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terça-feira, 6 de março de 2012

Malcolm X: da infância ao ingresso na Nação do Islã

Foto: © Estate of Malcolm X
Sílvio Anaz

Malcolm X nasceu como Malcolm Little em 19 de maio de 1925 na cidade de Omaha, no Nebraska (EUA). Seu pai, Earl Little, era pastor da Igreja Batista e tinha sido um entusiasta seguidor do ativista negro Marcus Garvey, fundador da Associação Universal para o Progresso Negro. Malcolm era o quarto de oito filhos. Ainda quando era bebê, sua família teve que se mudar às pressas para Wiscosin após a casa onde morava ter sido incendiada por uma organização racista chamada Legião Negra, provavelmente em represália aos sermões que o pai de Malcolm dava na igreja defendendo os direitos civis da população negra.

Após três anos em Wiscosin, eles seguiram para uma fazenda em Michigan, rodeada por uma vizinhança branca e racista que exigia que eles fossem para uma região onde só morassem negros. Earl decidiu ficar e mais uma vez a casa dos Little foi incendiada. O pai de Malcolm não desistiu, mas acabou morto em setembro de 1931. Seu corpo foi encontrado mutilado numa estrada de ferro onde teria sido atropelado por uma composição. A polícia considerou suicídio, mas é mais provável que ele tenha sido vítima de um crime racial.

Malcolm tinha seis anos de idade quando perdeu o pai, e sua mãe, Louise Little, teve imensas dificuldades para evitar que os filhos passassem fome, muitas vezes tendo que cozinhar plantas e ervas que catava nas ruas para servir de alimento para eles. Após sete anos tentando manter os filhos, ela não aguentou e teve um colapso mental. Internada numa instituição psiquiátrica, ela permaneceu lá durante 26 anos. Malcolm e seus irmãos foram encaminhados a lares adotivos e centros juvenis mantidos pelo Estado. Quando cursava a oitava série, um dos seus professores disse a ele que era melhor Malcolm aprender o ofício de carpinteiro do que tentar ser um advogado. Foi a deixa para o já adolescente rebelde se mandar para a casa de uma irmã mais velha em Boston.

Após passar um tempo vivendo de pequenos trabalhos, ele conseguiu um emprego no trem que ligava Boston a Nova York. No tempo que passava em Nova York começou a frequentar o bairro do Harlem e a conviver com os criminosos locais. Logo, Malcolm tornou-se conhecido tanto nas ruas de Roxbury, bairro onde sua irmã morava em Boston, como nas do Harlem, ao mostrar seu jeito durão e liderar gangues de ladrões e traficantes de drogas. Por usar um alisante que tornava seu cabelo vermelho, ele ficou conhecido como "Red"

Em janeiro de 1946, Malcolm acabou preso acusado de assaltos a residências em Boston. Ele foi condenado a dez anos de prisão. Foi nesse período que ele começou a se tornar Malcolm X. Um de seus irmãos, que também estava cumprindo pena na mesma penitenciária, havia aderido à organização Nação do Islã, um movimento que combinava elementos do Islamismo com ideias do nacionalismo negro, e que era liderado por Elijah Muhammad. Ele convenceu Malcolm a seguir seus passos, e o jovem parou de fumar, apostar e comer carne de porco, entre outros mandamentos preconizados pela organização. Suas horas de ócio na prisão foram preenchidas por leituras na biblioteca num processo autodidata que desenvolveu seus conhecimentos e sua capacidade para debater. Seguindo o costume da Nação do Islã, ele também trocou seu sobrenome - segundo a organização, os nomes de família que os negros tinham na América eram originários dos brancos que os escravizaram. No lugar de "Little", Malcolm adotou o "X".

Quando saiu da prisão em agosto de 1952, Malcolm X era um jovem debatedor tão talentoso e carismático que se tornou ministro assistente do Templo da Nação do Islã em Detroit. Dois anos depois ele já era ministro do Templo no Harlem, em Nova York. Mas àquela altura ele era mais do que um ministro num templo, ele tinha se tornado o porta-voz da Nação do Islã nos Estados Unidos e viajava constantemente pelo país atraindo milhares de novos adeptos para a organização. Em dez anos como uma das mais importantes vozes da Nação do Islã ele fez o movimento saltar de cinco centenas de membros para mais de 30 mil.

Discurso raivoso

No começo dos anos 60, as tensões raciais cresceram nos Estados Unidos, e Malcolm X inflamou seu discurso na mesma proporção. Em 1962, a polícia invadiu um Templo da Nação do Islã em Los Angeles, o que resultou na morte de um dos ativistas, e em seis feridos, sendo que um deles ficou paralítico. Malcolm X reagiu com fúria e convocou protestos da comunidade negra que resultaram em conflitos com policiais, prisões e feridos. Para ele, alguém que agredisse um negro merecia ser mandado para o cemitério. Esse tipo de discurso chamou a atenção do FBI, que infiltrou agentes na Nação do Islã. Alheio ou não à vigilância dos órgãos de segurança, o fato é que, do púlpito de seu Templo no Harlem, ele continuou a pregar usando um discurso raivoso contra a população branca. Para ele, havia uma ligação entre a cor da pele negra e o Islamismo, assim como havia uma entre a cor branca e o Cristianismo, o que tornava o homem branco seu inimigo racial e religioso. Um grave engano que ele só entenderia durante sua peregrinação a Meca alguns anos depois. http://pessoas.hsw.uol.com.br

Malcolm X

Malcolm X foi um popular e polêmico líder do movimento negro nos Estados Unidos, mas vários aspectos de sua vida e de sua luta política continuam nebulosos. Até mesmo o seu assassinato ainda é envolto em mistério e ninguém descobriu quem de fato o tramou. Essas dúvidas e a suspeita de que muito do que se conhece sobre Malcolm X é fruto daquilo que os órgãos de segurança quiseram que fosse divulgado levou a Universidade de Columbia, de Nova York, a criar um projeto ("The Malcolm X Project at Columbia University") para estudar a vida e a importância do ativista.

Filho de um pastor que foi provavelmente assassinado por brancos racistas, Malcolm X tornou-se muçulmano enquanto cumpria pena por roubo na prisão e, durante boa parte de sua militância, pregou a segregação entre negros e brancos e atitudes radicais e violentas, incluindo a luta armada contra a população branca nos Estados Unidos. Suas propostas se opunham ao movimento pacífico e integracionista de Martin Luther King Jr., o mais importante líder na luta pelos direitos civis dos negros norte-americanos nos anos 1960.

Malcolm X conviveu com o racismo e a violência dos brancos contra os negros desde a infância, o que fez sua família fugir de cidade em cidade e, mesmo assim, não evitou que seu pai acabasse morto e sua mãe internada por conta de um colapso mental. No final da adolescência, ele aderiu à vida criminosa o que lhe rendeu uma pena de dez anos de prisão. Foi nesse período que conheceu a Nação do Islã, uma organização de negros muçulmanos que propunha que brancos e negros vivessem em países separados e associava o racismo ao Cristianismo. Ao sair da cadeia, com um discurso agressivo e uma personalidade carismática, ele tornou-se rapidamente um dos expoentes da organização e em pouco tempo virou seu porta-voz.

