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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Os sons da história


Como conhecer nosso passado através dos sons

Renato Venâncio
  • Quase todo mundo sabe que na internet é possível ter acesso a uma quantidade incrível de músicas. Poucos, porém, se dão conta de que esses acervos também podem ser úteis à pesquisa e ao ensino de História. Em parte, isso é possível graças aos sites especializados na transcrição de letras de música ou mesmo em etnomusicologia.
    WebLetras representa o primeiro caso. Esse site reúne um milhão de letras de canções e disponibiliza uma ferramenta de busca que permite a procura por palavra ou trecho das composições. Imaginem um professor enfrentando as dificuldades de ensinar aos alunos a história das camadas populares brasileiras. Uma alternativa é discutir, em sala de aula, músicas que trataram do cotidiano e das agruras dos trabalhadores. No referido site, a busca pela palavra “operário” revela centenas de letras musicais. O mesmo é constatado no site Letras.Terra, com a vantagem de o texto vir quase sempre acompanhado por vídeos.
    A discussão dos conteúdos das letras, somados ao prazer em ouvi-las é algo estimulante, tanto na pesquisa quanto no ensino de História. A exploração desses acervos pode ser feita de outras maneiras. O pesquisador pode constituir seu próprio banco de dados, reunindo letras de músicas por autor, que abordaram temas relativos às camadas populares. O site Letras.Com, por exemplo, disponibiliza 108 letras de Adoniram Barbosa e 485 de Chico Buarque.
    Nesse caso, a pesquisa pode se dedicar às condições de vida dos trabalhadores, como é o caso da moradia. Em relação a esse tema, o portal do Instituto Moreira Salles possui acervos preciosos, como os dos pesquisadores José Ramos Tinhorão e Humberto Franceschi, facultando a audição de milhares de músicas, muitas delas com o título “favela”.
    No campo da etnomusicologia, a principal preocupação diz respeito à contextualização do registro sonoro. Para os professores, esse tipo de enfoque é muito útil. Todos aqueles que enfrentaram o desafio de discutir “História da África” com os alunos conhecem a dificuldades em se encontrar bons exemplos sobre a diversidade cultural desse continente. Ora, um meio de superar isso é recorrendo aos arquivos sonoros e visuais do site World Music Collection, da Wesleyan University. Através dessa coleção, é possível conhecer tradições musicais de várias regiões africanas.
    A consulta aos verbetes de alguns dos instrumentos, como é o caso do Axatse ou do Jembe, também permite que se compreenda a origem de certas tradições musicais brasileiras, 
    Ainda no campo da etnomusicologia, é importante saudar a iniciativa da Fundação Nacional do Índio (Funai), que, em seu portal, na página intitulada “Índios do Brasil”, disponibiliza “Sons Indígenas” de povos tupi e macro-jê. Enfim, os arquivos musicais são poderosos aliados dos professores de História.

    Renato Venâncio é professor da Universidade Federal de Ouro Preto
  • Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 17 de abril de 2014

MPB - Explicando para confundir

Nos anos 1970 a MPB encontrou diferentes formas de recriar o experimentalismo tropicalista

AMAURI STAMBOROSKI JR.

Tom Zé em show no Rio de Janeiro em 1973

“Eu tô te explicando/ Pra te confundir/ Eu tô te confundindo/ Pra te esclarecer/ Tô iluminado/ Pra poder cegar/ Tô ficando cego/ Pra poder guiar”, cantarola Tom Zé em “Tô”, quarta faixa do álbum Estudando o samba, de 1976. Indiretamente, o refrão do cantor baiano poderia se referir ao impacto da produção musical dos artistas escolhidos pelo historiador Herom Vargas, professor titular do programa de mestrado em comunicação da Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS) e da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), como foco da pesquisa Experimentalismo e inovação na música popular brasileira nos anos 1970. Além de Tom Zé, Novos Baianos, Walter Franco e Secos & Molhados compõem entre si um apanhado díspar, mas que conta uma história da criatividade e da experimentação da música brasileira num período em que a indústria fonográfica no Brasil passava por um momento de expansão e centralização.

