quinta-feira, 23 de junho de 2016

As duas lógicas do Império



Luiz Carlos Bresser-Pereira
Fundação Getulio Vargas. São Paulo/ SP, Brasil

Durante algum tempo acreditou-se que a globalização significava o fim dos Estados-nação; na verdade era uma etapa do desenvolvimento capitalista no qual todo o globo terrestre tornava-se coberto pela unidade político-territorial que lhe é própria: o Estado-nação ou país. O "fim dos Estados-nação" era apenas a expressão ideológica do Império Americano, de sua hegemonia no plano das ideias políticas que, com o colapso da União Soviética, chegara ao seu auge nos anos 1990. Pensou-se também que as relações internacionais seriam agora presididas pelo "soft power" americano - pela transferência para o resto do mundo dos ideais do Estado de direito e da democracia dos quais os Estados Unidos seriam a materialização na terra; na verdade, na década seguinte ficou claro que o "hard power" presidiu as guerras e intervenções no Afeganistão, no Iraque, na Líbia e na Somália, ao mesmo tempo que seu suposto portador distanciava-se cada vez mais desses ideais: suspendia a garantia dos direitos civis no seu próprio solo e transformava a democracia americana não mais em um exemplo positivo para o resto do mundo, mas em uma indicação do quanto a qualidade da democracia pode se deteriorar quando a sociedade perde seus valores e sua capacidade de combinar conflito com compromissos e conservar sua coesão.

Ao mesmo tempo que os Estados Unidos viam desgastada sua hegemonia, a China experimentava um desenvolvimento econômico sem precedentes na história e se tornava a segunda potencia mundial, e a Rússia, que nos anos 1990, subordinada ao "Oeste", entrou no mais grave processo de desorganização e retrocesso econômico de que tenho conhecimento, a partir do início dos anos 2000 se reorganizou politicamente e se recuperou no plano econômico. E os demais países asiáticos dinâmicos, particularmente a Índia, continuam a crescer aceleradamente e a realizar o catching up - o que significava menos poder para os Estados Unidos.

Desde o século XIX os Estados Unidos tiveram como "destino manifesto" comandar o resto do mundo pelo exemplo e pelo poder econômico. Nos anos 1990 esse destino pareceu realizar-se, e os Estados Unidos procuram assumir seu papel de "Hegemon" - o nome que seus ideólogos dão à sua "missão" imperial: estabelecer a ordem liberal e democrática no mundo, garantindo assim a "pax americana" - uma paz muito relativa, porque era o próprio Império que a transformava em letra morta e, por isso, se tornava para o resto do mundo não guardião de sua segurança, mas a fonte principal da sua insegurança. Podemos falar no Império Americano, mas mais apropriado é falar no Império Ocidental, ou simplesmente no Império ou no Ocidente, porque os Estados Unidos estão aliados às demais potências ocidentais entre as quais a Grã-Bretanha e a França, donas de um amplo passado imperial. É esse Ocidente que busca atender seus interesses ou exercer sua lógica sobre os demais países - os países em desenvolvimento - usando como instrumentos seu poder econômico, seu poder militar, a teoria econômica liberal ou neoclássica, o financiamento dos déficits em conta corrente, e o uso de todo o seu imenso aparato ideológico, em especial sua universidade, seu cinema e algumas de suas ONG.

A dominação imperial moderna obedece a duas lógicas: a lógica militar da segurança nacional e a lógica econômica da ocupação dos mercados. São lógicas que existem desde que, nos séculos XVI e XVII, começaram a se definir os primeiros Estados-nação. A lógica da segurança nacional foi durante muito tempo a mais importante, porque os grandes Estados-nação estavam sempre ameaçando uns ou outros de guerra e fazendo alianças ofensivas e defensivas para realizar ou evitar a guerra. Como a guerra se fazia contra os vizinhos, a teoria ou, mais precisamente, a estratégia das relações internacionais se confundia à geopolítica: estava amarrada ao território. A segurança nacional estava diretamente associada à geografia ou às fronteiras nacionais, e se expressava na garantia e ampliação dessas fronteiras, e no acesso às matérias-primas e às rotas de comércio. Seu objeto eram principalmente os outros países ricos, ainda que também envolvessem os países em desenvolvimento. Seu pressuposto era o de que a guerra entre as grandes potências era sempre uma possibilidade concreta - um pressuposto realista que permitia que cada país tornasse públicas suas políticas orientadas para a segurança natural.

No princípio, no quadro do colonialismo de 1850-1950, a lógica econômica tinha uma grande área de intercessão com a lógica da segurança nacional, e era fácil de ver. Com a independência das colônias da Ásia e da África, o Império muda suas estratégias, e sua lógica econômica torna-se mais complexa e menos clara para os povos dominados. Ainda que a exploração de recursos naturais estratégicos continue importante, ela é essencialmente a lógica da ocupação dos mercados internos dos países em desenvolvimento. O mercado interno é o ativo fundamental de cada Estado-nação, é o mercado com que contam suas empresas, e, portanto, é a base sólida sobre a qual se realiza seu desenvolvimento. Mas por isso mesmo é um ativo imensamente cobiçado pelo Império.

A ocupação dos mercados internos dos países em desenvolvimento pelos países ricos se realiza de duas maneiras: pela troca desigual (a troca de bens e serviços de alto valor adicionado per capita por bens e serviços de baixo valor adicionado per capita) e pelos investimentos das empresas multinacionais voltadas para seu mercado interno, que, na verdade, pouco contribuem para o desenvolvimento econômico na medida em que as entradas de capitais a que estão associados implicam a sobreapreciação de longo prazo da taxa câmbio e uma alta taxa de substituição da poupança interna pela externa.

É dentro desse quadro geral que Luiz Alberto Moniz Bandeira escreveu seu último livro, A segunda guerra fria - uma ampla análise da geopolítica americana com especial ênfase para o Oriente Médio, a Ásia Central e o Norte da África, embora também se interesse por toda a Eurásia cujo heartland está situado na Ásia Central constituída pelo Cazaquistão, a Armênia, a Geórgia, o Azerbaijão, o Quirguistão, o Tadjiquistão, o Turcomenistão, o Uzbequistão e a Sibéria Ocidental. Essa região é estratégica não apenas porque é dotada de grandes reservas de petróleo e de gás natural, mas também por sua localização central entre a Europa, a China e a Índia. Para sir Halford John Mackinder, em conferência pronunciada no início do século XX em Londres, o país que controlasse a Ásia Central teria condições de projetar seu poder em toda a Eurásia.

Grande parte dessa região estava sob o poder do Império Russo, mas, como era essencialmente dominada pela fé muçulmana, a União Soviética nunca logrou integrá-la, não obstante todos os seus esforços. Assim, quando a União Soviética entrou em decomposição, as nações dominadas se tornaram Estados-nação independentes. E se tornaram imediatamente um dos objetivos básicos da política americana de ocupação de mercados.

Mais precisamente, já no governo Carter (1977-1981), seu grande estrategista internacional, Zbigniew Brzezinski, reconhecia que a contenda entre os Estados Unidos e a União Soviética não era entre duas nações, mas entre dois impérios. Entretanto, parte da União Soviética estava localizada na Ásia Central, enquanto os Estados Unidos estavam muito distantes, em uma condição estratégica privilegiada por estarem defendidos por dois grandes oceanos, mas em uma posição que dificultava sua influência sobre a Ásia e, mais amplamente, sobre a Eurásia constituída pela Europa e a Ásia. Conforme nos conta Moniz Bandeira em seu notável livro, "Brzezinski induziu o presidente James E. Carter a abrir um terceiro front da Guerra Fria, instigando contra Moscou os povos islâmicos da Ásia Central" (p.33). Brzezinski acreditava que a guerra santa (Jihad) contra os soviéticos que haviam se instalado em 1979 no Afeganistão abria a oportunidade da intervenção americana em nome dos direitos humanos e da democracia.

É então que veremos o Império intervir no Afeganistão de uma forma que hoje pode parecer absurda; mas, afinal, o que é o absurdo para os impérios? Depois do ataque terrorista às torres gêmeas de Nova York, em 2001, o fundamentalismo islâmico seria identificado com o terrorismo e daria origem a uma guerra imperial preventiva, a "guerra ao terrorismo", que atingiu o Afeganistão e o Iraque nos anos seguintes. Mas nos anos 1980,

os Estados Unidos, sob a orientação de Zbigniew Brzezinski, encorajaram o ressurgimento do fundamentalismo islâmico, com o objetivo de desestabilizar a União Soviética a partir das repúblicas muçulmanas da Ásia Central. Foram a CIA, o Inter-Services Intelligence do Paquistão e o serviço de inteligência da Arábia Saudita que institucionalizaram o terrorismo em larga escala, com o estabelecimento de centros de treinamento no Afeganistão. (p.37)

Só alguns anos depois o terrorismo entraria na agenda do presidente Ronald Reagan (1981-1989) como nova ameaça a enfrentar.

Foi já no governo deste último que o governo americano adotou como estratégia de dominação o regime change para instalar em todo o mundo. Nos anos 1960 os Estados Unidos não hesitaram em apoiar os golpes militares na América Latina, porque viram nos regimes militares a garantia de que não haveria na região novas revoluções socialistas como acontecera em Cuba. Mas nos anos 1980 a União Soviética fora neutralizada, e a democracia se revelava a melhor garantia não para a ocorrência de revoluções socialistas, mas de revoluções nacionalistas que impusessem limites a ocupação dos seus mercados. Conforme nos informa Moniz Bandeira,

o Conselho de Segurança Nacional elaborou um projeto para a promoção da democracia e induziu o Congresso a criar, em 1983, o National Endowment for Democracy, com o objetivo de operar como parte do programa de diplomacia pública e financiar uma cadeia de organizações não governamentais e governamentais, relativamente autônomas, ajudando o treinamento de grupos de political warfare, e encorajar o desenvolvimento da democracia. (p.39)

A partir desse momento a democracia deixava de ser um regime político superior, deixava de ser uma conquista do povo contra o liberalismo das elites que identificava a democracia com a "tirania da maioria", deixava de ser um bem fundamental, para ser um instrumento de dominação do Império. Não importa que o país não estivesse maduro para a democracia, não importa que a democracia nos países pobres implicasse, na prática, o domínio de uma oligarquia. O que importa é diluir o poder nesses países e, assim, evitar que ocorram revoluções nacionalistas, não obstante nenhum país tenha até hoje realizado sua revolução nacional e industrial no quadro da democracia.

