segunda-feira, 10 de novembro de 2014

A lei fora da lei


Ocupação do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, pelas UPPs impôs aos moradores um estado de exceção

Vinicius Esperança


As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), política desegurança pública implantada no Rio de Janeiro desde 2008, representam uma nova forma de ocupação do território por agentes do Estado. Trazem em seu conceito a ideia de presença policial permanente, associada a algumas práticas de policiamento comunitário. Seu objetivo principal seria a retirada das armas e a repressão ao tráfico de drogas. Mas o que se observa é que essa política de ocupação inclui o controle moral da vida e do cotidiano dos moradores.

No processo de ocupação do Complexo do Alemão pelo Exército (2010 a 2012), e posterior implantação de seis UPPs na região (quatro dentro deste conjunto de favelas), duas situações simbolizam as tensões provocadas por essa estratégia: a negociação para liberação de eventos culturais e as abordagens policiais àqueles que têm “atitudes suspeitas”.

Produtores culturais locais tiveram que negociar com policiais militares a liberação ou a recusa de eventos envolvendo bebida e música, em especial os bailes funk. A polícia se utiliza deste dispositivo para controlar os espaços e as relações sociais da comunidade. Ao atribuir qualidades morais a eventos, comportamentos e tipos de festa ou música, a polícia torna-se gestora moral da vida social da favela. Quando esta situação é questionada, surge o argumento de que há situações que podem ser permitidas em outros lugares, mas não lá – o que caracteriza a aplicação da lei em estados de emergência ou exceção.

O controle dos eventos passou a ser usado pela PM como moeda de troca. “Caso se comportem e sigam as regras, permito; se não, proíbo tudo”, afirmou um comandante da UPP Nova Brasília, em abril de 2013. Fica evidente que o comando da UPP se apresenta como um regulador de questões que vão muito além do policiamento. Não existem, nos regulamentos internos, normas para dar um mesmo padrão aos procedimentos policiais. Cabe ao comandante – que a esta altura é um gestor da favela – decidir aquilo que é permitido ou não. As decisões passam a depender de seu gosto pessoal por determinado tipo de evento. Na fala dos comandantes e policiais, o baile é visto como local da desordem, da prostituição e das drogas – onde o tráfico mantém consagrado o seu domínio.


Ao negociar politicamente a permissão ou a proibição dos eventos, a polícia exerce uma nova ordem jurídica, segundo a qual certos indivíduos são submetidos a leis próprias daquele território, e uma forma particular de regulação do cotidiano é exercida através do comando da UPP. O comandante se torna o soberano, a incorporação da própria lei: ele a cria, executa e pune o seu descumprimento.

A expressão “atitude suspeita” se aplica principalmente a homens reunidos em grupo, em bares ou esquinas (“de vagabundagem”, nas palavras de um soldado), ou a homens que se assustam ou baixam o olhar quando veem a aproximação de um grupo de policiais. Incontáveis abordagens policiais a indivíduos em “atitude suspeita” reforçam o ambiente de tensão. Nas patrulhas pelos becos e pelas vielas de comunidades como Nova Brasília, Alemão, Coqueiros e Alvorada, as abordagens são feitas de forma rápida, seca e objetiva. Poucas vezes acompanhadas de qualquer saudação ou de um “obrigado” após o procedimento. Todas têm como alvo homens, a maioria entre 15 e 35 anos, de pele parda ou negra. Boné e mochila são um bom motivo para revista. Os “suspeitos” são colocados contra a parede, tiram seus bonés, abrem suas mochilas. Muitos são “conduzidos” à delegacia para o SARC (procedimento para verificar se o indivíduo possui ficha criminal ou tem mandado de prisão em aberto).

Qualquer evento ou atendimento deve ser registrado e assinado pelos policiais envolvidos: o Termo de Registro de Ocorrência (TRO) é arquivado em cada unidade, inacessível ao público. Pelo menos duas centenas de TRO analisados no Complexo do Alemão terminaram com o suspeito liberado por não constar nada contra ele.

É nesta situação em que melhor se percebe a violação da lei perpetrada pelo agente da lei, em nome da lei, de forma violenta, abusiva e extrajudicial. Confirma-se dramaticamente a hipótese de uma nova ordem jurídica, na qual leis especiais são aplicadas a determinados indivíduos, num território sob estado de exceção. A ação do agente policial se dá ao mesmo tempo dentro e fora da lei. Fora da lei quando conduz sob custódia o indivíduo sem flagrante ou mandado de prisão, mas dentro da “lei” que se aplica àquele território. O procedimento é tão naturalizado que o policial ignora o conhecimento que tem da lei, ou desconsidera a lei, e os abordados reagem com irritação ou medo, mas também não questionam a legalidade da ação. A polícia e os indivíduos, mesmo debaixo dos protestos de alguns – especialmente ligados a ONGs, entidades defensoras dos Direitos Humanos ou intelectuais – convivem numa prática em que se espera que a regulação do cotidiano seja executada através de uma ordem jurídica própria.


Enquanto nas abordagens o agente do Estado suspende a lei em nome da “lei” e da segurança, nas negociações para a liberação de eventos, a atuação policial é paternalista e pretensamente civilizadora, imbuída da missão de gerir a moral e os costumes das populações faveladas.

Desde 2013, o projeto das UPPs, inicialmente aclamado como a grande solução para o problema da segurança pública em território nacional, entrou numa profunda crise interna e externa. Aumentaram os confrontos armados entre policiais e traficantes nas favelas com UPPs, onde arrefeceu o tráfico de drogas – que, de fato, nunca deixou de existir nessas localidades. A violenta ação policial ao longo das manifestações populares acontecidas a partir de junho, assim como na greve dos professores municipais no mesmo ano, maculou ainda mais a imagem da Polícia Militar. Por fim, ganhou importância simbólica o “caso Amarildo”, ocorrido na UPP da Rocinha: um auxiliar de pedreiro, Amarildo Dias de Souza, desaparece e depois se descobre que ele foi torturado e morto dentro da sede da UPP, e que entre os assassinos estava o próprio comandante da Unidade, um dos mais “respeitados” da instituição.

Em março de 2014, noticiou-se a ocupação militar do Complexo da Maré, também na zona norte. A Justiça expediu um mandado coletivo autorizando os policiais civis a revistarem a casa de todos os moradores destas favelas. A medida confirma a tendência do governo de decretar para uma coletividade o “estado de exceção”, que anula os direitos individuais e vê os moradores como potencialmente suspeitos de serem criminosos. A fim de evitar os “saques” ocorridos no Complexo do Alemão, somente os delegados poderão fazer esta revista.

Ao que tudo indica, a chegada das UPPs ao Complexo da Maré parece repetir, quatro anos depois, as arbitrariedades ocorridas na ocupação do Complexo do Alemão.

Vinicius Esperança é professor da Universidade Candido Mendes e autor da dissertação “‘O foco de todo mal’: estado, mídia e religião no Complexo do Alemão” (UFRRJ, 2014).

Saiba mais:
AGAMBEN, Giorgio. Estado de exceção. Tradução de Iraci D. Poleti. 2. ed. São Paulo: Boitempo, 2004.
AMORIM,Carlos.ComandoVermelho:Ahistóriasecretadocrimeorganizado.RiodeJaneiro:Record,1993.
CABANES, Robert et al. (orgs.). Saídas de emergência: ganhar/perder a vida na periferia de São Paulo. Tradução de Fernando Ferrone e Cibele Saliba Rizek. São Paulo: Boitempo, 2011.
LIMA, Carlos Alberto de. Força de Pacificação: Os 583 Dias da Pacificação dos Complexos da Penha e do Alemão. Rio de Janeiro: Agência 2ª Comunicação, 2012.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Inventos da Antiguidade - Medicina Primitiva



Saiba como a sanguessuga era usada antigamente como elemento de cura e veja seus efeitos em um paciente vivo. Investigue os campos de batalha romanos e suas técnicas e instrumentos cirúrgicos. Veja também como o veneno de uma serpente era usado como remédio no mundo antigo, uma técnica que os médicos atuais estão aprendendo a utilizar novamente.

domingo, 9 de novembro de 2014

Populismo: os itinerários de uma palavra errante


UMA MESMA ETIQUETA PARA TODOS OS OPOSITORES DA AUSTERIDADE

As eleições europeias de maio testemunharam a ascensão dos partidos hostis às políticas adotadas na União Europeia. Mas, além dessa oposição, nada une essas formações: umas atualizam a ideologia nacional conservadora da extrema direita, enquanto as outras se reivindicam como esquerda radical – uma distinção negligencia
por Gerard Mauger

As vésperas da eleição europeia de 25 de maio de 2014, durante seu último encontro de campanha em Villeurbanne, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, lançava solenemente um chamado à “insurreição democrática contra os populismos”. “Populismo”: quem não ouviu cem vezes estalar na boca dos pesquisadores de opinião, dos jornalistas ou dos sociólogos essa palavra-baú na qual jogamos de qualquer jeito a oposição – de direita ou de esquerda, votantes ou abstencionistas – às políticas colocadas em andamento pelas instituições europeias?

A inconsistência do substantivo “populismo” deriva em parte da diversidade de suas utilizações. No mundo político, a história do rótulo revela a extensão do espectro que ele recobre: da visão encantada dos camponeses que parodia o populismo russo (narodniki) à revolta dos fazendeiros do People’s Party nos Estados Unidos no fim do século XIX; dos populismos latino-americanos (Getúlio Vargas no Brasil, Juan Perón na Argentina) ao macarthismo; do pujadismo ao lepenismo no século XX; de Vladimir Putin a Hugo Chávez na era da globalização; do United Kingdom Independence Party (Ukip) à Aurora Dourada na Europa do século XXI; ou de Marine Le Pen a Jean-Luc Mélenchon na França de hoje. Essa última confusão, hoje banalizada, foi ilustrada (em sentido literal) pelo desenhista Plantu na revista semanal L’Express (19 jan. 2011), quando ele representou a dirigente do Front National (FN) e o copresidente do Front de Gauche [Frente de Esquerda] (FG) com o braço levantado, ambos portando ostensivamente uma braçadeira vermelha e lendo o mesmo discurso: “Todos podres!”.

