Mostrando postagens com marcador Historia Antiga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Historia Antiga. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 20 de março de 2017

Crianças no Egito de Cleópatra morriam por desnutrição


É o que revela um estudo de 20 anos na Necrópole de Saqqara


 A rainha em sua indiferença, em quadro do século 19 | Crédito: Alexandre Cabanel 
Cleópatra VII, a última faraó do Egito, é famosa pelo luxo, tomando banhos de leite e, em certa ocasião, dissolvendo a maior pérola do mundo em vinagre para beber, numa aposta com seu amante, o general Marco Antônio. Ainda que a última história seja provavelmente invenção, numa coisa, nenhum historiador vai discordar: pobre, ela não era.


Como isso se traduzia para o povo? Muito mal, segundo uma pesquisa de duas décadas conduzida pelo egiptologista polonês Karol Myśliwiec, da Universidade de Varsóvia. Sua equipe analisou os restos encontrados de 29 crianças encontradas na Necrópole de Saqqara, na antiga capital Mênfis. A pesquisa completa passou por 500 tumbas, desde o Antigo Reino, há quase 5 mil anos. Mas essas crianças, com idades entre meses até 12 anos, foram enterradas entre os séculos 4 a.C. e 1 d.C., durante o período ptolomaico - a dinastia de Cleópatra - e início do domínio romano.

Segundo a equipe, a maioria dessas crianças morreu de infecções ou parasitoses relacionadas à perda de imunidade ao fim do aleitamento materno. Mas isso não vem sozinho: elas sofriam de cáries, anemia, deficiência de vitamina B e má nutrição em geral. Também sinusite crônica causada pelo ambiente do deserto.

Uma das crianças, cujos dentes indicavam ter 4 anos de idade, tinha o tamanho de um bebê de um ano. "Isso significa um retardamento ou inibição temporária no crescimento da criança ocorreu, provavelmente causado por uma dieta pobre em nutrientes essenciais para o desenvolvimento", afirma a bioarqueóloga Iwona Kozieradzka-Ogunmakin, da Universidade de Manchester.

                                

                       Dra. Iwona trabalhando / Polish Centre of Mediterranean Archaeology UW

Curiosamente, um dos indícios do estado precário de saúde dessas crianças é que a maioria delas não tem marcas diretas das doenças que as levaram. O que, ao contrário do que possa parecer, não significa que eram saudáveis, mas que "sucumbiram às doenças rapidamente por seu sistema imunológico fraco", segundo Dra. Iwona. Quem tem sinais de doenças é porque sobreviveu o suficiente para eles aparecerem - assim, estava num estado menos ruim que os outros.

Outra ausência significativa: o próprio número de tumbas infantis é considerado baixo. Segundo os cientistas, é possível que pais enterrassem crianças nas próprias casas, como já foi visto em outras partes do Egito, ou que os corpos, enterrados em covas rasas perto da areia, tenham sido levados por animais.

O Egito de Cleópatra está longe de ser o país exótico e atrasado que os filmes costumam mostrar. Ela foi a última governante da Dinastia Ptolomaica, gregos descendentes da conquista do país por Alexandre o Grande, em 336 a.C. Com a decadência das cidades-estado gregas, como Atenas, a capital do Egito, Alexandria, havia se tornado o novo centro cultural do mundo grego - prova disso era a Grande Biblioteca, um centro científico de onde vieram coisas como portas automáticas, máquinas de venda e o motor a vapor (que eles só usaram como um brinquedo). Com a conquista romana, o Egito seria também o celeiro do mundo.

A miséria vista no cemitério provavelmente foi azar. Segundo os arqueólogos, secas no rio Nilo provavelmente causavam períodos de escassez, que levam à desnutrição generalizada. As crianças pequenas sofriam mais que todos.
Revista Aventuras na História

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Inventos da Antiguidade - Medicina Primitiva



Saiba como a sanguessuga era usada antigamente como elemento de cura e veja seus efeitos em um paciente vivo. Investigue os campos de batalha romanos e suas técnicas e instrumentos cirúrgicos. Veja também como o veneno de uma serpente era usado como remédio no mundo antigo, uma técnica que os médicos atuais estão aprendendo a utilizar novamente.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

O malcheiroso molho que Roma adorava



DIAS LOPES
 JADIASLOPES@GMAIL.COM

Questão de gosto. Os romanos gostavam de temperar a comida com um molho de peixe, conhecido pelo cheiro forte e sabor concentrado e picante.

Revelações preciosas sobre o garum, o molho de peixe que temperava a comida diária dos romanos, acabam de ser publicadas por uma autoridade em história da Roma Antiga. No livro Pompéia - O Dia-a-dia da Mítica Cidade Romana (Esfera dos Livros, Lisboa, 2010) a pesquisadora britânica Mary Beard mostra que a cidade do golfo de Nápoles, soterrada no ano 79 d.C. pelo vulcão Vesúvio, foi um importantíssimo centro de preparação e comércio daquele produto.

Os romanos o apreciavam, apesar do cheiro forte, do sabor concentrado e picante, da fama desabonadora com a qual chegou até nós. O escritor latino Plínio, o Velho, que por coincidência morreu sufocado pelo Vesúvio, tentando salvar vítimas da catástrofe, qualificou-o de "líquido de peixe podre". Mary Bread tem informações substanciosas sobre a família de Aulo Umbrício Escauro, um produtor e comerciante de garum, de Pompéia, que enriqueceu graças à atividade.

Os romanos despejavam o molho em tudo. A difusão do livro do gastrônomo latino Marco Gavio Apício, De re coquinaria, fez com que a posteridade o considerasse romano. Estudiosos contemporâneos, porém, acreditam que o molho foi inventado pelos fenícios, a partir de influência asiática. Eles realmente o preparavam em uma da suas colônias, a cidade de Cádiz, no sul da Espanha.

A arqueóloga italiana Eugenia Salza Prina Ricotti, no livro Ricette della Cucina Romana a Pompei - e Come Eseguirle (L’Erma di Pretschneider, Roma, 1993) vê semelhanças entre o garum e o molho vietnamita nuoc nam e o tailandês nam pla. Os molhos de peixe ainda são populares no Sudeste Asiático.

Outros autores lembram que os gregos já apreciavam o garum e o introduziram na cozinha dos povos helenizados. Teriam sido eles os transmissores da receita aos romanos. A designação do molho viria de garon, nome grego de um peixe utilizado no seu preparo.

Certos detalhes do garum dos romanos permanecem desconhecidos, até porque as receitas, além de imprecisas, variavam bastante. O produto de melhor qualidade era feito à base de peixe caro e, alcançando preço alto, tornava-se objeto de contrabando. De modo geral, elaborava-se o molho em vasos de cerâmica. Acrescentava-se um ou muitos peixes, sempre com o sangue e as vísceras, ou vários frutos do mar. A seguir, colocava-se sal, temperos e se deixava fermentar e apodrecer ao sol durante meses. Algumas receitas levavam vinho; outras azeite ou água do mar. Resultavam diferentes tipos de molho.

O primeiro líquido a emergir da fermentação era o garum. Após a filtragem, estava pronto para o consumo. O líquido do fundo se chamava allec. Também se destinava à culinária, apesar do prestígio menor.

Mary Beard conta que Escauro trabalhava junto com a família. Elaborava e vendia vários tipos de molho. Descobre-se isso lendo as inscrições nas ânforas que o vulcão não quebrou. "O melhor molho de peixe", anuncia uma delas, obviamente em latim. "Também (as inscrições) chamam a atenção das versões (do garum) só de cavala, que eram as mais apreciadas pelos connaisseurs desta iguaria", diz Mary Beard. Segundo ela, como o molho exalava mau cheiro durante a feitura, preparavam-no junto à costa, em vasos enormes de cerâmica.

A loja da cidade fazia a distribuição, guardando-o em seis enormes dolia (vasilhas de barro) e colocando-o em recipientes menores na hora de vender. Mary Beard descreve Escauro como um vitorioso novo rico. "Em meados do século I (...), seu filho com o mesmo nome havia alcançado um dos postos mais elevados do governo da cidade, como um dos dois duoviri anuais", escreveu ela. Foi salto prodigioso. Os duoviri ou duumviri eram importantes magistrados da Roma Antiga. Eleitos em dupla, supervisionavam os negócios públicos, interferiam em delicadas questões administrativas e políticas. Nada desprezível para uma pessoa que subiu na vida à custa de "líquido de peixe podre".
Jornal O Estado de S. Paulo

O manual de campanha eleitoral da Roma Antiga


Maria Cristina Fernandes

Do Valor

Como ganhar uma eleição
Por Maria Cristina Fernandes

O título é o nome de um livrinho escrito 64 anos antes de Cristo. É de grande utilidade na temporada eleitoral que se inicia. Políticos, marqueteiros e estrategistas de campanha sempre se serviram dele. Por razões inversas, o texto também pode ser de grande serventia para o eleitor.

Sua leitura é especialmente esclarecedora para saudosistas de um tempo que nunca existiu. Os conselhos de Quinto Túlio Cícero mostram que política nunca se escreveu com 'p' maiúsculo. Talvez porque seja feita por gente. Sem conhecê-la, o eleitor se torna presa fácil do discurso de que só os bem-aventurados são capazes de fazer a política maiúscula, aquela da mitologia.

O autor é o irmão mais novo de Marco Túlio Cícero, um advogado de 42 anos com ambição de se tornar cônsul, o mais alto posto da república romana. Descendem de um rico comerciante do sul de Roma que mandou os filhos estudar filosofia e oratória na Grécia.

Marco Túlio torna-se um grande orador nos tribunais mas, para chegar a cônsul, precisa enfrentar as resistências da aristocracia fornecedora de dirigentes da república. Quinto manda seu irmão repetir para si mesmo: "Sou um 'outsider'. Quero ser cônsul. Esta é Roma".

