do Catete pela última vez, derramou algumas lágrimas. E no fim tudo acabou em festa popular, com "centenas de milhares de pessoas" (a conta é do jornal O Estado de S. Paulo) tomando "a Avenida Rio Branco, Largo da Lapa e vias adjacentes". À meia-noite do dia 20, o samba deu lugar a um buzinaço e à marchinha Cidade Maravilhosa, recém-transformada em hino da Guanabara. Na guerra ruidosa entre mudancistas e antimudancistas, entre a ciumeira e a euforia, não sobrara espaço para uma reforma institucional que equacionasse o futuro político e econômico de uma cidade desabituada de ser província. Quarenta anos depois, com amargura, o economista Carlos Lessa anotaria no livro O Rio de Todos os Brasis: "O Rio cedeu os direitos de primogenitura em troca de um prato de lentilhas". Deu-se parte da recuperação da autoestima carioca em 2 de outubro deste ano, quando a cidade foi anunciada como sede da Olimpíada de 2016. "O Rio é uma cidade que perdeu muitas coisas ao longo da história", disse o presidente Lula. "Foi capital, foi coroa portuguesa, e aparece nos jornais em notícias ruins. É hora de retribuição a um povo maravilhoso."

Foto: Arquivo Nacional
Foto: Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
A saída...
Caminhão de mudança leva móveis e papelada
do Palácio Monroe, sede do Senado no Rio
Rio de Janeiro - 5 | 4 | 1960
...A chegada
Desolação do funcionário público no cenário
seco do novo Distrito Federal
Brasília - 1960


Foto: Peter Scheier/Instituto Moreira Salles
Solidão
Apenas 1,1% dos funcionários
públicos federais trocou o litoral
pelo cerrado nos primeiros dias
da mudança

Brasília - 1960


A rixa dos cronistas

Camilo Calazans/CPDOC JB
"Um túnel ou um viaduto
leva anos para ser construído
no Rio, qualquer obra
se arrasta miseravelmente,
por falta de verba – e vamos
fazer uma cidade nova
nos confins do Judas."

Rubem Braga, contra a mudança


"Na Praça dos Três Poderes, o brasileiro
que não viajou nada, que não passou
do Méier, é atravessado pela certeza
fanática: a Praça de São Marcos não
chega aos pés da nossa."

Nelson Rodrigues
, a favor da mudança
Divulgação



O duelo dos sambistas

Acervo Pessoal

Eu não sou índio nem nada
Não tenho orelha furada
Nem uso argola pendurada no nariz
Não uso tanga de pena
E a minha pele é morena
Do sol da praia onde nasci
E me criei feliz
Não vou, não vou pra Brasília
Nem eu nem minha família
Mesmo que seja pra ficar cheio de grana
A vida não se compara
Mesmo difícil, tão cara
Eu caio duro mas fico em Copacabana

Billy Blanco, em Não Vou pra Brasília, contra a mudança



Trabalhador eu sei que sou
Me dê um palmo de terra, doutor
Garante a minha família que eu vou
Levo comigo Conceição e Dorotília
Violão e tamborim
Vou fazer samba em Brasília
Parto, saudoso do meu
Rio de Janeiro
Mas eu vou ficar famoso
Lá serei o primeiro

Ataulfo Alves, Samba em Brasília,
a favor da mudança

REVISTA VEJA
http://veja.abril.com.br

Acervo UH Folha Imagem



Brasilia - O cenário infinito baniu a multidão

O problema é que as ruas sempre terão a cara que
tinham ao nascer, sem povo. O Homo brasiliensis, se
é que um dia existirá, é personagem em gestação


Augusto Nunes

Fotos divulgação e Salomon Cytrynowicz
FUNERAL E MISSA
O féretro de Juscelino na Esplanada dos Ministérios, em agosto de 1976 (no alto), e a visita de João Paulo II, em junho de 1980: dezenas de milhares de pessoas engolidas pelo horizonte

A cidade que nasceu sem habitantes e estava pronta quando foi fundada nunca viu a multidão por ter espaços demais. Brasília viu muita gente duas vezes: em agosto de 1976, na partida de Juscelino Kubitschek, e em junho de 1980, na chegada do papa João Paulo II, quando dezenas de milhares de brasileiros se juntaram num mesmo ponto do Plano Piloto. Mas muita gente só vira multidão quando se acotovela em lugares com limites definidos, faz o chão desaparecer e ameaça derramar-se pelas bordas das fotografias. Isso Brasília não sabe o que é. Nem saberá, por falta de cenário com fundo. Cenários infinitos engolem até multidões chinesas.

