quinta-feira, 16 de agosto de 2012
O carnaval carioca
quinta-feira, 31 de março de 2011
Angelo Agostini - Carnaval de 1881





Unicamp | Universidade Estadual de Campinas
quinta-feira, 10 de março de 2011
Carnaval - Igreja reconheceu a festa em 590 d.C.
![]() Bloco de garis "limpa" as ruas de Olinda, Pernambuco, durante o carnaval |
História do Carnaval
Durante a Saturnália, os membros da nobreza e os escravos se misturavam nas ruas para as comemorações, que incluíam muita comida, bebida, música e dança. Essas festas eram protegidas por Baco, o deus do vinho. Nos dias de folia, tudo se invertia. Tanto que o rei da festa, o Rei Momo, era um escravo (da classe mais baixa de Roma) e podia ordenar o que quisesse durante as festividades. As pessoas representavam papéis, por isso, com o passar do tempo, veio o costume das máscaras, trazidas do teatro clássico grego.O entrudo em Portugal e no Brasil
Corsos, blocos e outros foliões
A escola de samba
O Carnaval carioca
O Carnaval baiano e o trio elétrico
O Maracatu e o frevo no Nordeste
quarta-feira, 9 de março de 2011
O samba que faz carnaval
| Série de fotos de Maureen Bisilliat ilustra os personagens clássicos do samba e da folia | ||||||||||||||||||||||||||||
Talvez já se tenha passado o tempo em que o samba era a linguagem musical predominante na sociedade brasileira e gênero maior do carnaval. Hoje, o samba não representa o universo das camadas populares como nas décadas de 30 e 40, nem detém a hegemonia sonora dos carnavais do país. Mas se alojou no imaginário popular como a nossa Grécia musical, aquilo que gostamos de acreditar ser a nossa identidade comum. A fotógrafa inglesa Maureen Bisilliat passou parte do fim dos anos 60 retratando a arquitetura do Rio de Janeiro antigo, subindo o morro da Mangueira e conhecendo os personagens que marcaram a elite do samba consagrado no período. É material de primeira linha, com nomes como Donga, Pixinguinha e Cartola em poses e cenas de expressiva dignidade. Um dos resultados foi o ensaio "A batucada dos bambas", que ilustrava um texto escrito por Sérgio Cabral, publicado em agosto de 1969 numa edição especial de Turismo, da revista Quatro Rodas (editora Abril). As imagens hoje são parte integrante do acervo de Maureen lotado no Instituto Moreira Salles. "Venha, me dê sua mão porque sou seu irmão na vida e na poesia. Deixe a reserva de lado, eu não estou interessado em sua guerra fria. Nós ainda havemos de ver uma aurora nascer num mundo em harmonia. Onde é que está sua fé? Com amor é melhor, ora se é!" Pixinguinha Desde o ensaio de Maureen, o carnaval do samba aprimorou sua indústria. Maureen mostra, no entanto, que mesmo a folia programada não abafa a realidade popular que a comemora, misto de alegria e sofrimento que define sua linguagem. Captar esse cruzamento paradoxal entre nobreza e miséria, festa famélica e exuberância sem tostão, é o que até hoje dá força e atualidade às imagens flagradas por Maureen, reproduzidas nestas páginas, com textos originais do livro Fotografias (IMS), que condensa sua obra. Confusão O colorido e a dignidade de suas imagens dão outro significado à farra carnavalesca tal como encarnada no Rio de Janeiro do fim dos anos 60, início dos 70. Uma época em que fazer um carnaval em torno de algo era sinônimo de promover estardalhaço, exagerar a dose, fantasiar os efeitos e as causas, e fazer uma bagunça festiva. Carnavalizar é ainda contagiar-se por um rompante de alegria. Mas pular o carnaval é também participar de um acontecimento de mercado, uma farra com prazo de validade, desfiles e blocos, restrita a um quarteto de dias anteriores à quarta-feira de cinzas. Essa briga de identidades, entre um estado de espírito e uma festa de mercado, contamina o sentido dado pela palavra "carnaval" ao longo do tempo. "Ai, ai, ai dança o samba Com calor, meu amor Ai, ai, ai Pois quem dança Não tem dor nem calor O chefe da polícia Com toda carícia Mandou-nos avisá Que de rendez-vuzes Todos façam cruzes Pelo carnavá!" Donga Em O Livro de Ouro do Carnaval Brasileiro (Ediouro), Felipe Ferreira acredita que a hesitação entre os dois significados do termo (festa e espírito) causa muita confusão em torno das origens do termo. Há quem considere os dois sentidos como a mesma coisa - e por isso a festa carnavalesca remontaria a milênios, ao Egito, à Roma antiga. Até as comemorações de colheitas anteriores à era cristã caberiam ao termo, seriam carnavais. Não é por acaso que a presença, nas festas e procissões pagãs que teriam originado a tradição carnavalesca em muitos países, de charretes em formas de navios gerou o mito de que a palavra carnaval viria de carrus navalis (carro em forma de navio). É velha a ideia de que qualquer brincadeira ou inversão de valores deve ser considerada antepassado do carnaval. Os bispos dos primeiros séculos de domínio católico eram indiferentes às distinções entre festas pagãs, e havia muitas em vários países, em meses distintos. Até o século 18, tantos as saturnais, os ritos de inversão, as festas de loucos e os carnavais recebiam o estigma de "carnaval", comemorações demoníacas. Teria sido a Igreja que, para melhor estigmatizar o paganismo, consolidou a primeira noção de carnaval, como uma festa de inversões, exageros, caricatura e humor. Quaresma A história da palavra carnaval é ela mesma alegórica. No ano de 604, o papa Gregório I decretou que os fiéis deveriam abandonar sua rotina para, num