sábado, 5 de dezembro de 2009

O príncipe e os estados do reino


O príncipe e os estados do reino
Um estudo sobre a idéia de príncipe e sua infiltração social
Alexandre Pierezan


O autor é mestrando no Programa Interinstitucional UFF/UNIOESTE e Professor Colaborador da UNIOESTE. O presente artigo é parte dos resultados obtidos na pesquisa de mestrado, que tem como propósito estudar A idéia do príncipe no Testament politique do Cardeal de Richelieu.




RESUMO: O presente artigo demonstra
como as idéias inerentes ao Testament
Politique do Cardeal de Richelieu criam
funções específicas para cada ordem no
interior do reino, proporcionando idéia
ordenada do conjunto da sociedade francesa.
Apresenta as máximas políticas de Richelieu
e os códigos a que se conectavam. Explicita
as estratégias políticas, o pragmatismo e sua
relação com a idéia de ordem social. O
príncipe e os estados do reino analisa a
relação entre o sentimento de pertença ao
mundo francês e as formas de pensar o
príncipe como elemento de ligação.



O sentimento de defesa das coisas da terra, a exaltação de tudo que estivesse relacionado ao mundo francês era uma tendência que parecia estar crescendo dia após dia. Os povos que viviam na Europa da primeira metade do século XVII, mais detidamente os franceses, possuíam experiência baseada na tradição, que remonta à Idade Média, que lhes permitia conhecer a presença marcante de um universalismo ao mesmo tempo patriótico e cosmopolita, resultado da
mescla entre a linha religiosa-cristã e a moral-estóica. Para Emmanuel Le Roy Ladurie, "(...) a monarquia clássica aparece, enquanto poder e soberania, como uma imagem hiperbólica da sociedade global..." 1
Desde o medievo, o homem insere-se num conjunto de elementos que lhe permite produzir uma visão cosmopolita, herdeira da cultura antiga dos gregos, de romanos e dos profetas do Antigo Testamento, que levaram para além de sua cidade de origem uma vaga noção de universalidade. Para compreendermos melhor, os cristãos apropriavam-se e reliam, de forma deliberada, as idéias greco-romanas e dos hebreus. Aliado à reunião de culturas e de idéias, promoviam a busca pela universalização, como se a habitação, aqui na terra, fosse universal. Tal ensejo visualizava Roma como centro e pátria comuns para cristãos e pagãos, pois o mundo era entendido como uma grande habitação. Apesar de tudo, os cristãos ultrapassam estes objetivos, ampliando seu entendimento do mundo para um plano escatológico, cuja finalidade seria a pátria celestial.
É nesta direção que o sentimento patriótico passou a assumir um caráter dual, respectivamente, a função de fortalecer os laços de uma comunidade humana particular e, de certo modo, conservar uma relação com elas, numa última referência comum que as mantinha unidas. Neste sentido, o desenrolar de um sentimento particular de comunidade, a noção escatológica do mundo, o sentimento de pertencimento, de parentesco, identificação lingüística, costume, e uma série de inumeráveis aspectos, pareciam atuar conjuntamente na constatação dos Estados modernos europeus. Como diria Emmanuel Le Roy Ladurie, "nada de Estado, contudo, sem sociedade civil, território, facções, camarilhas"2. Estes exemplos, por sua vez, surgem em meio a uma complicada trama social e política, cujas especificidades não podem deixar de figurar nas análises de qualquer que seja o documento da época.
O Testament Politique do cardeal de Richelieu revela, justamente, a ligação entre o tempo que se vive e a tradição preocupada em deixar marcas nas gerações que a sucedem. Apesar da obra apontar para a importância da religião como elemento estabilizador, mantinha estreita relação com a fé católica, uma vez que Richelieu era católico de convicção, nasceu e viveu intensamente a tradição religiosa, mas, sempre deixou clara a importância dela para ascender a postos mais elevados na sociedade. No entanto, sempre atuou no sentido de ser devidamente aceito no seio da religião católica.
Nutrido pelo sentimento de agregação em torno dos ideais pela terra natal, Richelieu demonstra a importância e, ao mesmo tempo, fornece os exemplos, reitera o compromisso de que não iria tolerar qualquer insubmissão ao rei enquanto estivesse à frente das coisas do Estado. Em seu Testament Politique esclarece sobre a impossibilidade de aceitar, no interior de um reino, uma dada situação que possa ofuscar o brilhantismo da monarquia e do rei, e faz tudo para submeter os movimentos centrífugos ao jugo da monarquia. Parece, entretanto, que o mesmo movimento, no sentido de afirmação dos valores nacionais, começava a se desenvolver e intensificar em grande parte dos estados europeus, mesmo porque Maquiavel já havia atentado para o aspecto pátria, já com uma conotação de reino. Richelieu, contudo, sempre travou disputas para garantir a presença da língua francesa, sempre preocupado em propagandear e manter o sentimento da terra. Um caso esclarecedor ocorreu em 10 de julho de 1637, quando o então primeiro-ministro tentou impor, ajudado pelo rei, o uso da língua materna na academia francesa.
Deste fato decorrem sérias disputas entre Richelieu e os parlamentares, que acabam por obtemperar, lançando outra cláusula ainda mais taxativa: "que a academia somente poderá conhecer a língua francesa em livros que tiver feito ou que forem expostos a seu julgamento"3. Escrever um testamento político usando a língua materna significa, acima de tudo, reforçar um sentimento de afeto a tudo que esteja relacionado ao lugar de nascimento, à língua que se aprendeu desde criança ou, ainda, a um sentimento de amor à língua "que nos é natural e que mamamos nos seios de nossas mães" 4. Sem dúvida, não se pode ocultar as intenções de Richelieu em propagandear a condição que lhe é concedida. A busca pela identificação da língua, das relações primárias vividas na comunidade de nascimento e um sentimento extremamente regional contribuíram para afirmação de idéias que fortaleceram as intenções do peuple5 no caminho da centralização monárquica.
No interior de uma série de transformações sociais e políticas, o período em questão pôde expressar modificações profundas no interior de grupos. Como exemplo temos a ascendência de membros laicos que passaram a ocupar funções eclesiásticas, bem como a entrada de burgueses nas ordens aristocráticas e nobres. O que acelera a busca pela distinção social pode muito bem caracterizar um estímulo a mais no investimento pessoal diante das adversidades cotidianas. O que num passado não muito distante era visto apenas como obra da providência, neste período a destreza e a astúcia parecem assumir valor ainda maior. Os homens pensam e agem mentalizando, com avanços e recuos, um sentimento de promoção pessoal e dos seus
parentes próximos.



A partir da análise de Renato Janine Ribeiro pode-se refletir sobre um duelo. Logo no princípio da obra Os Três Mosqueteiros, o filósofo sugere que "o nobre está sujeito a uma responsabilidade maior, mais ampla do que a nossa. Não responde apenas pelo que praticou consciente e livremente, mas também pelo que recaiu sobre ele. Não se distingue o plano em que foi ativo - sujeito ou cidadão, hoje, diríamos - daquele em que foi passivo" 6. Além do mais, parece-nos que os laços afetivos entre os membros da família tomaram rumos nítidos no sentido da unidade, pois, entendemos ser prematuro pensar em células familiares, característica visível nas sociedades burguesas.
Ao mesmo tempo em que Armand-Jean du Plessis, o futuro cardeal de Richelieu pôde contar com educação não muito distante da família, as condições da nobreza de sua época ainda continuavam a influenciar e a marcar profundamente sua formação. Enquanto nas camadas menos abastadas da população os vínculos familiares começavam a demonstrar sinais visíveis de
um sentimento de célula familiar entrincheirada, não da forma como a conhecemos atualmente.
De modo significativamente rústico, entre os nobres parece haver maior resistência com relação ao fechamento em torno de apenas alguns dos familiares. É o caso que Richelieu pôde presenciar
em relação ao seu próprio pai, que vivia se afastando freqüentemente dos filhos e da mulher, em
função de sua condição de nobre, justamente, porque, de acordo com Philippe Ariès, "o sucesso
só podia ser obtido graças ao favor dos grandes e a amizade dos pares"7, de que Richelieu nunca
esqueceu e a quem sempre esteve atento.
Pensar sobre tais assuntos nos reporta às idéias que dizem respeito à intensa procura pelo centralismo régio e como ele teve avanços e retrocessos. A riqueza dos detalhes, a importância velada de se manter diante de qualquer um, a dissimulação e a arte de agradar mesmo nas piores circunstâncias, são atitudes reveladas por Richelieu em seu Testament Politique. Em meio a muitas artimanhas, hábito comum em sua época, "(...) em que o fingimento, admitido como rotineiro era menos culpado..." e que a dissimulação era "vista com alguma inocência" 8, o testamento surge como instrumento educativo, espécie de catecismo para adolescentes9. Mesmo
que lhe falte "o acabamento de estilo das máximas que fizeram famosos os salões da França" 10,
tentou adaptar o príncipe aos jogos do poder para conseguir centralizá-lo em suas mãos. De modo geral, Philippe Ariès opina contrariando uma suposta idéia de centralidade:


