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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O carnaval carioca



Ao som de sambas-enredo e marchinhas,a cidade do Rio de Janeiro recebe milhões de foliões em suas ruas, quadras e na Sapucaí

História - No ano de 1840, a alta sociedade carioca começou a realizar bailes de carnaval no Rio de Janeiro. Inspirados nas festas que aconteciam na Europa, os encontros eram regados a muita bebida comida e ritmos tipicamente europeus, como a valsa, a quadrilha. Enquanto isso, nas ruas da cidade, milhares de foliões continuavam a brincar o entrudo - festa portuguesa em que foliões fantasiados dançam e jogam limões de cheiro, farinha ou água nas outras pessoas que brincavam.
Algumas décadas depois, começam a surgir os primeiros cordões e os ranchos carnavalescos cariocas, embalados por muitos elementos da cultura negra. As duas manifestações originaram os blocos de carnaval e as escolas de samba da cidade.
Os cordões eram identificados pela figura do "Zé Pereira", originalmente tocadores de bumbo que acompanhavam procissões em Portugal. Esses personagens se espalharam pelo Rio de Janeiro no século 19 e saíam às ruas cantando o refrão "viva o zé-pereira/ Viva, viva, viva!". Foram os precursores do surdo de marcação, usado até os dias de hoje pelas escolas de samba. Conduzidos por um mestre que comandava o instrumental percussivo, todos os participantes do bloco com seu apito, os cordões eram formados por foliões fantasiados de palhaços, diabos, baianas, morcegos e índios.
Os ranchos se tratavam de cordões mais organizados, com mais luxo e refinamento do que os cordões. O instrumental era composto de violões, cavaquinhos, flautas e clarinetas e embalavam mestres-salas, um coro e uma espécie de ala coreografada. 
A primeira escola de samba carioca (Deixa Falar) foi fundada no ano de 1928, no bairro carioca de Estácio, centro do Rio de Janeiro. Anos depois, começou a competição entre elas, disputada na Praça Onze. No ano de 1935, as escolas de samba do Rio de Janeiro passam a ser oficialmente reconhecidas e entram na programação oficial da cidade e elas passam a desfilar na Avenida Rio Branco. Em 1962, o Departamento de Turismo da cidade construiu arquibancadas e implantou a venda de ingressos no circuito das escolas de samba. Vinte e dois anos depois, o sambódromo carioca foi inaugurado. O espaço, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, possui 85 000 metros quadrados. As disputas do grupo especial e dos grupos de acesso das escolas de samba cariocas acontecem no mesmo espaço desde então.


Samba-enredo - Como o próprio termo sugere, o samba-enredo é aquele que narra a história que a escola de samba vai apresentar na avenida. O gênero surgiu na cidade do Rio de Janeiro no ano de 1930 e na mesma década já se popularizou nas quadras das agremiações. De acordo com o livro "Almanaque do Carnaval", o encurtamento dos sambas enredo e a massificação deles foram a base do esvaziamento do papel do samba-enredo durante o desfile. Para alguns críticos, sua função se restringe a mero fundo musical do espetáculo. 

Marchinha - Esse gênero musical tem origem nas marchas populares portuguesas e foi o principal ritmo do Carnaval brasileiro da década de 1920 à década de1960. Também chamada de marcha de Carnaval, as marchinhas tiveram a pianista Chiquinha Gonzaga como mãe de composição. As marchinhas atingiram seu auge com as interpretações de nomes consagrados da música popular brasileira, entre eles Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, João de Barro, o Braguinha, Noel Rosa, Ary Barroso e Lamartine Babo.

O desfile - No Rio de Janeiro, cada escola do grupo especial possui 82 minutos de desfile e chega a ter 5000 componentes. As escolas têm seus integrantes divididos em alas, e cada ala desfila com a mesma fantasia. Toda agremiação possui uma bateria, composta por aproximadamente 500 ritmistas, que tocam os instrumentos de percussão. Uma ala de baianas, figura tradicional do carnaval carioca, é obrigatória. A escola que levar menos baianas do que o regulamento prevê, inclusive, perde pontos.
O desfile começa com os integrantes da comissão de frente, formado por 15 pessoas em média que vem na frente da escola, em geral com uma apresentação teatral ou coreográfica.
As alegorias, que são os carros alegóricos, são espaços reservados para os destaques, figuras centrais do enredo, os passistas que são os componentes que desfilam "sambando no pé", já que as alas evoluem e não sambam. Algumas alas apresentam coreografias ensaiadas, e atualmente os componentes dos carros também podem apresentar coreografias. Também fazem parte do desfile os diretores de harmonia, que são integrantes responsáveis pela organização do desfile, o casal de mestre sala e porta bandeira, responsáveis pela condução do pavilhão da escola. Todos os componentes devem cantar o samba enredo, liderados pelo cantor oficial da escola, o intérprete.
Os quesitos julgados são: Harmonia, mestre-sala e porta-bandeira, conjunto, evolução, comissão de frente, fantasias, alegoria, enredo, bateria e samba-enredo.

Os blocos de rua - Apesar de o Rio de Janeiro possuir uma tradição muito forte de escolas de samba, o carnaval de rua da cidade também é bastante movimentado. No ano de 2011, aproximadamente cinco milhões de pessoas brincaram pelos bairros do Rio. Embalados pelas tradicionais marchinhas ou por sambas enredo criados pelos compositores de cada bloco, que possui dia e hora para sair, bem como um circuito definido. 
Alguns blocos famosos: Banda de Ipanema, Imprensa que eu gamo, Bloco do Barbas, Simpatia é quase amor, Suvaco do Cristo, Cordão do Bola Preta, Cacique de Ramos.
Revista Nova Escola

quinta-feira, 31 de março de 2011

Angelo Agostini - Carnaval de 1881

Carnaval de 1881
Revista Ilustrada, Ano 6, n. 241, p.4-5, 1881.
1- Do alto dos carros, carnavalescos atiravam à assistência versos compostos para a ocasião e alusivos ao tema do carro de crítica.
2- As grandes sociedades costumavam apresentar-se ao som de bandas marciais que executavam peças como a "Marcha Triunfal" da ópera Aída, de Verdi. Neste carro, no entanto, escravos apresentam-se dançando em batuques em homenagem aos líderes abolicionistas. Agostini os mostra desempenhando suas danças e ritmos em uma previsível incongruência sonora com a sonoridade "oficial" do desfile.

1- Fantasiados de "diabinhos", capoeiras se faziam presentes na passagem dos préstitos - como em todos os espaços do carnaval. Muitas vezes foram condenados pela sua violência e atitute de desafio, mas por vezes eram vistos como "garantia" das próprias sociedades, defendendo seus carros alegóricos e de crìtica contra invasores indesejáveis, a soldo daqueles que pediam à polícia providências contra sua presença.
2- Este carro de crítica, intitulado "A Mancha de Júpiter", satirizava a passividade do Imperador diantte da escravidão. Ironizando seu apregoado apelo à contemplação científica , a imagem de Pedro II, observada pela luneta, revela-o como um inatingível planeta. Em sua longa testa, vê-se a mancha negra da escravidão que espanta os astrônomos que animam os carros.

1- Carro de crítica alusivo à abolição da escravidão. A figura do escravo é representada como "montaria" para os senhores. Note-se a insistência com que o tema aparece no desenho, 7 anos antes da Lei Áurea.
2- Brigas e "rolos" entre a assistência das ruas são um elemento frequente na descrição de A. Agostini. Eles resultavam, segundo alguns cronistas da época, da "mistura social" acarretada pelo interesse generalizado pelos préstitos das sociedades, que levavam à prática de brincadeiras tradicionais do entrudo entre indivíduos socialmente desiguais.
1- O carro alegórico com a forma de uma biga romana reforça o permanente recurso às remissões à cultura clássica como meio de legitimação e atribuição de "distinção" aos préstitos de grandes sociedades. Sobre este carro vinham prostitutas ou "atrizes livres" que, ao mesmo tempo, exibiam seus dotes e personificavam figuras alegóricas, como "A Liberdade", "A Justiça" etc.
2- A platéia, em atitude respeitosa nesse trecho do desenho, revela a presença de senhoras e homens da elite, portando cartolas. A presença das "famílias" assistindo à passagem das prostitutas encarapitadas nos carros, constituiu motivo de escândalo para cronistas conservadores - e de humor para outros.
3- O Exército Nacional, logo após o prestígio da vitória no Paraguai, tampouco era protegido da "crítica" e da sátira dos carnavalescos das grandes sociedades.

Unicamp | Universidade Estadual de Campinas

quinta-feira, 10 de março de 2011

Carnaval - Igreja reconheceu a festa em 590 d.C.