período predefinido de 40 dias, dedicarem-se à comunhão com o espírito. A quaresma era a imitação do exemplo de Jesus, que por 40 dias viveu entre o jejum e as tentações de satã. "Eu digo e afirmo que a felicidade aqui mora E as outras escolas Até choram invejando A tua posição Minha mangueira essa sala de recepção Aqui se abraça o inimigo Como se fosse um irmão" Cartola No ano 1091, o papa Urbano II convocou o Sínodo de Benevento, que estabeleceu a data oficial para a quaresma, o primeiro dia batizado de Quarta-feira de Cinzas (dado o hábito de marcar a testa dos fiéis com uma cruz feita de cinzas, em sinal de penitência). O dia marca o começo das privações de prazeres, a proibição de comer carne e a abdicação de bens materiais. Com o tempo, consagrou-se o hábito de antecipar a quaresma com um período extraordinário com tudo o que a quaresma negava aos fiéis - fartura, caricatura da autoridade e das questões do espírito, exagero e farra, o prenúncio do que chamamos hoje de carnaval. Mais que uma festa, lembra Ferreira, o carnaval é uma data. Por isso, não há uma forma de brincar o carnaval, há muitas. Daí uma flutuação em torno da origem do nome. Os últimos dias de fartura antes da quaresma começaram a ser chamados de "adeus à carne" (em italianocarnevale, afirma Ferreira). O período de adeus à carne recebeu vários nomes entre os séculos 12 e 13, período em que tomam forma as diferentes manifestações que derivariam no carnaval de hoje: carnelevariumem 1097, caramentran, carnisprivium ou carnelevare em 1130, carnelevamem em 1195. O carnaval não se esgota numa palavra. Tampouco numa festa. Mas nas diferentes formas que assumir - um conceito, um estado de espírito, uma indústria (como a dos desfiles cariocas e a dos trios elétricos de Salvador) - será sinônimo da vitalidade popular de reinventar-se e divertir-se até muito além do próximo carnaval. As imagens de Maureen Bisilliat o comprovam.
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CARNAVAL RJ – As Escolas de Samba

quarta-feira, 30 de junho de 2010
Como o Diabo Gosta!

Como o Diabo Gosta!
Periódico revela as diabruras de um salão carnavalesco carioca na década de 1930
Murilo Sebe Bon Meihy
O Rei Momo, quem diria, fantasiou-se de demônio para o carnaval de 1931! As provas desse animado infortúnio podem ser consultadas na Biblioteca Nacional. Entre os periódicos da divisão de Obras Raras encontra-se um exemplar do jornal O Baeta: Pasquim Carnavalesco; um folhetim do Clube dos Tenentes do Diabo. Trata-se de uma agremiação carnavalesca fundada em 1855 sob o nome de “Sociedade Euterpe Comercial”, e que mais tarde passou a somar ao nome a designação de “Tenentes do Diabo”. A opção pela troca do nome possui inúmeras justificativas. Uma delas, expressa no exemplar analisado, sugere que uma grande confusão causada pelo incêndio de uma farmácia na rua Direita em 1861 fez o clube renascer: “ ... A Euterpe Commercial suppondo que o fogo se havia declarado em casa de um dos sócios, para lá correu, e, com seu uniforme carnavalesco, auxiliando o Corpo de Bombeiros, portou-se, com maior valentia. Extincto o incêndio, levantaram-se para Ella as labaredas do prestigio. Novos sócios entraram; o enthusiasmo aviventou-se e não longe desse baptismo de fogo, que lhes consagrou o nome, receberam no chrisma de Momo o de Tenentes do Diabo.”
Parece claro que uma reunião de foliões tão ativa e entusiasmada andou “infernizando” a ordem e as autoridades policiais cariocas ao longo de sua existência. Um bom exemplo dessa relação intempestiva é o conhecido envolvimento do Clube dos Tenentes do Diabo na campanha abolicionista que ganhava força na segunda metade do século XIX. Além de emprestar sua sede para reuniões sediciosas de líderes favoráveis ao fim da escravidão, o clube teria destinado o dinheiro recolhido para a confecção de carros alegóricos e fantasias, à compra de cinco cartas de alforrias no carnaval de 1864. Os escravos que tiveram sua liberdade adquirida pelos Tenentes do Diabo passaram a morar na sede do clube, prestando pequenos serviços aos associados.
Ao longo dos anos, mesmo com o fim da escravidão no Brasil, as relações dos foliões com a polícia manteve-se “entre a cruz e a caldeirinha”. No exemplar de O Baeta, um artigo chama a atenção do leitor. Com o título de “Lasciate ogni speranza o’ voi que entrate! Rectificando uma ‘noticia encomendada’”, O Baeta publicou uma nota saída no Correio da Manhã que explicava um escândalo envolvendo o clube e dois investigadores de polícia. Em um de seus bailes pré-carnavalescos, os Tenentes do Diabo receberam a súbita visita dos policiais. Na versão dos guardas, procuravam uma mulher envolvida com cocaína; para os diretores do clube, os investigadores não passavam de “penetras” que tentavam participar do baile.
Nas palavras do artigo: “... os investigadores implicados no caso agiram perversamente, procurando deixar compromettido o grêmio carnavalesco, por uma futilidade, em que não tinham a menor dose de razão. Elles não foram à sociedade em perseguição de mulher alguma. Saltando em frente à sede (...) appareceram ali, subiram as escadas e pretenderam entrar no salão. Foram impedidos de o fazer por um dos diretores, o qual lhes pediu provassem a sua qualidade de policiaes. Isso foi o suficiente para que os investigadores se melindrassem, inventando toda aquella história de cocaína, que não passa de mera fantasia, segundo affirmam.”