Em seu trabalho de 1994 O berimbau e o som universal, Enor Paiano, autor de Tropicalismo: bananas ao vento no coração do Brasil (Scipione), colhe alguns dados que demonstram o crescimento do mercado fonográfico brasileiro na época: 444,6% entre 1966 e 1976, num período em que o crescimento acumulado do PIB foi de 152%. Entre as empresas que mais faturavam com esse crescimento estava a Continental, gravadora brasileira fundada em 1929 e sediada em São Paulo, que contava com um elenco de artistas populares e regionais. “A Continental foi a maior gravadora nacional de todos os tempos”, enfatiza Eduardo Vicente, professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP) e autor da pesquisa Música e disco no Brasil: a trajetória da indústria nas décadas de 80 e 90, de 2002.

“Lá por 1970 a Continental decide ir além do seu elenco regional e começa a gravar músicos novos. Walter Franco, Secos & Molhados, Novos Baianos e Tom Zé tinham pouca ou quase nenhuma abertura com as gravadoras maiores e multinacionais que estavam começando a entrar no mercado, como a Philips”, explica Vargas, justificando a escolha dos nomes analisados na pesquisa.

Mas, além das realidades do mercado, outros dois fatores ainda pesam no surgimento dessa geração experimental. “Existe uma repressão muito forte da ditadura militar na primeira metade dos anos 1970. Esses artistas, como outros da música popular, vão tentar driblar a questão da censura. Mas, diferentemente de um Chico Buarque, não têm um viés político declarado, aberto, eles operam pelas frestas. Trabalhavam a linguagem da canção como um caminho de provocação”, reflete Vargas.

Por fim, há também o contexto internacional da contracultura – nome que se deu ao conjunto de atitudes e novas relações sociais e também artísticas que começam a se delinear na segunda metade da década de 1960 na Europa e EUA e que reverberam de diferentes formas mundo afora, do maio de 1968 francês ao tropicalismo brasileiro.
Walter Franco em show de 1975

Para falar dessa nova geração, o pesquisador recorreu ao termo “pós-tropicalismo”: “O termo pós-tropicalismo tem sido empregado com razoável discernimento para nomear um segmento da produção musical do período que, de alguma maneira, seguiu parte de seus passos”, escreveu ele no artigo “Categorias de análise do experimentalismo pós-tropicalista na MPB”. “O tropicalismo criava suas novidades dentro do contexto dos festivais de música televisivos, muitas vezes numa crítica à própria esquerda. Os Novos Baianos, por exemplo, faziam isso já dentro da canção, num contexto mais musical”, diferencia Vargas.

O grupo de Luiz Galvão e Morais Moreira é emblemático dessa transição. Formado em 1969 em Salvador, mudou-se em 1971 para o Rio de Janeiro e, sob a influência de João Gilberto, começou a incorporar diferentes elementos do samba ao seu rock em álbuns como Acabou chorare e Novos Baianos FC. “Pegue a regravação deles para “O samba da minha terra”, de Dorival Caymmi. Quando o Pepeu Gomes entra com a guitarra você ouve riffs, solos, que são da linguagem associada ao rock. Mas a música ainda é um samba”, exemplifica Vargas.

Contracultura
Além da música, o comportamento do grupo – que por um período de tempo conviveu coletivamente em um sítio no Rio de Janeiro – também foi importante na continuidade do tropicalismo. “Os Novos Baianos traduziram o que poderíamos chamar de ‘versão brasileira da contracultura’”, afirma o professor e pesquisador da Unicamp José Roberto Zan. “A vida em comunidade, as drogas, o procedimento tropicalista de combinar elementos musicais do pop internacional com a música brasileira (samba e gêneros regionais como o frevo) compõem um estilo que expressa ressonâncias da contracultura na nossa música popular.”

Outro grupo que expressou sua discordância através do corpo e da performance – e, inevitavelmente, do rock – foi Secos & Molhados. Mesclando rock progressivo, blues, incorporando referências folclóricas luso-brasileiras (em “O vira”) e com a utilização constante de poesia – de nomes como Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Fernando Pessoa, entre outros –, o trio teve uma carreira meteórica, com dois álbuns lançados entre 1971 e 1974 e um enorme sucesso popular, impulsionado pelo apelo visual das maquiagens e da teatralidade sexualmente ambígua do vocalista Ney Matogrosso.