Mas quando resolveu peregrinar para Meca, na Arábia Saudita, para realmente tornar-se um muçulmano, ele viu de perto que o Islamismo não pregava a separação entre brancos e negros, pelo contrário. De volta aos Estados Unidos resolveu desmascarar o discurso racista e segregacionista da Nação do Islã e adotou as ideias da esquerda internacional pregando que o socialismo era a verdadeira saída para a opressão e a pobreza da população negra na América. Muitos atribuem o seu assassinato, durante um discurso no Harlem, a um plano da Nação do Islã para eliminá-lo, e apesar de um dos assassinos ser membro da organização as investigações não produziram nenhuma evidência que mostre o envolvimento da Nação do Islã com o caso.

Black Power e Panteras Negras

O discurso político de Malcolm X, que bradava o orgulho de ser negro e não descartava o uso da violência na luta pelos direitos civis da população negra, inspirou o movimento Black Power e abriu o caminho para o surgimento do Partido dos Panteras Negras. O Black Power foi um movimento filosófico que defendeu o orgulho racial de ser negro e incentivou a população negra a obter controle das instituições que afetavam o seu cotidiano. A frase "black power" (poder negro) foi usada pela primeira vez em 1966 por Stokely Carmichael, líder do Comitê Estudantil pela Não-Violência (SNCC, na sigla em inglês). O "black power" era exercido de diferentes maneiras, como em atos de desobediência civil, no estabelecimento de negócios com proprietários negros, na pressão sobre escolas e universidades para implantarem programas de estudos da cultura negra e apoiando políticos negros nas eleições. Um dos filhotes do Black Power foi o Partido dos Panteras Negras para Auto-Defesa, uma agremiação política revolucionária fundada em 1966 por Huey Newton e Bobby Seale. A proposta original do partido era a formação de milícias de negros nos guetos das grandes cidades para proteger a população da violência policial. Seu projeto político marxista propunha armar toda a população negra na América e libertar todos os prisioneiros negros e exigia o pagamento de uma indenização para compensar os séculos de exploração de todos os negros pelos brancos. Os Panteras Negras envolveram-se em vários conflitos com a polícia e foram acusados de vários ataques violentos na Califórnia, Nova York e Chicago.
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quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Heranças africanas da invenção da liberdade

Nos terreiros do Recife, a nação Xambá reconstitui sua africanidade no século XXI relembrando a identidade de seus antepassados

POR VALÉRIA GOMES COSTA
FOTOS: WIKIPEDIA
Foto da década de 1940, acima, mostra terreiro de Candomblé de Angola, na Bahia. Abaixo decoração recente de um terreiro
Parte das denominações associadas às identidades, às nações e às etnias africanas inventadas ao longo da escravização como forma de resistência ao cativeiro, ao se aproximar a Abolição em 1888, perdeu o sentido, ficando o termo genérico "africano" como sinônimo da configuração étnica. Neste debate, os terreiros de cultos aos orixás são merecedores de atenção particular. Esses espaços de prática religiosa passaram a ser também campo dessas re-significações identitárias. As nações nagô, jeje, congo, angola, mina, xambá, que comumente são rememoradas nos terreiros, poderiam ser entendidas dentro da lógica de experiência do tráfico e escravização atlântica, reinventadas por africanos e crioulos para reestruturar suas "raízes" étnicas, culturais e religiosas esgarçadas na diáspora.
No Recife, em bairros como São José, antigo refúgio de africanos e crioulos em busca da liberdade, as nações, vocabulários e rituais litúrgicos foram reconfigurados nos Terreiros de Xangô, como são denominadas as religiões afro-descendentes em Pernambuco, simbolizando resistência social e cultural. No início do século XX, na medida em que políticas de urbanização e industrialização se materializavam nas ações de perseguição e repressão à cultura negra, os terreiros foram deslocados do centro para os arrabaldes da cidade. O povo-de-santo passava a reconfigurar a cidade, recriando ruas, vielas, becos, redesenhando espaços não pensados por urbanistas e instâncias oficiais. Bairros como Beberibe, Água Fria, Casa Amarela foram se estruturando por ações individuais e coletivas dos afro-religiosos.
No início dos anos 1920, o alagoano Artur Rosendo Pereira (Pai Rosendo), que dizia ter habitado por quatro anos a Costa Ocidental da África, chegou ao Recife escapando da repressão e perseguição policial em Maceió, estabelecendo-se com sua família no bairro de Água Fria. Conhecido como precursor do culto xambá em Pernambuco, Pai Rosendo iniciou várias pessoas em sua prática religiosa, que depois abriram seus próprios terreiros, como Maria das Dores da Silva (Maria Oyá) e Severina Paraíso da Silva (Mãe Biu). Entretanto, ao falecer o Babalorixá em 1949, seus inúmeros filhos-de-santo migraram para outros cultos. O Terreiro Santa Bárbara, nação Xambá, comandado por Mãe Biu, passou a ser o principal espaço de continuidade dos seus ensinamentos. No início dos anos 1950, o Recife assistia à consolidação da ocupação urbana das áreas de seus morros, que se transformavam em espaços de poder do povo-de-santo. Mãe Biu, na busca de um terreno próprio, deslocou-se da localidade de Santa Clara, no bairro de Dois Unidos, para as proximidades da antiga Estrada do Matumbo, onde se localiza o Portão do Gelo, no bairro de Beberibe, área até então desabitada. Sua ação inaugurou as estratégias cotidianas de garantia de espaços (físicos, sociais, políticos, culturais) para sua comunidade, bem como do surgimento de um bairro negro no Recife.

À esquerda, foto de Eugênia Ana dos Santos a Mãe Aninha (1869 - 1938), importante figura do Candomblé. À direita, terreiro de Xangô

À medida que as políticas de urbanização e industrialização se materializavam nas ações de perseguição à cultura negra, os terreiros foram deslocados para os arrabaldes da cidade

Mãe Biu, com seus familiares, filhos-de-santo e amigos, comprou lotes de terrenos, construiu casas, quartos em torno do terreiro. Nessa empreitada liderada pela Yalorixá, destacaram-se: José Martins da Silva, operário (esposo); madrinha Tila, costureira (irmã); tio Luís, sapateiro (irmão); tio Sandoval, motorista (cunhado); pai Tonho (cunhado); tia Luíza, enfermeira (irmã), que fundou a primeira Associação de Moradores do bairro; tia Laura, costureira e irmã de padrinho Pedro, alfaiate; seu Cavaquinho, pedreiro, que, junto com padrinho Pedro, se encarregou da construção do terreiro; dona Belmira de Ogum, filhade- santo, que articulou um emprego de estivador para Adeíldo Paraíso (filho legítimo de Mãe Biu), trabalho que lhe garantiu atuar por 20 anos como presidente do Sindicato dos Estivadores de Pernambuco. Em razão dessas ações, o local conhecido como Portão do Gelo ficou popularizado como Xangô de Mãe Biu. Após a morte da Yalorixá, a rua onde foi sediado o terreiro e construídas as primeiras casas de seus parentes e filhos-de-santo passou a se chamar Severina Paraíso da Silva, em homenagem àquela que procurou preservar o culto xambá e garantir espaços de moradia e trabalho aos membros de seu terreiro.
Tchambá, Chambá, ou simplesmente Xambá, seria um grupo étnico africano, habitante dos montes Adamawa, próximos ao rio Benué - rio de Iansã, orixá patrono do Terreiro Santa Bárbara. Na Nigéria, Senegal e Camarões, algumas famílias, cujos membros lutaram nas guerras de independência de suas nações, carregam o tchambá como sobrenome. Seria um povo que habitou o norte da África, onde estavam localizados os haussás, baribas, tapas, situados na Bacia do Benin. A verdade é que, sobre essa elaboração étnica, pouco sabemos. Para os membros do Terreiro Santa Bárbara, são eles descendentes étnico-religiosos do ocidente africano, para onde Pai Rosendo viajou nos primeiros anos pós-1888, trazendo os axés do Xambá da Costa da África. Essa memória institucionaliza a identidade dos herdeiros de Mãe Biu, que sob a auto-adscrição de nação Xambá, afirmam sua africanidade.