Mas, as desventuras do Clube dos Tenentes do Diabo com a ordem pública pareciam dar uma pitada de enxofre ao carnaval carioca. Em outra noticia do mesmo exemplar de O Baeta, o redator narra o desfecho de uma competição nada salutar entre um de seus sócios e um integrante da agremiação Cordão do Bola Preta, pelo estandarte de ouro no quesito “desordem e arruaça”: “No ultimo baile realizado na ‘Caverna’ (nome dado a sede do Clube dos Tenentes do Diabo) desavieram-se por questões de preferências femininas, o conhecido ‘baeta’ Augusto e o ‘bolapretano’ Palmyro. Da discussão passaram às vias de facto e Palmyro, valendo-se de sua mão direita desferiu cantante bofetada em plena face do adversário. (...) Em auxilio de Augusto correu o ‘Domigos Puré’ que, prevalecendo-se de estar Palmyro deitado, pespegou no mesmo, em lugar delicado, antropophaga dentada...”
Na hierarquia militar celestial do carnaval, os Tenentes do Diabo seguem à risca as ordens de seu general.
Revista de História da Biblioteca Nacional
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Quem foi, quem foi que inventou o carnaval?

Quem foi, quem foi que inventou o carnaval?
A mistura da tradição européia com os ritmos musicais dos africanos criou no Brasil um dos maiores espetáculos populares do mundo. O Carnaval nasceu no Egito, passou pela Grécia e por Roma, foi adaptado pela Igreja Católica e desembarcou aqui no século XVII, trazido pelos portugueses. Viva a folia!
por Ricardo Arnt
Quem foi que inventou o Brasil? / Foi seu Cabral, foi seu Cabral / No dia vinte dois de abril / Dois meses depois do Carnaval
(História do Brasil, Lamartine Babo, 1934)
Com História do Brasil, Lamartine Babo (1904 - 1963) fez mais do que o grande hit de 1934: deu uma definição clássica da festa e do país. À altura desta, só a de Assis Valente (1911 -1958), em Alegria : Minha gente era triste, amargurada / Inventou a batucada / Prá deixar de padecer / Salve o prazer / Salve o prazer.
Abaixo do Equador, onde não existe pecado, a fusão da tradição européia com a batucada africana libertou o Carnaval na plenitude. Em nenhum lugar, ele adquiriu a dimensão que alcançou no Brasil. Durante quatro dias, o país fica fechado para balanço. Ou melhor: fica aberto para só balançar. E se entrega ao espetáculo que seduz e deslumbra os estrangeiros.
A farra toda vem do inconsciente dos povos, desde os rituais da fertilidade e as festas pagãs nas colheitas. Remonta às celebrações à deusa Ísis e o touro Ápis, no Egito, e à deusa Herta, dos teutônicos, passando pelos rituais dionísiacos gregos e pelos licenciosos Bacanais, Saturnais e Lupercais, as suntuosas orgias romanas.
No século VI, a Igreja adotou essas festas libertárias que invertiam a ordem do cotidiano, para domesticá-las. Juntou todas na véspera da Quaresma como uma compensação para a abstinência que antecede a Páscoa. O Carnaval, então, espalhou-se pelo mundo. Desembarcou no Brasil no século XVII. Aqui, virou um dos maiores espetáculos do mundo. Você vai conhecer um pouco mais da origem da grande folia, desde a mais remota antigüidade até a invenção da serpentina.
Em Roma, comemoravam-se as Saturnais de 16 a 18 de dezembro, para a glória do deus Saturno. Tribunais e escolas fechavam as portas, escravos eram alforriados, dançava-se pelas ruas em grande e igualitária algazarra. A abertura era um cortejo de carros imitando navios, com homens e mulheres nus dançando frenética e obscenamente os carrum navalis. Para muitos, deriva daí a expressão carnevale.
No dia 15 de fevereiro, comemoravam-se as Lupercais, dedicados à fecundidade. Os lupercos, sacerdotes de Pã, saíam pelados, banhados em sangue de cabra, e perseguiam os transeuntes, batendo-lhes com uma correia. Em março, os Bacanais homenageavam Baco (o deus grego Dionísio em versão romana), celebrando a primavera inspirados por Como e Momo, entre outros deuses.
Assumindo o controle da coisa, a Igreja fez o que pode para depurar a permissividade igualitária dos carnavais. Na Idade Média, a festa virou encenação litúrgica, corrida de corcundas, disputa de cavaleiros e batalha urbana de ovos, água e farinha. Depois, o carnaval se espalhou pelo mundo.
Na Rússia, a Maslenitsa dá adeus ao inverno, com corridas de esqui, patinação, danças com acordeão, balalaika, blinky masleye (panquecas amantegadas) e, é claro, muita vodka. No carnaval de Colônia, na Alemanha, as mulheres armam-se com tesouras e saem pelas ruas para cortar as gravatas dos homens.
Em Veneza, a tradição consagrou os fogos de artifício e foliões mascarados, inspirados na velha Commedia dell Arte. Na Bolívia, os mineiros de Oruro veneram a mãe-terra, Pachamama, dançando fantasiados de demônios. Em New Orleans, nos Estados Unidos, uma torrente humana invade as ruas do French Quarter, na terça-feira do Mardi Gras, atrás de músicos que tocam toda a noite.
Um ritual subverte a hierarquia
O entrudo português chegou aqui no século XVII. Os foliões se lambuzavam com cabaças de farinha e bexigas dágua. Durante a Colônia e o Império, o entrudo foi proibido inúmeras vezes. Consta que D. Pedro II gostava de jogar água nos nobres, na Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.
O primeiro baile aconteceu em 1840, no Hotel Itália, no Rio, ao som de valsas, quadrilhas e habaneras. Em 1845, os ricos aderiam à polca tcheca e os negros dançavam jongo. Em 1848, o sapateiro português José Nogueira de Azevedo Prates, o Zé Pereira, saiu por aí tocando bumbo. Deu origem aos primeiros blocos de rua.
Os cordões começaram com as sociedades carnavalescas, em 1866. Na Bahia, em 1895, nascia o primeiro afoxé: estava inventada a batucada. Depois da Guerra dos Canudos, em 1897, uma gentarada foi morar no Morro da Saúde, criando a primeira favela do Rio. Ali, na casa da Tia Ciata, foi composto o primeiro samba, em 1917: Pelo Telefone, de Donga.