Se o corpo de JK fosse velado na Cinelândia, no Rio, por exemplo, uma multidão teria protagonizado o que hoje se chamaria de O Adeus dos Trezentos Mil. Recortado contra as imensidões do cerrado, o cortejo em Brasília não pareceu mais impressionante que qualquer comício estrelado pelo presidente morto numa cidade de tamanho médio. Se os que recepcionaram o papa na Praça dos Três Poderes fossem dar-lhe boas-vindas no Rio, a multidão transbordaria da Sapucaí e não caberia no Maracanã. Mas não existe nada em Brasília parecido com o templo dos deuses da bola ou com a passarela do samba.

A capital do País do Futebol não tem campo nem time de futebol. (Os estádios onde jogam o Brasiliense e o Gama ficam fora do Plano Piloto.) E a capital do País do Carnaval não tem carnaval de rua. (As aparições anuais de alguns blocos apenas realçam a inexistência de escolas de samba.) O esporte preferido e a festa mais popular dão sinais de vida nas cidades-satélites, que não têm parentesco com Brasília. Nasceram juntas, mas não são gêmeas em nada. São extremos que, por se completarem, até agora têm convivido sem conflitos.

Foto: Carlos Menandro/Jornal de Brasília

PÃO E CIRCO
Na perspectiva da foto, de 1985, o circo substitui a cúpula do Senado. Ulysses Guimarães, presidente da Câmara, lança um alerta contra "a campanha de calúnias e difamação contra o Congresso Nacional"
Brasília – 5 | 9 | 1985

Esses aglomerados urbanos que Lucio Costa não planejou e Oscar Niemeyer não decorou com monumentos tão belos quanto inabitáveis contrastam pedagogicamente com o espanto futurista da metrópole que rodeiam. A contemplação do conjunto informa que Brasília não tem povo – como se referem os políticos à massa informe e anônima de viventes com pouquíssimas chances de algum dia perguntarem a alguém se sabe com quem está falando. Esses são vistos no Plano Piloto durante o dia. No começo da noite, terminada a jornada de trabalho, voltam para a babel periférica e dormem em casa. Vivem em ruas comuns, com nomes comuns e carências comuns. Nada a ver com a vizinha também cinquentona mas proibida de envelhecer. Brasília terá sempre a cara que tinha ao nascer. Chegou ao berço com tudo o que não há nos arredores. Só faltava gente morando lá.

Em 1970, a escritora Clarice Lispector impressionou-se com a supremacia da cidade sobre seus habitantes. "Brasília é tão artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado", escreveu numa crônica. Como acontece a onze em cada dez visitantes na primeira viagem, Clarice estranhou a troca de ruas e praças por superquadras, tesourinhas, eixinhos e eixos. Ficou insone com o silêncio ensurdecedor, descobriu que a infinitude da paisagem torna a solidão mais aflitiva e, sobretudo, desconcertou-se por não encontrar alguém que reproduzisse a cara do lugar.

"Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo", lembrou. "Nós todos somos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar; e depois o mundo deformado às nossas cidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília." Inaugurada dez anos antes, a cidade descrita por Clarice era a reprodução miniaturizada do mosaico brasileiro, formado por migrantes que tinham acabado de chegar.

Dez anos depois da fundação, os cearenses continuavam cearenses, os gaúchos continuavam gaúchos, todas as peças escancaravam na estampa e no sotaque o local de fabricação. A identidade não sofrera mudanças por falta de tempo e, sobretudo, de referência: como o brasiliense nasceu depois da cidade, os que chegaram não dispunham de um modelo a copiar. Quando a crônica foi publicada, a primeira geração de nativos nem atingira os 10 anos de idade. O homem de Brasília não existia. Pode ainda estar em gestação.

