sexta-feira, 19 de abril de 2013

Descida ao Inferno


A resistência popular às internações hospitalares na cidade do Rio de Janeiro do século XIX

Márcio de Sousa Soares

Nos dias de hoje, quando alguém se sente mal ou se acidenta, costuma procurar um médico ou, dependendo da gravidade do caso, um hospital. Há um forte consenso de que os médicos são as pessoas mais indicadas para tratar dos doentes e que um hospital dispõe dos melhores recursos para prestar socorro aos enfermos em estado de saúde mais delicado. Mas nem sempre foi assim.

“Deixai toda esperança. Ó vós que entrais!”: estes versos, gravados na porta do inferno imaginado por Dante Alighieri em A Divina Comédia, exprimem perfeitamente a angústia que a perspectiva de uma internação hospitalar despertava entre as camadas populares cariocas no século XIX. A maioria dos hospitais existentes na cidade do Rio de Janeiro até meados do novecentos era formada por instituições de caridade dirigidas por religiosos.
Voltado para os pobres, o socorro hospitalar se destinava a acolher a população carente – deserdada de toda sorte. Na grande maioria das vezes, só se dirigiam espontaneamente a um hospital aqueles que não dispunham de um teto ou não podiam contar com o auxílio de parentes. Somente quando os doentes não tinham qualquer condição de conduzir o tratamento em suas próprias casas é que costumavam ser remetidos à força para os hospitais. Locais de isolamento e reclusão, os hospitais – como todos sabiam – não passavam de depósitos de infelizes em sua última escala antes da morte.
As classes mais altas, quando recorriam à assistência médica, faziam-no em suas próprias casas. Os pobres, por sua vez, em geral não simpatizavam muito com os médicos, nem possuíam os recursos necessários para pagar uma consulta domiciliar. Fatalmente, o contato com os médicos quase sempre ocorria, para desgosto do enfermo, num hospital. Malvistas e temidas pela maior parte da população da época, estas instituições eram o último lugar para onde os doentes desejavam ir.
Devido à presença das tropas portuguesas no Rio de Janeiro, o socorro aos doentes que não podiam contar com o auxílio de parentes tornou-se um problema para a Metrópole desde o início da colonização. Após uma longa viagem, muitos soldados já desembarcavam doentes ou então tombavam feridos. Por determinação da Coroa, eram conduzidos para as residências particulares e, posteriormente, para o hospital construído pela irmandade da Misericórdia.



Somente a partir do século XVIII é que outras irmandades e Ordens Terceiras abriram hospitais para atender a seus confrades. Em 1768, a Santa Casa passou a exigir o pagamento diário de quatrocentos réis por soldado internado. O conde de Azambuja, na época vice-rei, ordenou que se improvisasse um estabelecimento, que seria o primeiro Hospital Militar da cidade. Inicialmente situado no Morro de São Bento, o hospital foi transferido mais tarde para a sede do antigo Colégio dos Jesuítas, no Morro do Castelo.


No Ocidente cristão, pelo menos até meados do oitocentos, o acompanhamento da doença e da agonia que antecede a morte ainda não estava sob o poder da medicina. O tratamento das enfermidades era geralmente conduzido em casa pelos próprios parentes do doente. Por força do catolicismo, quase sempre quem estava à cabeceira de um moribundo era um padre. Mesmo se, porventura, um médico acompanhasse uma pessoa da doença até a morte, seu trabalho se restringia a ajudar o enfermo a se curar ou a morrer. Em uma época em que combater a morte era para muitos uma verdadeira blasfêmia contra as intenções de Deus, a função da medicina não podia assumir um caráter de luta contra a natureza. 


Fazia parte do imaginário coletivo da época que a doença e a hora mortis deviam ser vivenciados no interior das residências. Temia-se, acima de tudo, a morte súbita. A crença na necessidade da preparação para o bem morrer era muito difundida, o que significava o cumprimento de rituais religiosos para garantir a salvação da alma. Só assim o moribundo poderia deixar o mundo com a consciência tranqüila perante Deus e os homens. Causava horror a qualquer pessoa pensar em adoecer ou morrer longe dos parentes ou sem amparo religioso. A preferência, comum a todos os segmentos sociais, é bastante compreensível, considerando-se que, quando um indivíduo adoecia de uma moléstia mais grave, a probabilidade de que este viesse a falecer era muito grande.


Com a institucionalização da medicina acadêmica no Brasil, os hospitais assumiram aos poucos uma nova dimensão na prática e na consciência médica, em sintonia com a crescente onda cientificista que caracterizou o mundo ocidental ao longo do século XIX. Dispostos a transformar o que acreditavam ser um verdadeiro “caos urbano” – uma cidade “suja” e “doente” – em um espaço “civilizado”, os intelectuais que integravam a Academia Imperial de Medicina passaram a recomendar às autoridades públicas uma reordenação das instituições hospitalares existentes na Corte.



Na opinião médica, os hospitais deveriam ser reestruturados para garantir o isolamento dos enfermos. Na época, acreditava-se que certas substâncias que exalavam dos corpos doentes faziam daquelas instituições um foco de infecção ou de contágio. Para tentar conter a disseminação das doenças, passou-se a recomendar o trancamento das portas dos hospitais no intuito de isolar os enfermos. Assim, as instituições foram transformadas em verdadeiras prisões, o que só aumentou ainda mais a desconfiança e o pavor da população pobre.

Os membros da Academia Imperial de Medicina, que discutiam as condições de salubridade pública em suas reuniões e publicações, passaram a tachar de insalubres e impróprias não só as instalações hospitalares, mas também muitos hábitos da população que até aquele momento não haviam despertado maiores inquietações no que se refere à saúde pública. É, portanto, à luz dessa nova consciência que devem ser compreendidas as terríveis descrições contidas nos diversos relatórios elaborados pelas comissões médicas nomeadas para diagnosticar as condições de insalubridade da Corte.

A Santa Casa de Misericórdia era o maior hospital da cidade no século XIX, recebendo cerca de 4.500 doentes por ano, segundo uma estimativa feita em 1833. Mesmo assim, as pessoas mais pobres tentavam evitar ao máximo a internação, tamanho era o quadro de penúria reinante ali. 
Havia ainda o medo e a certeza de que dificilmente escapariam da morte – como atestavam os elevados índices de mortalidade ali verificados. Dependendo da enfermidade, o doente já sabia de antemão que suas chances de sobrevivência seriam muito pequenas. Este foi o caso das vítimas da explosão do vapor Especuladora, ocorrida em 1844. Do total de 42 feridos queimados no acidente, nada menos que 39 faleceram nas primeiras 48 horas após a entrada na Santa Casa. As possibilidades de saírem vivas dali também não eram nada promissoras para as pessoas internadas com tuberculose. Segundo um relatório médico da época, dos 1.225 tuberculosos recolhidos na Santa Casa entre 1839 e1841, nada menos do que 77,7% faleceram. O que mais espanta é que a grande maioria sucumbiu antes do primeiro mês de internação.

Segundo os médicos que atuavam na Misericórdia, a voracidade com que a tísica consumia os doentes era explicada pelo fato de que a maioria deles só era internada depois de esgotadas todas as tentativas não-hospitalares de cura. Ao avaliar o índice de mortalidade apresentado pelo resumo estatístico da Clínica de Cirurgia da Faculdade de Medicina relativo ao ano de 1844, o doutor Roberto Jorge Haddock Lobo comentou que “... é só no último recurso que os doentes, de ordinário dominados pelo horror que erroneamente lhes inspira o hospital, se determinam a recolher-se a essa Pia Casa, tarde e a más horas”.



Diante da dor, do isolamento e do receio de uma morte solitária, não é de se estranhar que a fuga de doentes dos hospitais fosse um fato corriqueiro, segundo as freqüentes denúncias feitas pelos médicos da época. O pavor inspirado pela Santa Casa era ainda mais acentuado pela expressiva quantidade de enterros diários que ocorriam no cemitério mantido pelo hospital. Reservado aos escravos e aos indigentes, o campo santo da Misericórdia sepultou no biênio 1838-1839 nada menos do que 3.194 pessoas! Não se pode deixar de sublinhar que números tão elevados alimentavam, e muito, a desconfiança dos cativos em relação aos médicos e aos hospitais. Levando em conta a opinião corrente sobre a relação entre doença e feitiço, a historiadora Mary Karash levantou a hipótese de que, para os africanos da cidade, a morte rápida no hospital poderia resultar da feitiçaria dos brancos contra sua gente. É bastante plausível supor que, entre a população escrava, os médicos pudessem ser identificados negativamente como “feiticeiros brancos”, sobretudo para os doentes recém-traficados, que, não raro, eram remetidos para a Santa Casa de Misericórdia, onde a grande maioria vinha a falecer.

Se nos casos de doenças endêmicas a possibilidade de ter que ir a um hospital despertava pavor nas pessoas, o que dizer das épocas dos grandes surtos epidêmicos de cólera e de febre amarela, quando os índices de internação e de mortalidade atingiram níveis até então nunca vistos? Os próprios médicos reconheciam que, além de padecer de sofrimentos físicos desumanos, os enfermos ainda tinham de enfrentar o desconforto das acomodações oferecidas pelas instituições e pelas enfermarias improvisadas na cidade. Nessas ocasiões, os hospitais geralmente ficavam abarrotados com pessoas que tombavam doentes pelas ruas ou com marinheiros em trânsito, recolhidos pelas Comissões de Polícia Médica, sendo internados independentemente ou contra sua própria vontade.

A voracidade com que as epidemias devoravam os adoentados reforçava a idéia do caráter súbito deste tipo de enfermidade. Dos vinte primeiros doentes de febre amarela tratados pelo doutor Roberto Lallemant, em 1850, nas enfermarias da Santa Casa de Misericórdia, quase todos morreram no prazo máximo de 48 horas após darem entrada no Hospital. O doutor José Pereira Rego era um dos que acreditavam na instantaneidade do ataque provocado pela cólera. Por ocasião do surto epidêmico ocorrido em 1855, o médico assegurava que pessoas saudáveis eram acometidas repentinamente pela doença e tombavam enfermas pelas ruas. Por conta dessa crença em seu caráter fulminante e da proporção tomada pela epidemia, notou que “o mal, apesar dos cuidados prodigalizados pelo governo, pela classe médica e pelos cidadãos encarregados de distribuir os socorros públicos, progredia em sua marcha destruidora, espalhando o terror e a consternação em todos os habitantes desta populosa cidade”.

No imaginário popular do século XIX, era bastante difundida a crença de que as doenças tinham uma natureza sobre-humana, e eram associadas, por exemplo, à feitiçaria, à ação de um “mau-olhado” ou como conseqüência de um pecado. Sendo assim, a cura dos enfermos dependeria, em última instância, da vontade de Deus, e não dos remédios, pois a enfermidade seria um castigo divino ou fruto das artimanhas do demônio. 



Muitas pessoas buscavam a proteção ou o restabelecimento da saúde por meio das mais variadas práticas mágico-religiosas. Estes procedimentos eram uma complexa combinação entre o auxílio espiritual e a aplicação de diversas mezinhas domésticas (remédios caseiros), sangrias, ou de alguns “remédios secretos” – fartamente anunciados nos jornais da época e que prometiam tudo curar. Freqüentemente, a cura era atribuída a talismãs, objetos de devoção, sacramentos ou a interferências divinas da Virgem Maria ou dos santos – como atesta o relato do viajante Thomas Ewbank sobre a enorme quantidade de ex-votos depositados nas igrejas da cidade.

Até meados do século XIX, os profissionais da medicina eram alvo de profunda desconfiança e de descrédito, posto que não gozavam de reconhecimento social suficiente para lhes assegurar o “monopólio da competência” na arte de curar. Afinal, no imaginário popular, as explicações para as origens das doenças e as possibilidades de cura passavam longe daquelas apresentadas pela ciência médica.

Em lugar dos médicos, a maioria das pessoas costumava recorrer aos saberes práticos e ao poder espiritual atribuídos àqueles que tradicionalmente se dedicavam à arte de curar. Barbeiros, parteiras, boticários, benzedores e os famosos cirurgiões negros: todos estes se encontravam distantes da formação acadêmica em Medicina, tendo sido quase sempre desqualificados pelos médicos como “curandeiros” ou “charlatões”. 