Era só o começo. Vieram o Rei Momo, os corsos de automóveis das boas famílias (1907-1930), as escolas de samba (1928) e os concursos de fantasia (1936). Em 1935, o desfile das escolas de samba foi legalizado pela Prefeitura do Distrito Federal. Com o rádio, a festa difundiu-se e profissionalizou-se. Com a televisão, virou indústria.
O antropólogo Roberto DaMatta, autor de Carnavais, Malandros e Heróis (Rio, Ed. Zahar, 1979) define a folia como um rito de inversão, que subverte as hierarquias cotidianas: transforma pobres em faraós, ricos em mascarados, homens em mulheres, recato em luxúria. É uma compensação da realidade. Inventamos a batucada para deixar de padecer.
Quatro maneiras de brincar ao ar livre
Com o frevo, os afoxés e os trios elétricos, o negócio é ir para a rua se embolar
O frevo frenético
A palavra vem de fervura e lembra os movimentos acelerados dos foliões. É uma dança de rua e de salão, criada em Recife, nos fins do século XIX. A música, tocada principalmente por metais, é essencialmente rítmica, com compasso binário (de dois tempos) e andamento rápido. Os dançarinos executam coreografias individuais, improvisadas e frenéticas, que exigem animação de sobra e preparo físico mais de sobra ainda.
Tradição da África
Os afoxés são sociedades carnavalescas fundadas por negros, na Bahia, inspiradas nas tradições africanas. O primeiro afoxé nasceu em 1885: era o Embaixada Africana, que desfilou com roupas e adornos importados na África. O segundo, Pândegos da África, surgiu no ano seguinte. Hoje, os principais afoxés da Bahia são Filhos de Gandhi, Ilê Aiyê e Olodum.
Eletricidade musical
Os trios elétricos são palcos motorizados. Montados na carroceria de caminhões e equipados com potentes alto-falantes de até 100 000 watts, desfilam pelas ruas, levando grupos musicais e seguidos pela população. O precursor foi o Trio Elétrico de Dodô e Osmar, na Bahia. Hoje, essa folia eletrificada marca presença em quase todas as ruas do país.
Samba na avenida
As escolas de samba estrearam no Rio de Janeiro, em 1928 e, com o tempo, adquiriram estrutura e orientação empresariais, reunindo até 15 000 integrantes. Hoje, elas comercializam apresentações, direitos autorais e de imagem, sob o patrocínio do Estado e de banqueiros do jogo do bicho. O termo escola de samba surgiu no século XIX, mas foi definitivamente adotado nos anos 30, desde que o bloco Deixa Falar (a primeira de todas) passou a fazer ensaios à porta da antiga Escola Normal.
ISSO TAMBÉM É CARNAVAL
Os confetes chegaram ao Brasil em 1892, jogados em batalhas entre os cordões. As serpentinas substituíram as flores atiradas aos carros alegóricos.
Sob fantasias, o folião tem muito mais liberdade. Elas são usadas no Brasil desde o século XIX. Em 1937, houve o primeiro desfile, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
O lança-perfume, com perfume e cloreto de etila, foi trazido da França a partir de 1906. Foi proibido em 1960, porque a substância era aspirada como uma droga
Os primeiros blocos foram licenciados pela polícia em 1889, no Rio. Os integrantes percorrem as ruas fantasiados, ao som de instrumentos de percussão
O Rei Momo foi instituído pelo jornal carioca A Noite, em 1933, como símbolo do Carnaval. O primeiro Rei Momo foi o compositor Silvio Caldas
Nas bandas, cada um vai como pode: não existe uniforme ou regulamento. A primeira surgiu em 1965, em Ipanema, no Rio de Janeiro
Revista Superinteressante
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
É de baque-solto
Carolina Gutierrez
(11/03/2009)
I.
Cidade Tabajara. Pernambuco. Roupas coloridas estendidas nas arquibancadas do Ilumiara Zumbi. Surrões, com seus chocalhos, deitados no chão. Verde, vermelho, azul, rosa, amarelo. Silêncio. Ninguém a vista. Somente as indumentárias dos folgazões brilham perpétuas e quietas secando ao sol. A brincadeira já passou. Mas se fechar os olhos, ainda posso ouvir o som e as loas do maracatu de baque-solto. E nesse sonhar acordado, as roupas levantam-se e retomam seus personagens. Como num flash, o caboclo-de-lança me surge outra vez diante dos olhos. Guerreiro e exuberante. As servis baianas enrolam suas saias rodadas. Reamares exibem os chapéus de longas penas pavão. Catita, Mateus e a Burrinha vêm chegando, tirando a maior zoada. E de repente, o mestre cantador improvisa na toada do baque-solto: “Galega, acorde! O carnaval já passou”. Abro os olhos. As roupas continuam lá. Permaneço parada buscando as imagens e os sons que já se foram junto com Momo. E que estranhamente continuam ritmando a respiração do chão de paralelepípedos da Cidade Tabajara, em Paulista, região metropolitana do Recife.
Nesta quinta, ressaca da folia, deixei que as lembranças fizessem minhas pernas andar até a Casa da Rabeca, do falecido mestre Salustiano. E no caminhar, a memória da segunda-feira de carnaval me povoou.
Maracatus vindos de todos os lados se enfileiravam um atrás do outro, aguardando a vez de seu desfilar no 19º encontro de maracatus de baque-solto. Velhos, jovens, adultos, crianças. O Piaba de Ouro – da família Salu – era o primeiro.
