quarta-feira, 14 de novembro de 2018

As raízes do fascismo segundo Trotsky

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Henrique Carneiro

Nascidos das frustrações, da decadência social da pequena-burguesia e das camadas médias após uma guerra devastadora, o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini levou a Alemanha e a Itália a uma guerra ainda pior, a que mais matou até hoje em toda a história da humanidade


O nazi-fascismo foi derrotado na pior guerra já conhecida pela humanidade. Na Alemanha e Itália estas palavras foram proibidas como denominação política.

No século XXI, no entanto, os movimentos europeus neonazifascistas se reciclaram. Deixaram de serem grupos saudosistas e se vincularam com o fenômeno de uma nova extrema-direita que mantém muitas das características fascistas, mas não todas.

O fascismo não pode ser generalizado para qualquer direita, mesmo que extremada. Os regimes ditatoriais, por exemplo, não são necessariamente fascistas, pois carecem do elemento de mobilização popular que foi típico do fascismo.

Na extrema-direita de hoje em dia, à exceção de extremistas como o norueguês Anders Behring Breivik, que explodiu um carro bomba em Oslo e matou dezenas de jovens a tiros no encontro da Liga de Juventude dos Trabalhadores (sessão estudantil do Partido Trabalhista norueguês) em 2011, o programa de extermínio das organizações de esquerda, dos sindicatos e dos movimentos sociais também é atenuado. O racismo deixa de lado o antijudaísmo e se reconcilia com Israel e o sionismo, mas encontra outros semitas, dessa vez os árabes, e outros povos asiáticos e africanos para discriminar como indesejáveis. O estatismo é substituído por uma aceitação pragmática da lógica dos mercados financeiros. Assim age, por exemplo, Marine Le Pen, do Front Nacional na França. Poucos são os que, como o partido Aurora Dourada, na Grécia, mantém o ideário neonazi quase sem camuflagem.

O caso brasileiro é peculiar, pois a extrema-direita aqui foi, inicialmente, um tipo local de fascismo, o integralismo de Plínio Salgado, e que já adotava, em lugar do nacional desenvolvimentismo, uma doutrina neoliberal. Nos diversos governos do regime militar houve certamente fascistas, mas não se pode caracterizar o regime político em si como fascista, mas sim bonapartista. Além da ausência do culto pessoal ao líder, os governos militares brasileiros mantiveram mesmo que estritamente controladas as instituições parlamentares, que o fascismo clássico sempre suprimiu.

Agora, no ano de 2018, a candidatura de Jair Bolsonaro, um capitão deputado abertamente neofascista, coloca em debate que tipo de regime político poderia se constituir em seu governo. Haveria um auto-golpe, a supressão do parlamento, dos partidos, dos sindicatos e dos movimentos sociais?

Diferentemente do fascismo clássico, inexiste uma organização orgânica em torno ao culto da liderança do capitão que se notabiliza pelo estilo truculento, pela ignorância, pela ameaça de fuzilamento dos adversários, pela misoginia, homofobia e racismo explícitos. O aspecto doutrinário também é muito escasso, mas a adesão do fundamentalismo religioso pode oferecer um novo estofo místico.

Antes de caracterizar as formas dos neofascismos contemporâneos e suas conexões com os fenômenos chamados de alt-right, “direita alternativa”, que influenciaram muito a eleição de Trump, nos Estados Unidos, é indispensável um olhar histórico para o que foi o fascismo clássico e como ele foi ou deixou de ser combatido.

Para isso, a publicação desse conjunto de textos de Leon Trotsky, escritos enquanto o fascismo crescia na Europa, é muito oportuna.


Fascismo clássico

O emblema do partido nacional fascista na Itália era o fascio littorio. Fascio, palavra italiana, se refere a um feixe de varetas em torno de uma estaca que sustenta uma machadinha, um símbolo do poder que desde o império Romano fez parte das armas do soldado de escolta das autoridades, chamado de lictor. O número de lictores dependia do posto em questão.

Estes lictores, oriundos da plebe e que serviam de guarda do poder, resumem bem o que é o fascismo: uma força recrutada nas camadas plebeias a serviço de um poder extremado dos ricos que impõe a ordem em uma sociedade desigual.

As formações paramilitares que se formaram após a primeira guerra mundial na Itália e que levaram Mussolini ao poder se chamaram fascio di combatimento, ou “feixes de combate”.

Em 1922, 40 mil “camisas negras”, que era como se uniformizavam essas milícias, cercaram Roma e tomaram o poder num golpe que impôs a nomeação de Mussolini como chefe do governo, do qual só sairia preso, 23 anos depois. O estatuto nacional do partido fascista, de 1932, se define no artigo primeiro como “uma milícia civil voluntária as ordens do Líder (Duce) ao serviço do Estado fascista” e a obrigação maior dos seus membros se resume ao lema “crer, obedecer, combater”.

Após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial (a Itália entrou tardiamente no conflito, contra a Alemanha e Áustria-Hungria, rompendo a Tríplice Entente que mantinha com elas), além da destruição geral, houve pesadas retaliações econômicas no Tratado de Versalhes que levaram à pior crise inflacionária e de desemprego já conhecida.

O Partido Nazista, cinco anos após a sua fundação, teve apenas 1,1% dos votos com o general Ludendorff, na primeira eleição presidencial da história da Alemanha, em 1925, vencida pelo marechal Hindenburg, da direita tradicional. Em 1930, após a crise da bolsa de 1929, teve 16% nas legislativas. Na presidencial, em 1932, Hitler saltou para 30% no primeiro turno e 36% no segundo turno. Quem ganhou, entretanto, foi novamente Hindenburg. Mas, em janeiro de 1933, o presidente Hindenburg chamou Hitler para chefiar o governo como chanceler. Um mês depois, ocorria o incêndio do Reichstag, e Hitler declarava uma lei de plenos poderes e abolia todos os demais partidos. Ao final do ano, faz eleições de fachada e o partido nazista obtém 92% dos votos. Seis meses mais tarde, em 30 de junho de 1934, massacrou os rivais internos ao partido, da milícia SA, na Noite das Longas Facas, assim como passou a prender e assassinar membros da oposição liberal, socialista e comunista, judeus, homossexuais, maçons, ciganos e toda a oposição. Em agosto, Hindenburg morre, tornando o Führer o único governante.

O fascismo italiano esteve no poder por 23 anos. O nazismo alemão por 12. O primeiro chegou ao poder por um golpe, o segundo, por eleições e, em seguida, por meio de um autogolpe em que adquiriu poderes ditatoriais.

Nascidos das frustrações, da decadência social da pequena-burguesia e das camadas médias após uma guerra devastadora, o nazi-fascismo de Hitler e Mussolini levou a Alemanha e a Itália a uma guerra ainda pior, a que mais matou até hoje em toda a história da humanidade.

A frente única antifacsista

Os textos que compõem o livro Como esmagar o fascismo foram escritos por um dos líderes da revolução russa, Leon Trotsky, banido de seu país e exilado na Turquia, na ilha de Prinkipo, enquanto ocorria o processo de crescimento do nazi-fascismo.

Ele critica a política desenvolvida pelo Partido Comunista alemão, o KPD, seguidor da linha de Moscou, que levava, na opinião dele, a uma derrota. A sua tese mais retomada ao longo dos textos de diferentes momentos é a de que foi a recusa da frente única com o Partido Social Democrata por parte dos comunistas que levou o nazismo a crescer. A estratégia que ele insiste em defender é a da frente única.

O objetivo mais característico de todos os movimentos nazifascistas desse período era o de buscar a destruição de todas as formas de organização partidária, sindical e social independente. Como escreve Trotsky, citando o italiano Ercoli: “a essência e a função do fascismo consistem em abolir completamente as organizações operárias e em impedir o seu restabelecimento”.

Para isso, outro traço comum é, já antes da chegada ao poder, desenvolverem milícias paramilitares como força de intimidação. Só quando chegam ao governo que passam a controlar diretamente as forças armadas. No caso alemão, a milícia da SA (Sturmabteilung “Destacamento Tempestade“), que ajudou na tomada do poder por Hitler, foi depois, em 1934, descabeçada com o massacre dos seus dirigentes.

O setor social que se constitui como base inicial da adesão a tais movimentos foi o da pequena-burguesia, especialmente desmoralizada após as crises econômicas que destruíram a Alemanha no primeiro pós-guerra, e setores desempregados e empobrecidos das classes média.

Neofascismo hoje

O surgimento desses movimentos políticos que destroem os movimentos sociais, sindicatos e as instituições da democracia liberal, como partidos, eleições e parlamento, impondo um sistema de partido único com elementos militarizados foi o resultado direto da pior crise e da mais sangrenta guerra vivida em muitos séculos na Europa e no mundo. A escolha de objetos de ódio como bodes expiatórios também é sempre um meio de criar uma tensão agressiva e discriminatória na sociedade.

Hoje em dia, vivemos em escala mundial os efeitos da última crise econômica e financeira de 2008, que aumentaram a desigualdade mundial e se agravaram pelas guerras do Iraque e da Síria, que causaram uma crise social de imigração. O fracasso dos partidos socialdemocratas na Europa, que executaram os mesmos planos de austeridade da direita e a fraqueza das propostas socialistas mais radicais de solidariedade internacionalista, ajudam a compreender o crescimento de uma onda neofascista europeia que reabilita parte do legado da época da segunda guerra. É reciclado o programa de racismo, xenofobia, militarismo e repressão aos movimentos sociais com novos partidos que obtém maior influência na Hungria, Polônia, Itália, Rússia, Ucrânia e até mesmo na Suécia. A eleição de Trump, nos Estados Unidos, também aumenta a conexão da chamada “direita alternativa” que ganha um enorme papel em seu governo.

No Brasil, os movimentos verde-amarelos que fizeram demonstrações de massa pelo impeachment de Dilma Roussef conviveram com pequenos grupos de militância neofascista, fundamentalista religiosa e até de velhos integralistas ou mesmo monarquistas. Nas eleições de 2018, pequenos partidos inexpressivos até então, como o PSL, elegeram grandes bancadas e ganharam governos de estado. O seu maior representante, Jair Bolsonaro, ganhou as eleições presidenciais.

Se é apenas o velho conservadorismo de uma burguesia escravista que retoma ascendência sobre o povo por meio de candidatos populistas militares que defendem o autoritarismo ou se há o surgimento de uma nova formação política de tipo fascista explícito ainda é uma questão em aberto.