O voto era direto, secreto e masculino, mas o sistema eleitoral conferia mais peso aos nobres. "Nunca deixe que o tomem por um populista", diz Quinto Túlio ao traçar a estratégia de aproximação do irmão com a aristocracia. Deveria ficar claro para os nobres que todo movimento em direção ao povo se devia a tática eleitoral.

Marco Túlio não deveria se deixar intimidar pelos concorrentes de sangue azul. Um tinha tido a propriedade confiscada por dívida e comprara uma escrava para lhe prestar serviços sexuais. Outro matara o cunhado, molestava jovens garotos e corrompia juízes nos tribunais. Essas questões não precisam ser explicitadas mas os adversários devem saber que são conhecidas. Estava lançado aí o primeiro tijolo das fábricas de dossiês.

Esta é a primeira parte da campanha. Em que o candidato se assenhora de sua ambição e se torna amigo dos mais aquinhoados de dinheiro e poder para não ser por eles barrado. Numa disputa eleitoral, diz Quinto, há duas tarefas: assegurar o apoio de seus amigos e ganhar o do público: "Você ganhará o dos amigos com gentilezas, favores, conexões, disponibilidade e charme".

Marco Túlio Cícero deve lhes dizer nunca lhes ter pedido nada antes e que chegara a hora de fazê-lo. "Faça-os saber que se você ganhar a eleição agora você estará em dívida com eles".

O irmão não deve filtrar aliados pelo caráter. Numa campanha, diz o irmão, você não deve ter vergonha de cultivar amigos com gente de quem nenhuma pessoa decente se aproximaria - "Você será um tolo se não o fizer". Nasciam as diretrizes das megacoalizões eleitorais.

A segunda parte da campanha deve tratar de ganhar o povo. O primeiro passo é conhecer as pessoas pelo nome. Num eleitorado de 141 milhões a tarefa é em parte feita pela propaganda na TV. Gente do povo é escolhida a dedo para representar na TV segmentos do eleitorado com quem o candidato deve mostrar intimidade.

Chamar os eleitores pelo nome não basta. Eles precisam saber o que vão ganhar com sua eleição. Por isso, Quinto diz que o irmão não deve ter o pudor de prometer, ainda que mais tarde seja necessário convencer os eleitores de que não foi possível cumprir o prometido.

O mais prudente, diz Quinto, é ser vago em relação às promessas. Dizer aos nobres que manterá seus privilégios, aos empresários que assegurará a estabilidade de seus negócios e ao povo que sempre esteve e estará ao seu lado. "A parte mais importante da campanha é levar esperança às pessoas e atrair seus bons augúrios", diz Quinto. Mas seu irmão deveria saber que não seria capaz de fazê-lo se confiasse facilmente nas pessoas. "A política é cheia de falsidade, deslealdade e traições".

Marco Túlio Cícero elegeu-se cônsul. Durante seu governo, um dos adversários derrotados conspirou para derrotá-lo. Cícero desbaratou a conspiração e persuadiu o Senado a declarar guerra ao adversário. Quinto foi eleito para o mais alto cargo da magistratura, cargo que só perdia para o de cônsul, em poder e prestígio. Depois foi governador na província romana que se tornaria a Turquia. Os irmãos Cícero tinham dominado os códigos para conquistar e exercer o poder na república romana, mas não sobreviveriam à guerra civil que daria início ao Império. No ano 43 A.C. seriam assassinados.
http://jornalggn.com.br/

Manual do Candidato às Eleições: Marketing político existe há 2 mil anos



Manual da Roma antiga ensinava a candidato como se comportar para ganhar votos

Felipe Van Deursen

“Você deve constituir amizades de todos os tipos: nomes ilustres, os quais conferem prestígio ao candidato; magistrados, para garantir a proteção da lei. (...) Isso requer conhecer as pessoas de nome, usar de certa bajulação.” Tá, parece, mas não é uma cartilha encontrada nas coisas de um dos mais de 19 mil candidatos às eleições deste ano.

Trata-se de um trecho do Manual do Candidato às Eleições, escrito em 64 a.C. em Roma, por Quinto Túlio Cícero. O autor preparou o manual (Commentariolus Petitionis, no original em latim) para seu irmão, Marco Túlio Cícero, ilustre orador e político que naquele ano se candidatava ao posto máximo da República romana: o de cônsul. O manual, embora curto, tinha conselhos valiosos para Cícero conseguir ser eleito. Fortalecer amizades já existentes e conquistar novas, cobrar favores prestados a quem pudesse ajudar na campanha, decorar o maior número de nomes possível, sorrir para todos, ser generoso, fazer promessas mesmo sabendo que não cumpriria todas, pedir votos na rua, estar sempre cercado de multidões, falar a língua do povo e tornar públicos os podres dos adversários.

“Em Roma, onde havia poder havia corrupção”, afirma Laura Silveira, especialista no assunto e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “E naquela época da República, como era preciso conquistar todos os setores representados no Senado, as dicas eleitoreiras do manual deveriam ser de grande utilidade.” E foram: Marco Túlio Cícero acabou eleito.


Você Sabia
2006? Não: era 64 a.C.
Podres do passado foram explorados na campanha
Felipe Van Deursen

A eleição em 64 a.C. e o mandato de Marco Túlio Cícero no consulado foram marcados por desavenças políticas, golpes baixos, acusações e grandes discursos. Embora o manual tenha ajudado, Cícero não precisou de muito esforço para ser eleito. Seus maiores rivais, Antônio e Catilina, eram homens de passados condenáveis. Quinto Túlio sugeriu explorar isso (“Ambos desde a juventude assassinos, ambos libertinos”, escreveu). Por isso, mesmo não sendo aristocrata, Cícero tinha a confiança da elite.Antônio também foi eleito (eram duas cadeiras de cônsul, com votações anuais) e reconciliou-se com Cícero. Catilina, no entanto, candidatou-se de novo, perdeu e conspirou contra Cícero, sem sucesso. Liderou um exército revolucionário e acabou morto, em 62 a.C. O cônsul condenou à morte os membros da conjuração, mas foi exilado por abuso de poder. Vinte anos depois, o triunvirato formado por Caio Otávio, Marco Antônio e Lépido afastou os irmãos Cícero da política. Os dois foram mortos.


Falam por si
Alguns trechos do manual

Imagem é tudo

“Apesar de os dons naturais valerem muito, (...) um perfil bem forjado pode falar mais alto que a natureza.”

Promessas

“Se você promete (o que o eleitor pede), essa raiva é incerta, futura e se instala em bem poucos. Mas se você nega, provoca irritação no ato e em muitos.”

Rabo preso“Não quero que você ostente isso (a corrupção dos adversários) diante deles de maneira a parecer que já planeja uma acusação, e sim que, pelo simples medo disso, você consiga com facilidade aquilo que busca.”
Revista Aventuras na História

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O nosso Halloween nasceu na Antiguidade

Festa do Dia das Bruxas foi criada pelos celtas há mais de 2000 anos para homenagear os espíritos de seus antepassados

Pietro Henrique Delallibera

Wikimedia Commons
Druida representado em gravura inglesa de 1676. Estudos mostram que os celtas foram os pais do Dia das Bruxas

Hoje, dia 31 de outubro, diversos países comemoram o Halloween. A festa, importada há algumas décadas dos Estados Unidos, ganha cada vez mais popularidade entre nós brasileiros e a cada ano que passa movimenta parcelas maiores do mercado. No entanto, se engana que pensa que a origem do “Dia das Bruxas” é americana: as raízes mais profundas da comemoração remontam à Antiguidade.

Sabe-se que os primeiros a realizar uma celebração semelhante à que conhecemos hoje foram os celtas. Esse povo, que viveu há cerca de 2000 anos onde atualmente estão a Irlanda, a Inglaterra e o norte de França, comemorava o seu ano novo no dia 1º de novembro, data que marcava o fim do verão, o término da colheita e o início de um rigoroso inverno. Por conta disso, a passagem do ano era associada com o início de um período sombrio, gélido, e na noite de 31 de outubro os celtas realizavam um festival chamado Samhain (se pronuncia “sow-in”). Nesse dia, acreditava-se que a fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos era desfeita, e as almas dos antepassados caminhavam sobre a Terra. Era justamente nesse dia que os druidas, espécies de “feiticeiros” celtas, aproveitavam a influência dessas presenças espirituais para realizar previsões sobre o próximo ano e a colheita vindoura.

Em meados da década de 40 da era cristã, os romanos já haviam conquistado a maior parte do território celta. Pelos 400 anos seguintes, essas regiões seriam dominadas pelo império dos césares, que promovia um festival muito semelhante à tradição do Samhain, chamado Feralia. Nesse dia, sempre no final de outubro, os romanos celebravam a passagem dos mortos para a outra vida. O convívio entre os dois povos fez com que os costumes se misturassem e incorporassem elementos em comum.


Wikimedia Commons
Canadense fantasiada para o Halloween em 1928. Nos moldes americanos, a festa se disseminou por quase todo o mundo Ocidental

Durante a Idade Média, o catolicismo aumentou sua influência sobre as regiões do antigo Império Romano e reprimiu ou “cristianizou” antigas práticas pagãs. Com o Feralia – ou Samhain – não foi diferente: no século IX, o papa Bonifácio IV determinou que o dia 1º de novembro, antigo ano novo celta, seria o “Dia de Todos os Santos”. Ou seja, em vez de celebrar as almas dos antepassados em rituais e festividades nada ortodoxos, a população deveria venerar os mártires cristãos.

Também foi nesse período que surgiu o nome que a festa assumiu hoje: a data foi nomeada, em um tipo de inglês arcaico, de All-hallows ou All-hallowmas, um derivado de Alholowmesse, que significa all saints’ day (“Dia de Todos os Santos” em inglês). Assim, a noite anterior à festa, ou seja, dia 31 de outubro, passou a ser chamada de All-hallows Eve (referência a evening, que significa “noite” em inglês), o que se transformou, ao longo dos séculos, na forma moderna Halloween.