No campo literário, a palavra “populismo” apareceu em francês em 1929: “postura assumida de escrita” insurgida contra o romance burguês, mas apolítico, oposta aos escritores comunistas e a suas imagens ingênuas do proletariado, esse movimento literário propunha-se a “descrever simplesmente a vida das ‘pessoas simples’”.1

No universo das ciências sociais, levada por uma intenção política de reabilitação do popular, ela aplica o relativismo cultural ao estudo das culturas dominadas (VolkskundeouProletkult). Ignorando ou diminuindo a importância das relações objetivas de dominação, ela credita às culturas populares uma forma de autonomia e celebra sua resistência, até inverter os valores dominantes e proclamar a “excelência do vulgar”. Mas ela também se opõe a uma forma corrente de desprezo que relaciona as classes dominadas à falta de cultura, à natureza e até mesmo à barbárie. Característica da burguesia e da pequena burguesia culta, esse racismo social baseia-se na “certeza própria a uma classe de monopolizar a definição cultural do ser humano, e então dos homens que merecem ser plenamente reconhecidos como tais”.2

Duas visões de povo

Ao circular assim de um campo ao outro, de um século ao outro, de um continente ao outro, o rótulo parece ter perdido qualquer consistência. Dessa forma, aqueles que se dedicam a explicar seu sentido cometem, segundo as palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein, um erro clássico: “tentar, por trás do substantivo, encontrar substância”.3Pretender, pois, definir o populismo, como propõe o cientista político Pierre-André Taguieff,4 como uma nomenclatura relacionada diretamente ao povo não exclui evidentemente ninguém no seio das sociedades ocidentais: tal procedimento é inerente à democracia, “governo do povo, pelo povo e para o povo”. E, mesmo se reservarmos o rótulo populista a um estilo de denominação que privilegie a proximidade e cultive o carisma do chefe fortemente reforçado pela propaganda televisiva, não podemos enxergar com nitidez qual dirigente atual poderia escapar a ele.5 Além do mais, definir o populismo como um encorajamento à revolta contra as “elites” (econômicas, políticas, midiáticas) levaria a incluir ao número de suspeitos François Hollande, quando, na tribuna do Bourget, em 22 de abril de 2012, ele denunciou seu “verdadeiro adversário: o mundo das finanças, que não tem nome, não tem rosto”, e Nicolas Sarkozy atacando vigorosamente em Toulon um “capitalismo financeiro que se tornou louco por não estar submetido a nenhuma regra” (25 set. 2008).

A cientista política Nonna Mayer estima que a característica mais bem partilhada pelos movimentos europeus qualificados como populistas nas análises pós-eleitorais seria a xenofobia:6 no “mosaico eurofóbico” composto pelo jornal Le Monde (28 maio 2014), catorze dos dezesseis partidos mencionados são anti-imigrantes. Todavia, editorialistas, assimilando a contestação das instituições europeias a uma forma de hostilidade aos estrangeiros, colam também a etiqueta de populista nas esquerdas radicais grega, espanhola e francesa (Syriza, Podemos, FG), que, no entanto, são pouco suspeitas de racismo. É preciso então se perguntar sobre suas representações do povo e questionar a substituição de um rótulo por outro.

Esquematicamente, podemos distinguir três figuras do “povo”.7 “Populismo” deriva do latim populus, e “democracia” se forma sobre a raiz grega dêmos, as duas palavras significando “povo”. O povo ao qual faz referência a democracia é o corpo cívico em seu conjunto, o povo-nação, de onde surge um desvio sempre possível para o nacionalismo – do qual uma forma contemporânea, menos fustigada que a outra, exalta a “competitividade da França num mundo globalizado”. Já o povo ao qual se dirigem os populistas corresponde a duas definições distintas.

Na versão de direita, ele é mais ethnosque dêmos: povo invadido ou ameaçado de invasão, ele se opõe ao estrangeiro e ao imigrante. Mais ou menos abertamente xenófobo e, na França contemporânea, antiárabe ou islamofóbico, ele defende a identidade do povo-ethnos, suposta e culturalmente intacta e homogênea, contra as populações oriundas da imigração e tidas como inassimiláveis. Ele se apresenta como nacional. Dessa forma, mesmo que opostas quanto à Europa e à globalização, as estratégias eleitorais da União por um Movimento Popular (UMP) e do FN são idênticas. Para selar uma aliança a prioriimprovável, mas eleitoralmente necessária, com as classes populares, trata-se, nesta versão de direita, de substituir sua visão do mundo – “eles (os de cima)”/“nós (os de baixo)” – por uma abordagem opondo um “nós (os de baixo)” àqueles “que não trabalham e não querem trabalhar” (desempregados, imigrantes, beneficiados por ajudas sociais); em suma, a um “eles” abaixo de “nós”.8 Reativamos assim o conflito latente entre estabelecidos e marginais9 ao jogarmos com o medo do rebaixamento de classe.

A afiliação reivindicada dos meios populares às classes médias, a ostentação da honestidade e a estigmatização moral dos delinquentes e dos “preguiçosos” permitem se distinguir da representação dominante que assimila classes trabalhadoras e classes perigosas. É por isso que a direita propõe medidas como a limitação da imigração dita “de trabalho” e manifesta sua vontade de estabelecer um teto à renda dos beneficiários dos auxílios sociais e de obrigá-los a realizar trabalhos de interesse geral. Ela preserva assim a especificidade daquele que “trabalha duro” e favorece a aliança entre uma fração declinante das classes dominantes (o pequeno patronato) e a fração estabelecida das classes populares.

Na versão de esquerda, ao contrário, o povo designa o povo operário, o povo simples celebrado por Jules Michelet, o povo-plebe, “os de baixo” e, num plano político, o povo mobilizado, oposto aos de cima, à burguesia, às classes dominantes, ao establishment, aos privilegiados, aos detentores dos poderes econômico, político, midiático etc.

Quanto aos contornos de “povo popular”, se a classe operária foi por muito tempo o centro, a vanguarda (o populismo tornando-se então “operariarismo”), eles incluem também os empregados – mulheres, em sua esmagadora maioria – e, para além disso, uma fração mais ou menos extensa dos camponeses e da pequena burguesia (professores, funcionários da área de saúde, técnicos, engenheiros etc.). Em outras palavras, no caso francês, mais de três quartos dos ativos, dos quais apenas os operários e os empregados representam a metade. “Somos o partido do povo”, dizia o dirigente comunista Maurice Thorez em 15 de maio de 1936 (antes que esse partido se tornasse, muitas décadas depois, o das “pessoas”, segundo Robert Hue). Com inspiração mais ou menos marxista, esse tipo de “populismo”, defensor das classes populares enquanto exploradas, oprimidas, em luta contra as classes dominantes, apresenta-se frequentemente como socialista. As representações que servem de base para as denominações do povo-ethnos(populismo nacional) e aquelas que invocam ao contrário o “povo popular” (populismo socialista) se opõem como a direita se opõe à esquerda. Mas os advogados de um populismo popular cultivam com boa vontade – tanto por convicção quanto por necessidade – uma visão encantada, por vezes estetizante, de um povo idealizado. Eles dão ao “homem comum”, trabalhador explorado e dominado, uma reivindicação espontânea de igualdade. Eles postulam um conjunto de virtudes indissociáveis do ethospopular tradicional: solidariedade, autenticidade, naturalidade, simplicidade, honestidade, bom senso, lucidez, até mesmo sabedoria. Essas qualidades estão cristalizadas na noção de “decência comum” (common decency) cara ao escritor britânico George Orwell: “Os trabalhadores manuais, em uma civilização industrial, possuem certo número de traços que lhes são impostos por suas condições de existência: a lealdade, a ausência de calculismo, a generosidade, o ódio aos privilégios. É com base nessas disposições que eles desenvolvem sua visão da sociedade futura, o que explica por que a ideia da igualdade está no coração do socialismo dos proletários”.10

Assim, não seria possível pretender que os discursos securitários e xenófobos do FN não tenham eco junto às classes populares. Nas últimas eleições europeias, mesmo que 65% dos operários tenham se abstido (como 68% dos funcionários públicos e 69% dos desempregados), mais de 40% daqueles que votaram teriam escolhido esse partido, ou seja, cerca de 15% desse grupo em sua totalidade (segundo o instituto Ipsos). É ao mesmo tempo pouco e muito: se é verdade que o maior partido das classes populares ainda é o da abstenção,11 uma parte delas vota à extrema direita, convencida de que “ninguém faz nada por elas e que ‘aqueles’ de cima e ‘aqueles’ de baixo prosperam à sua custa”.12 Nesse caso, o sucesso da oferta do FN ilustra a capacidade do partido em manter a confusão entre o povo ethnos e o povo dêmos, e em formar entre as frações de classes médias e de classes populares uma aliança dirigida ao mesmo tempo contra os muito pobres e os muito ricos – uma estratégia também usada na Rússia por Putin.

Um povo que vota mal entregue às suas pulsões

Esse tipo de projeto político aproveita-se do “racismo de classe” que manifestam até mesmo sem se dar conta aqueles que o comentam. Sob suas plumas, esse povo que vota mal, implicitamente reduzido ao estado de populacho, patinaria em uma propensão inata ao fechamento, ao ensimesmamento, em um ressentimento adquirido de mau aluno diante das elites (o que seria atestado por seu nível baixo de diploma) e de uma incultura política: suas pulsões, sua credulidade, sua irracionalidade supostas o levariam em direção às propostas simplistas e fariam dele uma presa fácil para os demagogos. Ao contrário, esse discurso reserva às ditas elites as virtudes de abertura, inteligência, sutileza e superioridade moral. A denúncia do povo popular, encarnado pela figura do “beauf”,13 machista, homofóbico, racista, islamofóbico etc., renova assim a filosofia conservadora do fim do século XIX e sua desconfiança das multidões e da democracia – as de Hippolyte Tainte e de Gustave Le Bon. Ela deduz essas torpezas pela simples inversão das virtudes que credita às “elites”, as quais, por construção, são suposta e rigorosamente impermeáveis a esse tipo de desvio.

Desse modo, hoje como ontem, duas representações diametralmente opostas do populismo se enfrentam: o racismo de classes de uns serve para denunciar o populismo dos outros. 

