segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os sons da história


Como conhecer nosso passado através dos sons

Renato Venâncio
  • Quase todo mundo sabe que na internet é possível ter acesso a uma quantidade incrível de músicas. Poucos, porém, se dão conta de que esses acervos também podem ser úteis à pesquisa e ao ensino de História. Em parte, isso é possível graças aos sites especializados na transcrição de letras de música ou mesmo em etnomusicologia.
    WebLetras representa o primeiro caso. Esse site reúne um milhão de letras de canções e disponibiliza uma ferramenta de busca que permite a procura por palavra ou trecho das composições. Imaginem um professor enfrentando as dificuldades de ensinar aos alunos a história das camadas populares brasileiras. Uma alternativa é discutir, em sala de aula, músicas que trataram do cotidiano e das agruras dos trabalhadores. No referido site, a busca pela palavra “operário” revela centenas de letras musicais. O mesmo é constatado no site Letras.Terra, com a vantagem de o texto vir quase sempre acompanhado por vídeos.
    A discussão dos conteúdos das letras, somados ao prazer em ouvi-las é algo estimulante, tanto na pesquisa quanto no ensino de História. A exploração desses acervos pode ser feita de outras maneiras. O pesquisador pode constituir seu próprio banco de dados, reunindo letras de músicas por autor, que abordaram temas relativos às camadas populares. O site Letras.Com, por exemplo, disponibiliza 108 letras de Adoniram Barbosa e 485 de Chico Buarque.
    Nesse caso, a pesquisa pode se dedicar às condições de vida dos trabalhadores, como é o caso da moradia. Em relação a esse tema, o portal do Instituto Moreira Salles possui acervos preciosos, como os dos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, facultando a audição de milhares de músicas, muitas delas com o título “favela”.
    No campo da etnomusicologia, a principal preocupação diz respeito à contextualização do registro sonoro. Para os professores, esse tipo de enfoque é muito útil. Todos aqueles que enfrentaram o desafio de discutir “História da África” com os alunos conhecem a dificuldades em se encontrar bons exemplos sobre a diversidade cultural desse continente. Ora, um meio de superar isso é recorrendo aos arquivos sonoros e visuais do site World Music Collection, da Wesleyan University. Através dessa coleção, é possível conhecer tradições musicais de várias regiões africanas.
    A consulta aos verbetes de alguns dos instrumentos, como é o caso do Axatse ou do Jembe, também permite que se compreenda a origem de certas tradições musicais brasileiras, 
    Ainda no campo da etnomusicologia, é importante saudar a iniciativa da Fundação Nacional do Índio (Funai), que, em seu portal, na página intitulada “Índios do Brasil”, disponibiliza “Sons Indígenas” de povos tupi e macro-jê. Enfim, os arquivos musicais são poderosos aliados dos professores de História.

    Renato Venâncio é professor da Universidade Federal de Ouro Preto
  • Revista de História da Biblioteca Nacional

Ovo que vem de longe

A troca de guloseimas durante a Páscoa é muito comum, alem de ser uma tradição muito antiga, que nos remete à Europa do século XIII

Equipe RHBN

Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim
Coelhinho da Páscoa, que cor eles têm?
Azul, amarelo e vermelho também.


A quadrinha popular que se ouve na voz da criançada com a proximidade da Páscoa anuncia a troca de guloseimas no domingo que encerra a Semana Santa. A tradição é antiga na Europa, remonta ao século XIII, quando os estudantes da Universidade de Paris, após entoarem salmos e cânticos de louvor a Deus em frente à catedral, saíam, organizados em procissão, recolhendo presentes. As ofertas, especialmente ovos, eram distribuídas para parentes, amigos e vizinhos. Os ovos, tingidos de azul ou vermelho, simbolizavam o renascimento, a ressurreição e a imortalidade.

Confeccionados em madeira ou argila, com o tempo eles passaram a ser pintados e decorados com requinte. No Brasil, o costume de receber e distribuir ovos de Páscoa data apenas dos anos 1920, introduzido pela colonização alemã nas cidades do Sul. Aos poucos, a prática se espalhou em massa de chocolate pelas confeitarias do resto do país, para o pecado de todos.
Revista  de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Julia e o amor na Era da Razão


Ao narrar a desventura sexual de uma donzela aristocrata com o criado de sua família, o filme ‘Senhorita Julia’ expõe estereótipo feminino e preconceito de classe no século XIX

Rodrigo Elias



Senhorita Julia (Fröken Julie).

Dir. Alf Sjöberg, Suécia, 1951.


When I cannot sing my heart

I can only speak my mind...

John Lennon (Lennon-McCartney), “Julia” en The Beatles (ou The White Album), 1968.


Julia não sabe o que quer. Ela é rica, bonita, de boa família, bem educada, refinada e, dentro de certos limites, libertária. Mas Julia, embora devesse, não sabe o que quer.


Durante a festa de solstício de verão, a jovem resolve se divertir com os subalternos. Um em especial, Jean, acaba se tornando alvo do seu interesse. Nascido e criado na propriedade rural do conde Carl, pai de Julia, ele sabe muito bem qual é o seu lugar dentro desta sociedade aristocrática do final do século XIX: deve obedecer aos seus superiores, mantendo a compostura que compete a alguém da sua classe inferior. Julia, entretanto, encarna as contradições de uma mulher da aristocracia: faz uso da sua posição para conseguir o que quer, mas, por ser mulher, é escrava de instintos sexuais ficcionalizados (ou seja, ela é o que chamaríamos hoje de “romântica”).

A fixação romântico-sexual de Julia por seu criado acaba sugerindo determinadas concepções sobre o que é ser mulher e o que é ser aristocrata na época em que o sueco August Strindberg escreveu a peça Senhorita Julia (1888). Montado desde então do oriente ao ocidente, o texto já foi filmado para a TV e o cinema, sendo esta versão cinematográfica do também sueco Alf Sjöberg, de 1951, a mais aclamada. Um dos grandes nomes do cinema de todos os tempos, Sjöberg levou duas vezes o prêmio principal em Cannes, inclusive por Senhorita Julia, embora tenha se dedicado prioritariamente ao teatro. 

Os estereótipos de classe e gênero vão aflorando naquela noite insone regada a cerveja e vinho, na medida em que a tensão aumenta por conta da possibilidade de um desfecho dramático – a chegada do conde. Em um certo momento, ela, ciosa da sua posição, disfere, para persuadi-lo a fugir em sua companhia, agora uma moça desonrada: “Um criado é um criado.” Ele, de pronto, sentencia: “Uma puta é uma puta”.

Julia, embora em parte presa a comportamentos que seriam típicos do seu grupo social, é uma mulher – e isto, na cabeça dos homens burgueses bem educados do final do século XIX, significa ser guiado por uma concepção romântica deste tipo de ligação homem-mulher; ser homem, por seu turno, significa ter consciência sobre o caráter pragmático (ou social) destas mesmas ligações. Estes estereótipos remetem diretamente àquela concepção emergida no século XVIII, generalizada inclusive pelos romances ficcionais, que atribui ao gênero feminino uma maior susceptibilidade às emoções.

Padrões sobre o que devem ser homens e mulheres começaram a ser maciçamente divulgados no século XVIII. Naquele tempo, associavam-se a generalização do uso da palavra impressa e o efetivo surgimento de um público leitor. É neste mesmo contexto que surge o tipo de literatura ficcional que chamamos de “romance”. Este tipo de literatura vai incorporar uma nova retórica, a das sensibilidades, que estará profundamente marcada por valores morais relativos a sexo e lugar social. Esta retórica das sensibilidades, que terá nos romances o seu maior divulgador, esteve (e até certo ponto, está) amparada em uma nova representação que o homem fez de si mesmo na ordem do mundo – não mais teológica, mas propriamente humana, inclusive do ponto de vista físico.

Prisioneiros dos nervos

O século XVIII foi nervoso. Comumente simplificado como “Era da Razão”, foi, mais do que isso, uma descoberta da responsabilidade do homem sobre o seu destino e sobre o seu passado. Esta descoberta veio acompanhada de dois movimentos: em primeiro lugar, um mergulho no homem físico, em suas estruturas biológicas; em segundo, a constatação, ao longo de todo aquele século, de que o mundo é apreendido e reelaborado através dos sentidos. Detalhado pela primeira vez dentro de uma nova linguagem científica por Thomas Willis em 1664, o sistema nervoso humano extrapolou os interesses médicos e científicos e logo se tornou suporte discursivo para os atos políticos e literários. A estrutura nervosa humana serviu de base a um regime narrativo que definiu a relação entre escrita, leitura e ação no mundo entre os séculos XVIII e XIX. Se há razão em qualquer dimensão da vida no período, ela é resultado da naturalização de uma certeza: somos prisioneiros dos nervos.

O norte-americano George Rousseau, que tem se dedicado à história cultural do século XVIII, especialmente à interface entre literatura e conhecimento médico, propõe a existência do que chamou de uma “retórica dos nervos” no período. Percorrendo uma vastíssima literatura, principalmente inglesa, o historiador reconstrói o percurso e as apropriações feitas na linguagem científica e nas criações literárias do período da questão dos nervos. Estereótipos de classe e gênero, atitudes perante o corpo e o mundo, expectativas políticas e sociais vão precisar lidar com a grande invenção científica do período: a percepção e a análise (o tudo cognitivo) são processos neurofisiológicos.

A primeira grande clivagem desta retórica será a sua sexualização. Os nervos atuariam de maneira diferente em homens e mulheres – e a medicalização da sexualidade (notadamente a feminina) renderá tributos à associação entre o sistema nervoso e o dimorfismo sexual. Além disso, em um período de afirmação burguesa na Europa continental, ao longo de todo o século, os nervos também serão constituídos de acordo com o grupo social. Os balneários, as estâncias e todo um conjunto de tratamento neurológico (ou que supunha como tal) estarão disponíveis apenas para aqueles grupos cuja constituição nervosa será considerada mais delicada: os ricos e bem educados. Não é difícil notar esta segmentação social e de gênero no momento da emergência do romance (o que, aliás, se estenderá por outros períodos históricos): o público buscado é o das classes burguesas, e haverá também um certo direcionamento ao público feminino, o que pode ser visto inclusive na escolha das protagonistas das obras não apenas de Samuel Richardson, mas até mesmo na Juliet do marquês de Sade em Os 120 dias de Sodoma (1785). Mesmo Jane Austen, que a princípio rejeitará muito do que a ciência moderna consideraria simplificações na “teoria nervosa”, escreverá primordialmente para públicos bastante específicos. Este paradigma científico (médico-literário) que se estabelece no século XVIII não ficará imune às representações culturais no que dizem respeito às hierarquias sociais e de gênero em vigor – as distinções que até então precisavam ser justificadas por argumentos teológicos vão encontrar respaldo em uma suposta objetividade científica.