VALÉRIA GOMES COSTA concluiu o seu mestrado na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente é aluna do Doutorado em História na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Revista Leituras da História

quinta-feira, 20 de maio de 2010

O tráfico dos negros considerado como a causa da febre amarela


Tradução do extrato de uma memória do Mr. Audouard

O Philantropo, 27.9.1850

A febre amarella não é originaria de nem um paiz. Os climas quentes favorecem a causa que a produz, e está ao alcance do homem fazer cessar esta causa, porque ella reside em uma infecção propria dos navios negreiros. Para dar idéia desta infecção basta lembrar que em muitas ocasiões se tem apreendido navios negreiros, nos quais os escravos viviam no meio de suas porcarias. Dahi vem a podridão da madeira do alcatrão e de tudo que está no interior do navio, e producção de um fôco de infecção que não se extingue senão depois de ter percorrido todos os graos de decomposição putrida. Ajuntaremos que para esta extincção não bastam nem dias nem meses: tambem as duas ultimas epidemias de febre amarella que tem afflingido a Hespanha, e de que o autor deste escripto foi testemunha, a de Barcelona em 1821, e a do Porto da Passagem em 1823, tiveram origem de navios que serviram ao trafico de negros antes de serem carregados de mercadorias coloniaes na Havana.

Em sua partida deste porto a febre amarella não reinava ahi; portanto elles não exportavam uma produção morbifica deste paiz. Entretanto attribuiam a febre amarella à Barcelona e à Passagem; e o que demonstra bem claramente que elles tinham a causa em seus costados, é que os carpinteiros, que empregaram-se em calafetal-os, pereceram quasi todos da febre amarella em muito poucos dias, e foram as primeiras victimas destas duas epidemias. Elles sentiram grande fedor quando tinham entre mãos a operação da crena, porque então o esterco que estava contido entre os forros, foi posto a descoberto, e o calor dos mezes de agosto e setembro contribuiu poderosamente para desprender emanações as mais mortiferas.

Este unico facto - de navios partidos de um ponto do novo continente, em que a febre amarella não reinava, fazerem apparecer esta molestia em dous portos da Europa, lança por terra todas as ideias que se tinham sobre a origem e a natureza da febre amarella; porque esta molestia não é devida aos climas da America, pois que tem sido levada à Europa por navios partidos de Havana, quando ela não reinava neste lugar.

Ella não é originaria da Europa, pois que a Hespanha não soffria antes do descobrimento da America, e a America mesmo não soffreu senão ha 200 annos depois, visto que a molestia chamada hoje febre amarella foi apelidada a princípio mal de Siam, visto ter sua aparição na Martinica em 1694, coincidido com a presença de navios, vindos do golfo de Siam, nos portos desta ilha: denominação esta que o correr dos annos tem mostrado ser erronea. O mais provavel é que se começou nesta época a ressentir os effeitos do trafico dos negros, porque então se activou muito esta negociação, e os governos a fomentaram, autorizando mesmo por titulos ou cartas regias certas companhias a fazel-a em grande escalla. Entretanto estas companhias, entregando-se a um commercio que as leis protegiam, e dispondo de grandes capitais, esclarecidas pela experiencia, poderam fazer logo as despezas necessarias para o estabelecimento dos escravos a bordo, de modo que perdessem o menor numero possivel na viagem: seu interesse levou-os a fazer observar certas medidas hygienicas. Tendo a revolução trazido a guerra entre a França e a Inglaterra estas companhias cessaram seus trabalhos, e o trafico foi feito por navios do commercio que não eram construídos para este fim.

Os mesmos que depois desta epoca foram construidos de proposito eram talvez ainda peiores, porque para escaparem aos corsarios deviam ser muito bons veleiros, dispostos, por consequencia, de um modo muito differente do dos navios de transporte. Em um outro caso os piratas, querendo ganhar muito dinheiro, entulharam de escravos o porão, não lhes permittindo mesmo subir sobre a cuberta para satisfazer as suas necessidades, e os prenderam ou encadeiraram de modo que, se um homem morria, os que sobreviviam tinham muitas vezes de ficar um dia ou mais, juntos ao cadaver. Tal foi o trafico durante a guerra maritima; tambem partindo de 1793, os fócos de infecção que a guerra trouxe mais num rosos e mais mortiferos tornaram a febre amarella mais frequente na America, e principalmente em Hespanha, onde ella tinha sido apenas conhecida até então. Partindo de 1800, data da grande epidemia que roubou 61.362 habitantes à Andalusia, a febre amarella reinou quasi todos os annos em Hespanha até 1823, data da febre amarella da Passagem, e foi em 1824 que o autor desta memoria veio sustentar perante a academia das sciencias que a febre amarella da Barcelona e da Passagem tinha provindo de navios que acabavam de servir ao trafico dos negros, navios que elle designava como os focos de uma infecção especial, produzindo uma molestia especial, que é a febre amarella. Donde concluia que os climas de um e outro continente tinham apenas uma acção secundaria que se limitava a dar mais actividade aos fócos de infecção creados pelo trafico. O acaso tem justificado estas asserções; porque desde 1824 a Hespanha não soffreu mais da febre amarella; enquanto que nos vinte e quatro annos anteriores da molestia roubara 140.000 de seus habitantes. Mas cumpre saber que se está de sobre-aviso contra os navios que tem servido ao trafico.

Casa de Oswaldo Cruz

domingo, 28 de março de 2010

Prodígios dos alquimistas no tráfico africano


O Capitão Peleg Clarke leva muito tempo barganhando na costa da África.
O barco fede. O capitão ordena a seus marinheiros que subam à coberta com os escravos já comprados, para banhá-los; mas nem bem tiram suas correntes, os negros se atiram ao mar. Nadando para terra, são devorados pela correnteza.

A perda dessa mercadoria machuca a honra do capitão Clarke, veterano pastor desses rebanhos, e fere o prestígio dos negreiros de Rhode Island. Os estaleiros norte-americanos se orgulham de construir os barcos mais seguros para o tráfico da Guiné.
Suas prisões flutuantes são muito bem-feitas, mas tão bem-feitas, que só registram uma rebelião de escravos a cada quatro anos e meio, média quatro vezes menor que a dos franceses e duas vezes menor que a das empresas especializadas da Inglaterra.

Muito têm que agradecer a seus negreiros as treze colônias que daqui a pouco serão os Estados Unidos da América. O rum, bom remédio para a alma e para o corpo, se transforma em escravos na costa africana. Depois, esses negros se transformam em melaço nas ilhas aintilhanas da Jamaica e Barbados. Dali viaja o melaço para o norte e se transforma em rum nas destilarias de Massachusetts. E então novamente o rum atravessa o mar para a África. Cada viajem se completa com a venda de tabaco, tábuas, ferragens, farinha, carne salgada e compra de especiarias nas ilhas. Os negros que sobram vão parar nas plantações da Carolina do Sul, Geórgia e Virgínia.

Assim, o tráfico de escravos dá lucro aos navegantes, aos comerciantes, aos agiotas e aos donos de estaleiros, destilarias, serrarias, salinas, moinhos, plantações e empresas de seguros.