"Caboclinhos-de-lança do maracatu Piaba de Ouro"
Na espera, conheci o caboclo-de-lança José Alexandre, de 53 anos. O cortador de cana-de-açucar sempre foi brincante; primeiramente do caboclinho Tribojé e agora – há 6 anos já – um dos guerreiros do maracatu Piaba de Ouro. Com a grande cabeleira de papel celofane verde, cravo branco entre os lábios, óculos escuros, rosto tingido de urucum, guiada (lança) em mãos, gola e surrão, José Alexandre me contou que ele, como muitos outros folgazões (nome dado aos brincantes de maracatu), carrega o peso do caboclo-de-lança, do cortador de cana, dos escravos.
Ele era muito conhecido de mestre Salustiano. “Olhe menina, foi Salu que acabou com a rivalidade dos maracatus. Foi da cabeça dele criar a Associação dos Maracatus, em 1989. E foi Salu que fez esses encontros em Aliança, Nazaré da Mata e aqui no Ilumiara Zumbi”. Mestre Salustiano, pra quem não sabe é considerado embaixador da cultura popular. Morreu foi ano passado, deixando 15 filhos e várias nações de maracatu. “Pra mim eu perdi tudo, porque convivia com ele há muito tempo”. Ele é respeitado, querido. Deixa saudade!”, seu Zé Alexandre confidenciou.
Mais que de repente ouviu-se uma apitada. Vixe que o desfile vai começar...começou. Os caboclos-de-lança começam a se movimentar, e com eles todos os personagens do maracatu. O Piaba de Ouro desce a ladeira em direção ao Ilumiara Zumbi. O lugar é uma espécie de semi-arena de concreto, com arquibancadas, um espaço circular no centro. Um palco é colocado em frente. Lá já está o mestre cantador, o terno – instrumentos de percussão -, e os instrumentos de sopros típicos da toada frenética e dissonante do ritmo do baque-solto.
Pense num cortejo cheio de cores e movimento. Ele é executado em dois círculos – um dentro e outro fora. No centro, estão o rei e a rainha, autoridades do maracatu. Logo ao lado, a corte. Atrás, se encontra o bandeirista, que porta o estandarte da nação. Contornando, lá estão as baianas, encarregadas de servir a corte. Em frente, segue a madrinha – a Dama do Paço (ou Passo), ou mulher da boneca. Atrás, ficam os caboclos-de-pena, ou reamares. Manezinho, filho de mestre Salustiano, me contará depois que são eles que trazem paz para o maracatu. “É como se fossem os caciques da tribo. Quando o pau comia, eram eles que entravam no meio pra apaziguar”. O porta-símbolo é aquele que o próprio nome já fala, ele leva o símbolo da nação. No caso do Piaba de Ouro, é o peixinho, dourado. À frente do cortejo, aparecem Catita, Mateus e a Burra, ou burrinha. Esses tão soltos na buraqueira. São eles que de forma cômica, cheia de graça e num clima de baita zoada, pedem dinheiro para o maracatu. “São eles quem dão comida à nação”, contará Manezinho. Os caboclos-de- lança correm pelo círculo de fora encenando a batalha e golpeando as guiadas (lanças) de 2 metros, todas enfeitadas de fitas, para todos os lados. Eles são os guerreiros da nação.
"Caboclos-de-lança em Nazaré da Mata"
A indumentária é que encanta e hipnotiza os olhares. Na cabeça, uma cabeleira enorme de papel celofane de variadas cores – verde, dourado, roxo, rosa, vermelho, prateado. A gola do caboclo (espécie de manto) é bordada de lantejoulas pelas calejadas mãos do próprio caboclo-cortador-de-cana. O conjunto de miçangas, lantejoulas, vidrilhos forma um mosaico de brilho e de cores. Os desenhos quem escolhe é o caboclo-de-lança. Vai de flores grandes, pequenas e símbolos de times de futebol até homenagens. Um trabalho minucioso, delicado, belo, que se contrapõe aos golpes cerrados do facão, na lida dos canaviais. “O gosto é do caboclo, vai da criatividade dele. Um bom caboclo troca de gola todo ano. Brinca um ano ou dois e depois doa a gola pros maracatus mais simples”. Nas mãos, o guerreiro leva sua arma: uma guiada enfeitada de fitas coloridas e de ponta afiada. Por de baixo da gola, está o pesado surrão – estrutura que leva pendurados sinos-chocalhos. Chega a pesar 10 a 15 quilos, só o surrão. Embaixo de tudo que se pode ver, ainda veste o silourão, fofa, camisa de manga comprida, lenço, óculos escuros, rosto pintado de urucum e o cravo branco entre os lábios. “Isso tudo faz parte da camuflagem do caboclo. Ele é um guerreiro, ninguém pode conhecer e reconhecer quem esse caboclo é”, clarearia Manezinho mais tarde.
O Piaba continuou fazendo suas evoluções até adentrar o centro do Ilumiara Zumbi. No meio do caminho, encontrou uma nação de maracatu de baque-virado. O Batuque Estrelado, com as mãos para cima, saudava o maracatu de Salu, numa homenagem e reverência ao mestre ausente.
"Cortejo de maracatu de baque-solto"
Os caboclos continuavam sua dança circular ao redor das baianas, reamares ou caboclos-de-pena, rei e rainha e da encantadora Dama do Paço ou mulher da boneca. No Piaba de Ouro, ela era uma das filhas de mestre Salu. Imaculada vestia o luto e chorava emocionada a lembrança do pai, ao mesmo tempo em que Saluzinho – Cleyton – improvisava as loas em homenagem. “Piaba, no carnaval deste ano, presta homenagem a mestre Salustiano. Mestre Salu da cultura popular está no céu vendo o Piaba desfilar. (…) A Rede Globo mostrando. Plantão naquele momento. Era o falecimento do mestre Salustiano. (…) Pra ele eu estou cantando, nesse grande festival”. O improviso é difícil captar. E mais difícil é transcrever um emaranhado de emoções e de lágrimas de toda uma gente.