"Os historiadores já insistiram na manutenção até muito tarde no século XVII de relações de dependência que antes haviam sido negligenciadas. A centralização monárquica de Richelieu e de Luís XIV foi mais política do que social. Se ela conseguiu reduzir os poderes políticos rivais da coroa, deixou intactas as influências sociais. A sociedade do século XVII na França era uma sociedade de clientelas hierarquizadas, em que os pequenos, os 'particuliers' se uniam aos maiores. A formação desses grupos implicava toda uma rede de contatos quotidianos, sensoriais"11.


É notável a maneira pela qual se desenvolvem as teias sociais. As ligações proporcionadas possuem vínculos, cujos códigos e símbolos são internalizados pelos membros diretamente ligados ao conjunto dos indivíduos. Cada indivíduo internaliza os códigos e símbolos para estabelecer uma relação de reciprocidade, sendo que a não-internalização pode ocasionar o estranhamento diante da realidade que se apresenta. Por isto, quem nunca entrou em contato com tais jogos, acredita estar presenciando uma realidade que não é a do seu mundo12. Devido à série de elementos que precisam de inúmeros códigos para conseguir penetrar em suas tramas sociais, torna-se evidente que a centralidade de um poder que se deseja único, falha em suas mais diferentes áreas de atuação. No tocante à infiltração social, os costumes e a ideologia monárquica mantêm distantes, por exemplo, do sonho camponês, com seus desejos e preocupações; com as intempéries e a luta pela obtenção de maior quantidade de produtos de subsistência. O desejo do comerciante, que negocia as mercadorias adquiridas no campo, nas oficinas ou no comércio com outras regiões da Europa, não consegue manter uma ligação direta com muitos dos símbolos corteses dos palácios reais. De forma clara e objetiva, Jean-Marie Apostolidès esclarece que, mesmo abordando o povo e a nação à época de Luís XIV, as cerimônias e os seus respectivos símbolos definem a condição de participante e de espectador:



"A nação é constituída pelos indivíduos das três ordens que possuem a maior quantidade de bens. Forma o embrião da burguesia, na acepção da palavra no século XIX. No momento da entrada, somente uma minoria vinda das três ordens é chamada a desfilar com o príncipe, a fazer
parte do espetáculo diante do povo que ela representa. O cerimonial monárquico acentua assim uma polarização social que ele traduz concretamente. A sociedade francesa cristaliza-se através de um ritual festivo cujas imagens servirão de suporte à nova consciência: conforme se desfila ou não, pertence-se à nação ou ao povo. Não se trata de negar a diversidade dos subgrupos que constituem o povo e a nação, mas a separação em dois blocos, latente na vida diária, tornou-se manifesta à época da entrada. A festa vem a ser uma ocasião para exprimirem-se as novas divisões sociais. Fornece-lhes um brilho que as sanciona à vista de todos. O visual precede o escrito, servindo-lhe de esboço: a imagem permite a tomada de consciência de uma dicotomia que a lei mais tarde reforçará. De um lado, aqueles que tomam parte da procissão, o alto clero, a
nobreza da corte, a minoria poderosa do terceiro estado; na frente, os espectadores comprimidos
ao longo da passagem do cortejo. A milícia burguesa, formando uma ala de honra nas ruas, enfatiza a separação entre os que estão associados à cerimônia e os que são apenas espectadores.
Estes, nos jornais, são genericamente designados como povo, ou um de seus derivados de
conotação pejorativa"13


Para ler a matéria completa clique no endereço http://www.historia.uff.br/cantareira/novacantareira/artigos/edicao1/oprincipeeosestadosdoreino.pdf


Revista Cantareira - UFF

O eremitismo nos séculos XII e XIII


O eremitismo nos séculos XII e XIII
Elisabeth da Silva dos Passos
Aluna do Curso de Graduação em História da UFRJ


Orientanda da Prof.ª Dr.ª Andréia C. L. Frazão da Silva


Atualmente vivemos em uma sociedade marcada pelo embate entre o processo de individualização e a vida em sociedade. O indivíduo é, a todo momento, impulsionado a competir, a alcançar as suas metas, porém, seguindo as regras sociais, que determinam o seu comportamento, o que gera diversos problemas sociais, que se expressam pelo medo constante do outro e por uma busca pelo isolamento.

Como coadjuvante neste processo, temos a violência que nos afeta tanto em termos psicológicos quanto físicos, fazendo com que busquemos mecanismos que garantam a nossa segurança, seja em casa ou em qualquer outro lugar. Nesse sentido, a Internet desempenha um papel essencial, pois o contato com o mundo ocorre através de um universo virtual, em que dois pontos aparecem em destaque, uma suposta segurança e cada vez mais o isolamento do indivíduo que não precisa se relacionar diretamente com outras pessoas.

Após termos exposto alguns dos fatores que fazem com que na sociedade atual procuremos nos isolar, poderíamos nos perguntar por que motivos, em outras épocas, as pessoas buscavam isolar-se, mais precisamente, na Idade Média Ocidental?

Durante a Idade Média, esta busca pelo isolamento é denominada de eremitismo, cuja representatividade se expressa em dois momentos de expansão e crescimento do movimento eremítico: o primeiro nos séculos III e IV e o segundo nos séculos XII e XIII. Priorizaremos os aspectos da espiritualidade eremítica que se referem ao segundo período.

O fenômeno eremítico, ressurgido no século XI, recebeu uma forte influência dos Padres do Deserto, cuja ascese era extremamente rigorosa. Muitos eremitas eram penitentes, esmeravam-se na mortificação da carne. Jesus Cristo era o modelo de espiritualidade do período. Grande parte destes homens desejava seguir nu o Cristo nu.

Contudo, devemos enfatizar que a proposição de maior relevância do eremitismo desta época, relacionava-se a busca pessoal de Deus, que se acreditava proporcionar aos leigos o acesso a salvação.

O eremitismo dos séculos XII e XIII foi permeado pelo retorno às fontes, o ideal da vida apostólica e da Igreja Primitiva. Ou seja, os eremitas desejavam imitar rigorosamente os preceitos espirituais presentes no projeto de vida religiosa de Jesus.

No século XII o eremitismo teria se desenvolvido em três vertentes principais. A primeira consistia na prática da ascese antecedendo a pregação, geralmente, dirigida aos grupos mais necessitados espiritualmente, como os leprosos e as mulheres, ressaltando a questão da pobreza. A segunda propunha que os eremitas estabelecessem vínculos com um mosteiro. E, a última, seria exemplificada através da Ordem dos Cartuxos, que requeria uma vida de penitência e isolamento rigoroso. Bruno, o seu fundador, procurou combinar o ideal eremítico, "expresso na busca de Deus através da contemplação", com o cenobitismo, ressaltando, a busca pessoal de Deus.

Por causa da ausência de desertos na Europa Ocidental, os eremitas buscariam refúgios em locais remotos e desabitados, como cimos de montanhas e florestas. A descrição da aparência destes homens era terrível, assim como, as suas habitações. Vestiam-se muito pobres, as pernas apareciam semi-descobertas, usavam barba comprida, pés descalços e, levavam consigo o cilício. A austeridade de suas habitações pode ser constatada através da escolha dos locais, pois viviam em covas, gargantas, ilhas selvagens, bosques funestos e terras não desbravadas.