Página 3 Pedagogia & Comunicação
Antonio Cruz/ABr

Bloco de garis "limpa" as ruas de Olinda, Pernambuco, durante o carnaval

A história do Carnaval é alvo de muita discussão. Não se sabe exatamente quando ele surgiu. Sua origem pode estar ligada aos cultos agrários que pediam boas colheitas, ainda no períodoneolítico. Uns dizem que a festa surgiu no antigo Egito, outros que foi na Europa medieval... Mas é provável que o Carnaval tenha se originado noImpério romano, antes do nascimento de Cristo. Nessa época, celebravam-se as Saturnálias, festas em homenagem ao deus Saturno, que aconteciam nos meses de novembro e dezembro.

História do Carnaval

Durante a Saturnália, os membros da nobreza e os escravos se misturavam nas ruas para as comemorações, que incluíam muita comida, bebida, música e dança. Essas festas eram protegidas por Baco, o deus do vinho. Nos dias de folia, tudo se invertia. Tanto que o rei da festa, o Rei Momo, era um escravo (da classe mais baixa de Roma) e podia ordenar o que quisesse durante as festividades. As pessoas representavam papéis, por isso, com o passar do tempo, veio o costume das máscaras, trazidas do teatro clássico grego.

Com o fim do Império romano e a ascensão do cristianismo, na Idade Média, essas festividades correram o risco de acabar. A Igreja quis cancelar as Saturnálias, mas sem desagradar completamente a seus fiéis. Então, no ano 325, ficou decidido que os 40 dias antes da Páscoa deveriam ser guardados apenas para orações e jejuns - intervalo de tempo que ficou conhecido como Quaresma. As festividades foram movidas para antes do início desse período e ganharam o nome de "Carnevale", que em latim significa "adeus à carne". Por isso o carnaval é uma festa móvel.

O entrudo em Portugal e no Brasil

Em 590 d.C., a Igreja reconheceu oficialmente a festa, passando a programá-la em seu calendário. O domingo de Carnaval cairá sempre no 7º domingo que antecede ao domingo de Páscoa. A quarta-feira de Cinzas dá início à quaresma, um período de reflexão e abstenção dos prazeres mundanos.

Em Portugal, o Carnaval já era comemorado nos séculos 15 e 16, embora conhecido como entrudo, que significava a entrada da Quaresma. Nos séculos 17 e 18, quando grande número de portugueses se mudaram para o Brasil, o costume foi se estabelecendo por aqui. A forma de brincar de então era jogar nos outros água, limões de cheiro (bolinhas de cera cheias de perfume), farinha de trigo e até lama ou lixo. Durante três séculos, essa foi a manifestação característica do Carnaval no Brasil.

Logo no início do século 19, com os novos costumes trazidos pela corte portuguesa, a festa começou a mudar. O mais elegante seria copiar o desfile de carruagens enfeitadas pelas ruas, ocupadas por pessoas usando máscaras e fantasias vindas de Paris. Quando foi adotado no Brasil, o evento passou a ser chamado de Rancho. Os bailes de carnaval, que vieram depois dos desfiles, eram realizados em clubes requintados, freqüentados pela corte e pela nova elite brasileira.

Aos mais pobres só restava continuar com o entrudo, que chegou a ser proibido, mas foi liberado com a idéia da criação de bailes em lugares menos elegantes. Desta forma, o povo foi pouco a pouco se interessando pelo Carnaval dos ricos e se afastando do entrudo, que terminou desaparecendo no início do século 20.

Corsos, blocos e outros foliões

Nos primeiros anos da República, surgiram os cordões, as sociedades carnavalescas, blocos, ranchos, corsos e outros grupos de foliões que saíam às ruas para dançar e cantar quadrinhas anônimas, ao ritmo de instrumentos de sopro e percussão. Marchinhas irreverentes serviam para satirizar os políticos.A pianista e maestrina Chiquinha Gonzaga, com a marcha "Ô Abre Alas" (1899), inaugurou a prática das composições feitas exclusivamente para os grupos de foliões.

No início do século 20, quando os ranchos, desfiles de máscaras e fantasias em carros enfeitados pela avenida, já estavam mais que estabelecidos no Rio de Janeiro pelas sociedades carnavalescas, os pobres brincavam em outros bailes. Um dos principais lugares em que aconteciam essas festas era a Praça Onze, no bairro do Estácio.

Quem era de fora achava o Carnaval dos pobres feio e atrasado. Foi então que os carnavalescos do Estácio resolveram se organizar, à semelhança da forma como faziam os ricos. A primeira organização a desfilar oficialmente foi a "Deixa Falar" (núcleo inicial da atual Escola de Samba Estácio de Sá), criada pelo sambista Ismael Silva, em 1928, com formação semelhante à dos blocos atuais.

A escola de samba

Em 1929, a Deixa Falar se transformou na primeira escola de samba de que se tem notícia. O nome era uma brincadeira com o local onde os sambistas se reuniam: em frente a ele, havia uma escola de normalistas. Ismael Silva disse que, se lá era uma escola de professoras, ali onde estavam seria uma escola de samba.

A partir daí, eles passaram a escolher todo ano um tema que definiria as fantasias e a música, como acontece hoje em dia. Assim, o Carnaval dos pobres foi ganhando a simpatia do resto da sociedade, de intelectuais e artistas, que nessa época começavam a se interessar pela cultura popular e passaram a freqüentar essas reuniões de sambistas.

Mais tarde, até o próprio presidente da República, então Getúlio Vargas, preocupado em demonstrar interesse pelos pobres, resolveu reconhecer o evento e dar-lhe condições para se estruturar melhor. Desde então, a festa foi evoluindo até se tornar o Carnaval típico do Rio de Janeiro, hoje internacionalmente reconhecido.

O Carnaval carioca

O Carnaval brasileiro tornou-se conhecido em todo o mundo por causa dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e graças aos meios de comunicação de massa, como o cinema e a televisão. É, de fato, um espetáculo grandioso, talvez o maior show da terra. Atualmente, o desfile obedece a regras, pois há uma competição entre as escolas. Entre os quesitos julgados por especialistas estão a comissão de frente; mestre-sala e porta-bandeira; bateria; samba de enredo; harmonia; alegorias e adereços.

As principais atrações são os carros alegóricos, a bateria e o casal de mestre-sala e porta-bandeira. Os passistas dão um espetáculo ao ritmo do samba-enredo. A preparação para a festa começa muitos meses antes e envolve centenas de pessoas. Desde o início da temporada de verão, os cariocas realizam bailes pré-Carnavalescos e ensaios nas quadras das escolas de samba. Os três fins de semana que antecedem o Carnaval são marcados pelos desfiles das bandas de bairros.

Entre as principais escolas de samba do Rio de Janeiro, encontram-se a Portela, a Estação Primeira de Mangueira, Vila Isabel, Império Serrano, Beija-flor, Salgueiro, Estácio de Sá, e Mocidade Independente de Padre Miguel.

Em São Paulo, há cerca de dez anos, a passarela do samba reúne escolas cada vez mais luxuosas, reproduzindo a folia carioca no principal centro econômico do país. As principais escolas paulistanas são a Vai Vai, Camisa Verde e Branco, Nenê de Vila Matilde e Rosas de Ouro.

O Carnaval baiano e o trio elétrico

Em Salvador, na Bahia, o Carnaval tem outro estilo. Os foliões saem pelas ruas dançando atrás dos trios elétricos - caminhões em cima dos quais tocam conjuntos musicais. Os inventores do trio elétrico do Carnaval baiano, foram Dodô (Adolfo Nascimento) e Osmar (Macedo). No Carnaval de 1950, a dupla saiu tocando em cima de um Ford 49. Em um ano fizeram aperfeiçoamentos e incluíram mais um membro, Temístocles Aragão, formando assim o trio elétrico em 1951. No ano seguinte uma empresa de refrigerantes percebeu o enorme sucesso do trio e colocou um caminhão decorado à disposição dos músicos, inaugurando o formato consagrado até hoje.

Outra manifestação típica do Carnaval baiano são os grupos de afoxé, formados quase que exclusivamente por negros. Esses blocos têm origem na época da escravidão, quando os negros se reuniam vestindo trajes de nobres africanos para cantar e dançar as músicas de sua terra. O primeiro grupo, a Embaixada Africana, surgiu em 1885. Desde então, a tradição se repete todo Carnaval, com negros vestidos de príncipes cantando em nagô, um idioma africano. Além dos afoxés, ou ranchos negros (como o Filhos de Gandhi e o Badauê), o Carnaval bahiano conta com os blocos afro (Olodum, Ileaiê, Malê de Balê, Olorum Babami) e os que se fantasiam de índios como os Apaches do Tororó.

O Maracatu e o frevo no Nordeste

Os mais tradicionais carnavais de rua do país acontecem em Natal, Maceió, Olinda e no Recife. O maracatu ocorre principalmente em Pernambuco e no Ceará. Os participantes vestem pesadas fantasias, cada uma representando um personagem: rei, rainha, príncipes, damas, embaixadores, cavaleiros, índios, baianas etc. Todos dançam ao som de um batuque, seguindo as "calungas", bonecas gigantes que abrem o desfile e são levadas cada uma por uma mulher.