Talvez seja um quarentão de classe média, diplomou-se pela UnB, é funcionário público, combina ternos cinza ou azul-escuro com gravatas de desenho sóbrio, mora em apartamento, conhece meio mundo mas convive estreitamente com poucos. Ao contrário dos deputados, dos senadores, dos ministros e do presidente da República, não viaja para longe da capital nos fins de semana. Frequenta com assiduidade o clube de que é sócio, circula todo o tempo de carro e caminha bastante, mas nunca anda à toa. Sair por aí exige as ruas e as esquinas que não há. Porque não existem cruzamentos, os brasilienses se cruzam nos restaurantes e nos bares. Que nunca ficam na esquina. Que nunca fez falta ao Homo brasiliensis, juram todos os nativos do lugar.

Foto: arquivo Bloch Editores

FORÇAS OCULTAS
"Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito", disse Jânio Quadros para definir seu desagrado pouco antes de ir embora
Brasília – 25 | 8 | 1961

Tampouco lhes fazem falta ruas e praças semelhantes às do resto do país. Basta a Praça dos Três Poderes e sua extraordinária polivalência, que lhe permite hospedar manifestantes que cobram por hora ou circos cuja única atração é a chance de zombar do Congresso. Não há casas com quintal antigo e numeração convencional nem outro sinal de parentesco arquitetônico com as demais cidades brasileiras. Os nascidos e criados em Brasília não veem nada de errado nas singularidades e inovações com as quais convivem desde o berço. Da mesma forma que um inglês recém-chegado ao continente considera pura esquisitice trafegar pela mão direita, aos olhos dos brasilienses o que parece espantoso é a existência de ruas batizadas como se fossem pessoas, que mudam de identidade sem mudar de rumo. Não compreendem por que tantos brasileiros passam parte da vida imobilizados em congestionamentos de trânsito, embora isso também já ocorra na capital federal.

Forasteiros se perdem regularmente na selva de prédios indistintos, consoantes misteriosas e palavras que, em brasiliês, têm outro sentido. "Vou até a pequena zona de comércio de uma superquadra para comprar cigarro e na volta me perco numa floresta de edifícios absolutamente iguais uns aos outros", escreveu o cronista Fernando Sabino, mineiro e ipanemense honorário. "Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento de meu amigo onde estou hospedado. SQS – 307 – Bloco F – Apto. 502, leio na minha caderneta."

"Vó! Olha lá o Jornal Nacional!" No livro ainda inédito Brasília e Eu – Uma Reportagem, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, comprova a reciprocidade da estranheza com exemplos ligeiros e divertidos. Num deles, a neta de 3 anos que levou para conhecer Brasília descobriu que já tinha visto em algum lugar a paisagem formada pela Esplanada dos Ministérios, com o prédio do Congresso ao fundo: "Vó! Olha lá o Jornal Nacional!",exclamou a carioquinha. Que não reconheceu no restante da incursão nada parecido com o que já viu. Em outro episódio, uma sobrinha de 8 anos hospedada no apartamento de cobertura em frente à Praia de Ipanema olhou do terraço para a Avenida Delfim Moreira e quis saber da tia: "Como é o nome desse eixo?".

Outra menina ficou intrigada ao descobrir que as ruas do Rio têm nome e sobrenome. "Como é que a gente pode saber onde é que fica?", perguntou a Maria Elisa. "Em Brasília a gente sabe." A filha de Lucio Costa conta que as marcas de nascença que assustaram Fernando Sabino foram concebidas "para impedir que a nova capital, mesmo em seus primórdios, tivesse qualquer conotação de cidade do interior". A imaginação do pai urbanista acabou tornando a criatura muito diferente também de qualquer capital. "As superquadras, com seus blocos de seis andares, os pilotis abertos, a entrada única para os carros, cercadas por uma faixa arborizada em todo o perímetro, introduziram um novo modo de convívio urbano", diz Maria Elisa na abertura do capítulo "206-Sul". Fernando Sabino chamaria um tradutor ao ler esse título. Qualquer brasiliense adivinha o que lerá.

Testemunha privilegiada da gestação apaixonante, a carioca Maria Elisa pertence a uma espécie rara: o anfíbio que se sente à vontade e feliz em ambas as cidades. A tribo parece à beira da extinção se confrontada com a composta de nativos que defendem Brasília apaixonadamente ou com a formada por forasteiros que perdem o humor e o eixo quando topam com o Eixo Monumental. Num Planalto Central ainda deserto e desprovido de âncoras naturais como o Corcovado ou o Pão de Açúcar, conta Maria Elisa, a arquitetura teve de inventar referências. Há a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, são dezenas os cartões-postais sinalizadores. Mas há sobretudo o Eixo Monumental, que está para Brasília como o Viaduto do Chá está para São Paulo.

