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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ovo que vem de longe

A troca de guloseimas durante a Páscoa é muito comum, alem de ser uma tradição muito antiga, que nos remete à Europa do século XIII

Equipe RHBN

Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim
Coelhinho da Páscoa, que cor eles têm?
Azul, amarelo e vermelho também.


A quadrinha popular que se ouve na voz da criançada com a proximidade da Páscoa anuncia a troca de guloseimas no domingo que encerra a Semana Santa. A tradição é antiga na Europa, remonta ao século XIII, quando os estudantes da Universidade de Paris, após entoarem salmos e cânticos de louvor a Deus em frente à catedral, saíam, organizados em procissão, recolhendo presentes. As ofertas, especialmente ovos, eram distribuídas para parentes, amigos e vizinhos. Os ovos, tingidos de azul ou vermelho, simbolizavam o renascimento, a ressurreição e a imortalidade.

Confeccionados em madeira ou argila, com o tempo eles passaram a ser pintados e decorados com requinte. No Brasil, o costume de receber e distribuir ovos de Páscoa data apenas dos anos 1920, introduzido pela colonização alemã nas cidades do Sul. Aos poucos, a prática se espalhou em massa de chocolate pelas confeitarias do resto do país, para o pecado de todos.
Revista  de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 3 de abril de 2014

PÁSCOA DE JESUS X PÁSCOA CRISTÃ






Soham é um escritor português que realizou um trabalho de pesquisa sobre Jesus, o judaísmo e o cristianismo.


Se Jesus soubesse de aquilo que hoje se lhe associa quando se fala da Páscoa - sua morte ser equiparada ao sacrifício de um cordeiro pascal, no qual se estabelece uma analogia com a cena do sacrifício de Isaque por Abraão e ainda se lhe acrescenta uma pitada de sangue redentor do conceito do cordeiro para Deus em Yom Kippur - ele ficaria abismado com a mistura de conceitos e símbolos tão díspares que apenas denota que, quem assim procede nada percebeu do que eram esses respectivos símbolos para os judeus, não só de seu tempo como de todos os tempos.

O que o cordeiro pascal representa para Jesus é uma comemoração da libertação por Deus de seu povo e nada tem a ver com o sangue redentor, mais tarde inserido por Paulo e tornado um dogma cristão.

A mensagem implícita na história de Abraão e Isaque, não se refere ao sacrifício de Isaque - como muitos tentam associar, até para fazer a ligação com o sacrifício atribuído a Jesus, de morrer pelos pecados do mundo -, mas sim com o sacrifício de Abraão. Pois, qual não seria o pai que não daria sua própria vida para salvar a vida de um filho seu? Assim, quando Deus pede a Abraão de lhe sacrificar seu filho, Isaque nos dá o exemplo de aceitação de morrer por Deus, perder sua vida por amor a Deus, mas é Abraão que responde aquilo que realmente Deus quer de todos nós, pois ele mostra o que é dar para além de sua vida a Deus. Deus não quer que morramos por ele, nem mesmo ele quis isso de Jesus. O que Deus quer é que vivamos para Ele.

Morrer por Deus é fácil, tantos morrem com orgulho e abnegação por causas sem sentido. Mas viver para Deus, isso requer muito mais, requer aquilo que todos são chamados a fazer e que poucos fizeram com verdade e sem restrição ao longo da história da humanidade.

Ora, o caminho de regresso a Casa, o caminho espiritual de união com Deus, tem progredido muito mais através daqueles que viveram para Deus do que por aqueles que morreram por Ele. Deus, doador de vida, se revela aos homens através daqueles que lhe doam a vida, os que se doam com desapego do mundo, sem condição, sem reserva, sem limite, por e para o Amor.


A SIMBOLOGIA DA PÁSCOA NO TEMPO DE JESUS.

As festividades de Páscoa e dos Pães Ázimos, com duração de uma semana, foram estabelecidas com base no versado no Velho Testamento, e se iniciam no dia 15 de Nissan, a partir do pôr do sol do dia 14.

Pessach, ou Pésah, provavelmente celebrada em sua primeira vez num grupo nômade de pastores de rebanhos, há mais de 3200 anos, portanto bem anterior a Moisés, é a mais antiga festa do calendário judaico. A etimologia da palavra ainda não foi satisfatoriamente esclarecida pelos pesquisadores. Seu significado mais divulgado é o de “Isto é, passagem” [B.J] ou “Passar por fora” no sentido de ser poupado de algum perigo.

Originalmente a festa da Páscoa e a dos Pães Ázimos eram duas festas diferentes celebradas em datas seguidas, de 10 a 14 e de 14 a 21 de Nissan. Já que ambas tinham uma forte ligação simbólica com a saída do Egito, foram oficialmente unidas, tendo sido essa ocorrência atribuída, de modo retroativo, à reforma de Josué. Mais tarde, essas normas foram aperfeiçoadas.

Uma análise profunda e detalhada da origem e evolução das duas festividades nos mostra que suas tradições nem sempre foram as mesmas e evoluíram ao longo dos séculos, até serem unidas numa mesma festa de peregrinação e fixadas por escrito naquilo que hoje se nos parece apresentar como um conjunto de unidades literais, cujo propósito final foi, mais uma vez, a judaização de duas festas pagãs, uma com origem em um rito protetor primitivo, e outra em um rito agrícola.

Nos relatos que serviram à judaização da Páscoa, encontramos ainda vestígios dessa origem como uma observância primitiva com símbolo apotropaico de proteção pelo sangue, de um povo nômade, para, quando da troca de pastagens, afastar o “demônio” que atacava pessoas e animais, indiretamente aludido como “O Exterminador” [Ex 12, 23]. O sangue sobre a entrada das tendas - o rito protetor que afastava o demônio - passou a ser o sangue nas ombreiras. Inteligentemente os sábios judeus preservaram o rito enraizado na crendice popular mudando sua interpretação para mais um sinal da aliança [Ex 12, 13] que vem juntar-se ao sinal do arco-íris [Gn 9, 13] e da circuncisão [Gn 17, 11], tornando, em decorrência de tal assimilação, a festividade da Páscoa, como um decreto perpétuo [Ex 12, 14]. O sinal nas ombreiras encontrou um respaldo de integração em outro símbolo, o do “Guardião das casas de Israel” representado pelo preceito da mezuzá [Dt 6, 9; 11, 20-21].

O sangue do cordeiro pascal parece ser o único referido nos textos, só que também nos é dito que nenhum incircunciso poderá comer da Páscoa [Ex 12, 48].

Depois do cair do sol do dia 14, inicia-se a noite do dia 15 com a ceia pascal. Esse era um momento de grandes dimensões em que vestiam as melhores roupas e as famílias reuniam-se, umas com as outras, para partilhar da alegria da libertação do Egito, porque, como dizia o Rabino Gamaliel: "Em cada geração, todas as pessoas devem encarar, a si próprias, como se também houvessem saído do Egito. O Eterno não redimiu, naquela ocasião, só os nossos antepassados, mas, através deles, a todos nós". Daí essa festa ser ainda mais comunitária - se fosse possível - que as demais, não devendo ninguém festejar sozinho, havendo o dever de nela integrar todos os necessitados.

Após a ceia, muitos saíam às ruas, praças e jardins para festejar, enquanto outros iam para o Templo, que mantinha abertas suas portas nessa noite.

Consulte o site www.jesusatrilogia.com, para conhecer mais.
Mais informações entre em contato com
CLEONICE ROLIM
Edições SOHAM
edicoes.soham@gmail.com
98-96122384/ 3199-1598

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Nestorianismo


Padres nestorianos em procissão noDomingo de ramos
Pintura de parede do século VII ou VIII em uma igreja nestoriana na China

Nome derivado do Bispo de Constantinopla, , Nestório, que chegou a afirmar a natureza humana de Cristo. Para Nestório, somente Deus, o Pai, era divino, não o Filho.Os concílios de Éfeso (431) e da Calcedõnia (451) condenaram  com veemência essa doutrina. Expandiu-se somente no Oriente.
Nestorianismo é uma doutrina cristológica proposta por Nestório, Patriarca de Constantinopla (428 - 431 d.C.)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

O que diz a "profecia dos papas"?

Thaís Sant'Ana

Escrita por são Malaquias, bispo irlandês do século 12, a suposta profecia afirma queFrancisco será o último papa da história. Não é exatamente uma previsão de apocalipse - apenas que o novo líder da Igreja Católica irá governar na "desolação do mundo" e que Roma será destruída.


A profecia é formada por 112 lemas em latim. Cada um descreveria, em ordem, os 112 últimos papas. Mas, como tantas outras profecias, essas frases são vagas e permitem todo tipo de interpretação - podem se referir, por exemplo, a um símbolo do país de origem do papa. Também há dúvidas sobre sua autenticidade: como só foi descoberta em1590, alguns historiadores acreditam que foi escrita nessa época e falsamente datada como sendo de 1139.


LER PARA CRER

Alguns exemplos de previsões feitas por são Malaquias

O perseguido

LEMA - "Aquila Rapax" ("Águia de rapina")

PAPA - Pio 7

PAPADO - De 1800 a 1823

A interpretação que justifica a atribuição do lema é que esse líder viveu durante o domínio militar de Napoleão Bonaparte, cujo símbolo era uma águia imperial.

O crucificado

LEMA - "Crux de Cruce" ("Cruz da cruz")

PAPA - Pio 9

PAPADO - De 1846 a 1878

As cruzes seriam metáforas para as dificuldades que enfrentou. Seu pontificado foi afetado pela Revolução Italiana (1848-1859) e ele ainda morreu enclausurado no Vaticano.

O iluminado

LEMA - "Lumen in Coeluo" ("Luz no céu")

PAPA - Leão 13

PAPADO - De 1878 a 1903

Embora tenha sido um papa rígido, era também um amante das ciências e das artes. Foi considerado um "iluminado" por estar à frente de seu tempo.

O estrelado

LEMA - "Ignis Ardens" ("Estrela ardente")

PAPA - Pio 10

PAPADO - De 1903 a 1914

O lema completo é "Ignis Ardens Funatus de Littore Veniet". O escudo desse papa tinha uma estrela ("Ignis Ardens") e ele mesmo no mar de Veneza ("de Littore Veniet").

O breve

LEMA - "De Medietate Lunae" ("Pelo período de uma Lua")

PAPA - João Paulo 1º

PAPADO - 1978

O italiano morreu de um provável ataque cardíaco 33 dias após assumir o pontificado. Ou seja, ficou no cargo aproximadamente o tempo de um ciclo lunar.

O trabalhador

LEMA - "De Labore Solis Optimo" ("Pelo excelente trabalho do Sol")

PAPA - João Paulo 2º

PAPADO - De 1978 a 2005

Pode se referir ao incansável empenho de João Paulo 2: ele foi o papa que mais viajou ao redor do mundo. Ou ao fato de que nasceu e morreu em dias com eclipse solar.

O penúltimo

LEMA - "Gloria Olivae" ("Glória da oliveira")

PAPA - Bento 16

PAPADO - De 2005 a 2013

Era da Ordem de São Bento, cujo símbolo é uma oliveira. E foi o primeiro papa pertencente à Ordem dos Olivetanos, também conhecidos como beneditinos.

O desolador

LEMA - "Petrus II" ("Pedro 2º")

PAPA - Francisco

PAPADO - A partir de 2013

A profecia dizia que o sucessor de Bento 16 assumiria o nome de Pedro 2º. Ela errou: o novo papa se batizou como Francisco. E é até bom que esteja errada porque o restante do lema dizia: cTu, in desolacione suprema sede. Ecce Petrus Romanus, ultimus Dei veri Pontifex!" A tradução seria algo como: "Na suprema desolação do mundo, reinará Pedro, o Romano, o último papa do Deus verdadeiro!" Ainda segundo são Malaquias, esse papa "alimentará seu rebanho entre muitas turbulências, e então a cidade das sete colinas será destruída e o formidável juiz julgará o seu povo". A cidade seria Roma, onde fica o Vaticano.

Curiosidade: Teólogos contestam classificar o texto como "profecia", pois o termo é exclusivo para previsões que constam na Bíblia

FONTES: Valeriano dos Santos Costa, diretor da Faculdade de Teologia da PUC-SP, e Cássia Martins, especialista em profecias do site 2012 A Era de Ouro.
Revista Mundo Estranho

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Maria da boa morte





Maria da boa morte
Imagens da morte e ascensão da mãe de Jesus foram um importante instrumento de catequese na Europa e no Brasil
Sabrina Mara Sant’Anna


A dura realidade da morte inquieta a humanidade desde os tempos mais remotos. Ao tomar consciência de sua individualidade e da finitude de sua existência, o homem passou a praticar ritos em honra dos defuntos e a acreditar em uma vida além-túmulo. Esta é uma crença comum a várias tradições religiosas.

De acordo com o cristianismo, a morte não significa aniquilação, pois a alma é imortal. A doutrina católica considera que após o falecimento o corpo “volta ao pó” (decompõe-se) e a alma comparece diante do juízo de Deus para prestar contas e receber sentença irrevogável: salvação ou danação eterna. Os justos vivem para sempre no Paraíso celeste; os salvos que necessitam de purificação passam pelo Purgatório antes de atingirem o Paraíso e os pecadores não arrependidos padecem infinitamente no Inferno.

Desde o período medieval, os sermões, a literatura e as artes visuais advertem que, para alcançar a salvação, os fiéis devem resistir às tentações deste mundo e perseverar na fé até o último instante da vida. E para ajudar na resignação diante da morte, elegeu-se uma figura de forte simbologia: Maria, a mãe de Jesus.

Sua morte é um mistério não esclarecido pelas Sagradas Escrituras. A última referência bíblica à mãe de Cristo está no Novo Testamento: em Atos 1, 14. Este versículo conta que, depois da ascensão de Jesus, sua mãe persevera na oração juntamente com os apóstolos e com outras mulheres. Depois disso, não se sabe seu destino. Essa carência de informações bíblicas sobre o fim da existência terrena de Maria propiciou o surgimento de lendas e narrativas apócrifas – sem reconhecimento eclesiástico –, escritas em diversas línguas a partir da segunda metade do século V.

Aprocrifum de assumptione Virgini (Texto apócrifo da Assunção da Virgem), do século VI, é a versão latina de um texto grego atribuído a São João Evangelista que sustenta que Maria não morreu de doença ou velhice: consumiu-se de amor e ardente desejo de reencontrar seu filho divino. Aos 60 anos, já viúva, deixou este mundo com serenidade espiritual e sem sofrimentos físicos. No exato momento do derradeiro suspiro, sua alma foi recebida pelo próprio Cristo. Maria foi velada e acompanhada até a sepultura pelos discípulos. Três dias depois, honrada com a graça da ressurreição, seu corpo foi levado ao céu por uma corte de anjos.

Narrativas como essa tornaram popular no Ocidente a crença na “Dormição” (falecimento) e na “Assunção” (subida ao Paraíso) corporal da mãe de Jesus. A partir do século XIII, esses dois temas conquistaram cada vez mais devotos e passaram a ser abundantemente representados em fachadas e espaços internos de templos católicos europeus. Contribuíram para isso a circulação da obra literária Legenda Áurea – coletânea de biografias de santos escrita pelo dominicano Jacopo de Varazze entre 1253 e 1270 – e a disseminação incontrolável das epidemias de peste negra pela Europa. Diante da tragédia da morte em larga escala, que apavorava as populações, as imagens de Nossa Senhora da Boa Morte, protetora dos agonizantes, e de Nossa Senhora da Assunção ensinavam os fiéis a aceitar com resignação a vontade divina e a crer que os justos teriam uma “boa morte”, ou seja, seriam salvos como a mãe de Jesus.

Para se referirem ao falecimento de Maria, os bizantinos utilizavam a palavra grega Koimesis, que significa sono da morte. A Igreja latina, por sua vez, adotou dois termos distintos: Dormitio (Dormição) e Transitus (Trânsito). O primeiro era usado para designar o momento da morte de Maria, considerado um simples sono, pois seu corpo foi poupado da corrupção. O segundo tratava do conjunto morte e assunção.

Na arte oriental, o tema da Koimesis era representado por um só padrão iconográfico: Maria aparece sempre morta, deitada, tendo ao seu lado os apóstolos e uma multidão de adoradores. Em pé atrás do cadáver aparece o Cristo. Esse esquema bizantino é caracterizado pela rígida composição em forma de cruz, cuja linha horizontal é definida pelo corpo de Maria e a vertical por Jesus. É o que se vê nos belos mosaicos da Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. Neles, Cristo é acompanhado por anjos e segura a alma de sua mãe – um bebê embalado em manta, símbolo de pureza, inocência e vida. Três discípulos se destacam na cena: Pedro, que balança um incensário à cabeceira da cama mortuária; Paulo, que beija os pés da santa, e João, que respeitosamente recosta sua cabeça sobre o peito da mãe de Jesus.