Esta verdade, construída ao longo de todo o século XVIII, está na raiz na própria exaltação da sensibilidade que veremos no programa dos românticos – um desdobramento a princípio imprevisto do programa “iluminista” de percepção do mundo através dos sentidos, que pode ser visto na Encyclopédie (1751). Assim, vemos a expansão e a apropriação de um princípio biológico-anatômico (divulgado na Inglaterra e no continente em dissertações médicas escritas em latim e em língua vulgar desde o início do século XVIII) pelo que pode ser chamado, com certas reservas, de “teoria social”, e uma difusão ainda mais significativa através de sua reelaboração literária.

A Julia de Rousseau

A obra mais significativa neste contexto de generalização de uma nova sensibilidade – que é, inclusive, paralela à própria emergência da subjetividade ocidental relacionada com a escrita e com as práticas de leitura – é de autoria do genebrino Jean-Jaques Rousseau. O nome da livro é Julia ou a Nova Heloísa, romance epistolar publicado em 1761. Trata-se da obra literária de maior circulação no século XVIII, através do qual se pôde observar não apenas uma nova relação entre obra escrita e público leitor, mas a própria construção da ficção romântica como elemento de difusão de um novo modelo de relação de gênero e, por conseguinte, de sociedade. 

O modelo amoroso surgido e difundido ali é radicalmente diverso daquele próprio ao período anterior: a família conjugal (ou “elementar”, para Radcliffe-Brown), que agora se desenhava, pressupunha uma ligação forte entre um homem e uma mulher, uma vez que o modelo familiar extenso, com todos os vínculos de parentela, não se adequava a uma sociedade burguesa industrial. O laço mais forte deve ser entre o casal, e este amor é extremamente valorizado (logo este amor, dito “romântico”, que no período anterior era associado ao adultério). Dissolvida aquela sociedade de vínculos familiares extensos (pais, avós, tios, primos...), onde a mulher podia recorrer a vários indivíduos para garantir sua existência material, a única garantia de sobrevivência será dentro do casamento. Através de uma relação voluntária, esta invenção eminentemente inglesa que é a família conjugal necessita de um cimento ideológico – neste momento o amor terá um outro valor, uma vez que pode afiançar uma ligação vitalícia.

A história de amor narrada por Rousseau em formato de cartas em Julia teve um impacto inédito sobre leitores e leitoras. Um conjunto de cartas recebidas pelos editores e pelo próprio autor revela a relação que os leitores mantiveram com os personagens, especialmente sua protagonista. As desventuras da jovem, cujo destino trágico não turva sua existência virtuosa, despertou entre homens e mulheres os mais exaltados sentimentos. Esta literatura romântica epistolar, que tinha na verossimilhança um elemento de conexão com a “vida real” dos leitores, assume um papel ainda mais relevante quando o seu autor é Rousseau. Seus textos, ficcionais ou não, eram lidos como exemplos para a vida, o que dará a Julia um papel ainda mais destacado como modelo, do valor do sacrifício para que se mantenha uma existência “correta” – no caso, a realização plena do amor dentro do casamento. Como explicou Robert Darnton em um clássico estudo sobre a recepção de Julia, as cartas endereçadas pelos leitores do livro revelam a centralidade destes elementos: “amor, casamento, paternidade – os grandes eventos de uma pequena vida e o material de que a vida era feita em toda parte, na França.” Se Rousseau não foi o primeiro a causar “epidemias de emoção” na Europa, Julia fez com que os leitores quisessem – e tentassem, de fato – viver aquelas vidas.

A partir daí – desta identificação entre público e obra ficcional – desenharam-se as chamadas “patologias literárias”, uma série de efeitos na vida real a partir de reações aos romances. Os mais conhecidos destes efeitos são a “febre Werther” e o “bovarismo”, índices de uma psicogênese propriamente contemporânea relacionada aos modelos propagados pela literatura. Os suicídios “por imitação” que se sucedem à leitura do livro de Goethe ou o descolamento da existência “real” suscitado pela obra de Flaubert apenas confirmam o que já foi classificado como “recepção produtiva” de um texto literário, desencadeado pela Julia de Rousseau. Esta “norma”, uma espécie de elaboração e implantação de padrões sociais a partir de modelos literários, será observada durante todo o século XIX, a partir de velhos e novos romances, e a psiquiatria vai descrever esta decalcomania, que no limite chegava ao crime passional e ao suicídio. O texto literário, a partir da personagem rousseauniana, havia se tornado cosmografia, e as obras de grande impacto publicadas posteriormente, quando tratam da questão da virtude relacionada à questão do gênero e dos afetos, vinculam leitura e performance.



A Julia do filme

Strindberg ocupa lugar especial na literatura e na dramaturgia escandinavas da segunda metade do século XIX, ao lado de Hans Christian Andersen e Henrik Ibsen, e seu trabalho também está na raiz do teatro realista moderno, com seus questionamentos e suas críticas em relação à moralidade burguesa. Ele escreveu Senhorita Julia sob o impacto de uma conturbada relação com o grande amor da sua vida, a jovem baronesa (e atriz) Siri Von Essen, que tinha 24 anos quando ele a conheceu e ficou apaixonado. Julia, sua personagem, tal como retratada no filme de Sjöberg, é uma mulher de linhagem nobre que foge ao padrão reservado para o seu gênero e sua classe: sua mãe, de origem plebeia e encantada pelos ideais de “emancipação feminina” do final do século XIX, escapa ao controle do conde e impõe uma série de subversões na ordem da casa e da família. Julia é resultado destas subversões , e sua trajetória e destino revelam, em alguma medida, uma postura misógina do autor.

A mãe de Julia, a condessa Berta, foi educada segundo os princípios da liberdade e da igualdade das mulheres em relação aos homens. Era contrária ao casamento e não queria ter filhos – aliás, tenta o suicídio ao descobrir que estava grávida. Quando Julia vem ao mundo, os pais (por decisão da mãe) decidem que ela será o exemplo perfeito de que uma mulher vale tanto quanto um homem: é tratada ao longo da infância como um menino, é vestida como tal, cuida dos cavalos, ara a terra, mata bezerros, caça. Na propriedade da família, os homens passam a desempenhar (toscamente) as tarefas geralmente atribuídas às mulheres, como lavar roupas, fiar, cuidar da cozinha; as mulheres desempenham (impropriamente) as tarefas atribuídas aos homens, como recolher e transportar feno. A inversão de papéis quase resulta na ruína da fazenda.

O pai de Julia, então, se livra do “feitiço” feminista da sua companheira e permite que a menina seja o que se entende por menina, deixando, por exemplo, que ela brinque com a sua boneca. Quando o conde começa a agir dentro de uma “normalidade” esperada por seus iguais – como realizar uma recepção para que os seus pares reconheçam a sua união matrimonial – Berta paga um amante para pôr fogo na casa. O pai, ao tomar conhecimento da trama, tenta o suicídio – trata-se de um homem nobre, de constituição nervosa delicada.

A Julia de Sjöberg é a trágica contradição entre o modelo de virtude difundido pela Julia de Rousseau e a sua contestação supostamente feminista. Rompe o compromisso com o noivo de boa estirpe após humilhá-lo feito um cão; se envolve com um criado após renunciar o destino do amor marital “normal” preconizado para as mulheres da sua categoria; é tomada pelo arrependimento e pelo desespero quando a sua situação corre o risco de vir a público. A saída? O suicídio, sugerido pelo pragmático amante.

Outras Julias

Senhorita Julia continua sendo montada e filmada. Ao longo dos séculos XX e XXI, tem recebido atenção na Europa, na Ásia e nas Américas. Além da versão clássica, foi vivida na TV por Helen Mirren em 1972, voltou ao cinema em 1999 e terá mais uma versão na grande tela lançada em 2014, dirigida por Liv Ulmann e trazendo no papel título Jessica Chastain. Só em São Paulo, há atualmente duas montagens da peça em cartaz. Com ênfase em elementos distintos, do conflito interno a partir dos afetos às contradições políticas e sociais, a obra de August Strindberg continua a perguntar sobre o que esperamos da vida em sociedade.

Entretanto, há diversas Julias. Algumas ainda padecem das patologias literárias e buscam a conformação das suas vidas a partir de padrões que são externos – a própria idéia de vida enquanto projeto e realização, com uma agenda, no fim das contas é uma ficcionalização autobiográfica, uma tentativa de enquadramento narrativo de existências que só podem ser caóticas (e as inseguranças dos indivíduos em relação a futuros afetivos, profissionais ou econômicos talvez decorram um pouco disso). Estas Julias, que se parecem com as da ficção, escolheram ser aceitas.

Outras Julias, entretanto, talvez não se enquadrem nestes padrões. Talvez busquem na existência não um enquadramento a partir de expectativas (a repetição na vida de um texto já escrito), mas se movam sem um sentido teleológico, sem agenda, sem um preenchimento de vazios que foram criados a partir de modelos que lhes foram narrados. Estas outras Julias, as que se parecem mais com pessoas reais, escolheram viver.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Bota-abaixo


Amanda Alvarenga

No final do século XIX e na primeira década do XX, a cidade do Rio de Janeiro passou por um processo de transformação e hábitos cotidianos. Neste período, a então capital contava com um pouco menos de 1 milhão de habitantes, desses a maioria era composta por negros acrescidos ao contingente de outras regiões que migraram do campo para a cidade busca de novas oportunidades no ramo de serviços e funções ligadas a atividade portuária. 

Essa camada numerosa e extremamente pobre da população foi levada a constituir e habitar favelas e cortiços. Os antigos casarões localizados nos centro da cidade, neste momento foram redivididos em inúmeros cubículos a fim abrigar famílias inteiras. Nesses ambientes as famílias viviam em condições extremamente precárias, sem acesso as mínimas condições de higiene, não havia acesso à esgoto nem a água, o que levou a cidade a pagar um alto preço pelo seu crescimento desordenado. Esse intenso crescimento populacional acrescido a falta de infra-estrutura urbana e as péssimas condições de higiene fizeram da cidade um foco constante doenças como cólera, febre amarela, varíola, que neste momento tornaram-se endêmicas.

