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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Todos nós viemos da África

Evidências arqueológicas reforçam a teoria, baseada em estudos de DNA, de que o Homo sapiens surgiu no leste da África há quase 200 mil anos e migrou para os outros continentes


Equipe Planeta

De alguns milhares a 6 bilhões
Recentes descobertas arqueológicas confirmam estudos genéticos segundo os quais toda a nossa raça se origina de um pequeno grupo de humanos que viviam há 80 mil anos no leste da África. Com idade entre 33 mil e 39 mil anos, o crânio Hofmeyr (à esquerda), da África do Sul, é muito parecido com o de seus contemporâneos europeus.

As modernas análises por DNA já confirmaram: todos nós descendemos de alguns milhares de africanos – entre 2 mil e 6 mil, provavelmente – que viveram há 80 mil anos e partiram de seu lar na África Oriental numa única onda migratória, terminando por povoar todos os outros continentes. Segundo esses estudos, a migração foi rápida – nossos antepassados chegaram à Ásia 60 mil anos atrás, e a Europa foi ocupada há 40 mil anos. Mas, para diversos especialistas, esses dados ainda não eram convincentes. Eles alegavam falhas na datação e nas premissas que originaram os estudos. Sua exigência era simples: evidências arqueológicas que endossassem as descobertas feitas via DNA.

Com o tempo, essas evidências estão surgindo – algumas novas, outras antes esquecidas e agora revisitadas. E o painel que estão compondo revela uma extraordinária aventura: a de uma raça – o Homo sapiens – que, de repente, saiu de sua terra-mãe para conquistar um planeta.

O primeiro indício arqueológico a confirmar a tese dos estudos de DNA foi a pesquisa realizada em 1992 por Paul Mellars, professor da Universidade de Cambridge e uma das maiores autoridades do mundo em rotas de migração utilizadas pelo homem primitivo, a partir de um ovo de avestruz de cerca de 35 mil anos encontrado na Índia. As gravações inscritas na casca do ovo eram muito semelhantes às de uma peça ocre de aproximadamente 75 mil anos de idade descoberta na África do Sul, a dez mil quilômetros de distância. A semelhança de outros objetos da mesma época encontrados na Índia e no Sri Lanka – pontas de flechas, pás de pedra primitivas e pequenas contas feitas de carapaça de avestruz – com os produzidos por africanos 40 mil anos antes reforçaram a idéia de Mellars de que havia ligação entre as duas populações.

DURANTE UM BOM tempo essa linha de pesquisa não foi aprofundada, talvez porque a tese de Mellars tenha sido divulgada apenas em publicações arqueológicas indianas, cuja importância era desconsiderada no Ocidente. Quinze anos depois, porém, surgiram novidades a partir da pesquisa feita por uma equipe internacional liderada pelo paleontólogo Alan Morris, da Universidade da Cidade do Cabo, a respeito do crânio Hofmeyr.

Considerado antes uma relíquia sem grande valor, esse crânio humano havia sido encontrado em 1952 perto da cidade sul-africana de Hofmeyr, durante as obras para a construção de uma represa. Como nenhuma matéria orgânica restara na peça, ela não havia sido submetida a uma datação por carbono-14 – e, assim, tornara- se uma simples curiosidade no escritório de Morris, onde ser via como peso para papéis.

Um antigo colega de Morris, Frederick Grine, da Universidade Estadual de Nova York, mudou esse estado de coisas. Grine sugeriu a Morris que se fizesse a datação dos grãos de areia alojados na cavidade que havia abrigado o cérebro, e a idéia deu certo: especialistas atribuíram à relíquia uma idade entre 33 mil e 39 mil anos. Isso colocava o crânio dentro de um período – entre 75 mil e 20 mil anos atrás – que originou o menor número de descobertas de restos humanos na África, enquanto homens anatomicamente modernos despontavam na Ásia e na Europa.

Expansão rápida
A disseminação do Homo sapiens pela Terra se deu a partir de uma única onda migratória, que em apenas 10 mil anos levou a raça até a Austrália. Depois, a migração avançou para o norte.
Entre 60 mil e 80 mil anos atrás
Um grupo entre 2 mil e 6 mil humanos que habitavam a África Oriental desenvolveu habilidades mentais que o capacitaram a sobreviver melhor do que seus predecessores em condições difíceis. Essa população cresceu rapidamente e se espalhou pela África.
Entre 50 mil e 60 mil anos atrás
Usando a Península Arábica, esses humanos começaram a migrar para a Ásia. A ocupação foi feita seguindo a linha do litoral, chegando ao sudeste do continente. Alguns desses migrantes chegaram à Austrália.
Entre 40 mil e 50 mil anos atrás
A partir do litoral, esses povos foram para o norte, pelo Oriente Médio. Um grupo seguiu pelo sul da atual Rússia e dividiu-se – parte foi para a Europa, parte para a Ásia. Alguns entraram na Europa via Turquia; outros povoaram a costa mediterrânea da África.

O passo seguinte foi dado pela paleoantropóloga Katerina Harvati, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolucionária em Leipzig, na Alemanha. Ela submeteu o crânio a medições tridimensionais a fim de compará- lo com amostras de ossos modernos europeus, asiáticos e bosquímanos sul-africanos, além de crânios de humanos da Idade da Pedra e do homem de Neandertal. Resultado: o crânio de Hofmeyr era muito parecido com os dos primeiros humanos modernos europeus, os mais distantes em termos geográficos.

Essa semelhança indica que, há uns 35 mil anos, os humanos modernos sul-africanos e europeus partilhavam um ancestral comum muito recente, provavelmente membro de um povo da África Oriental que migrara entre 50 mil e 60 mil anos atrás.

As semelhanças nas gravações da pedra sul-africana (esquerda), feitas há 75 mil anos, e as da casca de ovo indiana (direita), de 35 mil anos atrás, indicam que os responsáveis por elas tinham as mesmas origens.

Uma das rotas desses viajantes levou ao sul, mas outra seguiu na direção nordeste, envolvendo inclusive uma travessia de mar – no Estreito de Bab-al-Mandeb, que separa o Iêmen, no sul da Península Arábica, de Djibuti, no nordeste da África. Depois da travessia, os migrantes seguiram a linha do litoral, chegando à Índia e rumando depois para a Indonésia e a Austrália, onde chegaram há cerca de 50 mil anos. Essa teoria é reforçada por esqueletos com idade entre 45 mil e 50 mil anos encontrados no sul da Austrália e na ilha de Bornéu.

O estímulo para a criatividade
Iniciada há cerca de 70 mil anos, a glaciação Wisconsin, última etapa da mais recente Era do Gelo, pode ter criado as condições climáticas que impulsionaram o Homo sapiens a empreender sua migração. Embora não tenha reduzido muito as temperaturas na África, ela diminuiu a evaporação dos oceanos, o que levou a uma queda nas precipitações pluviométricas e, no caso africano, a secas drásticas. Outro fato veio piorar a situação: a explosão do vulcão Toba, na Indonésia, há 74 mil anos. As nuvens de cinzas liberadas pelo vulcão tomaram a atmosfera terrestre, reduzindo a passagem da luz solar por vários anos e resfriando ainda mais a superfície do planeta.

Quem tinha mais chances de sobreviver nessas condições diferenciadas? Aqueles com maior capacidade cerebral, que podiam criar novas idéias, ferramentas, armas, invenções e artes. Esse estímulo forçado à criatividade dado pela natureza foi um fatorchave na ascensão do Homo sapiens a rei da Terra.