Podemos dizer que na Europa Medieval nos séculos XII e XIII ser eremita estava intrinsecamente articulado a religiosidade. O eremitismo era um fenômeno religioso marcado essencialmente pela contemplação, ou seja, as orações em retiro, a penitência, a busca pelo isolamento e a mortificação da carne. Através destas práticas culturais específicas da espiritualidade eremítica, estes indivíduos buscavam manter contato com Deus. Em contraposição, atualmente buscamos o isolamento por questões relacionadas a inseguridade social em que vivemos, isto é, algo com a mesma simbologia, mas que ocorre por razões diferentes.

Sugestões de Atividades:

Verificar se existem grupos sociais atualmente que se inserem nos padrões de vida eremítica do período medieval.

Refletir por que alguns grupos religiosos têm buscado o isolamento na sociedade atual.

Para saber mais:

BERLIOZ, Jacques. Monges e religiosos na Idade Média. Lisboa: Terramar, 1996.

BOLTON, Brenda. A Reforma na Idade Média. Lisboa: Edições 70, 1993.

DALARUN, Jacques. Amor e Celibato na Igreja Medieval. São Paulo: Martins Fontes, 1990

Vauchez, A. A espiritualidade na Idade Média Ocidental: séculos VIII à XIII. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
http://www.ifcs.ufrj.br/~frazao/eremitismo.html

Michelangelo e a Sistina


Michelangelo e a Sistina
Magoado com o papa, o artista não queria pintar o teto da capela

por Sérgio Miranda

O conjunto de afrescos pintados no teto da Capela Sistina, no Vaticano, forma uma das mais belas e importantes obras-primas da história. No entanto, Michelangelo jamais aceitou de bom grado a encomenda do papa Júlio II para realizar a pintura, em 1506. Tanto que começou o trabalho só dois anos depois.

A recusa de Michelangelo tem uma explicação. Ele passara o ano de 1505 envolvido com a construção do túmulo do papa. Estava tão obstinado que ficou oito meses em Carrara cavando mármores e enviando a Roma. Quando a praça de São Pedro já acumulava centenas de blocos de mármore, outro escultor, Bramante (1444-1514), persuadiu o papa não só a construir um túmulo para si mas também a reconstruir toda a praça – trabalho que seria feito por ele. O pontífice embarcou na idéia e abandonou o projeto de Michelangelo, que ficou cheio de dívidas. E de rancor.

Assim, a encomenda do papa para a pintura da Sistina chegou como uma ofensa aos ouvidos de Michelangelo, que fazia questão de afirmar-se como escultor e considerava a pintura uma arte menor. Ele resistiu até 1508, quando a insistência de Júlio II se transformou em uma ordem. Ascanio Condivi, discípulo e biógrafo de Michelangelo, escreveu que foram os inimigos do artista que convenceram o papa a chamá-lo para fazer a abóbada. Esperavam que ele fracassasse em pintar a imensa superfície de 680 metros quadrados. Consciente de que sua carreira estava em jogo a partir daquele trabalho, Michelangelo decidiu mostrar ao papa – e ao mundo – o que o escultor era capaz de fazer.

Trabalho árduo
A pintura começou em 1508 e foi concluída apenas em 1512
Cenas bíblicas

Depois de alguns estudos, Michelangelo decidiu conceber a obra como uma composição única com cenas do Antigo Testamento da Bíblia, como a criação de Adão, a expulsão do Paraíso e o dilúvio. Os traços vão além de imitações de formas naturais e idealizam a busca de um modelo de beleza clássica.

Linhas certas

O afresco é a técnica de pintura mural mais antiga e resistente. A pintura é feita sobre argamassa de cal queimada e areia úmida – ou fresca, daí o nome. Como seca muito rápido, o pintor tem de ter uma idéia precisa do trabalho e executá-lo rapidamente.

Céu estrelado

A Sistina tem pinturas de outros artistas, como Sandro Botticelli, Cosimo Rosseli e Domenico Ghirlandaio. Todas foram feitas entre 1481 e 1483. Quando começou sua obra, Michelangelo encontrou um grande céu estrelado pintado por Pier Matteo D’Almelia no teto onde executaria seus afrescos.

Serviço insalubre

Por mais de quatro anos, com breves intervalos, Michelangelo trabalhou em pé com a cabeça virada para cima. Tanto que, meses depois de terminada a obra, tinha que colocar acima da cabeça tudo o que precisava ler. Por vezes, para driblar a fadiga, o artista trabalhava deitado.

Me deixem só

Outra tarefa que o artista delegou aos assistentes foi a montagem dos andaimes, a limpeza dos pincéis e o preparo dos pigmentos e da argamassa. Ele rejeitou ajuda até mesmo de gente trazida de Florença pelo amigo Grannacci, como Giuliano Bugiardini e Aristotele de Sangallo.

Tamanho GG

Embora pudesse contar com vários artistas e aprendizes, Michelangelo decidiu trabalhar sozinho na pintura. Aos poucos assistentes que aceitou, sobravam tarefas como ampliar os originais do mestre que vinham em escalas menores.

Revista Aventuras na História

Guerra Civil: Fúria espanhola


Guerra Civil: Fúria espanhola
Testemunha de uma das maiores e mais violentas guerras civis européias, o casal Valverde, que hoje vive em terras brasileiras, fez oposição às tropas do general Franco, na Espanha
por Márcio Sampaio de Castro

- Guerra Civil Espanhola: luzes sobre um conflito obscuro
- A guerra foi um laboratório


A Guerra Civil Espanhola, ocorrida entre 1936 e 1939, dividiu ideologicamente o país ao meio e custou, segundo estimativas, a vida de quase 1 milhão de pessoas. Tudo começou após um golpe militar contra o presidente socialista Francisco Largo Caballero. A insurreição fracassou, mas o confronto se espalhou pela Espanha. Liderados pelo general Francisco Franco, os rebeldes – reunidos no chamado Exército Nacionalista – ganharam o apoio dos regimes fascistas de Mussolini, na Itália, e Hitler, na Alemanha. Enquanto isso, as forças republicanas, leais ao governo espanhol, foram ajudadas pela União Soviética de Stálin.

Quando o conflito começou, Francisco Valverde Plaza tinha 17 anos e se alistou nas forças republicanas. Remédios Mora Perez de Valverde, sua noiva à época, três anos mais nova, não se engajou na luta, mas acompanhou todos os horrores da guerra em sua cidade natal, Barcelona – ela ainda se recorda claramente do temor que sentia dos bombardeios alemães sobre a região. Casados há mais de 60 anos e morando no Brasil desde 1953, os dois sobreviveram ao confronto (que terminou com a vitória dos nacionalistas e inaugurou a longa ditadura de Francisco Franco).

Francisco, ou simplesmente Paco, não consegue se lembrar de muitos dos detalhes de sua passagem pelo Exército Republicano Espanhol: aos 88 anos, tem a memória cada vez mais afetada pelo mal de Alzheimer. Nesta entrevista para História, realizada na residência do casal em Campinas, no interior de São Paulo, Remédios ajudou o marido a relembrar o passado. Enquanto isso, a pequena bisneta do casal corria pela casa, ainda alheia às aventuras vividas por eles na maior guerra civil de um país europeu durante o século 20. Naqueles tempos, os Valverde presenciaram cenas de morte e destruição, mas também de solidariedade.

História – Vocês chegaram a lutar na Guerra Civil Espanhola?

REMÉDIOS – Éramos contra as forças de Franco. Paco foi à guerra com 17 anos, porém não disparou um tiro. Ele fez parte do Estado-Maior (do Exército Republicano) trabalhando na cozinha. Após uma temporada nos Pirineus (região montanhosa na fronteira com a França), queimou os olhos por causa da neve. Foi dado como inútil para o combate.

Quando se conheceram? Foi durante a guerra?

PACO – Antes da guerra.

