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sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A década em que a mulher voltou a ser feminina




O período entre guerras viu a silhueta se ajustar no corpo a roupa esportiva nascer. No Brasil, costureiras copiavam a Europa
Redação iG Moda

Após a crise de 29 e a euforia dos “anos loucos” de uma década marcada pelo pós-guerra e pela efervescência artística (anos 20), os anos 30 chegaram sem ousadia, inclusive na moda. A silhueta resgata a forma do corpo da mulher, perdida nos vestidos tubulares e com a cintura deslocada da década de 20, e até propõem decotes, mas sem exageros.

O comprimento da vez era longo, tanto para as saias, vestidos e até os cabelos. A modelagem, ajustada ao corpo e reta, ganhava estrutura com boleros e minicapas. Tudo produzido com tecidos e materiais como a casimira e o algodão, mais baratos, por conta do baixo orçamento herdado da crise de 29.

A grande revolução dos anos 30 foi a volta da cauda nos vestidos de baile, idealizada por Lanvin, mas sem as extravagâncias dos anos 20.

O chapéu volta ao posto de acessório número 1 (banido nos anos 20 por conta da moda de cabelos à La garçonne – curtinhos). O modelo capeline era o preferido, usado em quase todas as ocasiões.

Como novidade e uma ponta de ousadia, surgiram os decotes, a maioria da parte das costas, e o corte enviesado. Os seios voltaram a ter forma. As lingeries eram então feitas de malha. Surgiam os sutiãs e as cintas modeladoras (grand corsets), que até hoje prometem fazer milagres nos corpos femininos.

Em um tempo de paz, embora um segundo conflito mundial tenha eclodido no fim da década de 30, a vida ao ar livre ganhava força e com ela a prática de esportes e a exposição diária ao sol. Seguindo esse movimento, a moda adaptou saiotes e anáguas, que encurtaram, possibilitando à mulher bronzear as pernas.

Da necessidade de uma roupa apropriada para a prática de esportes, surge o short, para homens e mulheres. Uma das atividades físicas preferidas dos anos 30 era andar de bicicleta. Os óculos escuros transitam aqui do funcional ao fashion, protegendo os olhos contra raios solares e imortalizando figuras da música e do cinema. Os primeiros esboços do maiô começam a aparecer.

Por meio do cinema, que ganha voz nos anos 30, as mulheres se espelham nas estrelas como Greta Garbo, magra, bronzeada e esportiva. Outras celebridades da época que marcaram o estilo dos anos 30 foram Katharine Hepburn, Marlene Dietrich e Mae West. Esta última, estrela de clássicos dos anos 30 como "Night After Night" e "She Done Him Wrong", foi inspiração para a estilista Elsa Schiaparelli, em 1938, que lançou o perfume "Shocking", com frasco no formato do busto da atriz hollywoodiana.

Na maquiagem, a beleza marcava as pálpebras e sobrancelhas com lápis e não economizava no pó de arroz bem claro, quase branco.

Em 1935, o italiano Salvatore Ferragamo lança sua marca de sapatos. Nasce então uma das mais luxuosas e tradicionais maisons italianas, a Salvatore Ferragamo. A crise na Europa faz a empresa utilizar materiais mais baratos, de onde surgiram os primeiros registros de materiais sintéticos para a produção de calçados. Ferragamo inventou a palmilha compensada. Dona Gabriella Pascolato, falecida no mês de agosto de 2010 e fundadora da empresa têxtil brasileira Santacônstancia, era amiga e cliente de Ferragamo, quando ela ainda morava na Itália. Em sua biografia (“Gabriella Pascolato ¬ Santa Constância e Outras Histórias”. Editora Jaboticaba), Dona Gabriela afirma que só o designer italiano conseguia elaborar sapatos confortáveis para ela, que tinha o pé chato.

No final dos anos 30, com a aproximação da Segunda Guerra Mundial, que estourou na Europa em 1939, as roupas já apresentavam uma linha militar, assim como algumas peças já se preparavam para dias difíceis, como as saias, que já vinham com uma abertura lateral, para facilitar o uso de bicicletas.