Outra tradição pernambucana é o frevo, que tem mais força nas principais cidades do estado: Recife e Olinda. Durante o Carnaval, as pessoas dançam nas ruas ao som desse ritmo rápido, executando passos acrobáticos. A comemoração é muito animada e justifica o nome da dança, que surgiu de "ferver'.

Há grupos organizados de frevo, ou clubes. Os mais famosos são o Pás Douradas e o Vassourinhas. Merece destaque, também, o bloco carnavalesco Galo da Madrugada, um dos maiores do país. Em Olinda, o destaque fica por conta dos bonecos gigantes carregados pelos foliões que lotam as ruas da histórica cidade. O casal de bonecos mais famoso é formado pelo Homem da Meia-Noite e pela Mulher do Meio-Dia.

quarta-feira, 9 de março de 2011

O samba que faz carnaval

Série de fotos de Maureen Bisilliat ilustra os personagens clássicos do samba e da folia

Cartola posa para Maureen Bisilliat em imagem que integra o acervo do Instituto Moreira Salles
Celebração da alegria coletiva, folia organizada e desordeira, caricatura da seriedade dominante. No rótulo carnaval cabe mais de uma farra. É um tipo de festa, mas não só. É um tipo muito específico de alegria. E algo mais. Não apenas uma libertação de hábitos temporária. Nem exclusividade brasileira.

Talvez já se tenha passado o tempo em que o samba era a linguagem musical predominante na sociedade brasileira e gênero maior do carnaval. Hoje, o samba não representa o universo das camadas populares como nas décadas de 30 e 40, nem detém a hegemonia sonora dos carnavais do país. Mas se alojou no imaginário popular como a nossa Grécia musical, aquilo que gostamos de acreditar ser a nossa identidade comum.

A fotógrafa inglesa Maureen Bisilliat passou parte do fim dos anos 60 retratando a arquitetura do Rio de Janeiro antigo, subindo o morro da Mangueira e conhecendo os personagens que marcaram a elite do samba consagrado no período. É material de primeira linha, com nomes como Donga, Pixinguinha e Cartola em poses e cenas de expressiva dignidade. Um dos resultados foi o ensaio "A batucada dos bambas", que ilustrava um texto escrito por Sérgio Cabral, publicado em agosto de 1969 numa edição especial de Turismo, da revista Quatro Rodas (editora Abril). As imagens hoje são parte integrante do acervo de Maureen lotado no Instituto Moreira Salles.

"Venha, me dê sua mão
porque sou seu irmão
na vida e na poesia.
Deixe a reserva de lado,
eu não estou interessado
em sua guerra fria.
Nós ainda havemos de ver
uma aurora nascer
num mundo em harmonia.
Onde é que está sua fé?
Com amor é melhor,
ora se é!"
Pixinguinha

Desde o ensaio de Maureen, o carnaval do samba aprimorou sua indústria. Maureen mostra, no entanto, que mesmo a folia programada não abafa a realidade popular que a comemora, misto de alegria e sofrimento que define sua linguagem. Captar esse cruzamento paradoxal entre nobreza e miséria, festa famélica e exuberância sem tostão, é o que até hoje dá força e atualidade às imagens flagradas por Maureen, reproduzidas nestas páginas, com textos originais do livro Fotografias (IMS), que condensa sua obra.

Confusão
O colorido e a dignidade de suas imagens dão outro significado à farra carnavalesca tal como encarnada no Rio de Janeiro do fim dos anos 60, início dos 70. Uma época em que fazer um carnaval em torno de algo era sinônimo de promover estardalhaço, exagerar a dose, fantasiar os efeitos e as causas, e fazer uma bagunça festiva. Carnavalizar é ainda contagiar-se por um rompante de alegria. Mas pular o carnaval é também participar de um acontecimento de mercado, uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, restrita a um quarteto de dias anteriores à quarta-feira de cinzas. Essa briga de identidades, entre um estado de espírito e uma festa de mercado, contamina o sentido dado pela palavra "carnaval" ao longo do tempo.

"Ai, ai, ai dança o samba
Com calor, meu amor
Ai, ai, ai
Pois quem dança
Não tem dor nem calor
O chefe da polícia
Com toda carícia
Mandou-nos avisá
Que de rendez-vuzes
Todos façam cruzes
Pelo carnavá!"
Donga

Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a hesitação entre os dois significados do termo (festa e espírito) causa muita confusão em torno das origens do termo. Há quem considere os dois sentidos como a mesma coisa - e por isso a festa carnavalesca remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à era cristã caberiam ao termo, seriam carnavais.

Não é por acaso que a presença, nas festas e procissões pagãs que teriam originado a tradição carnavalesca em muitos países, de charretes em formas de navios gerou o mito de que a palavra carnaval viria de carrus navalis (carro em forma de navio).

É velha a ideia de que qualquer brincadeira ou inversão de valores deve ser considerada antepassado do carnaval. Os bispos dos primeiros séculos de domínio católico eram indiferentes às distinções entre festas pagãs, e havia muitas em vários países, em meses distintos. Até o século 18, tantos as saturnais, os ritos de inversão, as festas de loucos e os carnavais recebiam o estigma de "carnaval", comemorações demoníacas.

Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o paganismo, consolidou a primeira noção de carnaval, como uma festa de inversões, exageros, caricatura e humor.

Quaresma
A história da palavra carnaval é ela mesma alegórica. No ano de 604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar sua rotina para, num período predefinido de 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação do exemplo de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações de satã.

"Eu digo e afirmo que
a felicidade aqui mora
E as outras escolas
Até choram invejando
A tua posição

Minha mangueira
essa sala de recepção
Aqui se abraça o inimigo
Como se fosse um irmão"
Cartola

No ano 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que estabeleceu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa dos fiéis com uma cruz feita de cinzas, em sinal de penitência). O dia marca o começo das privações de prazeres, a proibição de comer carne e a abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário com tudo o que a quaresma negava aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra, o prenúncio do que chamamos hoje de carnaval.

Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutua­ção em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italianocarnevale, afirma Ferreira).

O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevariumem 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195.

O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (como a dos desfiles cariocas e a dos trios elétricos de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval. As imagens de Maureen Bisilliat o comprovam.

O contraste entre a nobreza plástica dos passistas e suas condições de vida, em flagrantes de Maureen Bisilliat feitos durante a preparação para os desfiles cariocas de 1969. A história conta que nos tempos do entrudo, o precursor do Carnaval, já havia fantasias e sinais de alegria carnavalesca meses antes dos três dias fundamentais. Mais tarde, há não muito tempo, viam-se na rua fantasias esparsas desde novembro, enquanto se ouviam marchinhas compostas especialmente para a grande festa. O Carnaval começava nas ruas muito antes, sem o confinamento a que está submetido agora, em salões e em áreas previamente demarcadas, com tempo certo para os desfiles.
Braguinha (abaixo esq.), Clementina de Jesus (acima), João da Baiana e Blecaute (abaixo dir.): sambistas de todas as décadas, estirpes e estilos produziram expressões, palavras e gírias usadas nas quadras de escolas de samba e nas rodas de bar. O universo do samba é rico em jargões incorporados ao idioma.
Personagens do samba dos anos 70, como Pixinguinha (abaixo esq.) e Donga (acima), consolidaram seus apelidos na elite do carnaval brasileiro, no ambiente dos bares do morro. A pesquisadora Rachel Valença tipificou a riqueza vocabular do samba na formação de nomes próprios e apelidos, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal Fluminense, Palavras de Purpurina. Segundo ela, há apelidos de sambistas criados a partir de qualificativos (Hélio Turco; Alexandre Alegria, Pixinguinha), de traços físicos (Gaguinho; Evandro Bocão), de instrumentos musicais (Ary do Cavaco; Paulinho da Viola), da profissão (Tuninho Professor e Jair Sapateiro) e até da escola de samba a que se está associado (Noca da Portela e Neguinho da Beija-Flor).
Pai da Mangueira, Cartola (à esq.)inscreveu seu nome na nata do carnaval, numa época em que fazer samba já representava um caldo cultural de reverência aos mestres do passado. Apesar da fama e do respeito, compositores viviam as condições de vida típicas das comunidades que tornavam vivo o carnaval.

Vocabulário dos sambistas

  • Batucada - samba que acontece antes e depois dos desfiles ou ensaios.

  • Batucada de mil graus - bateria muito afinada.

  • Baticum - Bater palma numa roda de samba para acompanhar o ritmo da música.

  • Bamba - Um bom sambista.

  • Boi com abóbora - Samba-enredo muito ruim.

  • Botar a cobra pra fumar - Colocar a escola na avenida.

  • Dizer no pé ou riscar no tapete - sambar.

  • Levantar a avenida - contagiar o público.

  • Mumunha - artimanha ou truque.

  • Nega veia - maneira como alguns sambistas do passado se referiam à própria mulher.

  • No gogó - cantar o samba sem o auxílio de instrumentos.