Essa estética bizantina influenciou a arte sacra do Brasil Colônia, que, no entanto, incorporou outros elementos para a representação da morte de Maria. O altar da Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição do Antônio Dias, em Ouro Preto (MG), mostra Maria vestida de branco e deitada em um nicho que lhe serve de lugar de repouso. Ao fundo, na talha em relevo, dez discípulos assistem ao fim de sua vida terrena – um deles portando um livro de orações e outro segurando a caldeirinha de água benta. Logo acima encontra-se a imagem de Nossa Senhora da Assunção. O coroamento deste retábulo nos revela um detalhe importante: a alma da mãe de Jesus (busto feminino parcialmente desnudo) sobe ao céu em uma pequena nuvem. A Trindade Divina a espera na eternidade segurando uma coroa, símbolo cristão que indica transcendência e salvação.

O altar combina referências iconográficas do Oriente e do Ocidente cristão: Maria está morta (a alma fora do corpo), como no tradicional modelo bizantino, mas o Cristo não está posicionado em pé atrás do cadáver. Uma peculiaridade daquele altar de Ouro Preto é apresentar três cenas em um mesmo espaço: a “Dormição”, a “Assunção da alma” e a “Assunção corporal”. Outros retábulos mineiros do mesmo período congregam apenas duas etapas do chamado “Trânsito da Virgem”: a parte inferior é destinada à representação do corpo da santa que fica exposto em um esquife, enquanto a superior abriga imagem de Nossa Senhora da Assunção. Este formato, que expõe a morte e a elevação corporal de Maria ao céu, alcançou inclusive os pequenos oratórios, permitindo uma eficiente doutrinação dos fiéis e evangelização dos incrédulos, na medida em que oferecia uma espécie de resumo teológico da promessa do cristianismo: os justos terão vida eterna com Cristo.

A coexistência dos elementos orientais e ocidentais não é uma particularidade mineira ou brasileira: já vinha ocorrendo na Europa desde a Idade Média. A produção artística ocidental divulgou o tradicional modelo da Koimesis bizantina, mas aos poucos ele sofreu adaptações e modificações, ganhando novas formas e movimentos. No Ocidente surgiriam outras versões visuais para a Dormição. Imagens espalhadas por vários países retratam Maria agonizante (antes de a alma deixar o corpo) ou jacente (a alma fora do corpo), deitada em leito mortuário (representação mais comum), morrendo ajoelhada em oração – como no retábulo da Igreja de Nossa Senhora, na cidade polonesa de Cracóvia, feito por Veit Stoss entre 1477 e 1489 – ou falecendo sentada em trono majestático, como no retábulo de autoria do alemão Hans Holbein, o Velho, executado entre 1501 e 1502 para a Igreja dos Dominicanos em Frankfurt am Main, na Alemanha.

No Brasil, a crença na Dormição e na Assunção de Maria chegou junto com os colonizadores portugueses. As primeiras representações surgiram na costa litorânea, avançando progressivamente, junto com a fundação de povoados e vilas, para o interior da colônia. Por meio de sermões e imagens, a devoção à padroeira dos agonizantes foi divulgada primeiramente em Salvador, espalhando-se depois para outras regiões – em especial para Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo e Goiás.

Em Minas, o culto a Nossa Senhora da Boa Morte começou no primeiro quartel do século XVIII. A primeira irmandade dedicada à santa estabeleceu-se em 1721 na freguesia de Antônio Dias, em Vila Rica (Ouro Preto); a segunda, em 1730, na freguesia de Nossa Senhora de Nazareth da Cachoeira (Cachoeira do Campo), e a terceira, por volta de 1734 na freguesia de Nossa Senhora do Pilar de São João Del Rei.

Com o objetivo de ensinar Teologia Moral e formar padres capazes de ajudar a população a “bem morrer”, o bispo D. Frei Manoel da Cruz inaugurou em 1750 o Seminário da Boa Morte em Mariana, estimulando a devoção à Virgem Jacente. Quatro anos depois, iniciou-se uma gradativa proliferação de irmandades com esta invocação. Mesmo nos lugares onde não foram criadas irmandades, havia devoção a Nossa Senhora da Boa Morte. É o que ainda se constata nos templos e museus de Sabará e Caeté, por exemplo, que guardam pinturas e esculturas dormicionistas produzidas nos séculos XVIII e XIX.

E a veneração à Dormição de Maria não ficou restrita aos templos católicos. Oratórios para culto doméstico também eram comuns no período colonial. Algumas associações de devotos mandavam confeccionar pequenas imagens de Nossa Senhora da Boa Morte e levavam para a casa dos doentes impossibilitados de comparecer à missa. Diante desses oratórios, os fiéis rezavam pedindo a cura de suas enfermidades. Em casos extremos, quando a morte não podia ser evitada, a pequena imagem servia para inspirar o devoto a mirar o exemplo da mãe de Jesus e perseverar na fé para alcançar a salvação de sua alma.

Um desses oratórios portáteis ainda pode ser visto na Irmandade de São João Del Rei. A imagem, produzida no século XVIII, é atribuída ao entalhador Valentim Corrêa Paes. Maria está deitada sobre uma cama, usando coroa, vestido branco, manto azul com bordados em dourado e sapatos. A caixinha onde fica é de madeira, com três lados de vidro. O fundo tem pintura de estrelas, fazendo alusão ao céu.

No período colonial, as irmandades de Nossa Senhora da Boa Morte desempenharam relevante papel social e religioso. Funcionaram como agentes da caridade cristã, prestando assistência material e espiritual aos devotos, contribuíram para o desenvolvimento do culto dormicionista e atuaram como patrocinadoras das artes, encomendando obras e utilizando os serviços de entalhadores, policromadores, santeiros e músicos.

Exerceram também função pedagógica: por meio de literatura piedosa, festas, procissões e veneração das imagens, transmitiram ao povo católico a certeza da vida eterna, ou seja, a recompensa divina de uma boa morte para os justos.

SABRINA MARA SANT’ANNA é professora do Instituto de Educação Continuada da PUC-Minas, pesquisadora da C/Arte Projetos Culturais e autora da dissertação de Mestrado “A Boa Morte e o Bem Morrer: culto, doutrina, iconografia e irmandades mineiras (1721-1822)”, (UFMG, 2006).

Saiba Mais - Bibliografia:

MIMOUNI, Simon Claude. Dormition et Assomption de Marie: histoire des traditions anciennes. Paris: Beauchesne, 1995. v. 98. (Collection Théologie Historique).

RÉAU, Louis de. Iconografía del Arte Cristiano: Iconografía de la Biblia – Nuevo Testamento. Barcelona: Ediciones del Serbal, 1996. Título original: Iconographie de l’Art Chrétien.

VARAZZE, Jacopo de. Legenda Áurea: vidas de santos. Tradução de Hilário Franco Júnior. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. Título original: Legendae sanctorum, vulgo historia lombardica dicta. Edição fac-similada.

Benditos apócrifos

A palavra “apócrifo” (do grego apókryphos e do latim apocryphus) significa secreto, oculto. No século IV, após a definição do Cânone da Bíblia, o termo tornou-se pejorativo – ganhando o sentido de falso ou suposto – e passou a designar os textos não incluídos no corpus bíblico, por se tratar de obras sem o reconhecimento eclesial. Apesar de não ser considerada pela Igreja como portadora da “Revelação” (ou “canônica”), a literatura apócrifa tem peso relevante para a história da cultura cristã, pois manifesta crenças, tradições lendárias e anseios populares desde os primeiros tempos do cristianismo.

http://www.revistadehistoria.com.br

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Os anos ocultos de Jesus

O que ele fez antes dos 30 anos? A Bíblia não conta. Mas a história e a arqueologia têm muito a dizer
por Eduardo Szklarz e Alexandre Versignassi


Apresentação do Menino Jesus no Templo - Gravura medieval


http://www.pliniocorreadeoliveira.info



O Novo Testamento contém 27 livros, 7 956 versículos e 138 020 palavras. E uma única referência à juventude de Jesus. O Evangelho de Lucas nos conta que, aos 12 anos, ele viajou com os pais de Nazaré a Jerusalém para celebrar o Pessach, a Páscoa judaica. Quando José e Maria retornavam a Nazaré, perceberam que Jesus tinha ficado para trás. Procuraram o garoto durante 3 dias e decidiram voltar ao Templo, onde o encontraram discutindo religião com os sacerdotes. "E todos que o ouviam se admiravam com sua inteligência" (Lucas 2:42-49).

Isso é tudo. Jesus só volta a aparecer no relato bíblico já adulto, por volta dos 30 anos, ao ser batizado no rio Jordão por João Batista. É quando o conhecemos realmente. Da infância, as Escrituras falam sobre o nascimento em Belém, a fuga com os pais para o Egito - para escapar de uma sentença de morte impetrada por Herodes, rei dos judeus - e a volta para Nazaré. Da vida adulta, o ajuntamento dos apóstolos e a pregação na Galileia, além do julgamento e da morte em Jerusalém. Mas o que aconteceu com Jesus entre os 12 e os 30 anos? Qual foi sua formação, o que moldou seu pensamento nesses 18 "anos ocultos"? Afinal, o que ele fez antes de profetizar na Galileia?

A notícia para quem deseja reconstruir o Jesus histórico é que novas análises dos Evangelhos, documentos históricos e achados arqueológicos nos dão pistas sobre a sociedade da época. E dessa forma podemos chegar mais perto de conhecer o homem de Nazaré. E entender o que passava em sua cabeça.

O pedreiro cheio de irmãos

Uma coisa é certa. Aos 13 anos, Jesus celebrou o bar mitzvah, ritual que marca a maioridade religiosa do judeu. E é bem provável que ele tenha seguido a profissão de José, seu pai. Carpinteiro? Talvez não. "Em Marcos, o mais antigo dos Evangelhos, Jesus é chamado de tekton, que no grego do século 1 designava um trabalhador do tipo pedreiro, não necessariamente carpinteiro", diz John Dominique Crossan, um dos maiores especialistas sobre o tema. Para o historiador, os autores de Mateus e Lucas, que se basearam em Marcos, parecem ter ficado constrangidos com a baixa formação de Jesus. E deram um jeito de melhorar a coisa. Mateus (13:55) diz que o pai de Jesus é que era tekton. E Lucas omitiu todo o versículo.

As mesmas passagens de Marcos e Mateus informam que Jesus tinha 4 irmãos (Tiago, José, Simão e Judas), além de irmãs (não nomeadas). Mas dá para ir mais longe a partir dessa informação. "Se os nomes dos Evangelhos estão corretos, a família de Jesus era muito orgulhosa da tradição judaica. Seus 4 irmãos tinham nomes de fundadores da nação de Israel", diz a historiadora Paula Fredriksen, da Universidade de Boston. "Seu próprio nome em aramaico, Yeshua, recordava o homem que teria sido o braço direito de Moisés e liderado os israelitas no êxodo do Egito, mais de mil anos antes."

Assim, a família teria pelo menos 9 pessoas, mas nem por isso era pobre. Nazaré ficava a apenas 8 km de Séforis - um grande centro comercial onde o rei Herodes, o Grande, governava a serviço de Roma. Com a morte dele, em 4 a.C., militantes judeus se revoltaram contra a ordem política. Deu errado: o general romano Varus chegou da Síria para reprimir os rebeldes. E seu amigo Gaio completou o serviço, queimando a cidade. "Homens foram mortos, mulheres estupradas e crianças escravizadas", diz Crossan. Mas a destruição de Séforis teve um lado positivo: Herodes Antipas, filho do "o Grande", transformou o lugar num canteiro de obras. Isso trouxe uma certa abundância de empregos para a região. Um pequeno boom econômico. Então o ambiente ao redor da família de Jesus não era de privações. "A reconstrução da cidade deve ter gerado muito trabalho para José", diz Paula Fredriksen.

Jesus nasceu no ano da destruição da cidade, 4 a.C. Ou perto disso. O Evangelho de Mateus diz que Jesus nasceu no tempo de Herodes, o Grande (4 a.C. ou antes). Lucas coloca o nascimento na época do primeiro censo que o Império Romano promoveu na Judeia. E isso aconteceu, segundo as fontes históricas romanas, em 6 a.C. A única certeza, enfim, é que "foi por aí" que Jesus nasceu. E que o ódio contra o que os romanos tinham feito em Séforis permeava o ambiente onde ele viveu. "Não é difícil imaginar que Jesus pensou muito sobre os romanos enquanto crescia", diz Crossan.

Na década de 20 d.C., quando Jesus estava nos seus 20 e poucos anos, o sentimento antirromano cresceu mais ainda. Pôncio Pilatos assumiu o governo da Judéia cometendo o maior pecado que poderia: desdenhar da fé dos judeus no Deus único.

Mas, em vez de se unir contra o romano, os judeus se dividiram em seitas. Os saduceus, por exemplo, eram os mais conservadores. Os fariseus eram abertos a ideias novas, como a ressurreição - quando os justos se ergueriam das tumbas para compartilhar o triunfo final de Deus. Os essênios viviam como se o fim dos tempos já tivesse começado: moravam em comunidades isoladas, que faziam refeições em conjunto seguindo estritas leis de pureza. Já os zelotes defendiam a luta armada contra os romanos.

Em qual dessas seitas Jesus se engajou na juventude? Não há consenso entre os pesquisadores. Para alguns, porém, existem semelhanças entre a dos essênios e o movimento que Jesus fundaria - ambas as comunidades viviam sem bens privados, num regime de pobreza voluntária, e chamavam Deus de "pai". Essa hipótese ganhou força com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto, em 1947. Eles trouxeram detalhes sobre uma comunidade asceta de Qumran, que viveu no século 1 e estaria associada aos essênios. O achado ar-queológico não provou a ligação entre Jesus e essa seita. Até porque os essênios eram sujeitos reclusos, ao passo que Jesus foi pregar entre as massas da Galileia e Jerusalém.

Jesus podia não ser essênio. Mas, para alguns estudiosos, seu mentor foi.

João, o mestre

Dois dos 4 Evangelhos começam a falar de João Batista antes de mencionar Jesus. É em Marcos e João. O homem que batizaria Cristo aparece descrito como um profeta que se vestia como um homem das cavernas ("em pelos de camelo") e que vivia abaixo de qualquer linha de pobreza traçável ("comia gafanhotos e mel silvestre").

Para a historiadora britânica Karen Armstrong, outra grande especialista no tema, isso indica que João pode ter sido um essênio. A vocação "de esquerda" que Jesus mostraria mais tarde, inclusive, pode vir da ligação do mestre João com a "sociedade alternativa" dos essênios. "É mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que entrar um rico no reino de Deus", ele diria mais tarde.

Os Evangelhos não falam de João como mestre de Jesus. Nada disso. Ele apenas reconhece Jesus como o Messias na primeira vez que o vê. Os textos sagrados também informam que ele usava o batismo como expediente para purificar seus seguidores, que deviam confessar seus pecados e fazer votos de uma vida honesta.

Então Jesus aparece pedindo para ser batizado. Na Bíblia, esse é o primeiro momento em que vemos o Messias após aqueles 18 anos de ausência.

Depois de purificado nas águas do rio Jordão, Jesus parte para sua vida de pregação, curas e milagres. A vida que todos conhecem.

Para quem entende esse relato à luz da fé, isso basta. Mas é pouco para quem tenta montar um panorama da vida de Jesus, um retrato puramente histórico de quem, afinal, foi o homem da Galileia que sairia da vida para entrar na Bíblia como o Deus encarnado. E uma possibilidade é que Jesus tenha sido um discípulo de João Batista. Discípulo e sucessor.

As evidências: tal como João Batista, Jesus via o mundo dividido entre forças do bem e do mal. E anunciava que Deus logo interviria para acabar com o sofrimento e inaugurar uma era de bondade. Em suma: tanto um como o outro eram o que os pesquisadores chamam de "profetas apocalípticos". E se os Evangelhos jogam tanta luz sobre João Batista (Lucas fala inclusive sobre o nascimento do profeta, assim como faz com Jesus), a possibilidade de que a relação deles tenha sido mais profunda é real.

O grande momento de oão Batista na Bíblia, porém, não é o batismo de Jesus. É a sua própria morte. Morte que abriria as portas para o nosso Yeshua, o Jesus da vida real, começar o que começou.

E Yeshua vira Cristo

João Batista podia se vestir com pele de animal e se alimentar de gafanhotos. Mas tinha a influência de um grande líder político. Prova disso é que morreu por ordem direta de Antipas. O Herodes júnior tinha violado o 10º mandamento da lei judaica: "Não cobiçarás a mulher do próximo". Não só estava cobiçando como estava de casamento marcado com a ex-mulher do irmão, Felipe. João condenou a atitude do rei publicamente. E acabou executado.