Um minuto de silêncio. Um silêncio que vibrava e explodia em cores, sons, sentimentos, lágrimas, respeito, admiração e cliques de máquinas fotográficas. A homenagem só estava começando. Naquele mesmo lugar, como todos os anos, ainda passariam 105 maracatus de baque-solto em desfile, brincadeira e graça a mestre Salustiano. E um a um, ia se encaminhando para a Casa da Rabeca na outra parte do encontro.
II.
Que significam, afinal, o azougue e o cravo branco na boca? “Isso não se pode falar não. É um preparo para o carnaval que existe há mais de 200 anos, não pode ser quebrado. Só os mais antigos sabem do significado real”
Os pensamentos se esvaíram quando finalmente minhas pernas estancaram na Casa da Rabeca. Outro vazio. As cores não estavam mais lá. Das loas só restava o eco. Mais uma vez, me dei conta que o carnaval já passara. Somente meia dúzia de cabras pingadas. O alvoroço dos maracatus já haviam passado. Da presença do caboclinho Sete Flexas ficou só os rastros dos trupés.
Espero Manezinho, filho mais velho de Salustiano, para uma prosa. Na parte de fora, chão de terra batida. Um grande espaço descoberto, onde quando São Pedro não espirra chuva, as pessoas levantam a poeira no passo do forró, no mergulhão do cavalo-marinho, nas evoluções do maracatu. O coberto tem chão de cimento. Paredes verdes, com um palco ao fundo. Aqui também se brinca. Do outro lado, está a loja da Casa da Rabeca. Enfeitada por grandes máscaras na entrada. Está fechada, mas dentro tem de tudo: mamulengos, gola do caboclo-de-lança, CD, DVD, instrumentos, enfim uma zona boa que só.
Manezinho não aparece. Mas providencialmente, naquele marasmo todo, um menino-moço surge com um cachorro. Agora pense num cão grande. Pois, me aproximei e perguntei por Mané. “Vixe que ele tava aqui agorinha. Tu quer falar com ele, é? Espere aqui que to indo lá na casa dele e dou o recado que tu ta aqui”. O cachorro foi com ele. Uns minutos, e lá vem Manezinho. “Menina, que estava lhe esperando”. Perdi-me nas divagações do caminho.
Vamos até a casa dele. Aliás, todos os quinze filhos de mestres Salu moram ali pela Casa da Rabeca. “Olhe não repare a bagunça, que é tudo coisa do carnaval”. Sentamos do lado de fora da casa. No chão se via pelas serpentinas e pedaços de pano que a festa de Momo tinha passado por ali. No resto não reparei, a pedido do anfitrião. Proseamos um tico sobre o dilúvio desse carnaval. E fomos encaminhando o papo pro assunto de curiosidade: o maracatu de baque-solto, ou rural.
A folia surgiu lá na Zona da Mata de Pernambuco, no iniciozinho do século 20. Foi criado na senzala dos engenhos de cana-de-açúcar e sofreu a forte influência indígena da região. “A dança e a formação do cortejo é toda circular, o que é muito da cultura indígena”. É bom lembrar que do negro com índio nasce o caboclo. “Antigamente, a manifestação era bater madeira de mulungu. Depois começa a sair em cortejo. Daí o nome maracatu, “guerra bonita”, em tupi. E por ser um toque mais solto, ficou maracatu de baque-solto”, explia Manezinho.
Os personagens são sempre os mesmos e não tem um número fixo não. Isso depende do tamanho e riqueza do maracatu. O Piaba de Ouro, veja só, tem mais de 200 integrantes. E há maracatus menorzinhos, com 30 pessoas.
Mas olhe que o maracatu de baque-solto sofreu duas mudanças antes de chegar nessa formação que se vê hoje. Antes, mulher não brincava o maracatu, não. Era coisa de cabra muito macho. Mesmo os personagens femininos, como as baianas, eram homens vestidos de mulher. A mulherada só foi entrar na brincadeira nos anos 70. E veja, que também não existiam o rei e a rainha. Isso foi coisa da Federação Carnavalesca de Pernambuco. Pronto, que a tal federação nunca tinha julgado um concurso com o maracatu-rural. Não entendia patavinas da estrutura da manifestação. Então, decidiu que ela precisava se assemelhar mais com o maracatu-nação. Pois enfiaram o rei, a rainha do Congo no maracatu de baque-solto. Foi assim.
Antigamente, também era mais pobrinho, emenda o filho de mestre Salu. “O chapéu com a cabeleira parecia o de Mateus, do cavalo-marinho. Mirradinho assim. A guiada não tinha fita. A gola era só um tecido estampado com espelhos. Depois que se começou a fazer com vidrilhos. Mas daí descobriu-se que ficava muito pesado e passou-se para a lantejoula. Até porque a lantejoula é coisa nova”.
Manezinho ainda explica que o maracatu de baque-solto é também uma manifestação religiosa. O culto é à Jurema. “O caboclo-de-lança tem todo um preparo para o carnaval. Tem uma preparação individual de abstinência sexual, sete dias antes do carnaval. O caboclo é sempre caboclo. E uma característica, é que ele gosta de fazer seu trabalho só”. E quanto ao azougue e o cravo branco, o que significam afinal?, pergunto, já sabendo da resposta que me aguardava. “Isso não se pode falar não. É um preparo para o carnaval que existe há mais de 200 anos, não pode ser quebrado. Só os mais antigos sabem do significado real disso. E só contamos para os menores quando estiverem preparados. É assim que a tradição se matem e não é perdida”. Tentei a mesma pergunta ao Seu José Alexandre, lá do início do texto, a resposta foi a mesma: “Não se pode falar. É uma proteção que só os antigos fazem e sabem. O caboclo morre com o segredo da cravo, segredo que é só do caboclo”, contou seu Zé Alexandre.
"Seu Zé Alexandre - caboclo-de-lança"
O guerreiro do maracatu ainda toma o azougue- cachaça de cabeça, azeite de dendê, chá de bacalhau, limão e pólvora. Somente os caboclos que mantiveram a abstinência sexual podem beber do azougue.