Apesar de todo o poder e a influência conquistados aos poucos pelos médicos ao longo da segunda metade do século XIX, a resistência dos segmentos populares às novas concepções e práticas ditadas pela medicina permanecia muito grande, adentrando as primeiras décadas da República. Para os médicos, o grande problema a ser resolvido era a “ignorância” dos doentes, que insistiam em adiar ao máximo a entrada ou em fugir dos hospitais. Mas, para os pobres, era a própria internação que representava uma grande probabilidade de apressar o encontro fatal com uma indesejada morte solitária.

Márcio de Sousa Soares é autor da dissertação “A Doença e a Cura: saberes médicos e cultura popular na corte imperial” pela Universidade Federal Fluminense, 1999, e doutor em História Social pela mesma universidade.
Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Notícias História Viva

Arqueólogos búlgaros descobrem cidade pré-histórica mais antiga da Europa
Assentamento de 350 pessoas, com 6700 anos de idade, perto da cidade de Provadia, foi u rico centro produtor de sal



AP
Restos do muro da cidade pré-histórica encontrada em Provadia, considerada a mais antiga da Europa

Arqueólogos anunciaram a descoberta da cidade pré-histórica mais antiga da Europa no leste da Bulgária, onde foi encontrada também uma arcaica produção de sal, que teria sido a origem de grandes riquezas descobertas no local.

Escavações feitas no sítio, próximo à cidade moderna de Provadia, até agora revelaram os vestígios de um assentamento de casas de dois pavimentos, uma série de buracos no chão usados em rituais, assim como pedaços de um portão, estruturas de uma fortaleza e três muros de fortificação posteriores, todos com datação de carbono referente aos períodos Calcolítico (Idade do Cobre) médio e tardio, entre 4.700 e 4.200 anos antes de Cristo.

  


AP
Esqueletos de um adulto e duas crianças encontrados no cemitério da cidade pré-histórica descoberta na Bulgária

"Não estamos falando de uma cidade como as cidades-estado gregas, assentamentos antigos romanos ou medievais, mas do que arqueólogos concordam que tenha sido uma cidade no quinto milênio antes de Cristo", afirmou Vasil Nikolov, pesquisador do Instituto Nacional de Arqueologia da Bulgária, após anunciar as descobertas no começo do mês.

Nikolov e sua equipe trabalham desde 2005 em escavações do assentamento Provadia-Solnitsata, situado perto do resort de Varna, no Mar Negro.

Uma pequena necrópole também foi encontrada, mas ainda precisa ser estudada mais a fundo e poderá manter os cientistas ocupados por gerações.

O arqueólogo Krum Bachvarov, do Instituto Nacional de Arqueologia, afirmou que sua última descoberta é "extremamente interessante" devido às posições peculiares de sepultamento e dos objetos descobertos nas sepulturas, que são diferentes dos de outras sepulturas neolíticas encontradas na Bulgária.

"Os enormes muros no entorno do assentamento, que foram construídos muito altos e com blocos de pedra, também são algo que até agora não tinha sido visto em escavações de sítios pré-históricos no sul da Europa", acrescentou Bachvarov.

Bem fortificada, com um centro religioso e, mais importante, um grande centro de produção para uma commodity específica que foi comercializada por toda parte, o assentamento de cerca de 350 pessoas encontrou todas as condições para ser considerada a mais antiga "cidade pré-histórica" conhecida na Europa, afirmou a equipe.

"Em uma época em que não se conhecia a roda e a carroça, estas pessoas arrastaram enormes rochas para construir muros enormes. Por quê? O que escondiam atrás deles?", questionou Nikolov.

A resposta é o sal.

Precioso como ouro
A área é rica em grandes depósitos de sal rochoso, uns dos maiores no sul da Europa e o único a ser explorado até o sexto milênio antes de Cristo, disse Nikolov.

Isto é o que faz de Provadia-Solnitsata um local tão importante.

Atualmente, o sal ainda é extraído no local, mas 7.000 anos atrás, tinha uma importância completamente diferente.

"O sal foi uma commodity extremamente valorizada em épocas antigas, por ser necessário tanto para as vidas das pessoas e como um método de comércio e moeda a partir do sexto milênio a.C. até o ano 600 a.C.", explicou o cientista.

A extração de sal no local começou em 5.500 anos a.C., quando as pessoas começaram a ferver salmoura de uma fonte vizinha em estufas encontradas dentro do assentamento, disse Nikolov, citando os resultados de datação de carbono de um laboratório britânico em Glasgow, Escócia.

"Esta é a primeira vez no sul da Europa e no oeste de Anatólia que os arqueólogos encontraram traços de produção de sal em uma época tão remota, o fim do sexto milênio a.C., e conseguiram prová-la com dados arqueológicos e científicos", confirmou Bachvarov.

A produção de sal saiu do assentamento por volta do fim do sexto milênio e a produtividade aumentou gradualmente. Após ser fervido, o sal era cozido para formar pequenos tijolos.

Nikolov disse que a produção cresceu de forma permanente a partir de 5.500 a.C., quando uma carga das estufas de Provadia-Solnitsata rendia cerca de 25 quilos de sal seco. Por volta de 4.700 a 4.500 a.C., este volume tinha aumentado para 4.000 a 5.000 quilos de sal.

"Em uma época em que o sal era tão precioso quanto o ouro, você imagina o que isto significou", afirmou.

O comércio de sal deu à população local grande poder econômico, o que poderia explicar os bens em ouro encontrados em seputuras da Necrópole de Varna e que remontam a 4.300 a.C., sugerou Nikolov.
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Em 1755, Lisboa foi devastada por terremoto seguido de tsunami e incêndios

Devastação abriu caminho para a modernização da capital portuguesa e provocou impacto na filosofia e teologia do século 18

Luísa Pécora
Na manhã de 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos, Lisboa foi cenário de uma das maiores tragédias da história. Um terremoto seguido por tsunami e incêndios deixou milhares de mortos e igrejas destruídas no extremamente devoto Reino de Portugal, ironia que impactou o pensamento da época. A devastação da cidade, antes de traçado medieval, também possibilitou o nascimento do desenho atual das ruas da capital portuguesa.

O epicentro do terremoto foi a sudoeste da região do Algarve, a cerca de 300 quilômetros de Lisboa. Sua força foi tão grande - entre 8,7 e 9 graus, segundo estimativas atuais dos geólogos - que provocou um tsunami que afetou todo o Oceano Atlântico, do Oeste da Europa à América do Norte, e o Caribe e a costa do Brasil. Por fim, a ação de saqueadores e o fogo de velas acesas em meio aos destroços causaram múltiplos incêndios que duraram cinco dias e colaboraram para a destruição da quase totalidade da capital portuguesa.

Como há dados imprecisos sobre a população portuguesa antes de 1755, a estimativa do número de mortos varia de 10 mil a 100 mil. Cidades como Cascais, Setúbal e Peniche tiveram cerca de 1.500 mortes, e acredita-se que o tremor tenha causado vítimas também na Espanha e no Marrocos. Além de ter destruído ou danificado 23 mil construções, o tremor arruinou 87% das igrejas e 86% dos conventos e monastérios de Lisboa.
Foto: Chris Adams/ 2003
Convento do Carmo, que foi destruído pelo tremor

Segundo o estudo The Opportunity of a Disaster: The Economic Impact of the 1755 Lisbon Eartquake (A Oportunidade de um Desastre: O Impacto Econômico do Terremoto de Lisboa de 1755, em tradução livre), todo tipo de construção temporária foi proibida até que todos os escombros fossem retirados das ruas e um plano para toda a cidade fosse definido. O alinhamento das novas ruas e o plano de reconstrução do centro de Lisboa só foram aprovados três anos depois da tragédia.

Na capital portuguesa, diz o estudo, os esforços de reconstrução foram direcionados principalmente para o centro da cidade, completamente destruído pela tragédia. Antes de 1755, Lisboa lembrava uma cidade medieval, com ruas estreitas, desalinhadas e desorganizadas.

Como o terremoto destruiu praticamente todo o centro de Lisboa, o governo português viu isso como uma oportunidade para redesenhar a cidade e transformá-la em uma metrópole moderna, menos vulnerável a terremotos, indica o economista e escritor português Álvaro Santos Pereira, que elaborou o estudo na Universidade de York, Reino Unido.

Entre 1755 e 1838, cerca de 340 documentos sobre a reconstrução de Lisboa foram emitidos. As ruas da cidade se tornaram mais amplas e alinhadas, enquanto o governo incentivou a padronização de materiais e das fachadas dos prédios.
Foto: Reprodução
Gaiola, estrutura criada em Portugal, no século 18, para resistir a terremotos

Além disso, foi introduzida uma nova técnica de construção, a chamada gaiola, na qual uma estrutura tridimensional de madeira era embutida nas paredes de alvenaria. O objetivo era utilizar a madeira para dar resistência às construções, sem deixar de optar pela alvenaria, mais resistente a incêndios.

Crenças estremecidas

A tragédia estarreceu o mundo católico por ter atingido a capital de um reino que, por sua religiosidade e seu esforço de evangelização das colônias, acreditava que passaria incólume pelo castigo divino.

O desastre estremeceu as bases da filosofia otimista do alemão Gottfried Wilhelm Leibniz, que defendia que se vive no melhor dos mundos possíveis. Para ele, o mundo segue uma ordenação divina e os acontecimentos respeitam a vontade de Deus, que é justo e bom.
Foto: Reprodução
Gravura feita em Portugal sobre terremoto de Lisboa, de 1755

O francês Voltaire ironizou essa tese no conto filosófico Candide, de 1759. Na obra, o personagem Dr. Pangloss se mantém otimista até mesmo diante das maiores tragédias, como o terremoto de Lisboa. Para o francês, pensamentos similares ao de Leibniz poderiam levar a uma atitude passiva e, ao contrário, defendia a interferência do homem nos acontecimentos por meio de uma ação política racional.

Rousseau utilizou a destruição do tremor como um argumento contra as cidades, seguindo sua teoria do bom selvagem. De acordo com o pensador francês, a natureza do homem é boa, mas acaba sendo deformada pelos maus costumes ligados à organização social e, particularmente, aos vícios desenvolvidos no interior das cidades.
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domingo, 24 de março de 2013

Diferentes olhares sobre a abolição

 Keila Grinberg fala sobre duas produções cinematográficas – ambas agraciadas no Oscar – que retratam a escravidão nos Estados Unidos. Apesar da semelhança temática, a historiadora destaca as diferenças marcantes entre os dois filmes.

 Keila Grinberg




Na análise da historiadora, ao extrapolar deliberadamente os fatos históricos, ‘Django’ chama atenção para aspectos relevantes da escravidão. Já ‘Lincoln’ seapega ao realismo, mas mostra o lado mais conservador e branco da abolição.


Este ano começou bem para quem gosta de cinema e história, com a indicação de dois filmes sobre escravidão nos Estados Unidos. Lincoln, de Steven Spielberg, que recebeu 12 indicações e levou duas estatuetas (melhor ator e melhor direção de arte),aborda os quatro últimos meses da vida do presidente norte-americano Abrahão Lincoln (1809-1865), especificamente as negociações para aprovar no Congresso afamosa 13ª emenda à Constituição dos Estados Unidos, que viria a abolir formalmentea escravidão nos Estados Unidos.

Django, de Quentin Tarantino, que recebeu dois dos cinco prêmios para os quais foi indicado (melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante), retrata a vida do escravo Django que, ao ser libertado em 1858, passa a vida a tentar resgatar sua esposa, vendida para uma grande fazenda no Mississipi.

Não por acaso, os dois filmes abordam o mesmo período da história norte-americana, entre o fim da década de 1850 e 1865, quando findava a guerra civil que também pôs fim à escravidão no país. Tanto que, se aqui, para acompanhar o filme, um bom manual de instruções seria bem-vindo (sugiro o excelente livro Gerações de Cativeiro, de IraBerlin), lá esses fatos são de conhecimento geral.

Da mesma maneira, também não é fortuito que, mais uma vez, Spielberg e Tarantino estejam à frente de filmes históricos. Ambos gostam de história. E os dois desejam retratar temas históricos sensíveis a seus públicos, cientes do efeito que suas versões dos acontecimentos criam.

Basta lembrar como os dois retrataram a Segunda Guerra Mundial (A lista de Schindlere O resgate do soldado Ryan, de Spielberg, e, mais recentemente, Bastardos Inglórios, de Tarantino). Isso sem falar no anterior Amistad, no qual Spielberg já havia tratado do período do fim da escravidão, ao filmar a revolta de africanos que iriam para Cuba abordo do navio Amistad no fim dos anos 1840.