Mateus deixa claro como Jesus, então já com seus 12 discípulos e em plena pregação, recebeu a notícia: "Ouvindo isto, retirou-se dali para um lugar deserto, apartado; e, sabendo-o o povo, seguiu-o a pé desde as cidades". Logo na sequência, o Cristo emenda o maior de seus milagres. Sentido com a fome da multidão que ia atrás dele, pegou 5 pães e dois peixes (tudo o que os apóstolos tinham) e foi dividindo. Passava os pedaços aos discípulos, e os discípulos à multidão. "E os que comeram foram quase 5 mil homens, além das mulheres e crianças" (Mateus 14:21). Horas depois, no meio da madrugada, outro milagre de primeiro escalão: Jesus apareceria para os apóstolos andando sobre as águas.

Esses episódios, claro, são parte da vida conhecida de Jesus (ou da mitologia cristã, em termos técnicos). Mas deixam claro: a morte de João foi importante a ponto de ter sido seguida de dois dos grandes episódios da saga de Cristo.

O filho do pedreiro assumiria o vácuo religioso deixado pelo profeta. Agora sim: Yeshua caminharia com as próprias pernas. E começaria a virar Jesus Cristo. "Ele não só assumiu o manto de João, mas alterou sua doutrina. A diferença interessante entre João Batista e Jesus Cristo é que Jesus ergueu o manto caído de Batista e continuou seu programa mudando radicalmente sua visão", diz Crossan.

Ele continua: "João dizia que Deus estava chegando. Mas João foi executado e Deus não veio". Ou seja: para o pesquisador, Jesus teria ficado tão chocado ante a não-intervenção divina que mudou sua visão sobre o que o Reino de Deus significava.

"João Batista havia imaginado uma intervenção unilateral de Deus. Jesus imaginou uma cooperação bilateral: as pessoas deveriam agir em combinação com Deus para que o novo reino chegasse", diz o pesquisador. Ou seja: não adiantaria esperar de braços cruzados. O negócio era fazer o Reino dos Céus aqui e agora. Como? Primeiro, extinguindo a violência. Mas e se alguém me der um soco, senhor? "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra" (Lucas 6:29). Depois, amando ao próximo como a ti mesmo, ajudando ao pior inimigo se for necessário, como fez o bom samaritano da parábola famosa... Em suma, a essência da doutrina cristã.

A natividade

Agora, um aparte: chamar de "anos ocultos" apenas a juventude de Jesus é injustiça. O nascimento também é uma incógnita completa. A começar pela data de nascimento: 25 de dezembro era a data em que os romanos celebravam sua festa de solstício de inverno, a noite mais longa do ano. Não porque gostassem de noites sem fim, mas porque ela marcava o começo do fim do inverno. Praticamente todos os povos comemoram esse acontecimento desde o início da civilização - nossas festas de fim de ano, a semana entre o Natal e o Ano-Novo são um reflexo disso. O dia em que Jesus nasceu não consta na Bíblia - foi uma imposição da Igreja 5 séculos depois, para coincidir o nascimento do Messias com a festa que já acontecia mesmo - com troca de presentes e tudo.

"Na verdade, não sabemos nada histórico sobre Jesus antes de sua vida pública, já que os dois primeiros capítulos de Mateus e Lucas [os que relatam o nascimento] são basicamente parábolas, não história", diz Crossan. De acordo com Mateus, José soube num sonho que Maria daria à luz um menino concebido pelo Espírito Santo. Quando Jesus nasce, magos surgem do Oriente e seguem uma estrela que os conduz a Jerusalém. Lá, eles ficam sabendo que o Cristo nasceu em Belém. Seguindo a estrela, os magos chegam à cidade para adorar o menino e lhe regalam com ouro, incenso e mirra. Mas Herodes fica perturbado com o nascimento e manda soldados matarem todos os bebês de até 2 anos em Belém. Assim, José foge com a família para o Egito e depois vai morar em Nazaré, na Galileia, onde Jesus é criado.

"Não há nenhum relato, em qualquer fonte antiga, sobre o rei Herodes massacrar crianças em Belém, ou em seus arredores, ou em qualquer outro lugar. Nenhum outro autor, bíblico ou não, menciona isso", diz o teólogo americano Bart D. Ehrman no livro Quem Foi Jesus? Quem Jesus Não Foi?

No relato de Lucas, o anjo Gabriel vai à casa de Maria, em Nazaré, e lhe avisa que daria à luz um futuro rei. E que o "Filho de Deus" se chamaria Jesus. Maria era uma virgem prometida a José, e o anjo lhe explicou que o filho seria gerado pelo Espírito Santo. Lucas diz que naquela época, "quando Quirino era governador da Síria", um decreto do imperador Augusto obrigou os súditos a se registrar no primeiro censo do Império. Todo mundo devia retornar à cidade de origem para se alistar. Como os ancestrais de José eram de Belém, ele foi com Maria grávida para lá. Jesus nasceu em Belém pouco depois, e foi envolvido em panos na manjedoura. Lá o menino recebeu a visita de pastores e foi circuncidado aos 8 dias, para depois passar a infância em Nazaré.

"Os problemas históricos em Lucas são ainda maiores", diz Ehrman. "Temos registros do reinado de Augusto, e em nenhum deles há referência a um censo para o qual todos teriam de se registrar retornando ao lar dos ancestrais."

Ok, mas afinal por que Mateus e Lucas fazem Jesus nascer em Belém? Bom, de acordo com uma profecia do livro de Miqueias, do Antigo Testamento, o salvador viria de lá. Por que de lá? Porque era a cidade do rei Davi, o mais lendário dos soberanos de Israel.

Depois que o general Pompeu invadiu a Judeia, em 63 a.C., e fez dela província do Império Romano, os profetas passaram a dizer que um rei da linhagem de Davi inauguraria o "reino de Deus". Chamavam essa figura de "o ungido" - já que Davi e outros reis israelitas haviam sido ungidos com óleo. Os Evangelhos foram escritos em grego, o inglês da época. E em grego "ungido" é christos. O Cristo tinha que nascer em Belém. Yeshua provavelmente era de Nazaré mesmo.

Os Evangelhos, por sinal, são obra de autores desconhecidos. É apenas uma convenção dizer que foram escritos por Marcos (secretário do apóstolo Pedro), Mateus (o coletor de impostos), João (o "discípulo amado") e Lucas (o companheiro de viagem de Paulo). Além disso, os escritores não foram testemunhas oculares. "O autor de Marcos escreveu por volta do ano 70. Mateus e Lucas, de 80. E João, no final dos 90", diz Karen Armstrong. E claro: "Eram cristãos. Eles não estavam imunes a distorcer as histórias à luz de suas crenças", diz Ehrman. Afinal, "evangelho" deriva da palavra grega euangélion, que significa "boas novas". O objetivo dos autores não era escrever a biografia de Jesus, e sim propagar a nova fé. Levando isso em conta, chegamos a outra polêmica: os anos considerados como os mais conhecidos da vida de Jesus também são cheios de episódios misteriosos. Vejamos.

Yeshua sai da vida para entrar na Bíblia

Talvez tenha sido em busca de audiência que Yeshua rumou com os discípulos da Galileia para Jerusalém, por volta do ano 30 d.C. Depois de 3 anos pregando na periferia, já seria hora de atuar no palco principal.

Jerusalém era o pivô do fermento espiritual judaico, e milhares de judeus iam para lá na Páscoa. Os Evangelhos nos dizem que Jesus causou um tumulto no local, destruindo as banquinhas de câmbio (que trocavam moedas estrangeiras dos romeiros por dinheiro local cobrando uma comissão), já que seria uma ofensa praticar o comércio em pleno Templo de Jerusalém, o lugar mais sagrado da Terra para os judeus. Por perturbar a ordem pública, ele foi condenado à cruz. Parece historicamente sólido, mas o episódio central do Novo Testamento também é fonte de reinterpretações.

No julgamento, por exemplo, a multidão teria pedido que Barrabás, um assassino, fosse solto em vez de Jesus - já que era "costume" da Páscoa. Esse costume, porém, não é mencionado em nenhum lugar, exceto nos Evangelhos. Além disso, Jesus pode não ter sido exatamente crucificado, mas "arvorificado". É a teoria (controversa, é verdade) do arqueólogo Joe Zias, da Universidade Hebraica de Jerusalém. Suas pesquisas indicam que as vítimas dos romanos eram mais comumente crucificadas em árvores, pregando uma tábua de madeira no tronco para prender os braços do condenado. Seja como for, não há por que duvidar de que ele tenha sido executado. Roma usava e abusava do expediente para tentar manter o controle das regiões que conquistava. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu do século 1, numa só ocasião 2 mil judeus foram executados

A história de Jesus não acaba aí, claro. "Alguns discípulos estavam convencidos de que ele ressuscitara. E que sua ressurreição anunciava os últimos dias, quando os justos se reergueriam das tumbas", diz Armstrong. Para esses judeus cristãos, Jesus logo retornaria para inaugurar o novo reino. O líder do grupo era Tiago, irmão de Jesus, que tinha boas relações com fariseus e essênios. E o movimento se expandiu. Quando Tiago morreu, em 62, Jerusalém vivia o auge da crise política. Em 66, romanos perseguiram os judeus com medo de uma insurgência. Os zelotes se rebelaram e conseguiram manter as tropas do Império afastadas por 4 anos. Com medo de que a rebelião judaica se espalhasse, Roma esmagou os revoltosos. Em 70, o imperador Vespasiano sitiou Jerusalém, arrasou o Templo e deixou milhares de mortos.

"Não temos ideia de como seria o cristianismo se os romanos não tivessem destruído o Templo", diz Armstrong. "Sua perda reverbera ao longo dos livros que formam o Novo Testamento. Eles foram escritos em resposta à tragédia."

Para os pesquisadores, então, os textos sagrados refletem a realidade da Judeia do final do século 1 - e não a do início, a que Jesus viveu de fato. Por exemplo: Barrabás personificaria os sicários, judeus que saíam armados de punhais para matar romanos na calada da noite, como uma forma de vingança pela destruição do Templo. E que por isso mesmo eram assassinos amados pela população.

Quer dizer: Barrabás seria um personagem típico da década de 70 d.C., inserido no episódio da morte de Jesus, fato que aconteceu na década de 30 d.C, num momento em que o ódio aos romanos e o louvor a quem se dispusesse a matá-los não eram tão violentos.

Até a época em que os Evangelhos foram escritos, o movimento de Jesus era apenas um entre as várias seitas judaicas. Os primeiros cristãos se diziam "o verdadeiro Israel" e não tinham intenção de romper com a corrente principal do judaísmo. Mas tudo mudou com a destruição do Templo.

Ela intensificou a rivalidade entre as facções judaicas. "Em sua ânsia por alcançar o mundo gentio (o dos não-judeus), os autores dos Evangelhos estavam dispostos a absolver os romanos da execução de Jesus e declarar, com estridência crescente, que os judeus deviam carregar a culpa", diz Armstrong. João, o Evangelho mais virulento, declara que os judeus são "filhos do Diabo" (João 8:44). Até o autor de Lucas, que tinha uma visão mais positiva do judaísmo, deixou claro que havia um bom Israel (os seguidores de Jesus) e um Israel mau - os fariseus.

A rixa com os fariseus tem lógica, já que eram competidores diretos dos judeus cristãos. "Num extremo do judaísmo estavam os saduceus, a ala mais conservadora. No outro, os essênios, a mais radical. Já os fariseus e os judeus cristãos estavam no meio. Eles lutavam pela mesma coisa: a liderança do povo, que estava entre as duas pontas", diz Crossan.

Não é surpresa, aliás, que os livros do Novo Testamento contenham tantas contradições entre si. "Quando os editores finais do Novo Testamento juntaram esses textos, no início da Idade Média, não se incomodaram com as discrepâncias. Jesus havia se tornado um fenômeno grande demais nas mentes dos cristãos para ser atado a uma única definição", diz Armstrong. Os Evangelhos atribuídos a Marcos, Lucas, Mateus e João seriam finalmente selecionados para o cânon da Igreja. Dezenas de outros evangelhos ficaram de fora.

Só no século 2, quase 100 anos após a morte de Jesus, começam a aparecer relatos sobre ele no centro do Império. Um deles é uma carta do político romano Plínio ao imperador Trajano. Plínio cita pessoas conhecidas como "cristãs" que veneravam "Cristo como Deus". Outra fonte é o historiador romano Tácito, que menciona os "cristãos (...), conhecidos assim por causa de Cristo (...), executado pelo procurador Pôncio Pilatos". Suetônio, que escreveu pouco depois de Tácito, informa sobre uma perseguição de cristãos, "gente que havia abraçado uma nova e perniciosa superstição". Uma "superstição" cuja mensagem convenceria cada vez mais gente, a ponto de, no século 4, o imperador romano em pessoa (Constantino, no caso) converter-se a ela. E o resto é história. Uma história que chega ao seu segundo milênio. Com 2 bilhões de seguidores.

Lost Years

Antes dos 30, Jesus provavelmente teve a mesma formação religiosa dos judeus de sua época. Ou seja: seguia outro Jesus. Outro profeta.

16 anos

O jovem Yeshua (Jesus, em aramaico) tinha 4 irmãos homens e pelo menos duas irmãs mulheres. E cresceu na cidade onde nasceu: Nazaré.

20 anos

Ele pode não ter sido carpinteiro, mas pedreiro. O engano de 2 mil anos seria culpa de um erro de tradução.


28 anos

Na Bíblia, o profeta João apenas batiza Cristo. O mais provável, porém, é que ele tenha sido o grande mentor do jovem Yeshua.

33 anos

Os romanos crucificavam em massa. E também usavam árvores como base. Esse pode ter sido o cenário da morte de Jesus.
Revista Superinteressante

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Fé e Razão no Ocidente Medieval


VOLTAIRE SCHILLING
Durante os primeiros séculos da ascensão do Cristianismo como religião oficial do Império Romano e depois dos Reinos Bárbaros, a apologia da fé foi o principal motor da Patrística, a teologia da nova crença. Formou-se então um campo próprio: o campo da fé. Com o tempo, e com a consolidação do poder da cruz, um novo território se fez necessário abrir, o do campo da razão.

O Campo da Fé
O desabamento do Reino dos Césares e a 'pavorosa revolução' que se seguiu a partir do século V, provocaram profunda e radical mudança nos costumes dos homens e mulheres daquela época. Um querer afastar-se de tudo, um sincero desejo de renuncia da vida tomou conta de boa parte da antiga elite do Império Romano, atitude que contaminou inclusive os germanos recém chegados e recém convertidos ao cristianismo. Multiplicaram-se então os mosteiros e os conventos, considerados como os únicos espaços adequados ao que restava da existência de um cristão na Terra.

O monaquismo se espalhou pela Europa bárbara como fogo em palha Entenderam aqueles edifícios, imponentes construções de pedra que dominavam os altos das colinas e das montanhas de boa parte da Europa, como os únicos habilitados, graças ao ambiente angélico, a promoverem a entrada de um crente no Reino dos Céus.
O mosteiro ou o convento era a Cidade de Deus aqui na Terra, o protótipo humano do mundo da perfeição que certamente os bem-aventurados encontrariam no Além. Chateaubriand, um apologista do Cristianismo, os denominou como 'espécies de fortalezas que a civilização se abrigou sob o pendão de qualquer santo(...) sem a inviolabilidade do claustro, os livros e as línguas da Antiguidade não nos teriam sido transmitidas..'(cit. por Daniel-Rops, pág.407).

Apesar de dotados de farta livralhada, códices, rolos e pergaminhos antigos, as bibliotecas monacais não estavam voltadas para o conhecimento mas para a exaltação e celebração de Deus. Em suas mesas debruçavam-se os copistas, monges laboriosos e pacientes que reproduziam uma a uma, com caligrafia finamente trabalhada, as páginas dos Livros Sagrados ou as dos sábios e literatos pagãos. Impediram assim com seu dedicado labor que os memoráveis preceitos e os diversos estilos do passado viessem a cair no esquecimento, preservando-os para o futuro.

As Ordens Religiosas
Surgem então as primeiras Ordens Religiosas (*): em Montecassino fundou-se a Abadia dos Beneditinos, no ano de 529, por iniciativa de Bento de Núrsia, o prior responsável pela fixação das famosas Regula Benedicti que serviriam de modelo para as demais constituições monacais que iriam se formar posteriormente. Entre elas a famosa Ordem Cluniacense ou de Cluny fundada por S.Bernardo na Abadia de Clarivaux, o 'Vale da Luz', na Burgúndia, no ano de 1115. Em 1209 foi a vez de Alberto de Jerusalém legar regras para a Ordem dos Carmelitas, monges que moravam no Monte Carmelo, na Terra Santa.

Neste mesmo ano, Francisco di Boldone, um filho de um bem sucedido comerciante de tecidos da Úmbria que abandonara a família para dedicar-se aos pobres e aos desvalidos, também estabelece as regras para os seus companheiros, os irmãos franciscanos, os Penitentes de Assis, a quem, repetindo o Evangelho de Mateus, teria dito 'todo aquele que quiser seguir-me, renuncie a si mesmo e tome a sua cruz'.