A então capital da República, diante deste crescimento desordenado da cidade e das classes populares, transformou-se em uma ameaça constante a ordem, a segurança e moralidade pública na visão das autoridades, e é claro ao sonho de transformar o Rio de Janeiro nos moldes de uma grande metrópole européia, tal como Paris. A ascensão de de Campos Sales a presidência em 1902 deu novos rumos a cidade. 

A nomeação de Pereira Passos para prefeito e de Oswaldo Cruz para o cargo de diretor da saúde pública significou a execução do plano de reforma urbana e sanitária na cidade. Inicia-se assim o "bota-abaixo", processo de demolição de cortiços e favelas a fim acabar com os focos das doenças perniciosas e promover a remodelação da cidade nos moldes de Paris, promovendo assim alargamento de ruas, a remodelação do porto e a supervisão das construções na cidade.
Revista de História da  Biblioteca Nacional

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Os arquivos secretos da CIA


As origens, os mistérios (e as conspirações) da agência de espionagem mais poderosa que existe – e como ela mudou a história do planeta

Tiago Cordeiro

A manhã nasceu tranquila. Mas, às 7h48, uma nuvem com mais de 350 aviões japoneses se materializou do nada e bombas começaram a chover sobre a base de Pearl Harbor. Naquele 7 de dezembro de 1941, os americanos levaram a maior rasteira do século – e aprenderam, da forma mais dolorosa possível, a importância da espionagem. Surgiu ali a ideia de criar uma superagência de inteligência, capaz de descobrir os segredos e antecipar as ações de todos os outros países, fossem amigos ou inimigos dos EUA. Mas isso só aconteceria após o fim da 2a Guerra Mundial, em 1947, quando os americanos fundaram a Central Intelligence Agency. De lá para cá, a CIA se tornou conhecida pelo poder sinistro, capaz de influir nos destinos do planeta. Uma impressão ruim, que a agência tentou desfazer com um gesto de transparência: liberou na internet 12 milhões de páginas de documentos secretos, que revelam em detalhes suas ações até a metade da década de 1990 (os mais recentes permanecem confidenciais). Revelamos alguns desses episódios, que tiveram consequências profundas para o Brasil e outros países, ao longo desta reportagem. Mas, para compreendê-los, primeiro é preciso entender a história da CIA – que já começou com um segredinho.
A mão invisível

A sede da CIA fica na cidade de Langley, no Estado da Virgínia, onde trabalham 21.500 pessoas. Esse número não inclui espiões nem informantes, só os funcionários “oficiais”: advogados, programadores, engenheiros, economistas, especialistas em relações internacionais e comunicação, tradutores. Todos passam por três entrevistas (uma com polígrafo, para ver se a pessoa está falando a verdade), além de checagens do estado de saúde, do histórico familiar e laudos psicológicos detalhados.

Oficialmente, a agência tem dois objetivos: reunir informações sobre outros países e defender os segredos dos EUA, desmascarando e caçando os espiões estrangeiros. Mas há um terceiro objetivo, que nunca foi reconhecido oficialmente: realizar ações secretas em outras nações. “Na lei que criou a CIA, esse objetivo não era mencionado. Mas estava implícito para o presidente e o Congresso que a agência iria interferir no cenário político de outros países”, afirma o sociólogo americano David Barrett, autor de cinco livros sobre a agência. Ou seja, derrubar e empossar governos. A CIA conseguiu a primeira vitória já em 1948, na Itália. Ela apoiou financeiramente a Democracia Cristã, que venceu as eleições gerais e se manteve influente até os anos 1980. A ideia era evitar que o país fosse dominado pela esquerda local, de modo a conter a influência da URSS. A mesma coisa aconteceu no Japão, onde os americanos financiaram secretamente uma série de políticos, especialmente o primeiro-ministro Nobusuke Kishi, um ex-criminoso de guerra que governou o país entre 1957 e 1960.

O envolvimento não era meramente político. Em vários países da Europa, a agência financiou jornais, panfletos e programas de rádio que defendiam os interesses dos EUA e seus aliados. Na Grécia, a ação foi mais longe: a partir de 1947, a CIA encheu o país de dinheiro, armas e espiões e transformou Atenas em uma de suas maiores centrais. “A CIA teve um papel crucial para manter a Europa longe do comunismo”, afirmam Victor Marchetti e John Marks no livro CIA & The Cult of Intelligence (sem versão em português).
(Dulla/Superinteressante)


Na América Latina, as coisas deram mais certo ainda. Em 1954, a CIA se instalou na Guatemala e dali seguiu para Panamá, República Dominicana, Guiana, México, Honduras, Uruguai, Chile e Brasil – onde a agência trabalhou para derrubar o governo João Goulart, em 1964. O então presidente John Kennedy e o embaixador americano no País, Lincoln Gordon, apoiavam o golpe militar, e queriam usar os tentáculos da CIA para se aproximar da ditadura brasileira. “A agência pode deixar claro, discretamente, que nós não somos necessariamente hostis a nenhum tipo de ação da parte dos militares, desde que seja contra a esquerda”, afirma Kennedy num documento confidencial da época.

Em outros pontos do mundo subdesenvolvido, os agentes americanos também foram muito bem-sucedidos. Ajudaram a eleger presidentes ou derrubar governos no Vietnã do Sul, no Congo, no Laos, na Tailândia. É verdade que, em alguns casos, depois de vitórias inquestionáveis, a história se voltou contra a CIA: os agentes americanos mudaram o governo do Irã em 1953, mas foram surpreendidos por um golpe liderado pelo aiatolá Khomeini em 1979. O presidente do Vietnã do Sul, Ngo Dinh Diem, que chegou ao poder com apoio direto da agência em 1955, acabou assassinado em 1963 com o apoio da própria CIA, que apoiou os planos golpistas do general Le Van Kim. Mas isso desaguou na Guerra do Vietnã, que durou 19 anos e provocou a morte de quase 60 mil soldados americanos.

No Afeganistão, as coisas também tiveram um desfecho surpreendente. A CIA forneceu armas e dinheiro a forças rebeldes, que resistiram à invasão do país pela União Soviética. Só que, quando os russos foram embora, aqueles mesmos rebeldes fundaram o Talibã – que é inimigo dos EUA, e financiou os ataques de 11 de setembro de 2001. “A guerra secreta contra a União Soviética no Afeganistão deu origem a um inimigo muito mais letal, um grupo fundamentalista radical que foi basicamente criado pela própria CIA”, afirma o historiador americano John Prados, autor do livro The Secret Wars of the CIA(sem versão em português).

A agência financiou a tentativa de invasão de Cuba, em 1961, mas não teve sucesso. Ela perdeu todos os embates contra Fidel – a não ser no Congo, em 1965, onde milícias financiadas pelos EUA derrotaram os soldados cubanos, que eram comandados por Che Guevara. Derrotado, Che foi se esconder na Bolívia – onde foi caçado por Félix Rodrigues, um exilado cubano e agente da CIA. Acabou morto em 1967.

Incrivelmente, a CIA não sabia direito o que se passava em seu principal alvo: a URSS. Em 1953, foi pega de surpresa pela morte de Stálin – e não tinha informações sobre seu sucessor, Nikita Kruschev. Outro deslize ocorreu em 1960, quando um avião espião foi abatido ao sobrevoar a URSS. O piloto, Gary Powers, foi capturado e confessou que trabalhava para a CIA. O incidente deu início à fase mais tensa da Guerra Fria. Mas foi o marco zero dos programas de espionagem aérea da agência, que estão operando até hoje – com satélites e drones.

A CIA sempre investiu muito em tecnologia. Inventou câmeras fotográficas e gravadores minúsculos, e até robôs no formato de peixes para investigar a posição de submarinos inimigos. A partir da década de 1990, não se contentou em apenas espionar – e deu início aos ataques com drones armados, os Predator, que a agência opera em parceria com a Força Aérea dos EUA. Eles já realizaram mais de 2 mil missões no Oriente Médio. “O [então] presidente Obama foi um dos maiores entusiastas dessa solução, que envia fotos e vídeos em tempo real e ataca com eficácia sem colocar em risco a vida de militares americanos”, afirma o sociólogo David Barrett.
(Dulla/Superinteressante)


Ao mesmo tempo em que crescia e ganhava poder, a CIA enfrentava oposição em seu próprio país. Nos anos 1970, o Senado descobriu uma série de ações ilegais da agência. “Um dos erros mais graves foi investigar cidadãos americanos, em território americano. A CIA fez isso a mando de vários presidentes. Kennedy mandou investigar jornalistas, Johnson e Nixon pediram detalhes sobre ativistas”, afirma David Barrett. A coisa explodiu com o escândalo Watergate, em 1972, em que Nixon usou ex-funcionários da agência para espionar adversários políticos.

Outro baque veio em 2001, quando o setor de inteligência americano sofreu o maior revés desde Pearl Harbor. A CIA foi criticada por não conseguir prever os ataques do 11 de Setembro e, pela primeira vez em sua história, passou a responder a uma autoridade superior: a Diretoria de Inteligência Nacional (DNI), que manda na agência. Com isso, a CIA perdeu prestígio. Mas ainda é (muito) poderosa. Entre 2003 e 2006, administrou seu próprio centro de interrogatórios dentro do complexo de Guantánamo. Hoje, segundo uma investigação do Senado dos EUA, mantém prisões secretas no Afeganistão e em mais de 30 países, incluindo Austrália, Suécia e África do Sul.

Nos últimos anos, ela voltou seus esforços para a espionagem digital, com sucesso: em 2010, participou da criação do vírus Stuxnet, que infectou e queimou as máquinas de enriquecimento de urânio do programa nuclear iraniano.

A CIA usa seus hackers como soldados, mas também não está a salvo de ataques. O mais embaraçoso aconteceu em 2015. O diretor da agência, John Brennan, teve a conta de e-mail invadida, e as mensagens, publicadas na internet. Numa delas, ele se queixava das críticas feitas à agência, e dizia: “Certas coisas precisam ser feitas em segredo”. Dessa vez, a CIA não conseguiu.
Documentos revelados

Os pontos mais surpreendentes das 12 milhões de páginas confidenciais liberadas pela CIA na internet.