É por meio da definição das diretrizes maiores da política externa americana, que, nas setecentas páginas de seu livro, Moniz Bandeira monta o cenário no qual ele narra, com detalhe, as infinitas intervenções imperiais dos Estados Unidos no resto do mundo nos vinte anos seguintes ao ataque terrorista que sofreu: intervenção na Somália, na Argélia, intervenção "humanitária" em Kosovo, intervenção no golfo de Áden, nos países em torno do mar Cáspio, no Cáucaso, na Geórgia, na Ucrânia, no Afeganistão, no Egito, na Líbia. A construção de uma rede mundial de bases militares; o uso de mercenários contratados por grandes empresas privadas; a estratégia subversiva do professor Gene Sharp implementada pelo governo George W. Bush (2004-2009); a desestruração e violento retrocesso da Rússia sob o amigo Boris Yeltsin e sua recuperação sob a liderança do "inimigo", Vladimir Putin; a estratégia para desagregar a China; o subsídio da CIA ao Dalai Lama; a invasão do Iraque; a intervenção na Síria; o significado escatológico da Grande Síria para o islamismo e seu papel explicando a entrada na guerra civil de grupos jihadistas, incluindo a al-Qa'ida - o inimigo maior dos Estados Unidos.

A segunda guerra fria completa e aprofunda a questão do papel imperial dos Estados Unidos, iniciada em Formação do Império Americano (2005). Não cabe agora resenhar em detalhe essa grande história do presente e desse relato ponto por ponto do imperialismo americano, no qual ele revela um profundo conhecimento do mundo árabe e do mundo muçulmano, cujas origens e principais características estão discutidas no capítulo 21. Ele discute as guerras no Afeganistão e no Iraque, observando que a cold revolutionary war no Oriente Médio, na qual os Estados Unidos ainda se mantinham na legalidade a fim de capitalizar a opinião pública internacional, evoluiu pouco depois para a hot revolutionary war. "O objetivo dos Estados Unidos e das demais potências ocidentais era assumir o controle do Mediterrâneo e isolar politicamente o Irã, aliado da Síria, bem como conter e eliminar a influência da Rússia e da China no Oriente Médio e no Magreb" (p.372). Tudo, naturalmente, feito em nome da paz e da democracia. Conforme assinala Moniz Bandeira,
o presidente George W. Bush, no discurso do State of the Union, em 2 de fevereiro de 2005, após ufanar-se do resultado de sua política "in the spread of democracy" no Iraque e no Afeganistão, acentuou que os Estados Unidos, "to promote peace in the broader Middle East", deveriam confrontar países que continuavam a abrigar terroristas e buscar armas de destruição em massa. (p.372)

No processo de dominação imperial não bastam o poder econômico e o poder militar; é necessário também o poder ideológico, que o Ocidente já tem naturalmente, porque suas sociedades nacionais mais desenvolvidas são o ideal a ser alcançado. Dado esse fato, a hegemonia ideológica está assegurada, desde que os países em desenvolvimento não percebam que, para alcançar esse objetivo, a melhor forma não é simplesmente copiar as atuais instituições dessas sociedades, mas copiar as estratégias desenvolvimentistas que elas usaram para realizarem sua revolução nacional e industrial e se desenvolverem. Como nos países em desenvolvimento há políticos, líderes associativos e intelectuais que sabem desse fato, e defendem o nacionalismo econômico, o Império precisa de estratégias adicionais. Entre elas Moniz Bandeira assinala o papel desempenhado pelas ONG. Conforme ele nos diz,
ademais das intervenções armadas da OTAN - a carranca militar do cartel ultraimperialista das potências ocidentais, as chamadas organizações não governamentais constituíram uma das armas empregadas pelos Estados Unidos, com a colaboração da União Europeia, para promover a political warfare, mobilizando [na Primavera Árabe] multidões, com o pretexto de fomentar o desenvolvimento da democracia, o que significava regime change, i.e., derrubar governos e instalar regimes favoráveis aos seus investimentos e interesses estratégicos. (p.538)

No final dessa frase o historiador Moniz Bandeira menciona as duas lógicas do Império ou do Ocidente - a lógica da segurança nacional e a da ocupação dos mercados internos. Em seu livro as duas lógicas estão sempre presentes. Será que elas fazem sentido hoje? Elas faziam sentido no passado, porque o imperialismo e as colônias tinham legitimidade social? Será que fazem hoje, em um mundo global no qual não existem mais colônias formais porque os povos se libertaram, em um mundo no qual um grande número de países se tornou democrático e vê o imperialismo como condenável? Em um mundo no qual todos os mercados estão relativamente abertos?

Não acredito que a lógica imperial da segurança nacional faça hoje sentido. A lógica dos mercados está bem estabelecida no mundo, e nenhum país deixará de vender petróleo ou qualquer outro produto para os países ricos pelos preços de mercado. Um país em desenvolvimento só o faria se houvesse uma guerra entre duas potências, e ele estava associado a uma delas. Mas hoje a probabilidade de guerras entre grandes potências é mínima, senão zero. A lógica da geopolítica, que fazia tanto sentido no primeiro século do imperialismo moderno, no século do imperialismo britânico e francês (1850-1950), hoje já não faz sentido. Os custos de guerras para os grandes países são muito maiores que os eventuais benefícios. Por isso, estou convencido de que o imenso custo que hoje os Estados Unidos têm com suas bases instaladas em todo o mundo, com todo o seu aparato militar, e com todas as intervenções que realizam no mundo subdesenvolvido visando o regime change é um custo desnecessário. A guerra do Iraque deixou esse fato definitivamente comprovado. Por isso hoje muitos cidadãos americanos reprovam esses custos e essas guerras imperiais. Por isso o presidente Barak Obama, em 2013, teve apoio da opinião pública quando se recusou a iniciar a guerra contra a Síria e quando fez um primeiro acordo com o Irã.

Já a lógica econômica da ocupação dos mercados internos dos países em desenvolvimento continua a fazer todo o sentido para o Ocidente. As vantagens que esse Ocidente imperial obtém ao abrir seus mercados internos para suas exportações e garantir para si uma troca desigual são muito grandes. Mas provavelmente maiores são os ganhos que eles obtêm ao ocupar esses mercados com suas empresas multinacionais. Os investimentos dessas empresas pouco contribuem para o crescimento dos países em desenvolvimento, já que, devido à apreciação cambial que causam, existe uma elevada taxa de substituição da poupança interna pela externa. Na verdade, a maioria desses investimentos, que não trazem tecnologia nem contribuem para as exportações, é prejudicial aos países em desenvolvimento. Entre os países ricos, esse investimento não é prejudicial porque a parte do mercado interno que um país cede é compensada pela parte que o outro país cede. Mas nas relações de investimento entre os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento não existe essa reciprocidade.

Mas o Império vê suas duas lógicas como intrinsecamente ligadas, e, não obstante a resistência cada vez maior que os países em desenvolvimento fazem, não mudam suas políticas. Para terminar, ilustrando esse fato, cedo a palavra ao nosso notável historiador:
o inimigo visível/invisível, necessário ao complexo industrial-militar, continua o mesmo que o presidente George W. Bush havia reanimado para justificar o ataque ao Afeganistão: o terrorismo, configurado pela al-Qa'ida, o monstro Frankenstein como o denominou o general Pervez Musharraf, ao acusar os Estados Unidos, a Arábia Saudita e seu próprio país, o Paquistão, de havê-lo criado. (p.599)

Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor emérito da Fundação Getulio Vargas (SP). @ - bresserpereira@gmail.com
Revista Estudos Avançados

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O tempo passou, e elas se foram


O Mappin e seus anúncios desenhados à mão: fazer compras ali era chique / Foto: Reprodução

  REGINA ABREU


Paredes eram implodidas, tijolos despencavam. Boquiaberta, a multidão assistia à demolição do velho e fantasmagórico prédio do Mappin, no centro da capital paulista. Na realidade, construído nos anos 1930, na Praça Ramos de Azevedo, o imponente edifício de muitos andares ainda está lá. Aquele era apenas um vídeo, projetado na fachada, durante a Virada Cultural de 2014. Mas resumia visualmente o fim da saudosa megaloja, do tempo em que ainda não havia shoppings em São Paulo e em que era chique fazer compras ali. Ironicamente, o conhecido jingle “Mappin, venha correndo! Mappin é a liquidação!” transformou-se, em 1999, ano de sua falência, em “Mappin, venha correndo! Mappin foi à liquidação!”. E não faltaram interessados em atender o convite e ficar com os despojos – como o grupo Pão de Açúcar, que ali instalou um supermercado Extra, de pouca duração.

Hoje, o prédio abriga a Casas Bahia, enquanto sua concorrente, a lojas Marabraz, detém a posse da marca Mappin – mas, por ora, não planeja reativar nem o nome comercial, nem a loja. Virando a esquina e entrando na Rua Conselheiro Crispiniano, encontra-se uma churrascaria onde antigamente funcionava outro gigante do varejo paulistano, a G. Aronson, que fechou as portas no mesmo ano do vizinho Mappin. Na realidade, por todo o centro da cidade, onde estava concentrado o comércio, grandes lojas desapareceram na virada do século. Quem já entrou na idade dos “enta” (quarenta, cinquenta, sessenta...), se lembra da Mesbla, da Buri, da Arapuã e da Pirani? Grandes empresas brasileiras, de saudosa memória, encerraram suas atividades aproximadamente na mesma época, por diferentes motivos e nas mais diversas áreas.

Na aviação, não é preciso ativar muito a memória para se lembrar, desapareceram nomes importantes como a Varig, a Vasp e a Transbrasil. Casas bancárias se interdevoraram, provocando uma contínua dança das cadeiras. O Banco da Lavoura de Minas Gerais, por exemplo, foi dividido em dois: o Banco Real – depois absorvido pelo espanhol Santander – e o Banco Bandeirantes, mais tarde fundido com o Unibanco, que por sua vez foi posteriormente adquirido pelo Itaú. E o Banco do Estado de São Paulo (Banespa), assumido pelo Santander. Centenas de indústrias também paralisaram suas atividades, como – para citar apenas seis casos – a Companhia Aeronáutica Paulista (CAP – monomotor “Paulistinha”), a Fábrica Nacional de Motores (montadora do caminhão FNM), Gurgel (carros e utilitários), Indústria Nacional de Armas (INA), Leonam (máquina de costura) e o outrora poderoso grupo Matarazzo, todos eles importantes em seu tempo para o desenvolvimento do país.

A grande pergunta é: por quê? O que teria motivado essa saída de cena? Como as pessoas, as empresas nascem, crescem e morrem. E assim como não é comum que o ser humano tenha uma vida muito longa, também é raro empresas viverem muito tempo, como observa o professor de Finanças da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), José Roberto Savoia. Organizações, como a Câmara dos Lordes, da Inglaterra, podem existir por centenas de anos, mas não é o que acontece com organizações privadas. Citando Michael E. Porter – na opinião de Savoia, o autor mais consagrado na gestão das organizações – “tudo se resume a gestão”.

Gestão terceirizada

Entre os fatores que ameaçam a existência das empresas estão alguns problemas corriqueiros, tais como, a troca de bastão, dos fundadores para os herdeiros, uma situação em que os segundos nem sempre se acham adequadamente preparados ou sequer interessados no trabalho que os espera; e as mudanças econômicas externas, aqui incluídas as interferências governamentais no mercado e as alterações do próprio mercado, em contínua evolução.