Gerard Mauger
Diretor de pesquisa emérito do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS − Centre Nationalde la Recherche Scientifique). Recentemente, publicou La sociologie de la délinquance juvénile[A sociologia da delinquência juvenil], Paris, La Découverte, Col. Repères, 2009.
Ilustração: Dahmer
1 Philippe Roger, “Le roman du populisme” [O romance do populismo], Critique (especial “Populismes”), n.776-777, Paris, jan.-fev. 2012.
2 Claude Grignon e Jean-Claude Passeron, Le savant et le populaire [O sábio e o popular], Seuil, Paris, 1989.
3 Ludwig Wittgenstein, Le Cahier Bleu et le Cahier Brun [O Livro Azul e o Livro Marrom], Gallimard, Paris, 2004.
4 Pierre-André Taguieff, L’illusion populiste. De l’archaïque au médiatique [A ilusão populista. Do arcaico ao midiático], Berg International, Paris, 2002.
5 Ler Serge Halimi, “Le populisme, voilà l’ennemi!” [O populismo, eis o inimigo!], Le Monde Diplomatique, abr. 1996.
6 Nonna Mayer, “Le populisme est-il fatal?” [O populismo é fatal?], Critique, op. cit.
7 É o que propõe Jacques Rancière com “L’introuvable populisme” [O populismo impossível de ser encontrado]. In: Alain Badiou et al., Qu’est-ce qu’un peuple? [O que é um povo?], La Fabrique, Paris, 2013. Quanto às “Vinte e quatro notas sobre a utilização da palavra povo”, propostas na mesma obra por Alain Badiou, podemos sem dificuldade reduzi-las a três: “nacional”, “operário” e “racial”.
8 Cf. Robert Castel, “Pourquoi la classe ouvrière a perdu la partie” [Por que a classe operária perdeu o jogo]. In: La montée des incertitudes. Travail, protections, statut de l’individu [O crescimento das incertezas. Trabalho, proteções, estatuto do indivíduo], Seuil, 2009.
9 Sobre essa distinção entre established e outsiders, cf. Norbert Elias e John L. Scotson,Logiques de l’exclusion. Enquête sociologique au cœur des problèmes d’une communauté[Lógicas da exclusão. Pesquisa sociológica no coração dos problemas de uma comunidade], Fayard, Paris, 1997 (1. ed.: 1965).
10 New English Weekly, Londres, 16 jun. 1938. Citado por Jean-Claude Michéa, Orwell, anarchiste tory [Orwell, anarquista conservador], Climats, Castelnau, 2000.
11 Ler Céline Braconnier e Jean-Yves Dormagen, “Ce que s’abstenir veut dire” [O que se abster quer dizer], Le Monde Diplomatique, maio 2014.
12 Robert Castel, op. cit.


13 O “beauf” é um personagem de história em quadrinhos inventado por Cabu nos anos 1970. Ele encarna um tipo ideal de racista, sexista e homofóbico. Na mesma época, Les Bidochon, HQ desenhado por Binet, apresentava personagens do mesmo tipo.
Le Monde Diplomatique Brasil

O atentado de Sarajevo, pretexto para reescrever a história

Segundo uma análise cada vez mais difundida, o assassinato do herdeiro do Império Austro-Húngaro provocou a Primeira Guerra Mundial. Ao conferir um lugar central à política sérvia no início do conflito, essa leitura ajuda a criar a imagem sóbria dos Bálcãs e oculta as causas reais da carnificina de 18 milhões de mortos
por Jean-Arnault Dérens


sorte da Europa foi lançada em Sarajevo no dia 28 de junho de 1914? Nessa data, um jovem nacionalista “iugoslavo”, Gavrilo Princip, membro da organização secreta Jovem Bósnia, manipulada por certas facções do serviço secreto do reino da Sérvia, assassinou o arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa do Império Austro-Húngaro, e sua esposa, a condessa Sofia Chotek.

A memória desse gesto mortal se manteve viva durante todo o século XX em diversas interpretações contraditórias. Em 1941, quando acabavam de penetrar em Sarajevo, oficiais nazistas arrancaram a placa comemorativa que havia no local do drama e a ofereceram a Hitler na ocasião de seu aniversário. Após a Libertação, sob a Iugoslávia socialista, uma nova placa foi instalada no mesmo lugar, com a pegada de Gavrilo Princip gravada no concreto. A Iugoslávia socialista considerava o jovem revolucionário – morto de tuberculose na prisão em 1918 – um “herói” e um “libertador”. No próximo dia 28 de junho, a prefeitura de Sarajevo planeja erigir um novo monumento à memória do arquiduque assassinado e inaugurar um busto de Gavrilo Princip em Belgrado, no Parque Kalemegdan.

Qual importância é conveniente conferir a seu gesto mortal? Em seu best-seller internacional, Les somnambules,1 o historiador britânico Christopher Clark propõe uma releitura das causas da guerra que, segundo ele, não era inevitável. O atentado de Sarajevo não teria servido apenas de pretexto para o Império Austro-Húngaro declarar, em 28 de julho, guerra contra a Sérvia – cujo jogo de alianças teria culminado no primeiro conflito mundial; teria desempenhado também o papel de disparador da guerra.

Reavaliar dessa forma a importância do atentado de Sarajevo conduziu o historiador a conferir uma responsabilidade central à política sérvia nos acontecimentos que precipitaram a Europa para a guerra. A questão de uma eventual unificação dos povos eslavos do sul – “iugo” significa sul – agitava os Bálcãs naquele momento, assim como as possessões territoriais austro-húngaras. A tutela (1878) e, principalmente, a anexação (1908) da Bósnia-Herzegovina haviam deteriorado seriamente as relações entre Viena e Belgrado.

Vingança ideológica do Ocidente

A abordagem escolhida pelo historiador, contudo, leva-o a relativizar a importância dos interesses imperialistas das “grandes potências” nos Bálcãs, que não queriam dividir os restos do Império Otomano que agonizava. Em vez disso, Clark retoma longamente as circunstâncias trágicas do golpe de Estado de 1903, com a deposição da dinastia sérvia dos Obrenovic e a ascensão da dinastia dos Karadjordjevic. O massacre dos membros da família real deposta provaria uma verdadeira “barbárie” sérvia, além de uma tendência ao regicídio, que o atentado de Sarajevo viria a confirmar.

Os historiadores sérvios se defenderam ao denunciar o que qualificaram como “revisionismo histórico”. Alguns nacionalistas entenderam o recado como “vingança ideológica” do Ocidente, que ainda desejaria punir os sérvios pelas guerras dos anos 1990. Mas as críticas abundam amplamente nos setores nacionalistas. O escritor e jornalista bósnio Muharem Bazdulj também estigmatiza essas reescrituras da história ao denunciar a confusão voluntária que essa leitura histórica faz dos conceitos de “nacionalismo sérvio” e “aspiração iugoslava”.2 Segundo ele, a “reabilitação” do Império Austro-Húngaro teria como objetivo, por consequência, negar qualquer legitimidade à experiência iugoslava. No momento de comemoração de seu centenário, no dia 28 de junho próximo, o projeto “Sarajevo, coração da Europa”, financiado pela União Europeia, exalta o “modelo” da reconciliação franco-austríaca, silenciando a ambição iugoslava de vida comum.

A retirada de “pequenos detalhes”

Amplamente repercutida nos meios de comunicação, a visão de Clark conforta uma imagem “negra” dos Bálcãs. No início dos anos 1990, o jornalista Robert D. Kaplan havia publicado Balkan ghosts,3 que exerceu uma profunda influência sobre a percepção dos Bálcãs por parte dos norte-americanos. Aí já estava a sugestão de que as verdadeiras raízes da Primeira Guerra Mundial deveriam ser buscadas nessa região. A Segunda Guerra Mundial, por sua vez, teria sido apenas uma consequência da primeira, e aí residiria a causa de todos os problemas da Europa no século XX. Nessa linha de pensamento, a “matriz ideológica” tanto do fascismo como do comunismo poderia estar no nacionalismo sérvio e croata...

De acordo com a historiadora búlgara Maria Todorova, esse imaginário ocidental dos “Bálcãs selvagens”4 permite definir, por contraste, a “verdadeira” Europa: ocidental, moderna, civilizada. Contudo, foi nas trincheiras da guerra de 1914 que, pela primeira vez na história, os jovens croatas e os jovens sérvios receberam ordens de matarem-se entre si: os primeiros vestiam o uniforme austro-húngaro, enquanto o governo dos segundos era aliado da França e da Grã-Bretanha.

A inversão de valores é explícita em um texto do jornalista italiano Domenico Quirico: “Sarajevo é o coração das trevas, e há cem anos a consciência europeia agoniza nos escombros de seu universo. É preciso vir aqui, aos Bálcãs, para compreender os egoísmos irracionais que a assassinaram”.5 Se essas palavras possuem algum sentido, é preciso compreender que são as “trevas” de Sarajevo que obscurecem há um século a “consciência europeia”, e os “egoísmos irracionais” dos Bálcãs que “assassinaram” essa Europa. Retiram-se da leitura histórica, assim, “detalhes” pouco importantes como os choques imperialistas, o colonialismo, o fascismo, o nazismo. A fonte primeira de todos os males do século XX foi finalmente encontrada: é essa terra “ensopada de sangue” que constitui os Bálcãs. 

Jean-Arnault Dérens redator-chefe do Courrier des Balkans.

1 Christopher Clark, Les somnambules. Été 1914: comment l’Europe a marché vers la guerre[Os sonâmbulos. Verão de 1914: como a Europa caminhou em direção à guerra], Paris, Flammarion, 2013.
2 Ler Muharem Bazdulj, “Attentat de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler et l’idée yougoslave. Entretien avec Vuk Mijatović” [Atentado de Sarajevo: Gavrilo Princip, Hitler e a ideia iugoslava. Entrevista com Vuk Mijatović], Le Courrier des Balkans, 25 nov. 2013.
3 Robert D. Kaplan, Balkan ghosts: a journey through history [Fantasmas dos Bálcãs: uma jornada pela história], Picador, Nova York, 2005.
4 Maria Todorova, Imaginaire des Balkans [Imaginário dos Bálcãs], Paris, Éditions de l’Ehess, 2011.
5 Domenico Quirico, “À Sarajevo, la conscience de l’Europe râle sous les décombres” [Em Sarajevo, a consciência europeia agoniza em seus escombros], La Stampa/Le Monde, suplemento Europa, 16 jan. 2014.
Le Monde Diplomatique Brasil

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A Peste Negra



Tudo começa quase como um resfriado comum. Dentro de um dia aparecem a febre, as manchas pretas do tamanho de bolas de bilhar no pescoço, e então a tosse com sangue. Poucos viveram mais de dois dias após o início da infecção, e muito rapidamente o destino dos corpos tornou-se um problema.

Guia Politicamente Incorreto do Brasil - Leandro Narloch

domingo, 14 de setembro de 2014

Erros e acertos do fenômeno "O Capital no Século 21"

SAMUEL PESSÔA
ilustração LOURIVAL CUQUINHA
MARTIN JOHN CALLANAN



RESUMO Lançado na França em 2013, livro de Thomas Piketty estourou ao sair em inglês neste ano. Pesquisa do francês e sua equipe gerou valiosa base de dados sobre desigualdade, mas livro, que recupera ideia marxista de compulsão à acumulação, falha ao desconsiderar efeitos do comércio internacional na evolução do capitalismo.