Dois anos depois da morte dele, seus seguidores da Ordem dos Irmãos Menores, providenciaram a edificação da monumental Basílica de Assis, em 1228. A Ordem dos Irmãos Pregadores, por sua vez, mais conhecida como Dominicana, autodesignada como a 'Milícia de Cristo', bem mais intelectualizada do que a dos franciscanos, foi fundada pela mesma época ,em 1217 em Toulouse, na França por S.Domingos de Gusmão, o seu primeiro Mestre-Geral. Ainda que sua intenção era combater a heresia dos cátaros, não se descuidou de estar presente em Roma por meio dos conventos de São Sisto e de Santa Sabina.
(*) Ordem, para os romanos chegou a designar um corpo privilegiado isolado do resto e investido de responsabilidades particulares. Também foi percebida como uma organização justa e boa do universo, aquilo que a moral, a virtude e o poder têm como missão conservar. Entenderam-na por igual como 'um exército que lutava contra o mal', com diferentes tarefas e diferentes ofícios hierarquizados.(ver G.Duby - Los tres órdenes.... pág. 99-102)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

As primeiras palavras de Deus

Há cinqüenta anos, dois beduínos encontravam centenas de pergaminhos enterrados no deserto. Hoje, setenta cientistas estão prestes a terminar a tradução dos Manuscritos do Mar Morto, os mais antigos textos bíblicos conhecidos.
por Ricardo Arnt
Como uma cabra mudou a História

Num final de tarde em abril de 1947, Juma Muhammed espreguiçou-se e decidiu que era hora de recolher o rebanho. Subiu em um rochedo, atrás de uma cabra, e aí algo chamou sua atenção: duas aberturas nas rochas. Eram cavernas, bem pequenas. Um homem teria que se espremer para entrar. Atirou uma pedra pelo buraco e ouviu o barulho de um vaso se quebrando. Desde Ali Babá, o que mais poderia haver numa caverna do deserto senão um tesouro? Juma chamou o primo que estava embaixo, Muhammed Ahmed (também conhecido como “Lobo”), e os dois examinaram a entrada. Como já estava escurecendo, resolveram voltar para o acampamento – as tendas dos beduínos nômades taamireh, na margem do Mar Morto, perto de Qumran – e retornar depois.
No dia seguinte, Lobo deu o golpe. Acordou de madrugada e correu à caverna sozinho. Esgueirou-se lá dentro e descobriu, contra o fundo, uma fila de jarros esguios e tampados. Havia entulho e cacos no chão. Penosamente, arrastou-se pelo chão e enfiou a mão em um deles. Nada. Vasculhou nove jarros freneticamente. Nada. No décimo, agarrou algo enrolado em tecido. Achou três rolos de pergaminho, envoltos em linho e couro. Abatidíssimo, foi acordar os primos sonolentos.
É claro que era um tesouro. Arqueológico. Naquela manhã, Lobo descobriu o mais antigo original existente do Livro de Isaías, da Bíblia, o Comentário de Habacuc (outro profeta judaico) e o Manual de Disciplina dos essênios – a seita de eremitas judeus que enterrou seus textos para protegê-los de um ataque romano no ano 68 d.C. Preservaram os escritos, mas o seu convento foi arrasado. Restam, hoje, as ruínas de Qumran.
Cinqüenta dólares
Os taamireh voltaram à caverna, tiraram os jarros de dentro, abandonaram-os na estrada e levaram os pergaminhos que acharam para Belém, mal dobrados nas bolsas. O Manual de Disciplina chegou partido em dois. A cidade estava sob Lei Marcial. Eram os últimos dias do domínio inglês, os judeus queriam a independência de Israel, havia combates e atentados. Em meio ao tumulto, ofereceram os rolos a mercadores, mas ninguém se interessou. Um sapateiro concordou em vendê-los em troca de comissão.
Em maio, um dos pergaminhos foi oferecido ao bispo Athanasius Samuel, da igreja cristã ortodoxa síria de Jerusalém, o primero a intrigar-se. De saída, percebeu que, se o manuscrito não fosse uma falsificação e tivesse vindo do Mar Morto, deveria ser antigo, pois aquela região era desabitada desde o começo do cristianismo. Um mês depois, o sapateiro lhe vendeu cinco rolos por um preço jamais revelado. Diz a lenda que custou 50 dólares.
Recuando a História
Em março de 1948, os exames paleográficos confirmaram: o Livro de Isaías era do ano 100 a.C. Imagine-se o nervosismo. O mais antigo original existente do Velho Testamento era da Idade Média. A destruição de Jerusalém pelos romanos, no ano 70, não poupou documentos. A mais velha Bíblia judaica, encontrada em Alepo, na Síria, era do século X. O mais remoto documento judeu existente era uma Mishná, o código dos rabinos, do ano 200. Quanto ao Novo Testamento (cristão), o original mais antigo era o Papiro John Ryland, um fragmento do Evangelho de São João, do ano 125, em grego, da Biblioteca John Ryland, da Universidade de Manchester, Inglaterra.
Os manuscritos, portanto, eram provas materiais de uma história passada 2 000 anos antes. Tão logo a notícia se espalhou, beduínos e arqueólogos vasculharam 267 cavernas na região de Qumran. De 1951 a 1956, o padre Roland de Vaux, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa de Jerusalém, escavou as ruínas, então desconhecidas, e descobriu o convento dos essênios (leia na página 54).
No total, cerca de 900 manuscritos, escritos em hebraico, aramaico e grego, foram achados em mais dez cavernas, numeradas, então, de 1 a 11. Outros sítios arqueológicos associados a Qumran, também com pergaminhos, foram descobertos, como a fortaleza judaica de Massada, no sul do Mar Morto. Muitos rolos estavam em bom estado, mas a maioria não resistiu aos séculos e despedaçou-se. A caverna 4 enlouqueceu os paleógrafos: continha 575 dos 900 manuscritos, mas em 15 000 pedaços, alguns do tamanho de uma unha. Antes da tradução, um quebra-cabeças infernal, faltando peças, devia ser montado.
“Os manuscritos são a maior descoberta arqueológica do século”, disse à SUPER o padre católico e filólogo Emile Puech, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa, um dos tradutores. “Basta considerar sua idade, diversidade e conteúdo.” Outro tradutor, o teólogo Eugene Ulrich, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, especifica: “É a mais importante descoberta da história religiosa do Ocidente.”
O arquivo dos essênios revelou pergaminhos do ano 225 a.C. ao ano 65 d.C., contemporâneos, portanto, de Jesus Cristo (que morreu no ano 33, aproximadamente). Possuía originais de 22 dos 23 Livros do Antigo Testamento (a exceção é o Livro de Esther) e vasta literatura não bíblica. Tem, assim, a mais antiga palavra registrada do Deus judaico-cristão: um fragmento do Livro de Samuel, do ano 225 a.C., achado na caverna 4.
Graças à descoberta, as cópias do Antigo Testamento feitas por gregos, latinos, sírios, etíopes e bizantinos, durante séculos, podem ser conferidas. Os manuscritos iluminaram a história do judaísmo e as raízes do cristianismo.
O cofre dos donos da verdade
Essênios e cristãos habitaram os mesmos lugares na mesma época. Essa vizinhança transformou o estudo dos manuscritos numa tarefa nervosa. Cada pergaminho desenrolado prometia revelações espetaculares. Só que não houve nenhuma. Não há menção ou alusão a Jesus Cristo nos 900 manuscritos, quase todos já traduzidos. Nenhumazinha. E as supostas identidades entre os textos de Qumran e os evangelhos cristãos foram rejeitadas pela maioria dos estudiosos. Isso significa que os essênios eram uma seita à parte, distinta daquela que os cristãos formavam.
Na época, o que não faltava eram seitas. Havia fariseus, saduceus, hassidim, zelotas, sicários, betusianos e cristãos. Os essênios eram poucos, mas sua conduta exótica atraiu a atenção de historiadores como Flávio Josefo (37-100), Plínio, o Velho (23-79) e Fílon, o Judeu (20 a.C.-50 d.C). Estavam espalhados por toda a Judéia, porém a comunidade que morava às margens do Mar Morto (veja o mapa na página 53) era especial. Lá viviam como cenobitas (monges que levam vida retirada mas em comum com outros), sob disciplina ultra-severa.
Filhos de Zadoque
Como as outras seitas, os essênios se consideravam os únicos filhos de Israel, os legítimos herdeiros das tradições autênticas de Moisés, e rejeitavam a aristocracia sacerdotal do Templo de Jerusalém. Tanto que seus sacerdotes se intitulavam “filhos de Zadoque”, o sumo sacerdote do rei Davi, de quem se achavam descendentes diretos. Os demais membros eram divididos em doze tribos – como as doze tribos de Judá que aparecem na Bíblia.
Roland de Vaux desenterrou as fundações de um edifício de pedra, construído por volta de 150 a.C., que tinha entre vinte e trinta aposentos e treze cisternas. Achou um cemitério com 1 200 sepulturas. Abriu 26 ao acaso e encontrou corpos de homens adultos, sem adornos ou objetos. Não havia mulheres. A comunidade renovava-se com ondas de refugiados que buscavam salvação. Na época, acreditava-se piamente na vinda próxima do Messias e no fim do mundo, o apocalipse.
A irmandade não devia ultrapassar 200 indivíduos. Moravam em cavernas, cabanas e tendas e iam ao mosteiro para rezar, comer ou freqüentar assembléias. Foram achados restos de lâmpadas, picaretas, agulhas, pentes, botões, colheres, tigelas e pratos de madeira, pregos, fechaduras, chaves, cinzéis, foices, vasos, tinteiros e manuscritos. Também havia paredes derrubadas, marcas de incêndio e flechas de ferro romanas. Espalhadas pelos edifício, encontraram-se 400 moedas, mas nenhuma nas cavernas. A mais velha era do ano 136 a.C. e a mais nova do ano 79 – já com a inscrição Judaea capta (Judéia capturada), indicando que os romanos ocuparam o convento depois da sua destruição.
Silêncio piedoso
Era uma existência de renúncia ao conforto e ao prazer. Os membros entregavam seus bens e davam o que ganhavam à “ordem”. Em troca, recebiam tudo de que necessitavam. Um administrador fazia as compras e administrava o dinheiro. Cultivavam a terra, produziam cerâmica, curtiam peles, eram pastores e apicultores. Boa parte do tempo era gasto na produção dos manuscritos da doutrina.
Vestiam-se sempre de branco. A comida era sujeita a rígidas regras de purificação. Davam extrema atenção ao asseio e se banhavam muito. Obedeciam a todas as leis de Moisés e dos profetas. Não tinham escravos nem amos. A disciplina estabelecia hierarquias de acordo com graus de “pureza espiritual” dos irmãos, com os sacerdotes no topo. O silêncio era muito importante. Era proibido conversar antes do nascer do sol e as refeições deviam ser realizadas sem ruído. Ninguém deveria falar fora de vez. O guardião da seita, chamado “Mestre da Justiça”, presidia as assembléias, dava a palavra aos que queriam falar e avaliava o progresso espiritual de todos.
Calúnias contra a congregação ou rebeldia contra a disciplina recebiam expulsão imediata. Quem quebrasse a lei por descuido merecia dois anos de penitência. Quem escondesse posses era excluído do convívio e tinha sua cota de alimentos reduzida. Mentir, enganar, vingar-se, falar mal de um companheiro injustamente, “andar nu ante seus companheiros sem ter sido obrigado a isso” – curiosa cláusula do Manual de Disciplina – implicavam seis meses de penitência. Falar tolamente, três meses. Rir tolamente, trinta dias. Interromper a fala de alguém, dez dias.
As proibições do Sabbath (o dia de descanso) eram minuciosas. Era proibido trabalhar, cozinhar, comer frutas do campo, carregar água, varrer a casa e andar (por qualquer razão) mais do que mil côvados (457 metros). Não era permitido ajudar animais que caíssem numa cova. Faltas eram punidas com sete anos de prisão.
Tanta severidade acabou enfraquecendo os essênios, explicou à SUPER o professor Geza Vermes, do Centro de Estudos Judaicos da Universidade de Oxford, na Inglaterra: “A frágil estrutura da sua organização inflexível e restrita não foi capaz de resistir à catástrofe nacional do ano 70” (a destruição de Jerusalém pelos romanos). Sistemas dogmáticos não têm flexibilidade. Ou resistem ou desabam. Para Vermes, “comparada ao conservadorismo e à rigidez da lei essênica, o judaísmo ortodoxo é progressista e flexível”.
O triunfo da ciência sobre a vaidade
Nunca houve uma tradução igual. Em janeiro passado saiu o volume 22 e, agora, em abril, foi publicado o volume 15 das Descobertas do Deserto da Judéia, pela Oxford University Press – a edição oficial dos Manuscritos. Sai um volume a cada três meses, fora de ordem porque os tradutores trabalham autonomamente. Setenta paleógrafos, filólogos, lingüistas e teólogos em Israel, na Europa e nos Estados Unidos contribuem para a obra, prevista para 39 volumes. Até dezembro, todos os textos referentes à Bíblia serão publicados. A edição dos demais será concluída só no ano 2000.
O que falta? Falta publicar a tradução, já feita, de pergaminhos da caverna 11 e montar os fragmentos da caverna 4, ainda não decifrados. “São textos desconhecidos cujo entendimento apresenta surpresas e problemas”, diz Eugene Ulrich. Emile Puech confirma: “Demoraremos mais alguns anos para terminar com a caverna 4.”
Como muitos pergaminhos estavam despedaçados em partes minúsculas, a primeira tarefa dos pesquisadores foi enfrentar o quebra-cabeças. Para montá-lo, os paleógrafos analisam a pele do pergaminho, a escritura (a tinta, a pena usada), o estilo literário e a caligrafia do escriba. Até o “padrão de estrago” ajuda a agrupar fragmentos de rolos atacados por roedores, insetos ou umidade que geram danos similares. A Genética identifica as peles de um mesmo animal. Sua origem e idade pode ser precisada comparando os dados com genes de fósseis do Mar Morto. A análise do DNA permite encaixar fragmentos na ordem certa.
A tradução avançou, mas não acabou. Mas pelo menos acabou o mistério: os textos que ainda faltam da caverna 4 referem-se à organização dos essênios. “Não há nenhuma bomba teológica”, diz Geza Vermes. Ou seja, não haverá revelações estrondosas.
Complô policial
A novela científico-policial da tradução começou em 1951, quando o governo da Jordânia – que controlava a margem ocidental do Rio Jordão, onde está Qumran, e a parte oriental de Jerusalém, ambas anexadas por Israel em 1967 – montou a primeira equipe de tradutores. Foram escolhidos se-te eruditos, a maioria padres católicos, filólogos da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa. Por motivos políticos, pesquisadores judeus foram excluídos. A equipe embarcou numa missão impossível. Os sete simplesmente dividiram 500 textos entre si. Houve excesso de autoconfiança e vaidade intelectual nessa empreitada que, afinal, prometia revirar o cristianismo.
Resultado: somente um tradutor, o inglês John Allegro, conseguiu publicar o que devia. Mas seu trabalho ficou tão ruim que o artigo com correções é mais longo que o original. De 1960 a 1990 – trinta longos anos –, a equipe publicou apenas 100 dos 500 textos encomendados. E impediu o acesso dos outros pesquisadores. As solicitações dos estudiosos “de fora” para examinar os pergaminhos foram recusadas. E quando membros da equipe faleceram, seus textos foram “legados” a colegas de confiança, como se fossem herança.
Três décadas de sigilo alimentaram teorias conspiratórias. Muitos acreditavam que o Vaticano, por meio da influência sobre os padres tradutores, estaria impedindo revelações dos pergaminhos que abalariam a religião cristã. “Inventou-se um complô – diz o padre Puech – digno de um romance policial.” Em 1977, o professor Geza Vermes, de Oxford, chegou a chamar a tradução oficial de “o maior escândalo acadêmico do século XX”.
Pressão pela transparência
Em 1985, a Biblical Archaeology Review, dos Estados Unidos, começou uma campanha pela “liberação dos manuscritos”. Mas a abertura foi gradual. Primeiro, o governo de Israel, que assumira o controle dos documentos desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, decidiu em 1991 criar uma nova comissão de editores-chefes, formada por Emanuel Tov, da Universidade Hebraica de Jerusalém, Eugene Ulrich e Emile Puech. Finalmente, em novembro do mesmo ano, a Biblioteca Huntington, da Califórnia, acabou com as especulações, tornando públicas fotocópias de todos os fragmentos. Com isso, a exclusividade sobre o material trancafiado em Jerusalém perdeu o sentido. Venceu a transparência.
O sensacionalismo também perdeu. O que os manuscritos afinal revelaram foi a diversidade de um judaísmo em transição, antes da catástrofe provocada pelos romanos. Depois do ano 70, as seitas desapareceram, com exceção dos cristãos e dos fariseus, os fundadores do judaísmo rabínico. A literatura de Qumran e a cristã derivam, portanto, de uma tradição judaica comum, da qual importaram rituais de batismo, refeições comunitárias, ascetismo e até modelos de organização: os essênios se dividiam em doze tribos, tal como a igreja cristã, estruturada em doze apóstolos. “Os manuscritos não mudaram minha visão de cristão”, diz Puech. “Revelaram o ambiente judeu, as crenças e práticas da época. Neles, os textos evangélicos encontram um fundo histórico, um país, um território.”