Não faltam exemplos de brigas sucessórias que colocaram ponto final na história de um sem-número de empresas. No entanto, de acordo com o professor Savoia, nos Estados Unidos as companhias familiares, mesmo em menor número, estão com visão mais avançada. É que, para prevenir desavenças na família, os fundadores confiaram a terceiros a gerência de muitas delas – profissionais qualificados que garantem a continuidade da empresa, mesmo no caso de não haver herdeiros. Caso houver, eles podem seguir sua própria vocação e ainda, se preferirem, apenas desfrutarem da fortuna que passarem a receber. Esta tem sido uma forma eficiente de driblar o velho, conhecido e inseparável trio: dinheiro, poder e brigas.

No Brasil, muitas empresas grandes e poderosas não conseguiram evitar seu próprio fim, vítimas exatamente da guerra sucessória. O caso do Grupo Matarazzo é emblemático. Após 40 anos de atividade à frente da holding, Francisco Matarazzo, o Conde Chiquinho, morreu, deixando o controle do maior conglomerado empresarial do país para a filha caçula Maria Pia, em detrimento dos filhos homens que trabalhavam com ele há muitos anos. A herdeira colocou em prática uma completa reforma administrativa, visando concentrar a atividade nos principais ramos da companhia: papel, químico e álcool. Ao mesmo tempo, desativou antigas unidades deficitárias e vendeu todo o setor têxtil. Enquanto isso, como a vida imita as novelas, Maria Pia passou a enfrentar acirrada disputa com os irmãos pelo controle da holding. Como se fosse pouco, a economia brasileira, na oportunidade, sofria as consequências de duas maxidesvalorizações cambiais, em 1981 e 1983. E assim, após duas concordatas – uma delas para 27 empresas –, Maria Pia abriu mão, em 1986, do controle das principais empresas do conglomerado: a Cerâmica Matarazzo, a Matarazzo Papéis e a Matarazzo Embalagens.

Quem viveu e conviveu de perto com o nascimento, vida e morte de muitas empresas – no caso específico das lojas de São Paulo – foi o economista Marcel Solimeo, superintendente da Associação Comercial de São Paulo (aquela que criou o impostômetro, ferramenta que contabiliza os tributos arrecadados no Brasil, pela União, Estados e Municípios, segundo a segundo). Há 52 anos na entidade, Solimeo conta que seu primeiro emprego foi na Casas Pirani, “a gigante do Brás”, como ela se vendia, na Avenida Celso Garcia. Era 1954, ano em que a capital comemorava 400 anos de fundação. Natural de Duartina, cidade perto de Bauru, e, então com 17 anos, o rapazinho passava para ir ao trabalho, obrigatoriamente, defronte as lojas Paschoal Bianco (móveis) e Eletroradiobraz (eletrodomésticos), entre a Rua Bresser e o Largo da Concórdia. Ele se recorda que a Pirani vendia de tudo, de móveis a eletrodomésticos e com filial na Avenida São João, a unidade destruída pelo incêndio que consumiu os 29 andares do Edifício Andraus, em 24 de fevereiro de 1972.

Solimeo até acha graça ao lembrar-se do modus operandi do varejo daquele tempo: já havia crediário, mas o cliente precisava fazer ficha cadastral e ainda levar seu fiador – que também tinha de cumprir a mesma exigência. Um informante checava as informações e finalmente, depois de uma semana, o cliente conseguia o crédito. Só que o problema de levar para casa o produto que havia adquirido era dele – ele que se virasse com o carreto. E ai dele se não pagasse as prestações; sem a menor cerimônia, funcionários da loja rumavam até a residência do cliente e levavam embora o bem comprado.

As pessoas iam “à cidade”, como era chamado o centro. O Mappin era referência e chegou a ser considerado o ponto comercial mais valioso da América Latina. Seu elegante salão de chá era frequentado por moças e senhoras de tailleur, assim como cavalheiros de ternos impecáveis (aliás, terno era obrigatório até para assistir a jogos de futebol nos estádios).

Havia também muitas outras lojas chiques: a Casas Eduardo, a Mesbla da Rua 24 de Maio, a Casa José Silva, a Ducal, a Camisaria Kosmos (que oferecia camisas semiprontas), a Marcel Modas, a loja Cisne...

Avenida dos camelôs

Para Solimeo, uma pessoa daqueles tempos que deixou muita saudade foi Girz Aronson, dono da G. Aronson. “Era uma figura”, ele destaca. “Começou vendendo perucas e depois eletrodomésticos. Chamava todo mundo de menino e abriu várias lojas. Fazia questão de atender ele mesmo os clientes, e tinha uma política de preços agressiva, que obrigava os concorrentes a dançarem miudinho para competir.” Solimeo acentua que outra lenda do comércio foi Samuel Klein, da Casas Bahia, varejo que atualmente faz parte do grupo Pão de Açúcar. “Seu diferencial era a flexibilidade para conceder crédito”, diz.

Tudo passa, infelizmente. A cidade cresceu e até a movimentada Avenida Celso Garcia, mudou: virou mão única, deixou de ser polo comercial e hoje só abriga camelôs. O número de consultas ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC), considerado um indicador das maiores lojas de varejo, retrata essas transformações. Lembra Solimeo que, da lista dos 25 maiores estabelecimentos citados em 1965, não existe mais nenhum. E que na lista de 1985 sobrevivem menos da metade, se tanto. “Uma das explicações para tantas falências e fechamentos encontra resposta em fatores externos, tais como inflação alta e choques econômicos; e internos, consubstanciados no envelhecimento dos donos e na falta de planejamento”, sugere Solimeo.

O executivo da Associação Comercial de São Paulo afirma que o varejo evoluiu, modernizou-se. Tem competência em nível internacional e ficou extremamente complexo. O crédito deslanchou depois do Plano Real, mas o comércio, assim como todas as áreas, continua sofrendo intervenções econômicas de todo tipo. Por isso, empresas médias não sobrevivem – não têm a flexibilidade das pequenas, nem as possibilidades das grandes.

O fato é que as empresas, grandes ou pequenas, estão sujeitas às leis do mercado, cada vez mais dinâmico e exigente. Para ilustrar, pode ser citado o caso da indústria de chapéus, que, ou foi produzir outra coisa, ou fechou as portas para sempre por absoluta falta de demanda. Isso aconteceu também com as fábricas de fraldas de pano e as de máquinas de escrever. É que, na lei da oferta e da procura, quem manda é a procura. Por isso, mesmo que no começo os produtos inovadores tivessem um preço alto, logo demonstravam para o consumidor que a relação custo/benefício compensava. Assim, com a grande procura, a oferta aumentou e o preço baixou.

Fraldas descartáveis ilustram bem o que aconteceu: no início dos anos 1980 o preço era proibitivo e só as mães da classe média e alta podiam adquiri-las. Mesmo assim, eram usadas apenas para sair, ir ao médico, fazer uma visita. Em casa, os bebês usavam as fraldas de pano mesmo, que eram trabalhosamente lavadas, fervidas e passadas a ferro. Com o tempo, as descartáveis foram se popularizando e hoje nem a mais pobre das mães pensa em dispensá-las – a tal ponto que estão se transformando em problema ambiental.

Também as vantagens do computador logo demonstraram ser muito maiores que as da máquina de escrever, mesmo antes do advento da internet. Corrigir um texto escrito a máquina dava um trabalho danado: além de rabiscar, riscar e puxar setas com novas frases, muitas vezes o papel acabava no lixo. Tudo mudou: agora, o editor de texto do computador permite a economia de tempo, facilitando infinitas correções, tipos e tamanhos de letras e configurações.

Tudo faz parte da dinâmica dos mercados em que as empresas estão inseridas. Por isso, diz o professor Savoia, elas devem acompanhar as mudanças tecnológicas para não serem pegas de surpresa e despreparadas, serem engolidas pelas concorrentes habituadas a acompanhar o tempo. Ele aconselha aos gestores seguir de perto os fatores externos – dizendo que isto é mais importante do que se imagina. Como exemplo do que o despreparo pode provocar, ele lembra o que aconteceu quando o presidente Fernando Collor fez a abertura de mercado. O Brasil, até então um país fechado para o exterior, e acomodado à tranquilidade do mercado interno e leis de proteção ao produto local, viu-se de repente sujeito à acirrada concorrência internacional. Deu no que deu: muitas empresas brasileiras não conseguiram responder ao desafio e foram à falência. Outras, sacudidas pelo balde de água fria, correram atrás do prejuízo e trataram de se adequar às novas circunstâncias.

Barrinhas de cereal

Foi assim que entrou em ação a palavra mágica: inovação. “Inovação é fundamental na vida das empresas, na sua relação com o consumidor e no desenvolvimento de produtos e processos”, ensina o professor Savoia. É necessário ver o mundo, refletir sobre qual rumo a empresa deve tomar, e como se posicionar em relação aos concorrentes e às mudanças de mercado – que estão cada vez mais velozes. E decidir também qual sua estratégia: seu produto deve durar ou ser de consumo rápido? Por exemplo, resolver se sua linha de roupas deve ser a clássica, que nunca sai de moda, ou a fast-fashion, de giro rápido e descartável.

Por essas e outras, as histórias de algumas empresas tradicionais que ficaram pelo caminho merecem ser contadas. Decididamente, duas das maiores lojas de varejo que sobrevivem na memória dos brasileiros, especialmente dos habitantes do sudeste, atendiam pelos nomes Mappin e Mesbla. O Mappin havia sido inaugurado em São Paulo no começo do século 20. No início da década de 1950 foi adquirido pelo empresário cafeeiro Alberto Alves Filho, que fez dela uma empresa inovadora, aumentou o número de unidades, aperfeiçoou o sistema de crediário, montou financeira própria e depois o crédito automático. Com a sua morte, em 1982, a rede de magazines passou a ser comandada por Cosette Alves, que continuou a expansão da empresa, oferecendo uma grande variedade de produtos e abrindo várias lojas.

A situação, porém, começou a mudar quando, em 1995, a empresa comunicou ao mercado o maior prejuízo de sua história: R$ 19,46 milhões. Cosette não pretendia vender o Mappin, mas o empresário Ricardo Mansur insistiu. Depois de uma infinidade de conversas, em 1996, a primeira vendeu e o segundo adquiriu um dos mais charmosos varejos paulistanos por R$ 25 milhões. O projeto de Mansur para o Mappin era transformá-lo em uma rede de franquias. Mas nenhum plano deu certo e a empresa teve a sua falência decretada em 1999. É que a união de suas operações com a Mesbla prejudicou o Mappin, pois seu controlador apenas implantou crises sem conseguir resolvê-las (conta-se que as lojas eram esvaziadas para abastecer a Mesbla).

Pouco antes da falência, a situação da Mesbla-Mappin era desesperadora: faltava dinheiro no caixa e o atraso no pagamento de fornecedores era crônico. Por isso mesmo, surgiram inúmeros pedidos de falência, além de ameaças de despejo em todos os shoppings onde as lojas estavam estabelecidas.