*

"O Capital no Século 21" consolida década e meia de trabalho do pesquisador francês Thomas Piketty ao lado de uma equipe de colaboradores, cujos achados foram publicados em outros dois volumes e em diversos artigos acadêmicos nas melhores revistas internacionais. A maior contribuição desse esforço coletivo de pesquisa é um exaustivo trabalho historiográfico que resultou na construção de bases de dados de desigualdade de renda e de riqueza, para diversos países e ao longo de décadas.

É difícil fazer uma avaliação criteriosa do ainda recente volume, que, lançado originalmente em francês, em 2013, pela Seuil, explodiu em nível global a partir de sua tradução para o inglês, neste ano, pela Harvard University Press. A obra chegou às listas de mais vendidos e gerou tal comoção que a editora Intrínseca, que deve lança-lo no Brasil em novembro, já colocou o título em pré-venda em sites de livrarias.

Se o resultado cristalizado na publicação ainda é passível de controvérsias, e elas têm aparecido, provavelmente o esforço coletivo de pesquisa justificaria um prêmio Nobel para a equipe capitaneada pelo docente francês -Piketty, 43, leciona na Escola de Economia de Paris desde 2007 e na Ehess (Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais) desde 2000.
Lourival Cuquinha/Divulgação 


Em artigo publicado há duas semanas, o jornal britânico "Financial Times" questionou a credibilidade dos dados usados na pesquisa e, em sua edição de junho, a revista conservadora "The American Spectator" afirmou que Piketty propõe um "confisco" de fortunas. Mas é difícil imaginar que haja erros de fato grosseiros, a ponto de desqualificar os achados do grupo, e que tenham escapado aos pareceristas dos conceituados "Journal of Political Economy", "Quarterly Journal of Economics" ou "American Economic Review" -publicações em que Piketty e colaboradores publicaram várias das conclusões que estariam no livro.

PROPÓSITOS

A publicação de "O Capital no Século 21" parece atender a dois objetivos de seu autor. Primeiro, defender uma posição política muito clara. O texto é um manifesto de defesa da social-democracia europeia continental com Estado grande e provedor dos serviços e seguros sociais básicos -saúde, educação, previdência e assistência social- e de instrumentos tributários que impeçam a concentração excessiva de renda e riqueza. O volume cumpre muito bem esse objetivo normativo. Os autores liberais e libertários terão trabalho e gastarão muito tutano respondendo ao libelo de Piketty. Trata-se de contribuição importantíssima ao debate público.

O segundo objetivo foi construir uma narrativa do desenvolvimento do capitalismo desde meados do século 19 até os dias de hoje e, possivelmente, para o resto do século 21. Uma narrativa que permita organizar e dar coerência ao conjunto de evidências empíricas desvendadas ao longo do trabalho dos pesquisadores nos arquivos.
Livro
O Capital no Século XXI
Thomas Piketty



Trata-se de uma obra de sistematização. É nesse sentido que o volume assume a grandiloquência de clássicos como "A Riqueza das Nações", de Adam Smith, "Princípios de Economia Política e Tributação", de David Ricardo, ou "O Capital", de Karl Marx. Embora, claro, somente a passagem do tempo dirá se o livro é o clássico que promete ser. Por ora é possível afirmar que a narrativa que o livro nos oferece para organizar os inúmeros achados e fatos empíricos descobertos por Piketty e seus colaboradores é, na melhor das hipóteses, muito incompleta.

Do ponto de vista teórico, o autor parte da rejeição da teoria padrão que os economistas construíram para explicar a poupança, que é a forma de transmissão intertemporal de renda, e, portanto, a acumulação de capital.

Segundo a teoria padrão, a principal motivação para a acumulação de capital é a transferência de renda de um indivíduo para si mesmo, de sua idade ativa para a velhice. A teoria de poupança ao longo do ciclo de vida -que rendeu o Prêmio Nobel de 1985 ao economista ítalo-americano Franco Modigliani- sustenta que as pessoas poupam enquanto trabalham para consumir na velhice.

Entre muitas outras, a teoria de ciclo de vida prevê que a parcela da riqueza transmitida por meio de herança tem que ser relativamente pequena. A herança seria riqueza não intencional deixada pelos pais aos filhos em função de incerteza com relação à data da morte. Como não sabemos o momento exato da morte, ao morrer sempre sobra algo que os filhos herdam.

ACUMULAÇÃO

Para Piketty, a partir de certo nível de riqueza, a renda gerada pelo capital é tão elevada que é possível sustentar com ela níveis elevadíssimos de consumo e simultaneamente acumular e legar para seus herdeiros mais do que se recebeu. O capital se acumula de forma automática. Aqui Piketty ecoa Marx.

Para os que muito têm, é relativamente barato gerir o patrimônio e conseguir retornos elevados, fato não possível para os pequenos poupadores. O elevado retorno à escala da indústria de gestão de riqueza exerce pressão concentradora adicional. Está criado o capitalismo rentista e patrimonialista no qual o acesso à riqueza depende cada vez mais da sorte de nascer na família certa do que de seu esforço e mérito.

É evidente que Piketty se preocupa com o início do patrimônio. Ele argumenta que a acumulação inicial deve-se a sorte, acaso e, muitas vezes, a mérito -esforço, trabalho diligente e inovador, talento. Mas diz que a riqueza, meritória ou do acaso (e, muitas vezes é impossível distingui-las), transforma-se rapidamente em riqueza sem risco e de rendimento perpétuo. A taxa de retorno do capital é a renda percentual do capital, ou seja, uma taxa de retorno de 5% ao ano significa que o fluxo de renda gerado pelo capital equivale a 5% do valor do capital.

Uma vez constituído o patrimônio, a descendência proprietária passa a pertencer ao invejado clube dos indivíduos que, pelo nascimento ou casamento, não precisarão pelo resto de seus dias se preocupar com como pagarão suas contas.

Apesar das diferenças -a acumulação primitiva de Marx resultava de roubo, pirataria e expropriação (aparentemente o capitalismo melhorou)-, para ambos o capital acumula-se automaticamente. O paralelismo com Marx termina aqui. Piketty considera que a economia de mercado com propriedade privada dos meios de produção é a forma mais eficiente de organização da atividade econômica.

Neste aspecto a quarta e final parte do livro tem paralelismo com a Teoria Geral de Keynes: mensagem reformista, que reconhece os méritos, mas identifica falhas no funcionamento da economia de mercado e sugere políticas para "consertar" a máquina.

DISTRIBUIÇÃO

Os economistas trabalham com dois conceitos de distribuição de renda. A distribuição interpessoal da renda descreve como a renda gerada, de capital e de trabalho, é distribuída entre as famílias. A distribuição funcional da renda descreve a divisão da renda entre capital e trabalho.

A distribuição funcional da renda é um conceito simples. Um único número -a parcela do capital na renda, ou seu complemento, a parcela do trabalho na renda- descreve-a integralmente. A distribuição interpessoal da renda é um conceito matemático muito mais complexo do que um número. Para facilitar a análise, os estatísticos inventaram números que sintetizam a desigualdade. Os mais conhecidos são os índices de desigualdade de Gini e de Theil.

Piketty prefere outros indicadores. Para descrever a desigualdade interpessoal de renda, acompanha particularmente a parcela da renda apropriada pelos 50% mais pobres, pelos que estão entre os 50% e 90% mais ricos, os 10% mais ricos, o 1% e o 0,1%.
Martin John Callanan 

O autor assevera que o capitalismo tende à concentração de ambas as distribuições, interpessoal e funcional. Ao longo das três primeiras partes do livro, apresenta para os países europeus e para os EUA a evolução do produto per capita; a evolução da riqueza da economia e da sua natureza, se pública ou privada, da terra, do capital físico ou dívida pública; a evolução da renda do capital; da relação capital-produto; da participação do capital na renda; e, finalmente, a evolução da distribuição interpessoal da renda e da riqueza.

Piketty e seus colaboradores encontraram um ciclo de concentração de renda que termina com a Primeira Guerra. Entre 1914 e 1974 toda a dinâmica se inverte. Há redução da relação capital-produto, reduz-se a participação do capital na renda, e a distribuição interpessoal da renda e da riqueza melhora para os diversos indicadores de desigualdade interpessoal de renda empregados na obra, além da parcela da riqueza existente derivada de herança ter se reduzido expressivamente. A partir de 1974 a dinâmica do capitalismo retorna ao seu curso normal. Há um novo ciclo concentrador.

Segundo o estudioso, a melhora distributiva nas seis décadas entre 1914 e 1974 deveu-se à sucessão de tragédias -duas guerras mundiais e, entre elas, a Grande Depressão- que destruíram muito capital. Adicionalmente, no pós-Guerra houve em diversos países a imposição de impostos confiscatórios sobre a riqueza, além de apoio a instituições que aumentaram o poder de barganha do trabalho frente ao capital e a criação do Estado de bem-estar social. Finalmente, a repressão financeira das décadas de 50, 60 e 70 promoveu redução forçada do endividamento público e houve a estatização de diversos setores.

Essa dinâmica foi quebrada pelo neoliberalismo de Reagan e Thatcher. O pacote de políticas que inclui a desregulamentação dos diversos mercados, forte redução das barreiras comerciais nos anos 80, e, nos anos 90, das barreiras à mobilidade internacional de capitais, além da privatização de diversos setores produtivos, alterou o poder de barganha do trabalho nos países centrais. Sem a regulação estatal, o capitalismo retomou seu rumo concentrador. Voltamos à dinâmica da "belle époque".

Se nada for feito retornaremos ao mundo de Jane Austen ou Balzac, no qual a melhor forma de alcançar uma vida confortável é casar com a pessoa certa. O livro documenta em detalhes a familiaridade que os escritores do século 19 tinham com o funcionamento do capitalismo patrimonialista.

O elemento final de preocupação de Piketty é a manutenção das instituições democráticas. Para ele, a dinâmica normal de uma economia de mercado que resulta necessariamente no capitalismo patrimonialista coloca em risco a democracia como a conhecemos. Ele afirma que a democracia seria incompatível com excessiva concentração de riqueza.

PORÉNS

O primeiro reparo que se pode opor à narrativa de Piketty se refere à tendência de elevação da participação do capital na renda conforme a quantidade de capital cresce. Evidentemente, quando a quantidade de capital se eleva, sua taxa de retorno cai.

A questão é a intensidade dessa queda. Se a taxa de retorno cair proporcionalmente menos do que a quantidade de capital, a participação do capital na renda se eleva. Se a queda da taxa de retorno for proporcionalmente maior do que a elevação da quantidade de capital, a participação dele na renda se reduzirá "pari passu" à elevação da relação capital-produto.

Em qual mundo vivemos? Segundo o livro, em um mundo no qual a acumulação de capital eleva a participação do capital na renda.