Durante a última Era do Gelo, os antigos europeus tiveram tempo e recursos para desenvolver suas habilidades artísticas, como demonstram as pinturas rupestres encontradas em cavernas do continente.

CURIOSAMENTE, NOSSOS antepassados não aproveitaram o vale do rio Nilo para chegar à costa do Mediterrâneo. Em vez disso, conforme estudos de DNA publicados em 2007 na revista Science, eles a atingiram entre 40 mil e 50 mil anos atrás, após passar pela Península Arábica, pelo Oriente Médio (onde parte deles seguiu rumo norte, dividindo-se entre a Europa Oriental e a China) e a partir daí na direção oeste, chegando à Europa pela atual Turquia e ao litoral norte da África através da Península do Sinai.

Todas essas rotas migratórias colocaram nossos antepassados em contato com as mais diversas condições ambientais – diferenças geográficas, climáticas, de fauna e de flora, por exemplo – e, em particular, com outras espécies humanas, estabelecidas naquelas regiões havia milhares de anos. Eles superaram todos os obstáculos e adaptaram-se a esses ecossistemas variados.

Descobertas recentes na Rússia e na Ucrânia, por exemplo, mostram que o Homo sapiens foi mais capaz de enfrentar climas rigorosos do que o homem de Neandertal. Os pesquisadores encontraram ali o mais antigo sinal de arte decorativa – um rosto semi-acabado gravado na presa de marfim de um mamute, datado em 45 mil anos. Os vestígios do homem de Neandertal na área vão até 115 mil anos atrás, com o início da Era do Gelo; depois disso, esse povo partiu para o sul e nunca mais voltou. Resistindo ao clima severo daquelas terras, o Homo sapiens já mostrava que vinha para ficar.

A pergunta que surge daí é inevitável: o que tornou nossos ancestrais aptos a – de repente, em termos arqueológicos – espalhar-se pelos continentes e conquistar o planeta? Só para relembrar, o crânio mais antigo de um Homo sapiens, encontrado em Omo (Etiópia), tem cerca de 195 mil anos de idade. O que, depois de uns 115 mil anos, lhes permitiu tomar a África e, em seguida, o mundo?

É bem provável que uma grande mudança tenha ocorrido então. Diversos pesquisadores falam de uma “explosão de criatividade”, um aumento na capacidade de processamento cerebral suficiente para permitir ao Homo sapiens a criação da primeira linguagem complexa, de novas estruturas sociais, de maneiras mais eficientes de produzir ferramentas, de padrões diferentes de arte – enfim, dos elementos que compõem uma cultura mais avançada. Arqueólogos também falam de indícios de que objetos eram transportados por longas distâncias, o que leva à suspeita de que já havia alguma forma rudimentar de economia, na qual itens como adornos, alimentos e ferramentas eram trocados.

Outro fator indicativo de que alguma coisa extraordinária aconteceu no cérebro do Homo sapiens foi a descoberta de esqueletos de homens anatomicamente modernos nas cavernas de Skhul e Qafzeh, em Israel, datados entre 90 mil e 100 mil anos. Nos dois locais foram encontrados itens com ocre e adornos, uma evidência de que ali se faziam ritos funerários com oferendas para os mortos. Tais características de uma consciência mais elevada, porém, não foram suficientes para fazer esses ancestrais se fixarem ali de vez: os restos de homens de Neandertal encontrados em camadas do solo mais antigas e mais recentes mostram que aquela passagem do Homo sapiens pelo Oriente Próximo foi efêmera.

A migração seguinte, entretanto, já não abriu mais espaços para os rivais. Em alguns milhares de anos, os homens de Neandertal – que ocuparam a Europa por pelo menos 300 mil anos – foram totalmente substituídos por nossos ancestrais. Em todos os outros lugares onde houve competição, a superioridade cerebral do Homo sapiens prevaleceu. O passo seguinte, e inevitável, veio na medida da ambição da raça: o próprio planeta.

A história segundo o DNA

A genética ofereceu um novo caminho para se estudar a história humana: o DNA, ou, mais precisamente, o cromossomo masculino (o “Y”), e a mitocôndria, a parte da célula que responde pela produção de energia. Como ambos não sofrem a mistura de genes do pai e da mãe durante a fecundação, as mutações que apresentam servem como verdadeiros “códigos de identificação” dos diversos povos.

Ao migrar para outro ambiente, um povo passa a acumular em seu código genético mutações diferentes daquelas pessoas que permaneceram no mesmo local. Depois de alguns milhares de anos, os migrantes dão origem a novas populações. Os geneticistas concluíram que a humanidade nasceu na África porque em nenhum outro continente há tanta diversidade genética. Já os europeus são os caçulas: têm “apenas” 40 mil anos de idade, ante 80 mil dos africanos e 50 mil dos asiáticos.

Revista Planeta

Samurais - Os guerreiros da honra

Nos tempos do Japão feudal, os samurais defendiam seus territórios com a própria vida se preciso fosse. A partir do século 17, eles aos poucos foram desaparecendo. Mas seu inflexível código de honra e impecável conduta até hoje influenciam o povo japonês


Fabíola Musarra

Muito retratada em livros, pinturas e superproduções cinematográficas, a imagem do samurai chegou ao século 21 envolta em uma aura mítica e por vezes até romântica. Uma imagem, no entanto, bem distante da realidade vivida por esses guerreiros na época do Japão feudal. Filmes, como O Último Samurai (dirigido por Edward Zwick e estrelado por Tom Cruise e Ken Watanabe), e a dificuldade do mundo ocidental em compreender a complexa cultura e tradições japonesas contribuem para formar uma visão estereotipada desses bravos combatentes: enquanto uns acham que eles são personagens legendários, outros sustentam que são fanáticos sedentos de sangue. Heróis? Bandidos? Admirados? Temidos? Afinal, quem são e como viveram esses lendários combatentes do antigo Japão?

Ao contrário do que a ficção retrata, não havia nada de romântico na vida dos samurais. Eles surgiram como um produto das circunstâncias históricas do Japão, de uma longa evolução social e política que culminou nos séculos 17 e 18. Com extensão territorial limitada e dividido em feudos, o pequeno arquipélago era um campo de constantes batalhas pela posse de terras nos séculos 10 e 11. Essas disputas medievais e a necessidade de defender as propriedades do daymiô (senhor feudal) e, no século 13, as próprias fronteiras do país ameaçado pelos mongóis, favoreceram o aparecimento dos samurais. Essa classe social guerreira mudaria para sempre a trajetória do Japão, ajudando a unificar o país e a fazer dele uma nação.

A origem dos samurais, na realidade, remonta aos séculos 4 a.C. e 3 a.C., quando começaram a surgir elites armadas nos grupos tribais que formaram pequenas entidades sociais. Esses grupos foram se convertendo, um a um, em grandes clãs submetidos às autoridades provinciais do império. A relação conflituosa entre esses clãs abriu portas para a formação de milícias que deveriam proteger os interesses dos vários senhores feudais, e os do próprio império. Os membros dessas elites guerreiras eram conhecidos como bushi, termo que significa "aquele que serve" e que com o tempo acabou se tornando sinônimo de guerreiro.

A ascensão dos samurais como uma classe social começou no período Heian (nome da então capital do país, a atual Kyoto), com a derrota do governo aristocrático Taira, na Guerra Genpei, no fim do século 12, quando o clã de Minamoto no Yoritomo vence o conflito e recebe o título de xogum: um título de distinção militar concedido pelo imperador, equivalente a comandante do exército.