REMÉDIOS – Um irmão dele, Pepe, era casado com minha tia e eles moravam na Andaluzia (região que fica no sul da Espanha). Esse irmão, que era contra todo tipo de política, se meteu em uma revolta em Almería e o casal teve que se mudar para Barcelona. Eu, que havia nascido na cidade, fui com meus parentes recebê-los no porto e Pepe me disse: “Você se casará com meu irmão Paquito”. Eu nem o conhecia, pois Paco estava no sul com a mãe. Isso foi bem antes da guerra. Quando ela começou, Pacofoi para Barcelona e, logo em seguida, para a guerra.

Como era o envolvimento de vocês com a política antes da guerra? Se entendi bem, o irmão do Paco era anarquista...

PACO – Sim, ele era anarquista. Tinha também uma pequena oficina.

REMÉDIOS – Eles puseram uma bomba lá em Almería e tiveram que fugir para Barcelona.

A região de Andaluzia foi o primeiro ponto da reação nacionalista contra o governo, não?

PACO – As tropas de Franco vieram do norte da África, porque ele pertencia às tropas de ocupação do Marrocos (na época, os espanhóis dominavam parte daquele país). Andaluzia foi uma das primeiras regiões a cair, bem antes de Barcelona, por causa dessa proximidade com o estreito de Gibraltar.

Como um jovem de apenas 17 anos acabou se engajando na política e em uma guerra civil?

PACO – Quando a guerra estava na iminência de começar, quando a República começou a ficar enfraquecida, houve um sentimento nacional de tentar salvá-la. Não era questão de engajamento político, mas de salvar a República.

A República começava a operar algumas transformações na Espanha, como a reforma agrária e a criação das colônias de férias para os trabalhadores. Quais mudanças foram mais marcantes?

PACO – As colônias de férias, a educação....

REMÉDIOS – A República durou tão pouco! Eu mesma nunca fui a uma dessas colônias.

PACO – Franco representava o fim da República.

REMÉDIOS – Dizem que ele matou mais gente depois que ganhou a batalha do que durante a guerra.

O senhor foi a Barcelona para se engajar nas tropas republicanas?

PACO – Não, fui para trabalhar. O sul da Espanha era muito pobre. Fui para a casa de Pepe, em Barcelona, à procura de trabalho.

Como o senhor foi para a guerra?

REMÉDIOS – Ah, isso é fácil de entender. Quando chegavam aos 18 anos, os jovens eram enviados pelo governo para onde fosse necessário (como recrutas), mas se um jovem quisesse ir antes dessa idade, tudo bem. Pepe agiu para que ele fosse primeiro para o hospital militar onde o próprio irmão já servia. Depois, Paco foi trabalhar na cozinha do Estado-Maior, nos Pirineus. Isso foi em 1936.

E a senhora? Como foram os anos de guerra em Barcelona?

REMÉDIOS – A guerra durou três anos e inicialmente só escutávamos os disparates que faziam. Em Madri, quando os fascistas entravam na cidade, as mulheres jogavam óleo pelas janelas sobre eles. Depois vieram os alemães e os italianos bombardear as cidades.

Como era a sensação de ter exércitos estrangeiros combatendo em plena guerra civil?

REMÉDIOS – Morria de medo... O primeiro bombardeio em Barcelona foi realizado por um navio alemão. A oficina onde eu trabalhava foi destruída, assim como uma série de casas e prédios de apartamentos residenciais. Muita gente morreu. No último ano da guerra, os alemães vinham bombardear a cidade dia e noite. Uma coisa que ficou em minha cabeça foi uma das bombas que atingiu uma moça que estava amamentando. Enfim, os horrores da guerra. Mas não havia como vencer as tropas do Franco, a guerra estava perdida desde o começo. Nos locais ocupados pelos republicanos havia muitos fascistas infiltrados. Por exemplo, no hospital militar. Eram os “quinta-coluna”, todos disfarçados. Não era assim que se chamavam, Paco?

PACO – Sim, quinta-coluna.

REMÉDIOS – Um tio meu, irmão de minha mãe, trabalhava na despensa do hospital militar, onde ficava o almoxarifado. Ele contava que chegavam soldados da linha de frente com as pernas machucadas, que poderiam ser tratadas sem problema, mas os médicos as cortavam. Por quê? Porque eram fascistas.

A República havia separado, pela primeira vez na história espanhola, a Igreja do Estado, não? Foi por isso que o clero apoiou os nacionalistas?

REMÉDIOS – Ah, naquele tempo, se a pessoa não se casasse na igreja, não era casada. Quando Franco chegou ao poder, os padres o abençoaram, mesmo sabendo de toda a maldade que esse homem havia feito. Durante a guerra, as tropas da República entravam nos conventos de clausura. Eu, muito jovem ainda, ia atrás para ver o que eles retiravam de dentro desses conventos. E sabe o que tiravam de lá? Muitos nenês! De quem eram aqueles bebês?! Era uma verdadeira farra.

Bebês vivos?

REMÉDIOS – Mortos! As milícias retiravam os caixões com os nenês. Depois se descobriu que todos os grandes conventos em Barcelona eram interligados por túneis. Havia até um caixão de uma freira com todos os pregos quase para fora e a morta toda retorcida lá dentro! Isso era um terror! Vi todas essas coisas. Paco ainda não havia ido para a guerra e ajudava as milícias a pegar os caixões.

O objetivo era mostrar as atrocidades cometidas pela Igreja espanhola.

REMÉDIOS – Sim, sim, para mostrar. Quem nasceu depois da vitória de Franco não acredita nessas coisas.

Havia também os combatentes das Brigadas Internacionais, lutando ao lado dos comunistas...

PACO – Não combatemos juntos. Somente na França, já no campo de concentração (um dos acampamentos em que o governo francês manteve temporariamente os republicanos que haviam atravessado a fronteira), é que conheci os russos. Nós morríamos de frio e eles achavam graça. Ganhei dois cobertores deles, que cheguei a trazer para o Brasil.

No fim já estavam sem recursos...

PACO – Não tínhamos nada. Passamos muita fome e frio enquanto fugíamos para a França.

Vocês tinham a esperança de receber asilo dos franceses?

PACO – Sim.

Quanto tempo o senhor ficou preso?

PACO – Na França fiquei alguns dias, pois o governo logo nos mandou embora. Voltei para a Espanha no teto de um trem. Ao passar pela fronteira fui detido e enviado a Santander, onde fiquei preso três meses.



O senhor foi ameaçado de fuzilamento?

REMÉDIOS – Ele era um criançola, não representava perigo. Todavia, precisava apresentar-se à polícia a cada três meses, depois que saiu do campo.

PACO – Queriam saber o que eu estava fazendo, se estava trabalhando...

E seu irmão?

PACO – Também foi ao campo de concentração, mas depois o soltaram.

E depois da guerra?

REMÉDIOS – Ah, passamos mais fome depois do que durante a guerra. Franco deu a comida que era dos espanhóis para os italianos e os alemães, como pagamento pela ajuda recebida. A guerra acabou em 1939, mas em 1953 ainda havia racionamento!

Que tipo de perseguição os ex-combatentes republicanos sofreram?

PACO – Coisas tolas. Eu possuía uma oficina de marcenaria e não tinha o direito de solicitar a força trifásica de eletricidade, que era mais barata.

REMÉDIOS – Ele sempre dizia que desejava sair da Espanha, que queria que nossa filha estudasse, e pensava em vir ao Brasil... Eu ficava apavorada! Falavam tão mal do Brasil que toda vez que ele vinha com esse assunto eu ficava louca. Primeiro mudamos para Madri, para tentar a sorte, mas não deu certo. Então ele disse que quando nascesse a criança iríamos para o Brasil.



Vieram todos juntos?

REMÉDIOS – Paco veio primeiro, em 1953. Nós viemos um ano depois.

O senhor conhecia alguém por aqui?

PACO – Tinha um amigo em São Paulo e fui morar com ele. Nos preparativos para o quarto centenário da cidade, trabalhei na montagem dos estandes e conseguidinheiro para trazer a família.

Vocês voltaram à Espanha alguma vez?

REMÉDIOS – Voltamos em 1967, mas em minha própria terra não me sentia bem. Pessoas que haviam combatido ao lado dos republicanos diziam que Franco, que ainda estava vivo, não era tão mau assim. A vida havia melhorado e esqueceram o passado. “Franquito” virou um deus.