Coughtry, Jay. The notorious triangle.Rhode Island and the african slave trade, 1700/1807. Filadélfia, Temple, 1981.

Memórias do Fogo II.
Eduardo Galeano

domingo, 31 de janeiro de 2010

Martin Luther King - O ônibus da História

Boicote ao transporte público segregado de uma cidade do
Alabama foi o ponto de partida para solidificar a liderança de
Martin Luther King na causa dos direitos civis nos EUA

Saboreando a vitória: o pastor Abernathy (à esq.) e King (no segundo banco) num ônibus após o fim da segregação no transporte

Aos olhos e ouvidos de todo o mundo, a cena de um oceano de pessoas diante do Memorial Lincoln, na marcha de Washington em 1963, e os vibrantes discursos pela harmonia social e econômica nos Estados Unidos são as mais belas lembranças do que a soul force ("força da alma") de Martin Luther King era capaz de realizar. O maior feito de sua trajetória, contudo, é menos simbólico e muito mais prático. Ao lutar até o fim pelo direito de uma mulher negra se manter sentada em um ônibus de uma pequena cidade no Alabama, sem precisar entregar seu lugar a um passageiro branco, o até então desconhecido pastor batista desafiou o estado e conseguiu uma vitória impensável em um país ainda rachado pela segregação. Foi o primeiro passo de uma histórica jornada pela liberdade, que fez de King o grande líder da comunidade negra e um ícone da batalha ideológica pelos direitos civis ao redor do planeta.

Vitória no tribunal: com a mulher, Coretta, King comemora suspensão de condenação

Em 1º de dezembro de 1955, a costureira Rosa Parks recusou-se a ceder seu assento (na seção reservada aos negros) a um homem branco em um ônibus municipal de Montgomery, no Alabama, conforme determinavam as leis segregacionistas do estado. Informada pelo motorista que acabaria presa caso não repensasse sua decisão, a mulher de 42 anos preferiu ser levada para a cadeia - e, posteriormente, a julgamento. Sua prisão silenciosa fez o Conselho Político Feminino da cidade propor aos negros da cidade um dia de boicote aos ônibus municipais, na exata data em que Rosa Parks deveria comparecer ao tribunal, 5 de novembro. Sua esdrúxula condenação pelo júri levou à formação imediata da Montgomery Improvement Association (MIA), para coordenar as ações seguintes, incluindo a extensão do boicote e o questionamento legal da constitucionalidade da lei de segregação no transporte público. Para não melindrar nenhum ativista local, a presidência da entidade foi entregue a Martin Luther King, que desembarcara havia pouco na cidade como pastor da Igreja Batista da Avenida Dexter. O líder viu a missão como uma oportunidade de melhorar as relações entre as raças e, por tabela, a situação de Montgomery.

Naquela mesma tarde, King discursou para uma multidão reunida diante da Igreja Batista da Rua Holt, já revelando o poder retórico invejável que o faria célebre. "Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado." Já nesse primeiro encontro, o pastor pediu um compromisso pela não-violência no protesto, traço que marcaria todas as outras manifestações, assim como os valores da ética cristã propagados por King. Poucos dias depois, a MIA tornou pública suas reivindicações: ocupação dos assentos de acordo com a ordem de chegada do passageiro, motoristas negros em rotas predominantemente negras e tratamento cortês pelos funcionários.

O estopim: Rosa Parks é detida em 1956

Conspiração e multa - A prefeitura de Montgomery não atendeu aos apelos da entidade, que decidiu continuar o boicote. Motoristas de táxi negros organizaram-se para ajudar a comunidade, e foram penalizados pela prefeitura; com isso, organizou-se uma extensa rede de caronas que mobilizou mais de 300 carros. No início de 1956, bombas foram atiradas contra as casas de Martin Luther King e E. D. Nixon, outro líder negro local, sem deixar vítimas. Em fevereiro, invocando uma lei de 1921, que proibia a conspiração contra negócios lícitos, a prefeitura indiciou mais de 80 líderes e participantes do boicote. King foi condenado e teve de pagar uma multa de 500 dólares para evitar um ano de encarceramento. Apesar disso, o boicote continuou, e atraiu a atenção nacional. Pacifistas famosos como Bayard Rustin e Glenn Smiley passaram a aproximar-se de King e apoiar o movimento.

Em 5 de junho de 1956, uma corte federal enfim determinou que a segregação nos ônibus era inconstitucional, decisão ratificada em 13 de novembro pela Suprema Corte. Houve intensa comemoração entre a comunidade negra da cidade, mas a MIA decidiu manter o boicote e o sistema de caronas até que a dessegregação realmente fosse implantada no transporte de Montgomery. Um mês depois, em 20 de dezembro, Martin Luther King anunciou o fim do movimento; no dia seguinte, ele, E. D. Nixon, Glenn Smiley e o pastor Ralph Abernathy embarcaram em um ônibus já integrado. No total, foram 381 dias de boicote, com o apoio de mais de 42.000 negros. Rosa Parks, que no meio do processo perdeu seu emprego numa loja de departamentos, tornou-se alvo de hostilidades de segregacionistas e mudou-se para Detroit em 1957, onde segue envolvida com a causa. Atualmente empregada no gabinete do deputado John Conyers, Rosa, conhecida como a "mãe do movimento pelos direitos civis", perde um de seus principais parceiros, que seguiu pelo resto da vida o lema dos manifestantes: "Melhor andar com dignidade que rodar na humilhação."

Revista Veja Historia

Negros - Três séculos de trevas

Desde a chegada dos pioneiros africanos, em 1619, os
negros da América enfrentam uma contenda laboriosa em busca
de direitos iguais, passando pela escravidão e pela segregação

Mercado de escravos na capital: Lincoln via o comércio de negros de seu gabinete no Capitólio enquanto ainda era congressista

Agora sem uma de suas figuras mais atuantes, o movimento negro nos Estados Unidos seguirá sua dolorosa cruzada para estreitar a fenda racial que se abriu paulatinamente ao longo de mais de 300 anos de História, desde que os primeiros africanos chegaram aos Estados Unidos, em 1619. O Ato dos Direitos Civis, aprovado em 1964, atendeu a muitas das reivindicações das minorias americanas. É evidente, porém, que mais de três séculos de discriminação não poderiam ser reparados por um único documento. Por isso, os esforços pela alteração não apenas das leis, como também da mentalidade e da cultura da América, precisarão ser mantidos por uma nova geração de líderes, de maneira que oportunidades iguais se apresentem tanto a negros como a brancos.

Brancos na frente, negros no fundo: ônibus segregado em Atlanta, em abril de 1956

Em 1619, os pioneiros africanos desembarcaram na Virgínia como servos por contrato - status semelhante ao dos trabalhadores ingleses, que também empenharam anos de trabalho para cobrir os custos da passagem à América. Pouco tempo depois, entretanto, a escravidão, ainda que não regulamentada, já se verificava em muitos estados do país. A cultura do tabaco no Sul dos EUA se alimentou do tráfico negreiro para compor sua mão-de-obra por décadas a fio; como resultado, o censo americano de 1860 registrava uma população de 4 milhões de escravos nos quinze estados em que a escravidão era legal. Nesses estados, a população total era de 12 milhões de pessoas. Cerca de 500.000 negros viviam livres no país naquele tempo.