Para saber mais
Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto, Hershel Shanks, Imago, São Paulo, 1993.
Os Manuscritos do Mar Morto, Geza Vermes, Mercuryo, São Paulo, 1991.
Os Manuscritos do Mar Morto, Edmund Wilson, Companhia das Letras, São Paulo, 1994.
Na Internet:
The Dead Sea Scrolls Foundation: http://www.hum.huji.ac.il
Um tesouro no deserto da Judéia
A entrada da caverna 1, em Qumran, onde os primeiros manuscritos foram encontrados
Os pastores Juma e Muhamed fizeram a “descoberta arqueológica do século”
O bispo Athanasius Samuel foi o primeiro a perceber a importância dos pergaminhos
Orando de frente para o Mar Morto
Ruínas de Qumran. Os eremitas essênios moravam nas cavernas e rezavam no mosteiro
Um esconderijo bem seguro
Os manuscritos eram pergaminhos de pele de cabra e de ovelha, enrolados e amarrados com uma tira. Estavam envoltos em panos de linho ou em couro. Eram depositados em jarros estreitos de barro, com 50 centímetros de altura, tapados e escondidos no fundo das cavernas.
Uma crise entre gente muito erudita
Vermes denunciou a edição dos manuscritos como “o escândalo acadêmico do século XX”

Para o padre Emile Puech, “ inventou-se um complô digno de um romance policial”.
Trecho de uma oração essênia do ano 100 a.C.
“É da fonte de Sua retidão que advém minha absolvição, e de Seus maravilhosos mistérios advém a luz do meu coração. Meus olhos fitaram, esgazeados, o que é eterno, a sabedoria ocultada aos homens, um manancial de poder, uma nascente de glória escondida do conjunto feito de carne.”

Revista Superinteressante

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Jesus Cristo senhor e salvador da cidade – imaginário crente e utopia política


Clara Mafra
Clara Mafra é professora de antropologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ. É autora de Na Posse da Palavra (Lisboa, Editora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, 2002) e Os Evangélicos (Rio de Janeiro, Editora Jorge Zahar, 2001) (E-mail: claramafra@uol.com.br).

Em 19 de março de 2004, um conhecido articulista do jornal de maior circulação em Rondônia, O Estadão, chamou atenção para o decreto do prefeito de Guajará-Mirim (RO), Cláudio Pilon, que estipulava no Artigo 62, § 1º: "Como ato profético, fica declarado Jesus Cristo como único Senhor e Salvador da cidade". O prefeito justificou seu ato: 1) na continuidade histórica do cristianismo na cidade; e 2) na suposta similaridade de seu decreto com o de prefeitos anteriores, ao instituir dias santos e feriados.

Como reação imediata, o articulista que assina com o codinome de Índio Tabajara da Tribo Cariri ridicularizou o decreto, descrevendo-o como "uma pérola" que "deve ficar guardada em um museu de imagem, som e grafia" ou na "caixa Forte da Casa da Moeda". O articulista julgou que o autor deveria estar "em parafuso", "lelé da cuca" ou, ainda, sofrer de "uma esquizofrenia incurável". A exposição jocosa do político não parou por aí: no dia seguinte, o jornalista apontou o aspecto inconstitucional do decreto, uma vez que este fere o direito da livre expressão religiosa e da separação entre Estado e religião. No terceiro dia, o jornalista previu os transtornos do decreto na atualização do sistema democrático local: além de este estabelecer que Jesus é o único senhor e salvador da cidade, auto-intitula-se, segundo o parágrafo VII, "ato profético irrevogável e eterno". Neste sentido, argumenta o Índio Cariri, não há como os outros cinco presumíveis candidatos à prefeitura pleitear o direito de salvar a cidade do "caos econômico, financeiro, administrativo, moral, educacional, da saúde, do transporte, da segurança". "Ninguém disputaria o posto com o Filho de Deus", completa o articulista (O Estadão, coluna Ponto Final, 19, 20 e 21/3/2004).

Nestes vários revides do jornalista da capital ao prefeito do interior, o primeiro procura desqualificar o segundo: porque o prefeito cometeu um ato desregrado, porque ele próprio é uma pessoa que age "fora da razão", e ainda porque o seu ato não está adequado às regras da democracia moderna. Nestas várias abordagens, o jornalista supõe o estabelecimento de uma cumplicidade entre ele e o leitor através do acionamento de uma distinção entre o lugar de onde o jornalista fala – a sociedade educada de Rondônia, que sabe quais são os princípios que ordenam o mundo e os constrangimentos que devem guiar as ações, distinguindo o racional do irracional e descartável. Outro é o lugar do prefeito Cláudio Pilon, que é o do mundo da fabulação, da fantasia. Com esta chave de leitura, o leitor dO Estadão pode chegar à conclusão que há uma diferença qualitativa entre os excessos jocosos e humorísticos do articulista, que exerce tais liberdades estilísticas sem ferir uma certa "percepção de realidade", e o ato do prefeito, que teria sido guiado pela "cegueira da crença", ou seja, por uma opinião de íntima convicção, mas cujo assentimento é objetivamente insuficiente1.

Na última década, vários pesquisadores se perguntam, com certa insistência, sobre o impacto da crescente presença pentecostal na política e no gerenciamento da coisa pública no Brasil. Em trabalho clássico de Paul Freston (1993), aposta-se em uma linha de continuidade entre noção de "missão" para o interior da denominação e o projeto político mais amplo. Assim, onde o projeto missionário se afirma no papel renovador e purificador do mundo secular através da instituição, como no caso da Igreja Universal do Reino de Deus, a atuação política estará pautada na afirmação institucional. Em muitas outras denominações, são os líderes que encarnam o projeto de renovação do "mundo", apresentando-se como personas morais. Estas denominações articulam a noção de missão à idéia de carisma, neste sentido, educam líderes que irão representar a "visão de mundo crente" aos de fora, inserindo-os e disputando espaço na carreira política secular2.

Machado (2003:302), ao acompanhar a atuação de políticos evangélicos na Câmara Municipal e na Assembléia Legislativa 2001-04, conclui que "mais que reforçar a forma tradicional de clientelismo brasileiro, a relação diádica entre patrão-cliente, a crescente presença dos evangélicos na política local tem promovido uma combinação de diversas expressões de clientelismo".

Oro (2003), recentemente, ao analisar a atuação da Igreja Universal do Reino de Deus na política brasileira, propõe uma renovação ampliada do campo da política, mas não necessariamente porque esta igreja acrescenta questões de cunho religioso na política, mas mais exatamente porque ela se apropria de instrumentos sociais como a mídia, para recriar, agilizar e facilitar a comunicação entre clero e multidões, população e elite. Neste sentido, Oro reitera a intensificação da formação de um tipo de República em função das alternativas sociais implementadas por uma instituição religiosa. Birman (2003) desenvolve um argumento semelhante observando o impacto da Igreja Universal na formação do espaço público tendo em vista a relação mídia, política e sociedade.

Diante deste esboço do debate sobre a inter-relação entre religião e política na academia brasileira, vale a pena perguntar se os encaminhamentos analíticos disponíveis não pressupõem uma correlação estreita demais entre os modelos republicano, democrata, neoliberal ou clientelista de fazer política e as tendências sociais minoritárias presentes nos movimentos religiosos. Recorrentemente, as análises partem de dois ou mais termos dissonantes, mas que se encaminham para alguma conjugação entre religião e política, desembocando, por fim, em uma ressonância ampliada. Será que neste exercício analítico não estamos silenciando sobre experimentos sociais mais instáveis, improvisados e dissonantes, e que são, nesta mesma medida, mais efetivos no cotidiano da população? Ou melhor, será que o silêncio dos pesquisadores da religião sobre experimentos sociais como os de Guajará-Mirim não ratifica a suposição do jornalista Índio Tabajara de que aquele experimento político nada mais é que a atualização de "mera crença"?

Neste artigo, pretendo investir no conhecimento das condições de produção desse imaginário ou imaginação mais polimorfa, sob o custo de, estrategicamente, silenciar sobre as questões mais clássicas da sociologia política. Em outras palavras, assumindo a incompletude de minha análise – pois não discutirei o "fazer político" de Cláudio Pilon no sentido estrito, a relação com seu eleitorado, com seus colegas e com seus opositores políticos, as suas estratégias de ratificação do seu lugar na elite política local –, deter-me-ei sobre o imaginário que mobiliza o prefeito e que se expressa no decreto. Suponho, portanto, que existe uma provável complementariedade entre a minha abordagem e as anteriores, já sistematizadas nos modelos analíticos republicano, democrático, neoliberal e clientelista. Falta, entretanto, ainda para uma possível solução complementar, um investimento mais sistemático no reconhecimento do valor simbólico e sociológico de eventos políticos que tenham esta aparência de "mera crença".

Neste artigo, adotarei o conceito de "imaginação" e "fronteira imaginativa" (Harris, 2004) para propor uma revisão e ampliação da discussão entre choques de visão de mundo moderna/racionalista ou intelectualista versus visão de mundo pré-moderna/encantada ou mítica. Na modernidade, haveria uma transformação cognitiva na visão de mundo: o encantado e fantástico seriam considerados ilusões e tenderiam a desaparecer na medida em que haveria uma subordinação das cosmologias às percepções mais pragmáticas e funcionais do mundo da vida.

Entre nós, esta dicotomia tem sido atualizada no compartilhamento de um certo mal-estar diante dos pentecostais, tema que já vem sendo discutido por alguns autores (cf. Mariz, 1995; 1999). Freston, por exemplo, faz citações de passagens na mídia nas quais os pentecostais são acusados de "incautos" e "incultos". Mafra (2001; 2002) e Giumbelli (2002) sublinham o preconceito que a Igreja Universal inspira na academia e na mídia. Embora esse mal-estar seja similar àquele que qualquer visão de mundo encantada gera no contraste com uma perspectiva racionalista, há distinções quanto ao referente religioso: algo que bem podemos perceber quando comparamos o mal-estar pentecostal com o provocado pelas religiões afro-brasileiras. Provavelmente, isto tem a ver com características sociológicas dos dois movimentos religiosos: enquanto os evangélicos disputam por visibilidade no mundo público, as religiosidades afro-brasileiras tendem a se afirmar como sociedade secreta e a postular um relacionamento cordial com os poderes já estabelecidos. É certo que os evangélicos não ameaçam o projeto de formação de um Estado secular estrito senso – não se busca a afirmação de um Estado religioso – mas, ao contrário da tradição religiosa cordial, pleiteiam lugares de direção, autoridade e poder no espaço público (Birman e Leite, 2004).

Central no desenvolvimento desta análise, que não pretende se refugiar nas dicotomias, é a noção de imaginação proposta por Ingold (2000) que, como se vê na seqüência, é bem distinta da proposta por Gaston Bachelard (2000; 2001). Isto porque a imaginação, segundo Ingold, não está lá, pronta, feito um esquema formal, para ser usada quando solicitada, mas só existe na medida em que é exercida:

a) em consonância com as atividades que as pessoas usualmente realizam, com o modo como elas se situam no mundo e se relacionam com o mundo e as outras pessoas, ou seja, suas habilidades. Neste sentido, a imaginação sustenta um certo grau de intencionalidade tanto quanto uma certa qualidade de atenção "encorporada" (embodiment) da pessoa;

b) o exercício da imaginação não supõe uma projeção sobre a realidade de uma forma anteriormente projetada, mas sim que a forma se revela (seja no plano, na estratégia, na representação) e ganha termo à medida que a atividade da imaginação se desenvolve. Neste sentido, não operarei com o pressuposto segundo o qual uma forma é controlada e testada pelo pensamento para depois se atualizar na ação, nem com a oposição entre pensamento e ação, mas partirei do princípio da reversibilidade da forma e do conteúdo (do pensamento e da ação) no processo de desenvolvimento da atividade;

c) a principal decorrência desta imbricação entre habilidade e imaginário é que a vida social – levando em conta que os vários atores utilizam, cada um a seu modo, os recursos de entorno para se situar e inter-relacionar –, dificilmente se desenvolverá como a atualização de uma "visão de mundo harmoniosa e sintonizada". Contudo, também não postulo o oposto: que os atores carregam mundos de representação distintos, sendo incapazes de reconhecer as "ideologias" e "crenças" uns dos outros. Convivência em um mundo compartilhado, neste sentido, significa, isto sim, um exercício de mútuo aprendizado de habilidades, crenças, visões de mundo, que tendem a se refinar conjuntamente, porém, sempre permanecendo um pouco deslocadas e dissonantes umas em relação às outras.

Um dos efeitos mais evidentes da aplicação desta noção de imaginário para a análise do caso Pilon é a perspectiva que toda vida política, desde a mais usual – seja ela orientada por uma atuação já conhecida republicana, democrática, populista ou clientelista, quanto o ato político de Pilon, ao instituir o seu decreto –, depende, em certo grau, de um exercício de imaginação. Sem a imaginação, nenhum homem ou mulher públicos conseguiria se afirmar no seu "novo lugar", uma vez que ele/a, no aprendizado da atuação política, é obrigado/a a improvisar um caminho para além do já conhecido. Este imaginário, contudo, vai além do convencional e instituído, não para estabelecer equivalência com o descontrolado e inefável, pois está no seu fundamento uma suposição de duplo agenciamento, do imaginário e da experiência "encorporada"3.

O aprofundamento do caso de Guajará-Mirim, especialmente porque se desenvolve em uma região de recente adensamento populacional, portanto, refere-se a um contexto no qual as habilidades se desenvolvem mais diretamente relacionadas com "elementos da natureza", ou seja, as habilidades não estão tão criticamente submetidas às transformações e evoluções tecnológicas, como nos universos mais industrializados e urbanizados. Com isto, ganhamos a possibilidade de uma apreciação mais detida da relação entre "encorporação" das habilidades, transformação sociopolítica do contexto e exercício da imaginação.

Na segunda parte do artigo, retomo o caso Pilon procurando estabelecer as possíveis correspondências entre o desenvolvimento das habilidades do seu grupo de pertencimento, a interface que cria com demais grupos sociais (inclusive o Estado), e o decreto. Haverá um ganho analítico se conseguirmos reler o decreto tendo em vista o leque de atividades constituintes do mundo em que Pilon se socializou, ou seja, encontrando certa organicidade entre pensamento (imaginação) e percepção de mundo4.



PAISAGEM REGIONAL

Há toda uma literatura sobre a Região Amazônica brasileira definindo-a como "área de fronteira", debatendo os termos da definição ou questionando a própria definição (cf. Velho, 1979). Uma definição provisória diria que fronteira é: a) uma área geográfica esparsamente habitada; b) uma área dotada de instituições sociais relativamente fracas e fragmentadas; c) uma área com estruturas sociais e populações imperfeitamente integradas.

Neste artigo, ainda que Rondônia, de um modo geral, e Guajará-Mirim, de um modo particular, corroborem várias destas características, inclusive, o paradoxo de amplo crescimento econômico nas décadas de 1980 e 1990, junto com o aumento da violência (Haller et alii, 2000), quero ir além deste limite temático. Parece-me que existem inúmeras similaridades entre a caracterização de área de fronteira e certas condições de vida na periferia das grandes cidades no Sudeste: são áreas socialmente vulneráveis, com equipamento urbano precário, receptoras de migrantes, com alta incidência de violência com uso de arma, com baixa presença do Estado e alta presença de evangélicos pentecostais. Mais adiante, voltarei ao ponto.

Como primeira aproximação de Rondônia, é bom lembrar que a região foi foco de projetos arriscados e aventureiros com um apelo desenvolvimentista desde fins do séculos XIX, já na "saga da construção da ferrovia Madeira-Marmoré", ou na expansão do Telégrafo por Rondon, nos meados dos anos 1940 (Oliveira, 2000; Padovan, 2004). Mas foi com a construção da BR 364, nas décadas de 1970 e 1980, que a paisagem do lugar mudou definitivamente. Se formos atrás dos números para calcular o impacto deste processo, devemos registrar que entre 1945 e 1977 Rondônia contava com apenas dois municípios: Porto Velho e Guajará-Mirim. Nos anos 1990, os municípios multiplicaram-se, alcançando o número de 52. Cresceu também a população residente, que em 1960 era de cerca de 70 mil, nos anos 1970, subiu para 110 mil e nos anos 1980 atingiu a faixa dos 500 mil. Na década seguinte, este número duplicou, ultrapassando o milhão de habitantes. Segundo o Censo 2000, o Estado conta atualmente com 1.296.856 habitantes.