Spielberg e Tarantino gostam de retratar temas históricos sensíveis a seus públicos, cientes do efeito que suas versões dos acontecimentos criam. Além daescravidão, os dois retrataram a Segunda Guerra Mundial, em especial o Holocausto, em 'A Lista de Schindler', do primeiro, e 'Bastardos Inglórios', do segundo. (fotos: reprodução)

Tanto Tarantino quanto Spielberg tratam seus protagonistas como heróis. O Lincoln do filme é o visionário que conseguiu entender a importância histórica do momento e não mediu esforços para conseguir aprovar a abolição da escravidão; o Django do filme é um escravo que, bem à moda Tarantino, faz justiça com as próprias mãos, matando todo mundo que vê pela frente para conseguir reaver sua esposa. 


Realismo exacerbado x ficção deliberada

Mas as semelhanças param por aí. Spielberg quer construir sua versão da históriafazendo-a parecer o mais próximo possível da realidade-tal-qual-ela-foi. Suaambientação de época é impecável: o cenário, as roupas... Em tudo reconhecemos no filme aquilo que imaginamos ter sido os Estados Unidos de meados do século 19. Spielberg quer criar uma ilusão de verdade. Tanto que, ao final, nos perguntamos se o que aconteceu foi realmente assim, porque o filme nos faz crer que sim.
Os exageros de Tarantino não deixam margens de dúvida: é impossível que Django pudesse ter existido de verdade

Já Tarantino faz exatamente o oposto. Seus exageros não deixam margens de dúvida: é impossível que Django pudesse ter existido de verdade. Além da já deliberadamente estranha esposa – uma escrava chamadaBrunhilde, que fala alemão –, é claro que nenhum liberto poderia agir como ele, matando brancos a torto e a direito sem seratingido de volta. A força do argumento de Tarantino está na ação desmedida, inverossímil: ao contrário de Spielberg, que quer criar a ilusão no espectador de ter construído a história tal qual ela foi, Tarantino quer que o seu público tenha certeza de que ele faz uma versão da história como elanão foi.

E, no entanto, do ponto de vista da produção historiográfica contemporânea sobreescravidão, Tarantino formula questões muito mais acuradas do que as de Spielberg, e mesmo as imprecisões históricas parecem ter um sentido em seu filme. A cena da Ku Klux Khan, por exemplo, ridiculariza o racismo com humor – mesmo que, na vida real, o movimento só tenha surgido dez anos depois da época retratada no filme.


Para historiadora, as imprecisões históricas cometidas por Tarantino em 'Django' tem razão de ser. Na cena da Ku Klux Khan, por exemplo, o diretor ridiculariza o racismo com humor, mesmo que o movimento só tenha surgido de fato dez anos depois. (foto: reprodução)

Ainda no início do filme, o caçador de recompensas alemão Dr. King Schultz se surpreende ao saber que Django, um escravo, não só era casado, como estava atrás de sua esposa. E, de fato, este é um tema que por muito tempo vem sensibilizando os historiadores da escravidão. Como os escravos constituíam famílias? Como eram as suas relações amorosas, suas vidas privadas? Django parece mais um super-herói do que uma pessoa de verdade, mas sua busca para reaver sua esposa foi mais do que real para um sem-número de pessoas que viveram situações semelhantes naquelaépoca. Afinal, os escravos consideravam absolutamente injusto quando suas famílias eram separadas pela venda, e a revolta de Django certamente foi compartilhada pelos seus contemporâneos.
Do ponto de vistada produção historiográficacontemporâneasobre escravidão, Tarantino formulaquestões muito mais acuradas do que as de Spielberg

Por conta disso, tão importante quanto arepresentação da família escrava é a formacomo Tarantino trata a resistência escrava. Lá pelo meio do filme, um proprietário branco de escravos se pergunta: “por que eles não nos matam?”. Realmente: por quê? Por que todos os escravos não mataram seus senhores? Essa pergunta, que está na raiz da reflexãosobre as motivações da ação humana, dá o que pensar.

Sendo maioria, é de se surpreender que, navida real, os escravos não tenham se revoltado mais do que o fizeram. Talvez por isso Tarantino tenha criado um personagem tão violento e vingativo. Da mesmamaneira, a historiografia sobre a escravidão vem se colocando essas questões. O que motivava a ação escrava? Qual é o valor atribuído pelos escravos às suas liberdades? Qual foi a influência de suas ações individuais no processo geral de abolição daescravidão? 


Questionador x conservador

Quem assiste a Django não sai com respostas a nenhuma dessas perguntas, mas talvez fique com uma pulga atrás da orelha e pense quantas situações extremas e inusitadas o absurdo da escravidão criou para aqueles – principalmente os africanos e seus descendentes – que viveram em países como os Estados Unidos ou o Brasil no século 19.
O protagonista deLincolnpraticamente ignora todos os demais atores fundamentais parase entender o processo deabolição daescravidão nos Estados Unidos

O mesmo não acontece com Lincoln. É de se lamentar que Spielberg tenha escolhido aversão mais conservadora das interpretaçõessobre a abolição da escravidão nos Estados Unidos. O protagonista do seu filme praticamente ignora todos os demais atores fundamentais para se entender o processo deabolição da escravidão nos Estados Unidos: os republicanos do Norte, os abolicionistas, os descendentes de escravos livres e libertos e, principalmente, os próprios escravos, que contribuem fundamentalmente para o enfraquecimento do exército e da economiado Sul. O Lincoln de Spielberg aprova a 13ª emenda praticamente sozinho.

A abolição de Spielberg é feita por brancos ilustres, e os negros – escravos ou livres – são meros espectadores do processo decisório que levou ao fim da escravidão. É grave, para quem costuma ter a pretensão de apresentar a história tal qual ela foi.


Em 'Lincoln'’, Spielberg apresenta a versão mais conservadora das interpretaçõessobre a abolição da escravidão nos Estados Unidos. No filme, o movimento é feito por brancos ilustres e os negros são meros espectadores. (foto: reprodução)

Seja como for, acabo esta coluna reconhecendo o quanto o tema da escravidão continua sensível na memória coletiva norte-americana, e é natural e saudável que sejaassim. Escrevendo de um país onde a escravidão é tão ou mais importante para aconstrução da nação, fico me perguntando por que não temos mais filmes brasileirossobre a abolição da escravidão. Tema para o mês que vem. 

Keila Grinberg 
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Revista Ciência Hoje

Infância roubada

Historiador resgata história de órfãos obrigados a trabalhar em fazendas de nazistas e integralistas no interior de São Paulo no início do século 20.
Sofia Moutinho


Aloysio Silva, um dos órfãos entrevistados pelo historiador Sidney Aguilar para seu doutorado na Unicamp. (foto: Antoninho Perri/ Ascom Unicamp)


Quando o descendente de escravos Aloysio Silva tinha 11 anos, vivia no orfanato para meninos Educandário Romão de Mattos Duarte, no Rio de Janeiro. Em 1932, suainfância, e a de outros garotos da instituição, tomou um rumo diferente. Nesse ano, foi ao orfanato o fazendeiro Oswaldo Rocha Miranda com seu motorista. No pátio, todos os órfãos estavam reunidos quando o empregado começou a jogar balas no chão. Aloysio foi um dos que pegaram mais doces.

O que podia parecer motivo de alegria, no entanto, se mostrou um golpe do destino. Os meninos mais espertos, que juntaram mais balas, foram escolhidos e levados pelo fazendeiro. “Ele chegou e mandou encostar nós num canto lá, então separou nós como separa boi na mangueira”, lembra. “Da minha turma, ele tirou 20 e desses 20 tirou 10, de onde veio nós 10; ele mandou a superiora botar nós num lugar lá pra esquecer dos outros.”
Os meninos do educandário não mais foram chamados por seus nomes, receberam números de identificação e passaram a viver e realizar trabalhos forçados em fazendas no interior de São Paulo

A partir desse dia, os meninos do educandário não mais foram chamados por seus nomes, receberam números de identificação e passaram a viver e realizar trabalhos forçados em fazendas no interior de São Paulo da família Rocha Miranda, aristocratas que tinham aproximações com o nazismo e o integralismo – dois movimentos políticos de extrema direita, distintos, mas igualmente marcados pelas ideias eugenistas. Aloysio e seus colegas foram apenas os primeiros de quase 50 órfãos, a maioria negros, levados à força.

A descoberta dessa história ocorreu durante pesquisa feita pelo historiador Sidney Aguilar como parte de seu doutorado na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Aguilar dava aulas sobre a Segunda Guerra Mundial em um colégio de ensino médio quando uma aluna disse ter visto esculpida em tijolos de uma antiga fazenda paulista de Campina do Monte Alegre a suástica, insígnia nazista. O professor resolveu visitar a região e lá escutou a história dos meninos, entrevistando sobreviventes como Aloysio Silva. “O que me chamou a atenção não foram tanto as suásticas, mas os boatos que comecei a ouvir sobre esses órfãos e a forte presença integralista no local”, diz.

Os tijolos das fazendas dos irmãos Rocha Miranda exibiam símbolos nazistas e integralistas. (foto: Mário Franca/ Ascom Unicamp)

O pesquisador conta que alguns integrantes da família Rocha Miranda ocupavam a ‘Câmara dos Quarenta’, um dos órgãos superiores da Ação Integralista Brasileira (AIB). Um, Renato, era amigo próximo do líder do movimento, Plínio Salgado. Outros dois irmãos, Sérgio e Otávio, mantinham relação direta com membros do partido nazista. Sérgio era o dono da fazenda Cruzeiro do Sul, que exibia suásticas nos tijolos e no gado. Já Otávio vendeu uma de suas fazendas ao criminoso de guerra e ex-ministro do Estado nazista Alfried Krupp, que lá se instalou com mulher e filho depois do conflito mundial.

As aproximações políticas da família que ganhou a tutela dos órfãos chamaram a atenção de Aguilar. “Em meio a essas relações familiares e empresariais entre adeptos do integralismo e do nazismo, havia um grupo de 50 crianças submetidas a toda sorte de violência”, diz. “Depois de estudar documentos da época e das fazendas da família, o que descobri foi um projeto eugenista.”

De acordo com o pesquisador, os irmãos Rocha Miranda tinham um propósito ideológico ao retirar esses órfãos e levá-los para suas fazendas: queriam deixar a então capital livre de crianças negras e pobres. “A eugenia, pseudociência que buscava ‘a raça e o indivíduo perfeitos’, era muito forte no imaginário popular da época e, nesse caso, se deu por meio de práticas de afirmação de certos grupos e segregação de outros”, explica. “Nessa lógica, a transferência de crianças negras e pobres do Rio de Janeiro para o interior de São Paulo foi uma ação eugênica, uma vez que incidiu sobre órfãos (e para os eugenistas era muito importante saber a origem do indivíduo) e negros, considerados de raça inferior.”

Ao examinar documentos da época, Aguilar verificou que as transferências dos órfãos contavam com a concordância da Igreja, que mantinha o educandário, e do Estado, na figura do juiz que autorizou o processo, José Cândido de Albuquerque Mello Mattos, autor do primeiro Código do Menor do país. A tutela dos meninos era passada à família Rocha Miranda com a justificativa de que se tratava de ação filantrópica e educativa
.


Alunos da escola criada na fazenda Cruzeiro do Sul, onde os órfãos estudavam apenas por cerca de um ano. (foto: cedida por Sidney Aguilar)

Mas, segundo o historiador, ao chegar às fazendas, os órfãos tinham apenas um ano de escola com uma professora contratada. O restante de suas infâncias era gasto com trabalhos no campo. “Eles eram obrigados a acordar às cinco horas da manhã e tomar banho gelado em uma piscina coletiva mesmo no inverno”, conta Aguilar, com base nas entrevistas com sobreviventes e seus parentes. “Eles contam que faziam fila para receber a enxada e não podiam brincar sequer nas horas de descanso. Muitos morreram cedo, alguns fugiram e a maioria não se casou nem teve filhos.”


Momento oportuno

Nazismo e eugenia no Brasil são temas que despertam estranheza e curiosidade. Mas ambos tiveram forte presença por aqui. O Brasil chegou a ter o maior número de afiliados ao partido nazista fora da Alemanha. Já a eugenia tinha um espectro político amplo, abrangendo as ideologias nazista e integralista e até movimentos liberais e de esquerda.