UM TÚNEL (NÃO MUITO) SECRETO
maio/1955
O relatório da CIA descreve um túnel de 450 m construído pelos EUA e pela Inglaterra sob Berlim Oriental, controlada pela URSS. A rede de telefonia da cidade era formada por cabos subterrâneos, e o túnel permitia alcançá-los e grampeá-los. O esquema funcionou por quase um ano, e rendeu 40 mil horas de grampos. Só havia um problema: como a própria CIA descobriu depois, os russos sabiam de tudo desde o início.

ABRE O OLHO, JANGO
8/fevereiro/1963
“Segundo o presidente Goulart, a URSS se ofereceu para construir uma usina hidrelétrica em Sete Quedas, perto da fronteira entre Brasil e Paraguai”, afirma o documento da agência, que manifesta preocupação com a “presença de grande número de soviéticos, por muitos anos, na região do Rio Paraná”. Um ano depois, João Goulart seria deposto – no golpe militar de 1964, que teve o apoio dos Estados Unidos.

URI GELLER É REAL?
agosto/1973
“Geller demonstrou sua habilidade paranormal de forma convincente e inequívoca”, afirma o relatório sobre o israelense Uri Geller, famoso por entortar garfos e realizar outros feitos difíceis de explicar. Ele foi convidado pela CIA para participar de uma semana de experiências. E teria conseguido, entre outras coisas impressionantes, visualizar e desenhar imagens que estavam penduradas numa sala ao lado.

CONTROLE DA MENTE
várias datas
Há muitos documentos da agência sobre o MK-Ultra, programa em que a CIA tentou desenvolver técnicas de lavagem cerebral e controle da mente. A agência fez experiências com LSD e outras substâncias. Oficialmente, o programa foi extinto em 1973, depois de vazar para a imprensa. Mas a CIA não abandonou o tema: produziu um relatório, em 1980, discutindo a viabilidade de “técnicas de perturbação remota”, como “telecinese”.

OBSESSÃO POR FIDEL
várias datas
A CIA elaborou centenas de documentos sobre Fidel Castro, incluindo planos para sabotá-lo e matá-lo. A principal operação ocorreu em setembro de 1960, quando a agência ofereceu dinheiro para que a Máfia americana mandasse alguém matar Fidel em Cuba, pondo veneno em sua comida. Depois de várias tentativas, a missão foi abortada – e a Máfia ameaçou vazar as informações para a imprensa.

O CASO IRÃ-CONTRAS
23/abril/1987
O então diretor da CIA, Robert Gates, instrui os funcionários a não destruir os registros da operação Irã-Contras. Nessa operação ilegal e secreta, que foi executada em 1985 (e acabara de vir à tona), a CIA vendeu clandestinamente armas ao Irã, para ajudá-lo a vencer a guerra contra o Iraque, e usou o lucro desse negócio para financiar os “Contras”, grupo que tentava derrubar a Frente Sandinista, organização de esquerda que governava a Nicarágua.

EM BUSCA DE ETS
1952 a 1996
A agência investigou detalhadamente suspeitas de OVNIs na Alemanha, na URSS, nos EUA, na Inglaterra e na Lituânia – o episódio mais recente, de 1996. Policiais tentaram se aproximar de um objeto que havia caído do céu. “Quando chegaram a 50 metros, a esfera se moveu e decolou rapidamente.” A CIA dava bastante atenção a possíveis discos voadores porque considerava que, se existissem, eles poderiam ameaçar a segurança dos Estados Unidos.

TORTURA COM OUTRO NOME
2004
O relatório fala sobre o “suposto uso” de tortura no interrogatório de acusados de terrorismo. Depois de afirmar que a CIA não encoraja ou endossa nenhum tipo de tortura, o documento descreve “técnicas aprimoradas” que poderiam ser usadas – como o afogamento simulado (waterboarding). Finaliza dizendo que “não há indícios suficientes” para processar nenhum dos supostos torturadores. Em 2006, o afogamento simulado acabou proibido.
Revista Superinteressante

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Reis gays: A monarquia no armário


Como grandes líderes driblavam a repressão

Mauro Tracco



A coroa concedia o privilégio de não ser perseguido | Crédito: Wikimedia Commons

Os moralistas da Idade Moderna definiram uma hierarquia para os pecados relacionados à luxúria. Do menos grave ao mais nefasto, a ordem era a seguinte: simples fornicação, prostituição, estupro, adultério, incesto, sacrilégio com um sacerdote, sacrilégio com uma monja e, por último, o pecado que mais ofendia a Deus, a sodomia. 

Era o pecado contra natura, ato sexual que não tinha como único fim a procriação, considerado uma afronta direta ao Criador. Apesar disso, muitos dos monarcas que governaram amparados pelo Direito Divino não se adequavam aos papeis sexuais exigidos pela religião e sociedade. Para o historiador Miguel Cabañas Agrela, autor do livro Reyes Sodomitas, além de casos notórios, como o de Jaime I da Inglaterra, existem vários documentos que sugerem que figuras como o francês Luís XIII e Frederico II, da Prússia também tiveram amores masculinos.

O Renascimento recuperou referências culturais e artísticas da antiguidade clássica. Isso não incluiu a tolerância deles ao amor entre o mesmo gênero. Paradoxalmente, “a Idade Moderna foi o período da história ocidental em que a sexualidade em geral, e a homossexualidade em particular, foram mais perseguidas pela Igreja e pelo Estado”, afirma Cabañas. Na Idade Média o “pecado impronunciável” já era considerado um vício atroz, mas as leis para punir quem desafiasse a suposta ordem natural das coisas foram criadas só na Idade Moderna, quando a sodomia passou a ser um crime contra o Estado. Assim como aconteceu com as bruxas, o castigo era a fogueira, para purificar o que era tido como maligno. 

Os reis, porém, tinham suas prerrogativas. Em tempos de absolutismo, quem teria poder para puni-los? Quem teria coragem de acusá-los? “Nenhum tribunal ousaria comprometer um rei por questões referentes à sua vida privada. Não faltavam fofocas, mas as acusações eram feitas na esfera privada”, diz Cabañas.

Outra razão porque ninguém denunciava os reis é porque um monarca gay podia ser uma oportunidade. Em uma sociedade de corte, criar vínculos com figuras do alto escalão era a principal estratégia de ascensão. E contar com o afeto do rei era como ganhar na loteria. Alguns soberanos adotaram essa política de promoção sem disfarçar o favorecimento a cortesãos jovens.
O historiador Matt Cook, da Universidade de Londres, ressalta que nessa época não existia o conceito de homossexualidade, que só surgiu no século 19. “Durante a Renascença, muitos homens faziam sexo entre si, sem que isso fosse visto como sinal de identidade diferenciada ou de uma subcultura. A maioria mantinha relações íntimas também com mulheres.” 

Independentemente do que acontecia entre as paredes dos aposentos reais, quase todos os monarcas foram à luta e honraram sua principal obrigação em vida: casar e gerar descendência. 

Dentro do armário real
Conheça oito dos mais famosos monarcas gays

1. Cristina da Suécia (1626-1689)


O traço mais marcante da soberana foi a necessidade insaciável em ser diferente. Suas peculiaridades sexuais faziam parte desse afã em se distinguir dos demais. Culta e inquisitiva, Cristina usava roupas masculinas e nunca quis se casar para não estar sujeita a nenhum homem. Entre os muitos casos que teve estão um cardeal e uma bela cortesã chamada Ebba Sparre. 

2. Luis XIII da França (1601-1643) 


Não existem provas definitivas da preferência sexual de Luis XIII, que aparentava mais ser assexuado do que homossexual. Apesar de sua indiscutível retidão moral, era tímido e inseguro. Essa falta de confiança o levava a buscar refúgio na companhia de homens com personalidade forte. Ciente disso, o cardeal Richelieu tratou de arranjar amizades masculinas que mantivessem o rei distraído enquanto ele tomava as rédeas do governo francês. 

3. Frederico II da Prússia (1712-1786) 


O rude Frederico Guilherme I se empenhou em transformar seu filho em um líder viril. Mas os soldados designados para ensinar o herdeiro acabaram tornando-se amigos muito mais próximos do que gostaria o pai. Em tempos de paz, Frederico II quase não saía do Templo da Amizade, palácio frequentado exclusivamente por homens. Exemplo de déspota esclarecido, aboliu a pena de morte para delitos de sodomia. 

4. Papa Júlio III (1487-1555) 


Escandalizou o mundo católico ao nomear cardeal o seu cuidador de macacos, um jovem de 17 anos. Segundo relatos, a total falta de vocação sacerdotal do garoto contrastava com seus óbvios atributos físicos. A nomeação foi a forma encontrada por Júlio III para justificar a presença de seu favorito dentro dos muros sagrados do Vaticano. As más línguas chamavam o jovem cardeal de “o macaco do papa”. 

5. Jaime I da Inglaterra (1566-1625) 


Quase nenhum historiador discute a homossexualidade de Jaime I. Aos 13 anos, teve um romance com seu tio, 24 anos mais velho. Idoso, preferia a companhia de rapazes. Foi visto em público aos beijos e abraços com outros homens e sobrepôs seus sentimentos aos interesses do reino. 

6. Henrique III de Valois (1551-1589) 


Entrou para a história como o “rei dos mignons”, como era conhecido o bando de atraentes jovens que estavam sempre ao seu lado. Fez questão de desenhar o vestido e de pentear sua noiva no dia das bodas. Era entusiasta do transformismo e sua corte ficou conhecida como a mais refinada e libertina da Europa. 

8. Guilherme III da Inglaterra (1650-1702) 


Criado pela avó, Guilherme de Orange teve ao longo da vida companheiros inseparáveis. Desde a adolescência, manteve uma relação especial com o nobre holandês Hans Bentinck. A amizade de 30 anos foi traída quando Guilherme fez do jovem Arnold van Keppel, de 18 anos, seu novo favorito. A revolta de Bentinck foi tão evidente que os fofoqueiros da corte não tardaram em apelidá-lo de “velho cornudo”.