Saiba mais
Livro

Lutando na Espanha, George Orwell, Globo, 2006.

Esta obra é considerada o registro definitivo do autor sobre suas experiências como combatente das Brigadas Internacionais e um vivo relato sobre a Guerra Civil Espanhola.


Revista Aventuras na História

AK-47: Fuzil da discórdia


AK-47: Fuzil da discórdia
Versão de que Allende se suicidou com arma de Fidel Castro é questionada

por Luciana Taddeo
Em homenagem póstuma a Salvador Allende, falecido em 11 de setembro de 1973, Fidel Castro se gabou pelo fato de o fuzil usado pelo chileno para a defesa do Palácio de La Moneda e com o qual cometeu suicídio ter sido o AK-47 presenteado por ele: “Foi com propósito e premonição que nós lhe oferecemos esse fuzil automático. Nunca um fuzil foi empunhado por mãos tão heróicas”. No entanto, essa versão entra em choque com imagens e testemunhos dos últimos momentos do ex-presidente do Chile. As contradições são levantadas pelo jornalista chileno Camilo Taufic, que afirma que, naquele dia, o mimo dado por Castro estava guardado na residência presidencial. A informação seria de um amigo íntimo de Allende, Víctor Pey.

Qual seria o fuzil empunhado por Allende, afinal? Após a morte do presidente, o general Javier Palacios Ruhmann, então chefe de inteligência do Exército, exibiu um AK-47 de metal negro, com correia porta-fuzil negra e uma lâmina pregada à arma com a dedicatória “A Salvador, de seu companheiro de armas, Fidel Castro”, com que Allende teria se suicidado. Também escuro e de culatra preta é o fuzil em uma foto feita no dia de sua morte.

Mas outras fontes citam armas diferentes. No livro El Día Decisivo: 11 de Septiembre de 1973, escrito por Augusto Pinochet, uma foto mostra um fuzil com correia branca e culatra de madeira – um soldado exibe essa mesma arma, em que se distingue o nome “Allende” e a rubrica de Castro, numa imagem feita dias depois do golpe. Contudo, em 2003, um militar disse à revista El Periodista ter encontrado uma arma alemã da marca Rheinmetall, que não fabrica fuzil, perto do corpo do líder chileno. E, em relato ao jornal La Tercera, o então subinspetor da Brigada de Homicídios, Julio Navarro, que examinara o corpo, afirmou: “Na culatra estava a placa com a dedicatória de Castro e o número da arma: 1651”. Só para confundir ainda mais, na foto cedida pelo Exército chileno e publicada na mesma reportagem, um oficial mostra a culatra sem placa e com o registro 4173 junto ao nome de Allende. O fogo cruzado de informações começou e não tem hora para acabar...

Ninguém sabe, ninguém viu
Fuzil dado por Fidel sumiu
Segundo o chefe de comunicações internas do Exército chileno, Guillermo O’Ryan, não se sabe a atual localização do fuzil presenteado por Fidel Castro a Salvador Allende. De acordo com o jornalista Camilo Taufic, o AK-47 de metal negro apresentado por Javier Palacios como sendo o que Allende usou para cometer suicídio foi confiscado e destruído, a mando de autoridades militares.

Revista Aventuras na História

Aniversário de Jesus já foi celebrado em várias datas


Aniversário de Jesus já foi celebrado em várias datas
Até o século 4, a data era festejada em 6 de janeiro
por Bruno Vieira Feijó
Houve um tempo em que a Igreja não comemorava oficialmente o Natal – entre outros motivos, por não saber o dia em que Jesus nasceu. Embora o período tivesse sido mais ou menos calculado (a data seria no ano 6 a.C), em nenhum momento, nos primeiros 200 anos do cristianismo, o dia é mencionado. A especulação só começou por volta dos séculos 3 e 4, em resposta aos festejos promovidos pelos romanos com orgias e banquetes em reverência a divindades pagãs.

Nessa época, pelo menos oito datas diferentes foram propostas para o nascimento de Cristo. Duas datas, entretanto, prevaleceram e são usadas até hoje. Primeiro, veio o 6 de janeiro, uma comemoração feita no Oriente para o suposto dia em que Jesus fora batizado – a Igreja Ortodoxa armênia comemora o “natal” nesse dia.

A partir do ano 336, quando o imperador Constantino já havia declarado o cristianismo como a religião do Império Romano, veio o 25 de dezembro, adotado pela Igreja ocidental. O 6 de janeiro ficou, então, reservado ao dia em que Cristo teria aparecido aos três Reis Magos, herança das lendas epifânicas, nas quais os deuses se manifestam aos seres humanos.

As escolhas das datas não foram aleatórias. Ambas rivalizavam com festas pagãs realizadas no mesmo período, como a da religião persa que celebrava o Natalis Invicti Solis, a do deus Mitra e outras decorrentes do solstício de inverno e dos cultos solares entre os celtas e germânicos. “O 25 de dezembro foi uma conveniência para facilitar a assimilação da fé cristã pela massa de pagãos”, admite Mario Righetti, um dos mais renomados intelectuais católicos, em sua obra História da Liturgia, de 1955.

Então é Natal...
Moda pagã na festa cristã
TROCA DE PRESENTES

Existia em Roma na Saturnália, festa para o deus Saturno. Depois, ficou ligada aos Reis Magos e seus presentes dados a Jesus.

ÁRVORE DE NATAL

Tribos celtas e germânicas adoravam as árvores que suportavam o inverno, como o carvalho e o pinheiro, e as enfeitavam com frutas e doces.

COMILANÇA

A esperança da volta da luz, com o fim do inverno, era festejada com orgias, danças, banquetes e muita, mas muita bebida.


Vai rolar a festa?
Igreja relutou em celebrar o Natal
Se o nascimento de Cristo tivesse sido comemorado desde início do cristianismo, não haveria tanta confusão. Mas, naquela época, era comum celebrar a morte de pessoas importantes e não o nascimento. A Igreja sempre fez questão de lembrar o sacrifício do filho de Deus. Solenizar o aniversário de Cristo com festa, “da mesma forma como se honrava um faraó ou Herodes”, nas palavras do teólogo Orígenes de Alexandria (185-253), era indecência para os puritanos. Mesmo depois de aprovada, várias vezes se cogitou terminar com a festa pelo nascimento de Jesus. Algumas reformas protestantes, a partir do século 15, conseguiram fechar igrejas que insistiam na celebração do Natal.

Revista Aventuras na História

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A mulher na Idade Média: a construção de um modelo de submissão



Fabrícia A. T. de Carvalho
Aluna do Curso de Graduação em História da UFRJ
Orientanda da Prof.ª Dr.ª Andréia C. L. Frazão da Silva

A história das mulheres na Idade Média é um tema que foi por muito tempo desprestigiado pelos historiadores, mas, atualmente, por ser rico e pródigo em possibilidades de estudo, vem atraindo a muitos estudiosos, inclusive de outras áreas, como teólogos e sociólogos.

Na Idade Média, a maioria das idéias e dos conceitos eram elaborados pelos eclesiásticos. Esses homens possuíam acerca da mulher uma visão dicotômica, ou seja, ao mesmo tempo em que ela era tida como a culpada pelo Pecado Original, a Virgem Maria foi a mulher que deu ao mundo o salvador e redentor dos pecados. Mas, por que os clérigos tinham essas idéias sobre a mulher?

O conceito dicotômico feminino está presente no cristianismo desde de sua consolidação. Durante o período de sua afirmação como religião, o cristianismo sofreu um processo de cristalização baseado em um doutrina ascética e repressora, como reflexo das diversas ideologias presentes nos trezentos anos que levou para se estabelecer. A desconfiança sobre a carne, intrinsecamente ligada a figura feminina, e sobre o prazer sexual era encontrada nas filosofias platônica, aristotélica, estóica, pitagórica e gnóstica. Essas filosofias foram amplamente utilizadas pelos Pais da Igreja (João Crisóstomo, Jerônimo e Agostinho, dentre outros) para dar embasamento filosófico a doutrina cristã.