A partir daí, e ao longo de mais de 400 anos, o imperador era o legítimo governante, mas era o xogum quem governava de fato o Japão. Quem era agraciado pelo imperador com esse título tinha autoridade civil, militar, diplomática e judiciária. Vale lembrar que durante todo esse período o Japão teve três xogunatos. O primeiro foi o estabelecido em 1192 por Minamoto no Yoritomo, conhecido como xogunato Kamakura. Já o segundo é conhecido como Ashikaga e foi fundado em 1338 por Ashikaga Takauji, enquanto o terceiro foi o de Tokugawa Ieyasu.

Em 1600, Tokugawa venceu a batalha Sekigahara, na província de Mino, tida (não sem razão) como uma das maiores de todas: em apenas seis horas de confronto, morreram em torno de 35 mil homens só do lado derrotado. Mas o massacre durou três dias e foi uma verdadeira carnificina, especialmente se for considerado que naquela época as lutas aconteciam olho no olho, homem contra homem, espada contra espada. Pouco a pouco, Tokugawa ia vencendo os clãs rivais. Como recompensa, o imperador lhe concedeu o título de xogum.

As principais armas dos samurais eram a katana, uma espada curva, que somente era usada com outra espada: a wakizashi, uma arma mais curta com a lâmina mais larga. As duas espadas juntas são referidas como daí-shô, cujo uso era um privilégio exclusivo deles

Tokugawa, então, passou a ser o senhor absoluto do Japão, dando início ao período Edo (1603-1868), assim chamado numa referência ao nome da cidade de onde ele tomava as decisões políticas (a atual Tóquio). Ao assumir, tornou hereditário o xogunato, criando assim a dinastia dos Tokugawa. Por sua vez, o imperador viveu na antiga capital, Heian. Esse foi um longo período que contribuiu para configurar a imagem estereotipada do país: sedutoras gueixas, casas de chá, imponentes lutadores de sumô e arrogantes samurais.

Como consequência de o xogunato tornar-se hereditário, desde o berço a criança nascida em uma família de samurai era educada em um regime de autodisciplina e de exercícios contínuos. Em geral, o treinamento das artes marciais começava por volta dos 5 anos. Os filhos de famílias ricas (a riqueza era medida em unidades de arroz, okoku) frequentavam academias, onde aprendiam literatura, artes e habilidades militares. O tipo e a frequência dos treinamentos de um samurai dependiam da riqueza de sua família. Nas de menor poder aquisitivo, os filhos eram enviados às escolas dos vilarejos para receber instrução básica e o seu treinamento normalmente era feito pelos pais, tios ou irmãos mais velhos.


Cada prega do hakama(calça) simboliza uma das sete virtudes que um samurai deveria ter: a honestidade, a lealdade, a coragem, a perseverança, a benevolência, a compaixão e a sinceridade

A sociedade feudal japonesa

Na sociedade japonesa do século 16, os samurais formavam uma casta a serviço da alta nobreza, os daymiô, que exerciam o poder por meio de uma rede de ligações pessoais e familiares. Ao lado de sua família mais direta, os daymiô ocupavam o topo da hierarquia feudal. Abaixo deles, vinham os fudai (aquelas famílias que sempre estiveram a serviço daquela família principal) e, finalmente, os vassalos, que muitas vezes haviam sido antigos senhores que, derrotados, haviam jurado fidelidade, a fim de manter sua propriedade.

Por conta dessa estrutura, a rede de fidelidade dos "súditos" se ampliava e o poder do daymiô se fortalecia. Paralelamente a essa organização política, havia outra que inicialmente era estritamente militar e representava os samurais. Exímios praticantes de artes marciais e dotados de total controle sobre seu corpo e sua mente, os samurais, com o tempo, foram se tornando tão poderosos que ultrapassaram os limites dos feudos e acumularam influência política e militar.

Existiam muitas categorias de samurais. Abaixo deles, havia ossotsu (as tropas de infantaria), que, por sua vez, eram divididos em outras categorias. Exceto os de mais alto escalão, todos eles zelavam pelas propriedades do daymiô. Também de todos eles era esperado que respondessem de imediato ao chamado de guerra do seu senhor e que estivessem sempre prontos a combater, apresentando o seu equipamento em conformidade com a sua posição e a sua riqueza.

Na base da pirâmide estavam os ashigaru, que
eram a maioria dos combatentes. Eles eram os
arqueiros da infantaria, mosqueteiros e lanceiros e,
algumas vezes, mensageiros, porta-bandeiras, criados.
Por muito tempo, essa categoria representou a porta de
acesso à classe dos samurais.


Essa hierarquia social prevaleceu durante todo o
período Edo, no qual aparentemente nada mudou,
mas a prolongada paz desses anos acabou modificando
radicalmente a natureza dos samurais. Como não existiam
mais guerras, eles não tinham razão para lutar. Agora,
suas habilidades marciais só podiam ser testemunhadas
em duelos particulares.


Diante das novas condições, os samurais começaram a
ampliar sua formação intelectual e técnica e a integrar-se
na sociedade civil, na qual executavam tarefas educativas
ou administrativas. Administravam, especialmente, as
propriedades do daymiô a quem serviam, durante o longo
tempo em que ele era obrigado a permanecer na corte
do xogum, praticamente recluso.


Anos mais tarde, a burguesia em ascensão (chonin)
foi capturar o prestígio social que os samurais continuavam
a ter no país, num processo que poderia ser classificado
como uma fusão e que foi de fundamental importância para
a expansão e sobrevivência dos valores dos samurais na
sociedade japonesa até os dias atuais.

Independentemente de ser rica ou pobre, a criança ganhava uma katana (espada longa semelhante a um sabre) de madeira em uma cerimônia formal, rito que se repetiria na adolescência, desta vez com uma espada de verdade. A katana era uma das principais armas dos samurais - acreditavam que ela carregava a alma do guerreiro, devendo portanto ser muito bem cuidada e não ser exposta sem uma razão. Seu uso pelos civis havia sido proibido por um decreto de 1590. Portá-la era um privilégio dos guerreiros. Aprendizados à parte, o garoto, antes e acima de tudo, era educado para servir. Servir com lealdade ao seu senhor, a quem daria a vida se preciso fosse.

Desse modo, os samurais cresciam imbuídos do princípio da restituição do débito. A lealdade e a honra também eram levadas muito a sério por eles: lutavam até a morte para proteger a propriedade de seu senhor ou praticavam o harakiri (cortar o ventre com sua própria espada), caso o desonrassem. Da luta às relações sociais, todas as normas de vida e de conduta às quais o samurai tinha de se submeter estavam previstas no bushidô (o termo vem de bushi, guerreiro, e de do, caminho, e significa caminho do guerreiro), um inflexível código que colocava a honra acima de tudo.

Embora já estivesse definido no século 8, o bushidô somente foi instituído no século 17 e alcançou sua própria perfeição com a difusão dos princípios do confucionismo. O código tinha como meta aperfeiçoar o caráter por meio de rígidas regras de disciplina e comportamento e incluía a divulgação de vários princípios: gi (a atitude do justo),yu (habilidade), rei (o comportamento justo), makoto (sinceridade), meiyo (honra e glória) e chigi (lealdade).

Escrito por Taira Shigésuké, sábio confuciano e militar japonês da segunda metade do século 17, o texto de abertura do bushidô dá uma boa ideia do que era a vida de um samurai: "A primeira preocupação de quem pretende tornar-se guerreiro é ter a morte sempre presente no seu espírito, dia e noite, desde a manhã do primeiro dia do ano até à noite do Ano- Novo." Traduzindo: viver é estar preparado para a morte, é saber morrer - um samurai não podia praticar o harakiri nem morrer de qualquer jeito.