Segundo o historiador Luis Edmundo de Souza Moraes, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), o pensamento eugenista era comum em todo o mundo no início do século 20. “Intelectuais alemães, norte-americanos e também brasileiros muito legitimados divulgavam ideias eugenistas. Os Estados Unidos tinham leis de eugenia desde 1907 e vários países europeus tiveram leis de esterilização de pessoas. A eugenia foi, no século 20, um fenômeno bem disseminado, que obviamente teve seus expoentes no Brasil.”
As transferências de órfãos para as fazendas da família Rocha Miranda terminaram, coincidentemente ou não, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os movimentos de extrema direita enfraqueceram

As transferências de meninos órfãos do Rio de Janeiro para as fazendas da família Rocha Miranda terminaram, coincidentemente ou não, nos momentos finais da Segunda Guerra Mundial, quando os movimentos de extrema direita enfraqueceram. Em 1938, foi proibida a existência de partido político estrangeiro no Brasil e, em 1942, o governo de Getúlio Vargas declarou guerra à Alemanha nazista. Aguilar conta que nesse momento a família Rocha Miranda mudou seu posicionamento político frente à sociedade e chegou a oferecer um dos meninos sob sua tutela para combater os alemães na guerra.

“Há duas versões para explicar o fim das transferências”, conta o historiador. “Uma delas é que Oswaldo Rocha Miranda, tutor oficial das crianças, ficou muito doente e transferiu os negócios para seu sobrinho, que liberou os meninos, mesmo os que ainda não tinham completado a maioridade. Mas tem outra possibilidade que é a influência do momento histórico, pois entre 1942 e 1943 as posições políticas colocavam integralistas e nazistas em uma situação muito delicada.”

O caso dos meninos do Educandário Romão de Mattos Duarte foi o único desse tipo que Aguilar encontrou durante sua pesquisa. Mas o historiador não descarta a possibilidade de que histórias semelhantes tenham acontecido em outras fazendas brasileiras no início do século 20. “Encontrei nas documentações eugenistas da época a ideia de que o trabalho deveria fazer parte da educação e formação das crianças pobres”, diz. “Esse discurso do trabalho como educação se transformava em uma forma de exploração sistemática do trabalho infantil pelas elites. É plausível que outros casos tenham ocorrido e sinceramente espero que esse trabalho sirva de motivação para mais pesquisas.”
Revista Ciência Hoje

segunda-feira, 18 de março de 2013

Hieróglifos bagunçam história da escrita na América

Encontradas inscrições com 2250 anos de idade em templo maia na Guatemala

Júlio Molica


O desenho reproduz os dez símbolos presentes no hieróglifo achado na Guatemala (arte: D.Stuart / Science ).
Em uma sala subterrânea de um templo maia na América Central, pesquisadores coordenados pelo antropólogo Willian Saturno, da Universidade de New Hampshire (EUA), acharam dez dos mais antigos hieróglifos da América, datados de 250 a.C. Os símbolos descobertos sugerem que a escrita pode ter surgido simultaneamente em dois locais no continente, ao contrário do que se pensava anteriormente.

Até então, a região de Oaxaca, no México, era considerada o berço da escrita na América. Nessa localidade, que foi habitada por povos da cultura olmeca, foram encontradas evidências de formas primitivas de escrita datadas de 300 a.C., mas há vestígios que sugerem uma origem até três séculos antes.


Bloco em que foram encontrados os hieróglifos em templo maia na Guatemala – clique na foto para ampliá-la 
(foto: B. Beltrán / Science )

Os hieróglifos encontrados na cidade de San Bartolo, na Guatemala, foram gravados em uma pedra com tinta preta aplicada sobre uma base branca. A rocha estava em uma sala nas profundezas do templo, construído entre 300 e 200 a.C. Os dez símbolos foram desenhados em forma de coluna e, segundo os pesquisadores, a seqüência parece ser o final de uma série de símbolos.

“O primeiro hieróglifo está incompleto, ao menos sua outra metade está faltando, mas é possível que um número considerável de símbolos tenha precedido o fragmento de texto que temos”, disse Saturno, em entrevista à CH On-line .

Em estudo publicado na revista Science de 6 de janeiro, os cientistas traduziram completamente um dos hieróglifos – o sétimo da seqüência reproduzida no desenho acima . Trata-se de uma versão primitiva de um símbolo maia que significa ‘Deus nobre’ ou ‘soberano’. Os pesquisadores destacam também as características pictóricas de alguns símbolos, tais como o segundo da série, que se assemelha a uma mão segurando um pincel.

Os hieróglifos são talvez o tipo organizado de escrita mais antigo do mundo. As primeiras inscrições encontradas são de 3000 a.C. e foram descobertas na ilha de Philae, no Egito. O termo, de origem grega, significa escrita ( glyphós ) sagrada( hierós ). Apenas os egípcios criaram cerca de 6900 diferentes símbolos, um dos fatores que tornou impraticável o uso dos hieróglifos.
De acordo com Saturno, a descoberta pode ajudar nos estudos sobre a evolução da escrita nas Américas. “O achado tem uma enorme importância, pois restringe a época histórica na qual a escrita se originou no território maia, o que permite direcionar os estudos”, explica o coordenador da pesquisa que, no mês passado, descobriu no mesmo templo maia diversas pinturas sobre as paredes. Os murais contavam a história da criação e continham explicações sobre os motivos do poder e do direito de um rei.

Júlio Molica 
Revista Ciência Hoje

Mussolini e a ascensão do fascismo


Marcos Gonçalves

Professor Adjunto do Departamento de Ciências Humanas - Faculdade Estadual de Filosofia, Ciências e Letras de Paranaguá - FAFIPAR - Universidade Estadual do Paraná - UNESPAR - 83203-280 - Paranaguá - PR - Brasil. E-mail: paideia_mg@yahoo.com.br

SASSOON, Donald. Mussolini e a ascensão do fascismo. Trad. De Clovis Marques. São Paulo: Agir, 2009, 200 p., ISBN 852200806x.

Em obra traduzida recentemente ao português, o sociólogo Michael Mann concluiu pela impossibilidade política de reaparecimento vigoroso do fascismo. A não ser pela eclosão dispersa de agrupamentos neofascistas na Europa Ocidental que teriam como princípio de ação o antiimigrantismo, Mann enumerou alguns fatores que desmotivam uma revitalização acentuada de tais movimentos.1

Parece-nos, no entanto, que o fascínio pelo tema é contínuo devido à preocupação crescente de historiadores e demais cientistas sociais, em estabelecerem marcos conceituais cada vez mais precisos para estudá-lo, classificando-o não somente dentro do seu contexto imediato de referência histórica, isto é, entre o fim das duas guerras mundiais do século passado, e, sim, como uma categoria ampla e de permeabilidade sócio-histórica significativa. Esta dupla razão tem implicado em que as interpretações sobre o fascismo sejam conduzidas pela originalidade na análise dos materiais e nas descrições tipológicas do fenômeno, consolidando-se daí, conteúdos de alcance multidisciplinar.

Não se cogitaria da mesma forma, em uma retomada pura e simples dos estudos sobre o fascismo que viesse a suprir apenas ambições intelectuais, se tomarmos em consideração os argumentos ainda presentes de Renzo De Felice, eminente historiador do fascismo e também, biógrafo de Mussolini. 2 Em meados da década de 1970, Renzo De Felice produziu uma clássica revisão historiográfica do fenômeno, e explicou que as primeiras tentativas de interpretação do fascismo correram contemporâneas a ele e seguiram o processo de sua afirmação. Segundo De Felice, foi apenas por breve período e imediatamente após a segunda guerra que a cultura européia, esgotada com um problema trágico que se queria esquecer e encerrar optou por um distanciamento de curta duração.3 A angustiante necessidade de entender o fascismo e suas variantes de ação e representação, sua violência, rituais e manifestações regionalizadas, fez com que o tema voltasse a ser objeto de indagações com renovada intensidade já no início dos anos 1960.

Desse modo, ao contrário de recuar, ou de ser eclipsada por modismos, a historiografia do fascismo exibe uma notável tendência de avanço e adensamento analítico constatada por recentes traduções que são recepcionadas em nosso meio.

Mussolini e a ascensão do fascismo, estudo de Donald Sassoon, professor de História Comparada da Europa na Universidade de Londres, se constitui como exemplo de excelente síntese de história política sobre a elevação do fascismo a regime político na Itália, berço do movimento.

Numa análise envolvente, ágil e de fôlego, Sassoon traça um painel conjuntural de uma Itália pós primeira guerra sendo rapidamente engolfada pelo fascismo. É dentro desse contexto que o autor estabelece o debate sobre as questões centrais, divididas em cinco capítulos de uma uniformidade ímpar. Sassoon está menos preocupado em investigar as razões de consolidação de uma ditadura e suas raízes intelectuais e ideológicas, ou nem sequer é atraído em saber por que Mussolini conseguiu manter-se durante vinte anos como Chefe de um Estado totalitário. A questão consiste em saber por que Mussolini chegou ao poder, ou seja, o motivo, considerando-se as circunstâncias relatadas, de um líder de um partido eleitoralmente impopular, sem apoio nacional nem controle dos militares, ser nomeado primeiro-ministro e receber o beneplácito da monarquia e de outras fontes de poder social.

Atento a esse problema,Sassoon se empenha em relativizar certos mitos legitimadores do fascismo. Um deles é a lendária "marcha sobre Roma", de outubro de 1922; o outro é a suposta penetração eleitoral dos fascistas. Neste segundo aspecto, embora o número de adeptos e militantes do fascismo viesse aumentando de forma constante nos primeiros anos da década de 1920, chegando em maio de 1922 a aproximados 322 mil membros, o fascismo nunca se caracterizou por ser uma força eleitoral antes da tomada do poder. Pressionado entre os dois maiores partidos italianos da época, o PPI (Partito Populare Italiano, católico) e o Partido Socialista, representante dos trabalhadores urbanos e da nova intelligentsia, o movimento fascista teve que recorrer a alianças. Reiterando os argumentos enunciados pelos estudos de Robert Paris e Stanley Payne,4 Sassoon indica que foi a aproximação com liberais e nacionalistas de direita o elemento favorável ao crescimento do fascismo:


Em termos eleitorais, o fascismo não fora um grande sucesso. A primeira eleição de que participaram, em 1919, revelou-se um desastre. (...) Os fascistas saíram-se um pouco melhor na eleição de maio de 1921, mas só porque estavam integrados ao blocco nazionale de Giolitti, juntamente com liberais e nacionalistas de direita. Não se pode dizer que Mussolini fora levado irresistivelmente ao poder numa onda de apoio eleitoral (p. 18-19).

A superestimação da "marcha sobre Roma" também é alvo da crítica de Sassoon. Pontuada de fina ironia, a descrição do autor sugere que a linguagem de Mussolini e seus acólitos para justificarem a chegada ao poder pintava um quadro de sublevação e celebrava a violência revolucionária. Impressões falsas que se legitimaram através das duas décadas do regime, destroçando a lembrança de que Mussolini fora designado primeiro ministro dentro de um quadro de legalidade constitucional, malgrado a crise política e econômica atravessada pela Itália no início dos anos 1920.

Neste sentido, é sombrio constatar com Sassoon, que boa parte do programa preliminar fascista visando recuperar e estabilizar a Itália depois da tremenda crise gerada pela primeira guerra, tinha pontos assemelhados, para mais ou para menos, com alguns itens do conteúdo programático de correntes liberais e socialistas. O autor assinala que o programa dos fasci não era abertamente de direita, pois encampava uma série de reivindicações que fugiam aos programas nitidamente conservadores, como, por exemplo: extensão do sufrágio às mulheres, recuo da idade de voto para 18 anos, abolição do Senado, salário mínimo, jornada de trabalho de 8 horas, representação dos trabalhadores nas empresas, imposto sobre a riqueza, confisco de bens da Igreja, imposto especial sobre os lucros da guerra (p. 63-64).

Dois substanciais fatores combinados ajudam a explicar, segundo Sassoon, a razão de ter o poder caído nas mãos dos fascistas: os resultados insatisfatórios da primeira guerra, e as fragilidades históricas do sistema parlamentar italiano.