Os textos desses teóricos do cristianismo foram usados pelos homens da Igreja durante toda a Idade Média e continuam a ser consultados. As mulheres passaram, ou melhor, continuaram a ser consideradas pelo clero como criaturas débeis e suscetíveis as tentações do diabo, logo, deveriam estar sempre sob a tutela masculina. Para propôr e estender suas verdades e juízos morais, a Igreja utilizava-se de um veículo eficiente, a pregação e, em especial no século XIII, a que era feita pelos franciscanos, nas ruas das cidades, para toda a população.

Nos sermões feitos pelos pregadores era muito comum o uso do exempla, que eram histórias curtas e que poderiam relatar a vida de um santo ou santa (hagiografia). As vidas de algumas santas, de preferência de prostitutas arrependidas, eram utilizadas nos sermões. Nelas, todas as características que eram atribuídas as mulheres apareciam e eram assim difundidas e disseminadas por toda a Cristandade.

A mulher, personificada em Eva, é a pecadora, a tentadora, aliada de Satanás e culpada pela Queda. Eva concentra em si todos os vícios que trazem símbolos tidos como femininos, como a luxúria, a gula, a sensualidade e a sexualidade. Todos esses atributos apareciam nos exempla. E como forma de salvação para a mulher, eles ofereciam a figura de Maria Madalena, a prostituta arrependida mais conhecida, e que se submeteu aos homens e a Igreja.

Esta concepção da mulher, que foi construída através dos séculos, é anterior mesmo ao cristianismo. Foi assegurada por ele e se deu porque permitiu a manutenção dos homens no poder, fornecia uma segurança baseada na distância ao clero celibatário, legitimou a submissão feminina e sufocou qualquer tentativa de subversão da ordem estabelecida pelos homens. Esta construção começou apenas a ruir, mas os alicerces ainda estão bem fincados na nossa sociedade.

Sugestões de Atividades:

Identifique quais os métodos explícitos ou implícitos de controlar e tutelar a mulher na sociedade ocidental atual.

De que forma as concepções clericais medievais continuam presentes em nossa sociedade atual e como elas se manifestam?

Para saber mais:

BLOCH, H. Misoginia Medieval e a invenção do amor romântico ocidental. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995. p. 89 - 121.

DUBY, G., PERROT, M. (dir.) História das Mulheres: a Idade Média. Porto: Afrontamento, 1990.

PILOSU, M. A Mulher, a Luxúria e a Igreja na Idade Média. Lisboa: Estampa, 1995.

Os Leprosos na Idade Média

Os Leprosos na Idade Média

Fani Farias de Souza


Acredita-se que a lepra havia sido introduzida na Europa Ocidental através das Cruzadas, devido ao contato com o leste onde era endêmica. Porém, este pensamento tem sido contestado pelos estudos mais recentes, na medida em que existem evidências da presença dos leprosos na Europa Ocidental antes das Cruzadas.

Por falta de um conhecimento mais específico sobre as doenças, havia na Idade Média uma dificuldade de se diagnosticar a lepra. Por isso, ela era muitas vezes confundida com outros tipos de enfermidades, principalmente com as de pele e venéreas. Partindo desta premissa, a segregação dos leprosos pode ser vista também como uma maneira, empregada pelos homens da Idade Média, de afastar da sociedade um símbolo vivo da lascívia e da promiscuidade. Neste sentido, a lepra era tida como um símbolo do pecado, como um sinal externo e visível de uma alma corroída pelo erro e, em especial, pela transgressão sexual.

A identificação do leproso era feita, inicialmente, através da denúncia. Qualquer pessoa que notasse uma doença de pele num vizinho, parente ou cônjuge, deveria indicá-lo à autoridade secular ou religiosa para que um tribunal fosse convocado.

O doente comparecia perante um júri composto por um médico, um preboste e um padre, que representavam a Ciência, o Estado e a Igreja. A pele do acusado sofria um exame minucioso e precisava passar por vários testes. Um deles afirmava que se pusesse uma pessoa ao luar, de forma que os raios lhe batessem na face, o leproso ficaria marcado por diversas cores, enquanto que o homem saudável pareceria pálido. Um outro dizia que se espalhasse cinzas de chumbo queimado na urina de um leprosos, elas ficariam a boiar, enquanto, normalmente, cairiam no fundo do recipiente.


Com esses tipos de teste, o número de pessoas consideradas leprosas era grande. Os suspeitos podiam contestar, mudar de jurisdição, ou mesmo exigir novos peritos. Mas, uma vez estabelecida a natureza da lepra pelo tribunal, os leprosos eram excluído da comunidade e de toda vida social. Em certos lugares eram realizadas cerimônias macabras que solenizava o dia da separação do leproso da sociedade. Esquematicamente, ela consistia em levar o doente à igreja, em procissão, ao canto do "Libera – me" como para um morto, para a celebração de uma missa que o doente escutava dissimulado sob um cadafalso, sendo depois acompanhado à sua morada. Durante a missa ou à saída da igreja tem lugar um ritual: "o padre deve ter uma pele na mão e com essa pele deve pegar terra do cemitério, três vezes, e pô-la na testa do leprosos, dizendo o seguinte: Meu amigo, é sinal de que estás morto para o mundo e por isso tem paciência e louva em tudo a Deus." A leitura das proibições, como, por exemplo, entrar nos moinhos, tocar nos alimentos e etc. acompanhava a entrega e benção das luvas, da matraca e da caixa das esmolas, elementos que o leproso deveria usar para que assim fossem rapidamente reconhecidos pelos outros membros da sociedade.

Nas leprosarias, os doentes eram proibidos de tocar nos suprimento de comida, de andar de pés descalços, de ferver as suas roupas na hora de preparação da comida e de tirar água do poço, pois existia o medo de que suas mãos viessem a infectar as cordas das cacimbas.
As instituição específicas para o tratamento dos leprosos nasceram em um contexto de crescimento das hostilidades para com estes doentes e em meio a convicção de que eles deveriam ser separados do convívio social. Esses estabelecimentos teriam atingido a seu apogeu no final do século XI e início do século XII e o seu declínio no final do século XIII.

O crescimento das fundações de caridade para atender aos leprosos pode ser visto como um aspecto do desenvolvimento do individualismo religioso ( expressão pessoal de piedade ) e também para defender a riqueza, já que a acumulação ficava justificada se, ao menos parte dela, fosse gasta em atividades de caridade. Neste sentido, a Igreja desenvolveu um programa de ação contínuo e corrente para assegurar a segregação efetiva dos leprosos.

Um outro pensamento corrente na idade Média é de que, em certo sentido, os leprosos eram particularmente favorecidos por Deus, porque estavam sofrendo nesta vida, como Cristo havia sofrido. Deste modo, eles já estavam pagando em vida pelos pecados cometidos e quando viessem a falecer iriam direto para o céu. Não podemos esquecer que existia na Idade Média uma preocupação constante com a salvação da alma. Ou seja, a vida depois da morte era tida como certa, sendo assim, os ímpios não herdariam o reino do céu. Tal pensamento torna-se ambíguo, se considerarmos que os leprosos medievais carregavam consigo a marca do pecado e que por isso eram excluídos e segregados.

Sugestões de Atividades:

1º - Traçar um paralelo entre o tratamento social dado aos leprosos medievais e aos doentes de AIDS em nossa sociedade.

2º - Traçar um paralelo entre a forma como a lepra era vista no período medieval e no atual. Ou seja, em que pontos estas visões se aproximam e se afastam.

Para saber mais:

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, Desvio e Danação. As Minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1993.

LE GOFF, Jacques. As doenças têm História. Lisboa: Terramar, 1996.