As vozes abolicionistas, que timidamente apareceram nos EUA no século XVIII, ganharam força com a eleição à presidência de Abraham Lincoln, opositor declarado da escravidão, em 1860. Convencidos de que seu modo de vida estava ameaçado, os estados do Sul se separaram da União e detonaram a Guerra Civil Americana. Em 1863, durante o conflito, Lincoln assinou a Proclamação da Emancipação, libertando os escravos dos estados confederados e proibindo a escravidão em todo o país. Mas era apenas o começo da jornada.

Medo nas ruas: Ku Klux Klan no Alabama

Segregação institucionalizada - No fim do século XIX, os estados do Sul, afetados economicamente com o fim da escravidão, promulgaram as chamadas leis Jim Crow, uma série de determinações para legitimar a discriminação racial e dificultar o acesso dos negros ao voto. Legislações semelhantes apareceram por todo o país, e a segregação passou a ser uma realidade nos Estados Unidos. Prédios e transporte públicos, escolas, restaurantes, cinemas e até cadeias tinham áreas separadas para brancos e negros - a dos negros, via de regra, em estados deploráveis. Casamentos entre brancos e negros ou seu descendentes eram proibidos em diversos estados, para evitar a miscigenação. Na Carolina do Norte, nem mesmo os livros da biblioteca poderiam ser consultados por negros e brancos - se o primeiro a retirá-lo fosse um branco, apenas os brancos teriam acesso ao volume.

Atleta pioneiro: Jackie Robinson em 1947

Entre os anos de 1916 e 1930, uma onda de migração negra do sul para o norte, meio-oeste e oeste do país - regiões onde a tolerância e as oportunidades eram maiores - deu início ao movimento pela igualdade de direitos. Entretanto, apesar de alguns pioneiros terem ultrapassado a barreira racial (como o atleta Jackie Robinson, craque do beisebol, que em 1947 tornou-se o primeiro jogador negro nas ligas maiores da modalidade preferida dos americanos, colocando um ponto final na segregação que durou 60 anos), apenas a partir da década passada é que os resultados coletivos começaram a aparecer. O boicote de Montgomery e a marcha em Washington, ambos marcados pela não-violência e pela tentativa de integração racial pregada por Martin Luther King, tiveram grande repercussão - e, mais importante ainda, resultados práticos. Contudo, alguns líderes e grupos, notadamente Malcolm X (1925-1965) e o recém-formado Black Power, advogam pela ruptura total entre a América negra e a branca, utilizando-se da violência se for preciso. A grande incógnita é o caminho que será tomado pelos herdeiros de King - se a rota da não-violência trilhada pelo reverendo ou uma estrada muito mais sinuosa, manchada de sangue.Abril de 1968

Revista Veja Historia

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Martin Luther King - A voz da alma

O sonho da liberdade, o topo da montanha, a terra prometida:
nos emocionantes discursos de Martin Luther King, as imagens
que inspiraram multidões a seguir o caminho do reverendo

Transe coletivo: diante do Memorial Lincoln, em 28 de agosto de 1963, o pastor faz seu principal discurso, 'Eu Tenho Um Sonho'

A coragem inabalável, a obsessão pela luta pacífica e o gosto pelo diálogo franco não são as únicas marcas da extraordinária trajetória de Martin Luther King. Sua retórica notável, capaz de mobilizar multidões emocionadas, foi o elemento-chave para divulgar a causa dos direitos civis nos Estados Unidos. O dom de cativar e inspirar as platéias - revelado e aperfeiçoado nos púlpitos dos templos batistas do sul do país - transformou um movimento político-social numa jornada de elevação espiritual para milhões de negros americanos. A seguir, trechos selecionados de alguns dos discursos mais famosos do pastor assassinado em Memphis:

***

"Voltem para o Mississipi, voltem para o Alabama, voltem para a Geórgia, voltem para a Louisiana, voltem para as favelas e guetos de nossas cidades do norte sabendo que, de alguma forma, esta situação pode e vai ser mudada. Não nos arrastemos pelo vale do desespero. Digo hoje a vocês, meus amigos, que apesar das dificuldades e frustrações do momento, ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho de que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro significado de sua crença: 'Consideramos essas verdades auto-evidentes: que todos os homens são criados iguais'. Eu tenho um sonho de que um dia, nas montanhas da Geórgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentarem-se juntos à mesa da fraternidade. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu caráter (...). Quando permitirmos que a liberdade ecoe, quando permitirmos que ela ecoe em cada vila e cada aldeia, em cada estado e cada cidade, seremos capazes de avançar rumo ao dia em que todos os filhos de Deus, negros e brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantar as palavras da velha cantiga negra, 'Enfim livres! Enfim livres! Graças a Deus Todo-Poderoso, enfim estamos livres!'."
(Eu Tenho Um Sonho, Washington, 28 de agosto de 1963)

"Que despertemos nesta noite com uma prontidão ainda maior. Ergamos-nos com uma determinação ainda maior. E que ataquemos de frente estes dias poderosos, estes dias marcados pelo desafio de transformar a América no que ela deve ser. Temos a oportunidade de fazer da América uma nação melhor. E quero agradecer a Deus, mais uma vez, por permitir que eu esteja aqui com vocês (...). Bem, eu não sei o que virá agora. Teremos dias difíceis pela frente. Mas isso não importa para mim agora porque eu subi ao topo da montanha. Não me importo mais. Como qualquer pessoa, eu gostaria de ter uma vida longa. A longevidade é boa. Mas não estou mais preocupado com isso agora. Quero apenas cumprir a vontade de Deus. E Ele permitiu que eu subisse a montanha. E lá de cima eu enxerguei. Eu enxerguei a Terra Prometida. É provável que eu não entre lá com vocês. Mas quero que vocês saibam esta noite que nós, como um povo, chegaremos à Terra Prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa. Não temo nenhum homem! Meus olhos viram a glória da vinda do Senhor!"
(O Sermão do Topo da Montanha, Memphis, 3 de abril de 1968)

"Há um grande dia adiante. O futuro está do nosso lado. Por enquanto estamos no deserto. Mas a Terra Prometida está adiante. Se não tivesse havido um Gandhi na Índia, com todos os seus nobres seguidores, a Índia jamais seria livre. Não fosse Nkrumah e seus seguidores em Gana, Gana ainda seria uma colônia britânica. Não fossem os abolicionistas nos EUA, tanto os negros como os brancos, estaríamos ainda hoje nas masmorras da escravidão. Em todos os períodos, sempre existem aquelas pessoas que não se importam em ter suas cabeças cortadas, que não se importam em ser perseguidas, discriminadas e agredidas, porque elas sabem que a liberdade jamais é entregue de graça; ela só vem através da persistente e contínua agitação por parte daqueles que estão presos no sistema. Isso nos lembra do fato de que uma nação ou povo pode se desvencilhar da opressão sem violência (...). Deus, nosso gracioso Pai, ajude-nos a enxergar as visões desta nova nação. Ajude-nos a segui-lo e a seguir todas as suas obras neste mundo. De alguma forma descobriremos que fomos feitos para vivermos juntos, como irmãos. E isso virá ainda nesta geração: o dia em que todos os homens reconhecerem a paternidade de Deus e a irmandade dos homens."
(O Nascimento de Uma Nova Nação, Montgomery, 7 de abril de 1957)