Brasil
No Brasil, cuja economia não foi tão duramente atingida como a dos Estados Unidos com a crise de 29, e com o sistema de moda diferenciado do americano, a moda seguiu seu ritmo de sempre – com costureiras caseiras – sem sentir as perdas das ainda raras confecções atingidas pela recessão dos anos 1930.

A moda brasileira alinhava-se à tendência europeia, por meio principalmente das revistas vindas da França e Itália. Pela primeira vez, são aprimorados os trabalhos de adaptação da moda do velho Mundo (por meio das costureiras) ao clima brasileiro.

Surgem as “garden parties”, festas feitas pela elite brasileira à tarde, nos jardins das grandes mansões, localizadas na Zona Sul do Rio de Janeiro e em Petrópolis. O dress code da ocasião eram vestidos chiques e diáfanos (esboços do que seriam as transparências de hoje). Também eram bem-vindos casacos de pele e boleros. A elite brasileira lia revistas como Rio Magazine, Chuvisco e Sombra.

O salto alto era a tendência da vez. As bolsas, pequenas. As joias eram grandes, com pedras coloridas e pérolas. A calça comprida feminina começa a dar as caras, no modelo pantalona, mas só atinge o auge da popularização nos anos 60.

No Rio de Janeiro, as mulheres que queriam se vestir como as europeias iam à Casa Canadá, fundada em no início dos anos 30 por Jacob Feliks. Por lá, a elite carioca tinham em mãos produtos importados, da “última moda”. No início, a casa comprava em Paris o que era moda e fazia cópias no Rio. Vendia, consertava, reformava e guardava as peles mais chiques do país, na época. A Casa Canadá funcionou na Rua Gonçalves Dias, até 1934. Famosa, a Casa abriu uma loja ainda maior, desta vez na Rua Sete de Setembro, uma espécie de maison.

Também no começo dos anos 30, em São Paulo, destacou-se o trabalho de Rosa de Libman, uruguaia chegada no Brasil no início de 1935, em companhia do marido, o Sr. Max Libman. Na rua Rua Barão de Itapetininga, Rosa de Libman abriu sua butique de artigos luxuosos, como peles e o que mais fosse novidade na Europa, chamada Madame Rosita. A loja ficou conhecida pelos badalados desfiles de moda que apresentava no Brasil. Um que ficou conhecido foi realizado em 1938, no Teatro Municipal de São Paulo (embora o primeiro desfile profissional no Brasil seja de 1944).

A ascensão de Rosa de Libman veio ao longo dos anos 40. Ela foi considerada a “primeira dama” da Alta Costura Brasileira e conquistou grandes títulos, como “Sapatinho de Ouro” e “Agulha de Ouro”. Também foi a primeira representante feminina da Alta Costura a ser membro da “Chambre Sindicale de la Haute Couture Francaise”.
Fontes:
História da Moda no Brasil, de Gilda Chataignier
História da Moda, uma Narrativa, de João Braga
Gabriella Pascolato Santa Constância e Outras Histórias, de Sérgio Ribas
http://ultimosegundo.ig.com.br/

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A moda que revela as mudanças sociais

Roupas do passado e do presente servem como um espelho da sociedade e ajudam os pequenos a compreender transformações históricas. Ajude-os a questionar as permanências e as mudanças no modo de vestir através dos tempos
Bianca Bibiano (bianca.bibiano@abril.com.br)





Século 15 Entre a Idade Média e a Moderna,
os burgueses passam a copiar o estilo de
vestir dos nobres. Estes, por sua vez, criam
novas peças. Assim, nasce a moda




Século 18 Na Revolução Industrial, as roupas
passam a ser fabricadas em larga escala. O
algodão é a matéria-prima mais usada

para trajes de ambos os sexos


Longe de ser frívola, a moda se constitui numa referência da multiplicidade de formas na qual se exprime a criatividade humana. "Ela não é somente a roupa, mas tudo o que caracteriza o gosto específico de um grupo, passando por seu modo de vestir", explica João Braga, especialista na área e professor da Faculdade Santa Marcelina (Fasm) e da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Uma análise detalhada do tema traz à tona questões que permitem enriquecer o repertório das crianças sobre a evolução e os costumes dos grupos sociais. A história da vestimenta se enquadra no eixo natureza e sociedade por guardar relação com o comportamento através dos tempos e a produção cultural da humanidade - a organização do mundo, seu modo de ser e de viver.