Considerada uma potência imperialista de segunda classe no começo do século XX, a Itália aderiu à primeira guerra como aliada de franceses e britânicos por injunções e pressões dos entusiastas intervencionistas a favor do conflito, e pela promessa de futuras compensações financeiras e territoriais estabelecidas pelo Tratado de Londres, assinado em 1915. Tão logo encerrado o conflito, produziu-se um descontentamento generalizado em razão de o verdadeiro espólio de guerra recebido estar muito aquém das expectativas italianas. Esta herança mal digerida pelos promotores da presença italiana no conflito foi resumida pelo poeta D'Annunzio em poema no qual aludia à "vitória mutilada", e à humilhação sofrida por toda uma geração de jovens combatentes. Sassoon explicita que os beneficiários da guerra foram os grupos que formavam o grande triângulo industrial da Itália: Ansaldo (aço), Fiat (veículos), Pirelli (borracha). Enquanto a indústria italiana mostrava-se, como sempre, dependente do governo que era o seu principal comprador, o Estado se escorava nos bancos credores e nos impostos dos contribuintes para equilibrar seus orçamentos. Por seu lado, as associações de veteranos de guerra, além da construção de forte sentimento de comunidade, exigiam mais espaço político, e reconhecimento pelos sacrifícios que a experiência de violência e brutalidade de uma guerra tinham representado: "O número de baixas italianas na Grande Guerra foi muito alto: 650 mil mortos e um milhão de feridos" (p. 46).

Já, as debilidades do sistema parlamentar italiano são detectadas por Sassoon como algo enraizado na cultura política italiana, pelo menos, desde o processo de unificação na segunda metade do século XIX. Sem partidos fortes e estabelecidos, e com uma monarquia que pouco sensibilizava a audiência pública, o Estado italiano era, por conseguinte, um Estado fraco. O parlamento era basicamente uma arena em que os representantes dos interesses fundiários e os industriais entravam permanentemente em disputa em torno de cada lei ou medida financeira:


Da noite para o dia, adversários podiam ser transformados em aliados mediante suborno direto ou indireto - razão da designação pejorativa "transformismo" ser aplicada ao sistema. (...) Desenvolveu-se um sistema de "clientelismo", no qual os políticos prometiam empregos aos eleitores e seguidores, proteção e um constante fluxo de dinheiro público. Esse tipo de proteção pessoal dificultou o desenvolvimento de partidos políticos modernos e centralizados (p. 71-72).

O avanço do fascismo foi projetado, justamente, nesse quadro crônico de crise social e política em desdobramento. As primeiras percepções sobre o que era o fascismo foram casuais, fortuitas, e críticos antifascistas do futuro próximo, como os líderes comunistas Antonio Gramsci e Palmiro Togliatti apenas faziam menção breve sobre a violência dos fascistas, e, provavelmente, não viam nele, uma real possibilidade de vir a se tornar uma força política estável e candidata à governabilidade.

Através do emprego da violência, o fascismo foi gradativamente angariando adeptos nas zonas rurais e nas classes médias urbanas. Ao eleger o antiesquerdismo e o antisocialismo como fontes de todas as mazelas da Itália, Sassoon sublinha que o fascismo destruiu em pouco menos de dois anos a estrutura institucional do socialismo italiano. A uma velocidade que ninguém poderia ter previsto, descortinou-se aos proprietários de terras a perspectiva de ver o odiado sindicalismo rural liquidado por um movimento, o de Mussolini, que parecia mais capaz de representar suas aspirações de longo prazo: a defesa da propriedade privada, uma política externa nacionalista e a realização de obras públicas para fomentar a economia rural.

Ministros como o velho líder liberal Giollitti, e mais tarde Nitti, foram reiteradamente demonizados pagando o preço da excessiva concentração nas necessidades do setor industrial: "Relegados, os proprietários fundiários das províncias do norte e do centro contra-atacavam, tendo como arma principal os esquadrões do fascismo" (p. 103).

Sassoon reconhece que uma das grandes forças internas do fascismo foi seu expressivo contingente de jovens, sistematicamente propagandeado por Mussolini. Esta força também se materializou na base social do eleitorado fascista constituído por esmagadora maioria do sexo masculino. A juventude fascista enxergava a si como vanguarda imbuída de uma missão épica germinada na experiência dos conflitos, batalhas e da ruína da primeira guerra. Tal demografia juvenil, aliás, é fundamental para percebermos que a ideologia do fascismo, longe de ser difusa ou marcada pela assimetria, era sedutora por estabelecer fronteiras claras no discurso que reforçava as antinomias novo / velho, moderno / arcaico. O fascismo anunciava a construção do homem novo, apropriava-se das filosofias vitalistas e voluntaristas da época, opondo-se à direita tradicional, mais fiel aos valores conservantistas.

Sassoon pretendeu capturar o inusitado do acontecimento fascista a partir da cumplicidade construída pelo conjunto das elites italianas, que por sua posição de visceral antisocialismo preferiu fortalecer o que julgava ser um "mal menor", e temendo por suas posições consolidadas em face de possíveis avanços de socialistas e comunistas, não aceitaria que a Itália fosse um espelho dos recentes acontecimentos na Rússia. Segundo o autor, essas elites pretendiam transformar Mussolini em "criatura". As questões que as preocupavam eram a governabilidade e a "ordem pública", e Mussolini, que pouco tempo antes era apenas uma figura secundária e inexperiente na cena política, num momento estratégico apareceu como o "instrumento" a garantir a tranquilidade dos industriais, não atrapalhar os proprietários rurais, apascentar os sindicatos.

O estudo de Sassoon nos esclarece que a ascensão de Mussolini ao posto de primeiro ministro se não foi recebida com entusiasmo por algumas correntes políticas que, naquele momento, comungavam de projetos aparentados com o fascismo, pelo menos, recebeu desses mesmos setores uma adesão implícita, tornando-os ainda mais cúmplices, seja por omissão deliberada, seja por engajamento escancarado: "Assim, quando Mussolini assumiu, ouviu-se um coro de aprovação, oscilando entre o franco entusiasmo (os nacionalistas e a direita em geral) e a aceitação resignada do fato como um mal necessário (os liberais)" (p. 145). Isto é, antes Mussolini, do que a esquerda.

Embora a conciliação com a Igreja tenha representado uma árdua tarefa para os fascistas, ela se realizou plenamente em fevereiro de 1929. Neste ano, o Estado italiano selou a paz com o Vaticano assinando a Concordata e pondo fim à "questão romana" que se arrastava desde a unificação nas décadas de 1860/70. O acordo reconhecia a soberania do Vaticano, estabelecia indenizações a serem pagas à Igreja pelas perdas sofridas em 1870, reconhecia o catolicismo como "religião de Estado", determinava o ensino da doutrina católica em todas as escolas oficiais: "Não surpreende que o papa Pio XI considerasse Mussolini o homem 'que a Providência nos enviou'" (p. 152).

A contínua rediscussão do fenômeno fascista seja como evento historicamente localizado, ou como "grande unidade de análise", como bem posicionou Francisco C. Teixeira da Silva,5 encontra no estudo de Donald Sassoon um respaldo bibliográfico e metodológico de inegável contribuição. A partir de suas análises, os estudiosos motivados pelo tema podemos localizar hipóteses de trabalho, e insights reflexivos para (re) construir discursos derivativos e / ou elementos comparativos do fascismo. Além do que, podem-se estabelecer pontos de contato entre as múltiplas clientelas filofascistas que agem na cenografia política da contemporaneidade. Não obstante, sobre o fascismo, ou em relação ao que vem sendo chamado de neofascismo, devemos guiar-nos sempre pelas dúvidas e desconfianças quanto aos modelos teóricos que fecham a questão sobre os setores supostamente restritos que abraçam unicamente uma das possíveis tendências do fenômeno.



NOTAS

1 Dentre os fatores que o autor cita como potentes inibidores dos fascismos estão: 1) a democracia liberal consolidada em toda Europa ocidental; 2) a União Européia, cuja exigência de democracia é um pré-requisito para a entrada dos países pretendentes. Cf. MANN, Michael. Fascistas. Tradução de Clovis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2008.

2 Cf. DE FELICE, Renzo. Mussolini il rivoluzionario 1883-1920. Turim: Einaudi, 1965. Cf. _____. Mussolini il fascista. La conquista del potere 1921-1925. Turim: Einaudi: 1966.

3 Renzo de Felice também alude a certa inércia intelectual relacionada às três interpretações que se cristalizaram a partir da década de 1920: a liberal, a radical e a marxista. Essa cristalização teria impedido que os estudos a respeito do fascismo não somente deixassem de avançar para novos problemas, como também teria gerado posições acomodatícias por satisfazer adeptos das três correntes, num período marcado pela extrema ideologização da cultura política. Cf. DE FELICE, Renzo. Explicar o fascismo. Lisboa: Edições 70, 1977.

4 Cf. PARIS, Robert. As origens do fascismo. Tradução de Elisabete Perez. São Paulo: Perspectiva, 1993. Cf. PAYNE, Stanley G. El fascismo. Traductor: Fernando Santos Fontela. Madrid: Alianza Editorial, 2006.

5 SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Os fascismos. In: FERREIRA, Jorge; REIS FILHO, Daniel Aarão; ZENHA, Celeste. (Orgs.). O século XX. O tempo das crises: revoluções, fascismos e guerras. 4. ed. V. 2. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
Revista de História - Unesp

Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830)

Tereza Maria Spyer Dulci

Doutoranda pelo Departamento de História da FFLCH/USP – Av. Prof. Lineu Preste, 338 – Bairro: Cidade Universitária. São Paulo – SP. CEP: 05508-000. E-mail: terezaspyer@hotmail.com

FREDRIGO, Fabiana de Souza. Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830). São Paulo: Ed. UNESP, 2010, 290 p.

Simón Bolívar tem lugar cativo na memória política e social da América Latina, inclusive como mito inspirador de diferentes bandeiras político-ideológicas. Por sua vez, as versões históricas em torno das independências hispano-americanas foram construídas a partir dos próprios escritos do "Libertador", que criou uma identidade de "herói sem fronteiras".

Em seu livro Guerras e Escritas: a correspondência de Simón Bolívar (1799-1830), publicado pela Editora Unesp, a historiadora Fabiana de Souza Fredrigo, professora do Departamento de História da Universidade Federal de Goiás, investiga o culto a esse mito. Seu trabalho, que mescla história, memória, literatura e biografia, deu-se a partir da análise das cartas de Bolívar (2.815), buscando identificar os vínculos construídos entre a memória individual, a memória coletiva e a historiografia em torno das independências e de Simón Bolívar.

Sua análise é bastante original, já que utiliza as missivas para buscar a subjetividade de Bolívar e dos diferentes atores históricos que aparecem nas cartas. A historiadora procura apresentar o mundo do general a partir do contexto depreendido das correspondências, sem seguir a cronologia tradicional, pois seu objetivo central é investigar os temas mais relevantes do epistolário, debruçando-se sobre o que se tornou importante para Bolívar no contexto em que vivia.

O que lhe interessa não é compreender por que Bolívar foi escolhido ícone das independências latino-americanas, mas, sim, como ele produziu esta escolha ao criar seu próprio mito. Para a autora, "Simón Bolívar torna-se o Libertador, primeiro, por suas ações e suas palavras, tão valiosas como a espada; segundo, pelo efeito inebriante que o ideal de liberdade produz em meio à memória coletiva" (p. 64).

O livro é composto por três capítulos, ao longo dos quais a historiadora desenvolve a tese de que, ao escrever cartas, o general procurava construir um projeto de memória de si e dos outros (do indivíduo e do seu grupo/do remetente e do destinatário). Bolívar acreditava que suas memórias atingiriam e mobilizariam as gerações futuras, "tinha projetos urgentes em um presente concreto, mas sempre apontava para o futuro, guardião da sua imagem" (p. 47-48).

Para o missivista e seus contemporâneos, a consagração da memória era percebida como sinônimo de posteridade. A autora, ao fazer uma releitura do epistolário, afirma que o culto ao general teve o próprio Bolívar como seu principal arquiteto, já que seu projeto de memória foi construído a partir de uma cuidadosa escolha dos temas, de como escrever sobre eles e da constância das suas cartas. Segundo Fredrigo, em suas correspondências "Bolívar atuou como historiador, quando selecionou, registrou e arquivou os 'fatos'" (p. 271).

No primeiro capítulo, "As cartas, a história e a memória", a historiadora desenvolve suas reflexões a partir do cotejo das biografias de Bolívar com as missivas, buscando reconstruir as dimensões históricas do personagem. Ao identificar duas principais fases na vida do general – a das guerras de independência contra a Espanha, permeada de otimismo, e a das guerras civis entre as lideranças que tinham diferentes projetos para a América (o unitarismo de Bolívar versus o federalismo de Santander), carregada de ressentimento e pessimismo – a autora nos propicia um interessante panorama do autoexame feito pelo general em suas cartas, escritas com o objetivo de convencer o interlocutor e edificar o personagem.

Também nesse capítulo, a historiadora se preocupa em discorrer sobre as correspondências (que detêm status de fonte privilegiada) e discutir as relações entre história, memória e epistolário. Ao abordar as particularidades da fonte e analisar como estas foram apropriadas pela historiografia, Fredrigo analisa, com uma grande riqueza de detalhes, não apenas o contexto e a criação do mito, mas também seu estilo de escrita, as especificidades do discurso e a construção narrativa.