O autor considera que a forte flexibilidade tecnológica permite que a queda do retorno do capital, diante do aumento de sua quantidade, seja pequena. A flexibilidade tecnológica significa que é relativamente simples substituir trabalho por capital. Ou seja, quando a quantidade de capital se eleva, o retorno não se reduz muito, pois seria relativamente fácil transferir atribuições do trabalho ao capital.

Diversas estimativas sugerem, no entanto, o oposto. Não seria tão fácil assim substituir trabalho por capital. Portanto, conforme o estoque de capital cresce, seu retorno cai mais do que proporcionalmente. Por que motivo Piketty obteve resultado oposto? A maior falha analítica de uma narrativa tão abrangente do desenvolvimento do capitalismo desde o século 19 até hoje é não ter incorporado a questão do comércio internacional de bens e serviços e da mobilidade internacional de capital.

PAX

Um dos períodos de plena prevalência do capitalismo patrimonialista é, segundo Piketty, a "belle époque", final de um período que os historiadores econômicos conhecem por Pax Britannica.

Essa época se inicia com o fim das guerras napoleônicas, seguido pela suspensão das leis que impediam a Inglaterra de importar cereais (as "Corn Laws") e pelo desenvolvimento do telégrafo e do navio a vapor e de casco de metal.

Tais inovações tecnológicas, em associação com o domínio britânico sobre os mares, geraram a primeira grande globalização, inaugurando o comércio de longo curso de commodities agrícolas e minerais, além de forte mobilidade de capital. Havia investimentos britânicos em ferrovias mundo afora.

É desse período o expressivo desenvolvimento econômico do Cone Sul latino-americano, São Paulo incluída, dos EUA, e do Canadá, Austrália e Nova Zelândia. A Pax Britannica terminou tragicamente com a eclosão da Primeira Guerra.

É impossível entender o que ocorria com a remuneração do capital e do trabalho nos países centrais sem considerar o comércio e o seu impacto sobre a remuneração dos fatores de produção. Certamente a menor queda do retorno do capital nesses países resultava não de maior flexibilidade tecnológica, mas sim da possibilidade de vender bens manufaturados a mercados que ofertavam bens primários.

É surpreendente que Piketty não considere com cuidado os estudos de diversos historiadores sobre o tema. É impossível entender a evolução da renda dos fatores de produção no período em questão sem um diálogo minucioso com os trabalhos de John Williamson, John O'Rourke, Ronald Findlay e Alan Taylor, entre outros, frutos de pesquisas que se estenderem pelas últimas duas décadas.

GLOBALIZAÇÃO

Analogamente, o período de 1914 até o pós-Guerra é conhecido pelo forte fechamento das economias ao comércio e à mobilidade de fatores. Parte da queda do retorno do capital nas economias centrais resultou dessa dinâmica.

O grau de abertura do mundo só veio a ultrapassar os níveis observados até 1914 na virada dos anos 1980 para os anos 1990 -a segunda grande globalização teve início na década de 1970, e a ela se deve boa parcela da moderação na queda do retorno do capital e da tendência recente à elevação da participação do capital na renda nos países centrais. Por outro lado, a nova globalização explica boa parte da queda de pobreza que tem ocorrido na Ásia nas últimas décadas, provavelmente a maior da história.

É difícil imaginar que a incorporação de 1/3 da humanidade ao mercado internacional de trabalho não afetaria a evolução da renda do capital e da renda do trabalho nos países centrais. Ou seja, a dinâmica que Piketty enxerga como uma realidade tecnológica e regulatória interna às nações possivelmente sofreu forte influência do comércio internacional.

É preciso lembrar que, se considerarmos indicadores sintéticos de desigualdade, como Gini ou Theil, ela vem se reduzindo nas últimas décadas. Apesar de a desigualdade ter se elevado nos países centrais e na Ásia, ela tem se reduzido no mundo. O motivo é que a queda da desigualdade entre os países, em função do crescimento da Ásia, tem mais do que compensado a elevação da desigualdade no interior de cada país. Ou seja, a desigualdade em um país hipotético fruto da união de EUA com China, por exemplo, tem caído.

As conclusões de Piketty com relação à evolução futura da taxa de retorno do capital e da relação capital-produto não são imunes à dinâmica global. A continuidade do forte processo de acumulação de capital na Ásia provavelmente produzirá, após o esgotamento do crescimento do volume de comércio, redução bem mais acentuada do que ele imagina nas taxas de retorno do capital. Parece, aliás, que já estamos atingindo este ponto.

CONTENDA

O volume apresenta outras deficiências e imprecisões técnicas que têm motivado intenso debate entre acadêmicos. (Para os leitores interessados, um apêndice trata sobre esses temas.)

No capítulo dedicado à descrição da fortíssima elevação da concentração ocorrida na economia americana nas últimas quatro décadas, Piketty se mostra ciente de que o processo do lado de cá do Atlântico é diverso do que ocorre na outra margem. Enquanto na Europa já há sinais de aumento da desigualdade liderada pela desigualdade do capital, nos EUA aumentou fortemente a desigualdade da renda do trabalho.

Sabe-se que a fortíssima elevação da desigualdade de renda do trabalho está associada à elevação da remuneração do talento.

Certamente a diferença de salário que há entre Neymar e qualquer jogador de futebol da terceira divisão não resulta do esforço e do empenho de Neymar ao longo dos treinamentos em toda sua vida. O diferencial resulta de seu maior talento, incluindo aí a sorte de ter particular capacidade pra recuperar-se de contusões. Argumentos análogos aplicam-se a artistas, esportistas, inovadores e inventores, presidentes de grandes empresas, operadores do mercado financeiro, os melhores médicos e advogados em suas especialidades etc.

A fortíssima concentração da renda do trabalho na porção de 1% mais ricos está associada principalmente aos elevados salários dos presidentes de empresas e operadores do mercado financeiro. Como documentado no volume de Piketty, os elevados rendimentos dessas duas categorias profissionais explica aproximadamente 90% do fenômeno. O resto do fenômeno resulta da elevação da renda dos profissionais mais destacados em outras carreiras que dependam do talento pessoal.

Com relação aos CEOs, Piketty defende que os ganhos não são fruto direto da produtividade, mas resultantes da cooptação dos conselhos de administração das empresas pela diretoria, que consegue impor à assembleia de acionistas a sua própria escala de remuneração.

A explicação dada pelo autor é muito pouco convincente. Há evidência de que a remuneração dos CEOs das empresas não listadas em bolsa, cujo capital é controlado por poucos (e nas quais, portanto, a cooptação não deveria ocorrer), aumentou da mesma forma. Além disso, outras atividades tiveram forte elevação de ganhos.

Existem pesquisas que apontam exatamente a globalização das empresas americanas e sua capacidade para acessar grandes mercados como explicação para as elevadas remunerações. Há, ainda, trabalhos que apontam a capacidade das empresas americanas de transplantar parte da produção para economias emergentes como explicação para o menor crescimento dos salários nos EUA nas últimas décadas. Como Piketty desconsidera em seu livro o comércio e a mobilidade internacional de capitais, não pode dialogar com esta leitura alternativa.

LIÇÕES

Não obstante, é verdade que a desigualdade do trabalho de hoje pode tornar-se desigualdade do capital amanhã e desigualdade de heranças depois de amanhã. E os EUA caminhariam céleres em direção ao capitalismo patrimonial da "belle époque".

Rejeitada a grande história proposta no volume, resta sua mensagem normativa, a defesa intransigente da social-democracia, mas principalmente as características associadas à evolução da desigualdade interpessoal de renda e de riqueza e ao crescimento do peso da riqueza herdada na riqueza total.

Com relação à defesa da social-democracia, a maior limitação do texto parece ser a análise estreita dos motivos que justificaram a revolução neoliberal dos anos 80. Parece que não havia excessos no Estado de bem-estar social, que a inflação não grassava e que a carga tributária não caminhava para limites insustentáveis.

O autor vê a revolução neoliberal como se motivada exclusivamente pela vaidade de ingleses e americanos que não entendiam que o crescimento da Europa continental era simplesmente recuperação do espaço perdido por consequência dos tumultos da primeira metade do século 20.

Apesar de o livro terminar menor do que iniciou, deixa três lições fundamentais.

Primeiro, que o estudo da desigualdade interpessoal requer o emprego de diversos conceitos. O uso indiscriminado dos coeficientes de Gini ou Theil pode obscurecer dinâmicas importantes, principalmente na ponta superior da renda.

Segundo, é impossível investigar a evolução da desigualdade de renda com bases de dados que não coletam com precisão a desigualdade de capital. E, para esta, é necessário recorrer ao registro tributário. Terceiro, há tendência recente de forte concentração de renda nas economias centrais e, em particular, há um processo de elevação do peso da riqueza herdada na riqueza total.

A despeito das deficiências da narrativa histórica que o autor se propõe fazer, esses aprendizados justificam plenamente o impacto que o livro vem causando no debate público internacional.

SAMUEL PESSÔA, 51, é pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia/FGV, sócio da consultoria de investimentos Reliance e colunista da Folha.
LOURIVAL CUQUINHA, 39, é artista plástico. Inaugura neste sábado a individual "Territórios e Capital: Extinções", no MAM-Rio, e participa da coletiva "Multitude", no Sesc Pompeia.
MARTIN JOHN CALLANAN, 32, artista britânico, ganhou neste ano o Prêmio Philip Leverhulme. Na série "The Fundamental Units", fez macro-fotografias das moedas de menor valor ativas em 166 países, como a de 1 centavo de euro
Folha de S. Paulo

Cidade de Sarajevo comemora fim de "século de conflito"

Em uma esquina à margem do rio foram disparados os tiros que deflagraram a Primeira Guerra Mundial. Os moradores esperam expurgar os fantasmas de conflitos passados

ANDREW MCDOWALL
DO "OBSERVER", EM SARAJEVO


Deitando uma coroa de flores no lugar em que o arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher Sofia, grávida, foram assassinados, exatamente 100 anos antes, Aleksandar Simec e Alexander Schneider explicavam porque sentiam que a morte do herdeiro do trono austríaco foi uma tragédia para a Europa e para o mundo.

"Se esse trágico evento não tivesse ocorrido, a guerra e milhões de mortes poderiam ter sido evitadas. O fim do Império Austro-Húngaro criou um vácuo político no centro da Europa que foi ocupado inicialmente pelos nazistas e depois pelo comunismo soviético", afirmam.
Antonio Bronic - 28.jun.2014/Reuters 

Atores vestidos como o arquiduque Franscisco Ferdinando e a condessa Sophie Chotek em performance na Bósnia.


"Os Habsburgos [a dinastia imperial austríaca] teriam resistido", diz Schneider, ativista austríaco da Aliança Aurinegra, uma organização que defende a restauração da monarquia austríaca e de uma união centro-europeia que acompanharia os limites do império Habsburgo.

