terça-feira, 12 de agosto de 2014

O malcheiroso molho que Roma adorava



DIAS LOPES
 JADIASLOPES@GMAIL.COM

Questão de gosto. Os romanos gostavam de temperar a comida com um molho de peixe, conhecido pelo cheiro forte e sabor concentrado e picante.

Revelações preciosas sobre o garum, o molho de peixe que temperava a comida diária dos romanos, acabam de ser publicadas por uma autoridade em história da Roma Antiga. No livro Pompéia - O Dia-a-dia da Mítica Cidade Romana (Esfera dos Livros, Lisboa, 2010) a pesquisadora britânica Mary Beard mostra que a cidade do golfo de Nápoles, soterrada no ano 79 d.C. pelo vulcão Vesúvio, foi um importantíssimo centro de preparação e comércio daquele produto.

Os romanos o apreciavam, apesar do cheiro forte, do sabor concentrado e picante, da fama desabonadora com a qual chegou até nós. O escritor latino Plínio, o Velho, que por coincidência morreu sufocado pelo Vesúvio, tentando salvar vítimas da catástrofe, qualificou-o de "líquido de peixe podre". Mary Bread tem informações substanciosas sobre a família de Aulo Umbrício Escauro, um produtor e comerciante de garum, de Pompéia, que enriqueceu graças à atividade.

Os romanos despejavam o molho em tudo. A difusão do livro do gastrônomo latino Marco Gavio Apício, De re coquinaria, fez com que a posteridade o considerasse romano. Estudiosos contemporâneos, porém, acreditam que o molho foi inventado pelos fenícios, a partir de influência asiática. Eles realmente o preparavam em uma da suas colônias, a cidade de Cádiz, no sul da Espanha.

A arqueóloga italiana Eugenia Salza Prina Ricotti, no livro Ricette della Cucina Romana a Pompei - e Come Eseguirle (L’Erma di Pretschneider, Roma, 1993) vê semelhanças entre o garum e o molho vietnamita nuoc nam e o tailandês nam pla. Os molhos de peixe ainda são populares no Sudeste Asiático.

Outros autores lembram que os gregos já apreciavam o garum e o introduziram na cozinha dos povos helenizados. Teriam sido eles os transmissores da receita aos romanos. A designação do molho viria de garon, nome grego de um peixe utilizado no seu preparo.

Certos detalhes do garum dos romanos permanecem desconhecidos, até porque as receitas, além de imprecisas, variavam bastante. O produto de melhor qualidade era feito à base de peixe caro e, alcançando preço alto, tornava-se objeto de contrabando. De modo geral, elaborava-se o molho em vasos de cerâmica. Acrescentava-se um ou muitos peixes, sempre com o sangue e as vísceras, ou vários frutos do mar. A seguir, colocava-se sal, temperos e se deixava fermentar e apodrecer ao sol durante meses. Algumas receitas levavam vinho; outras azeite ou água do mar. Resultavam diferentes tipos de molho.

O primeiro líquido a emergir da fermentação era o garum. Após a filtragem, estava pronto para o consumo. O líquido do fundo se chamava allec. Também se destinava à culinária, apesar do prestígio menor.

Mary Beard conta que Escauro trabalhava junto com a família. Elaborava e vendia vários tipos de molho. Descobre-se isso lendo as inscrições nas ânforas que o vulcão não quebrou. "O melhor molho de peixe", anuncia uma delas, obviamente em latim. "Também (as inscrições) chamam a atenção das versões (do garum) só de cavala, que eram as mais apreciadas pelos connaisseurs desta iguaria", diz Mary Beard. Segundo ela, como o molho exalava mau cheiro durante a feitura, preparavam-no junto à costa, em vasos enormes de cerâmica.

A loja da cidade fazia a distribuição, guardando-o em seis enormes dolia (vasilhas de barro) e colocando-o em recipientes menores na hora de vender. Mary Beard descreve Escauro como um vitorioso novo rico. "Em meados do século I (...), seu filho com o mesmo nome havia alcançado um dos postos mais elevados do governo da cidade, como um dos dois duoviri anuais", escreveu ela. Foi salto prodigioso. Os duoviri ou duumviri eram importantes magistrados da Roma Antiga. Eleitos em dupla, supervisionavam os negócios públicos, interferiam em delicadas questões administrativas e políticas. Nada desprezível para uma pessoa que subiu na vida à custa de "líquido de peixe podre".
Jornal O Estado de S. Paulo

O manual de campanha eleitoral da Roma Antiga


Maria Cristina Fernandes

Do Valor

Como ganhar uma eleição
Por Maria Cristina Fernandes

O título é o nome de um livrinho escrito 64 anos antes de Cristo. É de grande utilidade na temporada eleitoral que se inicia. Políticos, marqueteiros e estrategistas de campanha sempre se serviram dele. Por razões inversas, o texto também pode ser de grande serventia para o eleitor.

Sua leitura é especialmente esclarecedora para saudosistas de um tempo que nunca existiu. Os conselhos de Quinto Túlio Cícero mostram que política nunca se escreveu com 'p' maiúsculo. Talvez porque seja feita por gente. Sem conhecê-la, o eleitor se torna presa fácil do discurso de que só os bem-aventurados são capazes de fazer a política maiúscula, aquela da mitologia.

O autor é o irmão mais novo de Marco Túlio Cícero, um advogado de 42 anos com ambição de se tornar cônsul, o mais alto posto da república romana. Descendem de um rico comerciante do sul de Roma que mandou os filhos estudar filosofia e oratória na Grécia.

Marco Túlio torna-se um grande orador nos tribunais mas, para chegar a cônsul, precisa enfrentar as resistências da aristocracia fornecedora de dirigentes da república. Quinto manda seu irmão repetir para si mesmo: "Sou um 'outsider'. Quero ser cônsul. Esta é Roma".

O voto era direto, secreto e masculino, mas o sistema eleitoral conferia mais peso aos nobres. "Nunca deixe que o tomem por um populista", diz Quinto Túlio ao traçar a estratégia de aproximação do irmão com a aristocracia. Deveria ficar claro para os nobres que todo movimento em direção ao povo se devia a tática eleitoral.

Marco Túlio não deveria se deixar intimidar pelos concorrentes de sangue azul. Um tinha tido a propriedade confiscada por dívida e comprara uma escrava para lhe prestar serviços sexuais. Outro matara o cunhado, molestava jovens garotos e corrompia juízes nos tribunais. Essas questões não precisam ser explicitadas mas os adversários devem saber que são conhecidas. Estava lançado aí o primeiro tijolo das fábricas de dossiês.

Esta é a primeira parte da campanha. Em que o candidato se assenhora de sua ambição e se torna amigo dos mais aquinhoados de dinheiro e poder para não ser por eles barrado. Numa disputa eleitoral, diz Quinto, há duas tarefas: assegurar o apoio de seus amigos e ganhar o do público: "Você ganhará o dos amigos com gentilezas, favores, conexões, disponibilidade e charme".

Marco Túlio Cícero deve lhes dizer nunca lhes ter pedido nada antes e que chegara a hora de fazê-lo. "Faça-os saber que se você ganhar a eleição agora você estará em dívida com eles".

O irmão não deve filtrar aliados pelo caráter. Numa campanha, diz o irmão, você não deve ter vergonha de cultivar amigos com gente de quem nenhuma pessoa decente se aproximaria - "Você será um tolo se não o fizer". Nasciam as diretrizes das megacoalizões eleitorais.