O resto da história já é um pouco mais conhecida: o festival desembarcou na América com os colonizadores ingleses e ganhou popularidade ao longo das décadas, assumindo um caráter de “confraternização entre vizinhos”. O “Dia das Bruxas” ganhou características modernas, como as fantasias ou a prática do “doce-ou-travessura”, mas, ainda assim, algumas de suas brincadeiras típicas mantêm relação com rituais de mais de 2000 anos.

O Apple bobbing, competição comum nos Estados Unidos que consiste em pegar maçãs de uma bacia cheia d’água usando somente a boca, provavelmente tem relação com a Feralia romana: o “Dia das Bruxas” do tempo dos césares coincida com as comemorações em homenagem à deusa Pomona, guardiã das árvores e das frutas, cujo símbolo é a maçã. Assim, vários ritos e jogos praticados por séculos envolveram a fruta, o que acabou derivando a brincadeira atual. Outra mostra de que os nossos “rituais” podem esconder muito mais história do que aparentam.
Revista História Viva

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Ilíada foi publicada nos anos 700 a.C.

Biblioteca Ambrosiana, Milão
Códice Ilíada de Homero, aproximadamente do final do séc. 6, a. C. 

Métodos de genética evolutiva indicam origem do clássico de Homero

Joel N. Shurkin e Inside Science News Service

Esta história foi originalmente publicada por Inside Science News Service 

Cientistas que decodificam a história genética humana investigando como genes sofrem mutação aplicaram a mesma técnica a um dos mais antigos e celebrados textos do Ocidente para revelar a data em que foi escrito. 

O texto é a “Ilíada”, de Homero, e seu autor – se existiu – provavelmente escreveu a obra em762 a.C., com uma margem de erro de 50 anos, descobriram os pesquisadores. A “Ilíada” conta a história da Guerra de Troia – se é que a guerra ocorreu – entre gregos e troianos.

Os pesquisadores aceitam que o confronto ocorreu e que alguém chamado Homero escreveu sobre ela, explica Mark Pagel, teórico evolutivo da University of Reading, na Inglaterra. Seus colaboradores incluem Eric Altschuler, geneticista da University of Medicine and Denstistry of New Jersey, em Newark, e Andreea S. Calude, linguista da Reading, e do Instituto Santa Fé, no Novo México. Eles trabalharam a com o texto padrão do poema épico.

A data a que chegaram está de acordo com a época em que muitos acadêmicos acreditam que a Ilíada foi compilada, então o artigo, publicado no periódico Bioessays, não terá classicistas irritados. O estudo basicamente afirma o que eles [os acadêmicos] vêm dizendo: que o trabalho foi escrito no oitavo século a.C.

De acordo com Pagel, ver geneticistas em um projeto desses não deveria ser surpreendente.

“Linguagens se comportam extraordinariamente como genes”, declarou Pagel. “É uma analogia direta. Tentamos documentar as regularidades na evolução linguistica e estudar o vocabulário de Homero como forma de observar se a linguagem evolui da maneira que achamos que evolui. Se for o caso, conseguiremos encontrar uma data para Homero”.

A existência de um indivíduo chamado Homero que escreveu a Ilíada é improvável. Brian Rose, professor de estudos clássicos e curador da seção Mediterrânea do Museu da University of Pennsylvania, acredita que está claro que a Ilíada é uma compilação de tradições orais datando até o século13 a.C.

“A Ilíada é um amálgama de várias histórias que parecem se concentrar em conflitos em uma área específica do noroeste da Turquia”, observa Rose. 

A história da “Ilíada” é bem conhecida, cheia de personagens como Helena de Tróia, Aquiles, Paris, Agamenon, e vários deuses e deusas que se comportam mal. Ela conta como uma frota gigantesca de navios gregos atravessou o “mar negro como vinho” para sitiar Tróia e recuperar uma esposa roubada. Sua sequência é a “Odisséia”.

Classistas e arqueólogos têm certeza de que Troia existiu e sabem mais ou menos onde ela se encontra. No século 19, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann e o inglês Frank Calvert escavaram o que hoje é conhecida como a Cidadela de Tróia e descobriram evidências de um conflito militar do século12 a.C., incluindo flechas e mais de1 metrode destroços queimados ao redor de uma fortaleza incendiada. De acordo com Rose, não se sabe se isso foi uma guerra entre Tróia e um inimigo externo, ou uma guerra civil.

A compilação que conhecemos como a “Ilíada” foi escrita séculos depois, na data que Pagel está propondo.

Os cientistas procuraram as palavras da “Ilíada” da mesma forma que procurariam genes em um genoma.

Os pesquisadores empregaram uma ferramenta linguística chamada de lista de palavras de Swadesh, criada nos anos 1940 e 1950 pelo linguista americano Morris Swadesh. Pagel explica que a lista contém aproximadamente 200 conceitos descritos por palavras aparentemente em todas as línguas e culturas. Geralmente são palavras para partes do corpo, cores, e parentescos como “pai” e “mãe”. 

Eles procuraram palavras de Swadesh na “Ilíada” e encontraram 172 delas. Em seguida analisaram suas mudanças.

Eles tomaram a língua dos Hititas, um povo que existiu durante a época da guerra que pode ter sido travada, e a Grécia moderna, e rastrearam as mudanças nas palavras do Hitita para o Homérico e em seguida para o grego moderno. É precisamente assim que se mede a história genética de humanos, tomando a origem e verificando as alterações no genoma e a época em que ocorreram ao longo do tempo.

Eles observaram cognatos, por exemplo, palavras derivadas de palavras ancestrais. Existe “water’ em inglês, “wasser” em alemão, “vatten” em sueco, todos cognatos emanando de “wator” em proto-germânico. Noentanto, a palavra “hund” do Inglês Arcaico [Old English] acabou se tornando “hound”, mas foi eventualmente substituída por “dog”, que não é um cognato. 

“Eu sou um teórico evolutivo”, observou Pagel. “Eu estudo linguagens porque elas são um incrível replicador transmitido culturalmente. Ela se replica com uma fidelidade que é simplesmente impressionante”.

Documentando a regularidade de mutações linguísticas, Pagel e os outros conseguiram uma linha do tempo para a história de Helena e dos homens que morreram por ela – a genética se encontra com os clássicos.
Scientific American Brasil

sábado, 9 de março de 2013

Estudo relaciona crise na Síria com queda de império ancestral

Violência, isolamento e vulnerabilidade da agricultura reeditam fim do império Acádio

Kamira/Shutterstock

Antigo relevo de guerreiros assírios lutando na guerra com arcos, flechas e lanças


  Moheb Costandi e revista Nature

A atual crise na Síria tem paralelo em eventos que precederam a queda do império Acádio, na Mesopotâmia, há mais de quatro mil anos, de acordo com uma pesquisa publicada recentemente no Journal of Archaeological Science.

O império Acádio floresceu no terceiro milênio a.C. Por volta do ano 2200 a.C., a seca chegou, as terras secaram, e pessoas migraram de centros urbanos. Em seguida o governo colapsou, e o poderoso império começou a esmorecer em uma série de calamidades chamadas coletivamente de crise urbana do terceiro milênio da Mesopotâmia.

Até agora nossa compreensão da crise urbana da Mesopotâmia se baseava em estudos arqueológicos de artefatos de cerâmica e mudanças no tamanho de sítios arqueológicos junto com o que sabemos sobre práticas de cultivo populares à época.

Mas em vez disso o arqueólogo Ellery Frahm, da University of Sheffield, no Reino Unido, e seus colegas, usaram técnicas geoquímicas e análises magnéticas de rochas para examinar o comércio e as redes sociais associadas a ele.

Os pesquisadores usaram microcopia eletrônica e análises químicas para examinar 97 ferramentas de obsidiana escavadas anteriormente de um sítio chamado Tell Mozan, datando do início do império Acádio até vários séculos após seu desaparecimento. Localizado no sopé das Montanhas Tauras no nordeste da Síria, o sítio era conhecido como Urkesh na antiguidade, e era densamente povoado no auge do império Acádio.

As ferramentas com datas anteriores a 2200 a.C. eram feitas de rocha obsidiana originalmente coletada de seis sítios na Anatólia Oriental. Essa variedade sugere que Urkesh era uma cidade cosmopolita com redes de comércio complexas, de longa distância, que a ligavam com civilizações no Egeu e no Eufrates médio.

As ferramentas com datas posteriores a 2200 a.C., porém, vinham de apenas duas fontes locais, sugerindo que o colapso ocorrido no final do terceiro milênio destruiu essas ligações comerciais.

“Urkesh pode ter especializado sua economia em resposta à demanda por certas commodities, como metais de montanhas próximas”, observa Frahm. “Com mudanças climáticas e o fim do império, os habitantes podem ter tido que reconcentrar sua economia na produção e consumo locais, atendendo suas próprias necessidades em vez de se engajarem em negociações de longa distância”.

Alguns paralelos podem ser traçados com a situação atual da Síria. “Alguns arqueólogos argumentam que o Império Acádio foi derrubado pelo militarismo e que a violência pôs fim a seu papel econômico central na região, e um colapso governamental é uma possibilidade real na Síria depois de quase dois anos de lutas”, adiciona Frahm.

Além disso, a agricultura contemporânea no nordeste da Síria depende muito da chuva, assim como acontecia no império Acádio, e a mudança climática já está custando caro com várias secas severas.

“Pesquisadores que estudam pessoas e o passado estão em uma posição única para considerar o que poderia acontecer após o fim da crise imediata”, aponta Frahm. “O que acontece com cidades quando um estado cai? Como os moradores se sustentam se essa infraestrutura colapsar? Esse é o tipo de contribuição que a arqueologia pode fazer para melhorar o futuro”.