A autora traça igualmente um interessante panorama das apropriações do mito bolivariano na Venezuela, onde foi e continua sendo usado para representar a coesão nacional, seja pela elite do século XIX, seja durante a ditadura de Juan Vicente Gomes (1908-1935), ou a partir da revolução chavista e da República Bolivariana. Fredrigo leva o leitor a perceber que a historiografia bolivariana é repleta de anacronismos e que as palavras de Bolívar foram interpretadas por grande parte da historiografia como verdade histórica absoluta, sem crítica às fontes. Além disso, as biografias do general usam os mesmos marcos cronológicos e são geralmente estudos apologéticos. Para a historiadora, tanto as biografias quanto a historiografia, construídas desde sua morte, estabeleceram uma correlação entre a vida de Bolívar e o destino da própria América, como se Bolívar e América Latina formassem "uma só alma" (p. 68).

O segundo capítulo, "Guerra, honra e glória: atos e valores do mundo de Simón Bolívar", trata da constituição de uma memória particular dentro da memória coletiva, pois as cartas interpretavam o passado e tinham um projeto de futuro. Para a autora, Bolívar, consciente de que produzia memória, buscava atingir seus contemporâneos e as gerações futuras. Por sua análise, vemos que o general e seus pares, a elite criolla, formavam uma "comunidade afetiva" e tinham valores comuns, baseados na "guerra, honra e glória", valores que eram expressos e cultivados nas cartas, enquanto o povo era excluído dessa comunidade, mesmo que isso contrariasse a simbologia republicana.

Ao tratar dos diferentes atores históricos que aparecem nas missivas, a historiadora apresenta uma valiosa contribuição ao campo das identidades nacionais, demonstrando que estas tiveram de ser construídas no pós-independência para criar uma mesma comunidade de afiliação, "unindo os descendentes dos conquistadores aos descendentes dos conquistados" (p. 122), a partir de uma identidade focada em um projeto estatal republicano, federalista e oligárquico.

Para Fredrigo, Bolívar acreditava que era necessário construir uma narrativa que reforçasse o vínculo entre oscriollos e os cidadãos comuns, baseada na humanidade das tropas e nas dificuldades dos campos de batalha. "A guerra, a honra, e a glória", valores que teriam criado a coesão intraelite, não tiveram o mesmo efeito no povo, por isso Bolívar teria construído lugares de memória simultâneos, para os generais criollos e para os soldados, ao estabelecer uma imagem de si mesmo que reunia, ao mesmo tempo, as figuras de líder e de soldado.

Já o terceiro capítulo, "Construindo a memória da indispensabilidade: o discurso em torno da renúncia e do ressentimento", se detém na análise da principal estratégia utilizada por Bolívar nas missivas para edificar seu mito, qual seja, a criação de uma "memória da indispensabilidade". Essa memória foi articulada a partir de um discurso polifônico, fundamentado na evocação da "renúncia" e do "ressentimento", elaborado pelo general para refutar as acusações de autoritarismo e apego ao poder e para fortalecer a ideia de homem público dedicado incondicionalmente ao povo e à pátria. Para a autora: "É a partir da fusão entre a necessidade de legitimidade, determinada pelo jogo político do presente, e o desejo de memória, delimitado pela perspectiva do futuro, que o missivista constrói e solidifica a memória da indispensabilidade" (p. 190).

Esse capítulo é, certamente, o ponto alto do livro. Nele, ao analisar o epistolário em diálogo com a literatura e a biografia, a historiadora trata do romance de Gabriel García Márquez (GARCÍA MARQUEZ, 1989) e da biografia de Salvador Madriaga (MADRIAGA, 1953). Em ambos os casos, Fredrigo estuda o culto bolivariano e a apropriação que os dois autores fizeram da "memória da indispensabilidade" forjada por Bolívar. A ficção literária e a biografia, embora de formas distintas, acabaram por reiterar a imagem que o general criou de si mesmo para a posteridade.

Assim, a leitura deste livro constitui, sem dúvida, uma rara oportunidade de acompanhar a historiografia bolivariana e a construção deste mito, o cotidiano das tropas e das guerras de independência na América do Sul, bem como os embates entre a elite criolla e o povo.

Referências bibliográficas
GARCÍA MARQUEZ, Gabriel. O general em seu labirinto. Rio de Janeiro: Record, 1989. 
MADRIAGA, Salvador. Bolívar: fracaso y esperanza. México: Editorial Hermes, 1953. Tomos I e II. 
Revista de História - Unesp

Notícias História Viva

Túmulos contam histórias de SP por meio de esculturas e desenhos

RENATA MIRANDA

Um palco cinza com uma cortina verde de concreto chama a atenção em meio aos tradicionais crucifixos e mensagens religiosas espalhadas pelos túmulos do cemitério São Paulo, em Pinheiros, zona oeste. Desde meados dos anos 1950, descansam ali, no Mausoléu do Ator, 26 personalidades do meio artístico, entre comediantes, circenses e radialistas que atuaram na capital no início do século 20.
O mausoléu é apenas um entre centenas de túmulos curiosos --seja pelos detalhes incomuns que os ornamentam ou pelas suntuosas esculturas de artistas renomados que os enfeitam--, presentes nos 41 cemitérios públicos e privados da capital. Nos locais, personalidades das histórias paulistana e nacional dividem a atenção com desconhecidos que, às vezes, têm túmulos até mais interessantes que os vizinhos.

A poucos metros de onde estão enterrados os artistas, também no cemitério São Paulo, fica o Mausoléu dos Esportistas Veteranos, onde está o corpo do jogador Arthur Friedenreich, uma das primeiras estrelas do futebol paulista. O túmulo é uma celebração ao esporte e tem, além de desenhos de esportistas, uma escultura de um atleta com os músculos torneados segurando uma espécie de tocha olímpica.
Ilustração Eduardo Medeiros 

A cerca de cinco quilômetros dali, o cemitério da Consolação funciona como um museu a céu aberto, com mais de 300 obras de escultores famosos como Victor Brecheret e Bruno Giorgi.

"As pessoas costumam associar cemitério com morte, mas, se formos observar esses locais pelo lado da cultura, podemos aprender muito sobre a história da cidade", diz o jornalista Douglas Nascimento, editor do site São Paulo Antiga (www.saopauloantiga.com.br ), que investiga casos curiosos da capital.

Foi com esse intuito que o Serviço Funerário do município decidiu organizar visitas monitoradas ao local, onde estão enterrados nomes como Monteiro Lobato e Mário de Andrade. É ali também que está o mausoléu da família Matarazzo, que, com uma série de esculturas, é considerado um dos maiores da América Latina.

O geógrafo e historiador Eduardo Rezende acredita, porém, que ainda falta um programa mais amplo de monitoria que englobe outros cemitérios. "O paulistano deveria fazer mais esse tipo de visita para conhecer a história da cidade", diz Rezende, que pesquisa o assunto há dez anos e já lançou oito livros sobre o tema. "Tem gente que já visitou o Père-Lachaise, em Paris, mas nunca foi até o cemitério do Araçá."

No cemitério da Quarta Parada, na zona leste, um monumento com colunas de estilo romano e uma escultura de leão deitado não chama atenção só pela imponência mas também por sua história. Ali está enterrada uma domadora que morreu em serviço. Seu nome e a data de morte são uma incógnita, já que a placa foi furtada.

Outro túmulo que atrai um grande número de visitantes é o do morador de rua Antonio Bento, mais conhecido como o santo popular Bento do Portão, no cemitério de Santo Amaro, zona sul. Conhecido por realizar milagres, ele tem sua sepultura coberta de placas de agradecimento.

"Hoje em dia quase não temos mais túmulos assim porque, além de custar muito caro, não há mais artistas especializados nesse tipo de escultura", afirma Nascimento, do São Paulo Antiga.

Não são só os enfeites dos túmulos que têm preços altos --as concessões dos terrenos também não são nada baratas. O valor do metro quadrado nos cemitérios Consolação, São Paulo, Araçá e Quarta Parada, que são os públicos mais caros, é R$ 3.662,22, segundo o Serviço Funerário. Assim, um túmulo de cerca de 5 m2 sai por quase R$ 20 mil. O valor pago, no entanto, não garante a manutenção, do espaço, cuja responsabilidade é da família.

SERVIÇO
Cemitério da Consolação. R. da Consolação, 1.660, Consolação, região central. Visitas monitoradas: ter. e sex.: 9h e 14h; agendamento pelo tel. 0/xx/11/3396-3832.
Cemitério da Quarta Parada. Av. Salim Farah Maluf, s/nº, Água Rasa, região leste.
Cemitério do Araçá. Av. Dr. Arnaldo, 666, Cerqueira César, região oeste.
Cemitério Santo Amaro. R. Min. Roberto Cardoso Alves, 186, Santo Amaro, região sul.
Cemitério São Paulo. R. Cardeal Arcoverde, 1.217-A, Pinheiros, zona oeste.
Folha de S. Paulo

sábado, 9 de março de 2013

O vilão da Bíblia

Quem foi Herodes, rei brilhante e cruel

  Tom Mueller Fonte:
NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL

Michael Melford




Erguido por Herodes, o palácio em três níveis desce pela encosta norte de Masada - a realização de um soberano há muito vilipendiado, mas hoje reconhecido como um arquiteto magistral. Com técnicas de construção romanas, ele criou obras-primas de assombrosa beleza

Quase 13 quilômetros ao sul de Jerusalém, onde as últimas oliveiras mirradas começam a se confundir com as extensões áridas do deserto da Judéia, ergue-se um morro, um cone íngreme de topo plano, parecido com um pequeno vulcão. Ali fica o Herodium, um dos grandiosos empreendimentos arquitetônicos de Herodes, o Grande, rei da Judéia que transformou uma pequena colina em um imponente monumento de cantaria alvacenta e o circundou de palácios recreativos, enormes piscinas e jardins em terraços. Governante astuto e generoso, general brilhante e um dos mais imaginativos construtores do mundo antigo, Herodes elevou seu reino a um patamar de prosperidade e poderio até então jamais visto. Contudo, ele ainda é mais conhecido como o dissimulado e homicida monarca do Evangelho segundo Mateus, o homem que mandou massacrar todos os meninos de até 2 anos que viviam em Belém, em uma fracassada tentativa de eliminar o recém-nascido Jesus, que, de acordo com a profecia, estava destinado a ser o rei dos judeus. No decorrer da Idade Média, Herodes tornou-se a própria figura do anticristo: em manuscritos iluminados e gárgulas góticas, ele é retratado arrancando a própria barba em fúria e brandindo a espada contra as crianças enquanto o demônio lhe sussurra ao ouvido. Mas é quase certo que Herodes é inocente desse crime, mencionado apenas no relato de Mateus. Isso não o isenta da morte de outras crianças, entre as quais três de seus filhos, assim como de sua mulher, de sua sogra e de vários outros membros da corte. Toda a sua existência foi marcada por uma mescla de criatividade com crueldade, de harmonia com caos de uma forma que extrapola os limites de nossa imaginação moderna.

O arqueólogo israelense Ehud Netzer passou as últimas cinco décadas empenhado na descoberta do verdadeiro Herodes, não em palavras, mas em blocos de pedra. Netzer escavou muitos dos principais locais construídos por Herodes na Terra Santa, explorando os palácios habitados pelo soberano, as fortalezas em que combateu, as paisagens nas quais se sentia mais à vontade. Dentre as inúmeras obras realizadas por Herodes, o Herodium é a única que faz referência a seu nome. Foi ali, no término de uma carreira audaciosa e sanguinolenta, que seu corpo foi colocado em um majestoso mausoléu.

O local exato do túmulo de Herodes permanecera um mistério durante quase dois milênios, até que, em abril de 2007, Netzer e seus colegas da Universidade Hebraica de Jerusalém o encontraram, na encosta superior do Herodium. Essa descoberta lança novas luzes sobre uma das personalidades mais intrigantes do mundo antigo, e revela indícios do ódio que Herodes despertava entre seus contemporâneos. Também provocou um incidente político: os palestinos argumentaram que os artefatos recuperados no sítio arqueológico lhes pertenciam por direito, enquanto os colonos judeus afirmaram que a presença do túmulo confirmava as reivindicações judaicas pelo território da Cisjordânia. Para Netzer, cujas escavações de vários sítios associados a Herodes já foram interrompidas por guerras, invasões e revoltas, a controvérsia não tem nada de novo. Na Terra Santa, a arqueologia é um tema tão político quanto a própria soberania.