A segunda parte da campanha deve tratar de ganhar o povo. O primeiro passo é conhecer as pessoas pelo nome. Num eleitorado de 141 milhões a tarefa é em parte feita pela propaganda na TV. Gente do povo é escolhida a dedo para representar na TV segmentos do eleitorado com quem o candidato deve mostrar intimidade.

Chamar os eleitores pelo nome não basta. Eles precisam saber o que vão ganhar com sua eleição. Por isso, Quinto diz que o irmão não deve ter o pudor de prometer, ainda que mais tarde seja necessário convencer os eleitores de que não foi possível cumprir o prometido.

O mais prudente, diz Quinto, é ser vago em relação às promessas. Dizer aos nobres que manterá seus privilégios, aos empresários que assegurará a estabilidade de seus negócios e ao povo que sempre esteve e estará ao seu lado. "A parte mais importante da campanha é levar esperança às pessoas e atrair seus bons augúrios", diz Quinto. Mas seu irmão deveria saber que não seria capaz de fazê-lo se confiasse facilmente nas pessoas. "A política é cheia de falsidade, deslealdade e traições".

Marco Túlio Cícero elegeu-se cônsul. Durante seu governo, um dos adversários derrotados conspirou para derrotá-lo. Cícero desbaratou a conspiração e persuadiu o Senado a declarar guerra ao adversário. Quinto foi eleito para o mais alto cargo da magistratura, cargo que só perdia para o de cônsul, em poder e prestígio. Depois foi governador na província romana que se tornaria a Turquia. Os irmãos Cícero tinham dominado os códigos para conquistar e exercer o poder na república romana, mas não sobreviveriam à guerra civil que daria início ao Império. No ano 43 A.C. seriam assassinados.
http://jornalggn.com.br/

Manual do Candidato às Eleições: Marketing político existe há 2 mil anos



Manual da Roma antiga ensinava a candidato como se comportar para ganhar votos

Felipe Van Deursen

“Você deve constituir amizades de todos os tipos: nomes ilustres, os quais conferem prestígio ao candidato; magistrados, para garantir a proteção da lei. (...) Isso requer conhecer as pessoas de nome, usar de certa bajulação.” Tá, parece, mas não é uma cartilha encontrada nas coisas de um dos mais de 19 mil candidatos às eleições deste ano.

Trata-se de um trecho do Manual do Candidato às Eleições, escrito em 64 a.C. em Roma, por Quinto Túlio Cícero. O autor preparou o manual (Commentariolus Petitionis, no original em latim) para seu irmão, Marco Túlio Cícero, ilustre orador e político que naquele ano se candidatava ao posto máximo da República romana: o de cônsul. O manual, embora curto, tinha conselhos valiosos para Cícero conseguir ser eleito. Fortalecer amizades já existentes e conquistar novas, cobrar favores prestados a quem pudesse ajudar na campanha, decorar o maior número de nomes possível, sorrir para todos, ser generoso, fazer promessas mesmo sabendo que não cumpriria todas, pedir votos na rua, estar sempre cercado de multidões, falar a língua do povo e tornar públicos os podres dos adversários.

“Em Roma, onde havia poder havia corrupção”, afirma Laura Silveira, especialista no assunto e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “E naquela época da República, como era preciso conquistar todos os setores representados no Senado, as dicas eleitoreiras do manual deveriam ser de grande utilidade.” E foram: Marco Túlio Cícero acabou eleito.


Você Sabia
2006? Não: era 64 a.C.
Podres do passado foram explorados na campanha
Felipe Van Deursen

A eleição em 64 a.C. e o mandato de Marco Túlio Cícero no consulado foram marcados por desavenças políticas, golpes baixos, acusações e grandes discursos. Embora o manual tenha ajudado, Cícero não precisou de muito esforço para ser eleito. Seus maiores rivais, Antônio e Catilina, eram homens de passados condenáveis. Quinto Túlio sugeriu explorar isso (“Ambos desde a juventude assassinos, ambos libertinos”, escreveu). Por isso, mesmo não sendo aristocrata, Cícero tinha a confiança da elite.Antônio também foi eleito (eram duas cadeiras de cônsul, com votações anuais) e reconciliou-se com Cícero. Catilina, no entanto, candidatou-se de novo, perdeu e conspirou contra Cícero, sem sucesso. Liderou um exército revolucionário e acabou morto, em 62 a.C. O cônsul condenou à morte os membros da conjuração, mas foi exilado por abuso de poder. Vinte anos depois, o triunvirato formado por Caio Otávio, Marco Antônio e Lépido afastou os irmãos Cícero da política. Os dois foram mortos.


Falam por si
Alguns trechos do manual

Imagem é tudo

“Apesar de os dons naturais valerem muito, (...) um perfil bem forjado pode falar mais alto que a natureza.”

Promessas

“Se você promete (o que o eleitor pede), essa raiva é incerta, futura e se instala em bem poucos. Mas se você nega, provoca irritação no ato e em muitos.”

Rabo preso“Não quero que você ostente isso (a corrupção dos adversários) diante deles de maneira a parecer que já planeja uma acusação, e sim que, pelo simples medo disso, você consiga com facilidade aquilo que busca.”
Revista Aventuras na História

terça-feira, 20 de maio de 2014

Alemanha pós Primeira Guerra



Com o fim da Primeira Guerra Mundial, a revolução socialista parecia avançar na Alemanha. Nas forças armadas e por todo o país formavam-se conselhos de soldados e de operários, inspirados pelos soviets da Revolução Russa. A proclamação da República em 1919 visou conter essa tendência. No mesmo ano, o novo governo alemão, em que estavam representados os socialistas, esmagou uma insurreição conduzida pela Liga Espartaquista. Os líderes Karl Liebknecht e Rosa Luxemburgo, que estavam entre os nomes mais respeitados do movimento operário alemão, foram assassinados por forças paramilitares pagas pelo governo. A repressão desmoralizou os socialistas, enquanto os herdeiros dos espartaquistas se fortaleceram.

Nos anos seguintes, a Alemanha teve de enfrentar problemas como a pior inflação da história: o índice inflacionário variou em um trilhão por centro entre janeiro de 1919 e o final de 1923. Nesse ano, em outubro, o Partido Comunista Alemão (KPD) preparou uma insurreição, mas cancelou-a no último minuto. Um mês depois, Hitler tentou derrubar o governo da Baviera com o chamado "putsch da cervejaria", foi preso e escreveu Mein Kampf na prisão.
Revista Nova Escola

Império Romano


Carlos Eduardo Matos
Jornalista e editor de livros didáticos e paradidáticos.
A formação do Império Romano se deu em consequência de muitas ações militares. Foi o militarismo que edificou o império e que também possibilitou muito desse intercâmbio cultural.

Os soldados lutavam em falanges (eles se organizavam em uma formação retangular, em fileiras, e lutavam com longas lanças). Já no século IV a.C., foi adotado um modelo mais flexível, chamado legião manipular. Neste modelo, os soldados se organizavam em três fileiras de infantaria, cada uma com blocos de tropas (manípulos, ou "punhados") com espaços entre si, o que lhes permitia manobrar independentemente do conjunto da linha de batalha. Os soldados mais novos ficavam na primeira linha e os mais experientes, na última.