O período entre-guerras do nascimento do nazi-fascismo clássico é muito diferente dos tempos atuais. O conflito inter-imperialista e o belicismo chauvinista que conduziram à guerra não se encontram agora. O ultraliberalismo austericida se tornou uma política global para aumentar a extração de rendas à custa de maior desigaldade, miséria e rebaixamento salarial. O parentesco ideológico do neofascismo global continua, entretanto, com suas afinidades supremacistas brancas, de machismo militarista, de pregação do extermínio de adversários e de grupos sociais estigmatizados e de defesa do privatismo contra qualquer tipo de reforma social distributivista ou compensatória.

Estudar a gênese do nazi-fascismo é indispensável para se compreender seu significado histórico, seu destino catastrófico na Europa e as suas reciclagens atuais, que é a única forma de se poder combatê-lo. As políticas adotadas pela esquerda, para Trotsky, foram errôneas na década de 1930 e tornaram mais difícil a luta contra a ascensão fascista.

O neofascismo contemporâneo dependerá para sua disputa pelo poder não apenas da credulidade das massas e da violência de suas ações, mas das respostas que os movimentos sociais darão ao seu crescimento, sobretudo quando ele chega a governar ganhando maiorias eleitorais.

*Henrique Carneiro é historiador. Este texto é o prefácio do livro Como esmagar o fascismo, lançado dia 2 de novembro pela Autonomia Literária.
LE MONDE DIPLOMATIQUE

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Segredos e mentiras


O sigilo absoluto das reuniões da maçonaria serviu de pretexto para os ataques feitos por uma Igreja Católica conservadora

Françoise Jean de Oliveira Souza

“Cumpre, antes de mais nada, rasgar as falsas vestiduras com que se adornam os maçons e mostrar o que eles são”. A frase do papa Leão XIII (1879-1903) reflete bem o antagonismo que se estabeleceu entre a Igreja Católica e a maçonaria mundial ao longo do século XIX e no início do XX. Repudiados pelo catolicismo, os maçons foram duramente acusados de crimes como transgressão das leis, conspiração e satanismo. Diante do crescimento das idéias liberais, a Igreja via ameaçada a sua presença no mundo ocidental. O pensamento conservador católico lançou-se então, violentamente, contra seus principais inimigos, numa tentativa de “barrar o carro da revolução”, como se dizia na época.

As transformações políticas ocorridas depois da Revolução Francesa, que puseram à prova as bases do absolutismo em fins do século XVIII, levaram a Igreja a combater ferozmente movimentos considerados revolucionários, como os liberais, comunistas, anarquistas, progressistas e outras tendências políticas. A maçonaria foi uma das práticas consideradas ameaçadoras pela Igreja. Mas por que os maçons estavam na lista de inimigos da Igreja?

A maçonaria tem origem em corporações de ofício medievais, compostas por trabalhadores especializados na arte da construção. Devido à natureza itinerante de sua atividade, eles não se prendiam a nenhum feudo, tendo o privilégio da livre circulação. Com isso, surge a expressão “pedreiros-livres”, ou “francos-maçons”. Só a partir do século XVI a maçonaria passa a admitir membros de outras classes de trabalhadores.

Os setores mais conservadores da Igreja eram contrários às idéias liberais difundidas pela maçonaria. Insistindo na defesa de valores tradicionais absolutistas, o conservadorismo católico rejeitava a liberdade de pensamento e de culto, a igualdade de direitos, o individualismo e o racionalismo.



A ordem maçônica se desenvolveu em harmonia com os novos espaços e valores modernos, nos quais os indivíduos tinham liberdade para expor suas idéias e debatê-las dentro das novas regras constitucionais. O caráter fechado dessas sociedades, que cultivavam em estrito sigilo as práticas e os rituais realizados dentro dos templos, fez da Maçonaria um dos primeiros espaços privados sobre os quais a jurisdição da Igreja Católica não podia atuar, o que certamente representava uma afronta ao poder do papa. A Igreja Católica via na ordem maçônica uma ameaça à salvação das almas daqueles que conviviam com a promiscuidade das seitas pagãs e um perigo para os Estados monarquistas absolutistas.

Durante o século XIX, a preocupação com os maçons se torna mais visível. Nessa época, aumenta a quantidade de documentos oficiais da Igreja que condenavam essa sociedade: de 1738 a 1840 foram publicados 14 documentos papais; entre 1846 e 1903, esse número subiu para 201. Mas o momento máximo de radicalização do conservadorismo católico ocorreu em 1864, quando o papa Pio IX redigiu a encíclica Quanta Cura. Nesta espécie de carta circular da Igreja, ele condena os “erros modernos”, entre os quais destaca a maçonaria. Diante da reestruturação da sociedade em moldes liberais, a Igreja insiste numa postura inflexível e procura defender sua doutrina a todo custo.

A partir da segunda metade do século XIX, os planos conservadores também ganharam força no clero brasileiro, quando se inicia um processo de reorganização interna da Igreja no Brasil conhecido por “romanização”. Este procedimento buscava excluir da Igreja os elementos influenciados pelas idéias modernas e defendia a supremacia do poder do papa. Além disso, os planos conservadores visavam proteger a estrutura familiar patriarcal, a cidadania associada ao catolicismo, e combater tentativas de implantação de uma educação laica. 

Além da fragilidade, da ingenuidade e do exagero dos argumentos apresentados pelas idéias conservadoras, havia ainda aspectos históricos e culturais da sociedade brasileira, fortemente marcada pelo sincretismo religioso. A Igreja Católica, por exemplo, também não conseguiu manter afastados outros oponentes, como as religiões afro-brasileiras, o espiritismo e o protestantismo. Neste sentido, pode-se dizer que esse discurso conservador fracassou.

Mas, em compensação, o argumento católico foi vitorioso na construção de um conjunto de representações simbólicas referentes à instituição maçônica. Grande parte da população brasileira não teria receio de definir a maçonaria como uma sociedade marcada pelas práticas ocultistas, realizadora de rituais macabros, e que a todo o momento está conspirando contra algo.
Para firmar negativamente a maçonaria na imaginação coletiva, o mito do complô maçônico foi o principal instrumento dos pensadores católicos pertencentes à ala conservadora. Foi comum, por exemplo, a aproximação da maçonaria ao judaísmo. A maçonaria foi associada ao estereótipo do judeu traidor e obcecado pelo desejo de dominar o mundo. Dessa associação surgiu a crença de que a maçonaria era um instrumento dos judeus para se infiltrarem em vários países, segmentos sociais, instituições e até mesmo no interior da Igreja, onde “o chefe israelita da “franco-maçonaria” seria conduzido ao papado.

Elaborada na Europa no fim do século XIX, a idéia do complô maçônico influenciou vários autores brasileiros, sendo que cada um montou, à sua maneira, diferentes versões para esse mito. Dom Vital, bispo de Olinda entre 1872 e 1878, escreveu em uma de suas instruções pastorais que previa uma conspiração maçônica com a intenção de aniquilar a religião católica e o cristianismo para, num segundo momento, eliminar todas as monarquias e implantar a república universal.

Segundo o bispo, os maçons penetrariam no meio católico, aproveitando-se do clero mais jovem para difundir as idéias liberais, até conseguirem a cooptação do papa. Da mesma forma, ao pregar no Brasil o ensino laico, sem influência de qualquer religião, a maçonaria visava atingir a juventude para formar uma geração materialista e que apoiaria a segunda etapa do plano: o fim da monarquia.

No século XX, é possível perceber a permanência do mito do complô entre os intelectuais católicos brasileiros. Gustavo Barroso foi um dos seus maiores divulgadores ao traduzir para o português “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, obra de autoria desconhecida que denunciava um plano judaico-maçônico de dominação mundial. Dizia Barroso que a maçonaria teria se colocado a serviço do judaísmo para que este, por meio de seus membros, articulasse a Revolução Francesa, considerada a etapa inicial da ascensão dos judeus ao poder. E completava dizendo que o passo seguinte seria a revolução socialista, também articulada pela maçonaria, que assim ganharia a confiança das massas proletárias. O último passo seria o domínio universal de Israel.



Gustavo Barroso também via um plano maçônico específico para o Brasil. Segundo ele, os principais acontecimentos da história brasileira podiam ser explicados como resultado das ações conspiratórias maçônicas. Utilizando-se da filantropia, por exemplo, a maçonaria teria apoiado o movimento de libertação dos escravos, não com intenções nobres, mas visando provocar a queda da monarquia. Aliás, dos primeiros movimentos de libertação até a proclamação da República, a maçonaria teria agido sempre de maneira oculta.

A Igreja encontrou na maçonaria características que permitiram transformá-la em um verdadeiro “bode expiatório”, responsabilizando-a por todos os males. Na verdade, o medo da maçonaria significava insegurança frente ao estabelecimento da sociedade burguesa, que trazia consigo novas estruturas sociais, valores e formas de organização política aos quais a Igreja já não conseguia impor sua influência com a mesma intensidade de antes.

Outro ponto forte do discurso antimaçônico se refere à associação direta da instituição ao satanismo. Sustentar esta acusação não foi tarefa difícil, já que a simbologia maçônica, com sua influência egípcia e cabalística, além de seus incompreensíveis rituais e cerimônias de iniciação, alimentavam essas associações. Muitas versões foram desenvolvidas pelos católicos para explicar a origem satânica dos maçons.

Na primeira das versões, conta-se que, após o surgimento das corporações dos pedreiros-livres, o diabo teria delas se apoderado. Em seguida, misturou à maçonaria todos os pecados que havia feito brotar na Terra e a transformou na “seita tenebrosa”, uma verdadeira síntese de todas as heresias.


Numa segunda versão elaborada pelos ideólogos católicos, a maçonaria descenderia dos templários, da cabala, do protestantismo ou do gnosticismo, uma espécie de método que procura conciliar todas as religiões por meio do conhecimento. Independentemente da versão que narra as suas origens, a maçonaria estava sempre associada à idéia de pecado e erro.

A terceira associação freqüentemente feita à maçonaria refere-se ao seu caráter revolucionário. Para Dom Vital, a maçonaria seria a “revolução em permanência”, e de seus “antros” teriam saído os principais líderes da “nefasta” Revolução Francesa. Os católicos conservadores, já preocupados com o crescimento do movimento operário, também associaram o discurso maçônico de igualdade e fraternidade universal às idéias anarquistas e comunistas, acusando a maçonaria de querer formar uma sociedade sem distinção de classes e de pátria. Tal situação seria desejada pelos maçons, porque desta maneira o povo ficaria completamente sem governo, permanecendo na anarquia e em situação ideal para que satanás criasse seu “trono imperial”.