Em 1980, a Mesbla ocupava o primeiro lugar entre as “Maiores e Melhores” da revista “Exame”, e detinha a liderança do comércio varejista de não alimentos do país. Nesta época, ela operava com quase 140 pontos de venda, empregava 28 mil pessoas, e raras eram suas unidades que ocupavam áreas comerciais inferiores a 3 mil metros quadrados. Em suas lojas compravam-se sapatos, perfumes, televisores, joias, lanchas e até automóveis pelo crediário.

A Mesbla atuou também no comércio internacional, com filial em Nova York. Dentre os vários negócios realizados pela Mesbla Comércio Internacional S.A., uma das integrantes do grupo, um se destacou: a venda de 60 mil caminhões à China, no valor de US$ 900 milhões. Na década de 1990, os problemas começaram. A empresa sofria de gigantismo, era lenta ao tomar decisões e não conseguia acompanhar as mudanças – como a vinda de grandes empresas estrangeiras para o Brasil intensificando a concorrência –, já acirrada pelos shoppings centers e hipermercados, situados nos bairros e mais próximos do consumidor. Em 1997, com dívidas superiores a R$ 1 bilhão, a Mesbla pediu concordata. No mesmo ano, seu controle acionário foi vendido ao empresário Ricardo Mansur, que nove meses antes havia comprado as lojas do Mappin.

A falência também rondou muitas outras áreas. A da aviação, por exemplo, foi uma delas, no caso provocada pelo represamento dos preços das passagens, aumento do custo do combustível, pela alta do dólar e desvalorização da moeda e, principalmente, pelo alto endividamento. Em 2002, a Transbrasil desapareceu logo seguida pela Vasp (2005) e pela Varig (2006). Todas deixaram saudade, especialmente a Varig.

Tanto isso é verdade que a nostalgia é a aposta de um musical que estreou no último mês de agosto, em São Paulo: Constellation – Uma Viagem Musical pelos Anos 50, que retrata a época em que a Varig adquiriu o Super Constellation G. A luxuosa aeronave reduziu o tempo de voo entre Rio de Janeiro e Nova York, de mais de 70 horas (com escalas) para cerca de 20 (direto). Fundada em 1927, a Viação Aérea Rio-grandense (era seu nome) tornou-se, entre as décadas de 1950 e 1970, uma das maiores e mais conhecidas companhias aéreas privadas do mundo, concorrendo até mesmo com a gigante americana Pan Am, hoje também desativada (saiu de cena em 1991).

A empresa era conhecida, entre outros diferenciais, pelo requintado serviço de bordo nas três classes, um luxo ante as barrinhas de cereal atuais. Entre outros agrados, eram servidos jantares preparados por chefs, regados a vinhos finíssimos. Naquela época, além de cobrir todo o Brasil, a Varig operava rotas internacionais para a América, Europa, África e Ásia. Mas, como dizem, era bom demais para durar. Em 2006, após ter entrado em processo de recuperação judicial, sua parte estrutural e financeiramente boa foi isolada e vendida para a Varig Logística S.A., que, no ano seguinte foi cedida para a Gol Linhas Aéreas.
Revista Problemas Brasileiros

segunda-feira, 20 de junho de 2016

A atualidade do Molière dos trópicos

 
 "O Caixeiro da Taverna", peça escrita em 1845 e encenada no fim daquele ano / Reprodução
 
HERBERT CARVALHO

A política do favor como mola social, a corrupção desenfreada, a precariedade e o atraso do aparelho judicial, a exploração exercida por estrangeiros e a má assimilação da cultura importada. Por mais que pareça recolhido do noticiário recente, esse não é um retrato do Brasil atual e, sim, a descrição de nossos vícios maiores, presentes desde os albores da existência desta terra como país independente, e já detectados na primeira metade do século 19 pela obra do criador da comédia brasileira de teatro, Luís Carlos Martins Pena, nascido no Rio de Janeiro em 1815, portanto, há duzentos anos.

“Se se perdessem todas as leis, escritos, memórias da história brasileira dos primeiros cinquenta anos deste século 19, que está a findar, e nos ficassem somente as comédias de Pena, era possível reconstruir por elas a fisionomia moral de toda essa época”, garante Sílvio Romero em sua História da Literatura Brasileira sobre a importância do autor que, aos 33 anos, teve abreviada uma brilhante carreira de comediógrafo ao contrair tuberculose, doença à época incurável. Uma vida curta, mas suficiente, entretanto, para nos legar 20 comédias, algumas das quais continuam a ser encenadas com êxito, como O Noviço, a mais célebre e uma das mais engraçadas.

É um teatro perene, em razão de tratar de condutas atemporais, como a desonestidade e as fraquezas humanas, avalia Wagner Martins Madeira, professor de Literatura Brasileira para quem o “Aristófanes brasileiro” – de acordo com a definição do crítico Sábato Magaldi – está na raiz da comédia de costumes de tempero nacional popular, um gênero que teve como seguidores Artur Azevedo, na segunda metade do século 19, e Oduvaldo Vianna, nas primeiras décadas do século 20. “Outros desdobramentos foram as chanchadas do cinema brasileiro e programas de televisão como Praça da Alegria. A dramaturgia brasileira contemporânea é tributária desse teatro de índole popular que chega aos nossos dias pelas mãos de Marcos Caruso e sua indefectível Trair e Coçar É só Começar”, explica Madeira, mencionando a peça com maior público de todos os tempos no teatro do país.

Com aguçada veia cômica, Martins Pena mostrou a realidade de um país atrasado e predominantemente rural, fazendo a plateia rir de si mesma ao colocar no palco tipos caricatos com os quais o público se identificava: viúvas e moças namoradeiras; maridos autoritários e ciumentos; filhos insubmissos; sogras detestáveis; velhos gulosos e libidinosos; policiais e fiscais da alfândega corruptos; malandros de toda ordem; maníacos por ópera ou outros modismos; estudantes arruaceiros e irresponsáveis; o paulista, ora fazendeiro bronco, ora advogado inescrupuloso; o fazendeiro mineiro rico, ora aproveitador, ora ingênuo; os noviços sem vocação religiosa; os avarentos e os médicos deslumbrados com as novidades da medicina, como a homeopatia.

Não por acaso João Caetano, o principal ator do período, o considerava um Molière dos trópicos. Tanto nas peças do francês quanto nas do brasileiro, realiza-se o célebre lema clássico do ridendo castigat mores, que traduzido do latim significa “o riso corrige os costumes”. As peças de Pena, porém, são bem curtas, quase todas com apenas um ato e no máximo trinta minutos de duração. Representadas no início, ao final ou durante o intervalo de dramas e tragédias como uma espécie de refresco para as obras ditas mais sérias, pertenciam ao gênero do entremez, termo espanhol que designava encenações de jograis e bufões durante os banquetes da Idade Média. Segundo a pesquisadora Vilma Arêas, na Corte Imperial do Rio de Janeiro os entremezes também eram encenados muitas vezes em casas particulares, competindo com o teatro público.

Corrosivo, mas ao mesmo tempo leve, construído na linguagem coloquial da época, o humor de Martins Pena ainda hoje ecoa em provérbios repetidos pelo povo como Quem Casa Quer Casa, título de uma de suas últimas peças. Considerada por Magaldi “uma escola de ética”, sua verve desnudou a exploração do sentimento religioso, a corrupção das autoridades públicas, a submissão do país a interesses externos, a carestia e os juros abusivos, entre outras mazelas tão atuais, que podem ser sintetizadas nesta fala do salafrário Ambrósio, na cena inicial de O Noviço: “Se em algum tempo tiver de responder pelos meus atos, o ouro justificar-me-á e serei limpo de culpa. As leis criminais fizeram-se para os pobres...”

Teatralidade romântica

Na forma de espetáculos amadores isolados, com fins religiosos ou comemorativos, o teatro chegou ao Brasil junto com a colonização portuguesa, como instrumento de catequese utilizado pelos missionários da Companhia de Jesus, como o padre José de Anchieta. Apenas após a Independência, porém, ganhou uma continuidade de palco, com escritores, atores e público relativamente estáveis.

A mais importante sala de espetáculos da Corte era o Imperial Teatro São Pedro de Alcântara, inaugurado em 1826 e com capacidade para 600 espectadores na plateia (e mais 300 distribuídos em cem camarotes). Iluminado por 220 velas de cera resguardadas em mangas de vidro, foi construído no mesmo local e com características semelhantes ao Real Teatro de São João (projetado, por sua vez, nos moldes do Teatro Nacional de São Carlos, de Lisboa), que entre 1813 e 1824, quando foi destruído por um incêndio, atraíra técnicos e artistas europeus responsáveis pela introdução de uma tecnologia de encenação até então inexistente no país.

Consumido outra vez pelo fogo em 1855 e novamente reconstruído em 1857, o Teatro São Pedro foi demolido em 1928 para dar lugar, na atual Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, ao Teatro João Caetano, assim denominado em homenagem ao criador da pioneira companhia teatral brasileira, em 1833. Seria ele o responsável por levar ao palco, em 1838, pela primeira vez, um texto escrito por um brasileiro, pois até então só eram encenadas por aqui óperas e peças de autores europeus. Esse marco inaugural coube ao drama Antônio José ou O Poeta e a Inquisição, de Gonçalves de Magalhães, filósofo e poeta amigo íntimo de dom Pedro II que, como dramaturgo, teve reduzida expressão e foi definido como “clássico emperrado”, por Sílvio Romero.

No mesmo ano, no mesmo Teatro São Pedro e também com João Caetano no papel-título estreia a primeira das comédias escritas por Pena, O Juiz de Paz da Roça. Estava inaugurado o ciclo da teatralidade romântica, que de acordo com o Volume I da História do Teatro Brasileiro (Edições Sesc SP e Editora Perspectiva, 2012), organizada por João Roberto Faria, se estende até 1863, ano da morte do maior intérprete brasileiro do século 19.

Integrante do grupo de intelectuais da geração romântica, ao lado de Gonçalvez de Magalhães e Araújo Porto Alegre, aos dez anos Martins Pena era um pobre órfão de pai e mãe, encaminhado para as aulas de comércio por seus tutores. Sem pendores para se colocar atrás de um balcão, porém, contou com a preciosa ajuda da irmã, casada com um graduado funcionário da alfândega, para ingressar na Academia de Belas Artes. Esta contava ainda com alguns professores da Missão Artística Francesa do tempo de dom João VI e com eles Pena absorveu conhecimentos de pintura, estatuária e arquitetura.

Com bom ouvido e elogiada voz de tenor, estudou também música e canto, além de literatura e os idiomas inglês, francês e italiano, nos quais adquiriu fluência. Segundo Vilma Arêas, pesquisadora e professora do departamento de teoria literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp, essa formação variada e não ortodoxa “facilitou-lhe o desenvolvimento do gosto artístico, aguçando o ouvido e o olhar de observador, qualidades imprescindíveis a quem alimente pretensões teatrais”. Bons olhos e bons ouvidos – ouvido do crítico de música que ele foi –, eis certamente o que não faltava a Martins Pena, assegura o também crítico Décio de Almeida Prado, referindo-se às crônicas escritas pelo dramaturgo para o “Jornal do Commercio”, nos anos de 1846 e 1847, nas quais avaliava as óperas montadas no Teatro São Pedro.