O segredo escondido na flor e no azougue continuam como deve ser.
III.
A guiada com fitas coloridas é afiada e luta pela nação. Quem não toma tento durante o cortejo, pode ser atingido pela ponta da lança. Manezinho conta que em tempos idos o pau comia solto, entre os maracatus e seus guerreiros
Enquanto fazem suas evoluções, uma mescla de dança com guerra, os caboclos-de-lança chacoalham os surrões localizados nas costas e abaixo da gola, dando a marcação dissonante do maracatu de baque-solto.
A música é peculiar. Ligeira, frenética. Um pulsar constante. Uma mistura de instrumentos de sopro e percussão. Existe o mestre cantador, ou mestre de loas, que comanda o maracatu e improvisa as canções. Quando ele canta, a nação do maracatu permanece parada, escutando. O apito marca as esparradas dos caboclos no chão. A seguir, entram os instrumentos do terno. São cinco músicos de percussão: bumbinho, tarol, porca (cuíca), ganzá e gonguê. O de sopro são o pistom, clarinete, trombone.
Manezinho explica que há três momentos rítmicos: marcha, samba e galope. A marcha é feita na chegada e despedida do cortejo e é cantada em quadra. O samba é dividido em dois – samba curto e samba em dez – e é feito no meio do maracatu. Já o galope não é oito nem oitenta. É uma mistura dos dois: meio marcha, meio galope. Uma das loas mais famosas foi feita por mestre Salu. E caiu no gosto do povo: “Chegou Piaba de Ouro. / Abrilhantando toda cidade/ Carnaval Pernambucano/ Cheio de riso e de vaidade”. “O pai cantou e a gente guarda até hoje”, canta Manezinho.
E no emaranhado do entendimento sobre o maracatu, a imagem do caboclo-de-lança floresce na lembrança daquela segunda de carnaval. Os pés numa dança habilidosa se entrelaçam numa mistura de frevo, capoeira, cavalo-marinho. Uma multidão de caboclos reunidas pela manhã em Nazaré da Mata, pela tarde no Ilumiara Zumbi e Casa da Rabeca. É durante o encontro, em meio à carnavalizante alegria, que o cortador-de-cana deixa o facão de lado e empunha sua arma. Veste-se de guerreiro. Uma força bela, exuberante e protetora. “Não tem preconceito, pode ser o que quiser. É dentro do baque-solto que a gente é rei, presidente, patrão, diretor. Ali, nós somos autoridades”, emociona-se Manezinho.
A guiada com fitas coloridas é afiada e luta pela nação de maracatu. Quem não toma tento durante o cortejo, pode ser atingido pela ponta da lança. Manezinho conta que em tempos idos as guiadas eram usadas na lapada. O pau comia solto entre os maracatus e seus guerreiros. “A nação de maracatu pendurava o dinheiro na bandeira. Quando se deparava com outro grupo, a zoada era furar a bandeira do outro. Tomar o dinheiro daquela nação. Aí o pau cantava. Guiada em um, guiada em outro. Havia muita briga e morte de folgazões”.
Foi para acabar com as peleias que Mestre Salu, homem de idéias, criou, em 1989, a Associação de Maracatus de baque-solto. Na época, somente 12 nações se associaram. Hoje, são 105.
Com a criação da Associação, Salu fez que fez para acontecer o 1º encontro de maracatus. “Pai vendia a idéia e ninguém acreditava. Foi que vendeu uma caminhonete para fazer o encontro”. O primeiro aconteceu na Praça do Carmo, em Olinda, no ano de 1990. Só depois foi feito em Nazaré da Mata, Aliança, Ilumiara Zumbi, Casa da Rabeca e Recife. Foi o ideioso Manoel Salustiano Soares que inventou os encontros. Só depois foram oficializados.
"Maracatu do baque-solto nas ruas do Recife"
A prefeitura de Recife, por exemplo, faz um encontro de maracatus lá no Marco Zero. Nações e nações participam da festa no palco gigante. Ali é o lugar para serem vistos pela mídia e se fazerem conhecidos. Na noite de domingo, as ruas amareladas do Recife Antigo são preenchidas com os sons dos surrões e com o colorido brilhante dos caboclos-de-lança. Passa um, que encontra outro e junta tudo num marco zero. Não é a toa que o caboclo-de-lança e o baque-solto são agora, quiçá mais que o frevo, símbolos da pernambucanidade. E gratos pela idéia de Salu, a prefeitura homenageou mestre Salu neste carnaval multicultural.
E foi da mesma forma genial que Salu resolveu que precisava de um espaço. Em 2002, fez a Casa da Rabeca. “A mesma história. ’Quero fazer aqui o meu lugar. O encontro da rabeca com a sambada, com cavalo-marinho, forró, maracatu’", lembra Manezinho. E olhe que a coisa tomou tamanha proporção que hoje cabem 3 mil pessoas no terreiro.
Salustiano, embaixador da cultura, deixou 15 filhos. O mais velho, Manezinho, 39 anos; a mais nova, Beatriz, de 6. Manezinho riu: “Pai queria completar um cavalo-marinho, que é 20”.
IV.
“Eita que era meu pai sozinho fazendo. Metia na cabeça: vou fazer. Passava fome mas fazia. Vida dele é cultura. Lutava por isso. Para crescer a cultura”
"Homenagem a Salu, no Encontro de maracatus em Nazaré da Mata"
“É muito difícil. Pode estar coisa mais bonita, com multidão, mas falta alguma coisa, entende. Bastava ele ficar ali sentado assistindo. O comando vinha dele. Agora os filhos vamos continuar fazendo o que pai gostava, que era brincar a cultura popular. Não muda nada, o que muda é a falta dele”.
A perda deixa um vazio na folia, em casa, na Casa da Rabeca. Um folgazão morreu. Um brincante morreu. Uma parte da cultura se foi.