Outra reforma importante do militarismo romano ocorreu em 100 a.C., com a divisão da legião manipular em dez coortes (uma espécie de milícia) de 480 homens cada. Esses grupos eram equipados com as armas como o pilum (um dardo de arremesso) e o gládio (uma espada curta de lâmina dupla). Além disso, as fileiras de soldados foram abertas aos cidadãos sem recursos, que puderam tornar-se “soldados profissionais”.

Durante a Primeira Guerra Púnica (264 a.C.-241 a.C.), Roma e Cartago, cidade-estado fenícia, disputaram o controle do Mediterrâneo Ocidental. Para enfrentar Cartago nesta guerra naval, os romanos construíram navios com base em uma embarcação cartaginesa capturada. Com a vitória neste conflito, e também na Segunda e na Terceira Guerra Púnica (218 a.C.- 202 a.C. e 149 a.C.-146 a.C. respectivamente), Roma acelerou sua expansão, tornando-se senhora de toda a orla do Mediterrâneo.

As conquistas romanas, intensificadas entre os séculos 3 a.C. e o início da era cristã, fizeram com que o Império acumulasse tesouros e escravos. Questione, então, a turma, quais foram as consequências disso? Com a produção realizada por escravos, as massas pobres de Roma foram apaziguadas pela distribuição gratuita de alimentos. Também ocorreram rebeliões de escravos no império. Entre 135 a.C. e 104 a.C. ocorreram na Sicília a primeira e a segunda Guerras Servis. Em 73 a.C. teve início a terceira Guerra Servil, revolta liderada pelo gladiador Espártaco e esmagada em 71 a.C.

No século 2 da era cristã, quando o afluxo de tesouros e escravos aos poucos diminuiu, a economia da porção ocidental do Império Romano mergulhou em uma crise profunda, enquanto a da parte oriental, mais diversificada, teve melhores condições de sobrevivência. Diante dessa diferenciação crescente, o então imperador Diocleciano nomeou imperadores (augustos) e imperadores auxiliares (césares) para o Ocidente e o Oriente por volta do ano 300; o imperador Constantino fundou Constantinopla, a “Nova Roma”, em 330, fazendo dessa cidade do Oriente a sede do poder imperial, e no governo de Teodósio (morto em 395) o território foi dividido entre o Império Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente.
No âmbito religioso, os romanos absorveram influências dos etruscos (povos que viviam na península Itálica), dos egípcios e da cultura grega – que resultou na magnífica mitologia greco-romana. O ingresso de deuses e deusas “estrangeiros” no panteão romano prosseguiu na fase republicana e no período imperial.

Íris era reverenciada como "Rainha do céu" e, muitas vezes, era representada tendo nos braços o filho Hórus, ainda bebê. Quanto a Mitra, o deus dos soldados, as lendas dizem que era filho de uma virgem e que nasceu no dia 25 de dezembro, em uma gruta. Diz-se que uma estrela anunciou seu nascimento e que pastores foram os primeiros a homenageá-lo.
Revista Nova Escola

Notícias História Viva

Revelações do mais antigo naufrágio no oceano Indico
O navio de dois mil anos de idade pode ter indícios do comércio entre sociedades romanas e asiáticas

cortesia do Departamento de Arqueologia do Sri Lanka


LEGENDA: Um exemplo de vaso de cerâmica encontrado no naufrágio de Godavaya.


Megan Gannon e LiveScience

O mais antigo naufrágio conhecido do Oceano Índico está no fundo do litoral sul do Sri Lanka há cerca de dois mil anos. Dentro de algumas semanas, arqueólogos mergulhadores iniciarão uma escavação que deve durar meses no local, procurando indícios sobre o comércio entre Roma e Ásia na antiguidade.

O local fica 33 metros abaixo da superfície do oceano, nas proximidades da vila de pescadores Godavaya, onde na década de 90 arqueólogos alemães encontraram um porto importante para a Rota da Seda durante o segundo século depois de Cristo.

O navio naufragado, descoberto há apenas 10 anos, não se parece em nada com o casco esquelético tradicional. Em vez disso, arqueólogos estão lidando com um monte de barras de metal corroído e uma variedade de cargas antigas espalhadas, incluindo lingotes de vidro e vasos de cerâmica, que ficaram rolando pelo fundo do mar durante centenas de anos em meio a fortes correntezas e talvez até um ou outro tsunami.

“Está tudo muito quebrado”, declara Deborah Carlson, presidente do Instituto de Arqueologia Náutica da Texas A&M University, que está conduzindo a expedição até o naufrágio de Godavaya, com colegas dos Estados Unidos, Sri Lanka e França. Por mais confuso que esteja, o local poderia preencher uma lacuna nas evidências existentes sobre o comércio que levou metais e produtos exóticos, como a seda, da Ásia até o mundo romano.

Elo Perdido

Acadêmicos acreditam que o comércio entre o Leste e o Oeste se intensificou após Roma anexar o Egito no primeiro século antes de Cristo, ganhando acesso ao Mar Vermelho, uma passagem para o Oceano Índico. Carlson observa que rotas de comércio estão documentadas em fontes literárias e históricas, como no “Périplo do Mar Vermelho”, um manual do primeiro século D.C., escrito em grego, que explica a marinheiros saindo dos Mares Mediterrâneo e Vermelho aonde ir no Oceano Índico e o que levar, vender e comprar.

“Nós só não temos os navios que realmente faziam parte desse comércio”, contou Carlson à Live Science em uma entrevista por telefone.

Carlson declarou que eles provavelmente não encontrarão algo que prove definitvamente que o navio estava indo para Roma. (De maneira semelhante, os arqueólogos provavelmente não conseguirão saber como o navio afundou, ainda que Carlson – que descreveu as “terríveis correntes” que frustraram muitas das tentativas de mergulho da equipe no ano passado – suspeite que os mares bravios possam ter tido seu papel). Mas Carlson explica que descobertas no navio afundado podem pelo menos ajudar a ilustrar que o Sri Lanka era um “pivô” nesse comércio, já que muitas das mercadorias que passavam pela ilha chegavam ao Mediterrâneo.

O que tem lá embaixo?

Os primeiros traços do naufrágio de Godavaya foram descobertos em 2003 quando pescadores locais mergulharam até o local e voltaram com artefatos antigos, incluindo uma pedra de moagem com a forma de um pequeno banco ou de uma mesa com pernas. De acordo com Carlson, pedras semelhantes já foram encontradas em monumentos budistas ricos em relíquias, conhecidos como stupas.

Carlson viu o local pela primeira em 2010. Ela e seus colegas documentaram parcialmente o naufrágio durante três campanhas exploratórias subsequentes, entre 2011 e 2013. A maior parte dos objetos encontrados ao redor do navio afundado até agora se parecem com produtos locais, e muitos deles ainda estão em sua forma bruta. Existem mais pedrasde moagem com aparência budista; lingotes de ferro e cobre (ou o que sobrou deles após a corrosão); e lingotes de vidro negro e azul-esverdeado que se originaram ao longo do litoral de Tamil Nadu, no sul da Índia, e que talvez fossem derretidos para criar vasos ou contas.

Para determinar a idade do naufrágio, Carlson e seus colegas coletaram três amostras de uma madeira delicadapresa ao navio e as enviaram para serem testadas por dois laboratórios diferentes. Os fragmentos de madeira, que provavelmente são restos do navio, são pelo menos do primeiro século antes de Cristo, ou do primeiro século depois de Cristo.