  • Ovo de cobra não gora - tudo vai dar certo.

  • Rasgação de seda - elogios mútuos entre as pessoas.

  • Reduto do samba - sede da escola de samba.

CARNAVAL RJ – As Escolas de Samba


Nas primeiras décadas do século XX, o quadro de manifestações do carnaval de rua do Rio de Janeiro estava formado.

As grandes sociedades desfilavam seus enredos de crítica social e política apresentadas ao som de óperas, ornamentadas por luxuosas fantasias em cima de enfeitados carros alegóricos.

Os ranchos passaram ao som de sua marcha característica e os blocos carnavalescos servindo como diversão às camadas mais pobres da sociedade, que habitavam os morros e subúrbios cariocas formaram os ingredientes necessários para a formação das escolas.

O surgimento das escolas de samba veio desorganizar essas distinções.

Através de uma rápida ascensão na vida cultural da cidade, que culminou, em parte, com a decadência e o gradual desaparecimento do carnaval de rua carioca, as escolas de samba tornaram-se o destaque maior dos dias de reinado de Momo, interligando diferentes camadas sociais em seus dias de desfile.

As escolas sambas, nascidas nos morros e subúrbios cariocas, ocupam hoje com o seu desfile o lugar de “maior espetáculo” (do carnaval do Rio de Janeiro e do Brasil).

As escolas de samba surgiram por volta de 1920, período histórico no qual cada camada social tinha uma forma particular de brincar o carnaval.

O núcleo social de formação das escolas de samba foram os blocos: eles tinham a função de representar de forma positiva, em diferentes áreas da cidade, o grupo social que os compunham.

Uma maior ampliação do espaço social desses moradores dos morros e subúrbios cariocas era pretendida, então, por detrás da formação das escolas.

A primeira disputa entre escolas de samba aconteceu em 7 de fevereiro de 1932, na Praça Onze, no Rio de Janeiro e foi organizada pelo jornalista Mário Filho.

Preocupado com a falta de assunto para o seu jornal, O Mundo Sportivo, entre os meses de dezembro e março, criou o primeiro concurso de escolas de samba.

A promoção teve grande repercussão na imprensa e no carnaval seguinte, em 1933, o jornal O Globo assumiu o desfile.

Dois anos depois a Prefeitura do Rio passou a subvencionar o evento, oficializando-o como parte do carnaval carioca.

Em 1942, surge a Avenida Presidente Vargas, com a demolição da Praça Onze.

Surge assim o novo local de desfiles, que perduraria por muitos anos.

As escolas começam a ganhar espaço dos ranchos e das grandes sociedades na disputa pela hegemonia do carnaval.

Em 1946, surge o samba-enredo, com o governo municipal proibindo que as escolas cantem versos improvisados, levando para o local da apresentação uma música pronta.

O desfile das escolas de samba não parava de crescer e na metade da década de 50 a classe média passa a freqüentar os ensaios das escolas.

Em 1957, o desfile foi realizado na avenida Rio Branco. A alta sociedade se rende à popularização crescente e passa a assistir o desfile.



As Escolas de Samba campeãs de todos os Carnavais

1932 Estação Primeira de Mangueira

1933 Estação Primeira de Mangueira

1934 Mangueira/Recreio de Ramos

1935 Portela

1936 Unidos da Tijuca

1937 Vizinha Faladeira

1938 Não houve concurso

1939 Portela

1940 Estação Primeira de Mangueira

1941 Portela

1942 Portela

1943 Portela

1944 Portela

1945 Portela

1946 Portela

1947 Portela

1948 Império Serrano

1949 Império Serrano/Mangueira

1950 Império Serrano/Mangueira

1951 Império Serrano/Portela

1952 Houve desfile mas a apuração não foi realizada



1953 Portela

1954 Estação Primeira de Mangueira

1955 Império Serrano

1956 Império Serrano

1957 Portela

1958 Portela

1959 Portela

1960 Portela, Salgueiro, Mangueira, Império Serrano e Unidos da Capela

1961 Estação Primeira de Mangueira

1962 Portela

1963 Acadêmicos do Salgueiro

1964 Portela

1965 Acadêmicos do Salgueiro

1966 Portela

1967 Estação Primeira de Mangueira

1968 Estação Primeira de Mangueira

1969 Acadêmicos do Salgueiro

1970 Portela

1971 Acadêmicos do Salgueiro

1972 Império Serrano

1973 Estação Primeira de Mangueira

1974 Acadêmicos do Salgueiro

1975 Acadêmicos do Salgueiro

1976 Beija-Flor de Ninópolis

1977 Beija-Flor de Ninópolis

1978 Beija-Flor de Ninópolis

1979 Mocidade Independente

1980 Portela, Imperatriz e Beija-flor

1981 Imperatriz Leopoldinense

1982 Império Serrano



1983 Beija-Flor de Ninópolis

1984 Portela/Mangueira

1985 Mocidade Independente

1986 Estação Primeira de Mangueira

1987 Estação Primeira de Mangueira

1988 Unidos de Vila Isabel

1989 Imperatriz Leopoldinense

1990 Mocidade Independente

1991 Mocidade Independente

1992 Estácio de Sá

1993 Acadêmicos do Salgueiro

1994 Imperatriz Leopoldinense

1995 Imperatriz Leopoldinense

1996 Mocidade Independente

1997 Unidos do Viradouro

1998 Mangueira e Beija-flor

1999 Imperatriz Leopoldinense

2000 Imperatriz Leopoldinense

2001 Imperatriz Leopoldinense

2002 Estação Primeira de Mangueira

2003 Beija-Flor de Ninópolis

2004 Beija-Flor de Ninópolis

2005 Beija-Flor de Nilópolis

2006 Unidos de Vila Isabel

2007 Beija-Flor de Nilópolis

2008 Beija-Flor de Nilópolis

2009 Acadêmicos do Salgueiro

2010 Unidos da Tijuca

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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Como o Diabo Gosta!


Como o Diabo Gosta!
Periódico revela as diabruras de um salão carnavalesco carioca na década de 1930
Murilo Sebe Bon Meihy

O Rei Momo, quem diria, fantasiou-se de demônio para o carnaval de 1931! As provas desse animado infortúnio podem ser consultadas na Biblioteca Nacional. Entre os periódicos da divisão de Obras Raras encontra-se um exemplar do jornal O Baeta: Pasquim Carnavalesco; um folhetim do Clube dos Tenentes do Diabo. Trata-se de uma agremiação carnavalesca fundada em 1855 sob o nome de “Sociedade Euterpe Comercial”, e que mais tarde passou a somar ao nome a designação de “Tenentes do Diabo”. A opção pela troca do nome possui inúmeras justificativas. Uma delas, expressa no exemplar analisado, sugere que uma grande confusão causada pelo incêndio de uma farmácia na rua Direita em 1861 fez o clube renascer: “ ... A Euterpe Commercial suppondo que o fogo se havia declarado em casa de um dos sócios, para lá correu, e, com seu uniforme carnavalesco, auxiliando o Corpo de Bombeiros, portou-se, com maior valentia. Extincto o incêndio, levantaram-se para Ella as labaredas do prestigio. Novos sócios entraram; o enthusiasmo aviventou-se e não longe desse baptismo de fogo, que lhes consagrou o nome, receberam no chrisma de Momo o de Tenentes do Diabo.”

Parece claro que uma reunião de foliões tão ativa e entusiasmada andou “infernizando” a ordem e as autoridades policiais cariocas ao longo de sua existência. Um bom exemplo dessa relação intempestiva é o conhecido envolvimento do Clube dos Tenentes do Diabo na campanha abolicionista que ganhava força na segunda metade do século XIX. Além de emprestar sua sede para reuniões sediciosas de líderes favoráveis ao fim da escravidão, o clube teria destinado o dinheiro recolhido para a confecção de carros alegóricos e fantasias, à compra de cinco cartas de alforrias no carnaval de 1864. Os escravos que tiveram sua liberdade adquirida pelos Tenentes do Diabo passaram a morar na sede do clube, prestando pequenos serviços aos associados.

Ao longo dos anos, mesmo com o fim da escravidão no Brasil, as relações dos foliões com a polícia manteve-se “entre a cruz e a caldeirinha”. No exemplar de O Baeta, um artigo chama a atenção do leitor. Com o título de “Lasciate ogni speranza o’ voi que entrate! Rectificando uma ‘noticia encomendada’”, O Baeta publicou uma nota saída no Correio da Manhã que explicava um escândalo envolvendo o clube e dois investigadores de polícia. Em um de seus bailes pré-carnavalescos, os Tenentes do Diabo receberam a súbita visita dos policiais. Na versão dos guardas, procuravam uma mulher envolvida com cocaína; para os diretores do clube, os investigadores não passavam de “penetras” que tentavam participar do baile.