Ao contrário, se tivesse de morrer, ele não deveria resistir. Logo cedo, o jovem aprendia a se desapegar dos bens materiais e a desprezar a dor e a morte. Por isso, tinha de morrer com honra, sem demonstrar qualquer sinal de sofrimento até cair inerte, suportando a dor sem fraquejar. Contam que a morte dele deveria ser igual a de uma da carpa que, no momento que está para ser trucidada sobre a mesa, simplesmente se rende à morte sem a menor resistência.

O harakiri, suicídio ritual

A honra era tão importante para os samurais que era bastante
comum eles se suicidarem em face de um fracasso, ou se
tivessem violado o bushidô. Esse ato vinculado à honra
acabou se tornando um ritual, tomando a forma do
seppuku (também conhecido por sua expressão
mais popular, harakiri), que nada mais era do
que o modo de o samurai restaurar a honra do
seu daymiô e de sua família e cumprir a sua
obrigação de lealdade, ainda que tivesse
falhado como guerreiro.


Antes de cometer o seppuku, o guerreiro se
vestia com roupa apropriada. Depois, se ajoelhava
enquanto lhe entregavam uma faca embrulhada em
papel (posteriormente, foi substituída por um leque).
Com ela, o samurai cortava seu ventre da esquerda
para a direita, finalizando com outro corte para cima. Este
ritual, porém, não era um ato solitário: poucos samurais
acabavam sentindo na pele a dolorosa e lenta morte por
desentranhamento, pois outro samurai ficava em pé
atrás do suicida e o decapitava logo após o harakiri,
evitando que qualquer dor fosse sentida.



Não era só. Havia ainda a vingança. Mais que uma obrigação, ela era um dever do guerreiro. Se a honra de seu senhor fosse manchada ou se ele fosse morto, o samurai era obrigado a encontrar e matar os responsáveis. Um dos mais famosos contos sobre a vingança dos samurais é "Os 47 Ronin" (samurais sem um senhor para servir). Sob o governo Tsunayoshi, o quinto xogum Tokugawa (1646-1709), o senhor de Asano, foi condenado a praticar o harakiri instigado por um alto funcionário do xogum, chamado Kira. O código ético dos samurais previa que ele teria de ser vingado pelos seus homens. Comandados pelo oficial Oishi, os 47 ronin juraram vingança.

Por algum tempo, parecia que nada ia acontecer. Oishi levava uma vida depravada e os ronin pareciam ter esquecido o juramento, o que lhes custou o desprezo do povo. Mas foi exatamente esse falso esquecimento que fez com que Kira baixasse a guarda. Dois anos depois, em uma noite de inverno, o grupo invadiu o seu castelo e o assassinou. Presos, os ronin foram condenados a praticar o harakiri. O motivo da pena não foi porque eles cumpriram o seu dever de vingança, pois isso era o esperado, mas porque atacaram o castelo secretamente, o que era tido como uma desonra.

A longa trajetória dos samurais se estendeu até 1876, quando o uso das espadas foi proibido e a classe samurai, extinta. Apesar disso, o espírito desses incansáveis guerreiros, cujo estilo de vida aliava conduta irrepreensível, árduo treinamento e aperfeiçoamento constante, sobreviveu. Até hoje, os valores e as virtudes dos samurais fazem parte da identidade nacional do Japão. Ou melhor, ultrapassaram as fronteiras do país e as barreiras do tempo, e ainda agora o carisma desses míticos heróis continua encantando o mundo.

informações
www.niten.org.br

Revista Planeta

Salto para o infinito

Pequena esfera no centro de outra esfera maior: assim os antigos gregos imaginavam a terra e o universo. essa imagem se desfez há 400 anos, quando galileu observou o céu com uma luneta que ele mesmo fabricou


Por Françoise Balibar

ESA Nasa
Ao direcionar sua luneta para o céu, Galileu (acima) iniciou um irreversível processo que tem aberto o universo cada vez mais ao conhecimento humano (na foto maior, berçário de estrelas na Pequena Nuvem de Magalhães).

Em 1637 - quase 30 anos após ter usado seu telescópio para observar o céu, feito cujo 400º aniversário foi celebrado em 2009 -, o astrônomo italiano Galileu Galilei, aos 68 anos, ficou cego do olho direito. Um ano mais tarde, já totalmente cego e dominado pelo desespero, ele escreveu a Elias Diodati, seu amigo mais fiel: "Ilustre senhor, Galileu, seu servidor e caríssimo amigo, por infortúnio, está agora irremediavelmente cego. Vossa Senhoria pode imaginar meu atual estado de abatimento ao pensar como o céu, o mundo e o universo - cujas dimensões, graças a minhas observações e demonstrações, foram aumentadas cem e mil vezes em relação ao que era conhecido ou havia sido observado pelos sábios dos séculos passados - ficaram reduzidos ao espaço ocupado por minha pessoa."

NO SISTEMA COSMOLÓGICO DOS ANTIGOS GREGOS, O HOMEM ENCONTRAVA-SE PRISIONEIRO NO INTERIOR DE UM MUNDO FECHADO

Nasa
Galileu viu na Lua um relevo acidentado, tal como o da Terra. À direita, a visão cosmológica dos antigos gregos, na interpretação de Andreas Cellarius (século 17).

Palavras de um homem a quem a cegueira, ao reduzi-lo unicamente à visão do espírito, concedera a possibilidade de "enxergar" a posição que ocupa, tanto em um instante, entre as coisas deste mundo, como para sempre, na história dos homens. É como se a cegueira, ao privá-lo da visão, o capacitasse a adotar o ponto de vista da posteridade e de ver em si mesmo o homem por meio de quem a humanidade saiu do "mundo fechado" para se abrir ao "universo infinito", de acordo com as expressões do filósofo e historiador das ciências francês Alexandre Koyré (1892-1964).

A origem da ideia de um mundo fechado encontra-se na filosofia grega. A partir do século 4 a.C., a maioria dos filósofos e cientistas gregos propôs que a Terra é uma pequena esfera (a superfície mais simétrica) colocada no centro de outra esfera giratória muito maior, na qual estão dispostas as estrelas.

Durante os 20 séculos decorridos até a época de Galileu, diversos sistemas cosmológicos foram sobrepostos a esse esquema, a fim de levar em consideração os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas (literalmente, os "astros errantes") que, supostamente, evoluíam no espaço entre as duas esferas. É importante observar que, nesse modelo, nada - nem espaço nem matéria - se encontra no exterior da esfera das estrelas; o mundo é, portanto, fechado, estando circunscrito inteiramente ao interior da segunda esfera. Por maior que seja o diâmetro dessa esfera (em comparação com o diâmetro da esfera terrestre), o homem encontrase enclausurado, e de algum modo prisioneiro, no interior desse mundo fechado.

Nesse esquema de pensamento, a cosmologia (vista como um conjunto de concepções relativas à estrutura do universo) e a astronomia (definida como a observação do céu tal como ele se apresenta à nossa vista) estão intimamente associadas e indissociáveis. O filósofo e historiador das ciências norte-americano Thomas Kuhn (1922-1996) concebe o entrelace de ambas como a origem da "eficácia despropositada" da ciência ocidental.