“Eu fiquei bem cética quando vi esse naufrágio em 2010. Eu pensei ‘não tem como essa coisa ser antiga”, confessou Carlson. “Mas nós coletamos essas amostras de madeira e eu fiquei chocada quando recebemos os resultados.

O local cobre uma área de aproximadamente 6x6 metros, ainda que a equipe não tenha conseguido determinar exatamente onde o navio começa e termina durante suas curtas explorações do local. Neste ano eles terão mais tempo para investigar; se o clima permitir, a equipe espera começar a mergulhar em meados de fevereiro, e continuar trabalhando até maio.

Além de determinar um limite sólido para o naufrágio, Carlson espera que ela e seus colegas consigam separar uma parte do navio submerso, levá-lo até a superfície e peneirar seu conteúdo em uma piscina, procurando moedas, objetos pessoais e tudo mais que estiver preso no sedimento. De jarros lacrados de cerâmica, a equipe pode até mesmo conseguir recuperar materiais botânicos antigos, como pólen, que poderiam até mesmo indicar em que momento do ano o navio estava viajando.

O projeto recebeu financiamento do Fundo Nacional para as Ciências Humanas. Além dos colegas do Instituto de Arqueologia Náutica, Carlson está trabalhando com pesquisadores do Centro Nacional de Pesquisa Científica, da França, da University of California, Berkeley, e do Departamento de Arqueologia do Sri Lanka.
 Scientific American Brasil

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Como são os rituais pós-morte das grandes religiões?

 
Sheyla Miranda

BUDISMO

Após sete dias da morte, familiares e amigos reúnem-se para celebrar a memória do falecido, e esse encontro repete-se em intervalos de sete dias, até o 49º, completando sete reuniões. No Brasil, o mais comum é realizar apenas a última reunião

FESTA AO AR LIVRE

O Obon é uma celebração praticada no Japão ou em colônias japonesas, que acontece em 15 de julho ou em 15 de agosto todos os anos. Famílias enfeitam o templo ou áreas ao ar livre com velas e lanternas coloridas, dançam ritmos tradicionais e rezam para homenagear as pessoas queridas que já se foram

VÁRIOS ANIVERSÁRIOS

Também fazem parte da tradição os "ofícios memoriais", em que a família oferece uma cerimônia para celebrar o falecido. Elas ocorrem nos seguintes aniversários de morte: 1º, 3º, 7º, 13º, 17º e 33º. Nessas ocasiões, os mais chegados leem textos sagrados e relembram como era a relação com o morto

HINDUÍSMO

Após a cremação, a família é considerada impura e deve tomar um longo banho ao voltar para casa. O período de reclusão dura de 7 a 40 dias. Todos ficam em casa, comem só coisas leves, livram-se dos pertences do morto e fazem orações. Durante o período, os familiares não frequentam templos nem o comércio

CRISTIANISMO

O luto católico pode durar 7, 30 ou 365 dias, dependendo da vontade dos familiares. Antigamente, as mulheres vestiam preto por pelo menos um ano quando pai, marido ou filhos morriam

ORAR SEM CESSAR

O clássico ritual fúnebre dos católicos é a missa de sétimo dia, celebrada para iluminar a alma do falecido, já que acreditam em ressurreição. Para eles, 2/11 é uma data especial: o Dia de Finados, em que os fiéis oram pelos mortos e os reverenciam. Protestantes oram e se confortam sem rituais marcantes

ISLAMISMO

Em países árabes, três dias após a morte, parentes do falecido contratam vários qãri' , profissionais que declamam o Alcorão ao lado da sepultura. O ato iluminaria o corpo em sua viagem até a eternidade. Ritual mais comum é o encontro de amigos e familiares, depois de 40 dias do óbito, para lembrar o falecido

JUDAÍSMO

Após o enterro, alguns grupos da religião judaica não costumam ir direto para casa; os enlutados mais próximos alteram a rota, param em algum lugar e pedem algo doce para comer. O desvio do caminho é feito para "despistar o anjo da morte" e o açúcar ingerido disfarça o amargor causado pelo óbito

LONGO RECOLHIMENTO

Ao voltar do cemitério, a família fica em casa, de luto, por sete dias. Três vezes ao dia, fazem orações e recebem visitas. Tudo o que reflete, como espelhos e porta-retratos, fica coberto , para que o morto não "veja" a própria imagem. Ao fim do período de luto, a família caminha nas proximidades da casa

ÚLTIMA HOMENAGEM

O último ritual fúnebre dos judeus é a inauguração da lápide , que não é colocada no enterro. O tempo de espera varia de país a país: em Israel, segue-se o tempo mínimo, um mês; no Brasil, a lápide só é colocada 11 meses após a morte. Na cerimônia, o túmulo é coberto com um pano preto e pequenas pedras

CONSULTORIA - Cecilia Ben David, coordenadora pedagógica do Centro de Cultura Judaica; Swami Krishna Priya Ananda, mestre espiritual da Sociedade Internacional Gita do Brasil; Cido Pereira, padre da Arquidiocese de São Paulo; Shake Juma, do Centro de Estudos e Divulgação do Islã; Naguni Seishin, monge do Templo Budista Koyasan Shingonshu Nambei Betsuin da América do Sul
Revista Mundo Estranho

terça-feira, 6 de maio de 2014

Freud e a Guerra de 1914

Ensaio pungente sobre conflito sangrento é lembrado e analisado por cientista político na  interpretação freudiana destaca uma fratura irreparável no processo civilizador.

Renato Lessa


‘Considerações atuais sobre a guerra e a morte’ foi escrito por Freud quando a Guerra de 1914 já revelara marcas que o tornariam muito distinto dos que o precederam. (foto: Wikimedia Commons – CC BY 2.0)

Os 100 anos da deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) dão hoje ensejo a reflexões tanto acerca dos fatores que a provocaram quanto sobre as implicações civilizatórias por ela legadas. Muito se escreveu a respeito, mas uma das interpretações mais instigantes da Guerra de 1914 foi produzida, no calor da hora, por Sigmund Freud (1856-1939), em ensaio pungente: Considerações atuais sobre a guerra e a morte, escrito em 1915, quando o conflito já revelara marcas que o tornariam tão distinto dos que o precederam.

É justamente esse juízo – a originalidade da Grande Guerra – que compõe o núcleo do argumento de Freud.

A releitura da interpretação freudiana permite o reencontro com um poderoso argumento a respeito da ideia mesma de civilização, necessário ao entendimento dos fatores que determinaram o colapso desta.
Mais do que da guerra, como episódio geopolítico ou militar, Freud trata das vicissitudes do processo civilizador, que teria sofrido fratura irreparável

Mais do que da guerra, como episódio geopolítico ou militar, Freud trata das vicissitudes do processo civilizador, que teria sofrido fratura irreparável. A Guerra de 1914, segundo especialistas na arte militar, marcou a passagem de um padrão, digamos, civilizado, em que o teatro das operações bélicas mantinha-se segregado do conjunto das rotinas sociais, para uma perspectiva da guerra total, na qual nada menos que o aniquilamento – ou ao menos a sujeição brutal – do oponente aparece como horizonte desejado.

Tal separação apresentava-se, por exemplo, na distinção entre combatentes e não combatentes e na presença de uma ética militar cavalheiresca, que fazia com que soldados, embora em exércitos opostos, fossem tomados como parte de uma mesma sociedade, maior e supranacional, dotada de regras de contenção da própria letalidade da guerra.