Terra de oportunidades

Aos 16 anos, presenciou os atos de selvageria que se seguiram à abdicação de dom Pedro I e que relataria mais tarde no conto-crônica de estreia literária, intitulado Um Episódio de 1831. Sua primeira comédia é levada à cena sem menção de autoria, para evitar que isso interferisse na conquista do cargo de amanuense, na Mesa do Consulado, obtido graças ao poderoso cunhado e de onde seria transferido para a Secretaria dos Negócios Estrangeiros, em 1843. Garantia, desse modo, um ganha-pão por meio do emprego público, como depois fariam Machado de Assis, Lima Barreto e mesmo Carlos Drummond de Andrade, até que surgisse o tempo em que um intelectual pudesse viver de seus escritos no Brasil, o que só ocorreria na segunda metade do século 20.

Sobre O Juiz de Paz da Roça, resume Alfredo Bosi, na História Concisa da Literatura Brasileira: “Em Martins Pena, o modo de sentir o social já era bem menos conservador que o do primeiro grupo romântico no qual costuma ser integrado por motivos contingentes. Assim, o ‘juiz de paz’ é composto com uma face venal e arbitrária, não obstante as veleidades de rigor que o cargo lhe faculta. Com a mão direita recruta pobres-diabos para irem lutar contra os farrapos ou perseguir os quilombos; com a esquerda recebe leitões, cestos de laranja e cuias de ovos dos querelantes...”. Convém explicitar, além da referência à Guerra dos Farrapos no Rio Grande do Sul (uma das muitas rebeliões que quase cindiram o país durante o período da Regência, entre 1831 e 1841), que “da roça” não significava o que hoje entenderíamos como caipira, em oposição à cidade, pois muitas propriedades rurais se situavam, então, a um passo do perímetro urbano.

No início da década de 1840, Martins Pena desistiu dos dramas aos quais equivocadamente se dedicara (chegou a escrever quatro) para mergulhar de corpo e alma em comédias que foram todas encenadas ainda durante seu tempo de vida. Por isso, diante de sua obra, o leitor de hoje precisa dar o devido desconto, de acordo com Wagner Madeira: “O texto deve ser avaliado menos por suas qualidades literárias e mais pelos predicados teatrais, com os respectivos recursos de palco e de interpretação dos atores. Martins Pena reformulava constantemente sua dramaturgia, pois acompanhava as encenações e fazia mudanças para melhorar a comunicação com o público”. Para Vilma Arêas as minuciosas rubricas que nos deixou, com incontáveis variantes, o aproximam do encenador moderno.

Grande impacto causou a estreia, em 1845, da peça Os Dois ou O Inglês Maquinista, que se vale da disputa de dois homens pela mão (e dote) de uma moça rica para colocar no palco figuras emblemáticas da época: o traficante de escravos e o britânico especulador. Imediatamente censurada pela Câmara dos Deputados, a comédia colocava o dedo na ferida do comércio negreiro, clandestino e ao mesmo tempo acobertado pelas autoridades. Em uma das cenas, o contrabandista tira de um cesto um moleque africano recém-desembarcado para oferecê-lo à pretendida. O título parodia jocosamente os títulos duplos dos dramas e melodramas e alude à manipulação dos cordéis econômicos pelos ingleses, pois “maquinista” era aquele que, nos bastidores, controlava os cenários teatrais.

A gananciosa visão de estrangeiros que enxergavam o Brasil como terra de oportunidades fáceis a serem exploradas fica patente neste e em outros textos de Pena, como As Casadas Solteiras, no qual um representante da pérfida Albion sintetiza: “Brasil é bom para ganhar dinheiro e ter mulher. Os lucros... cento por cento. É belo”. Albion é a maneira como a linguagem poética se refere apenas à Inglaterra ou à Grã-Bretanha.

Numa cidade que reunia a maior concentração urbana de escravos no mundo desde o fim do Império Romano – 110 mil sobre 266 mil habitantes –, eles representavam uma assimetria básica no teatro de Pena: ao contrário dos pares que se digladiam na tradição cômica (velhos versus jovens, homens versus mulheres ou nacionais versus estrangeiros), os cativos aparecem isolados em seu sofrimento. Trabalham sem descanso, são chicoteados, empurrados e enganados, mas nada dizem. “Com o silêncio, talvez Martins Pena sugira não haver palavras para descrever tal ignomínia”, pondera Vilma Arêas.

“Pateada” salutar

Além da própria obra, Pena propugnou pela viabilização, no Teatro São Pedro, das condições técnicas e materiais necessárias à encenação do repertório europeu de ópera. Com esse objetivo assinou uma coluna intitulada A Semana Lírica, no “Jornal do Commercio”. Nessas crônicas ele focava temas como a criação e operação da cenografia, a administração dos corpos estáveis (orquestra e coros de cantores e atores) e o comportamento do público, esboçando um autêntico programa para a reforma da cena de seu tempo.

Testemunhou e apoiou rebeliões de artistas submetidos a descasos. Na crônica intitulada A Revolta dos Coristas, sobre uma ameaça de greve, escreveu: “Dinheiro é sangue, dizem os ricos; sem dinheiro não se come, murmuram os pobres, e sem comer não se canta, acrescentam os coristas. Com o pouco que ganham e estes atrasos de pagamento é impossível que não andem com fome, o que talvez explique a razão por que nos coros comem eles a metade das notas”.

Registrou, ainda, uma greve da orquestra que resultou na demissão de todos os músicos, incluindo o maestro. Eles reivindicavam receber também pelos ensaios, e não apenas pelas récitas, o que Pena considerava justo, entre outras medidas essenciais para que o nível técnico não decaísse. No auge da crise, seus conselhos à diretoria do teatro são paradigmáticos: propõe que “escriturem” os músicos por um ano e paguem-lhes os ensaios; que se obriguem os mestres de canto a revisarem as partituras e que se façam os cantores virem com suas partes decoradas; que se aumentem os instrumentos de corda “para que estejam em relação com a considerável força de instrumentos de metal exigida nas óperas modernas”. Palpitava até na disposição da orquestra no fosso do teatro, no tamanho das estantes para as partituras e na maior ou menor intensidade da iluminação.

Tampouco o público escapa de seu olhar crítico. Admitia a “pateada” (o bater com os pés no chão em sinal de protesto ou desagrado durante um espetáculo) como “salutar” para corrigir os “artistas maus”. Mas quando ela se generalizava ou se tornava instrumento dos fãs para hostilizar rivais de seus ídolos, tornavam-se os “pateadores” danosos, a seu juízo: “Para que o teatro possa progredir serão eles corridos pela porta fora, se antes disso não se emendarem, como é de se esperar”. O progresso do teatro brasileiro preconizado por Pena só aconteceria, infelizmente, após sua morte, na década de 1850, quando o Teatro São Pedro volta para a direção de João Caetano, afastado no decênio anterior.

Em 1846 escreve suas últimas peças e no ano seguinte parte para Londres, onde exerceria a função de adido em nossa legação. Essa atividade diplomática, porém, não dura muito. Acometido pela tuberculose, é obrigado a regressar, mas não chega ao destino: morre em Lisboa no dia 7 de dezembro de 1848. Sepultado no Cemitério dos Prazeres, na capital portuguesa, seus restos mortais foram trasladados dois anos depois ao Brasil, onde repousam no Cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro.

Quando é criada a Academia Brasileira de Letras, em 1897, um de seus fundadores, o também comediógrafo Artur Azevedo, o escolhe para patrono imortal da cadeira de número 29. Em 1908 é fundada no Rio de Janeiro a Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Pena, que teve como alunos Procópio Ferreira, Tereza Rachel, Joana Fomm, Denise Fraga e Cláudia Jimenez. Dirigido por Décio de Almeida Prado, o Grupo Universitário de Teatro, da Universidade de São Paulo, encena em 1943 a comédia Os Irmãos das Almas, que se passa no dia de finados de 1844 e tem como sonoplastia recomendada pelo autor um lúgubre dobrar de sinos, durante toda a ação. Foi uma montagem amadora, mas que contou com profissionais como Cacilda Becker. Em 1956 é publicada uma edição crítica da obra completa de Martins Pena, em dois volumes, um de comédias e outro de dramas. Em Brasília, uma das principais salas do Teatro Nacional Cláudio Santoro leva o nome do pioneiro, cujas comédias permanecem no repertório de vários grupos de teatro Brasil afora.
Revista  Problemas Brasileiros

A memória do velho reinado


 O outrora refúgio serrano da realeza: 342 mil visitantes no ano passado / Foto: Ibram-Museu Imperial
 

Petrópolis, 15 de novembro de 1889. Alertado pelo telégrafo do palácio imperial de que uma sublevação militar afrontava o governo nas ruas do Rio de Janeiro, dom Pedro II deixou a cidade serrana às pressas, de trem, confiante de que bastaria uma boa conversa com o líder rebelde, marechal Deodoro da Fonseca, para apaziguar os ânimos e reconduzir a tropa à caserna. Ele estava redondamente enganado: a quartelada resultaria na instauração da República – desfecho inesperado não só para o imperador, mas também para muitos revoltosos. Dois dias depois, a família imperial rumava exilada para a Europa e a monarquia era página virada na história brasileira.

A memória dos tempos monárquicos perdura, porém, no palácio onde nunca mais o segundo imperador do Brasil colocaria os pés, morto em dezembro de 1891, em Paris. Desde 1943, o refúgio serrano frequentado pelo dono da coroa durante quase todo o seu reinado abriga o Museu Imperial, o mais visitado dos 29 estabelecimentos do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). De alternativa residencial a 60 quilômetros do calor, da agitação e dos problemas da corte, no Rio, o antigo Paço de Petrópolis, como era conhecido, foi alçado pela República à condição de referência nacional quando o assunto é Império.

O museu recebeu 342 mil pessoas em 2014, incluídos os visitantes do palácio e aqueles que participaram de atividades fora do prédio. Responsável por mais de um terço do público de todos os museus federais, o Imperial reina inconteste nas estatísticas do Ibram, seguido de longe pelos museus da Inconfidência, em Ouro Preto (MG), e o Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O registro da visitação do museu petropolitano em 2015 indica que a procura segue em alta: somente no feriado de Corpus Christi, de 4 a 7 de junho, 9,3 mil pessoas passaram por ali, superando em 50% o movimento de igual período de 2014.

A quantidade de visitantes no ano passado, assinala o diretor do Museu Imperial, Maurício Vicente Ferreira Júnior, é maior do que a população de Petrópolis, estimada em 298 mil habitantes pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ao mesmo tempo em que se constitui em referência da memória monárquica e da formação do estado nacional, assentado sobre a escravatura e a cafeicultura de exportação, o museu atiça o fascínio generalizado entre os brasileiros por dom Pedro II e pela vida aristocrática do Segundo Reinado. “As pessoas têm uma curiosidade enorme de saber como vivia o imperador”, observa Ferreira Júnior.