FRANÇOISE JEAN É DOUTORANDA EM HISTÓRIA PELA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO (UERJ) E AUTORA DA DISSERTAÇÃO “VOZES MAÇÔNICAS NA PROVÍNCIA MINEIRA 1868-1889”. UFMG, 2004.
Revista de História da Biblioteca Nacional

domingo, 30 de setembro de 2018

Bonaparte na cabeça


O imperador ainda é referência na política e na cultura

Vivi Fernandes de Lima

Um louco encontra um colega nos corredores do hospício e fala: “Eu sou Napoleão!” O outro fica indignado: “O quê? Quem te disse isso?” A resposta é ainda mais ousada: “Deus”. O outro estranha: “Eu?” Esta é uma das piadas que circulam em conversas bem-humoradas que têm o imperador francês como personagem, tocando numa característica marcante dos relatos sobre sua personalidade: a mania de grandeza. Só mesmo Deus seria capaz de dizer algo superior ao general. Essa mesma megalomania pode ser o que associa a imagem de Napoleão à loucura. Em 2001, no longa-metragem de ficção “As novas roupas do imperador”, de Alan Taylor, o próprio general desiste de informar sua identidade quando descobre um manicômio onde todos os internos dizem ser Napoleão Bonaparte e ostentam, inclusive, o mesmo tipo de chapéu de sua farda.

No Brasil, não é só nas piadas que o personagem histórico está presente. A lista telefônica indica a existência de mais de dois mil Napoleões que vivem no Brasil. O consultor de informática e professor Napoleão Verardi, paulistano, 54 anos, é um deles. A escolha de seu nome foi uma homenagem ao avô materno, que era italiano. “Mas eu não botaria esse nome nos meus filhos. Ele carrega um peso muito grande. Não dá pra passar despercebido”, diz Verardi, habituado a ouvir brincadeiras como “qual a cor do seu cavalo branco?” ou “foi assim que Napoleão perdeu a guerra”. 

O administrador Napoleão Roque, baiano, 58 anos, também não acha mais graça nessas piadas. No trabalho, quando atende o telefone, já indica que não é muito chegado a seu primeiro nome. Ele atende: “Alô, Roque falando”, omitindo o Napoleão. “Eu não suporto meu nome. É muito forte, não combina comigo. Sou uma pessoa tranquila”, diz ele, que foi batizado em homenagem ao bisavô. Se ele odeia se chamar Napoleão, imagine se também fosse Bonaparte? A resposta vem sem hesitação, em bom baianês: “Ave Maria! Eu ia pedir pra morrer!”

Mas nem todos pensam assim. Napoleão Bonaparte Gomes é oficial da Marinha aposentado e adora seu nome. “Acho que talvez isso tenha me influenciado a seguir a carreira militar. É uma grande honra ser homônimo do imperador francês, porque ele é um exemplo a ser seguido”, diz Gomes, que alcançou o posto de vice-almirante da Armada. 

Já a fisioterapeuta carioca Daniela, 35 anos, tem o nome do imperador no sobrenome. Ela gosta tanto que o repetiu na certidão de suas duas filhas. “É um tipo de marketing. Quando apresentamos nosso nome, todo mundo lembra”, diz Daniela, orgulhosa. Aliás, segundo ela, a família inteira gosta muito do nome. “Eu tinha até um tio que se chamava Waterloo”, lembra, achando graça na referência à batalha que pôs fim à carreira vitoriosa do líder dos franceses.

Não é só nas certidões de nascimento que Napoleão está presente no Brasil. Volta e meia, programas de TV, grafiteiros e até escolas de samba relembram o imperador francês. A autora de telenovelas Janete Clair (1925-1983) chegou a criar em “Rosa Rebelde” (1969) uma trama em torno do exército do general. Em 2008, a escola de samba Imperatriz Leopoldinense desfilou na Marquês de Sapucaí cantando “Ou ficam todos/Ou todos se vão/Embarcar nessa aventura/E au revoir Napoleão”, uma referência à vinda da família real portuguesa para o Brasil. No ano passado, a TV Globo exibiu o especial infanto-juvenil “A princesa e o vagabundo”, cuja trama se baseava nas conquistas napoleônicas: o reino fictício da Landinóvia é invadido pelo exército de Napoleão e a princesa Lili é salva pelo vagabundo Didi, interpretado por Renato Aragão.

Fã do personagem histórico, o sociólogo e crítico literário Antonio Candido de Mello e Souza guarda uma coleção de postais com a imagem de Napoleão e suas batalhas. “Comecei minha coleção em 1929, numa viagem a Paris. Hoje tenho mais de 60 postais. Os italianos são mais raros”, diz ele, contando que alguns são em alto-relevo e mais coloridos, com a notoriedade de especialista no assunto. Quanto ao motivo do interesse por Napoleão, Antonio Candido é enfático: “Ele foi um grande general e dominava a arte militar. Transformou o seu tempo”.

O historiador Modesto Florenzano, da USP, reconhece que ainda há um fascínio pelo general, que já foi bem maior. Segundo ele, nenhum outro personagem histórico encheu tanto o imaginário da população quanto Napoleão no século XIX: “A fama vem de sua genialidade no plano político e militar e também do fato de ele ter saído do nada. Napoleão chegou ao poder pelos próprios méritos, não nasceu em berço de ouro. Isso é inédito. Ele teve uma projeção avassaladora, venceu batalhas espetaculares. Não houve em nenhum rincão da Europa alguém que não soubesse quem era Napoleão. Essa referência foi passada de pai para filho e chegou ao Brasil”. 

Para Florenzano, a popularidade de Napoleão pode ser comparada à de nomes como Carlos Magno. A força de sua imagem começou a diminuir na Revolução Russa: “Na Primeira Guerra Mundial, outros líderes começaram a aparecer, como Lênin, Stalin, Trotski e Mussolini”. Apesar de ter a atenção dividida com outras personalidades, a memória de Napoleão é bastante presente, sempre com imponência. Para se ter uma ideia, seus restos mortais, guardados no Hotel dos Inválidos, em Paris, foram colocados de modo que o visitante tenha que se abaixar para ver o túmulo, ficando obrigatoriamente em postura de reverência. “Eu duvido que alguém adepto da esquerda política vá visitar o túmulo de Mussolini, por exemplo. Mas o túmulo de Napoleão recebe visitantes de esquerda e de direita”, exemplifica Florenzano.

A mesma idolatria chegou a outros cantos do mundo. Na Eslovênia, há um monumento em homenagem ao general. Em Havana, Cuba, existe o Museu Napoleônico, que abriga objetos pessoais do imperador. Em Nova Orleans, nos Estados Unidos, a Napoleon House é uma das atrações turísticas do centro histórico da cidade. Conta a lenda que a casa iria abrigar o imperador depois de executado um plano de fuga na época em que ele estava exilado na ilha de Santa Helena. A história se encaixaria bem com o plano da passagem de Napoleão por Pernambuco em 1817, já que, depois de desembarcar no Recife, ele iria seguir para os EUA [ver artigo “A besta e o mito”, pág. 26]. Mas estudos comprovam que a casa foi construída depois da morte de Napoleão.

No cinema, a vida do general ou suas conquistas são retratadas em diversos filmes. O maior banco de dados de produção audiovisual da Internet, The Internet Movie Database, registra mais de 70 títulos de filmes com o nome Napoleão. Se forem somadas as séries de TV, esse total passa dos 100. Mesmo assim, as criações em torno do famoso general parecem não ter fim. Este ano, será lançado o filme “Betsy and the emperor” (ainda sem título em português) – baseado no livro infantil de Staton Rabin – com o ator Al Pacino interpretando o imperador no período do exílio.

Outro roteiro cinematográfico, desta vez brasileiro, pretende chegar às telas mostrando um ponto de vista diferente para o período em que Napoleão esteve preso. O cineasta Germano Coelho está trabalhando no projeto do filme “1817”, que irá tratar da Revolução Pernambucana, quando foi articulada a passagem de Napoleão pelo país. Para o pesquisador e jornalista Leonardo Dantas, o episódio é tão pouco conhecido quanto a própria Revolução de 1817. “Mas não tem nada de imaginário, é real”. O historiador Oldimar Cardoso, da USP, já foi ao Arquivo Estadual do Recife em busca das correspondências que comprovem a articulação deste plano, mas não as encontrou. Essas comunicações já foram descritas no livro Aventuras e aventureiros no Brasil (1929), de Alfredo de Carvalho. “O problema é que o arquivo é muito desorganizado. São pilhas de documentos que os pesquisadores não sabem nem por onde começar o trabalho. Dizem que as cartas estão lá. O difícil é achá-las”, conta Oldimar.

Enquanto pesquisadores procuram relatos que comprovem o plano de fuga, a população parece estar mais interessada na ficção, inventando e recriando piadas a cada dia em torno do imperador dos franceses. O imaginário é tamanho que a fama de loucos brasileiros que se apresentam como Napoleão, ao que parece, é um mito. O psiquiatra e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz Marco Aurélio Soares Jorge, esclarece: “Um esquizofrênico pode ter delírios a ponto de achar que é a reencarnação de uma pessoa famosa. Mas, normalmente, esse delírio está mais próximo da cultura dessa pessoa. Em 30 anos de profissão, nunca tive nenhum paciente que achasse que era Napoleão. O brasileiro delira que é o presidente da República, Jesus e até Xuxa”. Mas os piadistas não ligam para a realidade. Parece que com Napoleão as anedotas ficam melhores.

Saiba Mais - Internet

SILVA, Leonardo Dantas. “A fracassada fuga de Napoleão para o Brasil”.
Revista Algo Mais
Revista de História da Biblioteca Nacional

O imperador e o monstro


Mesmo retratado como anticristo, Napoleão conquistou D. Pedro e a população brasileira

Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves

Terra corrompida, mentira, impiedade, cauda de pavão, unha de tigre ensanguentada, coração de um corso e cabeça de raposa: estes são ingredientes da Receita especial para fabricar Napoleões, um soneto publicado em folheto que circulou no Rio de Janeiro em 1809. Os dois tercetos ensinam o preparo da “iguaria”:

“Tudo isto bem cozido em lento fogo
De exterior fagueiro, meigo e brando,
Atrevida ambição lhes lances rogo:

Deixa que se vá tudo incorporando,
E assim mui presto espera; porque logo
Sai um Napoleão dali voando”.