Saiba mais
Reyes sodomitas: Monarcas y Favoritos en las Cortes del Renacimiento y Barroco, Miguel Cabañas Agrela, Editora Egales, 2012
Revista Aventuras na História

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Mergulho para a morte


Quem eram os Kamikazes e por que, para eles, o suicídio era uma saída mais aceitável que a derrota. 
 Da Redação

Fernanda Campanelli Massarotto

Eis-me finalmente incorporado às Unidades Especiais. Os 30 dias que restam vão ser minha verdadeira vida. Chegou a hora. O treinamento para a morte me espera: um aprendizado intenso para morrer com beleza. Parto para o combate contemplando a imagem trágica da pátria. Sou um homem entre outros. Nem bom nem mau. Nem sou superior nem sou um imbecil. Sou decididamente um homem.”

A carta acima, escrita em 22 de fevereiro de 1945, é a última mensagem do piloto japonês Okabe Hirabazau para sua família. Dias depois ele morreria, aos 24 anos, em um ataque aéreo suicida às Filipinas realizado pela Marinha do Japão. Hirabazau integra um contingente de mais de 20 000 jovens, adolescentes e até meninos que se engajaram na desesperada estratégia japonesa para não perder a disputa para os Aliados. Eram os kamikazes.

A explicação para essa entrega total pode ser encontrada no passado japonês. A Segunda Guerra mexeu com os brios do Japão. Até então, a história militar do país foi repleta de vitórias. Ninguém jamais conseguiu invadir a ilha. O Japão, ao contrário, subjugou todo o Sudeste Asiático. Primeiro derrotou a China, no final do século XIX (1895), na Guerra Sino-Japonesa. Depois, incorporou parte da Coréia, em 1910. E, por fim, dominou a Mandchúria, em 1931, consolidando o império nipônico. Mesmo durante a Segunda Guerra, até certa altura do conflito o Japão só havia conhecido vitórias: muitas ilhas do Pacífico e parte da Tailândia foram anexadas.

O domínio japonês no Pacífico só estremeceu com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, em resposta a um ataque da Marinha japonesa ao porto americano de Pearl Harbor, situado na ilha de Oahu, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941. Em pouco tempo, a Marinha e o Exército do imperador Hiroito (1926-1989, era Showa) colecionaram derrotas frente ao fogo americano. Na pequena ilha de Saipan, capital das Ilhas Marianas do Norte, parte da Federação dos Estados da Micronésia (oeste da Oceania), em uma única batalha, em julho de 1944, morreram 12 000 americanos contra mais de 130 000 japoneses. Uma proporção de dez baixas orientais para cada baixa americana.

O efeito dessa desvantagem sobre o Japão dos anos 40 faz parecer até natural o nascimento de um impulso suicida entre os jovens nipônicos. Os milhares de mortos envergonhavam o país, mas a imprensa de Tóquio os exaltava e descrevia a ação dos mártires como exemplos a serem seguidos. Os rapazes, como que expiando a humilhação nacional, colocavam-se às centenas à disposição das Forças Armadas. A lealdade às tradições do país e ao imperador deu o impulso que faltava, e toda uma geração entregou-se às armas, disposta a tudo para não perder a guerra para os americanos – chamados de chikucho (algo como “besta inumana”). Por fim, o rígido código de honra militar japonês sugeria uma única saída para uma guerra que, àquela altura, estava claramente perdida: a morte. Os kamikazes (kami é “deus” e kaze é “vento”, em japonês) são a faceta mais contundente desse espírito nacional.

O criador da ação kamikaze foi o almirante da Marinha Takajiro Onishi. Em 19 de outubro de 1944, Onishi comunicou a seus pilotos que os americanos haviam desembarcado nas Filipinas. A batalha naval estava próxima, e os métodos tradicionais não seriam suficientes para deter os inimigos. Havia, porém, uma esperança. Aviões de caça do tipo Zero, armados com uma única bomba de 250 quilos, se chocariam contra navios inimigos. A ousadia e o poder destruidor do ataque seriam fatais.

Faltava apenas encontrar voluntários para o mergulho mortal. Em qualquer sociedade ocidental, seria impensável pedir a um soldado que cometesse um suicídio altruísta. Não há registro de situação similar na história das guerras no Ocidente. Missões militares sempre comportam risco de vida. Mas o que dizer de abdicar dela de antemão? No Japão da década de 40, encontrar jovens corajosos com data e hora marcadas para morrer não foi um problema. Invocou-se a ética guerreira. Quem não encarnaria de bom grado o “vento dos deuses”? Que honraria maior do que personificar o “tufão divino” contra os inimigos?

Logo de início, os ataques dos kamikazes operaram muitos estragos na armada inimiga, que não sabia como reagir a esse tipo de ação. Os números comprovam a eficácia da estratégia: 57 navios inimigos foram afundados; 108 totalmente destruídos; 83 parcialmente destruídos e 206 danificados. Os momentos de glória eram desfrutados antes e depois das missões. Toda a esquadrilha se reunia e compartilhava, com os que iam partir, uma última dose de saquê, tradicional aguardente de arroz japonesa. Nas fotografias remanescentes da época, é possível ver o sorriso sereno dos jovens a caminho da morte. Na testa, uma faixa branca com um sol vermelho.

As unidades de combate kamikaze, na verdade, retomavam o espírito dos antigos samurais, guerreiros japoneses da Idade Média. “Mas não podemos pensar que os kamikazes foram os samurais do Japão moderno”, diz o doutor em história moderna do Japão Takane Kawashima, da Universidade de Meiji, em Tóquio, que publicou um estudo, em 1994, sobre o sentimento da população japonesa durante o conflito. “Há, simplesmente, a transposição do sacrifício pelo senhor feudal para a morte pelo imperador, em nome de uma lealdade radical. O samurai realizava o haraquiri, o corte do próprio ventre, uma morte solitária. O kamikaze, ao morrer, levava o inimigo consigo.”

Embora muito se tenha falado nas razões do espírito para justificar a ação kamikaze, os milhares de pilotos suicidas jamais foram movidos pela religião. O xintoísmo e o budismo, as duas principais religiões no Japão, condenam o suicídio. O Japão da era Meiji, que começou em 1872 com a abertura do país ao resto do mundo e encerrou-se com a derrota na Segunda Guerra, era fortemente influenciado pelos valores de Confúcio, filósofo chinês que viveu entre 551 a 479 a.C. Para o confucionismo, a família é a base da sociedade. E as relações de pai e filho são fundamentais. O Estado, por sua vez, é visto como uma grande sociedade familiar em que o imperador funciona como o pai. “A moral confuciana não é favorável ao suicídio. Mas suas idéias de obediência conduzem à devoção absoluta em relação ao soberano”, afirma Eduardo Basto, historiador especialista em religião da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

O primeiro ataque kamikaze ocorreu em 25 de outubro de 1944, durante a batalha de Samos, na costa de Leyte, nas Filipinas. As unidades especiais de ataque por choque corporal, os tokkotai, eram compostas por 25 pilotos suicidas, ou tokko. Um sucesso, a princípio, as investidas kamikazes foram, com o tempo, revelando seu preço: a extinção dos pilotos de elite. Foi preciso então formar pelotões inexperientes. Os jovens japoneses foram convocados a entrar na guerra e, prontamente, atenderam ao chamado. Muitos eram universitários. Estudantes da área jurídica e literária eram prontamente aceitos. Os cientistas eram poupados, pois se considerava que eles seriam mais úteis para o futuro do país. Morrer aos 20 anos podia não fazer parte dos planos daqueles jovens, mas o dever de obediência ao imperador era mais forte.

“Até 1945, os japoneses cultivavam uma adoração extrema ao imperador, que era visto como o filho da divindade solar, uma filosofia básica do xintoísmo, a religião mais popular do Japão”, diz Eduardo Basto. “Hiroito só foi abdicar desse poder ‘divino’ em janeiro de 1946, por exigência dos americanos, depois que o Japão se rendeu, em 15 de agosto de 1945, e começou o período de ocupação americana no país, que durou até abril de 1952.”

Os japoneses ouviram em meio às lágrimas o discurso de rendição do soberano. Foi o episódio mais amargo da história do país. “Ponho um fim a esta guerra por minha própria autoridade”, anunciou Hiroito. Mas, para surpresa até dos mais céticos, em poucos meses, a paz determinaria a morte do caráter divino imperial: os ultranacionalistas se resignaram e o povo acolheu sem revoltas o pedido superior. No entanto, alguns militares da Marinha e do Exército, inconformados com a derrota, invocaram os samurais e suicidaram-se cometendo haraquiri. Entre eles estava o criador das missões kamikazes, o almirante Onishi. Estrategicamente, os Aliados conservaram o imperador no poder. Temia-se que o imperador se matasse e o mundo assistisse a um suicídio em massa. De fato, sacrificar a vida (jusshi reuisho, em japonês) pelo país era uma obrigação da família real. E uma honra, uma regra de conduta que não poderia ser evitada para os cidadãos comuns.

Quem se rebelasse envergonharia toda a família. Dinastias com séculos de história podiam cair em desgraça na sociedade.

Foi precisamente a devoção à pátria e ao imperador que levou Kiyoshi Tokudome, então um garoto de 15 anos, a se alistar na Marinha japonesa em maio de 1944. Tokudome hoje tem 71 anos. Vive há 45 no Brasil. Ele dirige a Associação Cultural Kagoshima do Brasil, que leva o nome de sua província natal, no sul do Japão. Tokudome, ao entrar para a Marinha, foi enviado para um campo de aviação em Nagasaki. Segundo ele, o aprendizado não foi fácil. Com o avanço das tropas Aliadas, o curso de oito estágios com duração de três anos acabou reduzido para quatro semestres. O cronograma ficou apertado. O dia inteiro era preenchido com treinamento militar em aulas práticas e teóricas, manuseio de equipamentos, mecânica e simulações de vôo.

“A rotina começava às seis da manhã e muitas vezes se estendia até tarde da noite.” Caso os regulamentos fossem infringidos, as punições eram severas. Era muito comum os futuros pilotos serem esbofeteados pelos superiores. E jamais reclamavam. “Nossa educação baseava-se nos princípios de disciplina, lealdade, obrigação, devoção e soberania”, afirma Kawashima, da Universidade de Meiji.

A possibilidade de se tornar um prisioneiro de guerra não era concebida entre os militares japoneses. Cair diante do inimigo era considerado uma espécie de morte muito menos honrosa que o suicídio. “A maioria dos japoneses não imaginava uma guerra sem vitória. Não haviam sido educados para ser prisioneiros”, diz Kawashima. “Caso isso viesse a acontecer, por que não abraçar o fim na forma de um suicídio altruísta, abnegado, que reverenciasse os samurais?”