Nas palavras do artigo: “... os investigadores implicados no caso agiram perversamente, procurando deixar compromettido o grêmio carnavalesco, por uma futilidade, em que não tinham a menor dose de razão. Elles não foram à sociedade em perseguição de mulher alguma. Saltando em frente à sede (...) appareceram ali, subiram as escadas e pretenderam entrar no salão. Foram impedidos de o fazer por um dos diretores, o qual lhes pediu provassem a sua qualidade de policiaes. Isso foi o suficiente para que os investigadores se melindrassem, inventando toda aquella história de cocaína, que não passa de mera fantasia, segundo affirmam.”

Mas, as desventuras do Clube dos Tenentes do Diabo com a ordem pública pareciam dar uma pitada de enxofre ao carnaval carioca. Em outra noticia do mesmo exemplar de O Baeta, o redator narra o desfecho de uma competição nada salutar entre um de seus sócios e um integrante da agremiação Cordão do Bola Preta, pelo estandarte de ouro no quesito “desordem e arruaça”: “No ultimo baile realizado na ‘Caverna’ (nome dado a sede do Clube dos Tenentes do Diabo) desavieram-se por questões de preferências femininas, o conhecido ‘baeta’ Augusto e o ‘bolapretano’ Palmyro. Da discussão passaram às vias de facto e Palmyro, valendo-se de sua mão direita desferiu cantante bofetada em plena face do adversário. (...) Em auxilio de Augusto correu o ‘Domigos Puré’ que, prevalecendo-se de estar Palmyro deitado, pespegou no mesmo, em lugar delicado, antropophaga dentada...”

Na hierarquia militar celestial do carnaval, os Tenentes do Diabo seguem à risca as ordens de seu general.

Revista de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Quem foi, quem foi que inventou o carnaval?


Quem foi, quem foi que inventou o carnaval?
A mistura da tradição européia com os ritmos musicais dos africanos criou no Brasil um dos maiores espetáculos populares do mundo. O Carnaval nasceu no Egito, passou pela Grécia e por Roma, foi adaptado pela Igreja Católica e desembarcou aqui no século XVII, trazido pelos portugueses. Viva a folia!
por Ricardo Arnt

“Quem foi que inventou o Brasil? / Foi seu Cabral, foi seu Cabral / No dia vinte dois de abril / Dois meses depois do Carnaval”

(História do Brasil, Lamartine Babo, 1934)


Com História do Brasil, Lamartine Babo (1904 - 1963) fez mais do que o grande hit de 1934: deu uma definição clássica da festa e do país. À altura desta, só a de Assis Valente (1911 -1958), em Alegria : “Minha gente era triste, amargurada / Inventou a batucada / Prá deixar de padecer / Salve o prazer / Salve o prazer”.

Abaixo do Equador, onde não existe pecado, a fusão da tradição européia com a batucada africana libertou o Carnaval na plenitude. Em nenhum lugar, ele adquiriu a dimensão que alcançou no Brasil. Durante quatro dias, o país fica fechado para balanço. Ou melhor: fica aberto para só balançar. E se entrega ao espetáculo que seduz e deslumbra os estrangeiros.

A farra toda vem do inconsciente dos povos, desde os rituais da fertilidade e as festas pagãs nas colheitas. Remonta às celebrações à deusa Ísis e o touro Ápis, no Egito, e à deusa Herta, dos teutônicos, passando pelos rituais dionísiacos gregos e pelos licenciosos Bacanais, Saturnais e Lupercais, as suntuosas orgias romanas.

No século VI, a Igreja adotou essas festas libertárias que invertiam a ordem do cotidiano, para domesticá-las. Juntou todas na véspera da Quaresma — como uma compensação para a abstinência que antecede a Páscoa. O Carnaval, então, espalhou-se pelo mundo. Desembarcou no Brasil no século XVII. Aqui, virou um dos maiores espetáculos do mundo. Você vai conhecer um pouco mais da origem da grande folia, desde a mais remota antigüidade até a invenção da serpentina.

Em Roma, comemoravam-se as Saturnais de 16 a 18 de dezembro, para a glória do deus Saturno. Tribunais e escolas fechavam as portas, escravos eram alforriados, dançava-se pelas ruas em grande e igualitária algazarra. A abertura era um cortejo de carros imitando navios, com homens e mulheres nus dançando frenética e obscenamente — os carrum navalis. Para muitos, deriva daí a expressão carnevale.

No dia 15 de fevereiro, comemoravam-se as Lupercais, dedicados à fecundidade. Os lupercos, sacerdotes de Pã, saíam pelados, banhados em sangue de cabra, e perseguiam os transeuntes, batendo-lhes com uma correia. Em março, os Bacanais homenageavam Baco (o deus grego Dionísio em versão romana), celebrando a primavera inspirados por Como e Momo, entre outros deuses.

Assumindo o controle da coisa, a Igreja fez o que pode para depurar a permissividade igualitária dos carnavais. Na Idade Média, a festa virou encenação litúrgica, corrida de corcundas, disputa de cavaleiros e batalha urbana de ovos, água e farinha. Depois, o carnaval se espalhou pelo mundo.

Na Rússia, a Maslenitsa dá adeus ao inverno, com corridas de esqui, patinação, danças com acordeão, balalaika, blinky masleye (panquecas amantegadas) e, é claro, muita vodka. No carnaval de Colônia, na Alemanha, as mulheres armam-se com tesouras e saem pelas ruas para cortar as gravatas dos homens.

Em Veneza, a tradição consagrou os fogos de artifício e foliões mascarados, inspirados na velha Commedia dell’ Arte. Na Bolívia, os mineiros de Oruro veneram a mãe-terra, Pachamama, dançando fantasiados de demônios. Em New Orleans, nos Estados Unidos, uma torrente humana invade as ruas do French Quarter, na terça-feira do Mardi Gras, atrás de músicos que tocam toda a noite.

Um ritual subverte a hierarquia

O entrudo português chegou aqui no século XVII. Os foliões se lambuzavam com cabaças de farinha e bexigas d’água. Durante a Colônia e o Império, o entrudo foi proibido inúmeras vezes. Consta que D. Pedro II gostava de jogar água nos nobres, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.

O primeiro baile aconteceu em 1840, no Hotel Itália, no Rio, ao som de valsas, quadrilhas e habaneras. Em 1845, os ricos aderiam à polca tcheca e os negros dançavam jongo. Em 1848, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Prates, o Zé Pereira, saiu por aí tocando bumbo. Deu origem aos primeiros blocos de rua.

Os cordões começaram com as sociedades carnavalescas, em 1866. Na Bahia, em 1895, nascia o primeiro afoxé: estava inventada a batucada. Depois da Guerra dos Canudos, em 1897, uma gentarada foi morar no Morro da Saúde, criando a primeira favela do Rio. Ali, na casa da Tia Ciata, foi composto o primeiro samba, em 1917: Pelo Telefone, de Donga.

Era só o começo. Vieram o Rei Momo, os corsos de automóveis das boas famílias (1907-1930), as escolas de samba (1928) e os concursos de fantasia (1936). Em 1935, o desfile das escolas de samba foi legalizado pela Prefeitura do Distrito Federal. Com o rádio, a festa difundiu-se e profissionalizou-se. Com a televisão, virou indústria.

O antropólogo Roberto DaMatta, autor de Carnavais, Malandros e Heróis (Rio, Ed. Zahar, 1979) define a folia como um rito de inversão, que subverte as hierarquias cotidianas: transforma pobres em faraós, ricos em mascarados, homens em mulheres, recato em luxúria. É uma compensação da realidade. Inventamos a batucada para deixar de padecer.


Quatro maneiras de brincar ao ar livre

Com o frevo, os afoxés e os trios elétricos, o negócio é ir para a rua se embolar


O frevo frenético

A palavra vem de “fervura” e lembra os movimentos acelerados dos foliões. É uma dança de rua e de salão, criada em Recife, nos fins do século XIX. A música, tocada principalmente por metais, é essencialmente rítmica, com compasso binário (de dois “tempos”) e andamento rápido. Os dançarinos executam coreografias individuais, improvisadas e frenéticas, que exigem animação de sobra e preparo físico mais de sobra ainda.



Tradição da África

Os afoxés são sociedades carnavalescas fundadas por negros, na Bahia, inspiradas nas tradições africanas. O primeiro afoxé nasceu em 1885: era o Embaixada Africana, que desfilou com roupas e adornos importados na África. O segundo, Pândegos da África, surgiu no ano seguinte. Hoje, os principais afoxés da Bahia são Filhos de Gandhi, Ilê Aiyê e Olodum.



Eletricidade musical

Os trios elétricos são palcos motorizados. Montados na carroceria de caminhões e equipados com potentes alto-falantes de até 100 000 watts, desfilam pelas ruas, levando grupos musicais e seguidos pela população. O precursor foi o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, na Bahia. Hoje, essa folia eletrificada marca presença em quase todas as ruas do país.