Folhetos como esse – impressos em Portugal ou aqui reimpressos – eram anunciados por livreiros na Gazeta do Rio de Janeiro. Títulos como Besta de Sete Cabeças e Dez Cornos ou Napoleão, Imperador dos franceses já indicavam a que se propunham as publicações: combater Bonaparte. Tanto pelo preço baixo como pelo pequeno número de páginas, os panfletos eram publicações mais acessíveis para a divulgação das ideias e tiveram maior circulação que os jornais. Incapazes de ler, as camadas mais humildes da sociedade podiam escutar a leitura em voz alta, assimilando as informações pelo filtro de sua imaginação.

Centenas de publicações – além de panfletos, havia páginas de pequenas histórias e anedotas – traduziram os momentos difíceis vividos pelo mundo luso-brasileiro. Portugal sofria com a ausência do soberano e a guerra de ocupação em seu território [Ver artigo “Anos de terror”, pág. 22]. Mesmo o Brasil, agora cenário da Corte portuguesa, do qual deviam emanar os novos atos administrativos do Império português, vivenciou momentos difíceis na ordem política e econômica. Os escritos chegaram a atingir o número de mais de três mil, em Portugal, entre 1808 e 1814. 

No Rio de Janeiro, os livreiros anunciavam “obras novas”, que reduziam Bonaparte a um usurpador e exterminador de envergadura medíocre, dono de um caráter feroz e sanguinário, cuja carreira fora mesclada de crimes sórdidos. Nessa literatura, a religião era usada para atingir um público mais amplo, divulgando as críticas ao regime francês por meio do antigo costume de parodiar formas religiosas. Um exemplo é Sinal da Cruz, de autor desconhecido, que circulou pelas ruas de Lisboa e do Rio de Janeiro: 

“Conheces o Jinó?
Eu nunca cheguei a ver.
Pois é bom de conhecer
Pelo sinal.
Da França é general,
É um impostor, usuário,
E, também adversário
Da Santa Cruz.
Santo nome de Jesus!
Não há quem dele dê cabo?
De semelhante diabo
Livre-nos Deus.”

Eram também comuns as cartas fictícias aos amigos ou da mãe do imperador, Letícia, dirigida ao filho. Era uma paródia em que Letícia se considerava a “mulher mais desgraçada”, por ter nutrido em suas entranhas um monstro a que todos maldiziam. Esses folhetos também exaltavam o heroísmo português e a virtude britânica.

Em todos esses escritos, há muitas informações forjadas. Monstros e demônios, conspirações e medos foram elaborados recuperando os símbolos e os valores que opunham o bem ao mal. Nesse caso, o mal era representado pelo “monstro do Universo” – Napoleão, o “herói que a Córsega vomitou sobre a face da Europa na força de seu furor”. O herói-deus, o bem, é o que consegue vencer Bonaparte, ainda que temporariamente. É quando aparece a imagem de D. João. Este era o “Príncipe virtuoso, amigo da Igreja e de seus Ministros”.
Esse imaginário escatológico tomava o próprio Bonaparte como símbolo atualizado do mal, considerando-o até o próprio anticristo. Assim, “o dragão e a besta do Apocalipse” consistiam “em Napoleão Bonaparte e no Império francês”. O imperador dos franceses encarnava a besta que saía do mar. Sobre seus cornos havia dez coroas, que simbolizavam o poder exercido por ele na Europa. 

Impregnada por essas imagens, a Corte portuguesa, no Rio de Janeiro, tomava atitudes práticas contra qualquer suspeita de adesão às ideias francesas. Ainda em 1º de maio de 1808, lançou o Manifesto ou exposição justificativa do procedimento da Corte de Portugal a respeito da França. O documento anunciava o rompimento de “toda a comunicação com a França”, autorizando os súditos portugueses “a fazer a guerra por terra e mar aos vassalos do Imperador dos Franceses”. Além disso, a Intendência da Polícia passou a acompanhar os estrangeiros. Vigiava também os súditos do Reino, como Domingos Borges de Barros, denunciado e preso como suspeito de vir da França, por via dos Estados Unidos, em companhia de um espanhol, que podia bem ser “um emissário de Bonaparte”.

Apesar de toda essa repressão, o fascínio que Napoleão Bonaparte exerceu em sua época contaminou os brasileiros. Um fato curioso ocorreu no Recife em 1817, quando o imperador dos franceses já estava preso na ilha de Santa Helena. Tratava-se de uma hipotética conspiração, que tinha como finalidade trazer Napoleão para o Brasil. Antigos oficiais do Exército francês teriam mantido contato com o comerciante Antônio Gonçalves da Cruz, o “Cabugá”, enviado aos Estados Unidos como representante dos rebeldes pernambucanos de 1817 para obter o apoio da república do Norte. 

Previa-se o desembarque de alguns franceses no Nordeste brasileiro para contatar o governo revolucionário de Pernambuco e organizar uma expedição que, saindo de Fernando de Noronha, iria a Santa Helena. Apesar de “misteriosa e suspeita”, essa conspiração apresenta algumas pistas documentais, como a comprovação do desembarque de quatro franceses, em fins de 1817, no litoral do Nordeste. Um deles chegou a informar ao governador do Recife que seu objetivo era conseguir apoio do governo de Pernambuco para uma expedição que iria evadir o ex-imperador do exílio. Havia ainda uma série de proclamações anônimas, mencionadas pela historiografia francesa, que circularam principalmente na região parisiense, em 1817, entre as camadas populares. Esses escritos afirmavam que insurretos sul-americanos iriam resgatar Bonaparte. 

Outro documento, localizado junto ao Gabinete de D. João, faz ainda referência a uma petição de Luciano Bonaparte, em janeiro do mesmo ano, para ir aos Estados Unidos. O pedido de passaporte ao cardeal Secretário de Estado de Roma – onde Luciano residia – justificava-se por ter que transportar seu filho, que iria se casar com a filha de seu irmão José, já estabelecido na América. Houve toda uma preocupação das quatro potências – Inglaterra, Áustria, Rússia e Prússia – que derrotaram Napoleão em negar o visto. 

O representante português em Roma ficou preocupado por ser uma petição “muito suspeitosa”. Primeiro, pelo risco de pregação da independência e separação da metrópole na América ibérica; segundo, pela oportunidade de haver uma reunião de toda a família Bonaparte. Seriam rumores do Antigo Regime ou notícias com um fundo de verdade? Sem dúvida, é possível deduzir, pelo menos, que agentes bonapartistas estiveram no Brasil e que a ideia mais provável era a de levar Bonaparte para os Estados Unidos, onde seu irmão José já se encontrava. [Veja infográfico na página 30]

Outra presença napoleônica em terras brasileiras foi o conde Dirk van Hogendorp, general holandês que se alistou nas tropas francesas e foi ajudante de campo do imperador. Francês por adoção, emigrou para o Brasil em 1816. Sobre sua estada no Rio de Janeiro, há alguns registros de estrangeiros que iam procurá-lo atraídos pela fama de suas aventuras e de sua fidelidade ao soberano deposto. A arquiduquesa Leopoldina e o próprio D. Pedro também o visitavam. Este também tinha afeição por ele, chegando a conceder-lhe uma pensão. Quando soube de sua morte (sem receber a quantia de cem mil francos que Napoleão lhe deixara em testamento), ordenou o pagamento de seu funeral. Por trás dessa figura singular, talvez existisse o mito de Napoleão, que fascinara também o jovem imperador do Brasil.

Para muitos contemporâneos da coroação de D. Pedro, em 1º de dezembro de 1822, como o barão de Mareschal, a cerimônia fora copiada da coroação de Napoleão Bonaparte. Outra possível influência do general francês nas ações de D. Pedro foi a criação da Ordem Imperial do Cruzeiro, que conferia privilégios, tanto sociais como legais, e servia de expediente para “remunerar os serviços” dos cidadãos mais ilustres. Bonaparte, logo após ser proclamado cônsul vitalício em 1802, criou uma organização semelhante, a Legião de Honra, que simbolizava uma milícia do regime. Era uma ordem que poderia ser concedida a todos os cidadãos que se destacassem por seus serviços à nação – a maior condecoração nacional daquela época. Mas D. Pedro I ia além, pois fazia da Ordem Imperial um meio de distinção social, refazendo a nobreza.

Como se vê, no período das invasões francesas na Europa houve vários e diferentes relatos sobre Napoleão e a França Imperial, comuns nos períodos de crise política. Mesmo romanceadas pela posteridade, as representações “do herói do século XIX” apontam para o fascínio que Bonaparte exerceu em sua época.

Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves é professora titular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e autora de Napoleão Bonaparte: imaginário e política em Portugal (c.1808-1810) (Alameda, 2008) e “Imagens de Napoleão Bonaparte na ótica dos impressos luso-brasileiros”. In: Eliana F. Dutra & Jean-Yves Mollier (orgs.). Política, Nação e Edição. O lugar dos impressos na construção da vida política. (AnnaBlume, 2006).


Saiba Mais - Bibliografia

GALLO, Max. Napoleão. Niterói: Casa Jorge Editorial, 2003.

GRIECO, Donatello. Napoleão e o Brasil. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1955.

LENTZ, Thierry. Napoleão. São Paulo: Editora Unesp, 2008.

TULARD, Jean. Napoleão. O mito do Salvador. Niterói: Casa Jorge Editorial, 1996.
Revista de História da Biblioteca Nacional

Mitos de além-túm


Entre acusações de manipulador e assassino do idealismo republicano, as controvérsias sobre o imperador francês perpassam sua morte

Raquel Stoiani


Caricatura alemã representando a carreira de Napoleão, da infância à derrota em Waterloo e ao exílio. Na "Lenda Napoleônica", ele foi transformado em um mártir que morreu solitário em Santa Helena.Uma preocupação constante de Napoleão Bonaparte foi a construção de sua imagem pública. Enquanto esteve no poder (1799-1815), ele estruturou uma complexa máquina de propaganda. Do homem da paz ao deus da guerra, do herói revolucionário à vítima dos contrarrevolucionários, comparando-se a Carlos Magno ou a Aníbal, modificava sua figura pública de acordo com as necessidades do momento. Seus opositores, por sua vez, buscaram desfigurá-lo com o mesmo empenho.