É claro que parte considerável dessa ‘ética da guerra’ já havia sido maculada antes. As batalhas da guerra civil norte-americana, e as que opuseram exércitos coloniais a populações aborígenes, exibiram pouco ou nada do espírito das guerras civilizadas.

A Guerra de 1914, porém, trouxe para o cenário europeu, sede do processo civilizador, a experiência com o ilimitado da carnificina, imposta com frequência a povos não europeus, ao longo do tempo. Trouxe, em outros termos, o experimento da incivilidade da guerra. 
 
Para Freud, a Grande Guerra é, antes de tudo, a vivência do abismo de uma forte desilusão, que decorre da perda de sentido do processo civilizador. (foto: Wikimedia Commons – CC BY 2.0)

Para Freud, a Grande Guerra é, antes de tudo, a vivência do abismo de uma forte desilusão. Tal sensação decorre da perda de sentido do processo civilizador e de suas escoras fundamentais: “uma enorme restrição de si mesmo, uma larga renúncia da satisfação instintual”, ambas materializadas em prescrições morais – “frequentemente severas demais” – sobre os indivíduos.

As implicações de tal ‘severidade’ constituem um dos objetos preferenciais da escritura e da clínica de Freud. Seu clássico ensaio ‘O mal-estar na civilização’ fixaria, em 1930, os termos da tensão entre vida instintual e imposições da vida cultural.

Antes, em 1915, Freud fala-nos da quebra civilizacional da guerra, por meio do transbordamento dos instintos, mal contidos por um padrão de ‘hipocrisia cultural’, no qual os hábitos civilizados operam como débil e insuficiente camada protetora contra danos entre os indivíduos.

A hipocrisia cultural decorre, com certeza, da pesada carga de contenção e repressão imposta pelo processo civilizador a indivíduos portadores de pulsões. A aptidão cultural, contudo, não é afetada apenas pela vida pulsional. O próprio ‘Estado civilizado’ nos fornece estímulos para a inaptidão: ele pratica nos campos de batalha – e contra os ‘inimigos’ – aquilo que proíbe expressamente a súditos seus.

Freud revela, assim, uma das principais facetas do Estado, a de buscar exercer o monopólio legítimo da injustiça.

Renato Lessa
Fundação Biblioteca Nacional
Revista Ciência Hoje

O sonho de Martin Luther King

Discurso proferido há 50 anos na Marcha de Washington tornou-se um marco na luta contra a segregação racista nos Estados Unidos.

Celia Maria Marinho de Azevedo


Martin Luther King em 1964. No ano anterior, ele proferiu o famoso discurso “Eu tenho um sonho”, contra a discriminação dos negros nos Estados Unidos. (foto: United States Library of Congress - New York World-Telegram & Sun Collection/ Wikimedia Commons)

Há 50 anos um simples broche de propaganda, distribuído pelos organizadores da então planejada Marcha de Washington, causou profunda apreensão no governo e na mídia dos Estados Unidos. Nele se via um caloroso aperto de mãos – uma negra, outra branca –, em clara manifestação de que norte-americanos descendentes de europeus e de africanos poderiam conviver amigavelmente em vez de continuar divididos pelos muros da segregação racista legalmente instituída.

O evento pretendia dar apoio a um projeto de lei de direitos civis que bania a discriminação em locais públicos, na educação e no emprego, encaminhado ao Congresso pelo próprio presidente John F. Kennedy. Mas o sonho de convivência integrada entre cidadãos negros e brancos projetava-se antes como pesadelo para o governo. O temor da presidência, então em mãos do Partido Democrata, era que a escalada da violência atingisse um ponto incontrolável, prejudicial para o futuro político de seus governantes e da tão aclamada democracia norte-americana em plena tensão da Guerra Fria contra o totalitarismo soviético.

O ano de 1963, que mal chegava à sua primeira metade, havia sido especialmente quente, com cerca de 900 manifestações antirracistas em mais de 100 cidades, mais de 20 mil prisões e ao menos 10 mortes. A princípio restritas aos estados sulistas, onde se implantara desde o final do século 19 um sistema formal de segregação racista nas escolas, nos transportes, nos hospitais, nos locais públicos em geral, as manifestações começavam a ganhar as cidades do norte, onde um racismo informal e encoberto agia nas mais diversas instituições e práticas sociais. Diante disso, Kennedy chegou a se reunir em junho com 30 líderes do movimento dos direitos civis para pedir o cancelamento da marcha, programada para daí a dois meses.
Desde 1954, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos julgara inconstitucional a segregação racista nas escolas, o movimento dos direitos civis lutava para assegurar o cumprimento da medida

Mas Martin Luther King, Jr., ministro de uma igreja batista de Atlanta, Georgia, e doutor em teologia, então com 34 anos, já havia obtido reconhecimento entre bases e lideranças de que já não era mais possível esperar. Afinal, desde 1954, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos julgara inconstitucional a segregação racista nas escolas, o movimento dos direitos civis lutava para assegurar o cumprimento da medida, além de pressionar no sentido da desmontagem de todo o sistema segregacionista. Entre as muitas batalhas, destaca-se aquela voltada para a dessegregação dos ônibus de Montgomery, Alabama. O estopim foi a prisão da costureira e militante do movimento Rosa Parks, que se recusou a ceder seu assento a um homem branco no fundo do ônibus, reservado às pessoas negras.

O boicote aos ônibus teve início em dezembro de 1955. A população negra preferia andar quilômetros a pé, todos os dias, a sofrer as humilhações de um transporte segregado. No início de 1956, já reconhecido como líder do movimento, o reverendo King foi preso, acusado de conspirar contra a normalidade “sem causa justa ou legal”. Quase um ano depois, a Suprema Corte considerou inconstitucionais as leis segregacionistas do transporte coletivo do Alabama.

Outra luta importante foi o movimento de ocupação pacífica das lanchonetes reservadas aos brancos. Iniciado por estudantes negros em Greensboro, Carolina do Norte, em fevereiro de 1960, logo se alastrou para outras localidades. Em 1963, o movimento atingiu o auge em Birmingham, Alabama, em meio a episódios de violência policial contra manifestantes, seguidos de nova prisão de King e de inúmeros militantes.

As fotos que circularam na mídia nacional e internacional contribuíram para firmar uma imagem vergonhosa da democracia norte-americana: policiais com cassetetes instigavam cães contra manifestantes negros, enquanto a Ku Klux Klan lançava bombas nas casas de líderes do movimento e cometia outras atrocidades contra pessoas negras. Muitas imagens apontavam a participação ativa de sulistas brancos na repressão, até de mulheres raivosas a xingar crianças negras na chegada a uma escola integrada. Algumas fotos mostravam jovens brancos divertindo-se em jogar sal e açúcar sobre a cabeça de jovens negros sentados em uma lanchonete cujos assentos eram “só para brancos”.


Um mar de rostos

Não é difícil, portanto, imaginar por que o discurso de Martin Luther King – “Eu tenho um sonho” –, proferido ao final da Marcha de Washington, em 28 de agosto de 1963, causou especial impacto nos cerca de 250 mil manifestantes e no público televisivo. 
 