"Aceito o Prêmio Nobel da Paz num momento em que 22 milhões de negros nos Estados Unidos estão envolvidos numa batalha criativa para encerrar a longa noite da injustiça racial. Aceito este prêmio em nome de um movimento de direitos civis que está avançando com determinação e um majestoso desprezo pelos riscos e perigos de estabelecer um reino de liberdade e um sistema de justiça. Estou ciente de que uma pobreza debilitante e asfixiante aflige meu povo e o acorrenta ao degrau mais baixo da escada econômica. Portanto, devo perguntar por que este prêmio está sendo concedido a um movimento que é comprometido com uma luta incessante; a um movimento que não conquistou a própria paz e fraternidade que é a essência do Prêmio Nobel. Depois de pensar a respeito, concluí que este prêmio que recebo em nome desse movimento é um reconhecimento profundo de que a não-violência é a resposta à questão moral e política crucial de nosso tempo: a necessidade do homem superar a opressão e a violência sem recorrer à violência e à opressão (...). Ainda creio que superaremos tudo isso. Essa fé nos dá a coragem de enfrentar as incertezas do futuro. Dá forças aos nossos pés cansados enquanto continuamos nossa marcha rumo à cidade da liberdade. Quando nossos dias tornarem-se lúgubres e cobertos por nuvens e nossas noites tornarem-se mais escuras que mil meias-noites, saberemos que estamos vivendo no tumulto criativo de uma civilização genuína lutando para nascer."
(Cerimônia de entrega do Nobel da Paz, Oslo, 10 de dezembro de 1964)

"Infelizmente, a História transforma algumas pessoas em oprimidas e outras em opressoras. E há três formas pelas quais os indivíduos oprimidos podem lidar com a opressão. Uma delas é se levantar contra os opressores com violência física e ódio corrosivo. Mas este não é o caminho. Pois o perigo e a fragilidade deste método são sua futilidade. A violência cria mais problemas sociais do que soluções. Como disse várias vezes, se o negro sucumbir à tentação de usar a violência em sua batalha, as gerações que ainda não nasceram receberão uma longa e desoladora noite de amargura, e nosso principal legado ao futuro será um eterno reinado de caos sem sentido. A violência não é o caminho (...). Então nesta manhã, enquanto olho em seus olhos e nos olhos de todos os meus irmãos do Alabama e de toda a América e do mundo, digo a vocês: 'Eu te amo. Prefiro morrer a odiá-lo'. Sou tolo o bastante para crer que, através do poder deste amor, até os homens mais inflexíveis serão transformados. E aí estaremos no reino de Deus. Poderemos nos matricular na universidade da vida eterna, pois teremos o poder de amar nossos inimigos, abençoar as pessoas que praguejaram contra nós, até decidirmos ser bons com as pessoas que nos odiavam, até rezarmos pelas pessoas que nos usaram."
(Amar seus Inimigos, Montgomery, 17 de novembro de 1957)

Revista Veja

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

A força negra na política


A força negra na política
Afro-descendentes que ocuparam cargos de destaque no mundo
Na noite de 4 de novembro de 2008, ao ser eleito, Barack Hussein Obama, 47 anos, começou a escrever uma nova página nos livros de História. Livros que ganham mais um capítulo este mês, quando o primeiro presidente negro dos Estados Unidos toma posse. Antes de ele chegar lá, outros homens e mulheres africanos e afro-descendentes lutaram por espaço em suas comunidades. Conheça alguns que alcançaram postos antes exclusivos dos brancos.

DE FARAÓS A BANQUEIROS
Em 2700 anos, os destaques de três continentes

REI PIYE - 752 A.C.
Diante de um Egito decadente, o imperador da Núbia (atual Sudão) decide colocar ordem no país vizinho. Piye ocupa a capital, Tebas, e inicia um governo de 35 anos, que dá origem à chamada dinastia dos faraós negros. Ao morrer, o imperador é enterrado em uma pirâmide, junto com quatro de seus cavalos favoritos

HENRIQUE DO HAITI - 1807
Nascido escravo em Granada, participa da luta do Haiti contra as tropas francesas, em 1791, e assume a presidência do país, em 1807. Em 1811, proclama a si mesmo imperador. Durante seus nove anos de reinado, Henrique cria uma nobreza haitiana, com 47 títulos.

SHAKA ZULU - 1818
Ao assumir a chefia sobre a tribo zulu, transforma a etnia em um império. Para isso, conquista diversas tribos, em uma campanha que inspira comparações com Alexandre, o Grande. No momento em que é assassinado, Shaka (1778-1828) governa cerca de 250 mil pessoas.

HARRIET TUBMAN - 1861
A ex-cativa (1820-1913) é a primeira mulher a liderar tropas americanas. Durante a Guerra Civil, ela comanda uma ação militar de resgate, que consegue libertar 750 escravos das mãos da Confederação. A operação lhe rende o apelido de "Moisés dos negros".

JOHN RICHARD ARCHER - 1913
O ativista (1863-1932) é o primeiro prefeito negro eleito na Inglaterra. Após seu mandato na cidade de Battersea, marcado por acusações racistas divulgadas pelo partido de oposição, passaria a vida militando contra o preconceito.

KWAME NKRUMAH - 1960
O líder político (1909-1972) é um dos maiores responsáveis pela independência de Gana, alcançada em 1957. Depois, torna-se premiê e presidente do país. Em 2000, é eleito pelos ouvintes da rádio BBC o homem africano do milênio.

KOFFI ANNAN - 1997
Nascido em Gana, termina os estudos nos Estados Unidos. Começa a trabalhar na Organização das Nações Unidas em 1962. Em 1997, entra para a História como o primeiro secretário-geral negro da entidade, cargo que deixa em 2007.

STANLEY O’NEAL - 2002
Nunca antes um afro-americano tinha dirigido um grande banco de Wall Street. O’Neal assume o Merril Lynch e só se afasta em 2007, após a empresa perder mais de 8 bilhões de
dólares em créditos.

BARACK OBAMA - 2008
O democrata vence as prévias contra a senadora Hillary Clinton. Nas eleições de novembro, conquista o posto de 44º presidente do país. Nascido no Havaí, Obama é filho de um economista queniano. Sua esposa, Michelle, é tataraneta de um escravo da Carolina do Sul.

DOCUMENTOS HISTÓRICOS
A eleição americana nas primeiras páginas

No dia 5 de novembro, os americanos fizeram filas nas bancas de revistas. Todos queriam os jornais com o resultado das eleições para presidente. Alguns periódicos reimprimiram 5 vezes a mesma edição. Sinal de que os leitores perceberam que, naquele dia, os jornais tinham História pura impressa nas primeiras páginas.

VOCÊ SABIA?
por Caio do Valle

OBAMA É O SEGUNDO
Americano negro já foi presidente

Em 1847, Joseph Jenkins Roberts (1809-1876) tornou-se o primeiro norte-americano afro-descendente a assumir a presidência de um país. A diferença entre ele e Barack Obama é que Roberts governou uma nação estrangeira, a Libéria. Nascido em Norfolk, na Virgínia, ele era filho de uma ex-escrava libertada. Em 1829, a família se mudou para a Libéria, pequena colônia sustentada por políticos e religiosos brancos que bancavam a transferência de negros interessados em deixar os Estados Unidos. Com apenas 24 anos, Roberts já era xerife. Aos 32, ele se tornou o primeiro gestor não-branco do local. Em 1846, convocou um referendo para aprovar a independência da Libéria. Em outubro de 1847, foi eleito o primeiro governante do novo país. Sua gestão foi marcada pelo reconhecimento junto à comunidade internacional - em 1848, ele causou impacto na Inglaterra ao visitar a rainha Vitória. Mas, apesar do sucesso no exterior, no plano interno o presidente não conseguiu aproximar os colonizadores estrangeiros das etnias nativas. "Roberts foi um administrador hábil, mas não criou um ideal de nacionalidade para a região", afirma o historiador norte-americano Eric Burin.