Para saber mais
Na livraria
Kamikaze, Piloto Suicida, Saburo Sakai e Martin Caidin, Ibrasa, 1975
O Suicídio, Emile Durkheim, Martins Fontes, 2000
O Crisântemo e a Espada, Ruth Benedict, Perspectiva, 1997
A Morte Voluntária no Japão, Maurice Pinguet, Editora Rocco, 1987

Na internet
http://www.japanbrazil.com
http://www.geocities.com/kamikazes_web/index.html
http://www.tcr.org/kamikaze.html
Revista Superinteressante

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O que foi a Ku Klux Klan?


Grupo racista criminoso ganhou força no século 19 devido a um conjunto de leis segregacionistas dos estados dos EUA 
Raquel Carneiro

Foi uma milícia criminosa racista criada no sul dos EUA logo após a Guerra Civil Americana (1861-1865). O grupo formado por pessoas brancas reagiu à libertação dos escravos e a um projeto do governo chamado Reconstrução, que integraria os negros à sociedade. Responsável por massacres, estupros e linchamentos, entre outras atrocidades, a Klan passou por três fases históricas, todas repletas de ódio.

1. Em 1866, na pequena cidade de Pulaski, no Tennessee, seis amigos começaram a sair com lençóis brancos na cabeça durante a noite para pregar peças nos negros das fazendas locais. Com o tempo, as brincadeiras ganham contornos violentos e motivações políticas. Nascia ali a Ku Klux Klan, que emprestou do grego a palavra kuklos (círculo) e dos escoceses o termo klan (clã). Em um ano, eles atingem meio milhão de adeptos em diferentes cidades

2. O governo dos EUA deu à KKK o status de organização criminosa em 1870. Contudo, no sul, eles ganharam força devido a um conjunto de leis segregacionistas dos estados locais. Conhecidas como “Jim Crow” (personagem negro e bobo da cultura popular norte-americana), essas leis ditavam que ônibus, cinemas, restaurantes e outros estabelecimentos possuíssem assentos separados para negros. Quem não cumpria os limites era punido pelas autoridades, com a ajuda da Klan

3. Com a fuga de negros para outros estados, o grupo aumentou sua atuação pelo país. Uma primeira sede oficial foi aberta em Nashville sob a liderança de Nathan Bedford Forrest, o Grande Mago (ver abaixo). Toda a área de atuação era designada como Império. O que estava fora era chamado de “mundo alienado”. O look branco com chapéu pontudo remetia aos fantasmas dos soldados confederados mortos durante a Guerra Civil

4. Com o fim da Reconstrução em 1877, a KKK perdeu sua força inicial. Mas o declínio não apagou sua ideologia: alguns adeptos se envolveram com a política. Como resultado, cinco ex-presidentes dos EUA hoje são apontados como simpatizantes da organização: William McKinley (1897-1901), Woodrow Wilson (1912-1921), Warren G. Harding (1921-1923), Calvin Coolidge (1923-1929) e Harry S. Truman (1945-1953). O discurso racista de Woodrow ajudou a Klan a retomar suas atividades
Revista Mundo Estranho

Teoria da conspiração: o suicídio de Hitler foi forjado?


O corpo do líder nazista jamais foi encontrado. E muita gente jurou tê-lo visto perambulando pelo mundo após a 2ª Guerra Mundial
Mariana Nadai

Sugestão da TdF Letícia Duarte
Ilustra Murilo Araújo
Edição Felipe van Deursen 

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

“Sem corpo, não há crime”
Diz a história que Adolf Hitler se matou no bunker onde se escondia, em Berlim, em 1945, ao final da 2ª Guerra. Ele ingeriu uma cápsula de cianureto e, para garantir, deu um tiro na cabeça. Os nazistas queimaram o corpo, para que os restos jamais fossem encontrados. Ou seja, não dá para cravar que ele se matou

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Mortos-vivos
Outros nazistas dados como mortos “ressuscitaram” anos depois. Foi o caso de Josef Mengele, oficial da SS (a polícia do Estado nazista) e médico no campo de concentração de Auschwitz. O “anjo da morte” foi encontrado no Brasil, anos depois, vivendo como o austríaco Wolfgang Gerhard. Sua identidade foi revelada após a sua morte (verdadeira) por afogamento, em Bertioga, SP. Se Mengele estava vivão depois da guerra, por que Hitler não poderia estar?

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

No rancho fundo
A maioria das teorias que diz que Hitler não morreu durante a guerra afirma que ele cruzou o Atlântico para viver na América Latina. O próprio FBI, a polícia federal dos EUA, decidiu investigar uma possível fuga de Hitler após receber cartas de pessoas que acreditaram tê-lo visto vivo. Segundo esses relatos, ele teria saído da Alemanha em 29 de julho de 1945, viajado em um submarino e chegado são e salvo a um rancho no interior da Argentina

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)


Debaixo do nariz
Em 1946, um homem entrou no S.W. Restaurant, em Washington, EUA, para almoçar. O restaurante estava cheio, mas alguém, ocupando uma mesa de dois lugares, cedeu espaço para que ele se sentasse. Os dois não trocaram uma palavra, mas o homem, que também não teve a identidade revelada, estava certo de que o cavalheiro que lhe deu lugar era Adolf Hitler, de bigode e tudo. O relato foi publicado no New York Journal-American

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Na Colômbia
Em 1948, o jornal colombiano El Tiempo recebeu uma carta dizendo que Hitler estava no país. O autor da carta, cujo nome não foi divulgado, seria a pessoa que o ajudou a se instalar em terras colombianas. Ele teria sido contatado pelos nazistas ainda durante a guerra para criar um refúgio nazista. Além disso, o homem teria guiado a comitiva a entrar pela península de La Guajira para se acomodar em uma de suas fazendas

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

E no Brasil?
No livro Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte, Simoni Renée Guerreiro Dias diz que Hitler se refugiu em Nossa Senhora do Livramento, cidadezinha em Mato Grosso onde ele teria morrido, na clandestinidade, em 1984. Uma foto ao lado de uma mulher negra, com quem ele seria casado, é a principal “prova” da permanência do ditador na cidade, onde ele era conhecido como Adolf Leipzig

Santa ajuda
Para escapar das tropas russas e se alojar em Mato Grosso, Hitler teria contado com uma importante ajuda: o Vaticano. A Igreja teria dado ao Führer um mapa para encontrar um tesouro jesuíta enterrado próximo a Nossa Senhora do Livramento. Para conseguir chegar ao Brasil sem ser descoberto, Hitler teria passado antes por Argentina, Paraguai e Rio Grande do Sul


(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Por outro lado…
Mesmo sem corpo, tudo indica que Hitler morreu, sim, em 1945
De fato, nazistas dados como mortos fugiram para a América. Além de Mengele, Adolf Eichmann (Argentina), Herbert Kucurs (Rio de Janeiro) e Walter Rauff (Chile) foram alguns figurões encontrados no continente
Quanto a Hitler, a teoria mais aceita pelos historiadores é a de que ele de fato se matou em 30 de abril de 1945 junto de sua companheira, Eva Braun. Mesmo sem evidências físicas da morte, “o mundo precisava de um responsável por todo o mal da guerra”, diz o historiador Oldimar Cardoso
Por mais que o corpo do ditador jamais tenha sido encontrado após a guerra, havia testemunhas, como Rochus Misch, guarda-costas de Hitler. Em entrevista à revista alemã P.M History, ele diz que encontrou o cadáver do patrão no bunker, logo após o suicídio
A investigação do FBI de fato ocorreu: os documentos vieram a público em 2014. Mas nada foi encontrado sobre a suposta permanência de Hitler na Argentina, pois havia “escassa informação” a respeito
O FBI também não encontrou informações suficientes para seguir com a investigação da suposta permanência de Hitler em Washington. Mas, francamente, quem iria se esconder logo na capital de um dos países inimigos na guerra?
A tese de Hitler no Brasil é desacreditada por historiadores. A própria Simoni justifica que encontrar evidências físicas é difícil. Ela investigou o suposto túmulo do ditador em Mato Grosso, mas não encontrou material para fazer exames de DNA
O Vaticano é uma cidade-Estado soberana que, por decreto, se mantém neutro em assuntos internacionais. Segundo documentos oficiais, o papa Pio 12 se absteve de tomar partido na guerra. Mas se isso aconteceu na prática, aí é assunto para outra Teoria da Conspiração…

CONSULTORIA Oldimar Cardoso, doutor em didática da história pela USP, e Simoni Renée Guerreiro Dias, pesquisadora e autora de Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte
Revista Mundo Estranho

domingo, 9 de abril de 2017

Quem foi Giordano Bruno?


O ex-monge foi perseguido pela Igreja Católica por defender conceitos como o infinito e o panteísmo   Galileu

 
Estátua de Giordano Bruno em Roma (Foto: Wikimedia Commons)

Após a notícia de que Bruno Borges, morador do Acre de 24 anos, desapareceu deixando para trás nada menos que 14 cadernos criptografados e uma estátua de Giordano Bruno avaliada em R$ 7 mil, a internet foi à loucura tentando desvendar a ligação entre eles. Para além das especulações malucas e das teorias da conspiração, é um bom momento para aprender sobre a vida do téologo e filósofo que viveu durante o século 16.

Giordano Bruno foi um monge italiano da Ordem dos Dominicianos desde os seus 15 anos. Nascido em 1548, dedicou-se ao estudo da teologia de São Tomás de Aquino e da filosofia aristotélica assim que entrou no seminário, tornando-se membro da Academia Florentina. Aos 17, ingressou na Ordem dos Pregadores.

Com o passar do tempo, pórem, começou a adotar ideias controversas na época como, por exemplo, a negação de qualquer tipo de imagem religiosa que não fosse o crucifixo. Em 1575, pouco depois de receber seu doutorado em teologia, abandonou a ordem.

Foi grande defensor do conceito de infinito e de uma espécie de panteísmo. Segundo ele, os seres humanos ainda não eram capazes de realmente entender o conceito de Deus, que estaria em tudo e em todos. Para Bruno, Deus era a inteligência e a vida por trás de tudo que existe no mundo, e a matéria formadora dos objetos era expressão passiva de sua vontade.
 