O famoso escritor romântico François René Auguste de Chateaubriand (1768-1848) foi um dos principais críticos da tirania imperial. A obra De Buonaparte et des Bourbons (1814), publicada logo após a primeira abdicação do imperador (1814), traz o retrato mais repulsivo de Napoleão: o destruidor, o estrangeiro de origem corsa indiferente à França, o devorador de gerações de jovens, o supressor de toda livre opinião, enfim, o tirano. Madame de Staël (1766-1817), escritora e dona de um famoso salão literário em Paris, também foi juíza severa do regime napoleônico. Nas Considérations sur la Révolution Française (1818), sua principal acusação a Bonaparte é a de assassino do idealismo republicano. Napoleão inicia um governo que se torna cada vez mais autocrático e abandona o ideal republicano em prol de uma monarquia, o império. É retratado como um egoísta manipulador dos homens, sem fé ou pátria, que não teria outro propósito além de sua própria grandeza.

Panfletos, charges e vários outros escritos, surgidos, em sua maioria, na Inglaterra – cabeça das coalizões contra a França –, fizeram circular pela Europa afora essas imagens negativas. Um exemplo é a caricatura “La Grande Procession de Couronnement de Napoléon Ier” (1805), do inglês Gillray, um de seus mais célebres trabalhos subvencionados pelo governo britânico. Trata-se de uma paródia do imenso quadro de David da teatral e suntuosa cerimônia de coroação de Napoleão em Notre-Dame. Nela, o cortejo imperial é representado de forma grotesca. O imperador aparece vestido como um rei de ópera bufa; Josefina, sua esposa, aparece obesa e deformada; o papa Pio VII, abatido e amedrontado, e os representantes das potências europeias, que ajudam a carregar o manto imperial, malvestidos e mal penteados, parecendo se curvar ao imperador mais por um problema de coluna do que por um respeito verdadeiro.

E além: com a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, a má fama de Napoleão desembarcou nos trópicos. Afinal, D. João deixou Portugal escapando dos invasores franceses. Na Gazeta do Rio de Janeiro (1808-1822), primeiro periódico da América portuguesa, o príncipe regente fez circular o discurso e as imagens antinapoleônicas. Um levantamento estatístico das palavras mais utilizadas no jornal para se referir a Bonaparte indica os termos “tirano”, “usurpador” e “corso”. Recebia ainda outras caracterizações nada lisonjeiras, como louco, megalomaníaco ou o próprio anticristo. Enfim, era a soma de todos os males, uma ameaça que parecia estar à espreita e precisava ser combatida. O que se explica não apenas pelo trauma da invasão a Portugal: a intensa propaganda antinapoleônica atendia aos interesses do governo de D. João, justificando uma série de medidas de vigilância na nova sede do Império.

Após a morte de Napoleão, o livro Mémorial de Sainte-Helène (1823), de Emmanuel de Las Cases (1766-1842), teve imensa influência na França. O autor reúne uma série de anotações de conversas com o imperador, a quem acompanhara em seu último exílio. Começava a surgir a chamada “Lenda Napoleônica”, enriquecida ao longo do século XIX por poetas e novelistas comovidos com o trágico destino de Bonaparte. Ele passou a ser visto por muitos como um mártir mantido preso pelos vingativos reis europeus na distante ilha de Santa Helena, próxima à costa ocidental da África, onde morrera solitário. Las Cases descreve um Napoleão que passa a limpo sua carreira e se defende das acusações dos inimigos. Ali ele aparece como o filho da Revolução Francesa, o homem que consolidou a posse da igualdade de direitos, que tornou possível a saída da França do feudalismo, glorificando-a com suas vitórias; que arrancou à força a paz dos monarcas que odiavam a nação revolucionária e que se viu forçado a conquistar a Europa em legítima defesa.

Bom exemplo da influência da Lenda Napoleônica na historiografia é a Histoire du Consulat et de l’Empire (1845-1862), em que Adolphe Thiers (1797-1877) [ver box] demonstra admiração e afeição pelo imperador, aplaudido como o inimigo implacável do imperialismo inglês, o consolidador da Revolução em casa e seu promotor no exterior. Aquele que amou a França e primou pela honra, pelo poder e pelos interesses da nação.

Por volta de 1860, os ataques à Lenda Napoleônica ganharam força no campo da oposição ao governo de Napoleão III (1852-1870), que tinha como um dos seus pilares justamente a veneração ao falecido tio. Em Les Origines de la France Contemporaine (1890), o historiador Hippolyte Taine (1828-1893) exemplifica bem essa ofensiva contra a Lenda Napoleônica. Seu retrato do general-imperador causou sensação ao revelá-lo como uma criatura destituída de humanidade, brutal, cruel, sedenta de conquistas, um malfazejo demônio de origem estrangeira deixado solto na França e na Europa. Para Taine, as paixões violentas o levaram a cometer erros graves e a jamais considerar os interesses da França, que ele arrastou pouco a pouco para o abismo, como faria seu sobrinho. Mas nem esse perfil arrasador impediu o historiador de reconhecer méritos no período napoleônico. Segundo ele, a França devia a Napoleão a restauração da ordem institucional, uma modelar máquina burocrática e o estímulo do princípio da oportunidade para todos (a carreira aberta ao mérito e não condicionada ao nascimento), embora essas condições tenham sido impostas com mão de ferro e pelo silenciamento da opinião pública.

No início do século XX, Napoleão começa a ser apreciado de forma mais contida, ainda que as paixões continuem após a virada do século que viu o auge e a decadência do imperador. Georges Lefèbvre (1874-1959), em seu Napoléon (1935), enfatiza as realizações positivas do imperador e aprecia a grandeza de sua figura, mas não toma partido e evita julgamentos morais. Seu trabalho passou a ser referência nos estudos sobre Napoleão, ao destacar o imperador como um típico homem racionalista do século XVIII, que detestava o feudalismo, a desigualdade civil e a intolerância religiosa. A proteção dada por Napoleão ao nascente capitalismo francês levou ao progresso desse capitalismo e, consequentemente, ao desenvolvimento da burguesia. Por outro lado, seu estilo autoritário afastava-o dos mesmos ideais revolucionários. Era capaz de consultar os demais, mas nunca de debater ou discutir suas decisões. Em resumo: para Lefèbvre, Napoleão foi o último representante do despotismo esclarecido, ao combinar autoridade e reforma política e social.

No Brasil, os estudos sobre o tema tiveram como marco pioneiro o artigo “Napoleão I no Brasil”, de Ferreira da Costa, na Revista do Instituto Archeologico e Geographico Pernambucano, em 1903. O autor revela uma trama em que se entrecruzam os acontecimentos revolucionários de 1817 em Pernambuco e planos de fuga de Bonaparte da ilha de Santa Helena. De lá para cá, interpretações brasileiras em torno do personagem foram incipientes, mas é interessante observar o retorno do fascínio por Napoleão em análises mais recentes. Exemplo é Napoleão Bonaparte, em que a historiadora Lúcia Maria Bastos Pereira das Neves reconstrói a luta política e ideológica do período por meio de jornais e panfletos políticos.

Tudo indica que o confronto entre as várias interpretações continuará indefinidamente. Diversos Napoleões permanecem flutuando entre a “antiga ordem” e a “nova ordem” – ou entre os valores de antes e depois da Revolução Francesa. Assim como sabia se vender sob variadas facetas, ele se tornou um personagem fluido, cujo esboço não permite contornos definitivos.

A divergência de opiniões sobre Napoleão, que impede que sua figura seja traçada de modo conclusivo, parece ter sido pressagiada no quadro de Jacques-Louis David (1748-1825). Grande nome da pintura neoclássica francesa, David foi um dos principais artistas a auxiliar o imperador em sua política de autoglorificação. O primeiro retrato que o artista fez de Napoleão, enquanto este ainda era general, permaneceu inacabado.

Raquel Stoiani é autora da tese “Napoleão visto pela Luneta d’El Rei: construção e usos políticos do imaginário francês e napoleônico na América portuguesa (ca. 1808-1821)” (USP, 2009).


Saiba Mais - Bibliografia

BERTRAND, Jean-Paul; Forrest, Alan & Jourdan, Annie. Napoléon, le Monde et les Anglais. Guerre de Mots et des Images. Paris: Éditions Autrement, 2004.

GEYL, Pieter. Napoleon For and Against. New Haven/London: Yale University, 1963.
HOLTMAN, Robert. Napoleonic Propaganda. Bâton Rouge: Louisiana State University Press, 1950.
KAFKER, Frank A. & Laux, James M. (ed.). Napoleon and His Times: selected interpretations. Malabar, Flórida: Krieger Publishing Company, 1991.

Saiba Mais - Filmes

“Guerra e Paz”, de King Vidor (1956).
“Monsieur N”, de Antoine de Caunes (2003).
“As Novas Roupas do Imperador”, de Alan Taylor (2001).
“Napoleão”, de Abel Gance (1927).
Revista de História da Biblioteca Nacional

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

HITLER, MUSSOLINI E O PAPA


O silêncio do Vaticano e os sussurros do Duce diante da ascensão do Führer
DAVID I. KERTZER


Em 1933, Hitler criou uma lei demitindo os judeus do serviço público. Informado, o pontífice foi aconselhado a não interferir e se calou. Curiosamente, foi Mussolini, e não Pio XI, que recomendou ao Führer que parasse com a perseguição
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Enquanto Benito Mussolini exibia um busto de Napoleão em seu estúdio, Adolf Hitler, que se tornou chanceler da Alemanha em janeiro de 1933, mantinha, havia muito, um busto de Mussolini no seu. O Duce era, para ele, o exemplo a ser seguido. Pouco depois da cerimônia de posse, Hitler mandou uma mensagem ao italiano: fascismo e nazismo tinham muitas coisas em comum. Ele esperava fortalecer os laços entre a Itália e a Alemanha.

Mussolini gostava da adulação, mas tinha dúvidas sobre seu seguidor. Hitler era “um sonhador”, mais apto para fazer discursos inflamados do que para governar. Já Hermann Göring[1] era um “ex-paciente de manicômio”. Os dois, achava o Duce, sofriam de complexo de inferioridade.

“Hitler é um agitador simpático”, disse o cardeal Eugenio Pacelli,[2]“mas é cedo demais para dizer se é um homem de governo.”