Pela diversidade do público, vindo de todas as classes sociais, o Museu Imperial combina a exposição de seus salões e de seu precioso acervo de móveis, objetos e obras de arte a várias atividades lúdicas e educativas no prédio principal, na parte externa e em instalações anexas. Ao longo do ano, a programação inclui mostras temporárias, dramatizações com música dos tempos imperiais, leituras pedagógicas na biblioteca infantil, visitas guiadas para escolares e apresentação do espetáculo Som e Luz, megaprodução que mobiliza efeitos especiais para recontar, fora do antigo paço, episódios e curiosidades daquele período.

“Procuramos contemplar a diversidade da sociedade, com uma gama de atividades que atendem tanto o Ph.D. quanto um indivíduo sem instrução formal”, esclarece o diretor. “É fundamental que o público entenda que o Museu Imperial é de todos os brasileiros.” O visitante típico chega em família – pai, mãe, dois ou três filhos. A procura infanto-juvenil é outro fato marcante: em 2004, guiados por monitores do museu, 70 mil estudantes em grupos conheceram o palácio e seu acervo. Na maioria, eram alunos de escolas dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul.

Gosto pela astronomia

O acervo do museu em Petrópolis reúne 300 mil itens, incluindo as peças museológicas expostas e conservadas na reserva técnica, coleções de registros documentais, livros e periódicos. O mobiliário, as peças decorativas e funcionais e as obras de arte são atrações no antigo paço, enquanto veículos à tração animal do século 19 são expostos numa edificação ao fundo, onde funcionava a ucharia – cocheiras, armazém de mantimentos, depósito de ferramentas e lugar de acomodações de escravos, cocheiros e outros trabalhadores. A essas construções somam-se outras, como o prédio do arquivo histórico, as instalações da biblioteca e uma concha acústica.

A peça mais concorrida é a coroa de dom Pedro II, de ouro cinzelado, ornada com 640 brilhantes procedentes de Minas Gerais e 100 pérolas – uma relíquia de dois quilos confeccionada pelo joalheiro da Casa Imperial, Carlos Marin, para a coroação e sagração do imperador, em 1841. Comprada pelo governo republicano em 1931, a obra estava num cofre do Tesouro Nacional, desde a Proclamação da República, de onde saiu em 1943 para ser exibida em Petrópolis. A de dom Pedro I, de 1,8 quilo, também de ouro cinzelado, está exposta, mas sem as pedrarias originais, aproveitadas na coroa do filho.

Na ritualística do poder monárquico, a coroa era usada somente em situações especiais, como a Fala do Trono – pronunciamento com que o monarca abria e fechava os trabalhos legislativos da Assembleia Geral. Nessas ocasiões, trajando indumentária de gala, dom Pedro II cobria-se com o manto imperial e empunhava o cetro – peças que podem ser vistas no museu. De veludo verde, com ramagens, estrelas e serpentes bordadas a ouro, o manto possui murça composta por penas de tucano e também foi feito para a coroação. O cetro, com 2,5 metros e 2,5 quilos, é decorado com ouro e brilhantes e encimado pela figura de um dragão, símbolo da dinastia portuguesa dos Bragança, a ascendência do imperador. O nome completo de dom Pedro II era quilométrico: Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Bragança e Bourbon.

O Museu Imperial reproduz vários cenários da rotina do monarca. Exemplo é a sala de Estado, que reconstitui o ambiente do Paço de São Cristóvão onde dom Pedro II despachava com ministros, parlamentares, diplomatas e outros visitantes ilustres. Assim como o assento imperial, talhado em dourado e forrado com veludo verde, procederam também do palácio carioca os jarros de porcelana de Sèvres com pinturas das quatro estações e imagens do imperador e de dona Teresa Cristina, e os consoles com grandes espelhos da sala.

Outro ambiente que foi caro ao filho de dom Pedro I é o gabinete de trabalho, disposto no museu à semelhança do que existia no Paço de São Cristóvão, sua residência oficial. Nesse aposento, ele passava horas lendo, escrevendo cartas a amigos e estudando ciências e idiomas. Sobre a escrivaninha exposta no museu está o primeiro aparelho de telefone usado no país, trazido dos Estados Unidos pelo monarca, em 1876, e usado na Fazenda Imperial de Santa Cruz, no Rio, para comunicação com São Cristóvão. O gabinete também preserva, além do mobiliário de época, o telescópio com que dom Pedro II, aficionado em astronomia, observava o céu.

Na sala de jantar, arrumada como se estivesse à espera dos comensais, o mobiliário em mogno, assinado por um marceneiro e tapeceiro francês radicado no Rio de Janeiro, é o mesmo que a família imperial usava em São Cristóvão. A sala de música, onde o imperador e as princesas promoviam saraus e recitais, tem como destaques uma harpa dourada Pleyel Wolff, um piano inglês do início do século 19, que teria sido de dom Pedro I, e um espineta (instrumento semelhante ao cravo) – raridade fabricada em Portugal, no século 18.

O sucesso do Museu Imperial é associado pela antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz ao anseio de nobilitação do passado que perdura no imaginário brasileiro. Professora da Universidade de São Paulo (USP) e autora de As Barbas do Imperador – Dom Pedro II, um Monarca nos Trópicos (Companhia das Letras), ela lembra que o fenômeno foi assinalado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda no ensaio “O Pássaro e a Sombra”, de 1972. “O museu é uma ilha importante de nossa história”, ela diz, “mas é preciso entender de forma crítica e ver o que está e o que não está no palácio” – no caso, o império periférico que só aboliu a escravidão em 1888. Lilia destaca também o valor inestimável da papelada oficial conservada em Petrópolis.

Obras raras

Os mais de 200 mil documentos sob a guarda do Museu Imperial fazem de seu arquivo histórico um dos mais importantes do Brasil. Especializado em registros relacionados ao Império, o arquivo também preserva documentação que remonta ao século 13 e chega ao 20. Uma característica peculiar do acervo, que abrange muitas doações particulares, é sua complementaridade em relação a documentos públicos de instituições como o Arquivo Nacional e o Arquivo Histórico do Itamaraty. O do museu possui também valiosas coleções de imagens que retratam, desde os primórdios da fotografia, a cidade de Petrópolis, o Rio de Janeiro e o país.

Para os pesquisadores e outros interessados na história brasileira, o museu mantém mais de 50 mil volumes em sua biblioteca, instalada num prédio moderno nos fundos do antigo paço. O carro-chefe do acervo é composto por obras dos séculos 18 e 19, incluídas oito mil obras raras. Aos livros somam-se jornais, revistas, almanaques, partituras, relatórios das antigas províncias e ministérios e coleção de leis do Império. Entre as preciosidades estão obras dos séculos 16 a 18 e outras que pertenceram à família imperial, enfeitadas com iluminuras, e volumes que guardam anotações de leitura feitas por dom Pedro II.

A construção do palácio imperial está na origem da criação de Petrópolis e tem como ponto de partida um decreto assinado em 16 de março de 1843 por dom Pedro II, aos 17 anos. O imperador havia sido guindado ao trono três anos antes pelo golpe da maioridade – movimento em que conservadores e liberais se uniram para entregar o governo ao príncipe adolescente, em nome da centralização do governo contra revoltas sociais que espocavam nas províncias. O decreto foi preparado pelo mordomo da Casa Imperial, Paulo Barbosa da Silva, um dos palacianos que militaram ativamente na campanha da maioridade, conhecidos como áulicos.

O decreto arrendava a fazenda legada a Pedro II pelo pai – a Córrego Seco, comprada em 1830 – ao major de engenheiros Júlio Frederico Koeler, como forma de converter a herança em fonte de renda fundiária. Ao arrendatário competia estabelecer uma povoação, “aforada a particulares”, e reservar “um terreno suficiente para nele edificar um palácio para mim, com suas dependências e jardins”, determinou o imperador. Ele também delegou a Koeler a tarefa de demarcar, para doação, “um terreno para nele se edificar uma igreja com a invocação de São Pedro de Alcântara” e para a construção de um cemitério.

O sonho do palacete de verão nos arredores da Corte havia sido herdado de dom Pedro I, que conhecera a região em 1823, quando viajou a Minas Gerais para selar apoios políticos à Independência. Comprada a Córrego Seco pela Superintendência das Imperiais Quintas e Fazendas, o primeiro imperador quis erguer no lugar o Palácio da Concórdia, em alusão à harmonia com que tencionava pôr fim à turbulência do país recém-emancipado. O arquiteto dos paços imperiais, Pedro José Pezerat, chegou a riscar o projeto da obra, que ficou no papel porque o monarca, sob pena de perder a coroa portuguesa, abdicou do trono brasileiro em nome do filho e foi para Lisboa, em 1831.

Com outro projeto, traçado por Koeler, o Palácio Imperial seria construído entre 1845 e 1862, custeado com recursos da dotação pessoal de dom Pedro II. Mas, para que o sonho se tornasse realidade, o Estado havia dado ajuda providencial em 1840, livrando a fazenda das mãos de credores do primeiro imperador, que morrera cheio de dívidas, seis anos antes, em Lisboa. Por iniciativa do deputado conservador Honório Hermeto Carneiro Leão, mais tarde Marquês do Paraná, o legislativo aprovou o dispêndio de 14 contos de réis para o resgate da propriedade, como presente a dom Pedro II pela maioridade precoce.

O palácio, de estilo neoclássico, começou a ser erguido pela ala direita, numa elevação do terreno que centralizaria o núcleo urbano de Petrópolis, denominado de Vila Imperial. Com a morte de Koeler, em 1847, o italiano Cristóforo Bonini agregou ao projeto um pórtico com colunas coríntias e jônicas encimadas pelos brasões dos Bragança e do Império. Na construção do corpo central, com dois andares, e da ala esquerda, uniram-se três arquitetos da Academia Imperial de Belas Artes – Joaquim Cândido Guillobel, José Maria Jacinto Rebelo e Manuel de Araújo Porto Alegre, que respondeu pela decoração.

Aquarela inédita

Aos olhos da nobreza europeia, assim como da elite nacional que enriqueceria com o café e se mirava no fausto da aristocracia francesa, o paço petropolitano era tido como demasiadamente acanhado e austero para um imperador. Seu piso alvinegro na entrada foi composto, porém, com mármore da italiana Carrara e da Bélgica, enquanto seus assoalhos e esquadrias usaram madeiras de lei – cedro, jacarandá, pau-rosa, vinhático – de várias florestas do Império. No pé-direito alto, as salas e os quartos ganharam decoração simples, mas elegante, com destaque para relevos em estuque que ornamentam tetos e paredes.