Este artigo foi reproduzido com permissão de Nature Middle East. O artigo foi publicado pela primeira vez em 18 de fevereiro de 2013.
Scientific American Brasil

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O que foi o Império Mongol?



Eliza Kobayashi


O Império Mongol é considerado um dos maiores da história em extensão contínua de terras: chegou a abranger desde a fronteira oeste da Alemanha até a Península Coreana, e desde o Oceano Ártico até a Turquia e o Golfo Pérsico, dominando cerca de um terço da população total do planeta na época. Ele teve início em 1206, quando um guerreiro chamado Temujin foi proclamado Gengis Khan, o soberano supremo da Mongólia. Utilizando-se de estratégias de guerra e política, o líder foi o responsável pela unificação das numerosas tribos nômades que habitavam a região e se assemelhavam pelos costumes e pela língua. "Ele formou uma aliança entre poderio militar e rigorosa legislação", conta André Wagner Rodrigues, professor de História Antiga e Medieval do curso de Licenciatura em História da Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban). "Era necessário que o exército, espinha dorsal de seu império, nascido graças a lutas contínuas e voltado para conquistas, fosse um instrumento capaz de resistir a tentativas de envolvimento das antigas dinastias tribais. Por isso, suas regras impostas eram profundamente conservadoras", completa o professor. Para se ter uma ideia, a lei criada por Gengis Khan, denominada Iassa, dizia que "aqueles que não a obedecessem perderiam a cabeça", e afirmava que "a maior felicidade para um mongol é vencer o inimigo, roubar seus tesouros, matar seus servos, escapar (dos perigos futuros) no galope de seus cavalos bem nutridos e servir-se do ventre de suas mulheres e filhas".
Após a unificação da Mongólia, o primeiro alvo de Gengis Khan foi a China. Munido de um exército hábil, organizado e disciplinado, atravessou a Grande Muralha e rendeu Pequim em 1215. Entre 1221 e 1225, em incessantes campanhas, os mongóis avançaram sobre os estados muçulmanos e se tornaram donos de um império que se estendia até o Golfo Pérsico. Mesmo depois da morte do líder, em 1227, as conquistas prosseguiram com seus sucessores, que continuaram expandindo o território pela Ásia muçulmana e pela Europa cristã. Os principados russos foram aniquilados em 1238 e a cidade de Kiev foi rendida em 1240. No mesmo ano, houve ataques à Polônia e à Hungria. As tropas também derrubaram Bagdá, em 1258. Até o final do século 13, os avanços prosseguiram principalmente pela China e pelo sudeste asiático.
Apesar de tantas e rápidas conquistas, o império não conseguiu manter uma unidade, acabou dividido em reinos e chegou ao fim em 1368, com a expulsão dos descendentes de Gengis Khan da China. "Os mongóis eram poucos para manter os territórios conquistados. Sua força residia no terror, que paralisava a resistência das populações. Já contra os métodos 'civilizados' de governo, os povos dominados puderam se levantar", explica o professor André. Hoje, a Mongólia ocupa uma área total de pouco mais de 1,5 milhão de quilômetros quadrados e sua população não chega a 3 milhões de pessoas. "Ali se encontram ainda resquícios da vida dos antepassados nômades e os descendentes dos guerreiros ainda seguem criando seus rebanhos e dedicando-se ao tiro de arco e às lutas esportivas", descreve o historiador. Em relação ao legado para o mundo dos tempos de império, ele destaca a rota da seda. "As grandes rotas de comércio asiáticas da antiguidade puderam ser restauradas, dentre elas, a maior e mais famosa era a Estrada da Seda, que ligava a China ao Mar Mediterrâneo, sendo importante para o renascimento comercial da Europa".
Revista Nova Escola

terça-feira, 31 de julho de 2012

Igreja e Império Romano


entre Igreja e Império Romano
Historiador entende que a aproximação
entre as partes se deu fundamentalmente
por iniciativa de clérigos

Em dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o historiador Robson Murilo Della Torre propõe uma nova leitura dos documentos que tratam da relação entre Igreja e Império Romano durante o principado de Constantino (início do século IV), o primeiro imperador a se declarar publicamente cristão. Ao contrário do que frequentemente registram os pesquisadores do tema, o autor do trabalho considera que a aproximação entre as partes teria se dado muito mais pela ação dos bispos, preocupados em defender e ampliar direitos e benefícios das comunidades cristãs, do que pela iniciativa da corte imperial, eventualmente interessada em obter vantagens com a possível submissão dos fiéis às suas políticas. O trabalho foi orientado pela professora Neri de Barros Almeida.
Della Torre conta que começou a trabalhar com a temática ainda na iniciação científica. Na graduação, durante a leitura dos documentos, um aspecto chamou a atenção dele. Vários autores partiam da concepção de que o Império teria cooptado a Igreja, para que esta lhe servisse de instrumento ideológico. “A partir do contato com esses textos, considerei que a relação entre Império e Igreja merecia ser analisada não tanto a partir dos interesses da corte, mas sim dos clérigos. Temos vários indícios na documentação, principalmente nos escritos do bispo palestino Eusébio de Cesaréia, nos quais meu trabalho se baseou, de que os representantes da Igreja se dirigiam com certa frequência ao imperador para pedir a concessão de benefícios ou a ratificação de direitos ancestrais da Igreja, que não estavam consolidados no direito romano”, afirma.
Entre os benefícios pleiteados pelos religiosos estavam, por exemplo, a obtenção de isenções fiscais, de privilégios jurídicos e de recursos financeiros para a construção de templos. “Esse tipo de relação, vale registrar, antecede Constantino. Já é possível identificar o movimento de aproximação entre Igreja e Império desde meados do século III. Em 270, por exemplo, um bispo pediu ao imperador Aureliano que este revertesse a decisão conciliar que o havia afastado da igreja de Antioquia, no que foi atendido. O dado interessante é que o referido imperador, além de pagão, determinou mais tarde uma perseguição aos cristãos, que acabou fracassada, uma vez que ele morreu antes do início das ações”, relata.
O principado de Constantino, conforme o autor da dissertação, é emblemático no que se refere à análise da relação entre Igreja e Império justamente porque o imperador foi o primeiro a se declarar cristão. “Durante o período em que ele esteve no poder, porém, não ocorreu uma ruptura com um suposto passado idílico no qual os cristãos teriam rejeitado todo e qualquer contato com os poderes constituídos, mas sim o ápice de um processo que já vinha em curso, principalmente por iniciativa clerical”, defende Della Torre. Com Constantino, prossegue o historiador, ocorre uma maior abertura aos cristãos. Cria-se, por exemplo, um novo corpus legislativo para tratar de ações da Igreja. “É importante notar que essa abertura seria em vão se não houvesse o interesse da Igreja em participar e se não houvesse esse histórico de busca pelo poder imperial para defender seus interesses”, insiste.
De acordo com Della Torre, Constantino também foi o primeiro imperador a isentar os clérigos de obrigações civis, como prestar serviços públicos. A justificativa apresentada por ele era de que os religiosos não precisavam deixar suas obrigações com Deus para cumprir tais tarefas. A despeito de as comunidades cristãs terem conquistado inúmeras vantagens junto ao poder imperial no período considerado, a relação entre as instituições nem sempre era tranquila, como assinala o autor da dissertação. No final do século IV e início do V, a negociação entre as partes, dependendo do tema em questão, era bastante espinhosa. Um exemplo nesse sentido era confisco dos templos pagãos, que em alguns casos eram revertidos para a Igreja. “O Império tinha dificuldade de atender a esse tipo de interesse dos clérigos porque os pagãos eram súditos como quaisquer outros. Eles pagavam seus impostos e não ofereciam problema ao poder constituído. No começo do século V, o imperador Arcádio se negou a atender esse tipo de pedido, justificando que a medida poderia gerar tumulto, uma vez que os pagãos cumpriram seus deveres normalmente”, explica Della Torre.
Ainda segundo a leitura proposta pelo pesquisador, embora a aproximação entre Igreja e Império tenha se dado fundamentalmente por iniciativa da primeira, o segundo também auferia vantagens com essa relação. A principal delas, no entender de Della Torre, era o fato de os clérigos não provocarem tumulto, dado que tinham poder para isso. “Na época, não era raro as facções eclesiásticas digladiarem entre si, o que perturbava a ordem pública. Há um episódio ocorrido em Roma, em 366, no qual dois candidatos ao episcopado se enfrentaram no interior de uma igreja. Segundo os relatos de um autor pagão, o resultado do confronto foi a morte de 3mil pessoas. Ou seja, o Império tinha todo o interesse de que esses acontecimentos não se repetissem. Em outras palavras, o poder imperial esperava que a Igreja adotasse uma posição conciliadora e não trouxesse problemas”.
Na opinião de Della Torre, ao lançar o olhar para os acontecimentos do século IV, é possível compreender melhor as questões de hoje. “Penso que um ponto importante do trabalho é justamente pensar como as igrejas já lidaram de modo diferente com o poder secular. Atualmente, a relação das igrejas com as diferentes esferas de governo se dá de forma direta, entre bispos, padres e pastores e as autoridades constituídas. Há uma defesa de interesses muito particular. Eu não vejo, como ocorria no século IV, as igrejas mobilizando fiéis para fazer valer os interesses da comunidade. Exceto no caso da última eleição presidencial, em que o tema do aborto deu o tom dos debates e obrigou as igrejas a se manifestarem publicamente a respeito, a relação entre as partes se dá de modo mais restrito”, considera. De certa forma, continua o historiador, esse novo modelo de relacionamento advém do movimento reformista cristão, que estabeleceu uma clara divisão entre Igreja e Estado, o que não havia no século IV.
A pesquisa desenvolvida por Della Torre, como já mencionado, foi baseada fundamentalmente nas obras de Eusébio de Cesaréia, que produziu vários textos sobre o imperador Constantino. “Tentei relacionar essas obras com a produção literária mais ampla de Eusébio. Além disso, também usei documentos que me permitissem confrontar ou ampliar o que ele registrou, como os escritos de historiadores eclesiásticos do século V. Por fim, utilizei ainda tratados teológicos e textos de autores pagãos, bem como breviários dos século IV”, elenca o autor da dissertação.
O trabalho acadêmico, assinala Della Torre, está vinculado ao grupo de pesquisa do Laboratório de Estudos Medievais (Leme), que envolve, além da Unicamp, USP, Unifesp e UFMG. “A atuação do grupo é muito importante porque congrega outros estudos relativos a essa temática. Tenho colegas pensando a relação entre Igreja e Império a partir de outras perspectivas”, observa o historiador, que contou com bolsas concedidas em períodos distintos pelo Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
.............................................................
■ Publicações
Dissertação: “A atuação pública dos bispos no principado de Constantino: as transformações ocorridas no Império e na Igreja no início do século IV através dos textos de Eusébio de Cesaréia”
Autor: Robson Murilo Della Torre
Orientadora: Neri de Barros Almeida
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: CNPq e Fapesp
Jornal UNICAMP