Herodes nasceu no ano de 73 a.c. e foi criado na Judéia, um reino situado no âmago da antiga Palestina e que na época estava convulsionado por conflitos civis e dilacerado entre inimigos poderosos. A dinastia dos macabeus, que haviam governado a Judéia por 70 anos, estava dividida por feroz disputa pelo trono entre dois príncipes irmãos, Hircano II e Aristóbolo II. O reino, por sua vez, estava no centro de um conflito geopolítico mais amplo, entre as legiões romanas a norte e a oeste, e os partos, inimigos de Roma, a leste. O pai de Herodes, principal conselheiro de Hircano e general talentoso, acabou alinhando-se aos romanos, que expulsaram Aristóbolo e fizeram de Hircano o soberano da Judéia.

Desde pequeno, Herodes pôde comprovar os benefícios de uma boa convivência com os romanos - posição que sempre foi considerada uma traição do povo judeu - e foram esses poderosos aliados que acabariam por colocá-lo no trono. Durante toda a sua trajetória, ele tentou reconciliar as demandas romanas com as de seus súditos judeus, que zelavam por sua independência política e religiosa. A manutenção desse frágil equilíbrio tornara-se tarefa ainda mais difícil em função da história familiar de Herodes: a mãe dele era de uma etnia árabe, e o pai, um edomita. Embora tenha sido criado como judeu, Herodes estava longe de partilhar o prestígio social das poderosas e antigas famílias de Jerusalém, dignas de fornecer os sumo-sacerdotes, como havia sido o caso dos soberanos macabeus. Muitos de seus súditos consideravam Herodes um forasteiro - um "semijudeu", como diria mais tarde seu primeiro biógrafo, o soldado e aristocrata judeu Flávio Josefo - e continuaram a lutar por uma teocracia macabéia. Em 43 a.C., o pai de Herodes morreu envenenado por um agente macabeu. Três anos depois, quando os partos invadiram a Judéia, uma facção macabéia rival aliou-se aos invasores, depôs e mutilou Hircano e voltou-se contra Herodes.

Naquele momento de crise, Herodes buscou a ajuda dos romanos. Escapou de Jerusalém com a família e, após derrotar os partos e seus aliados judeus em uma batalha no local em que mais tarde ergueria o Herodium, ele viajou até Roma, onde o Senado, reconhecendo sua inabalável lealdade, o nomeou rei da Judéia. Herodes deixou o edifício do Senado de braços dados com dois dos homens mais poderosos do mundo romano: Marco Antônio, o soldado e orador que governava a parte oriental do Império Romano, e Otaviano, o jovem que comandava a região ocidental - e que, nove anos mais tarde, derrotaria Marco Antônio e ficaria à frente de todos os domínios romanos, adotando em seguida o título imperial de "Augusto". Depois, em um ato que simbolizava os inúmeros compromissos que teria para se manter no poder, Herodes liderou a procissão até o alto do monte Capitolino, onde ficava o Templo de Júpiter, o santuário mais sagrado dos romanos, e ali o rei da Judéia ofereceu um sacrifício às divindades pagãs de Roma.

Herodes agora tinha seu reino, mas ainda lhe faltava conquistá-lo, e isso exigiu três anos de duros combates. Por fim, em 37 a.C., ele conseguiu dominar Jerusalém e, pelo menos politicamente, tinha a seus pés toda a Judéia. Para reforçar sua autoridade social e religiosa, ele divorciou-se da primeira esposa, Doris, e casou-se com Mariamne, uma princesa macabéia. Mas isso não eliminou a ameaça dos macabeus. Dois anos depois, durante o festival religioso de Sukkot, o irmão adolescente de Mariamne, e sumo-sacerdote do Segundo Templo, foi alvo de uma calorosa manifestação de apoio por parte da multidão de devotos. Temeroso de que o jovem viesse a usurpar o trono, Herodes arranjou para que o afogassem em uma piscina de seu palácio em Jericó.

Os macabeus não eram o seu único motivo de preocupação. Entre os anos de 42 e 31 a.C., enquanto Marco Antônio governava a porção oriental do império, Herodes sempre se mostrou amigo e aliado confiável. E isso a despeito das ambições de Cleópatra, a bela rainha egípcia que se casara com Marco Antônio e convencera o apaixonado marido a lhe transferir partes seletas do reino de Herodes, a quem ela tentou até mesmo seduzir - ele preferiu esquivar-se a essas investidas amorosas. Em 31 a.C., a paisagem política sofreu uma reviravolta com a Batalha de Ácio, na qual Otaviano derrotou os exércitos de Marco Antônio e Cleópatra, tornando-se o primeiro imperador de Roma. Consciente de que Otaviano não veria com bons olhos a longa amizade com Marco Antônio, Herodes correu para a ilha de Rodes a fim de encontrar-se com o novo imperador e apresentou-se a ele sem a coroa, mas com toda a sua dignidade régia. Em vez de minimizar sua devoção a Marco Antônio, Herodes preferiu ressaltá-la, prometendo servir a seu novo senhor com a mesma fidelidade. Otaviano ficou de tal modo impressionado com a postura de Herodes que acabou por confirmá-lo como soberano da Judéia, e depois ainda acrescentou outros territórios a seus domínios, comentando que a megalopsychia de Herodes - a sua grandeza de espírito - mal se adaptava a um reino tão pequeno quanto a Judéia.



Nas duas décadas de prosperidade econômica e de relativa paz que se seguiram, Herodes fez de sua corte um centro de cultura helenística e romana, reunindo a seu redor alguns dos principais estudiosos, poetas, escultores, pintores e arquitetos tanto do Ocidente como do Oriente. Ele era generoso para com seus súditos em épocas de fome e desastres naturais, e também ao beneficiar regiões fora de seus domínios, como a Grécia e a Ásia Menor. (Os cidadãos de Olímpia ficaram tão gratos pelas abundantes doações de Herodes que o elegeram agonothete, "presidente", dos Jogos Olímpicos.) E empenhou-se em um programa de obras civis de extraordinária dimensão e criatividade. Como o litoral norte da Judéia não contava com as condições naturais para receber embarcações de grande calado, ele ordenou que se construísse ali um porto de águas profundas, lançando mão de inovadora técnica para erguer um quebra-mar com blocos maciços de concreto hidráulico. Em Masada, o palácio setentrional de Herodes despenca por um penhasco em três plataformas estreitas, criando uma residência aérea e luminosa e também uma fortaleza inexpugnável. Na reconstrução do Segundo Templo, Herodes usou nos alicerces blocos de pedra com mais de 12 metros de comprimento e 600 toneladas. O que resta hoje dessa obra monumental, o Muro das Lamentações, é o local mais sagrado do judaísmo. E, sobre ele, foi erguido o terceiro lugar mais venerado pelos muçulmanos, o Domo da Rocha.

A magnificência e a prosperidade do reinado de Herodes ocultavam, porém, a turbulência de sua existência privada. Como muitos soberanos helenísticos da época, ele tinha uma família numerosa- dez esposas e mais de uma dúzia de filhos - e atrabiliária, cujas freqüentes conspirações estimulavam sua crueldade e paranóia. Em 29 a.C., durante um surto de ciúme manipulado por sua irmã Salomé, Herodes mandou executar sua esposa Mariamne, embora ainda a amasse profundamente, e mergulhou nos meses seguintes na mais negra depressão, repetindo o nome dela como se quisesse chamá-la de volta da terra dos mortos. Nos últimos anos de sua vida enviou ao exílio três de seus filhos por causa de supostas conspirações para derrubá-lo. E refez seu testamento nada menos que seis vezes. Em sua derradeira enfermidade, Herodes concebeu um esquema para que todo o reino mergulhasse no luto quando partisse deste mundo, ordenando a suas tropas que detivessem no hipódromo de Jericó os mais eminentes cidadãos da Judéia e os massacrassem no momento em que fosse anunciada a sua morte. (Felizmente para esses indivíduos abastados, a ordem não foi cumprida.)

A doença terminal de Herodes, tal como toda a sua trajetória, fugiu aos padrões normais - pelo menos segundo Flávio Josefo, que relaciona com mal contido regozijo os sintomas que afligiram o soberano: dores internas e sensações de ardor, inchaço nos pés, convulsões, apetite desenfreado, úlcera no cólon, órgãos genitais putrefatos e tomados por vermes e um mau hálito medonho. Gerações de estudiosos exercitaram a imaginação na tentativa de identificar a moléstia que deu cabo de Herodes, propondo vários diagnósticos, entre os quais sífilis, diabetes com cirrose do fígado e uma enfermidade renal complicada por gangrena de Fournier. Todavia, em última análise, o que mais afligiu Herodes pode ter sido um biógrafo hostil. Na verdade, os sintomas mencionados por Josefo faziam parte de um repertório de moléstias venéreas e humilhantes, em geral consideradas sinais da ira divina, que durante séculos foi usado por historiadores gregos e romanos para vilipendiar governantes maléficos. No entanto, o relato que Josefo fez do cortejo no funeral de Herodes sugere o respeito, e até mesmo devoção, que os súditos ainda sentiam por ele. Em Jericó, onde Herodes morreu, em 4 a.C., seu corpo foi colocado em um ataúde dourado, ornado de pedras preciosas e envolto em púrpura régia, com um cetro na mão direita e uma coroa de ouro na cabeça. Os numerosos familiares alinharam-se em torno do esquife, ao lado das tropas, envergando o uniforme completo de combate, e dos 500 criados e escravos libertos que carregavam especiarias. Todos juntos acompanharam o corpo de Herodes por 40 longos e escaldantes quilômetros, na direção sudoeste, até um morro cônico na borda do deserto. E ali o depuseram para seu descanso eterno.

Dois milênios mais tarde, visitei o Herodium com Ehud Netzer, em uma gélida e ventosa manhã de fevereiro. Com 74 anos, Netzer é um homem atarracado e forte. Estacionamos ao pé da colina, próximo a um vilarejo de casas de blocos de concreto, habitadas pelos beduínos da etnia taamra, onde uma placa de 2 metros declara que, por lei, a entrada ali está proibida aos cidadãos israelenses. "Eu costumava comer e tomar chá por aqui, nas casas dessa gente", comenta Netzer. "As crianças do vilarejo iam brincar nas escavações. Mas aí veio a primeira intifada [revolta], a de 1987, e tudo isso acabou."

O trabalho de Netzer no Herodium, assim como sua vida, foi marcado pelos acontecimentos políticos, pela violência e pelas guerras. Criado em Jerusalém, a casa de sua família foi bombardeada pela forças árabes quando tomaram a parte oriental da cidade, em 1948, pouco antes da fundação do Estado de Israel. Arquiteto de formação, Netzer começou a participar de escavações arqueológicas nas férias de verão na década de 50. Ele continuou a praticar ambas as atividades, garantindo as escavações graças ao talento empresarial que aperfeiçoara como arquiteto, ao levantar parte dos recursos financeiros, empregar estagiários e transportar pessoal e equipamentos para os sítios na própria van.

Seu primeiro encontro com Herodes ocorreu em 1963, quando iniciou um período de três anos como arquiteto da equipe encarregada da histórica escavação de Masada, o complexo fortificado erguido por Herodes no topo plano de um morro que dá para o mar Morto. Em 1967, quando a Guerra dos Seis Dias e a subseqüente ocupação da Cisjordânia tornaram acessíveis aos arqueólogos israelenses vários sítios associados a Herodes, Netzer começou a explorar dois dos mais promissores, em Jericó e no Herodium, e depois escavou vários outros. "Topei com tantos projetos e soluções arquitetônicos inusitados que aos poucos cheguei à conclusão de que havia uma única inteligência por trás de todos - que Herodes tinha um profundo entendimento de arquitetura e urbanismo, e desempenhou papel ativo na realização de muitas dessas obras."

Netzer me conduz pela trilha de cascalho até o local das escavações. Em seguida, durante várias horas serpenteamos e subimos a encosta do morro, passando por bodes que pastavam entre touceiras de cardos e pequenos arbustos de malva - enquanto ruínas maciças lembravam o paraíso que Herodes havia erguido na borda do deserto, como uma miragem concretizada.