Broche de propaganda da Marcha de Washington: o sonho estava lançado. (imagem: reprodução)

Do alto do Memorial de Lincoln, no ano do centenário da Proclamação de Emancipação dos escravos, assinada por aquele presidente em meio à Guerra Civil (1861-1865), King revelou o sonho que se projetava por trás do longo e sofrido percurso da luta pelos direitos civis. Nada mais que a concretização das aspirações históricas mais profundas da democracia norte-americana e de sua Declaração de Independência (4 de julho de 1776): o reconhecimento de que todos são iguais, com direito inalienável à liberdade e a uma justiça igualitária.

Inspirado por uma luta antirracista de que já participavam pessoas brancas e tendo diante de si um mar de rostos negros salpicado de rostos brancos, King desfiou seu sonho de liberdade, igualdade e fraternidade: “Tenho um sonho de que um dia... os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-senhores sejam capazes de se sentar juntos à mesa da fraternidade. ...Tenho um sonho de que meus quatro filhos viverão um dia numa nação onde eles não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. ...Tenho um sonho de que meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos a meninos brancos e meninas brancas tal como irmãs e irmãos. Hoje eu tenho um sonho!”
King: “Tenho um sonho de que um dia... os filhos de ex-escravos e os filhos de ex-senhores sejam capazes de se sentar juntos à mesa da fraternidade”

Cabe notar a não referência à ideia de raças humanas, embora desde cedo ela tenha permeado a história dos Estados Unidos, a começar pela separação entre igreja negra e branca e pela proibição legal de casamentos ‘inter-raciais’. Nesse sentido, King começava a remar contra a corrente da história dos Estados Unidos, cuja obsessão em nomear a ‘raça negra’ estava presente até na linguagem de militantes antirracistas. Nos poucos anos de vida que lhe restavam antes de ser assassinado em 4 de abril de 1968, King dedicou-se a causas sociais que abrangiam protestos contra a guerra do Vietnã e reivindicações de trabalhadores brancos e pobres. É que no seu sonho de paz e integração social só havia lugar para o mérito e talento de cada um – jamais para a cor da pele e aparência pessoal.

Celia Maria Marinho de Azevedo
Historiadora, professora aposentada da Universidade Estadual de Campinas
Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 30 de abril de 2014

A Morte de Hitler

Voltaire schilling

Em  exposição organizada em Moscou, as autoridades russas expuseram uma parte superior do que se supõe ser o crânio de Adolf Hitler, ditador da Alemanha entre 1933 e 1945, que se suicidou no dia 30 de abril de 1945. Leia sobre os últimos dias que antecederam a sua morte.


Última foto de Hitler, capa de um dos inúmeros livros a seu respeito


"Se não chegarmos a triunfar não nos restaria senão, ao soçobrarmos, arrastar conosco metade do mundo neste desastre". - Hitler a H.Rauschning, "Gesprache".

O ambiente no bunker era tenso, sufocante. Faziam mais de cem dias, entre entradas e saídas, que um pequeno grupo de funcionários, oficiais e oligarcas nazistas, estavam lá entocados como lobos acuados ao redor de Adolf Hitler. Construída nos jardins da Chancelaria do Reich, em Berlim, a casamata tinha a função de protegê-los dos ataques aéreos aliados que devastavam a capital da Alemanha. Acentuando ainda mais a situação troglodita e claustofóbica em que viviam, chegou-lhes a notícia que o Exército Vermelho estava às portas. No dia 18 de abril de 1945, um colossal vagalhão blindado de tanques, canhões e aviões, esparramou dois milhões e meios de soldados russos para as cercanias da cidade. Mais de um milhão deles combateram uma espetacular batalha de ruas, contra as derradeiras forças da resistência alemã. Ao preço de 300 mil baixas, os soviéticos penetraram-na por todos os lados.


Foto do fantasmagórico bunker de Hitler


A última aparição de Hitler

Hitler ainda recebeu alguns convidados mais próximos para seu aniversário em 20 de abril. Há uma foto dele na ocasião. Com a gola do capote levantada, ele cumprimenta, do lado de fora da Chancelaria do Reich destruída, alguns jovens garotos da juventude nazista que haviam se destacado na defesa desesperada da cidade. O Führer estava uma ruína humana. Os últimos acontecimentos haviam-lhe retirado a seiva. Sua tez acinzentou-se, o rosto encovou-se e os olhos adquiriram uma opacidade de semimorto. Para consolá-lo e sacudi-lo da letargia depressiva em que se encontrava, Joseph Gobbels, seu Ministro da Propaganda, lia-lhe diariamente trechos da "História de Frederico o Grande", de Carlyle, especialmente a passagem onde é narrada a milagrosa salvação daquele capitão-de-guerra prussiano na Guerra dos Sete Anos (1756-63), que escapou do destino dos derrotados devido a um desacerto ocorrido entre seus inimigos.

A determinação de ficar ali e travar a batalha final foi tomada numa reunião no dia 22. Inspirando-se na tradição nórdica do herói que morre solitariamente num último combate, ou no sepultamento do guerreiro viquingue incinerado no seu barco de comando, Hitler comunicou a todos a intenção de comandar pessoalmente as operações. Recebeu, porém, telefonemas de alguns seguidores e de outros generais que instaram para que se retirasse enquanto havia tempo. O Führer manteve-se intransigente. Ninguém o arrastaria para fora da liça.

O atentado de 20 de julho e o desencanto
Uma das razões, mais remotas, da aparência cinzenta e desencantada de Hitler, resultou do choque que ele teve, nove meses antes, do atentado cometido contra a sua vida. Naquela ocasião, no dia 20 de julho de 1944, um grupo de conspiradores, quase todos altos membros da hierarquia militar e integrantes da nobreza alemã, conseguiram fazer com que o coronel do estado maior Claus Schenk von Stauffenberg, colocasse uma bomba no quartel-general do Alto Comando. O artefato explodiu na sala de reuniões onde Hitler estava presente, mas apenas provocou pequenas escoriações nele. Refeito do susto, o ditador ordenou uma caçada em massa contra todos os envolvidos, que terminaram executados depois de serem sumariamente condenados à morte num Tribunal Popular. O outro motivo que levou Hitler a desejar suicidar-se, e em seguida ser incinerado, decorreu da notícia que ele recebeu do destino infausto do ditador fascista Benito Mussolini. O Duce fora capturado em Dongo, no norte da Itália, por partisans comunistas, e seu corpo foi exposto, pendurado de cabeça para baixo num posto de gasolina em Milão, junto ao da sua amante Claretta Petacci, em 28 de abril de 1945. Hitler temia que seu cadáver fosse profanado ou levado como troféu de guerra para a URSS.

O casamento e uma traição

Hitler e Eva Braun
Poucos dias depois de ter tomado a decisão definitiva, resolveu formalizar sua união com Eva Braun, encomendando um casamento de emergência dentro do abrigo. O casal decidira por fim à vida juntos. Hitler tinha-se mantido solteiro, até então, em nome da mística que sua solitária figura messiânica exercia sobre o povo alemão. O salvador não poderia ser um homem comum, com esposa e filhos, envolvido pela contabilidade doméstica, e na rotina matrimonial burguesa.

Teve ainda um espumante ataque de fúria quando soube (ele, mesmo nos estertores, ainda era informado de tudo), que Heinrich Himmler, o Reichsführer SS, havia, às suas costas, à socapa, contatado com o legatário sueco, o conde Bernadotte, para negociar uma paz em separado com os exércitos ocidentais, que avançavam Alemanha a dentro vindos do Rio Reno. Numa das suas derradeiras ordens, determinou a expulsão sumaria dele do Partido Nazista, exonerando-o de todos os cargos de chefia. Mas aquela altura de nada adiantava.