Roupas e acessórios refletem mudanças de comportamento. As gravatas, por exemplo, apontam para a formalidade. Entraram para o vestuário masculino no século 17 e protegiam o pescoço da nobreza. Já a minissaia, tão comum hoje, mas impensável até a década de 1960, mostra uma revolução no universo feminino. Numa época em que as mulheres começavam a trabalhar fora, elas foram criadas para facilitar o andar.

A moda tem suas origens no início da Idade Moderna, com a ascensão da burguesia. Não que antes as pessoas não se importassem com o que vestiam. Pelo contrário. No Egito e na Grécia, as roupas já eram pensadas para valorizar o corpo e para embelezar. Entretanto, é só no fim da Idade Média que os burgueses passam a copiar o estilo de vestir dos nobres. "E eles, por sua vez, passam a ornamentar novas peças com o objetivo de garantir uma valorizada exclusividade. É aí que começa um ciclo eterno de moda", conta Braga. A expressão "obsolescência programada", usada por profissionais da área, descreve bem o que a moda se tornou a partir desse período. "O que está em voga hoje será passado no próximo mês ou até na próxima semana", diz.

Observar permanências e mudanças para compreender o uso das roupas




Anos 1920 Como herança da Primeira
Guerra Mundial, os homens usam
casacos utilitários. A mulher começa
a trabalhar fora, o que exige
vestidos soltos




Anos 1960 No auge da revolução sexual,
a calça ganha a preferência da mulher e
a barreira entre o masculino e o
feminino começa a se romper


Tudo o que colocamos sobre nosso corpo recebe o nome de indumentária. Sob esse título, estão vestimentas, chapéus, sapatos, maquiagens, piercings, tatuagens... "A moda é uma fração desse todo, caracterizada por aspectos que chamaram a atenção das pessoas em um determinado período", aponta o especialista.

E, cedo ou tarde, ela passa. O seu modo de vestir provavelmente se distingue do de seus pais quando eles tinham sua idade. Você pode dizer: "Ah, mas aqueles eram outros tempos". E eram mesmo. "A ideologia, a música e a arte acabam por se refletir nas roupas. Mesmo quando se faz um resgate do trejeito de ser de uma geração, não se pode copiá-lo fielmente porque os elementos que o influenciaram ficaram para trás", afirma. O assunto deve ser abordado em sala com meninos e meninas (leia a sequência didática). "O caráter de pesquisa envolvido em uma atividade desse tipo vai além do gênero, pois saber dos comportamentos de outros tempos enriquece o repertório de todos", afirma a escritora Kátia Canton, autora do livro Moda: Uma História para Crianças.

Quando começou uma sequência de atividades envolvendo a história do vestuário, a professora Ana Luisa Pavianni, do Sesc de Carazinho, a 292 quilômetros de Porto Alegre, teve receio de a turma não se interessar pelo assunto. "Falar em moda com crianças pequenas é um desafio. Mas fui aguçando a curiosidade delas com consultas a livros e fotos dos anos 1970, que os próprios pais enviaram", explica. Com a pesquisa em mãos, o grupo de Ana Luisa passou a produzir suas peças, feitas com papel e retalhos, entre outros materiais. "Incorporar os elementos estudados na própria produção era uma das propostas. Assim, foi possível observar os questionamentos que elas faziam sobre as permanências e as mudanças no modo de vestir, o que eles notavam nos trajes de hoje e nos do passado." Nesse universo, além das roupas usadas no dia a dia, há também as peças folclóricas, que podem ser estudadas como o modo de caracterizar um povo ou um grupo social. Resgatá-las em uma pesquisa ajuda a conhecer a História e os costumes da sociedade.

Agradecimento: Biblioteca do Centro Universitário SENAC Lapa Faustolo

Revista Nova Escola