Os números também podem crescer para indicar decréscimo: este é o caso da área ocupada pela floresta tropical. Em 1978, a área desmatada era de cerca de 420 mil hectares, ou seja, 1,76% do território. Em 1988, foram registrados 3 milhões de hectares desmatados, cerca de 12,57%, e, em 1999, esta área atingiu os 5.683.675 hectares, ou seja, 23,82% da área do Estado.

Estes dois conjuntos de números se encontram ao longo da BR 364, pois é nesta faixa que atravessa o Estado, ligando o Mato Grosso até Porto Velho e dali a Guajará-Mirim e à Bolívia, onde foi fundada boa parte das novas cidades e onde o desmatamento se ratificou. O verde que vemos ao longo da BR é das extensas fazendas pecuaristas, entremeadas do verde e cinza dos desmatamentos recentes. O mar verde da Floresta Amazônica com que sonhamos quando nos deslocamos para a Amazônia Legal está distante, boa parte das vezes localiza-se nos 20% do território que é área indígena legalizada.

O caso é que a topografia de transformação indicada pelos números é vaga, se nos voltarmos para o campo das relações sociais concretas. No dia-a-dia, estas muitas transformações significam e estão diferentemente marcadas, conforme se é seringueiro, índio, garimpeiro, madeireiro, agricultor, dona-de-casa, peão de fazenda, carpinteiro, profissional liberal, comerciante, prostituta, engenheiro, médico, representante do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – Incra ou da Fundação Nacional do Índio – Funai; se se é de uma organização não-governamental – ONG representante dos sem-terra, dos índios surí ou cinta larga, ou de uma agência ecológica alemã; conforme se chegue como aventureiro solitário ou com a família no pau-de-arara; segundo se imigre do Paraná, São Paulo, Bahia ou do Ceará; se o indivíduo vem junto com a pastoral católica, com os pomeranos luteranos, ou se foi convertido por alguma igreja pentecostal em uma cruzada de estrada. São muitas as formas de se engajar nesta história. Esboçarei, na seqüência, alguns modos de pertencimento a partir de pares de interlocutores: os índios e trabalhadores manuais; os madeireiros e os garimpeiros; os médicos e os profissionais liberais.

As descrições que seguem estão fundamentadas em dois conjuntos de entrevista (fitas e vídeo) realizadas em duas estadias em Rondônia: em janeiro e fevereiro de 2002, e em fevereiro de 20045. A sede dos trabalhos foi em Cacoal, onde se desenvolveu boa parte da observação participante e das entrevistas com 18 famílias de migrantes de baixa renda, um líder do Movimento dos Sem-Terra – MST, dois líderes de ONGs, três médicos, uma prefeita, dois madeireiros, dois empresários da agroindústria, uma professora universitária, um líder pentecostal de projeção nacional. Algumas destas pessoas são residentes de Guajará-Mirim e de Porto Velho. O contato com os índios foi esparso, com apenas uma visita a um acampamento na proximidade de Cacoal e a uma aldeia suruí. Algumas pessoas foram entrevistadas nos dois períodos, outras, não.

1. Índios e trabalhadores manuais

Certamente, os índios guardam as marcas mais profundas da transformação da paisagem de Rondônia. Em muitas nações, a população diminuiu de forma gritante nas últimas décadas (atualmente, temos notícia de algumas tribos que apresentam um crescimento demográfico, em um contra-efeito da alta taxa de mortalidade das décadas anteriores). Freqüentemente, esses povos tiveram suas terras invadidas, saqueadas e expropriadas. Para assimilar a catástrofe, muitas tribos têm hoje nos mitos um grande divisor: o antes e o depois da chegada do homem branco. Não se trata do apocalipse cristão, mas está perto dele, se estivermos atentos aos sinais de destruição e horror.

Na memória dos trabalhadores migrantes, daqueles que chegaram em pau-de-arara, sem recurso nenhum no bolso, os índios são referência marcante. Na memória agonística daqueles "primeiros anos", os índios impuseram respeito, pois agiam como "nação" – quando ludibriados, desrespeitados, ameaçados, sua resposta era coletiva e guerreira. Já os brancos, são muitos os testemunhos neste sentido, eram todos dispersos, divididos entre si, prontos para tirar vantagem um do outro, sempre com olho grande nos pertences do vizinho. Vizinho morto por índio, por febre, perdido em garimpo, podia bem facilitar o acréscimo de alguns hectares na fazenda ao lado, apenas com a mudança sorrateira da cerca de fronteira.

Na memória de muitos migrantes – destes que chegaram em pau-de-arara, que vieram na aventura e na coragem de um mundo urbano onde trabalhavam como peões de obra, serralheiros, carpinteiros, faz-tudo, para se arriscar no meio rural, trazendo mulher e filhos na cangalha –, os anos 1970 são os anos de "criação de mundo". A referência religiosa faz sentido, pois, como veremos adiante, boa parte destes trabalhadores manuais, que continuam ocupando os estratos mais baixos da sociedade rondonense, passam a ter uma clara adesão religiosa 30 anos depois: boa parte deles se converte ao pentecostalismo. Rondônia é hoje o estado brasileiro mais evangélico do país, com 24% da população6.

O colono que ganhasse seu pedaço de terra nos Projetos de Integração e Colonização (PICs) nos anos 1970, contaram os entrevistados, tinha que "lutar para não viver sem roupa no meio do mato", "feito índio", pois era para o meio do mato, literalmente, que muitos deles eram mandados, com sua esposa e muitos filhos7. Muitos relatos de memória daqueles tempos são amargos. Por pouco, os trabalhares brancos, ex-operários, ex-faxineiros, ex-ambulantes, ex-peões, continuavam "decentes" e não viravam "bicho" na empreitada. As doenças tropicais sempre estavam por perto, e sua habilidade para tirar a "cura" do mato era nenhuma. O contraste com os índios era grande: estes se moviam no entorno como se o mato e o descampando fosse a casa deles, tiravam da floresta a cura, sabiam encontrar naquela imensidão verde as árvores com a floração em curso, adivinhavam os passos dos animais em sua caçada. No contraste da habilidade indígena, os colonos sabiam lidar com as grandes cidades, fazer um serviço aqui, outro ali. A mata apresentava-se ao migrante trabalhador como um "imenso obstáculo".

Esta perspectiva da floresta como obstáculo, não decorreu apenas da inabilidade e do desconhecimento sobre como lidar com ela. Muitos dos grandes projetos desenvolvimentistas incentivaram a perspectiva. "A posse da terra", repetiram os representantes dos órgãos do governo durante anos, "só estaria garantida mediante a derrubada do mato". Daí a crença vigente ainda hoje que "mato bom é o mato no chão": só assim a riqueza entrava no do bolso do trabalhador, seja com a venda da madeira que cai, seja com a lavoura que cresce, muitas vezes abundante apenas na primeira ou segunda florada.

Alguns índios, como os suruí com quem conversei, não escondem o desprezo pelos "brancos". A seus olhos, os "brancos" têm os sentidos invertidos, se comportam como animais diante de normas básicas da vida na floresta. Contudo, o que é ato desprezível para uns é fonte de divertimento para outros. A história que segue, narrada por Lourdes Kemper, historiadora local autodidata, e registrada no meu diário de campo, ilustra o ponto.

"Lá nos idos dos anos 70, apareceu no coração de um destes povoamentos ao longo da BR 364, que depois se transformou em cidade, dois rapazes carregando uma tipóia. Pararam, descansaram no chão o que quer que estivesse na rede, e perguntaram aos outros que se encontravam no bar, se alguém queria comprar uma onça. Um dos rapazes tinha perdido seu cachorro, morto pela onça, e agora, morta a onça, queria vendê-la para comprar um outro cachorro.
Naquele tempo, cachorro era de grande valia para o colono, explicou Lourdes, pois o animal anunciava o perigo quando se estava perdido na mata ou na lida na roça. Além disso, muitos colonos não sabiam caçar sem cachorro, no que se chama caçada a curso, habilidade muito comum entre os índios e os seringueiros. Segundo a Encliclopédia da Floresta, a caçada a curso envolve uma busca, geralmente solitária, cujo sucesso depende muito da capacidade do caçador identificar pegadas, fezes e outros vestígios que os animais possam deixar pelo caminho e de conhecer os sons que emitem e seus horários de alimentação (Cunha e Almeida, 2002:318).
No bar, ninguém se interessou. Mais tarde, parada obrigatória de todo comerciante do lugar, apareceu no boteco o único fotógrafo da região. José Cardoso, olhando o animal, teve a brilhante idéia de ganhar alguns trocados fotografando os clientes ao seu lado. A onça morta se tornou, assim, o bibelô dos migrantes. Os clientes chegaram às pencas, ansiosos em se disporem em rodas no entorno do animal, ou então, posando como aventureiros e caçadores bem-sucedidos. Essas fotos, como outras ao lado dos índios, eram enviadas aos parentes que ficaram nas cidades de origem, nos outros Estados, como recordação das aventuras bem-sucedidas em Rondônia.
Lourdes conta que a onça morta foi objeto, durante três dias, dos flashes do fotógrafo. O comércio imagético em torno do animal morto só findou quando a putrefação avançou e o fedor se tornou insuportável".

Para os "povos da floresta", entenda-se índios e seringueiros, toda esta história da "onça de Cacoal" é um acinte. Na sua perspectiva, aquele povo brincou com algo que é sagrado. O princípio do caçador é respeitar a caça, tratando-a com uma etiqueta rigorosa: não se pode insultá-la, sob pena de "enrascar" o caçador. O caçador "enrascado" é aquele que repetidamente sai para a mata e não vê a caça, ou que é visto antes por ela, do que ela por ele, ou que erra o tiro. O caçador "enrascado" não tira caça da mata.

Língua diferente, habilidades diferentes, caminhos habituais diferentes, interesses diferentes, códigos de etiqueta diferentes. Outros mundos sagrados, outros horizontes de esperança, outras formas de projetar o mundo imaginado no mundo vivido. A mesma onça que fortalece a relação com parentes distantes ao referendar a idéia de lugar exótico de Rondônia é vida que entra no ciclo de troca entre floresta, índios e sua tribo. Uma "fronteira de imaginação" (Harris, 2004) coloca-se entre brancos e índios, não porque se manipule maquiavélica e intencionalmente planos e estratégias diferentes, mas porque o ato imaginado estabelece continuidade com o mundo percebido.

Descrevo aqui uma primeira "fronteira imaginativa" entre índios e brancos trabalhadores migrantes de baixa renda. Entre uns e outros, às vezes as fronteiras se mesclam, às vezes se intensificam; muitas vezes as habilidades de uns influenciam e são intercambiadas com as de outros; não é estranho que o medo de um se torne o horror de outro, ou que a esperança de um confirme a miséria de outro. No entanto, havendo bons ou maus encontros, índios e brancos continuam a se avistar quase cotidianamente pelas ruas e estradas no Estado de Rondônia. Estarão compartilhando um mesmo conjunto de referenciais, um agregado cultural suficientemente denso, capaz de gerar uma mesma imagem de espaço público?

2. Garimpeiros e Madeireiros

Neste primeiro contraste, entre índios e trabalhadores manuais de baixa renda, procurei evidenciar como naqueles primeiros anos de apropriação e reconhecimento do lugar a relação com as condições ecológicas locais promoveu uma série de nódulos de tensão e de compartilhamento entre pessoas de grupos étnicos distintos. Não foi coberta, por esta descrição, toda uma outra gama de relações sociais e ecológicas que dependem, mais intensamente, de uma interlocução mais central e direta com atores externos, federais e internacionais. Quando nos voltamos para um outro grupo ocupacional estreitamente ligado à história e folclore de Rondônia, o dos garimpeiros e dos madeireiros, este plano de relações não pode ser ignorado.

Estes trabalhadores, "brancos" ou "acaboclados", se orgulham de ter certa intimidade com a floresta, os rios, os hábitos dos animais, os costumes dos índios. Eles se distinguem dos migrantes que citei anteriormente, pois, tendo vindo em levas anteriores, já incorporaram um conhecimento da paisagem humana e ecológica do lugar. Boa parte de seu poder e prestígio é gerado exatamente por este vínculo com a "região": são reconhecidos como pessoas experientes, que sabem entrar, circular, examinar, conhecer, nomear, explorar "as riquezas do lugar". Cultivam usualmente um catolicismo de estrato popular, mantendo as festas e as relações de compadrio herdadas de outras gerações. Muitas vezes reconhecidos pelo olhar distante como "simples aventureiros" que se movimentam no território em busca "da riqueza fácil", eles são isto e muito mais. Podemos afirmar que eles são o símbolo da "fronteira em movimento" (Velho, 1979).

Foi um velho garimpeiro quem deu uma imagem viva do modus vivendi de seu grupo ocupacional: para ele, garimpeiro é como formiga, onde tem "açúcar", diga-se, riqueza mineral, eles localizam e se amontoam. Não adianta botar lei, montanha, polícia ou terra indígena como obstáculo. Os garimpeiros atravessam rios e pontes, florestas inexploradas e "tribos perigosas", tudo em busca do minério de aluvião ou da mina inexplorada.

Cultivando esta auto-imagem, não é estranho que os garimpeiros contem a história da região a partir de uma sucessão de explorações das riquezas: em 1960, descobriu-se cassiterita de altíssimo teor no centro-oeste do estado. Isto atraiu uma leva de nordestinos, uma mão-de-obra numerosa, trabalhando clandestinamente. Grupos mafiosos exploraram os garimpeiros de forma desumana, o que chamou a atenção das autoridades federais. Em 1962, esta exploração garantiu quase 50% da produção nacional de estanho. Com a diminuição das reservas de cassiterita e regulamentações federais que inibiam a exploração improvisada, no final dos anos 1970, os garimpeiros correram para outro lado, a exploração do ouro, que se descobriu ser, na região, abundante e formado na base do aluvião (especialmente no rio Madeira). Uma extração que dependia da exploração mecanizada, em dragas, fez com que boa parte do trabalho de garimpo ocorresse com base na contratação de garimpeiros, que eram subempregados por patrões com maior poder aquisitivo. Mais recentemente, no século XXI, a corrida se deslocou para o garimpo de diamante, em uma mina com grande potencial, segundo os técnicos e engenheiros, ainda que localizada na Reserva Roosevelt, dos índios cinta larga, em Espigão do Oeste, portanto, território de exploração do subsolo proibida. Tal como em situações similares no passado recente, a entrada dos garimpeiros nesta exploração envolveu acordos escusos, grupos mafiosos e uma chacina8.

Dificilmente, como usualmente acontece com os dramas vividos pelos migrantes mais humildes aqui descritos, os ciclos de riqueza e pobreza dos garimpeiros e madeireiros passa despercebido diante dos poderes nacionais e internacionais. Lidando com recursos naturais em uma lógica que não é de comedimento, madeireiros e garimpeiros atraem para si a atenção de "outros cidadãos do mundo". Uma opinião pública cosmopolita tende a reconhecer nas atividades destes "aventureiros" "risco" para o conjunto da humanidade. Entre os garimpeiros e os madeireiros, a palavra "risco" ganha outro significado: refere-se ao lado glamouroso de seu fazer, à incerteza que move o homem em uma direção ou outra, sem saber o destino certo, a um apelo que chama para o desconhecido, em um movimento heróico que é semelhante à vida. Isto não quer dizer que garimpeiros e madeireiros descrevam o seu fazer como "aventura", como freqüentemente faz o citadino distante. Trata-se antes de uma "habilidade", de um mundo em que cresceram e se fizeram gente, e que não os abandona mais.

O relato de um madeireiro de Cacoal é ilustrativo deste ethos ocupacional: neto de madeireiros, ele entrou na lida da madeira aos 10 anos. Não aprendeu a ler nem a escrever. Veio para Rondônia com outros três irmãos quando a exploração de madeira se tornou inviável no Paraná. Deixou lá o pai e a família ampliada. Em Cacoal, montou com os irmãos uma madeireira. Exploraram juntos o negócio até o começo dos anos 1990. A partir de então, como a legislação só "apertava", se desentenderam. No início, o abate proibido era apenas da castanheira, depois incluiu o mogno e a cerejeira. Mais tarde a legislação passou a seguir planos mais gerais, segundo o zoneamento socioeconômico-ecológico, que estabelece explorações diferenciais segundo a "vocação do lugar". O princípio da legislação é que áreas já desmatadas, com exploração intensa de pecuária e agricultura, devem preservar certa porcentagem de terra com mata virgem ou com reflorestamento. Já as áreas ainda inexploradas, que continuam verdes, devem preservar o máximo de sua mata nativa.

Na divisão da sociedade com os irmãos, enquanto Edevair, o nosso entrevistado, decidiu estabelecer sua nova madeireira recebendo apenas madeira com "nota fiscal", isto é, legalizada, o que significa mais cara, uma vez que já está incorporado no seu valor um custo de "negociação" com os órgãos competentes, os outros dois irmãos seguiram explorando a madeira "crua", sem nota. Neste último caso, são os madeireiros que devem procurar regularizar a situação do produto extraído. Os riscos são maiores, assim como os lucros.