GINZBURG, Carlo. História Noturna: Decifrando o Sabá. São Paulo: Companhia das Letras, 1991.
http://www.ifcs.ufrj.br/~frazao/leprosos.htm

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

BLOGS DA SEMANA

Inquisição, Idade Moderna e as bruxas: as mulheres em chamas


Inquisição, Idade Moderna e as bruxas: as mulheres em chamas
Durante mais de 300 anos, a mesma Europa que viu nascer a Idade Moderna e presenciou feitos como a conquista do Novo Mundo, a ascensão da burguesia comercial e o fim do domínio feudal, fez das fogueiras um instrumento de repressão e morte para milhares de mulheres condenadas por bruxaria.
por Cadu Ladeira e Beth Leite
As pilhas de lenhas e gravetos já estavam acesas e a multidão inquieta, aguardava o início do ritual que conhecia tão bem. Afinal, execuções eram espetáculos imperdíveis, que atraiam a atenção de pessoas vindas de vários cantos. Em meio ao ruído abafado dos comentários sobre os horrores que havia cometido, surgiu enfim a condenada. A turba, que já estava agitada, aproveitou para liberar a tensão reprimida: objetos, palavras de ódio, risos e piadas partiam de todas as direções contra a terrível criatura. Não houve muitas delongas. A sentença foi lida rapidamente, o carrasco, num gesto piedoso, estrangulou a condenada para que não enfrentasse as chamas viva e, em poucos minutos, seu corpo ardia, diante da aclamação selvagem da assistência. Durante mais de 300 anos, cenas como essa se tornaram corriqueiras nas praças públicas de boa parte da Europa e o caminho da fogueira se transformou no destino de milhares de mulheres. Nuas, montadas em vassouras, aterrorizando cidades, aldeias e castelos, no imaginário popular e religioso da época, as bruxas estavam por toda parte, semeando o pavor. A perversidade feminina campeava solta, a serviço dos mandos do demônio e precisava ser contida qualquer custo. De 1450 a 1750, poucas pessoas ousariam contradizer essa doutrina, repetida em tom de ameaça nos púlpitos dos pregadores católicos, assim como nos sermões protestantes depois da Reforma religiosa de Martinho Lutero no século XVI. Bruxaria era uma calamidade tão real quanto tempestades ou pestes, e intimamente ligada à natureza feminina. Com exceção de Portugal e Espanha, onde os principais perseguidos eram cristãos novos e judeus, em quase toda a Europa a porcentagem de mulheres excedeu 75% dos casos. Em algumas localidades, como o condado de Namur (atual Bélgica), elas responderam por 90% das acusações. Estima-se que 100 000 processos foram instalados pelo continente afora e pelo menos 60 000 vidas se perderam em meio às chamas. Foi em plena Idade Moderna — a mesma que presenciou a descoberta de um novo mundo com as grandes navegações, a ascensão da burguesia comercial, o fim do domínio feudal e a formação dos primeiros Estados nacionais europeus — que o temor às forças do mal deixou o campo da crendice popular para se tornar alvo de uma perseguição sistemática de tribunais leigos, religiosos e da Inquisição — sob controle papal. Não que as fogueiras tenham sido estranhas à sociedade medieval. A Idade Média também presenciou exibições do poder purificador das chamas, a mais notável delas, sem dúvida, aquela que consumiu a vida da jovem Joana d’Arc em 30 de maio de 1431, na cidade de Rouen, então sob domínio inglês. Heroína nacional, Joana ficou famosa depois que conduziu o exército francês à vitória sobre os ingleses em Orléans e deu início à revanche de seu país na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), até aquele momento vencida fragorosamente pelos britânicos. Em 1430, quando caiu prisioneira nas mãos do duque de Borgonha, aliado ao rei inglês Henrique V, seus inimigos aproveitaram a fama das visões que ela costumava ter desde pequena para levá-la à fogueira, mesmo sabendo de sua extrema devoção religiosa. Nesse caso, porém, o cunho político da condenação era tão óbvio, que antes do final daquele século ela seria reabilitada e em 1920 finalmente transformada em santa. Para bruxas menos famosas, no entanto, a chegada da Idade Moderna trouxe uma mudança radical na atitude da igreja e dos tribunais em relação ao universo da superstição, do paganismo e do mito com o qual, havia mais de 1500 anos, a Europa convivia. Na mitologia romana, Diana, deusa dos bosques e dos animais, já costumava guiar amazonas noturnas em cavalgadas celestes. Entre as crenças imemoriais germânicas, acreditava-se que figuras ameaçadoras, conhecidas como streghe, se reuniam na floresta em torno de caldeirões para realizar seus rituais. Depois se volatilizavam e invadiam as casas para chupar a vitalidade das crianças. Mas em meio à insegurança da aurora da modernidade, um tempo marcado por mudanças e desgraças contentes como fomes, pestes, guerras e conflitos religiosos, boa parte dessa tradição fantasiosa do passado acabou associada à certeza de que o demônio e suas seguidoras estavam determinados a dominar o mundo. Feitiços e mulheres voadoras tornaram-se, da noite para o dia parte te de uma grande conspiração demoníaca. Encantos e ungüentos — chamados na época de maleficia — que antes serviam para ajudar as pessoas se transformavam em passaporte certo para a morte.Não era preciso muito para provar que a ação infernal estava em andamento. Além das tradicionais acusações de possessões diabólicas, crises políticas e sociais, calamidades naturais ou qualquer outro acontecimento anormal eram capazes de detonar a mortandade. Em Trier, na França, uma feroz epidemia de processos contra as bruxas ocorreu entre 1580 e 1599, quando duas grandes colheitas foram dizimadas por alterações climáticas. No principado alemão de Ellwagen, em 1611, em Genebra em 1530,1545,1571 e 1615 e em Milão em 1630, para citar uns poucos exemplos, centenas foram condenadas à morte após um surto de peste. No século XVII, em Cambrai, também na Franca a instalação de novas indústrias no campo gerou uma onda de ansiedade entre os camponeses que logo desembocou numa grande caça.Algumas alegações contra a bruxaria eram tão descabidas, que só mesmo o clima de paranóia coletiva explicava a relação: em 1590, depois que uma tormenta no Mar do Norte destruiu um dos navios da comitiva de Jaime VI da Escócia e de sua noiva, Ana da Dinamarca, os dois países iniciaram uma cruel perseguição a feiticeiras. As grandes caçadas vinham assim: como tempestades de verão, chegavam avassaladoras e de surpresa, mas tinham curta duração. Quase sempre, após um período de frenética perseguição, as comunidades se aquietavam durante os anos seguintes. Era como se tivessem se livrado de um cancro. Escritos da época registram o quase inacreditável. Na diocese italiana de Como, 1000 execuções em um ano. Em Toulouse, na França, 400 cremações são contadas em um único dia. No arcebispado francês de Trier, em 1585, 306 bruxas delataram cerca de 1500 cúmplices. Embora a maior parte das acusadas tenha escapado à morte, isso não impediu que duas aldeias da região ficassem à beira do extermínio: sobraram apenas duas mulheres em cada uma delas. O mais impressionante é que a maior parte dessas mulheres, e mesmo dos homens, condenadas chegaram às fogueiras por confissão própria, graças à tortura. Durante esses quase três séculos de morte, conseguir uma confissão era apenas questão de tempo. Quando acontecia de o acusado resistir muito ,durante uma sessão de maus tratos, isso só aumentava a convicção de culpa dos interrogadores: afinal, tamanha resistência só podia ter por trás o auxílio de forças que não eram apenas naturais. Hoje, sabe-se que o uso indiscriminado desse instrumento macabro se confunde com o próprio mapeamento da caça às bruxas pela Europa.O predomínio do temido Tribunal de lnquisição, por exemplo, serviu para atenuar os casos de condenação à morte de bruxas nos países da Península Ibérica e na Itália. Embora tenha ficado famoso na Idade Média pela prática da tortura, na época em que começou a grande repressão européia, a partir do século XV, os inquisidores já haviam elaborado uma extensa reforma jurídica que garantia não só assistência legal aos acusados como restringia a ação dos torturados a casos muito especiais. Na Inglaterra, onde suspeitos de bruxaria só podiam ser submetidos à tortura com autorização dos conselhos superiores de Justiça, a caça às bruxas também teve pouca expressão. Já na Alemanha, dividida em dezenas de ducados e principados independentes política e judicialmente, a caça às bruxas ganhou proporções assustadoras. Nada menos de 50% dos processos contra elas aconteceram em terras germânicas, e a maior parte resultou em morte.Às vezes, a descoberta de uma fraude conseguia evitar que a perseguição chegasse a um final dramático. Em 1633, o jovem inglês Edmund Robinson denunciou uma mulher que o teria levado a um sabá de bruxas, onde estavam reunidas cerca de sessenta feiticeiras. O menino deu o nome de dezessete delas, todas imediatamente presas e condenadas. Algumas dúvidas sobre o depoimento, no entanto, levaram o bispo de Chester a interrogar Edmund e ele acabou admitindo ter forjado a história por sugestão do pai, que havia indicado todos os nomes “por inveja, vingança e desejo de tirar vantagem”, descobriram os juízes. Na Escócia, o ensaio de uma grande repressão nacional em 1661 entrou em colapso quando os eméritos caçadores de bruxas John Kincaid e John Dick foram flagrados dando picadas em mulheres acusadas de bruxaria: nos tribunais, essas pequenas marcas eram a prova de que elas haviam feito pacto com o diabo.Foram poucas, porém, as caças detidas por evidência de fraudes. Normalmente, quando uma perseguição se instalava, nada conseguia detê-la e o pânico tomava conta da população. A princípio, todos estavam sob suspeita e a melhor defesa era o ataque. Uma vez iniciada a caça, delações não paravam mais. Assustadas com a perseguição, multas pessoas logo se punham a entregar as vizinhas na tentativa de livrar a própria pele de potenciais acusações. Cada possível bruxa levada a julgamento, por sua vez, não tardava a incriminar mais uma lista de acusadas num efeito dominó que levava grandes levas de pessoas diante dos juízes.Cenas e relatos como esses não só foram realidade como contavam com uma robusta fundamentação teórica de uma obra sinistra. Publicado em 1486, o livro Malleus Maleficarum, escrito pelos inquisidores papais alemães Heinrich Kramer e James Sprenger, foi um eficaz instrumento nos tribunais para consolidar a crença de que uma grande conspiração arquitetada por Satã e suas seguidoras, as bruxas, tomava conta do mundo. Até o final do século XV, o manual já era um best seller, recordista absoluto entre qualquer livro anterior ou posterior sobre demonologia, com mais de uma dúzia de edições.Na detalhada obra, que explicava desde os feitiços mais comumente praticados até como localizar a presença das malignas criaturas no seio da sociedade, Kramer e Sprenger não pouparam esforços para mostrar que a mesma mulher que provocou a expulsão do homem do paraíso ainda era uma ameaça presente. O velho temor católico de monges e padres celibatários estava mais forte do que nunca. “A perfídia é mais encontrada nas pessoas do sexo frágil do que nos homens” garantiam os dois. Bruxas eram o mal total: renunciavam ao batismo, dedicavam seus corpos e almas ao demônio e, suprema lascívia, costumavam manter relações sexuais com ele. Principalmente durante os sabás, reuniões em que as forças do mal se reuniam para banquetear-se com criancinhas não batizadas e que sempre terminavam em fabulosas orgias. Testemunhos da época davam notícia de sabás reunindo até 1000 bruxas.Para provar a propensão natural da mulher à maldade não faltavam argumentos aos autores do Malleus. A começar por “uma falha na formação da primeira mulher, por ser ela criada a partir de uma costela recurva, ou seja, uma costela no peito, cuja curvatura é, por assim dizer contrária à retidão do homem. A própria etimologia da palavra feminina confirmava essa fraqueza original: segundo eles, femina, em latim, reunia em sua formação as palavras fide e minus, o que quer dizer menos fé.Defender idéias assim não era exclusividade dos dois inquisidores alemães. A aversão à mulher como ser mais fraco e, portanto, mais propenso a sucumbir à tentação diabólica era moeda corrente em todas as regiões da Europa — dos pequenos vilarejos camponeses aos grandes centros urbanos. Nos sermões de padres por toda a Europa, proliferava a concepção de que a bruxaria estava ligada à cobiça carnal insaciável do “sexo frágil”, que não conhece limites para satisfazer seus prazeres. Com seu “furor uterino”, para o homem a mulher era uma armadilha fatal, que podia levá-lo à destruição, impedindo-o de seguir sua vida tranqüilamente e de estar em paz com sua espiritualidade.O clima de desconfiança em relação às mulheres teve também predileções profissionais. Quando não era o caso de grandes perseguições orquestradas para expurgar males como a peste, certos ofícios tipicamente femininos tinham precedência na lista de denúncias. Curandeiras, vitais para uma sociedade onde a medicina ainda era uma ciência incipiente, tornavam-se herejes e apóstatas da noite para o dia Cozinheiras também viviam sob constante desconfiança, assim como as parteiras.Acusadas freqüentemente de batizar os recém-nascidos em nome do diabo ou de matá-los para usar seus corpos em rituais, elas foram vítimas de anos de suspeita acumulada, numa época em que a taxa de mortalidade infantil era altíssima Em 1587, a parteira alemã Walpurga Hausmannin, foi processada por ter causado a morte de quarenta crianças, algumas com até 12 anos. Entre os métodos que ela empregava, estavam o estrangulamento, esmagamento de cérebro da criança no parto e aplicação de “um ungüento do diabo sobre a placenta”, de modo que a mãe e a criança morressem juntas. Seu destino foi a fogueira. O mesmo de uma parteira húngara, que em 1728 conseguiu uma marca duvidosa, mas perfeitamente factível para seus contemporâneos: ela morreu queimada por ter batizado nada menos do que 2000 crianças em nome do demônio.Para quem se acostumou a relacionar a figura das bruxas a personagens pitorescas de contos da carochinha — como a madrasta de Branca de Neve ou a fada malvada de Cinderela —, às vezes fica difícil acreditar em histórias assim. Mas elas existiram e deixaram em seu rastro uma cruel realidade da morte de milhares de mulheres inocentes em fogueiras piamente acesas para limpar o mundo.