Revista Aventuras na Historia

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A luta dos afrodescendentes brasileiros por igualdade de direitos durante o século 20

Karin S. Kössling

Após o fim da escravidão, os afrodescendentes brasileiros precisaram se organizar em diversos grupos para lutar por cidadania e outros direitos

A abolição da escravidão no Brasil, em 1888, sem uma política de inserção social, levou os afrodescendentes a uma grande marginalização social na nova ordem social que então nascia. O mercado de trabalho encontrava-se voltado para os imigrantes, e a persistência do racismo não dava a eles grandes possibilidades.

Diante de um quadro extremamente desfavorável, esses ex-escravos tentaram superar as dificuldades organizando-se em torno de associações, literárias, rítmicas, musicais e outros tipos de espaços voltados principalmente para a cultura – outros espaços sociais urbanos não estavam abertos a eles.

Esse encontro rotineiro, com pessoas que sofriam os mesmos problemas, fez surgir a consciência coletiva da exclusão social a que estavam submetidos.

Com a circulação dessa consciência, esse grupo social passou a buscar meios de protestar e articular seus pensamentos, visando a auto-afirmação e a construção de uma identidade positiva. O processo de organização do grupo afrodescendente passa, necessariamente, pelo processo de conscientização de seus problemas sociais, políticos e econômicos. Os movimentos negros configuram-se como a busca à vida associativa em combate ao racismo. Essa luta obteve, entre tantas dificuldades para sua construção, a intensa vigilância dos órgãos de segurança por meio da polícia política, que desconfiava desses movimentos como “subversivos”.

FNB abre caminho
O primeiro veículo de protesto negro foram os periódicos – de início produzidos somente por e para esse público (veja o quadro “Fases da imprensa negra”). Essa imprensa articulava os afrodescendentes com idéias, aspirações, reivindicações e projetos sociais. Como buscavam também o resgate da auto-estima dessa população, era muito importante valorizar a beleza negra e o peso dessas pessoas como seres humanos. Formulando uma identidade étnica e laços de solidariedade, procuravam uma mobilidade social.
O primeiro jornal do estado de São Paulo foi o Baluarte, de 1904, órgão oficial do Centro Literário dos Homens de Cor. Autodescrevia-se como “um legítimo órgão da classe de homens de cor para levantar essa classe muito tempo aviltada em nosso país”. Na capital fluminense, o primeiro periódico com esse perfil foi o Menelik, fundado em 1915. Ele tinha um caráter mais noticioso, dedicando-se também à crítica literária.
A fundação da Frente Negra Brasileira (FNB), em 1931, nasceu em decorrência do contexto de inquietação e esperança produzido pela Revolução de 1930, com objetivo de integrar política e socialmente os afro-descendentes. Foi um movimento de caráter nacional, com atuação no interior de São Paulo e em outros estados do país.
Na década de 1920, os afrodescendentes envolvidos com a imprensa, principalmente com o Clarim d´Alvorada, organizaram o Centro Cívico Palmares, uma das sementes da FNB. Arlindo Veiga dos Santos, que já havia sido presidente do Centro Cívico Palmares em 1931, buscou, junto com outros militantes, uma organização mais política, complementando a ação realizada no centro.

O jornal A Voz da Raça, lançado em março de 1933, colaborou muito para a atuação da FNB. Ele se apresentava como órgão oficial da instituição.

Numa edição de 1933, dizia tratar de “assuntos referentes ao negro, especialmente, não dispensando porém de acolher os de outras referências quando solicitadas. Este jornal aparece na hora em que precisamos tornar público, nos dias de hoje, de amanhã e de sempre, os interesses e a comunhão de idéias da raça porque as outras folhas, aliás veteranas, por despeitos políticos, têm deixado de fazer.”
A FNB alinhou-se à política populista de Vargas. Ao denunciar o racismo, os frentenegrinos buscavam também superar os estigmas herdados da escravidão e romper com a forma tradicional de dominação. Mas, para tal propósito, acreditavam ser necessário o “saneamento moral” dentro de sua comunidade, endossando aspectos de projetos do governo Vargas de transformação do homem brasileiro, centrado na valorização do trabalho, da obediência e da homogeneização social.
A FNB trouxe, portanto, um projeto de atuação reivindicatória com uma posição de integração na sociedade brasileira, visando a ascensão social dos afrodescendentes. Cabe ressaltar que essa associação não apresentou uma posição homogênea entre seus sócios, vindo a assumir diferentes dimensões expressivas dos múltiplos projetos e embates internos. No entanto, predominou, ao longo de sua existência, uma postura política de direita (veja o quadro “Namoro integralista”).
A política teve importância central para a FNB, que visava ampliar seu espectro de atuação. O ápice foi sua inscrição como partido político em 1936. Mas, diante da dissolução da representação partidária em 1937, essa atividade da FNB também foi abandonada. A idéia não era de separatismo com a formação partidaria, mas de levar adiante reivindicações do afrodescendente que não seriam assumidas por nenhum outro partido. A exclusão do afrodescendente do processo político revela a importância da iniciativa frentenegrina.

Contra o racismo
O Movimento Unifi cado Contra a Discriminação Racial (MNU) nasceu por meio do ato público de 7 de julho de 1978 em São Paulo. O ato visava protestar contra a discriminação racial, especialmente no caso do Clube de Regatas Tietê, que teria proibido o treino de alguns garotos negros no clube, além do episódio que levou à morte de Robson Silveira Luz, em decorrência de torturas numa delegacia de polícia de Guaianazes.
Ainda na década de 1970, os afrodescendentes tinham que reafirmar e reivindicar seus direitos de cidadãos. Assim, eles projetavam sua mobilização: “O Movimento Contra a Discriminação Racial foi criado para que os direitos dos homens negros, também, sejam respeitados”, dizia uma carta convocatória para um ato público contra o racismo em 1978.

Os principais líderes do MNU se identificavam com o ideário trotskista e militavam na Liga Operária – depois transformada em Convergência Socialista –, organização que editava o jornal alternativo Versus, no qual Hamilton Bernardes Cardoso comandava a coluna “Afro-Latina-América” (veja o quadro “A força da esquerda”).

Na carta de princípios do MNU, havia destaque para o seu objetivo central, a “defesa do povo negro”, visando sua melhoria social numa perspectiva de integração social. O documento não tratava de idéias de rompimento social.

Ao contrário, trazia uma perspectiva de inclusão na sociedade brasileira e de preservação dos direitos sociais.

A união foi o objetivo maior do MNU, que procurava articular todas as associações afrodescendentes, visando unificar os esforços de combate ao preconceito, ao racismo e à discriminação.