A salvaguarda dos irmãos de Edevair, isto ele sublinhou no seu relato, é que um dos irmãos é muito "sagaz" em termos de legislação. Ele se movimenta bem entre os políticos locais, estaduais e federais, assim como, entre os funcionários do estado. Além de político, o irmão é proprietário de uma das poucas empresas que exploram o eco-turismo da região – um parque com lagos e piscinas, onde a classe média baixa citadina faz a festa no fim de semana9. Uma funcionária do parque garantiu para mim o que Edevair apenas sugeriu: se alguém na cidade quiser derrubar um mogno ou uma castanheira, sabe que deve procurar seu patrão. É ele quem conhece o caminho das pedras para regularizar o abate da árvore, transformando o ilegal em legal.

O madeireiro que se tornou ecólogo sabe bem como se preservar entre as idas e vindas de uma legislação que parece despencar sobre "a cabeça dos extrativistas do lugar". Edevair, com uma formação um tanto restrita em termos de conhecimento formal, ao contrário do irmão, se sente acossado e constrangido. Neto de madeireiros, ele desenvolveu um olhar preciso para as extensões verdes de floresta, sabendo diferenciar os tipos de madeira pela copa das árvores, a idade das árvores pelo tronco, os tipos de fornecedores e mateiros da região. No entanto, estas habilidades estão constantemente sob escrutínio, sendo questionadas por uma opinião pública distante e avessa. Acossado, Edevair se defende denunciando a banalidade do mal: "se a legislação sobre a exploração de recursos naturais fosse levada a sério", afirma, "não haveria um só cidadão do Estado de Rondônia que deixaria de ser considerado fora-da-lei".

Para ficarmos dentro dos propósitos deste artigo, queremos chamar atenção para o limiar em que se encontram estes profissionais: ao mesmo tempo em que os trabalhadores extrativistas dominam uma habilidade intrinsecamente ligada à paisagem do lugar, central para a preservação de uma certa noção de ordem, riqueza e civilidade compartilhada regionalmente, eles estão no foco da observação de uma opinião pública e de legisladores distantes e avessos. Com isto, acabam se identificando com uma noção perversa de cidadania: cidadãos passivos ou fora-da-lei, vítimas de regras que não levam em conta o capital de conhecimento prático elaborada e lentamente acumulado ao longo de uma jornada de vida. Mais grave ainda, o garimpeiro ou madeireiro que se dá bem nesta relação esquizofrênica entre formuladores da lei, conluios e a sociedade local é exatamente aquele que desenvolve uma trajetória de vida favorável à perpetuação da cisão.

3. Médicos e Profissionais Liberais

Sem capital social previamente acumulado, dificilmente garimpeiros e madeireiros conseguem se afirmar como elite política do lugar. Na descrição anterior, devemos registrar a história do irmão de Edevair como exceção. Mais freqüentemente, a elite política e social local é formada por um outro grupo de migrantes, originalmente de família de classe média do Sul e Sudeste que, formados em cursos universitários e em início de carreira ainda nos anos 1970, viram na migração para o Centro-Oeste e Rondônia uma oportunidade para se estabelecerem como "homens de bem e de posses". Entre estes profissionais, os médicos tiveram destaque.

Nos vários ciclos de colonização da Amazônia, um dos grandes "obstáculos" para o avanço dos "pioneiros", os "soldados da borracha", os garimpeiros, os pequenos agricultores no avanço da exploração do território e da floresta, foram as febres tropicais, em especial, a febre amarela. Enfáticos, alguns entrevistados afirmam: "Morria-se às dúzias, naqueles tempos de origem, nos anos 70". Esta situação caótica de saúde pública atraiu alguns médicos, que, com um capital inicial maior ou menor, abriam seus consultórios nos povoados no "meio do nada". Em geral, todo e qualquer profissional era bem-vindo, encontrando apoio dos raros agentes do estado que estivessem nas cercanias, que ofereciam carros que funcionavam improvisadamente como ambulância, casas que funcionavam como ambulatório, aviões para buscar um ou outro remédio nos estados vizinhos, terrenos para a construção de hospitais. Esperava-se que estes privilégios e benesses seduzissem o profissional migrante, fixando a mão-de-obra qualificada no lugar.

Um dos efeitos perversos deste processo foi uma apropriação privada da calamidade da população e do apoio público. Em vários municípios ao longo da BR 364 encontramos dois ou três hospitais nas principais avenidas, e uma rede ampliada de consultórios médicos, oftalmológicos, de centros de saúde, de clínicas estéticas, disputando suas luminárias com o comércio de serviço local. Vários dos médicos das primeiras levas, alguns daqueles que não voltaram para o "sul", têm hoje as melhores casas da cidade, compraram terras, tornaram-se pecuaristas e agricultores, diversificando seus negócios, muitas vezes, atuando simultaneamente no campo da política.

A forma como estes profissionais disponibilizaram o seu conhecimento para a população local é o que vem garantindo uma certa má-fama entre os regionais. Contam alguns de nossos entrevistados que muitos destes senhores fizeram fortuna na base do "escambo": um pequeno agricultor, um garimpeiro, vendo sua vida em perigo, não hesitava em trocar seu terreno, sua vaca, sua "pedra mais preciosa", pela consulta. Alguns médicos somaram estes recursos com o de dois ou três colegas, fundando hospitais privados. Para dar um impulso à iniciativa empresarial, garantiam a consulta apenas ao paciente que se internasse no seu hospital, não no do concorrente. Algumas vezes, a estratégia era utilizar o ônibus da prefeitura para circular pelo interior, acolhendo os doentes que encontrassem, prometendo a cura se fossem internados nas suas instalações. Distantes de sua casa, os doentes se submetiam ao tratamento e aos custos abusivos dos serviços incluídos, como remédios, transporte, cama e comida para dois – o doente e seu acompanhante. Além disso, a concorrência entre os médicos pouco seguia uma ética profissional. Se houvesse na cidade um profissional especializado no tratamento de alguma moléstia, mas fora do círculo restrito dos "amigos", este era francamente ignorado – não se mandava "cliente" para o "inimigo".

A escassez do profissional de saúde na região permitiu a expansão deste "espírito aventureiro". Ao mesmo tempo, possibilitou que pessoas sem nenhuma ou pouca formação alçassem posições "nobres", como auxiliar de enfermagem, ajudante de dentista, secretário da administração – cargos que jamais poderiam sonhar em ocupar se estivessem nas cidades de origem no Sul, Sudeste e Nordeste. No caldo desta precariedade geral, brotaram algumas situações anedóticas, como a que segue, relatada por uma ex-enfermeira.

"Naqueles tempos, conta Edna, os médicos trabalhavam incansavelmente: dia e noite, noite e dia. Eram poucos os profissionais na região, e as doenças eram muitas. Os pacientes geralmente chegavam quando a moléstia já estava adiantada, quando alguma intervenção drástica era necessária. Praticamente inexistia medicina preventiva. Numa daquelas noites, quando Edna estava de plantão, baixou no hospital um senhor que sentia muitas dores na barriga. O médico diagnosticou problema na vesícula. Isto significava que tinha que operar. Como a luz do gerador da cidade acabava às 11 horas, a operação foi marcada para as 10 da noite. Mas não deu outra: no meio da operação, acabou a luz. As enfermeiras, um tanto transtornadas, improvisaram uma iluminação em torno da mesa de operação a base de velas. Assim, mal ou bem, a operação seguiu seu curso. O problema é que, com aquela multidão de velas, os movimentos do médico ficaram um tanto restritos: a cada novo gesto, ele tinha que desviar de uma ou outra chama. Num determinado momento, uma vela caiu, e o fogo correu solto nos pêlos do dorso do paciente. O paciente não viu nada, continuou dormindo profundamente, completamente narcotizado. Foi um corre-corre entre as enfermeiras e o médico. Por fim, conseguiram apagar o fogo e a operação completou-se com relativo sucesso. No dia seguinte, o paciente, feliz, dizia que estava se sentindo muito melhor, sem o pânico da pontada de dor. Mas, intrigado, perguntava para as enfermeiras se a queima dos pêlos fazia parte do tratamento".

Limitados pelas condições precárias locais a exercerem uma medicina, advocacia, engenharia gerais e improvisadas, muitos dos profissionais liberais compensam a perda do usufruto da "civilidade" das grandes metrópoles, inacessíveis na região, pelo acúmulo de riqueza e diversificação de atividades: comprando fazendas, criando gado, plantando café, entrando na política. Esta voracidade pela riqueza ganha um ímpeto e abrangência que a população semi-analfabeta pouco entende, uma vez que o conhecimento formal da lei, em vez de servir para fazer do profissional um "civilizador" do lugar, garante uma trajetória tortuosa na qual a lei pode ser "burlada", os amigos contemplados e o que era público, se tornar privado.

A "falácia republicana"

Fizemos até aqui uma descrição sobre as relações entre pares de profissionais que, de certo modo, compartilham um mesmo ambiente ecológico, mas não necessariamente as mesmas habilidades e, conseqüentemente cultivam expectativas e impressões diferentes sobre seu entorno. Através desta descrição – que os leitores mais familiarizados com o Estado de Rondônia devem considerar, com razão, um tanto breve e esquemática –, pretendi esboçar uma imagem de um feixe de relações possível naquele contexto. Sem a pretensão de desenvolver uma descrição densa e exaustiva do lugar, quis apenas demonstrar que, se estou me referindo a um contexto distante, margem do "exótico", do "estranho", de uma "natureza exuberante", desconhecido para a maioria dos leitores, mesmo ali, encontram-se evidências de uma modernidade experimentada nas áreas mais "desenvolvidas do país".

Tanto lá como cá, as pessoas estão em constante deslocamento. Índios e trabalhadores manuais, madeireiros, garimpeiros, representantes de ONGs nacionais e internacionais, profissionais liberais, doutores e leigos, boa parte destas pessoas está em constante trânsito: vieram de uma aldeia, vão para outra, visitam cidades, se estabelecem nelas, mudam de endereço, constituem novas famílias, aprendem novas profissões, tornam-se desconhecidos, viram celebridades, constituem novas redes de pertencimento. Rara é a história de vida da pessoa que nasceu e viveu na mesma casa, sem um tempo de fuga do familiar. Entre os entrevistados, por sinal, não encontrei nenhum caso de sedentarismo.

Nestes vários deslocamentos, as habilidades aprendidas em um contexto não são necessariamente abandonadas no outro. Leva-se junto a habilidade, simplesmente porque ela está no corpo e na mente da pessoa. A dificuldade da adaptação dos trabalhadores manuais das cidades do Nordeste, Sul e Sudeste, como pequenos agricultores rodeados por uma floresta abundante na Região Norte, citada anteriormente, descreve a impossibilidade a que estou me referindo: a de trocar de habilidade como se fosse uma roupa. Para continuar com o exemplo, a transferência de habilidades é mais parecida com o uso de um escafandro, que, quando vestido, não só permite mas exige que a pessoa circule e interaja em um ambiente de outra qualidade, trocando o ar pela água.

Outra proximidade: nos diversos centros urbanos, as diferenças entre os grupos sociais dificilmente são explicáveis em termos de classe ou de status, ainda que as diferenças de classe e status estejam presentes na constituição das relações sociais. A soma das várias trajetórias profissionais descritas anteriormente remete a certas tendências de pertencimento social – assim, na classe baixa, estão os trabalhadores manuais, em geral, de origem mais humilde e com baixa educação formal; os garimpeiros, os madeireiros e líderes de ONGs estão mais próximos de uma classe média; os empresários e profissionais liberais aproximam-se da idéia de elite local –, mas esta remissão a classes e estratos é sempre um pouco vaga e nebulosa. Nesta nossa modernidade, indivíduos, como Cláudio Pilon – de origem humilde, com formação educacional precária, socialização pentecostal –, podem simplesmente atravessar o conjunto das disposições usuais das relações sociais, conquistando, como fez, o lugar político de prefeito em uma das maiores e mais antigas cidades do estado.

Enfim, o que quero sublinhar nesta segunda aproximação com Rondônia é que a soma das desigualdades sociais não remete a um mapa organizado em centro e periferia de um conjunto maior chamado sociedade, mas antes descreve um feixe de possibilidades que sofrem reordenamentos, modificações, composições, perspectivas que diferem conforme as ressonâncias, os cortes, os fluxos.

Ora, esta percepção da modernidade vivida – com muitos fluxos, influências de diferentes calibres, excesso de informação de toda ordem, pessoas desinformadas utilizando suportes socialmente "nobres" – é muito diferente da concebida por teóricos da República, quando projetaram os modos de sua atualização social. Autores como T. H. Marshall, por exemplo, supunham um certo prolongamento da história, com um acúmulo em camadas de experiência, adensando a própria noção de cidadania. Para Marshall, a República seria o resultado de um processo longo e tumultuado, envolvendo uma certa cumplicidade entre história e lógica sociológica. Nas suas palavras:

"Estarei fazendo o papel de sociólogo típico se começar dizendo que pretendo dividir o conceito de cidadania em três partes. Mas a análise é, neste caso, ditada mais pela história que pela lógica. Chamarei estas três partes, ou elementos, de civil, política e social [...]. Nos velhos tempos, esses três direitos estavam fundidos num só. Os direitos se confundiam porque as instituições estavam amalgamadas (Marshall, 1967:63-64).

Para Marshall, a história e a sociologia se fazem cúmplices justamente porque já nas primeiras e ansiosas buscas de cidadania, ainda nas tensões e disputas do início do século XII, havia uma remissão, ainda que vaga, a componentes distintos: os direitos civis, os políticos e os sociais. A confusão de percepção das várias camadas de cidadania seria apenas um engano inicial, fruto da indistinção primordial, própria do começo de toda criação. Dito de outro modo, o artefato da cidadania, quando pressionado adequadamente, deve colocar para fora o plano de realização que já está dentro dela. Na seqüência, Marshall é mais explícito quanto a este potencial de artefato da cidadania:

"A cidadania é um status concedido àqueles que são membros integrais de uma comunidade. Todos aqueles que possuem o status são iguais com respeito aos direitos e obrigações pertinentes ao status. Não há nenhum princípio universal que determine que estes direitos e obrigações serão, mas as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e em relação à qual a aspiração pode ser dirigida [...]. A classe social, por outro lado, é um sistema de desigualdade. E esta também, como a cidadania, pode estar baseada num conjunto de ideais, crenças e valores. É, portanto, compreensível que se espere que o impacto da cidadania sobre a classe social tome a forma de um conflito entre princípios opostos"(idem:76).

Como uma alavanca, a cidadania de Marshall é um título de status que pode servir para projetar indivíduos de classes subalternas para condições de dignidade e respeito e indivíduos de classes privilegiadas para atitudes de submissão, freando aspirações de privilégios usuais entre as classes abastadas. Como uma alavanca, a cidadania de Marshall pode ter impacto sobre a sociedade, isto porque Marshall enxerga sua sociedade como uma totalidade com centro e periferia, com lugares desiguais razoavelmente estabilizados. Na formulação deste teórico, a cidadania é um artefato constituidor da República, porque é auto-explicativa em seu uso, ou seja, "as sociedades nas quais a cidadania é uma instituição em desenvolvimento criam uma imagem de uma cidadania ideal em relação à qual o sucesso pode ser medido e em relação à qual a aspiração pode ser dirigida" (idem).

Mas como fazer quando pessoas como Cláudio Pilon se apropriam de um artefato tão poderoso como a cidadania descrita por Marshall? Cláudio Pilon, ao fazer uso de seu direito político, como legislador, elaborou um decreto que dificilmente pode ser descrito como "alavanca cidadã". O prefeito parece não saber ler as instruções ou o plano de realização da cidadania, atualizando-a, quando o faz, não como artefato, mas como mero instrumento, ou seja, um adereço que ensina o que realiza quando acionado. Para se entender melhor esta diferença, vou retomar o decreto:

"Art. 1º – Como ato Profético, fica declarado Jesus Cristo como único Senhor e Salvador da cidade de Guajará-Mirim; I – Consagrar a cidade de Guajará-Mirim ao serviço do Senhor, para a glória, a honra, o louvor e o poder de Jesus Cristo; II – Renunciar toda aliança e obra realizada no passado, de prostituição, impureza, lascívia, feitiçarias, inimizades, pobreza, miséria, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, ruínas, homicídios, tráficos e drogas; III – Quebrar todas as maldições de Guajará-Mirim; IV – Declarar que Guajará-Mirim recebe hoje a unção do amor, prosperidade, riqueza, alegria, paz, longanimidade, unidade, bênção, multiplicação, frutificação e poder que emana de Jesus Cristo; V – Declarar que a cidade de Guajará-Mirim pertence a Jesus Cristo; VI – Revogar todas as disposições em contrário; VII – Tornar este Ato Profético irrevogável e eterno" (O Estadão, 19/3/2004).