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Os enigmáticos etruscos

Pouco se sabe sobre esses antigos toscanos, que deixaram um rico legado cultural. Descobertas recentes trouxeram novas informações, mas não a ponto de identificar sua origem ou de decifrar totalmente sua escrita
 
Museu Hermitage, São Peterburgo/erich lessing/album/latinstock
Cabeças votivas em terracota, autor desconhecido século VI ou V a.C.
Os etruscos têm muitos atributos: dominavam a arte de decorar tumbas e tinham escrita.Durante séculos, a civilização que criaram foi comparada à egípcia. Depois, um manto de fantasia recaiu sobre ela: teria sido anterior e, definitivamente, precursora da grega. Hoje, apesar de indicações relacionadas a uma parte da mitologia e do alfabeto aparentemente comum entre os povos; a tal primazia etrusca sobre a esplendorosa Grécia antiga já não é mais tão aceita, mas há muitos mistérios para a ciência resolver antes de um veredicto final.

Numerosas descobertas recentes, em especial na Etrúria, região central da península Itálica, mas também fora dela, fizeram avançar os conhecimentos sobre esses antigos toscanos. A Etrúria nunca formou uma só nação, com um poder centralizado.

Não se deve compará-la ao Império Romano nem ao Estado moderno. Aqui começa a identidade com os gregos: tratava-se de um conglomerado de cidades autônomas, com territórios e capitais definidos.

Os autores antigos – gregos e romanos – diziam unanimemente que os etruscos formavam uma liga de 12 cidades, a dodecápolis, mas jamais mencionaram a lista inteira de localidades. A arqueologia e as fontes literárias indicaram que, no apogeu dessa civilização (século VI a.C.), havia as cidades de Tarquínia e Veio, consideradas as mais brilhantes e opulentas.

Alguns séculos depois, há registros das capitais de Arezzo, Cortona, Perugia e Volsini (atual Orvieto). Características das necrópoles e riquezas de mobiliário funerários, além do número e das dimensões de templos, levaram a incluir na dodecápolis cidades como Cere (hoje Cerveteri), Vulci, Vetulonia, Volterra e Chiusi. Por essa conta, ainda falta uma.

As escavações realizadas há alguns anos em Pisa trouxeram à luz o rico passado etrusco desse porto fluvial, e a localidade passou a ser candidata séria ao posto. Mas um grande porto como Populonia, capital do ferro etrusco, podia facilmente entrar na liga, sem esquecer uma cidade como Rosella e outras. Como se pode notar, o problema é o excesso, e não a falta de candidatas.
Tumba dos demônios azuis, Necrópole dos Monterozzi, Tarquínia
Afresco, autor desconhecido, 330-320 a.C.


Essa liga de 12 cidades não foi nada eficaz nos planos político e militar. Isso fica evidente no fracasso dos pedidos de socorro de Veio, quando atacada por Roma no século V a.C.: a desunião facilitou enormemente a conquista romana da Etrúria. A fragilidade na união militar não impediu um forte elo religioso entre os etruscos de todas as regiões, simbolizado por um sacerdos, um grande sacerdote que presidia as cerimônias anuais no principal templo do deus supremo desse povo, Voltumna (ou Veltha). Seu santuário ainda não foi localizado, mas pode se encontrar perto do rochedo de Orvieto. Escavações atuais podem trazer à luz esse sítio, às vezes comparado em importância ao de Delfos na Antiguidade.

Um dos traços desse povo é a beleza artística e o grande número de afrescos funerários. Ao contrário dos gregos, cujas obras das épocas arcaica e clássica desapareceram, os etruscos tiveram a feliz ideia de decorar seus hipogeus, que são tumbas subterrâneas. Essa condição protegeu a arte, hoje exposta em condições especiais na Tarquínia, por exemplo, no museu ou no próprio sítio arqueológico da antiga necrópole de Monterozzi.

Em 1985, também na Tarquínia, foi descoberta uma nova sepultura decorada, chamada “tumba dos demônios azuis” em razão da presença, em suas paredes, dedivindades infernais com a pele pintada de azul. Uma parte dos motivos mostra o barqueiro grego, que atravessa os infernos, e o equivalente a Caronte, em seu barco; ou uma morta, que vai partir em uma viagem marítima, acolhida por seus parentes falecidos.

Por falta de textos etruscos, as interpretações devem parar por aqui. Note-se, contudo, que essa tumba é do fim do século V a.C., e os demônios que acompanhavam os mortos não apareciam na iconografia antes da época helenística. A presença deles parece ser mais antiga do que se imaginava.

No território de Chiusi, uma das cidades da dodecápolis, a oeste do lago Trasimeno, há uma necrópole na bela cidade toscana de Sarteano. Ali se encontrou, em 2003, a tumba da quadriga infernal – carro conduzido por quatro animais. Penetrando no túmulo, é possível ver o desenho da carruagem atrelada a dois leões e dois hipogrifos (animal mitológico representado com corpo de leão, asas, garras e cabeça de águia). Os animais são conduzidos por um cocheiro de cabelos ruivos e olhos que saem das órbitas, cujo rosto foi recortado sobre uma nuvem negra evocando o mundo dos infernos. A arqueóloga Alessandra Minetti, descobridora da tumba, estima que se trate de um novo avatar de Caronte.

Tumba da Quadriga Infernal, Sarteano
O carro conduzido por dois leões e dois hipogrifos é chamado de "quadriga infernal". O cocheiro seria um novo avatar de Caronte, o barqueiro
[continuação]

Em 2006, a cidade mais próxima de Roma, Veio, revelou a tumba pintada que é a mais antiga até hoje conhecida na Etrúria.

Batizada de “tumba dos leões rugidores”, em razão da presença de quatro leões com bocas impressionantes, remonta ao começo do século VII a.C. Há uma série de pássaros pintados em vermelho e preto, com a mesma técnica usada na cerâmica geométrica grega tardia. Segundo Francesca Boitani, diretora do museu de Villa Giulia, em Roma, os aterradores leões evocam a morte, e as aves, a viagem aos infernos.

Também não se podem desprezar os resultados das escavações realizadas em Verucchio, perto de Rimini. No sítio, ligado à Rota do Âmbar, tumbas principescas revelaram um rico e conservado mobiliário de madeira, com alguns tronos. Em Casale Marittimo, perto de Volterra, estátuas de pedra do começo do século VII a.C. foram desenterradas, uma produção artística pouco comum na Etrúria até aquela época.

As escavações nas casas dos vivos se tornou hoje prioritária nas grandes cidades como Marsiliana d'Albegna e, principalmente, na Tarquínia, cidade cujas origens remontam ao século IX a.C. Além disso, um novo templo dedicado a Tin, outro importante deus etrusco, foi descoberto em Marzabotto, nas imediações de Bolonha. Lá se decifrou a inscrição Kainua, que deve ser o nome etrusco da cidade, algo até então ignorado.

A arqueologia submarina também trouxe seu quinhão de revelações, pois a exploração de navios naufragados é fundamental para a história econômica e o conhecimento das trocas comerciais. Em 1999, pesquisadores identificaram um navio afundado ao largo da cidade de Hyères, no sul da França. A embarcação era um grande cargueiro e transportava, perto do ano 500 a.C., mil ânforas cheias de vinho produzido na região de Cere-Cerveteri. Sem dúvida, a carga seria entregue no porto de Lattes, próximo da atual Montpellier, já que a Gália meridional consumia vinho etrusco havia mais de um século.

Talvez fosse um navio etrusco implicado em uma forma de comércio direto entre a Etrúria e a Gália meridional, mas tratava-se de modo pouco habitual para o período, pois mais comum era o sistema de cabotagem – de porto em porto, com cargas e descargas frequentes, ao longo da costa do Mediterrâneo.

ORIGENS
Quanto às raízes dos etruscos, o mistério é enorme. Teriam eles vindo da Ásia Menor, como afirmou o historiador grego Heródoto (século V a.C.) ou seriam nativos do lugar, um povo autóctone, segundo a tese defendida pelo também historiador grego Dionísio (ou Denis) de Halicarnasso, posteriormente, no século I a.C.?

Heródoto afirmou que os etruscos eram originários da Lídia, na atual Turquia. Teriam chegado à Itália no século XIII a.C. A hipótese é compatível com a que associa os etruscos aos povos do mar. Os egípcios mencio navam os etruscos com o nome de turshu. Os latinos, os chamavam de tusci. Os gregos, de tyrrhenioi.