Francisco Ferdinando e Sofia foram mortos a tiros por Gavrilo Princip ao lado da Ponte Latina em Sarajevo, a capital da Bósnia, em 28 de junho de 1914, um ato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Schneider se inclina para posicionar fotos do casal assassinado ao lado da coroa, e Simec –nascido na Áustria e dotado de nacionalidade iugoslava, ostentando um rabo de cavalo e um broche monarquista no paletó– explica que Francisco Ferdinando desejava criar uma terceira entidade no Império Austro-Húngaro, para os eslavos, como os sérvios, bósnios e croatas. "Ele tinha a ideia de estabelecer uma espécie de Iugoslávia como parte do Império Austro-Húngaro".

Mais cedo naquele dia, a Aliança havia percorrido o trajeto do casal real em Sarajevo, mas em lugar de se deterem no local do assassinato eles prosseguiram até o destino planejado para o percurso do arquiduque, a estação ferroviária.

"Começamos exatamente na mesma hora e viajamos exatamente na mesma velocidade", diz Simec. "Queríamos desfazer o assassinato, simbolicamente".

Ao lado da placa que marca o local do assassinato, a coroa de flores da Aliança tem a companhia de duas outras, e de três ramalhetes. Sob um retrato emoldurado do casal, uma legenda em alemão diz "o objetivo da vida deles era paz para as nações. Sua morte trouxe guerra para as nações".

A dois metros de distância, uma placa provisória e um ramalhete de flores ocupam o lugar do qual Princip disparou. Velas finas de cera de abelha, como as usadas nas igrejas ortodoxas, estão acesas. Bósnio de etnia sérvia e encarado como herói nacional na era iugoslava, o legado de Princip é controverso, hoje. A placa recorda que um memorial a Princip foi removido do local em 1992, quando a Bósnia decaiu à guerra.

Mas os memoriais estão atraindo muito menos atenção do que uma réplica do carro do casal real estacionada ao lado, onde turistas posam com um homem vestido como Francisco Ferdinando. As edificações que cercam o local ainda mostram marcas de balas de uma guerra mais recente. Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi dilacerada por um conflito entre os bósnios muçulmanos e os bósnios de origem sérvia e croata, no qual 100 mil pessoas morreram e Sarajevo foi submetida a um cerco de 1.425 dias por forças sérvias. A cidade vem relembrando o assassinato do arquiduque na esperança de que isso "feche o ciclo" de um século de conflito. Pouco antes da meia-noite, diversas performances aconteceram na Ponte Latina. Às 11h, o horário aproximado do assassinato, turistas e jornalistas enchiam as ruas próximas à ponte e as margens do rio Miljacka, por sob as árvores que acompanham o curso do rio, cujas águas brilham ao sol do verão. Acima avulta a cadeia de montanhas da qual a artilharia sérvia bombardeava a cidade durante a guerra.

"Sarajevo é o foco: os olhos do mundo estão voltados para nós", diz Ivo Komsic, prefeito da cidade. "Nós, de Sarajevo, queremos enviar uma mensagem de nova esperança para as novas gerações, e de um melhor futuro".
Dado Ruvic - 24.jun.2014/Reuters 
O edifício Vijecnica em Sarajevo

Uma das peças centrais da celebração foi um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena no edifício Vijecnica, a poucos metros de distância do local do assassinato, com o presidente da Áustria como um dos convidados. O notável Vijecnica, em estilo pseudomourisco e próximo à Ponte Latina, é um símbolo especialmente significativo para Sarajevo: ele abrigava a prefeitura na qual Francisco Ferdinando e Sofia participaram de uma recepção pouco antes de serem assassinados. O edifício mais tarde passou a abrigar a biblioteca da Bósnia e Herzegóvina e foi atacado pela artilharia sérvia durante o cerco, o que causou a perda de cerca de dois milhões de livros. Os moradores de Sarajevo descrevem como o ar estava repleto de pedaços de papel cobertos por elegante caligrafia árabe, que se convertiam em cinza ao cair no chão.

"O Vijecnica é muito importante para nós; é um símbolo de Sarajevo e sua mistura de estilos arquitetônicos demonstra que Sarajevo é um ponto de encontro de culturas", diz Komsic.

O edifício passou por uma restauração que durou 18 anos, mas especialistas em conservação disseram ao "Observer" que ele continua em estado precário. O edifício representa outro ponto de disputa em uma nação que ainda está dividida. Uma inscrição na parede, em inglês e no idioma local (até o nome do edifício é contestado), se refere aos "criminosos sérvios", o que o presidente e primeiro-ministro da Sérvia definem como difamação e os levou a boicotar a cerimônia em Sarajevo.

A guerra não deixou apenas cicatrizes físicas e psicológicas. A Bósnia se divide administrativamente entre a Federação, em sua maioria muçulmana e católica croata, e a República Sérvia, fortemente autônoma, cujo líder, Milorad Dodik, agita regularmente pela independência. Em 27 de junho, no distrito leste de Sarajevo, separado e governado pelos sérvios, Dodik inaugurou um parque que leva o nome de Gavrilo Princip, decorado por uma estátua do assassino.

Para muitos sérvios, Princip é um herói da independência dos eslavos do sul. E 28 de junho era um dia importante mesmo antes de 1914, porque foi a data de uma batalha travada em Kosovo em 1389 na qual, de acordo com o entendimento popular se não com o conhecimento histórico exato, uma derrota sérvia resultou em séculos de opressão pelos otomanos. É essa espécie de complexidade histórica que os encarregados de organizar eventos e exposições precisam encarar, em um ambiente altamente volátil. A Bósnia tem uma eleição geral marcada para o quarto trimestre, e a retórica nacionalista deve ganhar ainda mais força.

Uma exposição especial no Museu Histórico Nacional da Bósnia e Herzegóvina, com apoio do Museu Imperial da Guerra em Londres, foi aberta em 26 de junho, registrando a visita de Francisco Ferdinando, o assassinato e o período da guerra no país. A mostra começa com descrições de viajantes sobre Sarajevo em 1914, e mostra um bazar lotado de artesãos judeus e muçulmanos convivendo com uma cidade nova repleta de parques e de cafés em estilo vienense.

"A ideia não é que nos concentremos em um ou outro lado da história, mas que façamos de Sarajevo a principal protagonista", diz Elma Hasimbegovic, diretora do museu. "Francisco Ferdinando não é o personagem principal, e não estamos nos concentrando na história nacional. Bósnios combateram dos dois lados na Primeira Guerra Mundial, e queremos ver como as pessoas comuns foram afetadas pela guerra, e sua luta por sobreviver".

O museu foi vítima da política étnica do pós-guerra, já que não recebe verbas regulares do governo nacional, da federação, do governo cantonal ou da prefeitura. Passados 19 anos do final do conflito na Bósnia, ele e outras sete instituições nacionais continuam a viver em um limbo jurídico e financeiro –não existe Ministério da Cultura nacional, já que a cultura é alvo de disputas tão ferozes entre os políticos étnicos. Esses políticos são alvo de raiva de todas as partes em conflito, em um país no qual o desemprego é estimado em mais de 40% e o progresso quanto à integração com a União Europeia se viu bloqueado por disputas étnicas. Muita gente sonha com as certezas e a paz da Iugoslávia unida.
Dado Ruvic-27.jun.2014/Reuters 
O ator Jovan Mojsilovic reencena o assassinato de Gavrilo Princip em frente a sua estátua, inaugurada no último dia 27 em Sarajevo


"Os políticos deveriam ser todos mandados para Goli Otok!", diz Milan Bosanac, 79, sérvio da Bósnia, em referência a uma ilha árida no Mar Adriático que servia como presídio político na era comunista. "Tudo vai piorar. Quando o [ditador comunista] Tito estava vivo, tudo era ótimo, todo mundo tinha emprego. Agora centenas de milhares de pessoas estão desempregadas, e não há nada para os velhos".

A vida de Bosanac foi afetada pelo conflito desde a infância: na Segunda Guerra Mundial, sua família lutou com os partidários comunistas iugoslavos, contra os nazistas e os aliados destes. Depois que a guerra irrompeu na região em 1941, o pai dele morreu no campo de concentração de Jasenovac, operado pelos croatas, e a família fugiu para as montanhas Kozara, no nordeste da Bósnia. Um dia, ele se perdeu dos parentes na neve e foi resgatado por uma mulher que cuidou dele por meses.

Com a bengala na mão, Bosanac está sentado em seu apartamento em Grbavica, um subúrbio de Sarajevo que no passado era majoritariamente sérvio mas hoje é predominantemente muçulmano. A família viveu no bairro durante toda a guerra, se protegendo no porão quando os combates se intensificavam, e em certas ocasiões teve de provar sua nacionalidade a combatentes sérvios fanáticos. Eles deixaram a região e foram viver no sul da Bósnia e no Montenegro quando o bairro "mudou de mãos" depois da guerra, diz Stasha, sobrinha-neta de Bosanac, que voltou anos depois para ser "uma forasteira em minha própria cidade, em lugar de sermos forasteiros em terras distantes".

A filha dela, nascida quase uma década depois do final da guerra, também é afetada. No ano passado, as crianças muçulmanas da escola se recusaram a brincar com ela no período que antecedeu o primeiro recenseamento bósnio no pós-guerra, com o recrudescimento da retórica nacionalista para que as crianças, como os adultos, se identificassem como muçulmanas, sérvias ou croatas.

O lema para os eventos da semana passada era "um século de paz depois de um século de guerra". Há poucos países para os quais ele seja mais apropriado, e mesmo para alguns dos que desejam preservar o passado, o aniversário é um doloroso lembrete.

"A Ponte Latina é um símbolo da guerra, e por isso lamento por Sarajevo que a cidade seja vista como símbolo da guerra", diz Mirzah Foco, funcionário da comissão de preservação da herança cultural bósnia, durante uma conferência em Sarajevo. "Estive no exército e pode acreditar: quero esquecer tudo que me aconteceu. Acredite: foi um pesadelo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de S.Paulo

Santo Anchieta dos poucos

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO

RESUMO Canonizado em abril, José de Anchieta (1534-97) é lembrado por sua atuação entre os índios do Brasil colonial. Pouco se fala, porém, de como os jesuítas não só toleraram como se beneficiaram da escravidão de negros, que, para eles, poupava os nativos e preparava os africanos para a fé católica e o perdão divino.

*

O destaque dado à canonização dos papas João 23 e João Paulo 2º eclipsou a santidade de José de Anchieta, oficializada dias antes, em 3 de abril passado, no Vaticano. Como todo mundo aprendeu na escola, Anchieta é o apóstolo do Brasil. Fundador de São Paulo, ativo na fundação do Rio de Janeiro e de cidades capixabas, Anchieta deixou ainda sua marca na Bahia.