O Herodium compõe-se de dois setores principais: a cidade-jardim do Herodium Inferior, aos pés da colina e nas encostas mais baixas - ao ser construída, provavelmente era o maior complexo de mansões em todo o mundo romano -, e o imponente palácio fortificado do Herodium Superior, no topo do morro, cuja maciça Torre Oriental de cinco andares, há muito arruinada, antes dominava o horizonte. "Este é um sítio complicado, pois se encontra em terreno íngreme, disposto em vários níveis, e apresenta abundância de material", conta Netzer quando começamos a subir a encosta para o Palácio Inferior. "É um imenso enigma em quatro dimensões, porque o tempo também é relevante aqui."




Não muito longe de onde havíamos estacionado, Netzer me mostra o Grande Lago, onde começou as escavações em 1972: um tanque retangular de alvenaria, circundado por graciosa colunata branca, que antes era uma piscina para natação quase tão grande quanto um campo de futebol. No decorrer dos anos, aos poucos ele foi reunindo outras peças do quebra-cabeça do Herodium, experimentando e descartando hipóteses sobre a identidade de cada estrutura até que se encaixassem no contexto geral do sítio. Nas encostas mais baixas caminhamos por um patamar, com cerca de 30 metros de largura e quase 3,7 mil metros de comprimento, que fora escavado na encosta. "No início pensamos que fosse um hipódromo", comenta Netzer quando chegamos à plataforma. "Mas depois concluímos que era estreito demais para as curvas das carruagens. Por isso achamos que se tratava de uma área de desfiles cerimoniais, e que foi por ali que passaram as tropas de Herodes em seu funeral."

A formação de Netzer como arquiteto lhe permitiu reconhecer, em fotos aéreas, os exatos eixos de simetria que vinculavam os edifícios nas porções inferior e superior do Herodium. Um desses eixos estende-se na direção norte-sul através do centro da fortaleza no cume do morro e também do Palácio Inferior na encosta mais embaixo. Outro, fazendo um ângulo de cerca de 30 graus em relação ao primeiro, seccionava tanto a Torre Oriental como o Grande Lago. Isso significa que o Herodium foi construído de acordo com um plano geral e abrangente - na opinião de Netzer, concebido pelo próprio rei. "É bem possível que fosse a representação de uma cidade ideal, imaginada por Herodes", diz ele. "Com seu ordenamento, seus edifícios palacianos, colunatas e água corrente, criou uma atmosfera de paz e tranqüilidade que provavelmente lhe fazia falta em outras partes." E toda essa beleza foi gerada por um indivíduo que matou sua mulher e seus filhos, torturou membros de sua corte e passou longos meses balbuciando coisas desconexas, tomado de loucura.

Em 1972, ao começar a escavar o Herodium, Netzer não estava especialmente interessado em achar o verdadeiro local em que Herodes fora sepultado. Mas, com o passar do tempo, isso acabou se tornando uma obsessão. "Nós quebramos a cabeça com a questão do túmulo", diz Netzer sorrindo, empregando uma expressão corriqueira em hebraico. No início de 2006, em seguida à segunda intifada, ele tentou nova abordagem. "Disse a mim mesmo: há anos estamos escavando no Herodium Inferior, sem encontrar o túmulo. Talvez seja melhor tentar num trecho mais alto do morro." Foi aí que escolheu um ponto elevado na encosta, não muito longe da Torre Oriental, onde a intuição lhe disse que a irregularidade em uma muralha talvez fosse o sinal da presença de uma estrutura subjacente.

Netzer e eu alcançamos o local quando a voz de um muezim soa no minarete do vilarejo mais embaixo, conclamando os fiéis às orações. Uma plataforma fora aberta na vertente, expondo um muro de 9 metros, composto de blocos de calcário bem cortados e reluzentes. Yaakov Kalman e Roi Porath, da equipe de escavação, haviam acabado de interromper o trabalho com outros cavadores para fazer uma refeição de azeitonas, castanhas, cebolinhas-brancas, pasta de grão-de-bico e tâmaras polpudas e adocidadas. No outono de 2007, meses antes de iniciar os trabalhos no novo sítio, a equipe de Netzer começou a encontrar belos fragmentos de um refinado objeto talhado em calcário duro e rosado, um dos quais trazia uma roseta ornamental típica da arte funerária. Por e-mail, Porath enviou fotos a Netzer, que não estava no sítio na ocasião, com uma questão candente: "Um sarcófago?"

Então, em 27 de abril de 2007, a lâmina do enxadão de Porath ressoou, indicando que topara com algo maciço e duro. Pouco a pouco ele expôs à luz três blocos maciços de calcário branco conhecidos como meleke, um termo em árabe que significa "régio". "Pela qualidade da pedra, a alvenaria requintada e a abundância de ornamentos, logo vi que se tratava de um achado importante, parte de uma estrutura enorme e majestosa", conta Porath. Ele então ligou para Netzer, que estava no carro com sua mulher, Dvorah. "Ehud ficou muito calmo durante a conversa", lembra-se ela. "Perguntou a Roi sobre detalhes da cantaria e concordou que era diferente de tudo o que já haviam encontrado no Herodium." Ele desligou, ergueu as mãos no ar e gritou "Yesh!" Essa é uma expressão só usada por jovens - "Ehud jamais fala desse jeito! Eu nunca o vi tão feliz assim."

Netzer e seus colegas acreditam que o monumento se erguia a 24 metros de altura, com um primeiro andar em forma de cubo, um segundo andar cilíndrico e um imenso e afunilado teto, tão pontudo quanto a torre de uma igreja. Pedaços de dois outros sarcófagos, elegantemente entalhados mas feitos de pedra menos nobre, foram em seguida achados nas proximidades, assim como alguns ossos humanos. A essa altura, restavam poucas dúvidas de que o túmulo de Herodes havia sido encontrado.

O estado dos fragmentos dos sarcófagos comprova que eles foram deliberadamente destruídos. Aquele feito de calcário rosado foi alvo de fúria selvagem, tendo sido despedaçado em centenas de fragmentos. Essa destruição ocorreu cerca de 70 anos após a morte de Herodes, quando combatentes judeus ocuparam o Herodium durante duas breves e fracassadas rebeliões, conhecidas como a Primeira e a Segunda Revolta Judaica, contra as legiões romanas. "Eles consideravam Herodes um colaboracionista dos romanos, um traidor da fé e da independência política dos judeus", explica Netzer. "Não estavam apenas saqueando. Era uma forma de vingança."

Durante duas longas semanas, Netzer e sua equipe conseguiram manter segredo sobre a rara descoberta:"Queria ter bem estabelecidos todos os fatos antes de fazer a divulgação, pois imaginava que o túmulo iria despertar muito interesse." Ele tinha razão. A entrevista coletiva que deu em 8 de maio foi de imediato a causa de um incidente político. Shaul Goldstein, um dos líderes dos assentamentos de Gush Etzion, ao sul de Jerusalém, afirmou na rádio do Exército israelense que o túmulo constituía "outra prova de uma conexão entre Gush Etzion e o povo judeu e Jerusalém", e pediu que fosse transformado em local de interesse nacional e religioso.






Por outro lado, a Autoridade Palestina, temerosa de que a sepultura reforçasse as reivindicações judaicas sobre a área, questionou a conclusão de que se tratava do túmulo de Herodes, e protestou por Netzer ter levado ao território israelense artefatos retirados do local - que fica na Cisjordânia e supostamente encontra-se sob controle palestino. "Trata-se de furto de artefatos palestinos", comentou Nabil Khatib, o responsável pelo distrito de Belém na Autoridade Palestina, ao jornal americano Washington Post.

Para complicar ainda mais a situação, o local recebeu a visita de membros de um grupo ultra-ortodoxo, o Atra Kadish, empenhado na proteção das sepulturas judaicas contra atividades de arqueólogos e de construtores de estradas. Eles insistiram para que a equipe de Netzer reenterrasse os ossos e os cobrisse com uma laje de concreto. Alguém familiarizado com as escavações no Herodium, que pediu para não ser identificado, conta-me que, ainda que as relações com o Atra Kadish tenham sido sempre cordiais, continua em vigor a ameaça implícita de que podem interromper à força os trabalhos, por implicarem na profanação de uma sepultura judaica: "Basta tomarem alguns ônibus, seguirem até lá e fecharem o sítio". Dois mil anos depois de sua morte, Herodes ainda é uma poderosa força política.

No fim da tarde, Netzer e eu alcançamos a fortaleza no topo do Herodium, com seu anel de muralhas derruídas formando uma cratera que acentuava a aparência vulcânica do morro. O céu ficara limpo e o mundo havia adquirido uma extraordinária nitidez sob o distante Sol do deserto. Logo abaixo de nós um falcão-peregrino voa, disparando como uma flecha através dos campos estéreis, enquanto mais ao longe três caças F-16 voam sobre a mancha azulada e nebulosa do mar Morto. No vilarejo beduíno em que havíamos parado o carro, crianças brincam em volta de um tanque de água e duas caminhonetes brancas percorrem as ruas, com alto-falantes clamando à oração em árabe, os motoristas vendendo banana e comprando ferro-velho. No topo de montes a sul e a oeste vêem-se os assentamentos israelenses de Tekoa, Kfar Eldar e Nokdim, os telhados vermelhos e os jardins dispostos em ovais simétricos e defensivos, em nítido contraste com a mancha urbana de metal corrugado dos vilarejos beduínos, cujos minaretes se erguem de todas as colinas ao redor. A leste e a sul fica o deserto: os inóspitos morros da Judéia e os agrestes e avermelhados montes de Moab, do outro lado da fronteira, já na Jordânia. Aqui, no âmago do feroz caos da natureza, Herodes decidiu construir a cidade que levaria seu nome, e abrigaria sua sepultura.

"Tenho certeza de que em alguns momentos Herodes botou a cabeça nas mãos e desabafou: 'Como fui idiota de dizer que queria ser enterrado aqui!'", conta Netzer. "Mas ele era um administrador eficiente, sempre com os pés no chão. Ele fez do Herodium não só um lugar belíssimo mas também uma comunidade perfeitamente organizada - uma cidade que funcionava."

O sonho de Herodes não durou muito após sua morte. Ela também marcou o início do fim da prosperidade na Judéia. Seus descendentes dilapidaram a imensa fortuna por ele acumulada e malbarataram a harmonia religiosa e política que tanto promovera. Após dez anos de domínio incompetente do filho de Herodes, os impacientes romanos nomearam um procurador para governar a Judéia (no início da década de 30 d.C., o posto foi ocupado por Pôncio Pilatos). Muitos judeus agora passaram a ver os romanos como opressores e infiéis. Durante a Primeira Revolta Judaica, no fim da década de 60 d.C., os rebeldes resistiram às legiões romanas em ambas as fortalezas erguidas por Herodes no cume de morros, Herodium e Masada. Na primeira vandalizaram o túmulo de Herodes e reformaram o palácio no topo: transformaram seu triclínio, a luxuosa sala de jantar, em uma sinagoga, e instalaram duas banheiras rituais, mikves, no pátio interno. Os combatentes acabaram por se render. Em Masada, porém, lutaram até o fim. Quando a derrota era inevitável, eles preferiram, reza a lenda, cometer suicídio coletivo para não se tornarem prisioneiros e cativos dos romanos. Na Segunda Revolta Judaica, ocorrida na década de 130, escavaram no morro um sistema de túneis que era usado em ataques de surpresa contra os romanos, e que ainda hoje pode ser visitado.

Tal como o templo de Herodes em Jerusalém, Herodium e Masada continuam sendo marcos para os israelenses atuais. Seus guerreiros simbolizam um idealismo religioso e uma coragem indômita diante de forasteiros que, para muitos israelenses, têm profunda ressonância com a atual posição de seu país no contexto do Oriente Médio. No feriado de Tishá Be'Av, quando os judeus lamentam a destruição do Primeiro e do Segundo Templo, alguns deles começam suas devoções no cume do morro do Herodium, em vez de em Jerusalém. Em Masada, fazem vigílias à luz de velas e celebram bar mitzvahs e ali os oficiais militares são incorporados às fileiras do Exército israelense, repetindo a frase: "Masada jamais voltará a cair!"

No entanto, diz Netzer, cada vez mais os israelenses vêem a coragem suicida dos defensores de Masada como fanatismo desprovido de sentido. "Muita gente acha que eles deveriam ter negociado com os romanos, em vez de resistir." Talvez o comprometimento de Herodes com os romanos, por tanto tempo considerado uma traição, esteja agora começando a ser visto mais como a hábil manobra diplomática de um estadista. Mas as questões levantadas por sua vida - relativas a autonomia e colaboracionismo, pureza religiosa e ecletismo cultural, criatividade e poder - até hoje continuam candentes e vitais.
National Geographic Brasil