COM SUAS DESCOBERTAS, GALILEU DERRUBOU A CONCEPÇÃO GERAL DO MUNDO, TANTO A DOS INTELECTUAIS DE SUA ÉPOCA QUANTO A DOS HOMENS DO POVO

Na sua opinião, a necessidade assim imposta à cosmologia de produzir ao mesmo tempo uma concepção do mundo e uma explicação dos fenômenos observados canalizou o desejo inato do homem de integrar o universo em um sentido bem particular: o da busca de explicações científicas, fortalecendo, desse modo, o poder da cosmologia. Assim, "a astronomia tem a possibilidade, em alguns casos, de destruir - por razões próprias à sua especialidade - uma concepção do mundo que o havia tornado compreensível aos indivíduos, especialistas ou não, de determinada civilização". Eis precisamente o que se produziu em 1609: as observações astronômicas de Galileu demoliram a concepção geral do mundo, comum aos letrados e ao homem da rua.

Os sistemas coperniciano e ptolemaico, cujos adeptos se enfrentaram no século 17, são ambos, ao mesmo tempo, cosmológicos e astronômicos. Isso fica explícito no próprio título de uma das grandes obras de Galileu, Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo, no qual os sistemas ptolemaico e coperniciano surgem com a mesma base - duas formas alternativas dentro da mesma moldura intelectual geral, em que toda modificação introduzida na explicação astronômica (por exemplo, a proposta por Nicolau Copérnico, em 1543, no livro De revolutionibus orbium coelestium) implica necessariamente uma modificação correlata na concepção cosmológica da estrutura do mundo.

Nessas condições, não surpreende que o debate suscitado pela explicação heliocêntrica, proposta por Copérnico (1473-1543), não se tenha restringido a uma disputa entre cientistas (astrônomos), mas tenha sido considerado uma ameaça à ordem estabelecida, baseada em uma concepção geocêntrica do mundo. Tampouco surpreende que as observações e interpretações de Galileu a respeito de manchas brilhantes que evoluem na interface das zonas lunares de sombra e de brilho, tal como a Lua é vista da Terra, tenham sido consideradas ainda muito mais ameaçadoras para a ordem estabelecida do que o outro grande acontecimento científico de 1609, a publicação de Astronomia nova, de Johannes Kepler (1571-1630).

Tanto mais que as observações de Galileu tinham sido feitas com a ajuda de um instrumento fabricado a partir de uma bugiganga encontrada à venda no mercado, ou seja, um instrumento de tal simplicidade que um simples mortal pode reproduzir por conta própria. Em compensação, salvo os especialistas, quem estaria em condições de ler Astronomia nova? Quem se interessaria pelas órbitas elípticas dos planetas exibidas por Kepler?

HÁ QUATRO SÉCULOS, O ASTRÔNOMO ITALIANO INTRODUZIU A IDEIA DE UM UNIVERSO COM ESTRUTURA ESPACIAL HOMOGÊNEA, SEM NENHUMA HIERARQUIA OU REFERÊNCIA A UMA ORDEM DE VALORES

Os astrônomos eram os únicos seres capazes de interpretar os resultados obtidos por Kepler como uma mudança na nossa concepção do mundo, ao passo que, a partir da descoberta das montanhas na Lua, ninguém mais poderia olhar para ela enxergando um espelho polido, uma superfície lisa radicalmente diferente da superfície terrestre, como sugeria a concepção das duas esferas - uma, imperfeita e rugosa (a Terra); outra, perfeita e cristalina (a esfera celeste).

Tendo sido observadas por Galileu, e ainda que ele tenha sido o único a enxergá-las por um tempo - além de Kepler, astrônomo profissional que adaptou a luneta enviada por Galileu à sua própria observação -, as "luas" de Júpiter (que ninguém vira até então) não seriam precisamente a prova de que, afinal, algo girava fora da órbita da Terra? Em consequência, o espaço já não poderia restringirse à sua porção no interior da esfera celeste. Pior ainda: a Terra deixava de ser o centro do universo (constatação que, mais tarde, Sigmund Freud acabou considerando como a primeira "ferida narcísica" infligida ao homem; a segunda foi a teoria da evolução de Darwin e a terceira, sua própria descoberta do inconsciente).

Desse modo, a concepção do "mundo fechado" perdeu sua coerência: ela não condizia mais com a experiência. Qual seria, então, a concepção do mundo correspondente a esse "universo infinito" citado por Koyré? O fato da fragmentação do mundo fechado e de sua abertura, por si só, não implica forçosamente que o universo tenha uma dimensão infinita. Nesse aspecto, está em questão a realidade física do infinito. Sabe-se que Kepler se opunha à ideia de um universo infinito porque, dizia ele, tal universo comportaria necessariamente regiões vazias de matéria - um puro contrassenso, em sua opinião, uma vez que é impossível a existência de espaço sem matéria.

A posição de Galileu sobre a questão do infinito é mais sutil: ele se recusa a identificar o movimento inercial (aquele que é comme nullo) com o movimento de translação mediante uma velocidade uniforme porque, dessa forma, o objeto móvel poderia ser transportado ao infinito, hipótese julgada por ele irrealista. Mas o mesmo Galileu, ao demolir a concepção de que o cosmos está ordenado segundo uma hierarquia (o firmamento, perfeito e eterno, em face da Terra, corruptível e instável), introduziu a ideia de um universo cuja estrutura espacial é homogênea, um mundo uniforme destituído de qualquer hierarquia, sem a menor referência a uma ordem de valores.

Ele introduziu uma visão cujos pontos em sua integralidade devem ser considerados do mesmo modo - em outras palavras, um espaço geométrico euclidiano, incluindo o infinito em sua própria definição; um mundo em que é possível fundamentar a matematização do mundo físico, ou seja, a física moderna.

Fotomontagem da Nasa que mostra Júpiter (no alto, à direita) e as quatro luas descobertas por Galileu, a partir de cima: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. Os satélites jupiterianos eram a prova de que algo não girava ao redor da Terra.

É verdade que não estaríamos celebrando as descobertas astronômicas de Galileu com tanta pompa se as consequências delas não tivessem possibilitado fundar a "ciência moderna". Ao substituir a estrutura hierarquizada do espaço pela uniformidade que caracteriza alguns espaços geométricos, Galileu deu à geometria - e de modo geral à matemática, cuja aplicação fora restrita desde a Antiguidade à compreensão do movimento dos objetos celestes (e, portanto, perfeitos) - a possibilidade de participar da explicação dos fenômenos terrestres que, daí em diante, foram considerados tão perfeitos quanto seus homônimos celestes.

Três séculos mais tarde, em 1919, Albert Einstein, herdeiro de Galileu - não tanto do astrônomo, mas do inventor da ideia de matematização da natureza -, depois de ter elaborado, mediante intensos esforços e numerosos períodos de desalento, o que se designa por teoria da relatividade geral e que leva seu nome, apercebeu-se, no aprofundamento da reflexão sobre o assunto, que essa teoria físico-matemática concebida inicialmente como uma teoria da gravitação era, na realidade, uma teoria do universo e, portanto, uma cosmologia. O enlace entre astronomia e cosmologia, que em grande parte esteve na origem da ciência moderna, redundou finalmente em uma absorção da cosmologia pela ciência. A cosmologia acabou sendo um ramo da física.

Françoise Balibar, professora emérita de física na Universidade Paris-Diderot, é autora de Galileu: o mensageiro das estrelas, com Jean-Pierre Maury (Paris, Gallimard, 2005) e de Einstein: uma leitura de Galileu e Newton (Lisboa, Edições 70, 1984). O presente artigo foi extraído da conferência "De Galileu a Einstein", proferida por Françoise Balibar na sede da Unesco em 15 de janeiro de 2009, por ocasião do lançamento do Ano Internacional da Astronomia.