Boxes da reportagem

Elas por eles

A identidade com o pecado original, principalmente na história do cristianismo, foi um fardo pesado para a mulher até o século XVII

Desde os primeiros eremitas cristãos, nos desertos da Síria é do Egito, a busca da austeridade religiosa pelo isolamento ascético tornou-se não só uma regra obrigatória para o aprimoramento espiritual, mas também consagrou o papel da mulher como a principal tentação mundana, capaz de afastar o homem do caminho da purificação. Uma norma que, na Europa, começaria a se consagrar a partir do século VI, quando São Bento de Nursia fundou o mosteiro de Monte Cassino, na Itália, e deu início ao movimento monástico beneditino, que marcaria profundamente a atitude religiosa do continente.

“Toda malícia é leve, comparada com a malícia de uma mulher.” (Eclesiástico 25:26) “Tu deverias usar sempre o luto, estar coberta de andrajos e mergulhada na penitência, a fim de compensar a culpa de ter trazido a perdição ao gênero humano... Mulher, tu és a porta do Diabo.” (Quinto Tertuliano, escritor cristão, século III) “Dentre as incontáveis armadilhas que o nosso inimigo ardiloso armou através de todas as colinas e planícies do mundo, a pior é aquela que quase ninguém pode evitar: é a mulher, funesta cepa de desgraça, muda de todos os vícios, que engendrou no mundo inteiro os mais numerosos escândalos.” (Marborde, monge de Angers, século Xl)“Toda mulher se regozija de pensar no pecado e de vivê-lo.

”(Bernard de Morlas, monge da Abadia de Cluny, século XII) “A mulher é um verdadeiro diabo, uma inimiga da paz uma fonte de impaciência, uma ocasião de disputa das quais o homem deve manter-se afastado se quer gozar a tranqüilidade” (Francisco Petrarca, poeta italiano, século XIV)“ Que se leiam os livros de todos aqueles que escreveram sobre feiticeiros e encontrar-se-ão cinqüenta mulheres feiticeiras, ou então demoníacas, para um homem.” (Jean Bodin, jurista, sociólogo e historiador, século XVI)“Pois a Natureza pretende fazer sempre sua obra perfeita e acabada: mas se a matéria não é própria para isso, ela faz o mais próximo do perfeito que pode. Então, se a matéria para isso não é bastante própria e conveniente para formar o filho, faz com ela uma fêmea, que é um macho mutilado e imperfeito.” (Laurent Joubert, conselheiro e médico inglês, século XVII)

Revista Superinteressante