NAMORO INTEGRALISTA
A intensa circulação ideológica no século 20 ecoou nos movimentos negros de diversas formas, o que levou os afrodescendentes a se posicionarem na sociedade e a articularem suas estratégias, seus discursos e projetos.
A Frente Negra Brasileira debatia o comunismo, o anticomunismo, o integralismo, o fascismo, o antifascismo e o nazismo, idéias que circulavam no mundo daquela época. Mas alinhou-se ao pensamento de direita e anticomunista, demonstrando posições simpáticas ao integralismo e ao nazismo. Tanto que a lateral do cabeçalho do jornal A Voz da Raça estampava as palavras: “Deus, Pátria, Raça e Família”, uma analogia com o ideário integralista. Embora não fosse assumida oficialmente, essa afinidade era realçada pelo ingresso de frentenegrinos na Ação Integralista Brasileira (AIB), conforme relatado em investigação policial sobre a Frente Negra de Tietê, nos arquivos do Deops.
Mas as posturas políticas de direita não foram unanimidade entre os militantes. O problema é que mobilizações ligadas à esquerda não tiveram grande possibilidade de ação, uma vez que a atuação repressiva da polícia política coibia sua organização. A Federação dos Negros, ou Federação Nacional dos Negros do Brasil, por exemplo, pronunciou-se em defesa da Abissínia, invadida por Mussolini. Mas esta manifestação foi logo proibida pelo Deops.
Com seu crescimento, na década de 1930, a FNB tornou-se alvo de assédio de políticos e partidos de esquerda e direita. O Partido Comunista Brasileiro (PCB) investiu em propagandas voltadas aos negros e a outros “oprimidos”. Porém, como se pode observar em circulares do PCB, percebeu-se a necessidade de arregimentar a FNB para a penetração na comunidade afrodescendente, proposta essa rechaçada pelos dirigentes frentenegrinos. Já as aproximações com a AIB foram amplamente facilitadas por um ideário comum e ocorreram aproximações entre os seus militantes, principalmente no ano de 1937, como relata o jornal Acção nos festejos de 13 de Maio.

Vigilância do Deops
De 1924 a 1983, ao longo da existência do Departamento Estadual de Ordem Política e Social – a polícia política estadual, ou Deops –, houve muita vigilância e repressão aos movimentos negros brasileiros. Praticamente todo o século 20 apresentou uma restrição em relação ao protesto afrodescendente, especialmente pela visão de que esses movimentos trariam a perspectiva de rompimento e conflito social na “harmônica” sociedade brasileira, pautada no mito da “democracia racial”.

Embora o principal inimigo dos órgãos de repressão política de então fosse o comunismo, houve uma preocupação com a questão racial brasileira na atuação da polícia contra as lutas anti-racistas, além da própria preocupação com a possibilidade de “cooptação” desses movimentos pelos comunistas.
Para desqualificar as associações de negros, reforçando o mito da ausência de preconceito racial no Brasil e, portanto, negando a necessidade de tais associações, as autoridades policiais da década de 1940 classificavam-nas de subversivas, como pode ser verificado neste trecho de um relatório de investigação do Deops de São Paulo:

“Pretende, pois, a Organização de Cultura e Beneficência Jabaquara, criar, no Brasil, a questão racial, problema gravíssimo que, felizmente, desconhecemos [...] Quer nos parecer que a existência dessa associação será perniciosa à segurança pública, pois o seu programa de ação se presta admiravelmente para agitações, de modo [que] será, infalivelmente, uma presa dos fácil demagogos profissionais.”
O trecho apresenta um discurso policial que trata as associações de cunho reivindicatório como ameaça. Ao tentar escamotear o racismo brasileiro, faz-se necessário calar as vozes dissonantes. Ao apontar o racismo e suas conseqüências, essas associações negam o mito da “democracia racial”, justamente num contexto em que se enaltece tal aspecto com maior divulgação da obra de Gilberto Freyre Casa-Grande & Senzala.
As associações afrodescendentes também eram vistas como presas fáceis para os “demagogos profissionais”, ou seja, os comunistas. Tais afirmações revelam – além do preconceito presente entre as autoridades policiais – uma política de controle social que busca cercear as ações político-sociais da esquerda brasileira. A polícia política “construía” a sua versão que, movida pela lógica da desconfiança, incriminava o acusado.
Da mesma forma, no regime militar, o nacionalismo brasileiro de cunho autoritário pautou-se na formulação do discurso de um povo mestiço e harmônico, visando mobilizar a população em torno da sua concepção sobre o país e homogeneizar em torno dos “interesses nacionais”. A celebrada “democracia racial” tornava-se um “dogma” dos governos militares, visando evitar a “desagregação entre as raças”. Em conjunto com outros mitos, como a “exuberância natural”, o “congraçamento social”, a “harmônica integração nacional”, a “cordialidade” e a “festividade” do povo brasileiro foram apropriados e ganharam novo sentido por meio da propaganda do regime militar em nome da idéia de unidade nacional. A “inexistência” do preconceito racial seria, na mentalidade do regime, parte do “caráter nacional”, da própria “brasilidade”, elemento-chave desde o governo Vargas.

A FORÇA DA ESQUERDA
Enquanto a FNB se aproximava dos integralistas, o MNU apresentou um discurso pautado no marxismo, especialmente como conseqüência das pesquisas acadêmicas sobre racismo no Brasil, que utilizavam o viés marxista, como a de Florestan Fernandes e Clóvis Moura na análise sobre a desigualdade social brasileira, mesclando os conceitos de “classe” e de “raça”. A base ideológica do MNU esteve também ligada à filiação dos militantes aos partidos de esquerda que contestavam o regime militar.
Embora o MNU não se comprometesse com um partido político de forma direta, sua postura apresentava-se alinhada aos pensamentos de esquerda e indicava a seus militantes que votassem e participassem dos partidos que fossem comprometidos com as causas dos oprimidos.
A política era aspecto vital para o MNU, especialmente pela constatação dos militantes de que o racismo é um fato político. Ao mesmo tempo, notamos que esse era o ponto de fragilidade do MNU em relação à sua unidade, já que diversas tendências político-partidárias se faziam presentes, tornando objetivos e estratégias dissensos.

Assim, o Deops, no período do regime militar, classificava os movimentos negros como “subversivos” e atos de “racismo negro”. É exemplo o seguinte depoimento de um investigador de polícia durante a reunião de uma associação clandestina de afrodescendentes: “contou com a presença de agitadores principais do ‘black power’ nanico, que é o verdadeiro movimento, camuflado com o nome acima citado. O movimento racista negro pretende ‘botar pra quebrar’ [sic] em todo o país.”
O “protesto negro”, nesse contexto políticosocial, trazia à tona a desigualdade racial, pondo em xeque a massificação presente nos projetos políticos dos órgãos governamentais. Assim, a denúncia do racismo, a articulação de gestos, as músicas, os visuais, os comportamentos, as religiosidades, enfim, o cultivo de formas de representações próprias, ligadas à ascendência africana, levava à formulação de uma cultura de resistência fundada em signos e símbolos identitários afro-brasileiros, que ganharam ares subversivos para as autoridades policiais e militares.

FASES DA IMPRENSA NEGRA

Ao lado, da esq. para a dir.: capa do jornal Clarim d’ Alvorada, de 31 de janeiro de 1932 e capa do periódico Jornegro, de 1981
Miriam Ferrara, em seu estudo sobre a imprensa negra no Brasil, dividiu essa história em três períodos. A primeira, que vai de 1915 a 1923, marca o nascimento da consciência étnica, com poucas reivindicações. Na segunda, de 1924 a 1937, surge o conteúdo reivindicativo. Ela começa com o Clarim d’Alvorada e segue com a Frente Negra Brasileira e seu jornal A Voz da Raça. A terceira fase dura de 1945 a 1963. Nela, acontece a reorganização pós-Estado Novo, processo de intensificação das reivindicações políticas, com filiação a partidos políticos e candidaturas a cargos eletivos pelos afrodescendentes.
Revista Desvendando a História