Fazia muito tempo que chefes da Igreja alemã desconfiavam do extremo nacionalismo de Hitler, que para eles beirava o paganismo. Mas o líder nazista, ciente de que um em cada três alemães era católico, estava ansioso para conquistar o apoio do Vaticano. Assim como o Partido Popular católico havia atrapalhado os planos de Mussolini na Itália, o Partido do Centro Católico[3] atrapalhava as aspirações de Hitler na Alemanha. Menos de um mês depois que Hitler assumiu o poder, o embaixador alemão assegurou a Pacelli que o novo chanceler queria manter boas relações com a Santa Sé. Afinal, observou o embaixador, Hitler era católico.

O papa também tinha dúvidas sobre os nazistas. “Com os hitleristas no poder”, perguntou Pio XI na primavera anterior, “o que se pode esperar?” Mas, semanas após a nomeação do novo chanceler, o pontífice começou a vislumbrar alguma esperança. “Mudei de opinião sobre Hitler”, disse ele ao surpreso embaixador francês no começo de março. “É a primeira vez que uma voz de governo se ergue para denunciar o bolchevismo em termos tão categóricos, unindo-se à voz do papa.”

“Aquelas palavras”, recordou o embaixador francês François Charles-Roux, “pronunciadas com voz firme e uma espécie de arrebatamento, me mostraram como o novo chanceler alemão tinha atraído a atenção de Pio XI ao lançar uma declaração de guerra até a morte contra o comunismo.” O enviado da Grã-Bretanha no Vaticano também notou que o pontífice parecia obcecado com a ameaça comunista. Era impossível compreender as ações do papa, afirmou ele, sem levar isso em conta.

A opinião surpreendentemente positiva de Pio XI sobre Hitler produziu consternação e confusão entre os chefes da Igreja alemã. Na campanha para as eleições de março de 1933, os bispos alemães tinham sido unânimes ao denunciar os nazistas e apoiar vigorosamente o Partido do Centro. Em 12 de março, o papa teve um encontro com o cardeal Michael von Faulhaber, arcebispo de Munique, para lhe falar da necessidade de uma mudança de curso. Ao voltar à Alemanha, o arcebispo informou aos colegas: “Meditemos sobre as palavras do Santo Padre, que, num consistório, sem mencionar o seu nome, indicou Adolf Hitler perante o mundo inteiro como o estadista que primeiro, depois do próprio papa, ergueu a voz contra o bolchevismo.” Em 23 de março, o chanceler alemão retribuiu o apoio do papa declarando que as igrejas cristãs eram “os fatores mais importantes de preservação da nossa identidade nacional”. Comprometeu-se a proteger “a influência a que têm direito as confissões cristãs na escola e na educação”. Dois dias depois, falando com o cardeal Pacelli, Pio XI manifestou seu apreço pelo que Hitler dissera, elogiando suas “boas intenções”. No fim do mês, os bispos alemães anunciaram que já não se opunham ao líder nazista.

Em maio, Charles-Roux voltou a comentar a nova opinião positiva do papa sobre Hitler. “O pontífice, impulsivo por natureza e obcecado com sua fobia ao comunismo”, observou o embaixador francês, “permitiu-se um momento de entusiasmo” pelo líder nazista. Cientes da importância do apoio da Igreja, autoridades do governo italiano dividiram com homólogos nazistas suas próprias “receitas” de sucesso para obter a aprovação do Vaticano.

O papa estava ansioso para chegar a um acordo com o governo nazista que preservasse a influência da Igreja na Alemanha. O cardeal Pacelli, hábil negociador, via o Partido do Centro Católico como uma das principais moedas de troca da Santa Sé. Ele acreditava que, ao se oferecer para suspender o apoio ao partido, o Vaticano poderia obter garantias que protegessem os direitos de associações católicas na Alemanha. Mas não contava com o efeito abrupto que a retirada do apoio dos bispos teria sobre o Partido do Centro. Antes que Pacelli chegasse a um acordo com Hitler, o partido anunciou a própria dissolução.

Em julho, o cardeal conduziu o vice-chanceler alemão, Franz von Papen[4], até seu apartamento no Vaticano. A concordata que assinaram ali garantia à Igreja alemã o direito de cuidar dos próprios assuntos e oferecia proteções a padres, ordens religiosas e propriedades da Santa Sé. Contudo, boa parte da sua redação, em especial no que dizia respeito a associações e escolas católicas, era vaga.

Heinrich Brüning, líder do Partido do Centro que servira como chanceler da Alemanha de 1930 a 1932, ficou furioso. Esbravejou que o Vaticano tinha traído o partido católico e se aliara a Hitler. Responsabilizou o cardeal Pacelli, que, segundo ele, não compreendia a natureza do nazismo. A fé de Pacelli no “sistema de concordatas”, escreveria Brüning futuramente em suas memórias, “levou-o, e ao Vaticano, a desprezar a democracia e o sistema parlamentar”.

Opapa Pio XI logo percebeu que seu “pacto com o diabo” – como o historiador Hubert Wolf o descreveu – não traria os resultados esperados. Ao mesmo tempo que assinaram a concordata, os nazistas puseram em vigor a Lei para a Prevenção de Descendentes Hereditariamente Doentes, determinando a esterilização compulsória de pessoas consideradas defeituosas – em clara divergência com a doutrina católica. Hitler começou também a agir contra a densa rede de escolas paroquiais da Igreja. Os nazistas queriam uma Igreja que pudessem controlar por completo. No início do outono, a Secretaria de Estado produziu uma análise alarmante desses esforços, que incluía a letra de uma canção popular entre a Juventude Hitlerista que chamava Hitler de seu “redentor”. Em outubro, o editor do mais influente jornal católico da Itália, L’Avvenire d’Italia, advertiu que os nazistas trabalhavam por “uma igreja nacional alemã na qual protestantes e católicos serão misturados”. Em dezembro, no discurso de Natal que fazia todo ano aos cardeais, Pio XI manifestou seu desapontamento com o governo nazista. Pacelli e Von Papen tinham assinado a concordata apenas cinco meses antes.

Enquanto as dúvidas do papa sobre Hitler aumentavam, seus auxiliares mais próximos tentavam manter as relações tão harmoniosas quanto possível. No começo de 1934, tanto o cardeal Pacelli quanto o núncio na Alemanha, monsenhor Cesare Orsenigo, aconselharam o papa a não dizer nada que pudesse enfurecer Hitler, para não enfraquecer ainda mais a posição da Igreja. Em Berlim, Orsenigo recebeu ajuda em seus esforços, tendo conservado o assistente pessoal de Pacelli do seu tempo de núncio, o padre alemão Eduard Gehrmann. Como disse um observador do Vaticano, o padre Gehrmann “acreditava mais em Hitler do que em Cristo”.

O fato de Pio XI ter escolhido Cesare Orsenigo para ser núncio na Alemanha nazista revela muito sobre o papa. À exceção do núncio na Itália, não havia missão diplomática mais crucial e complexa no Vaticano, embora Orsenigo fosse um homem de inteligência limitada e visão de mundo ainda mais tacanha. Nascido perto da cidade natal do pontífice, na região do lago de Como, ao norte de Milão, Orsenigo, assim como Pio XI, tivera um pai supervisor de fábrica de seda. Seus dois tios paternos haviam se casado com as duas tias maternas, filhas do supervisor da fábrica de seda de uma cidade vizinha. Cada um dos três casais teve um filho que se tornou padre. Ordenado em 1896, Orsenigo serviu numa paróquia de Milão e, em 1912, acrescentou o título de cônego no domo de Milão.

Até então, Orsenigo vivera confinado aos limites da Igreja dentro e nos arredores de Milão; não tinha experiência diplomática nem qualquer interesse evidente em assuntos internacionais. Apesar disso, meros quatro meses após se tornar papa, Pio XI nomeou-o núncio na Holanda, com o título de arcebispo. A nomeação provocou muitos comentários entre o alto clero, que via naquilo mais um exemplo da preferência dada pelo pontífice aos seus amigos de Milão, em vez de escolher homens da hierarquia com mais experiência. O cardeal Gasparri[5] presidiu a cerimônia de consagração episcopal de Orsenigo; o padre milanês usava com orgulho a cruz que o pontífice lhe dera para honrar a ocasião, mas, à exceção de alguns alunos do Pontifício Seminário Lombardo em Roma, que serviram como coroinhas, a igreja estava vazia.

Depois de passar dois anos na Holanda, Orsenigo se tornou núncio na Hungria. Em 1928, enquanto ele estava em Roma para uma visita, um dos informantes de Mussolini conjecturou que o papa Pio XI talvez o escolhesse para substituir o cardeal Gasparri como secretário de Estado. Segundo o informante, o pontífice valorizava acima de tudo homens de lealdade inquestionável. A escolha seria uma dádiva para o regime, acrescentou o informante, pois Orsenigo era menos astuto e mais maleável do que o voluntarioso Gasparri.

Embora tenha passado batido por Orsenigo para o cargo de secretário de Estado, o papa Pio XI o escolheu para substituir Pacelli como núncio na Alemanha. Tanto Hitler quanto o cardeal Pacelli viriam a considerar Orsenigo pouco importante. Sem dúvida Pacelli nunca sentira necessidade de pedir conselhos para lidar com Berlim. Prudente e escrupuloso, vivia com medo de ofender Hitler. Mais adiante, quando as relações com a Alemanha nazista se tornaram sua preocupação central, Pio xi não substituiria Orsenigo. O papa não queria um pensador independente, nem um homem belicoso, como seu embaixador no país de Hitler. O medíocre Orsenigo permaneceria no cargo, sob o comando do papa seguinte, durante todos os dramáticos anos da Segunda Guerra Mundial.

Preocupado com elementos anticatólicos no movimento nazista, Pio XI ficou especialmente aborrecido com Der Mythus des 20 Jahrhunderts [O Mito do Século XX], escrito por Alfred Rosenberg, o mais importante teórico nazista. No livro, Rosenberg afirmava que Deus criou os humanos como raças separadas; a superior raça ariana estava destinada a governar as outras. Jesus era ariano, explicava ele, mas os apóstolos judeus tinham poluído seus ensinamentos. O catolicismo era o produto corrompido dessa influência judaica. No começo de 1934, o Santo Ofício incluiu esse best-seller alemão no Índice de Livros Proibidos. O próprio Hitler manteve certa distância da publicação, e, dessa forma, algumas pessoas na Santa Sé puderam atribuir a tendência anticatólica dos nazistas não ao Führer, mas à ala anticlerical do partido. Era uma prática bem conhecida no Vaticano, onde ações contra a Igreja na Itália costumavam ser atribuídas não a Mussolini, mas aos anticlericais que o cercavam.