Para compor o jardim, dom Pedro II valeu-se do botânico francês Jean Baptiste Binot, em 1853, que combinou espécies nativas e exóticas num ambiente de biodiversidade em que magnólias e jaqueiras convivem com bananeiras de Madagascar e palmeiras australianas. Nesse cenário, Binot dispôs estatuetas de figuras da mitologia grega e uma bica d’água que ficaria conhecida como a Fonte do Sapo, onde, reza a lenda, o imperador costumava matar a sede. O também francês Auguste Glaziou, afamado por suas obras paisagísticas na Corte, daria seu toque no jardim anos depois, mas não promoveria grandes alterações no projeto original.

Sem esperar o término da obra, dom Pedro II tratou logo de ocupar o palácio, em 1849. Três anos depois se daria ali uma reunião social, por certo a primeira em que o imperador, aos 26 anos de idade, proporcionaria a seus convivas um sarau de indelével encantamento, registrou o idealizador e primeiro diretor do Museu Imperial, Alcindo Sodré, ao descrever, na edição de 1940 do anuário do museu, a relação do monarca com Petrópolis. O imperador e a família desfrutavam de longas estadas no refúgio serrano, onde dom Pedro II dedicava-se a estudos de ciências, hebraico e árabe, despachava e recebia visitantes.

Pela assiduidade das estadas imperiais na serra, o palácio ambientou incontáveis episódios marcantes do Segundo Reinado. Em 13 de maio de 1888, um ano e meio antes de o imperador receber a notícia da revolta que redundaria na República, foi do Paço de Petrópolis que a princesa Isabel saiu, após almoçar com os filhos, para ir de trem ao centro do Rio a fim de sancionar a Lei Áurea, aprovada na Câmara dos Deputados e no Senado. Encerrada a cerimônia, com o Paço da Cidade (atual Paço Imperial, na Praça 15) cercado pela multidão em festa, a regente do país subiu a serra a tempo de jantar com a família no palácio.

À princesa Isabel caberia o Paço de Petrópolis como herança após a morte do imperador, em 1891, na cidade de Paris. Ela alugaria o imóvel, de 1893 a 1908, às religiosas de Notre Dame de Sion, que instalaram no local um educandário para filhas da elite republicana. De 1909 a 1939, o prédio abrigou outro colégio católico, o São Vicente de Paulo. Nesse ano, o palácio foi comprado pelo Estado para ser doado ao governo federal a fim de sediar o museu – ideia que Alcindo Sodré, ex-aluno do São Vicente, martelava nos ouvidos do presidente Getúlio Vargas durante as frequentes estadas presidenciais em Petrópolis.

Getúlio oficializou a criação do Museu Imperial em 29 de março de 1940 por meio de decreto-lei, e ele passou a ter, entre suas atribuições, “recolher, ordenar e expor objetos de valor histórico ou artístico referentes a fatos e vultos dos reinados de dom Pedro I e, notadamente, de dom Pedro II”. Nomeado diretor, Sodré supervisionou a restauração do prédio, executada pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan, precursor do Iphan), e se lançou, com uma equipe de técnicos, à busca, em palácios e repartições públicas federais, de objetos que haviam pertencido à família imperial.

Na reconstituição de ambientes do palácio e na identificação de peças que o ornamentavam, Alcindo Sodré teve a ajuda de Manuel Augusto Velho da Mota Maia, filho do médico do imperador, Conde da Mota Maia. Pai e filho haviam integrado a comitiva que acompanhou a família imperial rumo ao exílio. Sodré também instalou a biblioteca e o arquivo histórico, que receberiam depois documentos e livros de herdeiros da princesa Isabel. A essas doações o museu juntaria muitas outras, abarcando obras de arte, objetos e registros documentais de colecionadores como os magnatas Guilherme Guinle e Lineu de Paula Machado e o banqueiro e historiador Tobias Monteiro.

O museu abriu as portas em 16 de março de 1943, no centenário de Petrópolis, inaugurado por Getúlio. Possuía acervo modesto, se comparado com o volumoso conjunto de móveis, quadros, esculturas, objetos decorativos variados, documentos e material bibliográfico que seria formado nas décadas seguintes. A maioria desses bens procedeu dos paços imperiais do Centro, São Cristóvão e Santa Cruz, no Rio de Janeiro, e de instituições como o Itamaraty, Tesouro Nacional, Casa da Moeda, Museu Nacional e Palácio do Catete, sede da Presidência até 1960. E, além das doações de colecionadores, antigas peças da família imperial foram adquiridas em leilões.

A mais recente aquisição, arrematada numa casa de leilões de Paris, é um retrato de dom Pedro II em creiom, de 1841, posto à venda por herdeiros remotos da princesa Isabel. A obra, acredita o diretor do museu, foi um estudo para a cunhagem, não realizada, de moeda alusiva à coroação do imperador. O museu também segue recebendo doações – a última, em julho, foi a caderneta de viagem do inglês William Rickford Collett, com anotações de sua passagem pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais, em 1948. Doada pelos herdeiros, a obra inclui um aquarela inédita da construção do Paço de Petrópolis.

FRANCISCO LUIZ NOEL 

Revista Problemas Brasileiros

terça-feira, 14 de junho de 2016

As 10 técnicas de tortura mais assustadoras da Idade Média


Métodos terríveis marcaram o período conhecido como "Idade das Trevas"

Rennan A. Julio


A Idade Média não foi um bom momento para se viver. Havia muitas doenças e liberdade era um conceito praticamente desconhecido. Além disso, a conhecida “Idade das Trevas” ficou marcada pela invenção de alguns dos instrumentos de torturas mais assustadores da história.

Nomeada de era de ouro da tortura, decidimos listar as principais técnicas criadas no período da Idade Média. Mas cuidado, as descrições podem ser um tanto desgastantes.

Confira!

1 - Empalamento
Empalamento: uma das técnicas mais terríveis da Idade Média (Foto: Reprodução)



Uma das mais conhecidas técnicas de tortura é a do empalamento. Durante a Idade Média, inimigos tinham seus corpos atravessados por enormes estacas. Normalmente, o processo começava pelo ânus e seguia até a boca. E o mais assustador: a vítima poderia levar até três dias para morrer.

O personagem que ficou mais conhecido pela técnica foi Vlad III, o Empalador (o sujeito que inspirou Drácula). O tirano costumava apreciar uma refeição enquanto observava as estacas atravessando os orifícios de seus inimigos. Estima-se que Vlad tenha matado de 20 a 300 mil pessoas dessa maneira.

2 – Berço de Judas
Brutal artefato utilizado na Idade Média (Foto: Reprodução)



Chamado de Berço ou Cadeira de Judas, essa técnica pode ser considerada uma “prima distante” da empalação. Com um pouco mais de sadismo, as vítimas eram obrigadas a sentar em pirâmides de madeiras lentamente até a morte. Presas por cordas, elas tinham seus orifícios anais ou vaginais “esticados” pelo tronco pontudo de madeira durante dias.

A intenção do efeito era empalar lentamente. Para isso, algumas delas recebiam pesos nas pernas a fim de aumentar a dor e a velocidade. E fora a humilhação, o Berço de Judas dificilmente era higienizado, assim podendo gerar infecções dolorosíssimas.

3 – O Caixão da Tortura
Expostos em praça pública em um caixão de ferro (Foto: Reprodução)



Usado como sentença para crimes como blasfêmia e roubo, o Caixão da Tortura funcionava assim: as pessoas julgadas eram obrigadas a ficar dentro da “cela móvel” durante dias até a morte. Extremamente apertadas, as gaiolas eram penduradas em praça pública para que sofressem exposição ao sol e também para que animais pudessem se alimentar do ser humano, enquanto vivo.

4 – O Balcão da Tortura
O Balcão da Tortura foi considerado o mais doloroso instrumento de tortura do período (Foto: Reprodução)



Consistindo em uma mesa de madeira com cordas fixadas nas áreas superiores e inferiores, o Balcão da Tortura chegou a ser considerado o mais doloroso método de toda cultura medieval.

As cordas se prendiam aos pés e mãos da vítima em uma ponta e a roldanas em outra. Ao torturador, bastava girar as maçanetas para que os membros dos torturados se esticassem em pura agonia. Muitas vezes, os membros chegavam a ser arrancados pelo dispositivo.

No final da Idade Média, a mesa ganhou uma variante: com espinhos de ferro que penetravam nas costas da vítima. Tudo isso para que confessassem seus crimes.

5 – O Estripador de Seios
Experiência brutal: o Estripador de Seios (Foto: Reprodução)


Esse terrível aparato costumava ser utilizado para punir mulheres acusadas de realizar bruxaria, aborto ou adultério. As garras – aquecidas por brasas ou em temperatura comum – do aparelho eram usadas para arrancar os seios dessas mulheres.

O artefato também ganhou uma variante, chamada de ‘The Spider’. Exatamente como o outro instrumento, mas com as garras acopladas a uma parede. Isso fazia com que o torturador pudesse puxar as mulheres até que o estripador ficasse com os seios pendurados. Muitas morriam de hemorragia ou de infecção.

6 – Pera da Angústia
Pera de metal realizada para trazer muita dor às vítimas (Foto: Reprodução)



Esse brutal equipamento era utilizado para iniciar a punição de mulheres, mentirosos, e homossexuais. O aparelho em formato de pera era inserido nas vaginas femininas, no ânus dos homossexuais e na boca dos blasfemadores.

Para que as quatro folhas de metal se abrissem, bastava à vítima “entortar” um parafuso. A pera era capaz de arrancar a pele com sua expansão e mutilar os orifícios das pessoas que a recebiam. O método era conhecido por apenas “abrir” a sequência de torturas.

7 – A Roda da Tortura
Roda da Tortura fazia com que pessoas tivessem seus membros quebrados em praça pública (Foto: Reprodução)



Conhecido por sempre matar a vítima de forma bem lenta, essa era a Roda da Tortura. Com os membros presos em uma roda de madeira, as pessoas viam seus braços e pernas serem atingidos pelos torturadores com grandes martelos de metal. Depois disso, eram pendurados – ainda na roda – em praça pública, para que animais se alimentassem das vítimas vivas.

8 – Serra para cortar ao meio
Pessoas eram serradas ao meio na Idade Média (Foto: Reprodução)



Por serras serem muito comuns na Idade Média, a técnica de tortura foi muito utilizada para matar pessoas acusadas de bruxaria, adultério, assassinato e blasfêmia. Além disso, era costumeiramente usada para ameaçar os acusados, colocando seus familiares nos dentes afiados da serra.

Como funcionava: dois torturadores amarravam as pessoas de cabeça para baixo a fim de deixar todo o sangue fluir; depois disso, pegavam uma serra e atravessavam as vítimas começando pelo meio das pernas. A tortura costumava levar horas.

9 – O Esmaga Cabeças
O Esmaga Cabeças, mais um artefato extremamente brutal (Foto: Reprodução)



Altamente utilizado durante a Inquisição Espanhola, o Esmaga Cabeças – como ficou conhecido – era capaz de causar dores e danos irreparáveis. O instrumento consistia em um capacete ligado à uma barra onde se apoiava o queixo da vítima. Depois disso, o parafuso apertava o capacete comprimindo a cabeça da vítima.