Samba na avenida

As escolas de samba estrearam no Rio de Janeiro, em 1928 e, com o tempo, adquiriram estrutura e orientação empresariais, reunindo até 15 000 integrantes. Hoje, elas comercializam apresentações, direitos autorais e de imagem, sob o patrocínio do Estado e de banqueiros do jogo do bicho. O termo “escola de samba” surgiu no século XIX, mas foi definitivamente adotado nos anos 30, desde que o bloco Deixa Falar (a primeira de todas) passou a fazer ensaios à porta da antiga Escola Normal.





ISSO TAMBÉM É CARNAVAL

Os confetes chegaram ao Brasil em 1892, jogados em batalhas entre os cordões. As serpentinas substituíram as flores atiradas aos carros alegóricos.

Sob fantasias, o folião tem muito mais liberdade. Elas são usadas no Brasil desde o século XIX. Em 1937, houve o primeiro desfile, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro

O lança-perfume, com perfume e cloreto de etila, foi trazido da França a partir de 1906. Foi proibido em 1960, porque a substância era aspirada como uma droga

Os primeiros blocos foram licenciados pela polícia em 1889, no Rio. Os integrantes percorrem as ruas fantasiados, ao som de instrumentos de percussão

O Rei Momo foi instituído pelo jornal carioca A Noite, em 1933, como símbolo do Carnaval. O primeiro Rei Momo foi o compositor Silvio Caldas

Nas bandas, cada um vai como pode: não existe uniforme ou regulamento. A primeira surgiu em 1965, em Ipanema, no Rio de Janeiro

Revista Superinteressante

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

É de baque-solto

Um ano após a passagem de mestre Salustiano, o maracatu eletriza Pernambuco. Cores, rodas, ritmos, mistérios. Histórias de uma manifestação que encarna o sincrestismo brasileiro. E de um personagem ideoso e realizador que semeou, além de quinze filhos, uma lantejoula preciosa no mosaico antropofágico que somos
Carolina Gutierrez

(11/03/2009)

I.
Cidade Tabajara. Pernambuco. Roupas coloridas estendidas nas arquibancadas do Ilumiara Zumbi. Surrões, com seus chocalhos, deitados no chão. Verde, vermelho, azul, rosa, amarelo. Silêncio. Ninguém a vista. Somente as indumentárias dos folgazões brilham perpétuas e quietas secando ao sol. A brincadeira já passou. Mas se fechar os olhos, ainda posso ouvir o som e as loas do maracatu de baque-solto. E nesse sonhar acordado, as roupas levantam-se e retomam seus personagens. Como num flash, o caboclo-de-lança me surge outra vez diante dos olhos. Guerreiro e exuberante. As servis baianas enrolam suas saias rodadas. Reamares exibem os chapéus de longas penas pavão. Catita, Mateus e a Burrinha vêm chegando, tirando a maior zoada. E de repente, o mestre cantador improvisa na toada do baque-solto: “Galega, acorde! O carnaval já passou”. Abro os olhos. As roupas continuam lá. Permaneço parada buscando as imagens e os sons que já se foram junto com Momo. E que estranhamente continuam ritmando a respiração do chão de paralelepípedos da Cidade Tabajara, em Paulista, região metropolitana do Recife.

Nesta quinta, ressaca da folia, deixei que as lembranças fizessem minhas pernas andar até a Casa da Rabeca, do falecido mestre Salustiano. E no caminhar, a memória da segunda-feira de carnaval me povoou.

Maracatus vindos de todos os lados se enfileiravam um atrás do outro, aguardando a vez de seu desfilar no 19º encontro de maracatus de baque-solto. Velhos, jovens, adultos, crianças. O Piaba de Ouro – da família Salu – era o primeiro.

"Caboclinhos-de-lança do maracatu Piaba de Ouro"


Na espera, conheci o caboclo-de-lança José Alexandre, de 53 anos. O cortador de cana-de-açucar sempre foi brincante; primeiramente do caboclinho Tribojé e agora – há 6 anos já – um dos guerreiros do maracatu Piaba de Ouro. Com a grande cabeleira de papel celofane verde, cravo branco entre os lábios, óculos escuros, rosto tingido de urucum, guiada (lança) em mãos, gola e surrão, José Alexandre me contou que ele, como muitos outros folgazões (nome dado aos brincantes de maracatu), carrega o peso do caboclo-de-lança, do cortador de cana, dos escravos.

Ele era muito conhecido de mestre Salustiano. “Olhe menina, foi Salu que acabou com a rivalidade dos maracatus. Foi da cabeça dele criar a Associação dos Maracatus, em 1989. E foi Salu que fez esses encontros em Aliança, Nazaré da Mata e aqui no Ilumiara Zumbi”. Mestre Salustiano, pra quem não sabe é considerado embaixador da cultura popular. Morreu foi ano passado, deixando 15 filhos e várias nações de maracatu. “Pra mim eu perdi tudo, porque convivia com ele há muito tempo”. Ele é respeitado, querido. Deixa saudade!”, seu Zé Alexandre confidenciou.

Mais que de repente ouviu-se uma apitada. Vixe que o desfile vai começar...começou. Os caboclos-de-lança começam a se movimentar, e com eles todos os personagens do maracatu. O Piaba de Ouro desce a ladeira em direção ao Ilumiara Zumbi. O lugar é uma espécie de semi-arena de concreto, com arquibancadas, um espaço circular no centro. Um palco é colocado em frente. Lá já está o mestre cantador, o terno – instrumentos de percussão -, e os instrumentos de sopros típicos da toada frenética e dissonante do ritmo do baque-solto.

Pense num cortejo cheio de cores e movimento. Ele é executado em dois círculos – um dentro e outro fora. No centro, estão o rei e a rainha, autoridades do maracatu. Logo ao lado, a corte. Atrás, se encontra o bandeirista, que porta o estandarte da nação. Contornando, lá estão as baianas, encarregadas de servir a corte. Em frente, segue a madrinha – a Dama do Paço (ou Passo), ou mulher da boneca. Atrás, ficam os caboclos-de-pena, ou reamares. Manezinho, filho de mestre Salustiano, me contará depois que são eles que trazem paz para o maracatu. “É como se fossem os caciques da tribo. Quando o pau comia, eram eles que entravam no meio pra apaziguar”. O porta-símbolo é aquele que o próprio nome já fala, ele leva o símbolo da nação. No caso do Piaba de Ouro, é o peixinho, dourado. À frente do cortejo, aparecem Catita, Mateus e a Burra, ou burrinha. Esses tão soltos na buraqueira. São eles que de forma cômica, cheia de graça e num clima de baita zoada, pedem dinheiro para o maracatu. “São eles quem dão comida à nação”, contará Manezinho. Os caboclos-de- lança correm pelo círculo de fora encenando a batalha e golpeando as guiadas (lanças) de 2 metros, todas enfeitadas de fitas, para todos os lados. Eles são os guerreiros da nação.

"Caboclos-de-lança em Nazaré da Mata"


A indumentária é que encanta e hipnotiza os olhares. Na cabeça, uma cabeleira enorme de papel celofane de variadas cores – verde, dourado, roxo, rosa, vermelho, prateado. A gola do caboclo (espécie de manto) é bordada de lantejoulas pelas calejadas mãos do próprio caboclo-cortador-de-cana. O conjunto de miçangas, lantejoulas, vidrilhos forma um mosaico de brilho e de cores. Os desenhos quem escolhe é o caboclo-de-lança. Vai de flores grandes, pequenas e símbolos de times de futebol até homenagens. Um trabalho minucioso, delicado, belo, que se contrapõe aos golpes cerrados do facão, na lida dos canaviais. “O gosto é do caboclo, vai da criatividade dele. Um bom caboclo troca de gola todo ano. Brinca um ano ou dois e depois doa a gola pros maracatus mais simples”. Nas mãos, o guerreiro leva sua arma: uma guiada enfeitada de fitas coloridas e de ponta afiada. Por de baixo da gola, está o pesado surrão – estrutura que leva pendurados sinos-chocalhos. Chega a pesar 10 a 15 quilos, só o surrão. Embaixo de tudo que se pode ver, ainda veste o silourão, fofa, camisa de manga comprida, lenço, óculos escuros, rosto pintado de urucum e o cravo branco entre os lábios. “Isso tudo faz parte da camuflagem do caboclo. Ele é um guerreiro, ninguém pode conhecer e reconhecer quem esse caboclo é”, clarearia Manezinho mais tarde.

O Piaba continuou fazendo suas evoluções até adentrar o centro do Ilumiara Zumbi. No meio do caminho, encontrou uma nação de maracatu de baque-virado. O Batuque Estrelado, com as mãos para cima, saudava o maracatu de Salu, numa homenagem e reverência ao mestre ausente.