Em seus esforços para convencer Hitler a honrar a concordata, Pio XI pediu ajuda ao Duce incontáveis vezes. Na primavera de 1934, quando Mussolini se preparava para seu primeiro encontro com Hitler, o papa lhe enviou instruções. Queria que o italiano arrancasse do Führer garantias de que ele respeitaria a concordata. Embora o acordo estivesse em vigor havia menos de um ano, os nazistas já o ignoravam. Mussolini deveria transmitir também um alerta: seria melhor que Hitler não intimidasse os bispos da Alemanha, pois, “embora pudessem lhe fazer um grande bem, também podiam – embora não o desejassem – fazer-lhe muito mal, uma vez que os católicos tomariam partido deles”.

Pio XI também pediu ao Duce que convencesse Hitler a “se livrar de certos acólitos que prejudicavam sua imagem”, em especial Alfred Rosenberg e Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda. O papa acreditava que ambos incentivavam ataques à Igreja Católica. O arcebispo de Munique, cardeal Faulhaber, preparara pouco tempo antes um relatório perturbador sobre Goebbels, cujos escritos, incluindo um romance popular de sua autoria que datava dos anos 20, combinavam uma forte crença em Deus e Jesus Cristo com desdém pela Igreja e pelo clero. “Converso com Cristo”, escreveu Goebbels em seu livro. “Achei que o tinha vencido, mas só venci mesmo seus padres idólatras e falsos servidores. Cristo é duro e implacável.” Para piorar, o católico Goebbels se casara pouco tempo antes com uma divorciada protestante e era, segundo o arcebispo, “um notório homossexual”. Ao receber o pedido do papa Pio XI, o Duce ficou feliz de poder desempenhar o papel de estadista sábio e prometeu atender a todos os desejos do pontífice.

Mussolini não estava tão ávido pelo encontro. O objetivo nazista de criar uma Grande Alemanha, unindo todos os povos de etnia alemã, significava de maneira inevitável que eles tentariam anexar a Áustria. Isso ia em direção oposta à política externa da Itália, que via a nação como parte da esfera de influência italiana e um para-choque contra uma Alemanha extremamente agressiva.[6] Mussolini era partidário convicto de Engelbert Dollfuss, o chefe social-cristão do governo austríaco, que suspendera o parlamentarismo em março de 1933 em resposta à agitação provocada pelos nazistas. Naquele verão, Dollfuss, com a mulher e os filhos a tiracolo, visitara Mussolini em seu refúgio de verão em Riccione, na costa adriática da Romanha, para lhe pedir ajuda. Pouco depois de Dollfuss voltar para Viena, um nazista austríaco atirou nele, baleando-o no braço e nas costelas.

O Führer desembarcou no aeroporto de Veneza na manhã de 14 de junho de 1934, onde o bronzeado Duce o recebeu. Mussolini usava um magnífico uniforme com pencas de medalhas no peito, um fez fascista preto, um punhal enfiado no cinto e botas pretas até os joelhos. Hitler usava uma capa amarela, chapéu de aba mole de veludo marrom, terno escuro e sapatos pretos comuns. Parecia, segundo um observador, “um trabalhador em seu traje de domingo”. O pálido alemão sofreria muito em comparação com o viril Mussolini, que se deliciava em desnudar o peito numa infindável variedade de poses. Hitler jamais se deixava ser visto sem estar inteiramente vestido e, mesmo durante sua passagem pela prisão nos anos 20, insistia em usar gravata todos os dias. Enquanto o Duce adorava dirigir carros velozes e pilotar aviões, o Führer preferia se sentar no banco detrás de sua imensa Mercedes, cercado por guarda-costas, parecendo, nas palavras do biógrafo Ian Kershaw, “um gângster excêntrico”.

Ao sair do avião, Hitler estava claramente constrangido. O confiante Mussolini andou a passos largos até ele e levantou o braço na saudação nazista. Correria depois o boato de que, quando o Führer o saudou em resposta, o Duce murmurou Ave imitatore! [Ave, imitador!]. A impressão causada por Hitler alimentaria em Mussolini a sensação de estar lidando com uma cópia barata do original, sensação essa que, mais à frente, se revelaria perigosa.

Orgulhoso de seu domínio da língua alemã, o Duce insistiu em ficar a sós com Hitler. Tinha até tomado aulas para melhorar a fluência nas semanas anteriores ao encontro. Mas Mussolini teve dificuldade para acompanhar as longas tiradas de Hitler, tanto pelo tédio que provocavam quanto por limitações linguísticas. Sua crença em que o Führer era um tanto maluco só fez aumentar nos dois dias seguintes. O encontro não foi ajudado pela infestação de mosquitos, descritos como “do tamanho de codornas”, nem pelo alarde que Hitler fazia da superioridade da raça nórdica em comparação às origens parcialmente “negroides” dos europeus meridionais. A maior fonte de tensão continuava sendo a Áustria, pois Hitler não fazia segredo da sua intenção de uni-la à Alemanha.

“Que palhaço!”, disse Mussolini quando o avião do Führer decolou. O homem se gabara da superioridade da raça alemã. Mas, como o Duce adorava contar para plateias italianas, enquanto homens como César, Cícero, Virgílio e Augusto adornavam os magníficos palácios de Roma, os selvagens analfabetos que foram ancestrais dos nazistas viviam em imundas cabanas no mato.

Depois do encontro em Veneza, Mussolini escreveu ao seu embaixador na Santa Sé, Cesare de Vecchi, para colocá-lo a par das novidades: “Vou poupá-lo de todas as idiotices que Hitler disse sobre Jesus Cristo ser da raça judia etc.” Quando o chanceler alemão falara sobre a Igreja Católica, disse Mussolini a De Vecchi poucos dias depois, “era como se tivesse preparado um disco fonográfico sobre o assunto e o tocasse durante dez minutos, até o fim”. Hitler fizera um discurso inflamado dizendo que a Igreja não passava de uma das mistificações dos judeus. “Esse judeu”, disse o Führer, referindo-se a Jesus Cristo, descobrira um jeito de enganar todo o mundo ocidental. “Ainda bem”, disse ele a Mussolini, “que vocês (os italianos) conseguiram injetar mais do que uma pequena dose de paganismo (na Igreja Católica), fazendo de Roma o seu centro e usando-a para seus próprios fins.” Hitler acrescentou que, embora fosse católico, não conseguia ver nenhum benefício trazido pelo catolicismo à Alemanha.

Mussolini não contou nada disso ao papa, a não ser por uma vaga alusão à sciocchézza, bobagem, que Hitler dissera sobre Jesus ser judeu. Com receio de que as coisas piorassem caso o pontífice soubesse o que o Führer falara, o Duce apresentou a De Vecchi uma versão expurgada da conversa a ser usada com o Vaticano. Ele deveria dizer a Pio XI que fizera o melhor possível e que, no futuro, talvez pudesse induzir o líder nazista a adotar uma opinião mais conciliatória.

Um mês depois, nazistas armados, vestindo uniformes do Exército austríaco, invadiram o gabinete do chanceler Dollfuss e o mataram. No começo do dia, a mulher e os filhos dele tinham chegado à residência de veraneio de Mussolini no Adriático, onde Dollfuss deveria se juntar a eles. Coube ao Duce dar a notícia. Pio XI ficou desolado. No ano anterior, Dollfuss fora a Roma assinar uma concordata entre a Áustria e a Santa Sé. O papa o conhecia e o considerava um bom católico. “É horrível! É horrível!”, repetia. Sentado à sua mesa, olhava para o chão, a cabeça apoiada nas mãos. Quando enfim ergueu os olhos, perguntou: “O que vamos fazer? O que vamos fazer?”

O cardeal Pacelli tinha uma opinião menos entusiástica a respeito do líder austríaco. Em julho de 1933, quando soube que o Vaticano ia assinar uma concordata com Hitler, Dollfuss ficara furioso, convencido de que ela enfraqueceria a resistência austríaca a uma tentativa nazista de assumir o controle. Sabendo que Dollfuss escrevera um documento manifestando esse ponto de vista, Pacelli pediu um favor ao embaixador austríaco na Santa Sé. Seria bom, disse ele, que o relato de Dollfuss fosse retirado dos arquivos diplomáticos austríacos.



Durante aqueles meses, o papa Pio XI recebeu relatórios frequentes com detalhes sobre a campanha nazista contra os judeus. No início de março de 1933, pouco antes das eleições alemãs, Hitler tinha assegurado a um grupo de bispos que protegeria os direitos da Igreja, suas escolas e suas organizações. Num aparente esforço para conquistar o apoio católico, acrescentou que eram todos aliados na mesma luta, a batalha contra os judeus. “Tenho sido atacado pela maneira como trato a questão judaica”, disse Hitler. “Por 1 500 anos a Igreja considerou os judeus perniciosos, exilando-os em guetos […] Estou prestando o maior dos serviços ao cristianismo.”

Em abril, o papa recebeu de Munique uma carta de Edith Stein, uma filósofa alemã de 41 anos e de origem judaica, que se convertera ao catolicismo onze anos antes. Stein suplicou-lhe que se manifestasse sobre a campanha contra os judeus – travada por um governo que se dizia “cristão” e usava imagens cristãs para respaldar suas iniciativas. “Durante semanas”, escreveu ela, “não apenas judeus, mas também milhares de católicos fiéis na Alemanha e, acredito, no mundo inteiro, aguardaram e esperaram que a Igreja de Cristo erguesse a voz para pôr fim a esse abuso do nome de Cristo. O que é essa idolatria de raça e poder estatal que o rádio martela todos os dias nos ouvidos das massas, senão pura heresia?” E concluía com um apelo profético: “Todos nós, verdadeiros filhos da Igreja que observamos de perto a situação na Alemanha, tememos o pior para a reputação da Igreja se o silêncio continuar.”

O cardeal Pacelli, respondendo em nome do papa Pio XI, não escreveu para Stein, e sim para o arquiabade que encaminhara a carta ao Vaticano. Pacelli disse-lhe para transmitir a Stein que ele mostrara a carta ao pontífice. Acrescentava uma oração para que Deus protegesse Sua Igreja naqueles tempos difíceis. Isso foi tudo.