Seria temerário evocar o paralelo perto de inimigos juramentados da capital – o presidente Jânio Quadros, por exemplo. "Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito", exagerou na resposta ao neto Jânio John, também interessado em descobrir as razões reais da deserção. O instável presidente repetia que "Brasília não tem gente". Sempre teve. Foi por causa de gente inimiga, aliás, que Jânio decidiu sair para voltar com poderes superlativos. O que não tem é multidão – e sem multidão à vista não havia Jânio. "Se eu ficar cinco minutos batendo lata no Viaduto do Chá, junto mais de 5 000 pessoas", gabava-se o grande palanqueiro. Nunca se arriscou a estrelar um comício em Brasília.

Jânio passou sete meses queixando-se da ausência de plateias que os políticos federais preferem ver pelas costas. A capital dos escândalos nunca viu um vigoroso protesto dos escandalizados. De terça a sexta-feira, tanto os delinquentes da semana como os veteranos pecadores circulam sem perigo pelos mesmos restaurantes. Os parlamentares sabem mais do que dizem, os jornalistas sabem mais do que publicam, os brasilienses sabem mais do que comentam. Nelson Rodrigues achava que, se todos conhecessem a vida sexual de todos, ninguém cumprimentaria ninguém. Os que frequentam a Praça dos Três Poderes conhecem o que se passa nas alcovas alheias e o que se passa além delas. Todos se cumprimentam.

Os nativos rechaçam com veemência o codinome Ilha da Fantasia. O complemento talvez seja incorreto: os pais da pátria que andam fazendo coisas que parecem ficção sabem o que fazem, e sabem também que os homens de bem sabem disso. Mas a soma de coisas que só existem em Brasília confirma que o Plano Piloto é uma ilha, sim. Cercada de outro Brasil por todos os lados.

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Brasilia - A primeira vez no mapa

NO CENTRO DO PAÍS
O espaço destinado ao futuro Distrito Federal, definido em 1893, aparece no Pequeno Atlas do Brasil, de 1922. O ponto demarcado era conhecido como Quadrilátero Cruls, referência à missão exploratória

A primeira vez no cerrado

OS PÉS NA IMENSIDÃO
Às 7h45 de 2 de outubro de 1956 o DC-3 da Força Aérea Brasileira decolou do Aeroporto Santos Dumont a caminho do ponto onde seria erguida Brasília. A pista de 2 000 metros para pouso tinha sido construída na véspera. Depois de descobrir "a vastidão desconcertante do vazio", Juscelino Kubitschek escreveu no Livro de Ouro: "Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino".
PLANALTO CENTRAL - 2 | 10 | 1956
FOTO: Jean Manzon

O primeiro cruzamento

DOIS EIXOS
Para o antropólogo carioca Milton Guran, a imagem destas páginas é "a mais extraordinária fotografia do Brasil moderno, um registro seminal que simboliza o momento em que o brasileiro tomou posse efetiva de seu destino". O fotógrafo Mário Fontenelle, a bordo de um monomotor, pediu ao piloto que voltasse: "Quero fazer esta foto". Ela mostra o cruzamento do Eixo Monumental com o Eixo Rodoviário, o Eixão, o ponto zero da cidade imaginada pelo urbanista Lucio Costa. A história desculpa a precariedade do registro.
BRASÍLIA - 1957
FOTO: Mario Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal

Os primeiros projetos

QUATRO MOSQUETEIROS
Debruçados na maquete da cidade que nascia, Oscar Niemeyer (à esq.), Israel Pinheiro, presidente da Novacap, Lucio Costa e Juscelino Kubitschek observam o avanço nas obras da Praça dos Três Poderes. Naquela altura, o Palácio da Alvorada já tinha sido inaugurado.
BRASÍLIA - 22 | 11 | 1958
FOTO: Mario Fontenelle/Arquivo Público do Distrito Federal

Brasília, 50 anos

DE LONGE, A PERFEIÇÃO
Inchado na periferia, com 2,6 milhões de habitantes, o Plano Piloto da capital federal visto do espaço tem o formato imaginado por Lucio Costa. De cima, a distância, nada parece afetar o traçado elaborado em 1957
BRASÍLIA - 2008
Foto a partir do satélite Ikonos
Space Imaging do Brasil / Geoeye
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