"Cortejo de maracatu de baque-solto"


Os caboclos continuavam sua dança circular ao redor das baianas, reamares ou caboclos-de-pena, rei e rainha e da encantadora Dama do Paço ou mulher da boneca. No Piaba de Ouro, ela era uma das filhas de mestre Salu. Imaculada vestia o luto e chorava emocionada a lembrança do pai, ao mesmo tempo em que Saluzinho – Cleyton – improvisava as loas em homenagem. “Piaba, no carnaval deste ano, presta homenagem a mestre Salustiano. Mestre Salu da cultura popular está no céu vendo o Piaba desfilar. (…) A Rede Globo mostrando. Plantão naquele momento. Era o falecimento do mestre Salustiano. (…) Pra ele eu estou cantando, nesse grande festival”. O improviso é difícil captar. E mais difícil é transcrever um emaranhado de emoções e de lágrimas de toda uma gente.

Um minuto de silêncio. Um silêncio que vibrava e explodia em cores, sons, sentimentos, lágrimas, respeito, admiração e cliques de máquinas fotográficas. A homenagem só estava começando. Naquele mesmo lugar, como todos os anos, ainda passariam 105 maracatus de baque-solto em desfile, brincadeira e graça a mestre Salustiano. E um a um, ia se encaminhando para a Casa da Rabeca na outra parte do encontro.

II.
Que significam, afinal, o azougue e o cravo branco na boca? “Isso não se pode falar não. É um preparo para o carnaval que existe há mais de 200 anos, não pode ser quebrado. Só os mais antigos sabem do significado real”
Os pensamentos se esvaíram quando finalmente minhas pernas estancaram na Casa da Rabeca. Outro vazio. As cores não estavam mais lá. Das loas só restava o eco. Mais uma vez, me dei conta que o carnaval já passara. Somente meia dúzia de cabras pingadas. O alvoroço dos maracatus já haviam passado. Da presença do caboclinho Sete Flexas ficou só os rastros dos trupés.

Espero Manezinho, filho mais velho de Salustiano, para uma prosa. Na parte de fora, chão de terra batida. Um grande espaço descoberto, onde quando São Pedro não espirra chuva, as pessoas levantam a poeira no passo do forró, no mergulhão do cavalo-marinho, nas evoluções do maracatu. O coberto tem chão de cimento. Paredes verdes, com um palco ao fundo. Aqui também se brinca. Do outro lado, está a loja da Casa da Rabeca. Enfeitada por grandes máscaras na entrada. Está fechada, mas dentro tem de tudo: mamulengos, gola do caboclo-de-lança, CD, DVD, instrumentos, enfim uma zona boa que só.

Manezinho não aparece. Mas providencialmente, naquele marasmo todo, um menino-moço surge com um cachorro. Agora pense num cão grande. Pois, me aproximei e perguntei por Mané. “Vixe que ele tava aqui agorinha. Tu quer falar com ele, é? Espere aqui que to indo lá na casa dele e dou o recado que tu ta aqui”. O cachorro foi com ele. Uns minutos, e lá vem Manezinho. “Menina, que estava lhe esperando”. Perdi-me nas divagações do caminho.

Vamos até a casa dele. Aliás, todos os quinze filhos de mestres Salu moram ali pela Casa da Rabeca. “Olhe não repare a bagunça, que é tudo coisa do carnaval”. Sentamos do lado de fora da casa. No chão se via pelas serpentinas e pedaços de pano que a festa de Momo tinha passado por ali. No resto não reparei, a pedido do anfitrião. Proseamos um tico sobre o dilúvio desse carnaval. E fomos encaminhando o papo pro assunto de curiosidade: o maracatu de baque-solto, ou rural.

A folia surgiu lá na Zona da Mata de Pernambuco, no iniciozinho do século 20. Foi criado na senzala dos engenhos de cana-de-açúcar e sofreu a forte influência indígena da região. “A dança e a formação do cortejo é toda circular, o que é muito da cultura indígena”. É bom lembrar que do negro com índio nasce o caboclo. “Antigamente, a manifestação era bater madeira de mulungu. Depois começa a sair em cortejo. Daí o nome maracatu, “guerra bonita”, em tupi. E por ser um toque mais solto, ficou maracatu de baque-solto”, explia Manezinho.

Os personagens são sempre os mesmos e não tem um número fixo não. Isso depende do tamanho e riqueza do maracatu. O Piaba de Ouro, veja só, tem mais de 200 integrantes. E há maracatus menorzinhos, com 30 pessoas.

Mas olhe que o maracatu de baque-solto sofreu duas mudanças antes de chegar nessa formação que se vê hoje. Antes, mulher não brincava o maracatu, não. Era coisa de cabra muito macho. Mesmo os personagens femininos, como as baianas, eram homens vestidos de mulher. A mulherada só foi entrar na brincadeira nos anos 70. E veja, que também não existiam o rei e a rainha. Isso foi coisa da Federação Carnavalesca de Pernambuco. Pronto, que a tal federação nunca tinha julgado um concurso com o maracatu-rural. Não entendia patavinas da estrutura da manifestação. Então, decidiu que ela precisava se assemelhar mais com o maracatu-nação. Pois enfiaram o rei, a rainha do Congo no maracatu de baque-solto. Foi assim.

Antigamente, também era mais pobrinho, emenda o filho de mestre Salu. “O chapéu com a cabeleira parecia o de Mateus, do cavalo-marinho. Mirradinho assim. A guiada não tinha fita. A gola era só um tecido estampado com espelhos. Depois que se começou a fazer com vidrilhos. Mas daí descobriu-se que ficava muito pesado e passou-se para a lantejoula. Até porque a lantejoula é coisa nova”.

Manezinho ainda explica que o maracatu de baque-solto é também uma manifestação religiosa. O culto é à Jurema. “O caboclo-de-lança tem todo um preparo para o carnaval. Tem uma preparação individual de abstinência sexual, sete dias antes do carnaval. O caboclo é sempre caboclo. E uma característica, é que ele gosta de fazer seu trabalho só”. E quanto ao azougue e o cravo branco, o que significam afinal?, pergunto, já sabendo da resposta que me aguardava. “Isso não se pode falar não. É um preparo para o carnaval que existe há mais de 200 anos, não pode ser quebrado. Só os mais antigos sabem do significado real disso. E só contamos para os menores quando estiverem preparados. É assim que a tradição se matem e não é perdida”. Tentei a mesma pergunta ao Seu José Alexandre, lá do início do texto, a resposta foi a mesma: “Não se pode falar. É uma proteção que só os antigos fazem e sabem. O caboclo morre com o segredo da cravo, segredo que é só do caboclo”, contou seu Zé Alexandre.

"Seu Zé Alexandre - caboclo-de-lança"


O guerreiro do maracatu ainda toma o azougue- cachaça de cabeça, azeite de dendê, chá de bacalhau, limão e pólvora. Somente os caboclos que mantiveram a abstinência sexual podem beber do azougue.

O segredo escondido na flor e no azougue continuam como deve ser.

III.
A guiada com fitas coloridas é afiada e luta pela nação. Quem não toma tento durante o cortejo, pode ser atingido pela ponta da lança. Manezinho conta que em tempos idos o pau comia solto, entre os maracatus e seus guerreiros
Enquanto fazem suas evoluções, uma mescla de dança com guerra, os caboclos-de-lança chacoalham os surrões localizados nas costas e abaixo da gola, dando a marcação dissonante do maracatu de baque-solto.

A música é peculiar. Ligeira, frenética. Um pulsar constante. Uma mistura de instrumentos de sopro e percussão. Existe o mestre cantador, ou mestre de loas, que comanda o maracatu e improvisa as canções. Quando ele canta, a nação do maracatu permanece parada, escutando. O apito marca as esparradas dos caboclos no chão. A seguir, entram os instrumentos do terno. São cinco músicos de percussão: bumbinho, tarol, porca (cuíca), ganzá e gonguê. O de sopro são o pistom, clarinete, trombone.

Manezinho explica que há três momentos rítmicos: marcha, samba e galope. A marcha é feita na chegada e despedida do cortejo e é cantada em quadra. O samba é dividido em dois – samba curto e samba em dez – e é feito no meio do maracatu. Já o galope não é oito nem oitenta. É uma mistura dos dois: meio marcha, meio galope. Uma das loas mais famosas foi feita por mestre Salu. E caiu no gosto do povo: “Chegou Piaba de Ouro. / Abrilhantando toda cidade/ Carnaval Pernambucano/ Cheio de riso e de vaidade”. “O pai cantou e a gente guarda até hoje”, canta Manezinho.

E no emaranhado do entendimento sobre o maracatu, a imagem do caboclo-de-lança floresce na lembrança daquela segunda de carnaval. Os pés numa dança habilidosa se entrelaçam numa mistura de frevo, capoeira, cavalo-marinho. Uma multidão de caboclos reunidas pela manhã em Nazaré da Mata, pela tarde no Ilumiara Zumbi e Casa da Rabeca. É durante o encontro, em meio à carnavalizante alegria, que o cortador-de-cana deixa o facão de lado e empunha sua arma. Veste-se de guerreiro. Uma força bela, exuberante e protetora. “Não tem preconceito, pode ser o que quiser. É dentro do baque-solto que a gente é rei, presidente, patrão, diretor. Ali, nós somos autoridades”, emociona-se Manezinho.