Escultura de Giordano Bruno na casa do jovem desaparecido (Foto: Reprodução/G1)

Em resumo, Giordano Bruno, era hilozoísta — quem defende a ideia de que absolutamente tudo possui vida dentro de si — e panpsiquista — quem acredita que tudo tem alma. Por ter ideias tão liberais em torno da religião, ele era grande defensor da unificação das religiões, a favor de que Deus estava além de qualquer tipo de dogma ou regra.

O infinto era, para ele, algo complexo demais para a mente humana, já que os sentidos estão reservados a compreender apenas o que pode ser limitado pelo espaço e pelo tempo. Segundo Bruno, o universo possuía essa mesma propriedade e o número de planetas seria incalculável. A ideia do filósofo era de que muito possivelmente existissem muitas Terras com muitos messias por aí.

Na estrada
O teólogo peregrinou pela Europa dando aulas e divulgando suas teorias. Passou por Suíça, Inglaterra, França, Alemanha e República Tcheca. Entre suas viagens, converteu-se ao calvinismo e chegou a dar aulas na Universidade de Oxford, mas logo abandonou a religião de Calvino por considerá-la contrária à liberdade intelectual.

Giordano Bruno defendeu o conceito de que a verdade deve prevalecer sobre as vontades e as crenças, inspirando, séculos mais tarde, o movimento iluminista. Uma vez, Bruno escreveu que “só os espíritos mais fracos é que pensam com a multidão por ser ela multidão. A verdade não é modificada pelas opiniões do vulgo, nem pela confirmação da maioria".

Após vários ataques em diferentes regiões, foi preso em Veneza pelo Santo Ofício. A pedido do papa, foi entregue ao tribunal da Santa Inquisição e condenado a sete anos de prisão. Durante esse tempo, por não concordar em negar as próprias convicções, acabou sendo queimado no dia 17 de fevereiro de 1600.

O programa "Cosmos: a spacetime odyssey", produção apresentada por Neil deGrasse Tyson em 2014, mostrou em um de seus episódios a incrível história de Giordano Bruno através de uma animação. A série foi inspirada no programa original "Cosmos" de 1980, realizada por Carl Sagan e sua esposa Ann Druyan e tem como objetivo trazer a ciência e o prazer da pesquisa para dentro da casa de jovens telespectadores.
Revista Galileu

6 coisas que você não sabia sobre a Idade Média



Caravaggio (1571-1610) (Foto: Wikimedia Commons)
 
O pão podia dar barato, futebol era ilegal e mais...
Ana Freitas

Você assiste "Game of Thrones", "Vikings", lê "Senhor dos Anéis" e, por causa disso, constrói um monte de suposições sobre a Idade Média. Além disso, tem tudo aquilo que a gente aprendeu nos livros da escola e, em alguns casos, o senso comum dos filmes e dos contos de fadas. Mas os mitos sobre a Idade Média são muitos, sem contar as coisas que a gente não faz ideia mas eram uma realidade naquela época.

Cavaleiros reais não eram bastiões da ética e heroísmo

Todo mundo pensa nos cavaleiros como os grandes heróis de alma nobre e ética social da Idade Média. Nesse caso, Game of Thrones está mais próximo da realidade: não era incomum que cavaleiros saqueassem vilarejos, assassinassem inocentes e estuprassem mulheres.

Futebol era ilegal

Na Inglaterra medieval, um esporte chamado 'mob football' foi proibido por causa da zona que causava. O jogo podia ser jogado por um número ilimitado de jogadores, a bola era uma bexiga de porco (argh) e as regras eram... bom, quase não havia regras. E se o futebol hoje, cheio de regras e só com 11 jogadores, já é capaz de desencadear caos, imagina nesse contexto.

O pão podia dar barato - ou pior, te matar

No verão, os grãos eram escassos - a colheita anterior estava chegando ao fim, mas a nova ainda não estava pronta pra ser colhida. Trigo velho era usado pra fazer pão, e esse trigo às vezes era infectado com ergot, um fungo que, se ingerido, provoca efeitos parecidos com LSD ou até mata em casos extremos.

Eles não bebiam só cerveja

Você já deve ter ouvido falar que na Idade Média só se bebia cerveja ou vinho, já que a água mesmo era imprópria para consumo. É uma ideia engraçada pensar que durante séculos todo mundo viveu bêbado o tempo todo, mas de acordo com alguns historiadores, é só uma lenda. As pessoas tinham métodos pra conferir se a água era pura e por isso tomavam água, sim, mas também bebiam bastante cerveja, mais comum entre os camponeses, e vinho, consumido pela nobreza.

As pessoas não fediam tanto quanto você pensava

A limpeza do corpo, na Idade Média, estava associada com a limpeza da alma. Alguns historiadores dizem que acreditava-se que pessoas sujas eram pecadores. Como o catolicismo imperava, as pessoas se mantinham bem limpinhas. Banhos públicos eram comuns e também era um costume tomar banho junto com convidados, por exemplo. E as pessoas também escovavam os dentes usando alecrim queimado. O motivo: se dor de dente já é difícil em 2014 com anestesia, imagina naquela época?

Animais podiam ser julgados e condenados por crimes

Não era raro que animais fossem julgados e condenados por matar pessoas ou outros crimes, como estragar plantações ou comer comida que não era deles. Geralmente, iam a julgamento animais domésticos, como porcos, vacas e cavalos, e pragas que ameaçavam plantações, como ratos e insetos. Há registros de supostos lobisomens terem ido a julgamento, além de um galo que, em 1474, foi julgado pelo crime de botar um ovo (ele é um galo!).
Revista Galileu

sexta-feira, 24 de março de 2017

A infância e a juventude do mais odiado ditador da História


Hitler: o ínicio
A infância e a juventude do mais odiado ditador da História

Luis Pereira


 Um jovem quase comum | Crédito: divulg. 
 
No filme A Queda, de Bernd Eichinger, o famoso ator Bruno Ganz interpreta Adolf Hitler em seus últimos dias, acuado no bunker da Chancelaria do Reich, em pleno processo de negação e declínio psicológico. A atuação magistral de Ganz fez com que muitos se perguntassem: “Podemos retratar Hitler como um ser humano?”. O historiador alemão Volker Ullrich defende que não só podemos como devemos. Ullrich é o autor de uma nova biografia do ditador nazista, Adolf Hitler Vol. 1 – Os Anos de Ascensão, 1889-1939 (Amarilys, 2016). O trabalho, aclamado pela crítica e best-seller instantâneo na Alemanha e na Inglaterra, é o primeiro tomo de uma obra em dois volumes que se propõe a preencher lacunas na bibliografia já existente e, principalmente, tratar do ser humano por trás da persona pública.

O simples processo de demonização, segundo o autor, é um erro perigoso, pois distorce a avaliação da verdadeira personalidade de Hitler, com suas contradições e antagonismos, deixando de lado os traços empáticos que fizeram dele um líder palatável às massas populares e às elites política e econômica da Alemanha. O objetivo é desconstruir o mito Hitler, presente de variadas maneiras na literatura e no debate público após 1945 como uma “fascinação (negativa) pelo monstro”. Na nova obra, Hitler é “normalizado”, mas isso não o torna “mais normal”; pelo contrário, ele parece ainda mais indecifrável. Sua imagem torna-se mais complexa, um homem de muitas faces, sempre adaptadas a diferentes públicos.


Baseando-se em pistas conhecidas e documentos revelados apenas recentemente, Ullrich discute que, se não fosse pela Primeira Guerra Mundial e as revoluções sociais que ela provocou na Europa, talvez Hitler permanecesse uma figura desconhecida às margens da História. Suas origens são, para dizer o mínimo, nebulosas. “Não sei de nada sobre a história da minha família. Nessa questão, sou uma pessoa muito mal informada (...) sou completamente desprovido de sentimentos familiares e não tenho nenhuma ligação com um clã. Isso não é de minha natureza. Eu pertenço à minha comunidade étnica”, confessou Hitler em 1942, num de seus muitos monólogos.
Talvez ele visse boas razões para ocultar sua ascendência.



O bebê Adolf Hitler

O pai de Hitler, Alois Schicklgruber, era um filho ilegítimo adotado por um tio postiço, Johann Nepomuk Hiedler (irmão mais novo do marido da mãe de Alois), numa história enrolada que sugere algum escândalo familiar abafado. Somente aos 19 anos Alois foi registrado como filho legítimo de Johann Georg, o irmão de Johann Nepomuk. Nessa ocasião, o notário alterou o sobrenome Hiedler para Hitler. Alois Hitler viria a ser um funcionário-modelo na alfândega de Braunau. Em 1885, após ficar viúvo pela segunda vez (as taxas de mortalidade na época eram altíssimas), Alois casou-se com Klara Pölz. Klara era neta do tio postiço de Alois. Portanto, se de fato Alois era filho de Johann Georg, os dois seriam primos em segundo grau. Se, como se suspeita, fosse filho de Nepomuk, o parentesco seria ainda mais próximo, o de tio e sobrinha. Em 1889, nascia Adolf Hitler, o quarto filho do casal (os três primeiros morreram cedo). Boatos sobre uma possível origem judaica de Hitler (que circulavam desde a década de 1920) não se confirmaram. Ainda assim, é irônico que o ditador que exigia um certificado de “ascendência ariana” de cada cidadão alemão não fosse capaz de demonstrar a própria.

Existem poucos testemunhos sobre os primeiros anos de vida de Adolf Hitler. As informações publicadas por ele sobre o ambiente familiar no primeiro capítulo de Minha Luta certamente são uma mistura de meias-verdades e invenções, com as quais tentou angariar simpatias e tornar crível sua vocação política como líder de um novo Reich alemão. Sabe-se que Alois fora um pai severo, adepto de castigos físicos. A experiência da violência doméstica foi interpretada como uma das causas para a política assassina do ditador. No entanto, Ullrich adverte que se deve tomar cuidado ao tirar conclusões: naquela época, castigos físicos eram comumente usados com finalidade educativa. Um pai repressor e uma mãe amorosa não eram uma combinação rara entre as famílias de classe média por volta da virada do século. Hitler, portanto, teve uma infância bastante normal.


Juventude incerta

Nos anos escolares
Adolf Hitler fora um excelente aluno nos primeiros anos escolares. Como todos os garotos de sua idade, era leitor dos romances de aventura do escritor alemão Karl May (dizem que durante a guerra, principalmente nas situações mais difíceis, Hitler citava um dos heróis de May, o índio apache Winnetou, como um “paradigma de comandante militar”). Entretanto, quando fez a transição para a escola secundária em Linz, Hitler passou a ser mais um entre muitos. Terminou por abandonar a escola, após reprovações e resultados medíocres.