Com isso, os torturadores conseguiam destruir as arcadas dentárias e as mandíbulas. E caso a tortura não parasse, os globos oculares saltavam dos olhos e o cérebro saía despedaçado pelo crânio.

10 – Tortura do Garrote
 
Tortura do Garrote matou muitas pessoas na Inquisição Espanhola (Foto: Reprodução)

Também muito usado na Espanha, o “garrote espanhol” servia para provocar uma morte lenta nas vítimas. Como o torturador possuía controle da corda amarrada no pescoço da pessoa, aos poucos ela ia sendo apertada para que as vítimas morressem asfixiadas.

A técnica foi utilizada durante a Inquisição com o objetivo de conseguir confissões dos acusados. O dispositivo esteve presente no país espanhol até 1975.
Revista Galileu

Quais eram os métodos medievais mais usados para fazer torturas?

 
 
 Roberto Navarro

Os torturadores da Idade Média usavam de tudo um pouco: de aparelhos que esticavam o corpo das vítimas até deslocar as juntas a objetos perfurantes dos mais variados tipos. Boa parte dos métodos de punição já existia desde a Antiguidade, mas os carrascos medievais também desenvolveram novas formas de tormento, incorporando os avanços tecnológicos da época, como os recém-surgidos dispositivos de relojoaria. A prática da tortura era comum, pois a confissão era considerada a mais importante prova nos tribunais, assim ela precisava ser extraída a qualquer custo. Presos em sombrias masmorras, no subsolo de fortalezas, os suspeitos eram submetidos a suplícios durante semanas e o terror só acabava quando eles reconheciam a culpa, em geral relacionada a casos de roubo, traição política ou assassinato. A princípio, a Igreja se manifestou contra a tortura para extrair confissões, mas, no final da Idade Média, já usava a prática sem cerimônias para punir hereges e suspeitos de bruxaria ou enquadrar pregadores que se afastassem de sua doutrina oficial. No ano 1252, o papa Inocêncio IV publicou uma bula (carta solene do pontífice) autorizando a tortura de suspeitos de heresia. Não era considerado pecado infligir castigos físicos aos acusados, a única recomendação era para que o serviço sujo não ficasse a cargo dos padres... O auge do uso da tortura em interrogatórios aconteceria já fora do período medieval. A partir do século 15, a Inquisição - tribunais da Igreja Católica que puniam quem se desviasse de suas normas - tinha até manuais para orientar carrascos. Vale lembrar que, além do tormento físico, métodos psicológicos também eram utilizados, envolvendo drogas psicotrópicas, extraídas de plantas como mandrágora ou estramônio. Essas poções provocavam terríveis delírios, servindo para "confirmar" que o réu possuía laços com o demônio.

Mergulhe nessa

Na livraria:

História Medieval, Jacques Heers, Bertrand Brasil, 2000

The History of Torture and Execution, Jean Kellaway, The Lyons Press, 2002

Na Internet:

www.shanmonster.com/witch/torture/index.html
Sessão de horror Nas masmorras, vítimas tinham juntas deslocadas e couro cabeludo arrancado

RODA DE FOGO

A roda foi um suplício muito usado a partir do século 12. O prisioneiro era amarrado na parte externa de um grande disco de madeira, colocado sobre um recipiente contendo brasas incandescentes. Ao girar lentamente a roda, o carrasco fazia com que o corpo do torturado ficasse exposto ao calor, até que o réu morresse em conseqüência das queimaduras sofridas

TECNOLOGIA CRUEL

O desenvolvimento da relojoaria na Idade Média inspirou novos instrumentos a serviço da dor. A "pêra" era um aparelho com pequenos mecanismos e molas em seu interior. Ela era introduzida no reto ou na vagina da vítima e, com o uso de parafusos, os mecanismos de relojoaria eram acionados para expandir o volume do objeto, causando graves dilacerações

PESADELO FEMININO

Algumas formas de tortura eram aplicadas exclusivamente às mulheres. A mastectomia (remoção dos seios) era uma delas. A vítima tinha as mamas dilaceradas e em seguida arrancadas, com o emprego de pinças e outros instrumentos de ferro aquecidos. Em certas ocasiões, a mulher era obrigada a engolir os próprios seios e acabava morrendo sufocada

BATENDO AS BOTAS

Forma de tortura popular na Escócia medieval, as botas eram um tipo de "calçado" com o interior forrado por pontas metálicas. O condenado era obrigado a colocá-las nas pernas, enquanto o carrasco as ajustava com um pesado martelo, fazendo com que as pontas penetrassem na carne. Os poucos réus que sobreviviam a tal pesadelo ficavam aleijados ou mutilados

URNA PAULEIRA

Se você gosta de rock, certamente conhece o grupo Iron Maiden, "Donzela de Ferro" em inglês. Mas talvez não saiba que a banda foi batizada com o nome de um instrumento de tortura. Tratava-se de uma urna, em formato de mulher, com o interior cheio de estacas de metal. O prisioneiro era obrigado a entrar na urna e as portas eram fechadas, pressionando as estacas contra seu corpo, o que provocava dolorosos ferimentos

ALONGAMENTO RADICAL

O estrado era uma prancha de madeira com mecanismos para esticar o corpo da vítima. Depois de ter os pulsos e tornozelos amarrados por cordas nas extremidades da prancha, os mecanismos eram acionados lentamente e puxavam o corpo em direções opostas. A vítima tinha as juntas deslocadas e os tendões rompidos e no final podia ser desmembrada

ESCALPO EUROPEU

Outra forma de tortura usada só contra mulheres era a laçada. Ela surgiu na Idade Média, mas foi empregada na Rússia até o início do século 20. Durante as sessões de interrogatório, carrascos enredavam o cabelo de mulheres acusadas de algum crime em pedaços de metal, que eram torcidos até que o couro cabeludo fosse arrancado
Revista Mundo Estranho

Gregos e egípcios ainda acreditam nos deuses de sua mitologia?

Tiago Cordeiro |


Os egípcios não, e os gregos... mais ou menos. No caso do Egito, a religião politeísta estava no centro da vida social desde 3200 a.C. até o século 4, quando os romanos, que já dominavam aquelas terras fazia 400 anos, decidiram que todas as suas colônias deveriam ser cristãs. Posteriormente, o país aderiu ao islamismo - hoje, 90% da população é muçulmana e o restante é quase todo cristão copta. Já os gregos passaram por um processo bem parecido: dominados pelos romanos, puderam manter seus deuses até o século 4, quando aderiram ao cristianismo. Atualmente, o país tem 98% de cristãos ortodoxos e só permite a expressão religiosa do judaísmo e do islamismo. Mas um grupo começou, na década de 1990, a tentar resgatar as antigas tradições. Eles se reúnem nos antigos templos para homenagear Zeus, Ísis e Apolo. No dia 21 de junho, por exemplo, realizam um festival em homenagem a Prometeu. Chegam até a realizar batizados e casamentos (sem reconhecimento oficial). Apesar de se levarem muito a sério, são perseguidos pelo governo.

PERGUNTA Suzana Vidorette Zanchetta, Araras, SP

FONTES Sites www.ysee.gr e www.friends-classics.demon.co.uk

CONSULTORIA Robert Parker, historiador e professor de história antiga da Universidade de Oxford
Revista Mundo Estranho

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Como era a vizinhança do livro "O Cortiço"?

 Nina Rahe

ILUSTRAShiko


1) O AMOR ENLOUQUECE

Jerônimo e sua mulher, Piedade, ficavam no quartinho 35. Sua força e caráter o tornaram respeitado na pedreira onde trabalhava, logo atrás do cortiço. Mas sua vida virou do avesso após ver Rita dançar. Apaixonado, passou a beber pinga, começou a gastar mais do que devia e, no fim, abandonou a esposa e a filha para ficar com a baiana

2) VOCAÇÃO PARA SOGRA

A viúva Dona Isabel, da casa 15, sacrificou tudo para educar Pombinha e casá-la com João da Costa, um moço do comércio. Assim, esperava reconquistar sua antiga posição social. A mãe só deixou a menina subir ao altar após a primeira menstruação, que demorou a chegar. Mas a união foi curta: Pombinha traiu o marido, foi expulsa de casa e acabou prostituta

3) PINTOU SUJEIRA

Outra história chocante rolou no número 12, onde morava a mulata Marciana. Ela era obcecada em limpar a casa, mas enlouqueceu de vez quando sua bela filha, Florinda, de apenas 15 anos, engravidou de um funcionário da venda de João Romão. Ele não assumiu e a menina fugiu de casa depois de apanhar da mãe. Marciana acabou expulsa do cortiço

4) O QUE É QUE A BAIANA TEM?

No número 9 morava Rita Baiana. Bonita e boa de samba, ela era amante do capoeirista Firmo, mas também conquistou o coração do vizinho, o português Jerônimo. Na disputa pelo amor da mulata, Firmo feriu o lusitano com uma navalha. Mas, depois de um tempo, Jerônimo conseguiu se recuperar e matou o rival em uma emboscada

5) VIZINHOS E RIVAIS

Miranda era o antagonista de João Romão. Morava no sobrado ao lado da venda, e aos poucos foi assistindo a seu imóvel ser cercado pelo cortiço. O negociante prezava o status acima de tudo - casou-se com Dona Estela pelo dote e não sabia se era mesmo pai de sua filha, Zulmirinha. Por isso, tinha certa inveja do modo como Romão enriqueceu e de sua relação com Bertoleza

6)A FOGUEIRA DA BRUXA

Paula era uma cabocla velha conhecida como Bruxa. Em parte, porque era feia, grossa, com olhos desvairados e dentes ameaçadores. Mas também porque era capaz de curar problemas de pele e febres com rezas e bençãos. Queria incendiar o cortiço- e conseguiu na segunda tentativa. João Romão teve que reconstruir o espaço, que se tornou grandioso e aristocrático

7) O DONO DO LUGAR

João Romão começou seu "império" ao herdar a taverna em que trabalhou por 12 anos. Depois, num lelilão, adquiriu as terras atrás de sua taverna e ergueu três casinhas. Foi o início do cortiço. Ele usou a grana de Bertoleza para "expandir o negócio" (e também era dono de uma pedreira, atrás do cortiço). Como adorava dar calote, mas sabia cobrar dívidas, enriqueceu ainda mais. Quando quis subir na vida, livrou-se de Bertoleza para tentar casar com Zulmirinha

8) ETERNAMENTE ESCRAVA

Para se libertar de seu dono, a escrava Bertoleza passou anos juntando 20 mil réis. Mas foi enganada por seu amante, João Romão: o português lhe deu uma falsa carta de alforria e usou a grana para ampliar a venda. E isso porque a coitada fazia de tudo por ele: trabalhava de manhã até tarde da noite, cuidando da loja e da casa que eles dividiam



O Cortiço
AUTOR Aluísio Azevedo (1857-1913)
LANÇAMENTO 1890
GÊNERO Romance naturalista
Revista Mundo Estranho