O mais provável é que tenham se instalado na região, que já possuía uma população local, entre os séculos VIII e VII a.C., atraídos pelas jazidas metálicas da Toscana. Eles fundaram ou controlaram Bolonha, Mântua, Pesaro, Rimini, Cápua, Pompeia e até mesmo Roma, cujos três últimos reis antes da República, entre 616 e 509 a.C.,
foram etruscos.

Talvez a análise do DNA das populações da Toscana traga luzes sobre essa eterna questão. Os primeiros resultados pendem para uma origem oriental. Mas não é de desprezar o comentário do historiador francês Jules Martha, em 1889: “Podemos nos perguntar se o termo 'etruscos' corresponde a uma entidade etnográfica bem definida ou se, por acaso, não seria uma expressão política que designaria um povo misto, resultado da mistura de várias raças, como, por exemplo, os franceses, austríacos, ingleses, americanos”.

Nem grego nem latim
Museu Dell´Accademia Etrusca, Cortona
Tabuleta de Cortona revela a escrita etrusca. A inscrição de autor desconhecido, foi feita sobre bronze por volta de 200 a.C.
Em relação à língua etrusca, há muito a ser descoberto, embora os poucos textos sejam hoje decifrados com mais facilidade – ao menos quando colocados em seu contexto. Geralmente as palavras são grafadas da direita para a esquerda, com um alfabeto assemelhado ao grego. Mas o etrusco definitivamente não pertence ao grupo de línguas indo-europeias, mesmo que tome de empréstimo elementos do grego e das línguas itálicas.

Simplesmente não se pode aproximar o etrusco de outra língua. Por isso, uma escritura descoberta em 1992, em Cortona, na Itália, tem grande interesse. Surgida em condições rocambolescas e certamente depois de escavações clandestinas, a tabuleta de Cortona é uma placa de bronze de aproximadamente 45 cm por 30 cm, com inscrições que cobrem totalmente uma face e a parte superior do verso. Deve datar de cerca de 200 a.C.

Com 206 palavras, mais da metade nomes próprios e sinais de pontuação, a tabuleta contém o terceiro texto etrusco conhecido em número de linhas. Como faltam escritos longos, com um vocabulário rico que permita avanços no conhecimento do etrusco, a descoberta é das mais celebradas.

Tudo indica tratar-se de um documento jurídico, um contrato sobre a venda de terras, onde existiam uma vinha e um olival situado perto do lago Trasimeno. Daí as listas de nomes próprios que provavelmente representam os vendedores, os compradores, as testemunhas e os fiadores daquela transação.

Aparece ainda na inscrição a expressão cen zic zichuche, que se traduz por “este texto foi escrito”, uma fórmula esperada em atas de tipo notarial. Há a qualidade de um magistrado que é zilath mechl rasnal, que significa “pretor da liga etrusca”, ou como alguns hoje acreditam, pretor da cidade de Cortona – talvez o prefeito da cidade. Constata-se que, como na Roma dos cônsules, a datação é indicada pelo nome de dois magistrados que estavam no cargo naquele ano.

A tradução hoje aceita dessas e de outras passagens está longe de indicar que o problema da língua esteja resolvido. Alguns especialistas de peso contestam a interpretação e veem na tabuleta de Cortona um texto religioso, que descreveria os ritos praticados por uma confraria. Uma hipótese errada para a maioria dos pesquisadores, mas...

Revista História Viva

sábado, 17 de março de 2012

Catilinárias de Cícero – Oração I

Catilinárias de Cícero – Oração I
Índice
ORAÇÃO I DE M. T. CÍCERO CONTRA L. CATILINA Exórdio. Poderes dos cônsules.Planos da conspiração. Catilina tentou matar Cícero.Catilina deve sair da cidade.Os bons romanos odeiam Catilina. A cidade exige a expulsão de Catilina. O Senado e Catilina.Cícero prevê os ódios contra si. Catilina que vá junto dos seus amigos.Cícero não teme o ódio ou os perigos e cuida da salvação da pátria.Os motivos pelos quais Cícero não reputa acertada a condenação à morte de Catilina. Peroração. Invocação a Júpiter.ORAÇÃO I DE M. T. CÍCERO CONTRA L. CATILINA
Esta oração, pronunciada no dia 8 de novembro do ano 63 c C, é talvez a mais conhecida entre as orações de Cícero.

Cícero investe violentamente contra Catilina, que teve a ousadia de apresentar-se no Senado, embora todos saibam que um exército de revolucionários o espera na Etrúria, chefiado por Mânlio. Catilina mereceria a morte; porém Cícero não pede ao Senado que o processe. Roma pode ter a certeza que ele, Cícero, com a sua solêrcia, garantirá a liberdade do povo romano. Catilina, porém, deixe a cidade. Roma não quer mais saber dele, pois as suas culpas e torpezas são bem conhecidas. Deixe a cidade e, se quer, se junte aos seus companheiros, bem dignos dele, que o esperam para marchar contra Roma. Cícero não o teme, pois, com a ajuda de Júpiter Stator, o exterminará e, com ele a todos os inimigos da República.

Exórdio.
ATÉ quando, Catilina, abusarás de nossa paciência? quanto zombará de nós ainda esse teu atrevimento? onde vai dar tua desenfreada insolência? É possível que nenhum abalo te façam nem as sentinelas noturnas do Palatino, nem as vigias da cidade, nem o temor do povo, nem a uniformidade de todos os bens, nem este seguríssimo lugar do Senado, nem a presença e semblante dos que aqui estão? Não pressentes manifestos teus conselhos? não vês a todos inteirados da tua já reprimida conjuração? Julgas que algum de nós ignora o que obraste na noite próxima e na antecedente, onde estiveste, a quem convocaste, que resolução tomaste?

Oh tempos! oh costumes! Percebe estas coisas o Senado, o cônsul as vê, e ainda assim vive semelhante homem! Que digo, vive? antes vem ao Senado, é participante do conselho público, assinala e designa com os olhos, para a morte, a cada um de nós. E nós, homens de valor, nos parece ter satisfeito à República, evitando as suas armas e a sua insolência. Muito tempo há, Catilina, que tu devias ser morto por ordem de cônsul, e cair sobre ti a ruína que há tanto maquinas contra todos nós.

Porventura o insigne P. Cipião, Pontífice Máximo, não matou a Tibério Graco, por deteriorar um pouco o estado da República? e nós devemos sofrer a Catilina, que com mortes e incêndios quer assolar o mundo? Passo em silêncio aqueles antiquíssimos exemplos, de quando C. Servílio Ahala matou com sua própria mão a Spúrio Melo, que procurava introduzir novidade. Houve antigamente na República esta fortaleza de reprimirem homens de valor com os mais severos castigos seja ao cidadão pernicioso que ao cruelíssimo inimigo. Temos contra ti, Catilina, decreto do Senado veemente e severo; não falta conselho à República; nós, abertamento o digo, nós somos os que faltamos.

Poderes dos cônsules.
2. Decretou antigamente o Senado que Lúcio Opímio atendesse a que a República não recebesse algum detrimento; não se meteu uma só noite em meio que não fossem mortos C. Graco, de pai avô e antepassados nobilíssimos, e M. Fúlvio, consular, com seus filhos. Com semelhante decreto do Senado se entregou a República aos cônsules Caio Mário e Lúcio Valério; porventura tardou a República um só dia com a morte e suplício a Lúcio Saturnino, tribuno do povo, e a Caio Servílio, pretor? Mas nós há já vinte dias que consentimos se embotem os fios desta autoridade; temos o mesmo decreto do Senado, metido nas tábuas, como espada na bainha; segundo esta deliberação do Senado, Catilina, devias logo ser morto. Mas vives, e vives não para ceder, mas para te confirmar no teu atrevimento. Desejo, Padres Conscritos, ser clemente para convosco; desejo não ser cobarde em tamanhos perigos da República, mas a mim mesmo me condeno de inerte e culpado.

Há tropas na Itália contra a República, assentadas na garganta da Etrúria; cresce cada dia o número dos inimigos, mas o seu capataz e general o estamos vendo dentro de nossos muros, maquinando sempre a ruína da República. Se agora te mandasse prender, se te mandasse matar, mais receio que todos os bons dissessem que o fizera tarde, de que alguém que obrara cruelmente. Mas por certa causa não estou ainda resoluto a executar o que há muito devia ter feito. Matar-te-hei finalmente então, quando ninguém houver tão malvado, tão perdido, tão teu semelhante, que não confesse que isto se obrou com razão.

Enquanto houver quem se atreva a defe?i-der-te, viverás, e viverás como agora vives, cercado de muitas minhas fortes guardas, para que não te possa levantar contra a República; também os olhos e ouvidos de muitos, sem tu o sentires, te espreitarão, e guardarão como até agora o fizeram.


Planos da conspiração.
3. Portanto, Catilina, que podes mais esperar, se nem a noite com as suas trevas pode encobrir teus iníques congressos, nem a casa mais retirada conter com suas paredes a voz da tua conjuração? Se tudo se faz manifesto, se tudo sai a público? Crê-me o que te digo: muda de projeto, esquece-te de mortandades e incêndios; por qualquer parte te haveremos às mãos. Todos teus desígnios são para nós mais claros que a luz, o que bem é reconheças comigo. Não te lembras do que eu disse no Senado em 21 de Outubro, que Mânlio, ministro e sócio das tuas maldades, havia de estar armado em certo dia, o qual dia havia de ser o 26 de Outubro? Escapou-me, pois, Catilina, não só uma coisa tão horrível, mas nem ainda o dia? Eu mesmo disse que tu deputaras o dia 28 de Outubro para mortandade dos nobres; e então foi quando muitas das pessoas principais da cidade fugiram de Roma, não tanto por se salvarem, como por atalharem teus intentos. Poderás porventura negar-me que naquele próprio dia, por estares rodeado de minhas guardas e das minhas diligências, te não pudeste mover contra a República, quando, retirando-se os mais disseste que te contentavas com a minha morte? E quando esperavas tomar a Preneste por assalto de noite ao primeiro de Novembro, não achaste aquela colónia municionada por minha ordem, e com meus presídios, guardar e sentinelas? Nada obras, nada maquinas, nada cogitas que eu não só não ouça, mas veja e penetre claramente.