A terminologia do decreto é pentecostal: a lei é descrita como "ato profético". Seu objetivo não é "dividir" bens ou "restaurar" desigualdades, como faria a alavanca cidadã ou um manifesto político, mas "declarar" Jesus Cristo como Senhor e Salvador da cidade. Sua vocação é moral: o decreto se apresenta como um cobertor que é lançado sobre a comunidade a fim de separar aqueles que praticam prostituição, impureza, lascívia, feitiçarias, inimizades, pobreza, miséria, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, ruínas, homicídios, tráficos e drogas e de atrair para a vida da cidade aqueles que buscam a unção do amor, prosperidade, riqueza, alegria, paz, longanimidade, unidade, bênção, multiplicação, frutificação e poder de Jesus Cristo.

Menos que dividir ou acusar, como faria um manifesto político partidário, o decreto de Pilon se alimenta da utopia da conclamação dos cidadãos de Guajará-Mirim em torno de um pacto de "civilidade". Neste pacto, o legislador nomeia aquilo que seria embrutecedor, bárbaro e selvagem para a grande maioria dos seres humanos – prostituição, impureza, feitiçarias, miséria, tráfico –, males estes que partem da ação individual – ciúme, discórdia, lascívia, facções, ruínas –; mas que influenciam e denigrem o conjunto da cidade. Ainda que estes males estejam no homem individual, e permaneçam latentes no seu interior depois do pacto, o decreto demanda que, ativamente, cada indivíduo renuncie ao seu exercício e produção sem lançar mão, no mesmo movimento, de uma trajetória individual diferenciada. No sentido inverso, o indivíduo que adere ao pacto moral torna-se um cidadão da nova cidade, ou seja, de uma cidade destinada à prosperidade porque seus cidadãos tiveram uma postura ativa de renúncia à selvageria e ao mundo bárbaro. A civilidade, assim, é mantida não através da criação de uma equivalência geral entre os cidadãos, como supõe o pacto republicano, mas através da afirmação de uma dinâmica interna capaz de produzir e sustentar suas diferenças.

Para retomar nosso argumento, da continuidade entre desenvolvimento de habilidade e exercício da imaginação, é importante sublinhar que a ênfase moral está de acordo com o lugar social de Pilon: uma pessoa de origem humilde, com parca educação formal, socializado no meio pentecostal10. No universo dos trabalhadores manuais, tal como procuramos descrever anteriormente, a manutenção do laço de confiança é fundamental para o sucesso da empreitada. Vários dos migrantes trabalhadores de baixa renda que chegaram em Rondônia nos anos 1970 tiveram que enfrentar, na sua adaptação ao lugar, o problema de somar técnicas e habilidades de origem regional e cultural diferenciadas, integrando-as em diferentes atividades de cooperação. Nesta adaptação para a consecução de um ato cooperativo, é fundamental saber se o interlocutor erra por inabilidade, desatenção ou sagacidade. Dificilmente um grupo de trabalho encontra a sincronia de elaboração, algo que envolve imaginação, disposição, previsão de atos, kinestese, sem aderir a algum pacto moral que se refira à vida prática.

O decreto, além disso, não nomeia substantivamente o meio para a reforma ou transformação social que busca. Não há qualquer menção às desigualdades de raça, gênero, idade, riqueza, educação, poder político que se quer suplantar. Não há previsão do alcance de nenhuma das três etapas da cidadania de Marshall, seja a civil, a social ou a política. Nesta sua indefinição, o decreto salvaguarda o valor das trajetórias individuais. Diremos mais, no universo dos trabalhadores manuais de onde Pilon vem, em que as oportunidades de trabalho variam constantemente, conhecer e ser conhecido é fundamental. Neste sentido, preservar uma identidade diferenciada é um modo de ganhar visibilidade em uma rede de conhecidos com habilidades similares.

O decreto escrito por Pilon não atualiza, como uma alavanca, a cidadania que seria potencialmente aguardada como ideal dos cidadãos rondonenses. Nas mãos do prefeito, o que seria um artefato de cidadania se torna um instrumento desencarnado que ele preenche segundo sua imaginação. Pilon usa seu direito como homem político para realizar uma lei que é o homólogo de um manifesto pentecostal. Ou seja, ele ignora o conhecimento formal sobre as normas de desenvolvimento e atualização da República, mas preserva o que aprendeu no seu grupo de socialização como o mais importante: o pacto moral e a salvaguarda das diferenças individuais11.

Ainda que o decreto de Pilon não se tenha efetivado por ferir a Constituição – pois exclui da cidade as pessoas com outros credos que não o dele – esperamos que este, ao menos, tenha permitido que esclarecêssemos uma certa "falácia republicana". Na "falácia republicana" supõe-se, como fez Marshall, que existe uma continuidade entre desenvolvimento histórico e lógica sociológica, como se o andar do tempo cumprisse uma missão de diferenciação e de formação de um mundo em camadas. Mais que isto, neste encaminhamento de idéias espera-se que certas áreas geográficas do país, como Rondônia, estejam aguardando seu momento de subir na carruagem da história, quando, enfim, pessoas como Pilon não existam ou sejam contidas antes de cometer atos absurdos.

Neste artigo, argumento que talvez Pilon veja mais claramente a modernidade que nós, pois percebe que o seu direito político não vem com uma bula sobre como deve ser usado, que o modo mais plausível de usá-lo envolve o exercício da imaginação, algo que não supõe uma projeção sobre a realidade de uma forma anteriormente projetada, mas envolve uma forma que se revela (seja no plano, na estratégia, na representação) e ganha termo à medida que a atividade da imaginação se desenvolve. Neste desdobramento da imaginação, a habilidade "encorporada" guia a ação na mesma medida em que ensina uma certa qualidade de atenção.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do artigo, argumentei que decretos como o do prefeito Cláudio Pilon escandalizam especialmente porque tendemos a perceber o movimento de ampliação e de maior acessibilidade do Estado e seus instrumentos em uma República, como se isto fosse resultado de um desdobramento lógico e coerente da história. Mais e mais pessoas usando a "alavanca da cidadania" implicaria em um uso mais cuidadoso e diferenciado de suas potencialidades, constituindo, ao fim de um processo com muitas pontas e rumando na mesma direção, uma República mais abrangente, consistente e íntegra. Este pressuposto falacioso permanece, mesmo com uma tradição historiográfica forte afirmando o contrário (cf. Carvalho, 1987).

Procurei destacar, ao longo do artigo, que o decreto de Pilon não é um "resquício" dos velhos tempos nem prova de uma posição residual e atrasada que nos liga a uma pré-modernidade que se perde no passado, como gostaria o seu opositor local, Índio Tabajara. Sugeri, pelo contrário, que o decreto faz parte de um uso contemporâneo e desencarnado dos instrumentos da República, por sujeitos capazes de habitar o mundo segundo habilidades determinadas. Algumas outras situações ajudarão a compreender melhor a pretensão de generalidade do argumento.

Não tenho muitas informações, mas é sintomático que, conforme levantamos no site CLIC-RO (http://www.portal364.com/m5.asp?cod_noticia=7549&cod_pagina=962), ainda em 2005, o vereador de Porto Velho, José Wildes (Partido dos Trabalhadores – PT), propôs na Câmara de Porto Velho um "ato profético declarando Jesus Cristo como único senhor e salvador da cidade". Os companheiro e vereadores evangélicos, Valter Araújo (Partido Progressista – PP) e Ted Wilson (Partido da Frente Liberal – PFL), apoiaram a proposta. Parece, portanto, que o ato de Pilon se multiplicou. Serão estes dois casos indicações suficientes de que o problema é da vida política regional de Rondônia, onde a República não estaria plenamente constituída?

A resposta será negativa se levarmos em conta as situações que encontramos no Rio de Janeiro e Volta Redonda. No início do ano 2000, alguns jornais em circulação no Rio de Janeiro noticiaram amplamente a inauguração de um monumento em homenagem à cultura negra. A obra dividiu a cidade. Evangélicos e católicos colocaram-se contra a decisão do prefeito, Paulo Conde, de colocar a escultura "Exu dos Ventos", do artista plástico baiano Mário Cravo, na confluência da Linha Amarela e Linha Vermelha. Declarações do arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Eugênio Salles, desaprovando a escultura foram publicadas por diversos jornais12. O protesto dos evangélicos, contudo, foi mais contundente, pois para eles este monumento seria "responsável por toda sorte de desgraça que viria a acontecer" na encruzilhada. Para diminuir os efeitos negativos, os evangélicos realizaram protestos com rituais de exorcismo no entorno do monumento. Alguns políticos evangélicos, vereadores e deputados, propuseram projetos contra a empresa que administrava a Linha Amarela, caso ela insistisse na colocação da obra. Na imaginação destes evangélicos, os argumentos do artista de que sua escultura era puramente artística ou os do prefeito, que assim queria homenagear os descendentes de cultura negra e não reverenciar uma entidade religiosa, não faziam nem fazem sentido algum.

Recentemente tive notícia de um outro protesto de evangélicos, desta vez em Volta Redonda, quando uma escultura em homenagem a Zumbi dos Palmares foi confundida com a de "Exu dos Ventos" por um pastor missionário. Entrevistado sobre o problema, o pastor Wilson dos Anjos, Presidente do Conselho de Pastores de Volta Redonda, teria afirmado, segundo o jornal local, Diário de Volta (site www.diarioonline.com.br), que não era correto colocar um monumento de uma religião específica em um espaço público. E completava dizendo: "É uma questão de espiritualidade". Quando, em um primeiro momento, Wilson defende a laicidade do espaço público, parece estar em sintonia com uma imaginação republicana, compartilhando seus pressupostos. Mas no momento seguinte, ao justificar sua posição pela "espiritualidade", demonstra estar em sintonia com uma imaginação não compartilhada pelo jornalista – que coloca a palavra entre aspas –, tampouco por políticos opositores locais.

O que temos nestes vários exemplos são embates similares ao de Pilon, que envolvem "fronteiras de imaginação" diferenciadas e que demandam um improviso na interação. Algumas pessoas redigem decretos, outras contestam as leis, umas homenageiam uma etnia com um símbolo religioso, outras se opõem ao símbolo, umas se candidatam a vereador, outras são objeto de investigação pública. Todas estas, e muitas outras, são ações possíveis dentro do escopo de possibilidades de uma República. O que é reprovável nestas ações ou tentativas de agência é que, estabelecida a legitimidade do sujeito político em propô-la, seja contestada sua atuação antes mesmo do ato, porque sua imaginação seria mais polimorfa que a admitida pela República.

Talvez a cultura política estabelecida no Brasil continue a identificar a República como uma donzela zelosa (Carvalho, 2005). Espera-se, contudo, que nestes tempos de uma modernidade marcada pelo fluxo, pela multiplicidade de atividades, pela profusão de códigos disponíveis, esta mesma República se submeta aos "experimentos um pouco sem jeito" que cidadãos implementam a partir dos instrumentos que oferece. Até onde tenho notícia, os atores políticos dos exemplos anteriores sempre se aproximaram da República com uma postura propositiva, não para contestá-la13, mas para usá-la. No entanto, o conhecimento das possibilidades e da lógica dos instrumentos de cidadania que conseguem acessar é sempre um tanto vago e indeterminado. Para ir um pouco além desta nebulosidade, eles têm que utilizar os instrumentos e, ao fazer isto, modificam, reduzem, estendem e até mesmo recriam a si mesmos e a própria República.



NOTAS

1. Sigo aqui a definição de "crença" do dicionário Aurélio (Ferreira, 1986), que diz o seguinte: "[do lat. medieval credentia] s.f. 1. ato ou efeito de crer. 2. fé religiosa. 3. aquilo que se crê, que é objeto de crença. 4. convicção íntima. 5.opinião adotada com fé e convicção: crenças políticas. 6. Filos. Forma de assentimento que se dá às verdades de fé, que é objetivamente insuficiente, embora subjetivamente se imponha com grande evidência".

2. Esta posição talvez se reproduza em todas as religiões éticas. Observamos isto na proposta católica da Democracia Cristã e mesmo na Teologia da Libertação, ao procurar "educar" os seus líderes, propondo que compartilhem uma "nova ética".

3. Ao estabelecer esta clara correlação entre imaginário e "encorporação" (embodiment), Ingold sugere que mesmo o lúdico tem seu reconhecimento estabelecido por certos perceptos formados na e com a experiência localizada. No limite, a bruxa vista pelo camponês escocês é diferente daquela vislumbrada pelo português residente em Salvador. O imaginado leva em conta a capacidade de atenção e de relação de mundo que aquela pessoa desenvolveu ao longo de sua jornada de vida. Mais especificamente, enquanto outros autores sublinham o aspecto ideológico ou representacional deste processo, Ingold acentua o aspecto de conhecimento "encorporado".

4. Em O Queijo e os Vermes, Carlo Ginzburg (1987) explora as idiossincrasias de uma cosmogonia exuberante e prolífera criada por um herege do século XVI, Menocchio. O estudo de caso parece similar com o trabalhado aqui. A aproximação que Ginzburg faz ao imaginário, porém, envolve a reconstrução da articulação entre subjetividade do moleiro, as fontes populares e eruditas da cultura da época e os registros da Inquisição. Minha perspectiva analítica é outra, basicamente porque não reconheço "o decreto" como uma expressão da singularidade subjetiva de Cláudio Pilon. Como veremos adiante, o decreto segue de um modo muito preciso os pressupostos de uma cosmologia pentecostal e um campo de habilidades determinado. Por isso, darei pouca atenção à reconstrução da trajetória pessoal de Pilon, privilegiando a reconstrução de certas tendências coletivas no contexto e sua articulação em feixe.

5. O Pronex/CNPq "Movimentos Religiosos no Mundo Contemporâneo" financiou as duas viagens e estadias.

6. É interessante notar que, ainda segundo o censo de 2000, os municípios de Guajará-Mirim e Porto Velho, exatamente os municípios mais antigos da região, eram relativamente menos evangélicos (constituíam l8,83% e 23,34% da população de cada um, respectivamente).

7. Havia um incentivo de formação de famílias grandes entre os pequenos agricultores. Nos critérios de distribuição de terras pelo INCRA, um deles era o homem casado, com 5 a 10 filhos. Implicitamente, o programa de Reforma Agrária dos anos 1970 e 1980 incentivava o casamento e a formação de famílias numerosas.

8. Em abril de 2004, foram mortos 29 garimpeiros que trabalhavam de maneira irregular na Reserva Roosevelt por golpes de bordunas, flechadas e tiros. Em 9 de outubro do mesmo ano, Apoema Meirelles, o sertanista que fez o primeiro contato com os índios cinta larga nos anos 1960, e que era contrário à exploração de diamantes na Reserva Roosevelt, foi morto com dois tiros ao sair de um caixa eletrônico em Porto Velho, por um adolescente de classe média. Os dois casos são expressões do alto índice de criminalidade e violência da região (O Globo, 11/10/2004:5).

9. A classe média e média alta possui, em geral, sítios nas cercanias da cidade, onde familiares e amigos se reúnem em torno da piscina e do açude. Menos acessíveis, estas famílias procuram não se misturar com os inúmeros visitantes que invadem o parque no fim de semana.

10. Sintoma desta posição marginal de Pilon na arena política local foi sua cassação em março de 2005, após reeleição. Quem tomou o assento da prefeitura, na seqüência, foi Dedé de Melo, segundo colocado no pleito, e não a vice e o presidente da Câmara de vereadores, como rege a legislação. Os dois últimos eram aliados políticos de Pilon. A cassação se baseou em prática de "abuso econômico", pois Pilon incluiu na lista de funcionários públicos da prefeitura um advogado e um radialista não concursados. Os dois trabalharam na campanha que reelegeu o prefeito. Esta prática é irregular mas rotineira na política brasileira, pois significa uma retribuição "de favor" e demonstração de prestígio (Bezerra, 1999). Enquanto este "crime" era exemplarmente disciplinado em Guajará-Mirim, a imprensa nacional divulgava as fitas que o governador de Rondônia, Ivo Cassol (Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB), gravou com imagens dos deputados estaduais pedindo "mesada em dinheiro" e favores ao governador (maio de 2005).

11. Vale lembrar, novamente, que o Estado de Rondônia é aquele com maior porcentagem de evangélicos em sua população, com 24%, sendo que a maioria destes evangélicos é pentecostal, das denominações Assembléia de Deus e Igreja Congregacional (Censo 2000).

12. Em sua monografia de conclusão de curso de Ciências Sociais da UERJ, intitulada "Exu dos Ventos: religião afro-brasileira na mídia", Maria Clara F. Baltar (2004) mapeia este debate a partir de notícias do Jornal do Brasil, O Globo, Extra e O Dia.

13. São várias as indicações de que o temor do avanço do fundamentalismo no interior das várias tendências evangélicas no Brasil tem pouco fundamento. Mais especificamente, não se tem indício de qualquer tendência da proposta de formação de um Estado Religioso por parte deste segmento (cf. Burity e Machado, 2006).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


Revista DADOS