Redigida pouco depois de sua morte, em 1597, pelo padre Pero Rodrigues, a biografia de Anchieta tinha um claro propósito hagiográfico. Logo em seguida teve início o processo de sua beatificação, etapa preparatória da canonização.

Na época, os jesuítas espanhóis estendiam sua influência sobre a Cúria, no embalo do poderio que a Espanha filipina exercia sobre Roma e boa parte do território italiano. Feito papa com o esmagador apoio de Madri, Gregório 15, grande aliado da Sociedade de Jesus (SJ), canonizou o primeiro time dos jesuítas espanhóis em 1622: Inácio de Loyola e Francisco Xavier –respectivamente fundador da ordem e apóstolo do Extremo Oriente.

Anchieta poderia ter embarcado nessa galera como o apóstolo do Extremo Ocidente, da América Ibérica, a maior região ultramarina de povoamento europeu. Mas sua beatificação encalhou. Por quê?

Talvez por causa de seu pró-lusitanismo. Embora nascido em Tenerife, nas Canárias, território espanhol, Anchieta estudara em Coimbra, onde ingressou no seminário jesuíta. Ativo nas missões e na conquista do Brasil, Anchieta vestiu a batina portuguesa de corpo inteiro. Fator que deve ter pesado negativamente nos anos 1620-1630, quando o antagonismo luso-espanhol se acentuava.

Depois piorou, porque a Cúria romana ficou do lado de Madri em 1640 e só reconheceu a soberania da Coroa de Bragança em 1668. Na circunstância, o insucesso da beatificação de Anchieta pode ter sido um efeito colateral da rivalidade entre Madri e Lisboa no século 17.

Muito mais identificado com Portugal do que com a Espanha, Anchieta trouxe entretanto de Tenerife, de onde saiu aos 14 anos, duas referências capitais.

A primeira foi o conhecimento da língua basca, idioma de seu pai, nacionalista basco deportado para Tenerife. Escrevendo em 1584 na Bahia, Anchieta se dizia basco –"biscainho", e não canarino ou castelhano. Muito provavelmente, o domínio da sintaxe basca –língua aglutinante como o tupi-guarani– deu a Anchieta a chave para redigir sua gramática sobre o idioma indígena do litoral do Brasil.

A segunda referência atlântica de Anchieta foi a sua familiaridade com a violência colonial.

Terá sido na sua terra natal, e não na Bahia ou em Piratininga, que ele ouviu falar pela primeira vez de "entradas" e viu gente acorrentada no cativeiro.

Na sua infância, se desenrolava em Tenerife o final da extinção dos "guanchos", aborígenes de origem berbere das Canárias, primeiro povo ultramarino a ser exterminado pelos europeus. Na mesma época, preadores ibéricos desembarcavam nas Canárias muçulmanos escravizados nas "entradas" lançadas no litoral do Marrocos.

Anchieta reencontrou em Piratininga a pilhagem sertaneja das entradas, dessa vez capturando índios; e, na Bahia, a pilhagem marítima, desembarcando negros.

Parte desses africanos, traficados pelos jesuítas de Angola associados a Anchieta, era entregue ao Colégio da Bahia.

Quando Anchieta era superior do Colégio e provincial da ordem, Miguel Garcia, um jesuíta que ele conhecia bem, protestou frontalmente contra a conversão dos missionários ao escravismo, prevenindo Roma em 1583: "A multidão de escravos que tem a Companhia [de Jesus] nesta Província [do Brasil], particularmente neste Colégio [da Bahia], é coisa que de maneira nenhuma posso tragar".

Desafiados, Anchieta e a hierarquia da ordem recambiaram o padre antiescravista para a Europa.

TRANSMIGRAÇÃO

Como todos os missionários do Brasil, Anchieta protegia os índios e benzia a escravidão dos negros. Para ele, o cativeiro dos últimos livrava os primeiros da exploração colonial. Depois, o padre Antônio Vieira completou a justificação jesuítica do tráfico negreiro, afirmando que o escravismo também salvava os africanos do paganismo. Sua "primeira transmigração" para o Brasil nos tumbeiros facilitava sua conversão à fé e sua "segunda transmigração", para o Céu.

Ao fio dos anos, acumulando negócios, os jesuítas se tornaram grandes proprietários de escravos. A fazenda de Santa Cruz, que lhes pertencia –hoje sede da base aérea de mesmo nome, na zona oeste da capital fluminense–, era a maior propriedade escravista das Américas por volta de 1750, concentrado mais de mil cativos negros e mulatos.

Presentes e muito influentes em Angola e no Brasil quando a deportação de escravizados deslanchou e se intensificou, os jesuítas, mais do qualquer outra ordem religiosa, estavam no miolo do complexo escravista do Atlântico Sul.

A história da SJ ocultou seu longo envolvimento negreiro na rota Angola-Brasil para dar relevo à catequização dos indígenas na América Ibérica, e, particularmente, nas veredas do Paraguai.

MISSÃO

Na altura em que se anunciou a escolha do papa Francisco, Umberto Eco escreveu um artigo sobre a saga dos jesuítas na América Latina. Asseverando que o novo papa argentino foi influenciado pelo exemplo das missões paraguaias, Eco engrenou o debate do Iluminismo, citando Montesquieu e outros filósofos que exaltaram ou estigmatizaram o experimento jesuítico no Paraguai e terminou com as cenas de Robert De Niro no filme "A Missão". Nada disse sobre a dimensão escravista e negreira do experimento jesuítico no Brasil e Angola.

Vindo de um país onde a presença negra, considerável em Buenos Aires no século 19, tornou-se bem diminuída, o papa jesuíta Francisco pode ter as ideias que lhe são atribuídas por Eco. Em todo caso, a decisão papal de canonizar Anchieta avaliza a imagem unilateral de defensores dos índios que os inacianos cultivam no Brasil, na Argentina e na América Latina.

Na realidade, os jesuítas e a Igreja perpetuam uma hierarquia calcada no passado, mostrando-se pouco permeáveis às mudanças da sociedade brasileira.

Como nas Forças Armadas e na Magistratura –os dois outros pilares do Império escravista–, os negros continuam sendo minoritários no clero brasileiro.

O único estudo que conheço sobre o assunto, de autoria do padre Toninho (Antônio Aparecido da Silva), militante da causa negra na Igreja morto em 2009, é revelador.

Conforme os dados do padre Toninho, a Igreja Católica no país contava em 2001 com 16 mil sacerdotes. Destes, 4.000 eram estrangeiros. Dentre os 12 mil brasileiros, apenas mil padres eram afrodescendentes –nos anos 1960, seu número não chegava a cem.

Interpretação seletiva do passado, a imagem piedosa de santo Anchieta como protetor dos índios e apóstolo do Brasil inteiro está em descompasso com a história de sua época. Está também em descompasso com a história de nossa época, engajada numa política afirmativa instaurada pelos

Três Poderes da República para configurar a verdadeira imagem do Brasil inteiro; para dar mais representatividade aos afrodescendentes, maior contingente populacional do Brasil.

NOTA:
O número de padres afrodescendentes brasileiros consta de artigo do padre Toninho, publicado no site dos missionários orionistas (Messagio di don Orione) em 2001. O artigo continua no site, mas os números relativos aos padres afrodescendentes sumiram. (Disponível em bit.ly/1jNAXh0) Citei esses dados na revista "Veja" em 25.jul.2001.

LUIZ FELIPE DE ALENCASTRO, 68, é professor titular da cátedra de História do Brasil da Universidade de Paris Sorbonne e professor convidado da Escola de Economia da FGV-SP.
Folha de S; Paulo

O impacto duradouro da Primeira Guerra Mundial

A. O. SCOTT
DO "NEW YORK TIMES"

"Me sinto como um soldado na manhã após o Somme." Tirada de um capítulo da segunda temporada do seriado da BBC "Call the Midwife", esta fala chamou minha atenção recentemente como um exemplo interessante de detalhe de época. Ela é dita por um médico a uma enfermeira logo depois de fazerem um difícil parto em casa. A comparação é com uma batalha que durou quatro meses, começando em 1º de julho de 1916 em um trecho lamacento da Picardia, e que foi, na época, o episódio de combate mais sangrento da história humana, tendo gerado 60 mil baixas em um único dia de combate, apenas do lado britânico. A comparação feita pelo médico certamente é um exagero metafórico, mas representa um estilo de humor familiar, o hábito de traçar comparações entre desafios que enfrentamos regularmente e calamidades que mal conseguimos imaginar.

Mas por que escolher essa calamidade em especial? Baseado numa série popular de memórias de Jennifer Worth, "Call the Midwife" acontece no final dos anos 1950, não muito tempo depois de uma guerra que ultrapassou de longe sua antecessora em termos de escala e extensão de carnificina global. É interessante o fato de o conflito anterior estar mais imediatamente presente no imaginário desse médico e enfermeira, mais ou menos jovens. A batalha do Somme é mais acessível e possivelmente mais imediata que Dunquerque ou o Dia D.

A alusão pode exigir uma nota de rodapé hoje, mas sua presença em um programa de televisão agudamente sensível à precisão histórica é um sinal de quão profundamente a Primeira Guerra Mundial ainda está entranhada na consciência popular. Descrita em sua época como "a guerra para acabar com todas as guerras", em vez disso ela se tornou a guerra à qual todas as guerras subsequentes, e muitas outras coisas da vida moderna, parecem fazer referência. Palavras e frases antes associadas especificamente à experiência do combate no front ocidental ainda fazem parte da linguagem comum. Mal reconhecemos frases como "nas trincheiras" ou "terra de ninguém" como sendo figuras de linguagem, muito menos imagens que evocam algo que foi no passado uma forma nova de morte organizada em massa. E raramente notamos que nosso entendimento coletivo do que aconteceu em trincheiras, selvas, montanhas e desertos muito distantes no tempo e espaço do arame farpado e sacos de areia da França e Bélgica nos chega filtrado pelo sangue, fumaça e sofrimento daqueles enfrentamentos anteriores.
Reuters 
Soldados americanos posam com diferentes modelos de máscaras de gás criados pelo Laboratório de Desenvolvimento Químico da Filadélfia, em imagem de 1919.


Uma pessoa que tomou nota da influência cultural duradoura e decisiva da Primeira Guerra Mundial foi Paul Fussell, estudioso literário e veterano da infantaria da Segunda Guerra Mundial cujo livro de 1975 "The Great War and Modern Memory" ainda é uma "tour de force" de crítica erudita e intensa. Fussell, morto em 2012, vasculhou romances, poemas e livros de memórias escritos na esteira da guerra e descobriu que eles estabeleceram um padrão que continuaria válido, conscientemente ou não, por boa parte do século 20.