Catilina tentou matar Cícero.
4. Recorda-te enfim comigo desta última noite, e conhecerás que com maior cuidado velo eu para o bem da República do que tu para a sua destruição. Digo, pois, que foste na primeira noite pelos Falcá-rios para casa de Marco Leca (hei-de falar claro) onde concorreram muitos sócios da mesma loucura e perversidade; atrever-te-ás porventura a negá-lo? porque te calas? se ò negares convencer-te-ei; pois aqui estou vendo no Senado alguns que estiveram contigo. Deuses imortais! onde estamos? que República temos? em que cidade vivemos? Aqui, aqui, Padres Conscritos, entre nós, neste gravíssimo e santíssimo Conselho do Mundo, estão os que meditam a minha ruína, a de todos nós, a desta cidade e do universo. Eu cônsul, os estou vendo, e lhes peço parecer; e a quem com ferro devia acabar, nem siquer molesto com a voz. Estiveste pois, Catilina, naquela noite em casa de Leca; repartiste as regiões da Itália, determinaste para onde querias que cada um fosse, elegeste os que deixarias em Roma e os que levarias contigo; designaste os bairros da cidade para os incêndios, afirmaste que brevemente sairias de Roma, disseste que ainda demorarias um pouco, por estar eu ainda em vida; achaste dois cavaleiros romanos que te livraram deste cuidado, e te prometeram que pouco antes de amanhecer me matariam em meu mesmo leito. Tudo isto soube eu, apenas acabado o vosso congresso; fortifiquei e municionei minha casa com maiores guardas; não recebi os que pela manhã mandaste a saudar-me, vindo os mesmos, que eu tinha predito a pessoas de muito crédito que haviam de vir buscar-me naquele tempo.

Catilina deve sair da cidade.
5. Sendo tudo isto assim, Catilina, prossegue o que principiaste, vai-te enfim da cidade, abertas estão as portas, anda; há muito tempo te desejam por general aqueles teus acampamentos de Mânlio; leva contigo todos os teus, ou ao menos muitos deles, limpa esta cidade; já não podemos viver mais contigo, nem eu o posso sofrer, tolerar, consentir. Infinitas graças devo dar aos deuses imortais, e a esse mesmo Júpiter Stator, antiquíssimo protector desta cidade, de ter tantas vezes escapado a esta tão horrível torpe e prejudicial peste da República. Não convém que por causa de um homem perigue muitas vezes a República. Enquanto me armaste traições, Catilina, sendo eu cônsul designado, não me defendi com guardas públicas, mas com diligências particulares; quando nos próximos comícios consulares me quiseste matar, reprimi teus perversos intentos com o socorro dos amigos e soldados, sem tumulto algum; enfim todas as vezes que me acometeste, pessoalmente te resisti, posto que visse andar a minha ruína emparelhada com grande calamidade da República; agora já acometeste abertamente toda a República, os tempos dos deuses eternos, as casas de Roma, as vidas dos cidadãos, e em uma palavra, tocas a arruinar e destruir toda a [tália. Mas como não me resolvo ainda a pôr emobra o principal e próprio deste Império, executarei o que é de menor severidade e para o bem público mais proveitoso, pois se te mandar matar, ficará na República o demais esquadrão de conjurados. Se saíres (como te persuado há muito), ficará a República limpa desta enorme sentina de teus sócios. E duvida porventura, Catilina, mandando eu fazer o que já executavas de tua livre vontade? Manda o cônsul sair da cidade o inimigo. Perguntas-me se porventura para o desterro? não te mando; mas se me consultas, aconselho-te.

Os bons romanos odeiam Catilina.
6. Que coisa há ainda nesta cidade que te possa dar gosto, pois ninguém há que não te tema? fora desta conjuração de gente estragada, ninguém há que não te aborreça. Que nodóa de torpeza doméstica se não tem lançado na tua vida? que infâmia em matérias particulares se não tem amontoado sobre aqueles labéus? que lascívia de olhos, que atrocidade de mãos, que perversidade deixou jamais de haver em todo teu corpo? que mancebo houve, a quem não enredasses com atrativos viciosos, e a quem não conduzisses ou para insolências com armas, ou para dissoluções com incentivos? E que é o que há pouco obraste, quado com a morte da tua primeira mulher despojaste a casa para novas bodas? não acumulaste sobre esse delito outra incrível maldade? o que eu passo em claro, e de boa mente sofro se cale, para que não conste que existiu nesta cidade, ou se deixou sem castigo tão enorme crime. Passo em silêncio a perdição dos teus bens, que sabes te está iminente nos próximos Idos. Não falo no tocante às particulares ignomínias de teus vícios, nem na tua doméstica penúria e miséria, mas no que pertence ao governo da República, e à vida e proveito de todos nós. Pode porventura, Catilina, agradar-te a luz desta cidade, ou este ar que respiramos, sabendo que nenhum dos circunstantes ignora que no último de Dezembro, sendo cônsules Lépido e Fúlvio, estiveste armado no comício do povo? que ordenaste uma esquadra para matares os cônsules e pessoas principais da cidade? que não foi razão alguma ou temor que tivesses, mas a fortuna da República a que conteve a tua protérvia e desaforo? Mas deixo já isto que nem é ignorado, nem há muito cometido. Quantas vezes estando eu já eleito, quantas, sendo já cônsul, me quiseste matar? a quantos golpes, atirados de modo que pareciam ine-/ vitáveis, escapei eu, como lá dizem, com um pequeno desvio do corpo? Nada fazes, nada consegues, nada maquinas, que eu logo não saiba; e nem por isso cessas de levar por diante teus projectos e intentos. Quantas vezes te arrancaram já essa faca das mãos? quantas te caiu por acaso e escorregou? e ainda assim não podes estar muito tempo sem ela; na verdade, não sei a que sacrifícios a consagraste e dedicaste, que: julgas preciso cravá-la no corpo do cônsul. ,

A cidade exige a expulsão de Catilina.
7. E que vida é ao presente essa tua? falarei ra contigo, não como agastado com a ira que devo, mas movido da compaixão que não mereces. Há pouco chegaste ao Senado; em um tão grande congresso, qual de teus amigos e parentes te saudou? não havendo memória que tal jamais sucedesse a ninguém, esperas que te afrontem de palavra, sendo já condenado pelo gravíssimo juizo desta tacidurnidade? Que foi isto que assim que chegaste se evacuaram estas ordens de assentos? que vem a ser que assim que te sentaste, todos os consulares, que designaste para a morte, deixaram devoluta e nua esta parte de assentos? Enfim de que ânimo julgas levar isto? Por certo que se os meus servos me temessem da sorte que a ti temem os teus patrícios, abandonaria sem demora a própria casa; e tu ainda te não resolves a deixar a cidade? Se eu me visse tão gravemente suspeito e ofendido de meus cidadãos, antes quereria carecer da sua presença, que sofrer que com tão maus olhos me vissem todos. E tu, conhecendo pelo próprio remorso de teus delitos esta justa e geral indignação, que há tanto mereces, ainda duvidas retirar-te da vista e presença daqueles que te não podem suportar nem ver? Se teus pais se temessem de ti e te aborrecessem, e os não pudesse sem nenhum modo aplacar, creio te retirararias de seus olhos para outra parte; pois, agora que a pátria, mãe comum de todos nós, te aborrece e teme, não julgando de ti outra coisa senão que meditas o seu parricidio, porque não respeitarás a sua autoridade, seguirás o seu juizo, temerás o seu poder? Ela é a que, como falando contigo, te diz desta sorte: Muitos anos há que não houve maldade que não viesse de ti, nenhum delito sem ti; em ti só não se castigou a morte de muitos cidadãos, as opressões e roubos de nossos aliados. Não só tiveste poder de infrigir as leis e as causas, mas de as abolir. Ainda que tudo isto não se devia tolerar, ainda assim o sofri como pude; mas o estar eu toda em temor unicamente por teu respeito, o temer-se a Catilina com qualquer rumos que haja, o nâo se poder tomar conselho algum contra mim, que não dependa da tua protérvia, não se deve levar à paciência. Portanto, vai-te já daqui, livra-me deste temor, se bem fundado para não estar oprimida, se vão para deixar de temer.

O Senado e Catilina.
8. Se, como disse, a pátria te disesse estas coisas, não mereceria conseguir sua pretensão, ainda que a não pudesse conseguir com força? Por que motivo tu próprio te foste entregar à prisão? Com que fim disseste que, por evitar suspeitas, querias morar em casa de Marco Lépido, do qual não sendo recebido, te atreveste a vir também comigo e pedir-me te recolhesse em minha casa? E recebendo de mim por resposta que em nenhum modo podia estar seguro contigo dentro das mesmas paredes, havendo grande risco ainda dentro dos mesmos muros, buscaste a Quinto Metelo, pretor, do qual repudiado, passaste para casa do teu companheiro, o excelente varão Marco Marcelo, a quem avaliaste de suma diligência para te guardar, de suma sagacidade para vigiar e de sumo valor para te vingar. Mas quão longe deve estar do cárcere e prisão quem se julga a si mesmo digno dela? Sendo isto assim, Catilina, não podendo aqui viver com ânimo socegado, duvidas ir-te para alguma terra e entregar à fugida uma vida salvada de muitos castigos justos e merecidos? Já que assim — dizes tu — propõe isso ao Senado. E se esta ordem resolver que vás para o desterro, prometes obedecer-lhe? Não proporia tal, por desdizer de meus costumes, mas ainda assim o farei, para que saibas o que eles julgam de ti. Sai já de Roma, Catilina, livra de temor a República; se esperas por este preceito, parte já para o desterro. Pois que, Catilina, que atendes? que consideras no silêncio dos circunstantes? Sofrem, calam-se; para que esperas que falem com autoridade aqueles que bem te dão a conhecer a sua vontade calando? Se eu dissesse semelhantes coisas a este óptimo mancebo Públio Séxtio, ou ao meritíssimo Marco Marcelo já o Senado a mim cônsul me faria violência, e com razão me poria as mãos; mas quanto a ti, Catilina, quando se acomodam, aprovam; quando sofrem, determinam; quando calam, clamam; nem só estes, cuja autoridade amas e vidas desprezas, mas também aqueles honradíssimos cavaleiros romanos e os outros cidadãos de valor que rodeiam o Senado, cujo concurso pouco há que pudeste ver, conhecer sua vontade, e ouvir suas palavras, cujas mãos e armas há muito que mal posso conter, que vão sobre ti, fácil me é persuadi-los te acompanhem até as portas, como a quem deixa o que há muito deseja destruir.