“Eita que era meu pai sozinho fazendo. Metia na cabeça: vou fazer. Passava fome mas fazia. Vida dele é cultura. Lutava por isso. Para crescer a cultura”.
Ôxi Salu. Venha se ler aqui. Veja os folgazões. Mire a folia linda do carnaval que tu ajudou a fazer. Não morres, não. Permaneces.
Le Monde Diplomatique
sábado, 4 de julho de 2009
Carnaval: Olha a história aí, gente!

Temas históricos estão presentes nos desfiles desde que Getúlio Vargas, nos anos 1930, prometeudinheiro em troca de assuntos nacionais
por Antonio Neto
No quesito conjunto, nenhuma homenagem ao centenário do avião 14 Bis de Santos Dumont terá mais plumas e paetês este ano. O vôo inaugural do inventor brasileiro é um dos temas históricos que vão desfilar pelos sambódromos de São Paulo e do Rio de Janeiro neste Carnaval. Além do pai da aviação, que inspirou os enredos da Gaviões da Fiel e da Unidos do Peruche, o Anhembi terá ainda a Vai-Vai cantando São Vicente, primeira cidade do Brasil. Já a Sapucaí verá Santa Catarina e sua revolução farroupilha no samba da Imperatriz Leopoldinense.
Hoje cada escola de samba escolhe o tema que bem quiser para desfilar na avenida – ou, verdade seja dita, o tema que melhor ajude a pagar seus custos. Mas, durante 60 anos, os enredos só podiam abordar assuntos nacionais. A idéia partiu do presidente Getúlio Vargas. Em 1935, ele fez um acordo com as recém-criadas escolas de samba (que já desfilavam pelo centro do Rio de Janeiro, então capital federal, desde 1929). Em troca de verba pública, as agremiações retratariam temas brasileiros. Três anos depois, isso virou regulamento oficial da União das Escolas de Samba, responsável pelo julgamento dos desfiles na época.
“No começo do século 20, os blocos e algumas escolas criavam seus sambinhas para satirizar os adversários”, afirma o historiador Nelson Crecibeni Filho, presidente da Federação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas do Estado de São Paulo. “Getúlio tomou essa medida em nome do nacionalismo, para aproveitar a presença crescente da classe média no Carnaval.”
Por quase três décadas, os enredos se dividiram entre a exaltação da República e de seus presidentes e passagens da história do Brasil Império – embora, nessa época, ninguém quisesse se fantasiar de escravo ou índio. Pouco antes da ditadura militar, algumas escolas chegaram a ensaiar novos passos. Em 1957, no Rio, o Salgueiro fugiu dos temas patrióticos e desfilou “Navio Negreiro”, primeiro samba sobre o tráfico de escravos – agora, mais profissionais, os foliões não ligaram de sambar vestidos a caráter. Ainda assim, o título foi para a Portela, com um samba sobre a corte: “Legados de D. João VI”. O reconhecimento desse outro lado da história do Brasil só viria em 1963, com a vitória do enredo “Chica da Silva”, novamente com o Salgueiro. “Os compositores passaram a se preocupar mais com a veracidade da história para escrever a letra dos sambas”, diz Crecibeni.
Durante a ditadura, até as agremiações endureceram e adotaram o tom oficialesco em seus sambas-enredo. “Para lembrar a criação dos Correios em 1969, a Mangueira saiu em 1971 com o enredo ‘Modernos Bandeirantes’”, afirma Haroldo Costa, compositor, produtor musical e autor de 100 Anos de Carnaval no Rio de Janeiro. “Dois anos depois, a Beija-Flor tentou mostrar a preocupação dos militares com o ensino em ‘Educação para o Desenvolvimento’.”
No começo dos anos 80, no clima de luta pelo fim da ditadura, as escolas passaram a variar mais seus temas, homenageando figuras culturais e falando sobre movimentos populares. A guinada culminaria em 1989, com a Imperatriz Leopoldinense, que exaltou os 100 anos de República com o enredo “Liberdade, Liberdade, Abre as Asas sobre Nós”. A escola, que falou de história simplesmente porque quis, e não pela obrigatoriedade do regulamento, foi campeã do Carnaval carioca.
Grandes nomes
Veja quantas vezes eles apareceramnos enredos dos últimos 25 anos no Rio e em São Paulo
Zumbi - 9
D. João VI - 5
Getúlio Vargas - 4
Pedro Álvares Cabral - 3
Princesa Isabel - 3
Santos Dumont - 3
Carmen Miranda - 3
Juscelino Kubitschek - 2
Adoniran Barbosa - 2
Jorge Amado - 2
Maria Bonita - 2
Biblioteca de bambas
Literatura e livro didático já inspiraram carnavalescos
Quando os desfiles das escolas de samba começaram, no início do século passado, o improviso dava o tom. A partir dos anos 40, por conta dos temas nacionalistas, os sambas passaram a ser recheados com informações buscadas, principalmente, nos livros didáticos usados nas escolas. Já nos anos 50, entraram em cena grandes obras de nossa literatura. “Em São Paulo, a Nenê de Vila Matilde venceu em 1956 com ‘Casa Grande e Senzala’, baseado no livro do sociólogo Gilberto Freyre”, diz o historiador Nelson Crecibeni. Memórias de um Sargentode Milícias, de Manuel Antônio de Almeida, O Tronco do Ipê, de José de Alencar, e Macunaíma, de Mario de Andrade, também viraram enredos – a Portela os cantou em 1966, 1968 e 1975. Atualmente, professores universitários e historiadores costumam ser consultados para as pesquisas dos sambas-enredo. A Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tem um Núcleo Interdisciplinar de Estudos Carnavalescos, que, entre outras atribuições, fornece uma espécie de consultoria a pessoas ligadas às escolas.
Revista Aventuras na Historia