Revista Planeta

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Oscar Wilde - O artista que pôs a hipocrisia no palco

O artista que pôs a hipocrisia no palco
14 de março de 2010

Em cinco peças, Oscar Wilde fez um resumo irônico de sua época

O dândi Oscar Wilde, um dos mais finos intelectos de sua época, dono de uma pena certeira e aguda, firmou seu breve brilho resplandecente sobre as tábuas do palco. O teatro deu ao poeta, contista, ensaísta, esteta, a cereja final de uma popularidade cuidadosamente construída, e que, em um lance de tragédia grega, acabaria por tornar um fenômeno midiático sua estrepitosa queda. O irlandês Wilde estudou em Oxford e iniciou a carreira em Londres. Foi aceito nas fileiras da alta sociedade, que ele escandalizava com atitudes irreverentes e frases tão espirituosas quanto venenosas. Ao mesmo tempo em que se lançava como um homem de sociedade, iniciou a construção de uma carreira literária escrevendo para jornais e revistas e publicando poemas. Uma viagem fartamente noticiada aos Estados Unidos, em 1882, quando estava com 26 anos, consolidou sua notoriedade.
Em 1880 havia, pela primeira vez, experimentado a mão na dramaturgia. E seus começos aí não foram animadores. Escreveu Vera, ou os Niilistas. A peça, um melodrama, não fez qualquer sucesso. Montada em Nova York três anos depois, ficou apenas uma semana em cartaz. Apesar disso, mais tarde, a atriz Marie Prescott fez turnê com a obra pelos Estados Unidos. Em 1883, Wilde se aventurou pelo território da tragédia em versos com A duquesa de Parma. A peça foi produzida alguns anos mais tarde em Berlim e em Nova York sem qualquer repercussão. Em fins de 1883, para levantar dinheiro, Wilde foi obrigado a empreender um circuito pelas províncias inglesas, palestrando sobre decoração. Talvez escaldado pelo insucesso da Duquesa e de Vera, o artista não voltou tão cedo ao teatro.
As obras-primas, as cinco peças que o inscreveram na história do teatro, surgiriam no início da última década do século 19. O período de apogeu do artista foi aberto com o lançamento de seu único romance, O retrato de Dorian Gray, em 1890. Vieram, a seguir, em rápida sucessão,­ os ­textos teatrais O leque de Lady Windermere e Salomé, em 1892, Uma mulher sem importância, em 1893, e, em janeiro e fevereiro de 1895, Um marido ideal e A importância de ser prudente (ou “Leal”, ou “Franco”, ou “Sincero”, ou “Fiel”: o trocadilho do título original, The importance of being earnest, é intraduzível para nós em português).
Esse quinteto de textos abriu para Wilde uma posição única no panorama da dramaturgia. Poucos conseguiram, como ele, antes ou depois, criar uma obra que formasse de modo assim consistente um resumo tão irônico de sua época. Aí está o grande trunfo do teatro de Wilde. Não há qualquer espécie de condescendência ou complacência com as virtudes burguesas. Sua obra é elegantemente iconoclasta, derrisória, corrosiva. Faz pouco do grupo social em que vive. Aproveita as estruturas convencionais da narrativa dramática para debochar delas. Salomé é uma exagerada versão do episódio bíblico. O texto atraiu atenção por ter sido proibido pela censura inglesa na época do lançamento. Foi estreado em Paris, com Sarah Bernhardt no papel-título. A peça, que narra com profusão de imagens a paixão desvairada da princesa Salomé pelo profeta João Batista, cuja cabeça ela exigirá como prêmio depois de dançar para o rei Herodes, é hoje considerada como uma das primeiras a colocar em cena uma paixão perversa e sádica, o que lhe dá um incontestável traço de modernidade, apesar de sua linguagem propositalmente arcaica.
O leque de Lady Windermere é a primeira das comédias de costumes de Wilde que definiram sua contribuição ao teatro. A peça gira ao redor de intrigas e mentiras. Lady Windermere, sem saber que é filha da sra. Erlynne, desconfia de que seu marido é amante dessa última, devido às atenções que ele, conhecedor da verdadeira história, dedica a quem na verdade é sua sogra. Com o sacrifício da própria reputação, esta impede que a filha cometa adultério, repetindo o mesmo erro que custou seu afastamento da família. Nada distinguiria a peça de outros dramas decadentes da época se o espírito de Wilde não brilhasse intensamente nos diálogos. Os epigramas saltam a cada linha. “Se uma mulher se arrepende de seus erros, tem que se vestir com um mau estilista, ou ninguém acredita nela”, afirma a sra. Erlynne.
O mundo das convenções sociais e da moralidade hipócrita é novamente abordado por Wilde em Uma mulher sem importância e em Um marido ideal. Na primeira dessas peças, o autor aborda uma outra vez a questão da filiação ilegítima na figura de Gerald, o jovem protagonista da obra. A trama propicia descobertas sucessivas, mas, como no texto anterior, a estrutura dramatúrgica é bastante capenga, e o coração da peça está nos epigramas e nas frases espirituosas. “Uma mulher má é o tipo de mulher da qual o homem nunca se cansa”, diz Lorde Illingworth. Nesta peça, Wilde tece sua imortal definição de saúde à moda inglesa: “O cavalheiro rural inglês galopando atrás de uma raposa: o inominável em plena perseguição do incomível”. Um marido ideal tem como assunto outra situação que envolve o jogo de aparências da sociedade. Um ministro do Gabinete, Robert Chiltern, está prestes a ser denunciado devido a atos que comprometem seu passado. Ele construiu sua fortuna vendendo um segredo de Estado a respeito do Canal de Suez. Agora é chantageado pela fascinante sra. Cheveley, mulher de duvidosa moral, por conta disso. Uma série de volteios improváveis da trama se sucede. Chiltern acabará por se redimir, por meio de um heróico discurso ao público, e seu amigo, Lorde Goring, salvará de vez sua reputação calando a sra. Cheveley. Lady Chiltern perdoará o marido, depois de perceber o quão facilmente o escândalo teria destruído a estabilidade de sua vida.
A obra-prima de Wilde é a última peça que escreveu, A importância de ser prudente. Um texto absolutamente delirante, em que uma criança em um carrinho de bebê pode ser confundida com o manuscrito de um romance xaroposo e sentimentalóide. Ao redor da palavra “earnest”, que em inglês é homófona do nome Ernest, e que significa “prudente” e etc., como já foi registrado, Wilde costurou uma trama hilariante de identidades trocadas, de crianças abandonadas e reencontradas décadas depois, de mentiras que se tornam verdades. Um texto delicioso, de ritmo trepidante, recheado de ditos espirituosos. A peça, borbulhante, trata apenas de superficialidades, de banalidades, e através desse procedimento satiriza e critica as classes altas.
O resultado é um escrito cintilante, de notável poder de fogo. Através de uma série de lances inverossímeis, somos mergulhados na história de John Worthing e de seu amigo, Algernon Moncrieff, o primeiro envolvido com a jovem Gwendolen Fairfax, o segundo prestes a se envolver com outra bela jovem, Cecily Cardew. Os namoros, os caprichos – Gwendolen vai se casar com um homem chamado Ernest, que vem a ser, por fim, o verdadeiro nome de Worthing –, as situações artificiais e improváveis alinhavadas por Wilde sublinham sua extrema ironia. E tudo é temperado pelos diálogos repletos de paradoxos, epigramas, frases de espírito. Foi o coruscante fecho de uma obra meteórica.
Nesse mesmo ano, Wilde, ao fim de um processo rumoroso, em que começou como acusador e acabou como réu, seria condenado por sodomia. A partir daí viriam o divórcio (sua mulher mudou para Lloyd o sobrenome dos filhos), a prisão, o exílio na França e doença e a morte, em 1900, em Paris. A fase brilhante de sua vida se fechou sob os aplausos entusiásticos destinados à importância de ser prudente, uma obra extraordinária, que ainda hoje encanta platéias. Fiquemos então com eles. É nosso melhor tributo à memória de um artista que fez rir da hipocrisia até ser atropelado por ela.
Alberto Guzik é jornalista, diretor, autor teatral e ator