Cícero prevê os ódios contra si.
9. Mas para que falo eu? para que te contenhas? para que te emendes? para que cuides em fugir? para que tragas ao pensamento algum desterro? Oxalá te metessem tal na cabeça os deuses imortais! Ainda que vejo que, se aterrado com estas minhas vozes, te resolveres a desterrar-te, quanta tempestade de ódio mio virá sobre mim por causa da fresca memoria das tuas maldades, se não for agora, ao menos para o futuro; mas eu o estimo muito, contanto que a calamidade seja particular e fique salva a República do perigo. Mas não há que pretender te façam abalo teus vícios, que te amedrontem os castigos das leis, que cedas às calamidades da República; nem tu és sujeito de qualidade a quem o pejo desvia da lorpeza, dos perigos o temor, ou da insolência a razão. Portanto, como já disse repetidas vezes, vai-te daqui; e se, como dizes, porque sou teu inimigo me queres exasperar, caminha direito para o desterro; grande tempestade de censuras e malquerenças tenho que sofrer, se por mandado do cônsul fores desterrado; mas eu os sofrerei. Porém se não queres concorrer para o meu crédito e glória, sai com essa enorme quadrilha de perversos; parte para Mânlio, subleva cidadãos perversos, separa-te dos bons, peleja contra a pátria, regozija-te com essa ímpia quadrilha, de modo que não pareça te desterro para os estranhos, mas que os teus te convidam à sua companhia. Mas para que te convido eu, sabendo que já mandaste os homens que te esperam armados na Praça Aurélia; labendo que com Mânlio tens aprazado dia certo; e que remeteste adiante aquela águia de prata a que levantaste altar em tua casa, a qual creio te há-de ser funesta a ti e a todos os teus. Como poderás agora, indo a essas mortandades, carecer muito tempo daquela a quem costumavas venerar, de cujos altares passaste muitas vezes essa ímpia mão direita para homicídios de cidadãos?

Catilina que vá junto dos seus amigos.
10. Irás enfim algum dia para onde há muito te arrebata essa desenfreada e louca ambição, o oue te não dá pena, mas gosto excessivo; pois para esse desvario te gerou a natureza, adestrou a vontade e guardou a fortuna; nunca tu desejaste não digo já ócio, mas nem ainda guerra, senão iníqua, agrega" do um exercito de gente perdida e desesperada de toda a fortuna e esperança. Que alegria não será ali a tua? quão escessivo o prazer? com que júbilo não folgarás loucamente, quando nessa tua aluvião de gente não vires um só homem de bem? Para semelhante modo de vida se encaminharam aqueles teus laboriosos exercícios, que se contam, de jazeres para executar e manter adultérios e abominações; velar não só para armar traições ao sono dos maridos, mas também aos cabedais dos ociosos. Terás onde ostentar aquele teu ilustre sofrimento de fome, frio e penúria de tudo, com que brevemente te verás consumido. Tanto como isto aproveitei, quando te exclui do consulado, para que antes perseguisse a Repúblicadesterrado, do que a vexasse cônsul, e para que o que iniquamente empreendeste mais se chamasse latrocínio do que guerra.

Cícero não teme o ódio ou os perigos e cuida da salvação da pátria.
11. Agora, Padres Conscritos, para desterrar c repelir de mim uma quasi justa queixa da pátria, concedei toda a atenção ao que vos vou dizer, e o imprimi bem em vossos ânimos e memória. Se a pá-tria, pois, (que amo mais do que a vida) se toda a Itália e toda a República me dissessem: Que fazes, Marco Túlio? consentes se vá embora aquele que sabes ser inimigo, aquele que vês há-de-ser o general de uma iminente guerra, a quem sabes o esperam por seu capitão os arraiais inimigos, o autor desta protér-via, o príncipe dos conjurados, o sublevador dos servos, o arruinador das cidades, parecendo deste modo não que o lançaste fora da cidade, mas que o mandaste vir contra ela? Por que não o mandaras antes prender, matar e punir com o último suplício? Que é que te impede? Porventura o costume dos maiores? Não sucedeu poucas vezes castigarem os particulares COm pena de morte a cidadões perversos. Porventura as leis que estabelecem o castigo de cidadões roma-nos? Nunca nesta cidade lograram foro de cidadãos os que se rebelaram contra a República. Temes acaso o ódio da posteridade? Notável agradecimento dás ao povo romano, pois não sendo conhecido senão pelos teus predicados pessoais, sem nenhuma recomendação de antepassados, te elevou tão velozmente por todos os graus de honra ao supremo governo, se por atenção a ódio ou temor de algum perigo fazes pouco caso do bem dos teus concidadãos. E se algum temor tens de ódio, não é mais para temer que aborreçam a cobardia e protervia, do que a severidade e valor? Porventura quando a guerra assolar a Itália, quando as cidades forem vexadas, e arderem os edifícios, parece-te que não arderas tu então no incêndio do ódio?

Os motivos pelos quais Cícero não reputa acertada a condenação à morte de Catilina.
12. A estas justíssimas razões da República e daqueles cidadãos que sentem o mesmo, responderei eu em poucas palavras. Se eu, Padres Conscritos, tivesse por mais acertado condenar à morte a Catilina, não concedera a este gladiador uma só hora de vida. Porque se os outros heróis e nobilíssimos cidadãos se não contaminaram, mas honraram com o sangue de Saturnino, dos Gracos e de Flaco, por certo não teria eu de recear que, morto este parricida de cidadãos me resultassem daqui ódios para a posteridade; e ainda que os visse iminentes sobre mim, sempre assentei reputar por glória malquerenças resultadas de obras de valor. Contudo, há alguns nesta ordem que ou não vêem o que está para vir, ou se o vêem, dissimulam; os quais fomentaram as esperanças de Catilina com brandas sentenças; e, não dando crédito à conjuração, a arreigaram à nascença; cuja autoridade, seguindo outros muitos não só perversos, mas ignorantes, diriam se eu o castigasse, que obrara com tirania e despotismo. Agora porém entendo que quando ele chegar aos arraiais de Mânlio, para onde caminha, não haverá ninguém tão insensato que não conheça estar feita a conjuração, ninguém tão ímprobo que o não confesse. Mas morrendo ele só, creio que só por um pouco se poderá reprimir esta ruína da República, e não acabar inteiramente. Se der consigo daqui fora, levando de companhia os seus e, agredando de toda parte os desgarrados, os levar para o mesmo lugar, extinguir-se-á não só esta enorme peste da República, mas a mesma semente e geração de todos os perversos.

Peroração. Invocação a Júpiter.
13. Muito tempo há, Padres Conscritos, que andamos metidos nestes perigos de conjurações e traições; mas não sei por que causa os frutos de todas as maldades e insolências brotaram em tempo do meu consulado. Se porém de tão grande corrupção for morto só este, entendo que só por um pouco tempo íicaremos livres de cuidado e temor, e durará o pe-rigo e ficará reconcentrado nas veias e entranhas da Kepública. Assim como os enfermos de doença grave, que padecem frio e febre, bebendo água fria, ao princípio parecem ficar aliviados, mas depois se sentem muito mais aflitos, assim esta enfermidade da República, se a aliviarmos com o castigo deste, ficando vivos os mais, se agravará com maior veemência. Portanto, Padres Conscritos, retirem-se os perversos, separem-se dos bons, juntem-se a uma parte; enfim, como já disse muitas vezes, dividam-se de nós com o muro; cessem de armar traições ao cônsul em sua casa, de cercar a morada do pretor de Roma, de rondar com armas o Senado, de juntar feixes e archotes para abrasar esta corte, enfim traga cada um escrito no rosto o que sente da República. Eu vos prometo, Padres Conscritos, que tanta será em mim a diligência, tanta em vós a autoridade, tanto nos cavaleiros romanos o valor, tanta em todos os bons a concórdia, que com a retirada de Catilina tudo vejais manifesto, ilustrado, suprimido, vingado. Com estes prognósticos e sumo proveito da República parte já Catilina, com essa tua pestilencial quadrilha de protervos, que se agregaram com todo o gênero de maldades e parricidios para essa ímpia e execranda guerra. Então, Júpiter Stator, que aqui foste colocado por Rómulo com os mesmos auspícios com que fundou esta cidade, e a que com verdade chamamos Stator desta corte e Império, o apartarás e a seus sócios de teus altares e templos, dos edifícios da cidade e seus mu-muros, das vidas e bens dos cidadãos, e a todos os inimigos dos bons, a todos os adversários da pátria, a todos os ladrões da Itália, juntos entre sí com o vínculo de seus delitos e abominável sociedade, vivos e mortos os castigarás com eternos suplícios.
Tradução do Padre Antônio Joaquim. Fonte: Atena Editora, 1938.