Talvez de modo surpreendente, a fé de Edith Stein se manteve forte. Antes do fim do ano, ela tomou os votos para se tornar freira carmelita. No fim da década de 30, buscaria refúgio na Holanda. Em 2 de agosto de 1942, os nazistas prenderam Stein e a irmã Rosa, ambas judias aos olhos deles, e as despacharam para Auschwitz. Em seus últimos suspiros, elas inalaram os vapores da câmara de gás. Mais ou menos na época em que Stein redigiu seu apelo ao papa Pio XI, Orsenigo mandou um telegrama para o cardeal Pacelli. Os nazistas tinham proclamado o antissemitismo uma política oficial de governo. Fora convocado um boicote contra lojas e negócios de propriedade de judeus, assim como contra médicos, advogados e outros profissionais de origem judaica. Uma lei de 7 de abril de 1933 demitiu os judeus do serviço público civil. Ao dar essa notícia, Orsenigo aconselhou o pontífice a não interferir. “Uma intervenção do representante da Santa Sé”, advertiu o núncio, “equivaleria a um protesto contra o governo.”

O papa seguiu o conselho e ficou calado. Surpreendentemente, foi Mussolini, e não Pio XI, que, nesses primeiros meses de governo nazista, recomendou ao Führer que parasse de perseguir os judeus. Em 30 de março, o Duce enviou uma mensagem confidencial ao seu embaixador em Berlim instruindo-o a encontrar-se com Hitler de imediato para adverti-lo de que sua campanha antissemita era um equívoco: ela “aumentaria a pressão moral e as retaliações econômicas da parte do judaísmo internacional”. Queria ter certeza de que Hitler entendesse que ele estava dando esse conselho num esforço para ser útil. “Todo regime tem não só o direito, mas o dever, de tirar de posições de influência elementos que não sejam de todo confiáveis”, argumentou ele, “mas fazê-lo na base de semitas versus raça ariana poderia ser prejudicial.” Não só os judeus se voltariam contra o regime nazista, advertiu Mussolini, se a campanha fosse adiante: “A questão do antissemitismo pode servir como uma bandeira anti-Hitler também para inimigos que sejam cristãos.” No dia seguinte, o embaixador italiano foi ver o Führer para lhe transmitir o conselho do Duce. O papa Pio XI estava informado. Uma nota nos arquivos da Secretaria de Estado do Vaticano informa que o apelo de Mussolini foi “levado e lido para Hitler e Goebbels meia hora antes do encontro de ministros que aprovou a lei que demitiria os funcionários públicos de raça semita”.

Rejeitando o conselho do Duce, Hitler prosseguiu em seu caminho assassino. Em 1935, as Leis de Nuremberg proibiram casamentos entre judeus e não judeus e cassaram a cidadania alemã daqueles que tivessem origem judaica. Ao relatar sobre o congresso nacional do Partido Nazista daquele ano, Orsenigo disse ao Vaticano que os nazistas justificavam a perseguição culpando os judeus pelo comunismo. “Não sei se todo o bolchevismo russo foi obra exclusiva dos judeus”, relatou o núncio, “mas aqui eles encontraram uma maneira de fazer o povo acreditar nisso e agir em conformidade contra o judaísmo.” E concluiu, em tom aziago: “Se, como parece provável, o governo nazista durar muito tempo, os judeus estão condenados a desaparecer deste país.”

O fato de a população católica da Alemanha achar a noção de uma conspiração judaica verossímil não deveria surpreender. Durante anos, a revista que passava pela avaliação do Vaticano, La Civiltà Cattolica – entre muitas outras publicações da Igreja –, vinha alertando que os judeus eram a força do mal por trás de uma perigosa conspiração. Dizia-se que controlavam em segredo tanto o comunismo quanto o capitalismo, ambos com o objetivo de escravizar os cristãos. A única diferença notável da versão nazista – além da camada adicional de pseudobiologia – era a omissão dos protestantes.

Uma das figuras mais influentes do Vaticano que instigavam essa teoria conspiratória era Włodzimierz Ledóchowski, superior-geral da ordem jesuíta. Numa carta escrita à mão em 1936, Ledóchowski recomendou ao papa que fizesse um alerta mundial sobre “o terrível perigo que cresce a cada dia”. A ameaça vinha da propaganda ateísta dos comunistas de Moscou – tudo produto de judeus, segundo ele –, enquanto “a grande imprensa mundial, também sob controle judaico, raramente diz uma palavra. […] Uma encíclica com esse argumento”, aconselhou, levaria “não apenas os católicos, mas outros também, a adotarem uma resistência mais enérgica e organizada”.

Compartilhando a crença de Ledóchowski de que o comunismo representava um grave perigo, Pio XI concordou em mandar preparar uma encíclica especial e, nos meses seguintes, enviou-lhe rascunhos para comentários e sugestões. Descontente com o fato de que os esboços nada diziam sobre os judeus, Ledóchowski continuou insistindo com o papa para acrescentar uma linguagem que os vinculasse ao perigo comunista. “Parece que nos seria necessário, numa encíclica como esta”, aconselhou ele, em resposta a um dos rascunhos, “pelo menos fazer uma alusão à influência judaica, afirmando não apenas que os autores intelectuais do comunismo (Marx, Lassalle[7] etc.) eram todos judeus, mas também que o movimento comunista na Rússia foi organizado por judeus. E agora, também, embora nem sempre abertamente em todas as regiões, se examinarmos mais detidamente, os judeus é que são os principais defensores e promotores da propaganda comunista.”

Ao lado da frase de Ledóchowski sobre os judeus serem responsáveis pelo comunismo na Rússia, o papa rabiscou uma única palavra: Verificare – Verificar. Ele divulgaria sua encíclica denunciando o comunismo um mês depois, com o nome de Divini Redemptoris, mas, para decepção do chefe jesuíta, não incluiria nem uma palavra sobre os judeus.

La Civiltà Cattolica não teve esses escrúpulos, fazendo tudo ao seu alcance para amedrontar católicos sobre a perigosa conspiração judaica. Poucos meses depois de o pontífice divulgar sua encíclica anticomunista, a revista publicou outra advertência intitulada “A questão judaica”. Ia direto ao ponto já na primeira frase: “Dois fatos, que parecem contraditórios, estão estabelecidos entre os judeus espalhados no mundo moderno: seu domínio sobre o dinheiro e sua preponderância no socialismo e no comunismo.” Não só os fundadores do comunismo eram judeus: de acordo com a revista jesuíta eles também eram “os mais recentes líderes revolucionários do socialismo moderno e do bolchevismo”.[8]



Enquanto Hitler desenvolvia o próprio plano para lidar com a ameaça judaica, a La Civiltà Cattolica pensava na resposta cristã apropriada. Enumerou três possibilidades. A melhor seria converter todos os judeus ao cristianismo, o que, é óbvio, não tinha chance de acontecer, pois eles insistiam teimosamente em permanecer na sua religião. A segunda possibilidade era transferi-los da Europa para a Palestina. Mas a terra não tinha condições de suportar todos os 16 milhões de indivíduos, e, ainda que tivesse, eles jamais fariam o serviço necessário, pois eram “singularmente dotados da faculdade de serem parasitas, e destruidores não têm aptidão alguma, nem gosto, para o trabalho manual”.

Só restava uma terceira opção, a abordagem que a Igreja tinha usado com êxito durante séculos: privar os judeus dos seus direitos de cidadãos.

Nessa mesma edição, La Civiltà Cattolica informava sobre o recente congresso nazista em Nuremberg, realizado em setembro de 1936. “Com tenacidade infatigável”, disse Hitler à multidão, “o quartel-general revolucionário judaico prepara a revolução mundial.” Depois de citar essa fala, a revista reproduzia, sem comentários, a afirmação de Hitler de que 98% dos principais cargos na Rússia estavam “nas mãos de judeus”. Nos anos que precederam o Holocausto, tanto os nazistas quanto a revista jesuíta continuariam martelando essa afirmação. Apesar disso, dos 417 membros dos mais altos órgãos de liderança da União Soviética em meados dos anos 20, apenas 6% vinham de famílias judias, e essa porcentagem caiu drasticamente na década de 30 – mesmo porque o grande expurgo de Stálin tinha fortes subtons antissemitas. Em 1938, enquanto La Civiltà Cattolica e o governo nazista continuavam a afirmar que quase todos os líderes da União Soviética eram judeus, o organismo mais poderoso do governo soviético, o Politburo formado por nove homens, tinha apenas um de origem judaica. Dos 37 membros do Presidium da União Soviética, um vinha de família judia.

No encontro de 1932 com Mussolini, o papa Pio XI manifestara sua preocupação com a ameaça comunista russa, vinculando-a ao “desprezo anticristão do judaísmo”. Mas muita coisa acontecera desde então. Hitler assumira o poder e não só enfraquecia a influência da Igreja na Alemanha, mas também difundia uma idolatria pagã contrária à mensagem cristã. Ficava cada vez mais claro para Pio XI que o maior perigo para o cristianismo vinha dos nazistas. Contudo, seus conselheiros discordavam, vendo em Hitler a maior esperança da Igreja de conter o avanço comunista. Recomendavam ao papa que não o ofendesse.


Trecho do livro O Papa e Mussolini, a ser lançado em abril pela editora Intrínseca. As notas de rodapé foram editadas pela piauí.


[1] Hermann Göring, líder do partido nazista e fundador da Gestapo, a polícia secreta alemã.

[2] O cardeal Eugenio Pacelli era um dos assessores mais próximos do papa Pio XI e viria a se tornar o papa Pio XII em 1939, após a morte de seu antecessor.

[3] O Partido do Centro Católico era um partido político laico, mas de ideologia católica. Havia sido fundado no fim do século XIX, em reação às investidas do chanceler Otto von Bismarck contra o poder da Igreja católica.

[4] Von Papen era um católico fervoroso e viria a se tornar amigo do cardeal Pacelli alguns anos depois.

[5] Pietro Gasparri era o cardeal secretário de Estado do papa Pio XI, responsável por assinar o Tratado de Latrão, que selou o destino do Vaticano como Estado independente em 1929.

[6] Mussolini também estava preocupado com a população de origem alemã da região de Alto Adige, na Itália, que o país adquirira logo após a Primeira Guerra Mundial e cuja lealdade era duvidosa.

[7] Ferdinand Lassalle foi um dos fundadores do movimento socialista em meados do século XIX na Alemanha.

[8] Para justificar e racionalizar a ligação dos judeus com os sistemas divergentes do capitalismo e comunismo, a revista jesuíta aludia às origens materialistas e econômicas dos dois sistemas.


David I. Kertzer, escritor, historiador e antropólogo norte-americano, é especialista em história política e religiosa da Itália
Revista Piaui - Folha