Revista CULT

Ecologia do medo e epistemologia da catástrofe

14 de março de 2010

Uma nova abordagem sobre a crise urbana na obra de Mike Davis
Henrique Carneiro


Os três últimos livros de um dos mais importantes marxistas norte-americanos, o urbanista e historiador Mike Davis, traduzidos recentemente no Brasil (Cidades mortas, Record, 2007; O monstro bate à nossa porta: A ameaça global da gripe aviária, Record, 2006; e Planeta favela, Boitempo, 2006), assim como a publicação de um novo, Apologia dos bárbaros: Ensaios contra o império, a sair neste ano também pela Boitempo (com apresentação de Paulo Daniel Farah), mais a reedição prometida para 2008, pela mesma editora, de Cidade de quartzo, são expressões de análises lúcidas e precisas das condições sociais e ambientais que nos esperam no futuro das próximas décadas.
Davis, membro da revista New Left Review, que lecionou planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia, e atualmente é professor de História na Universidade da Califórnia, em Irvine, vem tratando nessas notáveis obras de uma análise crítica das condições urbanas contemporâneas. Em Cidade de quartzo (Scritta, 1993), contou a história de Los Angeles, metrópole pós-moderna por excelência, nascida do nada, no deserto, para tornar-se uma cidade para automóveis, espalhada como a mais extensa mancha urbana do mundo. Em Holocaustos coloniais (Record, 2002), analisou as ondas de fome do século 19 e suas relações com o clima, o mercado mundial e as expansões dos impérios europeus na Ásia e África. Em O monstro bate à nossa porta (Record, 2006) e Planeta favela (Boitempo, 2006), se debruçou sobre dois dos mais terríveis cavaleiros do apocalipse: a pobreza e a peste.
É difícil não sentir um arrepio apocalíptico diante dos cenários catastróficos que se combinam: explosão de hiper-urbanização favelizada em megacidades, aquecimento global e pandemia. A fome, a doença, a guerra e a pobreza potencializam-se num complexo espantoso de desastres e tragédias anunciadas.
Ler Mike Davis é uma tarefa indispensável, mas extremamente sombria. O futuro que nos espera será terrível. Um “futuro exaurido”, em que bilhões de seres humanos vão viver amontoados nas maiores cidades que já existiram em um planeta no qual o aquecimento global, a poluição, o extermínio da biodiversidade e demais processos de decadência do século 21 serão anunciados na forma de ondas de calor, incêndios, inundações, pandemias, além, é claro, da violência e da guerra onipresentes.
Um profeta do apocalipse, dir-se-á. E não é para menos, pois como este crítico implacável do capitalismo e do imperialismo analisa em suas muitas obras, “tempos estranhos começam”.
Na turbulência do movimento juvenil dos anos 1960 na Califórnia, Mike Davis, nascido em 1946, tornou-se um jovem ativista da Students for a Democratic Society, a principal organização de política estudantil contestadora, e começou sua trajetória como um dos críticos mais radicais das condições da sociedade contemporânea. Mas, diferentemente da maioria dos jovens rebeldes brancos, que eram de classes médias e abastadas, Mike Davis foi aprendiz de açougueiro e caminhoneiro, antes de tornar-se um professor de planejamento urbano no Instituto de Arquitetura do Sul da Califórnia.
Sua obra já vasta começou com a análise de Los Angeles como a cidade síntese da civilização do automóvel, da especulação imobiliária, da mercantilização da água, da indústria armamentista, do entretenimento e da alta tecnologia, cujo presídio high tech em pleno centro da cidade num edifício de vidro e aço é um símbolo mais significativo que o letreiro de Hollywood. Mais tarde, abordou o fenômeno da cidade contemporânea, em que as megalópoles tornam-se pela primeira vez na história da humanidade o lugar de moradia da maioria da população e a área rural uma zona despovoada em todo o planeta. Essa expansão caótica é um sintoma mais profundo de uma ruptura da civilização humana com a sua interdependência da natureza.
O ponto de convergência da crítica de Davis é a noção de cidade, originalmente vista como um refúgio diante dos perigos da natureza selvagem e que se tornou hoje em dia o centro de todos os pavores e inquietações. A “ecologia do medo” visa compreender como a vida urbana tornou-se tão monstruosa. E não é para menos, já que diante do apocalipse anunciado é preciso cada vez mais pensar uma “epistemologia neocatastrofista para reinterpretar a história ocidental”.
Na tradição do pensamento marxista, a análise das condições habitacionais dos pobres das cidades inglesas foi o ponto de partida de Friedrich Engels, em A condição da classe trabalhadora na Inglaterra (1845). Nos dias de hoje, essa tradição crítica do marxismo em relação à crise urbana refloresce na obra de Mike Davis. Sua perspectiva ambiciosa aponta para a necessidade de uma “ciência urbana realmente unificada”, a qual ainda mal podemos vislumbrar, mas que deveria tentar compreender a dialética entre a “cidade e a natureza”.
A conexão da crítica ao crescente caos urbano com a denúncia da escala gigantesca do ecocídio que está em curso, aliada a uma arguta análise da política interna norte-americana, assim como das relações internacionais, leva Davis a mostrar como a catástrofe da natureza não se separa das condições da exploração capitalista e da dominação imperialista mundial, cujo fundamento é uma doutrina de terror militar.
Para isso, uma boa data a ser lembrada é 10 de março de 1945. O dia do maior morticínio que a humanidade já conheceu no “mais devastador ataque aéreo na história mundial”, quando duas mil toneladas de napalm e magnésio incineraram cerca de um milhão de habitantes de Tóquio.
Esse foi o coroamento (seguido, é claro, alguns meses depois, das bombas atômicas) de uma doutrina militar nascida na Grã-Bretanha, na década de 1920, quando Churchill era o secretário da guerra. Essa “doutrina Churchill” é a do “bombardeio moral”, ou seja, do terror aéreo contra populações civis. Ele começou a ser praticado no Iraque em 1920, quando a RAF (Royal Air Force) usou, além de bombas, gás mostarda. As populações coloniais foram as cobaias para o aperfeiçoamento do bombardeio terrorista contra civis, “a trajetória até Guernica, Varsóvia, Dresden e Hiroshima começou nas margens do Tigre e nas encostas do Atlas”.
O modelo da guerra pós-moderna, além da supremacia absoluta do poderio bélico e dos bombardeios com “armas inteligentes”, enfrentará a resistência na forma não de exércitos convencionais, mas de milícias travando “operações militares em terrritórios urbanos”. A insurgência do século 21 também terá como cenário as cidades. A “israelização” das táticas de combate “assimétrico” às milícias insurgentes se aplicará não só ao Iraque ou à Palestina, mas a qualquer rebelião potencial do futuro, com a visão panóptica dos satélites e aviões espiões, com armas eletromagnéticas e de microondas, além das já tradicionais armas nucleares, químicas e biológicas de destruição em massa. Esse cenário sombrio é definido por Mike Davis como “o estado de terror puro e simples: uma Assíria do século 21 com laptops e modems”.