O momento final
No dia 29 de abril, deu-se a reunião final. O General Weidling, governador militar de Berlim, e comandante da LVI Panzer Corps, ainda aventou a possibilidade de uma escapada pelas linhas soviéticas, mas Hitler o dissuadiu. Não tinham nem tropas, nem equipamento, nem munições, para qualquer tipo de operação. Era ficar e morrer!

O Führer então despediu-se formalmente das pessoas mais próximas que ainda o seguiam até aquele momento. Pressentindo o suicídio, os que estavam no bunker reagiram de uma maneira inesperada. Muitos, após colocarem discos na vitrola, puseram-se a dançar e alegremente, confraternizaram com os demais, como se um esmagador peso, repentinamente, tivesse sido removido de cima deles. O fascínio de feiticeiro que Hitler exercera sobre eles cessara como que por encanto.

Depois do almoço, no dia 30 de abril, trancou-se com Eva Braun nos seus aposentos. Ouviu-se apenas um tiro. Quando lá penetraram encontraram-no com a cabeça estraçalhada à bala e com a pistola caída no colo. Em frente a ele, em languidez de morta, estava Eva Braun, sem nenhum ferimento visível. Ela ingerira cianureto, um poderosíssimo veneno. Eram 15:30 horas! Rapidamente os dois corpos, envolvidos num encerado, foram removidos para o pátio e, com o auxilio de 180 litros de gasolina que os embeberam, formaram, incendiados, uma vigorosa pira. Ao redor deles, uma silenciosa saudação fascista prestou-lhes a homenagem derradeira.

Berlim, o mausoléu de Hitler
Lá fora, a capital do IIIº Reich também ardia num colossal braseiro. Monumentos, prédios públicos, palácios, edifícios, casas, praças e avenidas, pareciam um entulho só. Os sobreviventes, apavorados com o terrível rugido dos canhões e das bombas, que lhes soavam como se fosse o acorde final do "Gotterdammerung", o wagneriano "Crepúsculo dos Deuses", acreditavam que a hora do apocalipse chegara. Berlim, com 250 mil prédios destruídos, virara um cemitério lunar. A grande cidade, transformada em ruínas, assemelhava-se a um fantástico mausoléu erguido pela barragem de fogo aliada para sepultar uma das monstruosidades do século. Hitler suicidara-se aos 56 anos, e o seu regime, que segundo seus propagandistas mais pretensiosos deveria ser o Reich de Mil Anos, naufragou com ele doze anos depois dele ter assumido a Chancelaria da república alemã, em janeiro de 1933.
http://educaterra.terra.com.br

Rapidinhas da História...





A versão oficial garante que Hitler e Eva Braun se mataram em 30 de abril de 1945

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Operação Capela - Segredos de convenção


Nos anos 70, sargento Vallejo percorria em sua Kombi disfarçada as paróquias do interior e 'convencia’ padres a colaborar com o regime

Bernardo Kucinski*

Capivari ficou para trás. Próxima parada, Monte Mor. Faz calor. A estrada corta por monótonas lavouras de cana e um ou outro rancho abandonado. Quase não há sitiantes depois da lei da Concentração Fundiária Obrigatória. Mata de sombra também rareia. O sargento Vallejo resmunga. Estradinha pior que tábua de raspar mandioca. A Kombi sacoleja feito britadeira. Vallejo tenta evitar a ressonância dirigindo pelas beiradas. Para essa missão tinha que ser um Ford, ou que fosse um Jipão, ele pensa, sentindo o corpo moído.
Jorge Mascarenhas
"Vallejo estaciona a Kombi numa sombra da pracinha e se aboleta num boteco, para tomar uma cerveja."

Alegaram que a Kombi branca disfarça melhor. De fato, se perguntam ele diz que é da profilaxia. A maioria responde "ah, bom". Sempre perguntam, gente curiosa. Não sabem o que é profilaxia, mas a palavra impõe respeito. Povo ignorante. Se algum mais enxerido quer saber do que, ele fala, é geral, de tudo. É federal, ele arremata. Aí, ninguém pergunta mais nada.

A missão do sargento Vallejo é ultrassigilosa. O codinome é Operação Capela, mas de tão secreta não tem nada escrito. As ordens são todas de boca. Cada expedição dura 20 dias. O duro é ficar longe de casa, almoçando cada dia feijão de tempero diferente, dormindo onde dá. Também não gosta da missão, preferia a tropa. Entrou no Exército para ser soldado, não para ser espião. Mas o major insistiu, missão importante, ele disse. E tinha gratificação por fora. Vallejo não simpatiza com os utopistas, mas não gostou do que fizeram com a madre. Ficou abalado. Uma freira é quase uma santa. Está certo que prometer uma sociedade sem dinheiro e sem exército é estupidez, mas não era o caso de fazer o que fizeram.

Essa é sua quinta sortida. Com o tempo descobriu que leva jeito. Talvez porque estudou em colégio de padre. Muito jeito. O major elogiou. De toda a força tarefa, ele estava se saindo o melhor, disse. Eles são 12, escolhidos a dedo. Cada um fica com uma região.

Vallejo foi selecionado porque sabe tudo de religião. Quando era moço pensou em ser padre. Era o desejo da mãe. Não deu certo. Agora, o destino o colocou de volta dentro das igrejas. Já conhece um punhado de padres. Conseguiu recrutar dois, o padre Gonçalo, de Itupeva, e o padre Laércio, de Rio Pardo. Também descobriu que o dominicano de Bofete era utopista. Dele devem ter arrancado o nome da madre superiora. Sente um pouco de culpa...

O sargento Vallejo trabalha com duas listas, ocultas no fundo do alforje, junto ao revólver e os envelopes de dinheiro. A lista base, como ele chama, é a de todas as paróquias e padres que rezam missa e exercem o sacramento da penitência. São mais de 90 na sua área. Ele nunca pensou que tivesse tanto padre nesse interior largado e pobre de tudo. É uma lista pormenorizada e de aparência inocente. Foi preparada pelo arcebispo. Diz a ordem a que o padre pertence ou se é secular, quanto tempo está na paróquia, idade, de onde veio. Se um deles morre ou é transferido, ele risca, se é novo e não está na lista, ele acrescenta. A outra relação é a dos delegados de polícia, para os quais ele tem que entregar os envelopes. Todo o resto é memorizado. No retorno, ele reporta.

Depois que Vallejo desenvolveu seu método, a missão ficou fácil. Ele chega do meio para o fim da missa e procura o genuflexório mais perto do altar, caminhando com passadas firmes, barulhentas, fazendo-se notar, preocupado e contrito, o chapéu nas mãos juntas, em sinal de humildade e respeito. Terminada a missa dirige-se ao confessionário.

Na primeira confissão cuida de não se precipitar. Faz-se um pouco de bobo. Diz que o demônio está tentando o filho, o rapaz meteu-se numa turma que ataca as autoridades e volta tarde para casa, e nessa turma mistura homem e mulher; pede perdão por não ter educado os filhos no caminho da fé e da Santa Madre Igreja, e pergunta o que fazer. É basicamente essa a primeira conversa. Pela reação do padre ele faz uma primeira classificação. Os carismáticos reagem com severidade, acusam o filho de grave ofensa a Deus e de estarem no caminho da perdição. Exigem que o pai o obrigue a abandonar as más companhias. Os padres simpáticos aos utopistas desconversam, alguns se atrapalham um pouco; a maioria diz que jovens são assim mesmo, Cristo também se voltou contra os fariseus e por isso foi crucificado; nada disso é pecado. Recomendam trazer o filho à liturgia. Absolvem sem prescrever penitência.