O fracasso em terminar o grau secundário custou caro, quando ele se inscreveu para o exame de admissão na Academia de Belas-Artes de Viena, já que o diploma era um requisito básico. Hitler (mais livre após a morte do pai, em 1903) passara a fazer visitas frequentes à capital, em que se deleitava com as paisagens da metrópole austríaca, com seus museus, a ópera, o Parlamento e a magnífica Ringstrasse. O fracasso acadêmico, que ele não contara à família ou aos amigos, foi difícil de aceitar. Muitos atribuem a perseguição aos intelectuais e seu desprezo pela intelligentsia alemã como resultado dessa rejeição.


O ano de 1907 foi marcado pela morte da mãe, em consequência de um câncer de mama. “Em meus quase 40 anos de atividade, nunca vi um jovem tão indescritivelmente triste e arrasado como o jovem Adolf Hitler”, escreveu o médico judeu que tratara Klara Hitler, doutor Eduard Bloch, em uma anotação de 1938. Não há indícios de que o tratamento médico feito por Bloch tenha sido a causa do patológico ódio antissemita de futuro Führer. No próprio dia do funeral, Hitler foi até o consultório dele para agradecer pelos cuidados com a mãe. Em 1938, quando o líder fez sua entrada triunfal na “cidade natal” Linz, após ter anexado a Áustria, dizem que perguntou imediatamente pela saúde do “bom e velho doutor Bloch”. Dentre todos os judeus de Linz, Hitler colocou o médico sob a proteção da Gestapo. No final de 1940, a família Bloch conseguiu emigrar em segurança para os Estados Unidos.

Há relatos de que Hitler também manteve relações cordiais com judeus nos abrigos e pensionatos vienenses em que morou entre 1908 e 1913. Viena era na época a grande metrópole europeia, centro de uma vida econômica e cultural efervescente, com uma enorme comunidade de intelectuais e artistas de vanguarda. Naquela cidade, os problemas do Estado multinacional austro-húngaro podiam ser observados como numa lente de aumento. Nenhuma outra apresentava uma taxa de imigrantes tão elevada. A reação dos habitantes locais ao “perigo” de uma “infiltração estrangeira” produzira desde o final do século 19 a criação de associações e partidos que estampavam o nacionalismo radical entre as suas bandeiras. A imigração maciça, principalmente de judeus orientais, despertou temores de uma “judaização” de Viena; o sucesso dos imigrantes judeus, bem-educados e orientados a subir na vida, despertou inveja e amargura nos habitantes nativos.

Hitler escreve em Minha Luta que os anos em Viena foram de miséria e pobreza. Outra meia-verdade, pois, enquanto durou a herança materna, a pensão de órfão e a ajuda que recebia de uma tia, Hitler teve condições de manter seu estilo de vida habitual: não fazer nada. Quando a tia que o socorria também faleceu, ele então teve de buscar o próprio sustento.

Artista sem futuro
No outono de 1909, Hitler chegou a viver num abrigo para moradores de rua, onde conheceu Reinhold Hanisch. De manhã cedo, os ocupantes do abrigo tinham de deixar o lugar, retornando somente à noite. Durante o dia, Hanisch e Hitler tentavam ganhar alguns trocados fazendo bicos. Ao saber da inclinação artística do colega de abrigo, Hanisch sugeriu que Hitler pintasse os cartões-postais da cidade para que ele os vendesse em bares e restaurantes, dividindo a receita. O sucesso da empreitada foi maior que o esperado e em 9 de fevereiro de 1910 ambos conseguiram trocar o abrigo por um pensionato masculino. Hitler viria a morar ali pelos três anos seguintes.
A parceria com Hanisch durou pouco.

Para que o negócio fosse rentável, era preciso pintar um quadro por dia, como cobrava o colega. Mas Hitler argumentava que se tratava de um trabalho artístico, para o qual era necessário estar inspirado; quando não estava, passava o dia lendo jornais ou participando de discussões políticas na sala de leitura do pensionato. Em agosto de 1910, Hitler acusou Hanisch de tê-lo enganado e deixado de pagar por algumas telas vendidas. Passou então a vender suas obras por meio de Jacob Altenberg e Samuel Morgenstern, dois judeus proprietários de uma loja de artes. Ambos pagavam a Hitler muito bem, permitindo-lhe independência financeira. Além de preferir fazer negócios com comerciantes judeus, Hitler mantinha boa convivência com outros moradores do pensionato que eram de origem judaica. O ex-sócio Hanisch viria a afirmar que “naquela época, Hitler não odiava os judeus. Isso só aconteceu mais tarde”.

O contraste entre o pintor de telas parceiro de marchands, colega de quarto de judeus e o futuro ditador genocida é desconcertante. Para Ullrich, uma coisa é certa: mesmo que quisesse, Hitler não teria conseguido evitar contato com correntes antissemitas naquela Viena da virada do século. Políticos vienenses que Hitler admirava batiam constantemente na tecla do inimigo externo judeu: Georg von Schörener, o líder do pangermanismo austríaco a quem Hitler cita como influência fundamental em Minha Luta, associou sua campanha pelo “germanismo” com um antissemitismo até então desconhecido na Áustria; o prefeito Karl Lueger não media palavras ao dizer que “a Grande Viena não deve se transformar numa Grande Jerusalém”, além de acusar a “imprensa judaica” de compor uma imagem estereotipada de judeus abastados, intelectualmente refinados e arrogantes. Seria uma surpresa se o jovem Hitler não tivesse sido influenciado por isso.

Um outro aspecto desses anos que alimenta a curiosidade de historiadores é a suposta homossexualidade de Hitler. Na contramão de diversas obras que veem nas ações do ditador indícios de uma orientação sexual frustrada e reprimida, Ullrich não se convence de que Hitler pudesse ter tido relações homoafetivas no período em que morou nos pensionatos masculinos. No entanto, inúmeras fontes dão conta de um comportamento celibatário do futuro Führer. Numa metrópole vanguardista e de costumes em ebulição como era Viena, em que peças teatrais de Arhtur Schnitzler e quadros permissivos de Gustav Klimt causavam escândalo, o jovem Hitler vivia um ascetismo quase monástico.

Ao que tudo indica, ele também não recorria a prostitutas. Segundo um amigo da época, isso se dava principalmente pelo medo de contrair uma doença sexualmente transmissível bastante comum na época: a sífilis. Mas talvez a ideologia pangermanista de Schörener também tenha desempenhado um papel nisso. Além de defender a superioridade cultural dos alemães, a dissolução do império multinacional Habsburgo e a formação de um Império Alemão único, Schörener defendia também o celibato até os 25 anos, a fim de tonificar a força física e intelectual. Se Hitler se manteve fiel a esse mandamento de castidade, ele ainda não tinha dormido com nenhuma mulher ao deixar Viena, aos 24 anos de idade.

Hitler já pensava em emigrar para a Alemanha havia algum tempo. Munique era a cidade que mais o atraía. Ali, ele frequentou o meio boêmio de Schwabing e seguiu ganhando a vida pintando paisagens. Sua senhoria o descreveu como um jovem retraído, que se fechava no quarto como um eremita. Para Ullrich, a falta de contatos era apenas um sinal externo de sua profunda insegurança interna. Após um ano na cidade, Hitler teve de admitir que sua carreira artística não lhe oferecia futuro. Somente o início da Primeira Guerra Mundial, no começo de 1914, o libertaria daquele estado frustrante e sem perspectivas.

Primeira Guerra Mundial

Cabo Hitler
A escalada de hostilidades que se seguiu ao assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando produziu na Alemanha um estado de euforia patriótica a favor da guerra. O escritor Stefan Zweig viria a descrever esse momento “arrebatador” como “algo de que era difícil escapar”. Com o início do conflito, Hitler afirma ter obtido uma autorização do rei Ludwig III da Baviera para servir em um regimento bávaro apesar de sua nacionalidade austríaca. O mais provável é que naqueles dias tumultuados ninguém checasse com afinco a nacionalidade dos recrutas voluntários; do contrário, Hitler não poderia ter servido.

Em meados de outubro de 1914, o recruta Hitler enfrentou seu “batismo de fogo”. Seu regimento lutou em violentas batalhas homem a homem no front ocidental, tendo perdas imensas (de 3 500 oficiais, restaram 600). Em novembro, Hitler seria promovido a cabo, encarregado de levar mensagens e ordens dos comandantes de regimento até a linha de frente. Segundo Hitler, esse trabalho colocava todos os dias sua vida em risco. Para os soldados de trincheira, os mensageiros militares não passavam de oficiais de caserna. De uma forma ou de outra, Hitler escreveu em Minha Luta: “O horror assumiu o lugar do romantismo da guerra. O entusiasmo arrefeceu gradualmente e o júbilo excessivo foi sufocado pelo medo da morte”. Antes mesmo do final da guerra, a direita radical e os pangermanistas já haviam eleito bodes expiatórios para os revezes da Alemanha: as “atividades subversivas” de sociais-democratas e esquerdistas em geral, e a suposta falta de engajamento dos judeus no esforço de guerra. A despeito dos milhares de judeus que morreram nas trincheiras, foi convocada em 1916 uma “contagem de judeus” a fim de verificar a situação do serviço militar de judeus alemães (um primeiro passo para os registros que viriam a ocorrer nos anos seguintes). Em 1918, diante da derrota iminente da Alemanha, esses grupos intensificaram sua propaganda antissemita.

O rapaz tímido ainda estava para descobrir seus dons extraordinários de oratória, mas a Revolucão Alemã, que derrubou o kaiser e instaurou uma república parlamentarista de inspiração esquerdista, provocou em Hitler tal comoção que o convenceu a abdicar de suas ambições artísticas e entrar na política. Junte-se a esse político aspirante com patronos influentes no meio militar a reação das elites econômicas ao novo governo, a fobia contra a esquerda e o ressentimento contra os judeus, e temos montado o cenário para a ascensão de Hitler e do nazismo. O Hitler pós-guerra se reinventou completamente, para prejuízo de milhões de vítimas que ele viria a fazer em sua ascensão sanguinolenta ao poder. Uma ascensão que, como Ullrich defende, merece ser mais bem compreendida.
Revista Aventuras na História