Henrique Carneiro é professor do Departamento de História da USP

Revista Cult

A Arqueologia Pré-Histórica




Por Rodrigo Aguiar


A História caracteriza-se pelo estudo do homem pelos textos escritos. Ou seja, aquelas sociedades onde a escrita está presente é que são, primordialmente, o foco de estudo do historiador. A descoberta da escrita se deu entre 5 e 6 mil anos atrás, naquelas que foram consideradas as primeiras civilizações da terra: Assíria, Suméria e Babilônia.


Todo o período que antecedeu a descoberta da escrita é chamado de Pré-História. Cabe destacar que a divisão entre Pré-História e História não é uniforme e constante. A escrita só teve ampla expansão no período das grandes navegações. Assim, tomando o caso do Brasil como exemplo, pode se dizer que o período Pré-Histórico aqui se estendeu até o início da idade moderna.
Obs. Entenda-se que o período Pré-Histórico também faz parte da História do Homem.

Quando se trata de sociedades do passado as quais não haviam desenvolvido alguma forma de escrita, as únicas evidências que corroboram para a reconstituição da vida destas sociedades são os restos materiais. A disciplina que estuda o homem pelos restos materiais é a Arqueologia, sendo denominado de ARQUEOLOGIA PRÉ-HISTÓRICA o campo que particularmente se dedica ao período que antecedeu a descoberta da escrita.

Mediante o exposto, entende-se a Pré-História como o maior período da aventura humana na terra, que vai desde o surgimento dos primeiros pré-hominídeos, há aproximadamente 4 milhões de anos, até o aparecimento da escrita há 5 mil anos. Entre alguns povos do mundo, o período pré-histórico se prolongou até poucos séculos atrás.

Trata-se, então, de um vastíssimo campo de estudo. São as pás e os pincéis dos arqueólogos que trazem à luz aqueles povos até então soterrados pela ação do tempo. Mas, para isso, a Arqueologia precisa buscar auxílio em outras ciências, como a Física, a Biologia, a Antropologia, a Geografia, entre outras.

Por ser um campo de estudo tão vasto, evidentemente são muitas as incógnitas que persistem. Estamos muito longe de ter um pleno conhecimento dos povos pré-históricos. Em se tratando da Pré-História da América, os vazios são ainda maiores. Existe um grande conflito acadêmico na tentativa de recriar um panorama sobre o povoamento do Continente Americano. Se antes havia somente a teoria de passagem do homem pelo estreito de Bering, que se deu há aproximadamente 12 mil anos, hoje existem várias evidências que apontam a uma maior antiguidade do homem americano. Estas datações mais antigas levantam um questionamento inquietante: como o homem poderia ter cruzado para a América antes da formação das pontes de gelo na Beríngia?

O campo da Arqueologia Pré-Histórica, tão importante para esclarecer nossas origens, também é muito carente de profissionais e de recursos monetários. Trata-se de uma corrida contra o tempo: muitos dos locais onde os homens pré-históricos se assentaram são os mesmos onde hoje construímos nossas vilas e cidades. A cada ano que passa, aumenta a perda de informações decorrente da destruição de sítios arqueológicos. Ao mesmo tempo, trata-se de um campo de estudo muito caro e que poucos vêem vantagem em apoiar.

Para isso é que se defende a implantação de modelos de gestão de sítios arqueológicos, transformando-os em parques de visitação. Atrair a iniciativa privada para investimentos em parques arqueológicos seria uma ação importante para alavancar os estudos arqueológicos. Este tipo de investimento traz retorno, tanto financeiro como social. O investidor pode arrecadar recursos pela cobrança de taxa de visitação e pela oferta de cursos de curta duração, onde alunos interessados em conhecer mais sobre a Arqueologia pagariam para participar de campanhas de escavação. Por outro lado, crianças e jovens poderiam saber mais sobre os sítios arqueológicos, aprendendo a respeitar este importante legado.

Estes modelos são extremamente bem sucedidos em outros países e seguramente poderiam vir a se constituir uma alternativa muito viável também no Brasil.

|Sobre a Arqueologia Pré-Histórica na Ilha de Santa Catarina| (melhor visualização em Internet Explorer)


Fotos: Rodrigo Aguiar
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Sepultura Megalítica - Imediações de Vila Real, Portugal.
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Vista lateral da mesma sepultura.
Fonte: http://www.caminhosancestrais.com.br

DESCOBERTA A EXISTÊNCIA DE GEOGLIFOS NA FLORESTA AMAZÔNICA

Por Rodrigo Aguiar

A Arqueologia Amazônica

A Amazônia exerce grande fascínio em virtude de sua diversidade ecológica e cultural. Considerada a maior floresta tropical do planeta, a Amazônia possui mais de 5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais, 3,3 milhões somente em território brasileiro.

Na Arqueologia, a Amazônia também é palco de importantes descobertas. Antes, se acreditava que somente pequenas populações de caçadores e coletores poderiam sobreviver neste ambiente de floresta tropical. Porém, novos achados arqueológicos estão conduzindo a uma nova perspectiva, indicando que a floresta amazônica foi, na verdade, habitada por cacicados mais complexos, sendo que alguns destes núcleos populacionais eram densamente povoados.

Comprovadamente, as primeiras hordas de caçadores e coletores começaram a se assentar na região amazônica há 11 mil anos. O ápice cultural, com o surgimento destes grandes núcleos populacionais, pode haver ocorrido por volta de mil anos atrás. Contudo, as pestes trazidas pelos conquistadores pode ter sido o fator principal que conduziram estes povos à total desestruturação.

Os Geoglifos

Entre os vestígios arqueológicos mais intrigantes da Amazônia estão os geoglifos, desenhos de grande dimensão, gravados no solo terrestre. Para poder observar os geoglifos com perfeição, o ideal é que se faça uso de sobrevôos ou de torres especialmente construídas para este fim.

Os geoglifos da Amazônia estão localizados nas adjacências da cidade de Rio Branco, no Estado do Acre. São elementos geométricos, como círculos e quadrados, alguns destes símbolos com mais de duzentos metros de diâmetro com sulcos de três metros de profundidade.

Somando esforços, o paleontólogo Alceu Ranzi e o arqueólogo Rodrigo Aguiar escreveram em parceria um livro com os dados preliminares sobre os geoglifos amazônicos. Novas pesquisas serão necessárias para poder elaborar um panorama mais completo sobre os autores dos geoglifos.

A diversidade cultural

Atualmente, vivem na Amazônia diversos povos indígenas, provenientes de seis troncos lingüísticos: tupi, karib, aruak, pano, tukano e jê. Na fronteira entre Peru e o Estado do Acre existem grupos indígenas que sequer foram contatados.

Terra de contrastes, de manifestações culturais tão belas e próprias, da maior biodiversidade do planeta: esta é a Amazônia, um dos grandes orgulhos nacionais.

- Agradecimentos ao parceiro de pesquisa, o professor Alceu Ranzi.

- Meus sinceros agradecimentos, também, ao professor Jacó Picolli, da Universidade Federal do Acre. Seu auxílio foi essencial para a visitação aos geoglifos e para a compreensão do contexto arqueológico e antropológico local. Muito obrigado Jacó!

Foto: Edson Caetado

Geoglifo 1

Foto: Edson Caetado

Geoglifo 2