Tanto num caso como no outro, o passo seguinte é o contato com o delegado. Por causa disso a Kombi branca é boa. Se fosse só para se confessar na Igreja podia ser qualquer carro, até uma moto servia. Primeiro ele entrega ao delegado o envelope com a gratificação e pede visto na lista e a data. Essa parte não faz parte da Operação Capela. Por isso tem recibo. Todos os delegados estão no programa, por ordem superior.

Tem um ou outro, como o dr. Junqueira, de Chaves, que finge colaborar, mas não passa nada. Ele já se queixou dele pra fábrica. A maioria ajuda, dá a ficha toda. Ele fica sabendo se o padre é devasso, como o de Rio Pardo, se já foi acusado de pedofilia ou se tem caso com mulher, ou alguma acusação pendente, ou se já chegou corrido de outra paróquia.

Esses padres ele traz pro programa fácil, é falar da ficha e eles se apavoram. Foi assim com o padre Laércio e com o padre Venâncio, de Mairinque flagrado forçando uma beata na cama. O bispo abafou os dois casos, mas o delegado tinha as fichas. Esse delegado, o dr. Gumercindo, é dos melhores. O envelope dele é o mais gordo. Merecido. Padre bem conservador ele consegue trazer para o programa mesmo não tendo ficha. É só falar das igrejas incendiadas pelos anarquistas na Espanha. Aprendeu isso no treinamento.

Se o padre é simpático aos utopistas, a diretiva é descobrir quem são seus amigos e se a paróquia oferece curso de alfabetização ou costuma abrigar forasteiros. Mas isso tudo é incumbência do delegado, não é mais com ele. Cabe também aos delegados plantar os olheiros na missa para anotar se os sermões são subversivos. E mandar relatório para a fábrica.

Não deixa de ser divertido, pensa o sargento Vallejo, ao se lembrar da cara do padre Laerte quando ele falou dos meninos do coro. Esse tipo de padre ele odeia. Não tem contemplação, fazem voto de castidade, mas são impostores e pervertidos, só usam batina em vez de calça pra tirar o pau pra fora mais fácil.

A estrada segue esturricada e poeirenta. Já se avista o campanário de Monte Mor, encimando o amontoado de casas. Vallejo lembra da mãe, católica praticante. Deus a tenha. Ela não ia gostar da missão. Pensando bem, não é mesmo coisa boa. Vallejo sente o corpo quebrado depois de tanta trepidação. De fato, a mãe não ia gostar. Nem um pouco. Pensar que ele entregou aquele dominicano de Bofete, um garoto ainda. O rosto redondo e rosado do rapaz não lhe sai da cabeça.

Vallejo estaciona a Kombi numa sombra da pracinha e se aboleta num boteco, para tomar uma cerveja. Ainda é cedo para a missa das 6. Da porta do boteco ele divisa a estrada perdendo-se ladeira abaixo, até atingir o pé do morro, depois subindo morro acima até sumir num fio. Ali é um morro depois do outro. Lavoura mesmo tem pouca. Terra cansada. Muito cupim, isso sim. E os alambiques. Ali tinha sido terra de gente antiga e pinga boa. Pena que veio essa lei e expulsou a maioria.

O corpo quebrado requer cachaça, pensa Vallejo. Depois da cerveja, pede uma dose dupla. Pra matar o bicho, fala. Nada de 51 ou Velho Barreiro. Pinga de alambique. Servem uma de Cabreúva. Ele emborca a dose dupla e mais outra, e a terceira. Da porta do boteco, acompanha o sol se pondo, as sombras se alongando, a estrada se desvanecendo no lusco-fusco. Aqui nem pensão de viajante tem, vou ter que pousar em Sumaré ou Hortolândia, calcula.

Merda de missão especial. Não fosse o relatório dele, o dominicano não seria preso e não pegariam a madre. O sino da igreja toca as badaladas das 6. Vallejo deixa passar 20 minutos, paga e entra na Igreja. A missa está pela metade. Com esse padre ele já se confessou uma vez. Lembra de ter ficado confuso. Não soube classificar. Não parecia da ala carismática nem simpático aos utopistas. Também não era moço nem velho, uns 40 e poucos anos. Esses são os mais difíceis de classificar.

Fez como sempre. Acabada a missa foi se confessar. O padre disse o de costume, confesse seus pecados meu filho que Deus te perdoa. Então, aconteceu. Deu um chilique no sargento Vallejo e ele confessou mesmo tudo, falou da Operação Capela, do dominicano delatado por ele, falou da fábrica, como era, como eles liquidavam uns e outros. Falou até do estupro da freira. Quando terminou estava exausto e suava frio. Na Igreja não havia mais ninguém.

O sacerdote saiu do confessionário, deu a volta, ergueu o sargento Vallejo pelo ombro e conduziu-o, amparado, até a sacristia. Não trocaram palavra. Vallejo, ainda tonto, compartilhou com o padre um caldo de galinha e broas de milho. Depois deitou-se ali mesmo, de comprido, no banco largo de madeira forrado com um acolchoado. Logo caiu em sono profundo. O padre então tirou as botinas do sargento, devagar, para não acordá-lo. Depois o cobriu com uma manta.

Naquela noite o sargento Vallejo respirou pesado. Ao despertar sentiu ter dormido o sono dos justos. Pensou no que fazer. O padre, sentado do outro lado da mesa, nada dizia. Não o admoestava, nem o acarinhava. Só observava. Sobre a mesa, uma coalhada, as broas de milho e as duas listas estendidas, como se o padre as tivesse decifrado.

O café exalava cheiro forte. Vallejo tomou uma xícara, devagar. Foi aos poucos clareando o pensamento. O padre, só olhando. Vallejo tirou da sacola os envelopes com os nomes dos delegados. Em cima da mesa foi abrindo um por um. O dinheiro ele amontoava e os envelopes, rasgava. Depois separou as notas em dois montinhos iguais, uma aqui a outra ali, uma aqui, outra ali. Pediu ao padre mais café. Terminou de dividir. Um dos montinhos ele empurrou para o padre. É o óbolo, disse.

O outro montinho ele enfiou no bolso da calça. Sua bênção, padre. Deus te abençoe, meu filho disse o padre. Vallejo levantou-se, apanhou as listas e as rasgou em pedacinhos. Na porta da sacristia ainda se deteve e deu um aceno de despedida. Depois montou na Kombi e pegou a estrada. Tinha que achar uma funilaria para pintar o carro. Não sei se vendo ou se aproveito para abrir um negócio qualquer de ambulante. Kombi é carro bom pra fazer pastel em feira, ele pensou. Entrou em São Paulo alta madrugada pela Lapa de Baixo. Ao cruzar uma esquina escura parou, desceu da Kombi e atirou seu revólver num latão de lixo.

* Bernardo Kucinski, jornalista e escritor, é autor, entre outros livros, de K - relato de uma busca e Você vai voltar pra mim - e outros contos (Cosac Naify). Este texto inédito é, na definição de Kucinski, uma "história ficcional baseada em fatos".
Jornal O Estado de S. Paulo