Muitos soldados e oficiais britânicos chegaram ao front imersos em uma tradição literária que coloriu sua percepção –uma tradição que incluía não apenas épicos marciais e romances populares de aventura, mas também alegorias religiosas e românticas como "O Peregrino", de John Bunyan. O personagem principal dessa narrativa de dificuldade desesperadora e redenção final, escrita no século 17, é visto primeiramente como "um homem trajado em trapos" e com "um grande fardo sobre as costas". É uma descrição que parecia antever o recruta exausto, saído das trincheiras, com seu uniforme maltrapilho e mochila pesada.

Esse soldado, por sua vez, depois de algumas mudanças em seu uniforme e equipamentos, percorreria as décadas seguintes, deixando para trás um conjunto de depoimentos em primeira mão surpreendentemente consistentes. Quer sejam apresentados como memórias ou ficção, os escritos pós-1918 sobre a guerra voltam sempre para os mesmos temas e atitudes. Entre eles estão a ênfase sobre o tédio e o pavor dos combates em terra; o fato de ser privilegiada a visão do soldado comum, em detrimento da de oficiais ou estrategistas; a atitude de desconfiança em relação à autoridade e a tendência a ironizar aqueles que a exercem; um senso forte da separação existencial absoluta entre aqueles que combateram e as pessoas que ficaram em casa; um pendor pelo absurdo, o sarcasmo e o humor negro, e a conclusão de que, seja qual for o desenlace ou a justiça da guerra como um todo, para o veterano de guerra individual seu legado será o cinismo e a desilusão.

Fussell identificou essas características na literatura inspirada em sua própria guerra –em "Os Nus e os Mortos", "Ardil 22" e "O Arco-íris da Gravidade"–, e elas saturam as narrativas sobre o Vietnã que se seguiram à publicação de seu livro. O título de "The Things They Carried", o ciclo de histórias autobiográficas de Tim O'Brien sobre a vida antes, durante e depois de combater no Vietnã, encerra ecos de "O Peregrino", e seu misto de prosa enxuta, naturalismo franco e terror surreal faz dele tanto um relato definitivo dessa guerra quanto uma recapitulação da Grande Guerra.

Como quase todos os outros autores homens que escrevem em inglês e já trataram do tema da guerra, O'Brien tem uma dívida evidente com Hemingway, que chegou mais perto que ninguém de definir um modelo de como ele deve ser tratado, com um trecho famoso de "Adeus às Armas":

"Havia muitas palavras que você não suportava ouvir, e finalmente apenas os nomes de lugares tinham dignidade. Certos números eram a mesma coisa, e certas datas, e estas, com os nomes dos lugares, eram só o que você podia dizer e lhes dar qualquer sentido. Palavras abstratas como glória, honra, coragem ou santificar eram obscenas diante dos nomes concretos de vilas, os números de estradas, os nomes de rios, os números de regimentos e as datas."
Photo National Army Museum 
Soldados britânicos leem notícias do conflito em um das trincheiras da linha de frente durante a Primeira Guerra.


Essa observação contundente –ela própria curiosamente abstrata, não obstante sua insistência sobre a especificidade– continuou válida ao mesmo tempo em que a geografia mudou. O imperativo de relatar o que realmente aconteceu, mesmo para um público ou posteridade incapazes de entender plenamente, gerou uma literatura repleta de nomes e datas. Verdun, Passchendaele, Gallipoli, Guadalcanal, Monte Cassino, Stalingrado, Inchon, Khe Sanh, Kandahar, Fallujah. 11 de novembro, 6 de junho, 11 de setembro.

Em 1964, 50 anos depois de a guerra começar, Philip Larkin, nascido em 1922, publicou um poema memorial intitulado "MCMXIV". Seu tema não é tanto a guerra quanto uma Inglaterra passada, feita de "rostos arcaicos" e hábitos que ficaram para trás, uma Inglaterra que deixou de existir em algum momento entre o assassinado do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, em 28 de junho, e o começo das hostilidades plenas e continentais, no início de agosto. O poema procura congelar o momento em que o mundo mais velho –um mundo que os pais de Larkin conheceram intimamente, mas que estava um pouco além do horizonte de sua própria memória– "virou passado sem proferir uma palavra".

"Nunca mais essa inocência", Larkin conclui, resumindo aquilo que era, então e agora, uma base crucial da visão convencional sobre a Grande Guerra, uma noção que substanciou a rejeição de Hemingway da linguagem antiga e altiva sobre honra e glória. Ao mesmo tempo em que reconhece o poder sedutor da ideia de inocência perdida, Larkin sugere que ela é complexa, até enganosa. Indivíduos como as crianças e os maridos anônimos que povoam seus versos podem facilmente ser imaginados como inocentes. Estados-nações imperiais que passaram os últimos séculos conquistando a maior parte do resto do planeta são outra história.

Isso estava muito claro para Larkin, cujo patriotismo se baseava na noção de que a Inglaterra era o pior lugar do mundo, com a possível exceção de todos os outros lugares. A primeira vez em que ele emprega a frase "nunca tal inocência", ele a qualifica com "nunca antes ou depois", sugerindo que a aura edênica particular que paira sobre os meses de 1914 que antecederam a guerra pode ser ilusória, à sua própria maneira. Deixar entender que a Grã-Bretanha (ou qualquer outro país combatente) tenha sido de alguma maneira mais inocente na véspera da catástrofe é registrar um efeito posterior da própria catástrofe.

A guerra foi tão hedionda e terrível que só poderia ter explodido numa paisagem de bondade e pureza. Ou, pelo menos, esse é um dos mitos que ela deixa para trás. Outro, defendido na época por um punhado de intelectuais de vanguarda (notadamente os futuristas italianos) e adaptada por alguns historiadores posteriores, foi que a guerra acelerou tendências já presentes na sociedade moderna: em direção à violência mecanizada, ao conflito total e à fusão de tecnologia e política.

Muitos do relatos sobre aquele verão, especialmente na França e Grã-Bretaha, destacam o tempo belo e os prazeres veranis. "Fear", de Gabriel Chevallier, um romance de combate publicado em 1930, começa com a "França despreocupada" vestindo seus "trajes de verão". "Não havia uma nuvem no céu –um céu tão otimista, azul forte." Um exemplo rematado do jogo de realidade empírica com ornamentação literária: os registros meteorológicos podem atestar a cor e claridade do céu, mas apenas a ironia cruel e corretora da retrovisão poderia inspirar a palavra "otimista".
Reuters 
Oficiais alemães na Bélgica durante a Primeira Guerra Mundial, em 1917.


E então: "Em alguns poucos dias, a civilização foi exterminada". Esta sentença brutalmente concisa, algumas páginas depois do início de "Fear", resume a perda da inocência que será aprofundada nos capítulos subsequentes da narrativa na primeira pessoa. Mas esses capítulos também deixarão claro até que ponto essa "civilização", tão inebriada com seu discurso de glória nacional e destino heroico, seria a autora de sua própria extinção. A discrepância entre esse discurso altivo e a realidade hedionda da guerra abre um abismo na experiência humana que, segundo Fussell, nunca se fechou. "Estou dizendo", ele escreveu, "que parece haver uma forma dominante de entendimento moderno, que ela é essencialmente irônica e que ela se origina em grande parte com o debruçar da mente e da memória sobre os acontecimentos da Grande Guerra."

Acontecimentos mais recentes e a resposta imaginativa e eles podem indicar até que ponto as visões podem mudar e as recordações podem perder força. O "céu azul forte" de Chevallier inevitavelmente evoca um certo céu de final de verão sobre Manhattan, quase 13 anos atrás, em outro momento que acabaria por assinalar uma divisão entre o Antes e o Depois.

Depois do 11 de setembro de 2001, nos foi dito –dissemos a nós mesmos– que tudo havia mudado. Numa inversão curiosa da lógica da Grande Guerra, os ataques contra o World Trade Center e o Pentágono foram largamente e rapidamente vistos como tendo anunciado "a morte da ironia". O que isso quis dizer, pelo menos inicialmente, foi que um estilo cultural dominado (segundo Roger Rosenblatt na "Time", entre outros) por "desapego e caprichos pessoais" daria lugar a uma ética de seriedade e sinceridade. Mas, vistos em retrospectiva, os obituários da ironia não apenas foram prematuros como fizeram parte de uma reafirmação agressiva da inocência, um esforço coordenado para refutar a conclusão de "MCMXIV", de Larkin.

Seguiu-se uma reabilitação das palavras abstratas que Hemingway e sua geração perdida viram como tão intoleráveis. Soldados comuns passaram a ser descritos rotineiramente como "heróis" e "guerreiros", ao mesmo tempo em que seus ferimentos ou mortes eram mantidos longe das vistas do público. Este, em casa, era incentivado a fazer manifestações de patriotismo e apoio, mas também a levar adiante as rotinas otimistas do trabalho, lazer e compras, "como se" (citando Larkin) "fosse tudo uma brincadeira de um feriado de agosto".

Mas a Grande Guerra ainda não deixou por completo de estar conosco. Enquanto as guerras no Afeganistão e Iraque terminam em meio à inconclusividade sangrenta, os homens e mulheres que combateram nelas começaram a escrever, e os textos que produzem devem nos conduzir de volta à manhã após o Somme. O romance premiado de Ben Fountain "Billy Lynn's Long Halftime Walk", de 2012, extrapola a ironia para mergulhar na farsa, justapondo as experiências de um pelotão sofrido mergulhado do caos do Iraque para o espetáculo vulgar do Super Bowl, onde seu serviço militar é homenageado e explorado. O livro fica bem na companhia irreverente de "Ardil 22", ou seja, na mesma estante que "Nada de Novo no Front" e de "Fear", de Chevalier.

Enquanto isso, "Redeployment", de Phil Klay, lançado este ano, segue a linha pragmática e contundente de Hemingway e "The Things They Carried". Coletânea enganosamente modesta de contos interligados, o livro é cheio de topônimos, números e siglas militares, humor negro, frustração sexual, amizade sentimental e desprezo pela autoridade. Só pode ter sido escrito por alguém que esteve lá, se bem que, com alguns ajustes em matéria de tecnologia, jargão e clima, o "lá" pudesse igualmente bem ser Ypres ou Ramadi. E a moral poderia ter sido escrita pelo memorialista britânico Edmund Blunden, que tirou uma lição brutal de sua própria experiência na batalha do Somme: "A Guerra tinha vencido e continua a vencer".

Tradução de CLARA ALLAIN
Folha de S. Paulo