A guiada com fitas coloridas é afiada e luta pela nação de maracatu. Quem não toma tento durante o cortejo, pode ser atingido pela ponta da lança. Manezinho conta que em tempos idos as guiadas eram usadas na lapada. O pau comia solto entre os maracatus e seus guerreiros. “A nação de maracatu pendurava o dinheiro na bandeira. Quando se deparava com outro grupo, a zoada era furar a bandeira do outro. Tomar o dinheiro daquela nação. Aí o pau cantava. Guiada em um, guiada em outro. Havia muita briga e morte de folgazões”.

Foi para acabar com as peleias que Mestre Salu, homem de idéias, criou, em 1989, a Associação de Maracatus de baque-solto. Na época, somente 12 nações se associaram. Hoje, são 105.

Com a criação da Associação, Salu fez que fez para acontecer o 1º encontro de maracatus. “Pai vendia a idéia e ninguém acreditava. Foi que vendeu uma caminhonete para fazer o encontro”. O primeiro aconteceu na Praça do Carmo, em Olinda, no ano de 1990. Só depois foi feito em Nazaré da Mata, Aliança, Ilumiara Zumbi, Casa da Rabeca e Recife. Foi o ideioso Manoel Salustiano Soares que inventou os encontros. Só depois foram oficializados.

"Maracatu do baque-solto nas ruas do Recife"


A prefeitura de Recife, por exemplo, faz um encontro de maracatus lá no Marco Zero. Nações e nações participam da festa no palco gigante. Ali é o lugar para serem vistos pela mídia e se fazerem conhecidos. Na noite de domingo, as ruas amareladas do Recife Antigo são preenchidas com os sons dos surrões e com o colorido brilhante dos caboclos-de-lança. Passa um, que encontra outro e junta tudo num marco zero. Não é a toa que o caboclo-de-lança e o baque-solto são agora, quiçá mais que o frevo, símbolos da pernambucanidade. E gratos pela idéia de Salu, a prefeitura homenageou mestre Salu neste carnaval multicultural.

E foi da mesma forma genial que Salu resolveu que precisava de um espaço. Em 2002, fez a Casa da Rabeca. “A mesma história. ’Quero fazer aqui o meu lugar. O encontro da rabeca com a sambada, com cavalo-marinho, forró, maracatu’", lembra Manezinho. E olhe que a coisa tomou tamanha proporção que hoje cabem 3 mil pessoas no terreiro.

Salustiano, embaixador da cultura, deixou 15 filhos. O mais velho, Manezinho, 39 anos; a mais nova, Beatriz, de 6. Manezinho riu: “Pai queria completar um cavalo-marinho, que é 20”.

IV.
“Eita que era meu pai sozinho fazendo. Metia na cabeça: vou fazer. Passava fome mas fazia. Vida dele é cultura. Lutava por isso. Para crescer a cultura”

"Homenagem a Salu, no Encontro de maracatus em Nazaré da Mata"


“É muito difícil. Pode estar coisa mais bonita, com multidão, mas falta alguma coisa, entende. Bastava ele ficar ali sentado assistindo. O comando vinha dele. Agora os filhos vamos continuar fazendo o que pai gostava, que era brincar a cultura popular. Não muda nada, o que muda é a falta dele”.

A perda deixa um vazio na folia, em casa, na Casa da Rabeca. Um folgazão morreu. Um brincante morreu. Uma parte da cultura se foi.

“Eita que era meu pai sozinho fazendo. Metia na cabeça: vou fazer. Passava fome mas fazia. Vida dele é cultura. Lutava por isso. Para crescer a cultura”.

Ôxi Salu. Venha se ler aqui. Veja os folgazões. Mire a folia linda do carnaval que tu ajudou a fazer. Não morres, não. Permaneces.

Le Monde Diplomatique

sábado, 4 de julho de 2009

Carnaval: Olha a história aí, gente!


Carnaval: Olha a história aí, gente!
Temas históricos estão presentes nos desfiles desde que Getúlio Vargas, nos anos 1930, prometeudinheiro em troca de assuntos nacionais
por Antonio Neto
No quesito conjunto, nenhuma homenagem ao centenário do avião 14 Bis de Santos Dumont terá mais plumas e paetês este ano. O vôo inaugural do inventor brasileiro é um dos temas históricos que vão desfilar pelos sambódromos de São Paulo e do Rio de Janeiro neste Carnaval. Além do pai da aviação, que inspirou os enredos da Gaviões da Fiel e da Unidos do Peruche, o Anhembi terá ainda a Vai-Vai cantando São Vicente, primeira cidade do Brasil. Já a Sapucaí verá Santa Catarina e sua revolução farroupilha no samba da Imperatriz Leopoldinense.

Hoje cada escola de samba escolhe o tema que bem quiser para desfilar na avenida – ou, verdade seja dita, o tema que melhor ajude a pagar seus custos. Mas, durante 60 anos, os enredos só podiam abordar assuntos nacionais. A idéia partiu do presidente Getúlio Vargas. Em 1935, ele fez um acordo com as recém-criadas escolas de samba (que já desfilavam pelo centro do Rio de Janeiro, então capital federal, desde 1929). Em troca de verba pública, as agremiações retratariam temas brasileiros. Três anos depois, isso virou regulamento oficial da União das Escolas de Samba, responsável pelo julgamento dos desfiles na época.

“No começo do século 20, os blocos e algumas escolas criavam seus sambinhas para satirizar os adversários”, afirma o historiador Nelson Crecibeni Filho, presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. “Getúlio tomou essa medida em nome do nacionalismo, para aproveitar a presença crescente da classe média no Carnaval.”

Por quase três décadas, os enredos se dividiram entre a exaltação da República e de seus presidentes e passagens da história do Brasil Império – embora, nessa época, ninguém quisesse se fantasiar de escravo ou índio. Pouco antes da ditadura militar, algumas escolas chegaram a ensaiar novos passos. Em 1957, no Rio, o Salgueiro fugiu dos temas patrióticos e desfilou “Navio Negreiro”, primeiro samba sobre o tráfico de escravos – agora, mais profissionais, os foliões não ligaram de sambar vestidos a caráter. Ainda assim, o título foi para a Portela, com um samba sobre a corte: “Legados de D. João VI”. O reconhecimento desse outro lado da história do Brasil só viria em 1963, com a vitória do enredo “Chica da Silva”, novamente com o Salgueiro. “Os compositores passaram a se preocupar mais com a veracidade da história para escrever a letra dos sambas”, diz Crecibeni.

Durante a ditadura, até as agremiações endureceram e adotaram o tom oficialesco em seus sambas-enredo. “Para lembrar a criação dos Correios em 1969, a Mangueira saiu em 1971 com o enredo ‘Modernos Bandeirantes’”, afirma Haroldo Costa, compositor, produtor musical e autor de 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. “Dois anos depois, a Beija-Flor tentou mostrar a preocupação dos militares com o ensino em ‘Educação para o Desenvolvimento’.”

No começo dos anos 80, no clima de luta pelo fim da ditadura, as escolas passaram a variar mais seus temas, homenageando figuras culturais e falando sobre movimentos populares. A guinada culminaria em 1989, com a Imperatriz Leopoldinense, que exaltou os 100 anos de República com o enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós”. A escola, que falou de história simplesmente porque quis, e não pela obrigatoriedade do regulamento, foi campeã do Carnaval carioca.



Grandes nomes
Veja quantas vezes eles apareceramnos enredos dos últimos 25 anos no Rio e em São Paulo
Zumbi - 9

D. João VI - 5

Getúlio Vargas - 4

Pedro Álvares Cabral - 3

Princesa Isabel - 3

Santos Dumont - 3

Carmen Miranda - 3

Juscelino Kubitschek - 2

Adoniran Barbosa - 2

Jorge Amado - 2

Maria Bonita - 2


Biblioteca de bambas
Literatura e livro didático já inspiraram carnavalescos
Quando os desfiles das escolas de samba começaram, no início do século passado, o improviso dava o tom. A partir dos anos 40, por conta dos temas nacionalistas, os sambas passaram a ser recheados com informações buscadas, principalmente, nos livros didáticos usados nas escolas. Já nos anos 50, entraram em cena grandes obras de nossa literatura. “Em São Paulo, a Nenê de Vila Matilde venceu em 1956 com ‘Casa Grande e Senzala’, baseado no livro do sociólogo Gilberto Freyre”, diz o historiador Nelson Crecibeni. Memórias de um Sargentode Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, O Tronco do Ipê, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mario de Andrade, também viraram enredos – a Portela os cantou em 1966, 1968 e 1975. Atualmente, professores universitários e historiadores costumam ser consultados para as pesquisas dos sambas-enredo. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tem um Núcleo Interdisciplinar de Estudos Carnavalescos, que, entre outras atribuições, fornece uma espécie de consultoria a pessoas ligadas às escolas.

Revista Aventuras na Historia