As maquiagens em preto e branco que marcaram a visualidade do grupo aconteceram meio que ao acaso. Antes do sucesso de Secos & Molhados, Matogrosso era ator e, numa apresentação do grupo na Casa da Badalação e Tédio, clube anexo ao teatro Ruth Escobar, chegou atrasado, diretamente de uma peça infantil em que estava atuando anteriormente e, na pressa, subiu ao palco ainda maquiado. João Ricardo, fundador e principal compositor da banda, e o companheiro Gérson Conrad ficaram animados com a reação da plateia e resolveram adotar o estilo.
Secos & Molhados se apresentam no Maracanã em 1974

Esse artifício era amplificado pela própria performance de Matogrosso no palco e na televisão, que no início dos anos 1970 reclamava um novo papel hegemônico. No artigo “Corpo e performance no experimentalismo do grupo Secos & Molhados”, Vargas descreve com precisão a postura do cantor: “Sua figura é altiva (peito nu estufado e cabeça erguida), mesmo de pés descalços, os olhos são arregalados, a voz aguda é marcante, movimentos exagerados da boca marcam a pronúncia das palavras, movimentos de quadris insinuam outros códigos, penas, colares e lantejoulas bailam com o corpo, séries de movimentos de dança ou completamente livres sobre o palco transformaram-se em códigos de desprendimento. Não eram movimentos ensaiados e sempre iguais”.

Ao invés de afastar o público em um país ainda conservador, o efeito foi contrário: shows lotados país afora, turnê no México, álbuns vendidos às centenas de milhares. “Os dois LPs do grupo Secos & Molhados foram, talvez, o maior fenômeno de vendas da indústria fonográfica brasileira naquele período”, observa Zan. “Acredito que a experiência do grupo definiu novos padrões de encenação da canção num momento em que a televisão se consolidava como o principal meio de comunicação de massa no país. Ao mesmo tempo, as performances antecipavam a invenção do clip, um novo componente da linguagem da música popular.”

Diferentemente desses casos em que a experimentação se traduziu em sucesso popular, Walter Franco é um exemplo de como o radicalismo mais aguerrido não encontrava eco fora da vanguarda, que acabou sendo batizada, especialmente pela sua postura de enfrentamento, de “malditos”. O compositor paulistano começa a ganhar projeção a partir da sua apresentação em 1972 no VII Festival Internacional da Canção, da Rede Globo, apresentando a música “Cabeça”. Sem letra, a faixa era uma colagem de frases e fragmentos, sobre uma camada de sons sintetizados. Apesar de ter sido hostilizado e vaiado pelo público durante a apresentação, a canção foi encarada com simpatia pelo júri presidido por Nara Leão, e para evitar que a obra polêmica fosse premiada, a emissora acabou destituindo o júri, amplificando a polêmica.

Após o entrevero, Franco acabou contratado pela Continental, onde lançaria dois álbuns: Ou não, de 1973, e Revólver, de 1975. “É possível fazer um paralelo entre a poesia concreta e o trabalho de Franco, especialmente no sentido da concisão”, nota Vargas. “Ele utiliza poucas notas, uma melodia muito restrita, letras em sua maioria curtas. Mas ele demonstra os sentidos no canto, no arranjo, na performance. ‘Cabeça’, por exemplo, não tem letra, é só uma frase, mas a cada repetição, ao vivo, ele dá um novo sentido. A poesia concreta tem isso: a mensagem precisa ser concisa, mas ao mesmo tempo precisa ter muito sentido dentro dela para ser compreendida pelo público.”
Novos Baianos em ensaio de 1972

A preocupação com a palavra e os experimentos atonais e com colagens acabaram influenciando uma geração posterior de músicos, na chamada Vanguarda Paulistana, do final dos anos 1970 e início dos 1980. “Parece haver ali um diálogo”, nota Zan. “Vale ouvir e comparar as composições ‘Cabeça’, de Franco, e ‘Minha cabeça’, de Luiz Tatit e Zé Carlos Ribeiro, presente no LP Rumo, de 1981.”

Outro músico cuja obra setentista vai ter uma influência posterior na música brasileira é Tom Zé. Participante do núcleo central do tropicalismo, compondo com os Mutantes e gravando no álbum-manifesto Tropicália ou panis et circensis, de 1968, o músico baiano, discípulo de Hans Joachin Koellreutter, teve uma fase especialmente criativa – mas de pouco impacto imediato – nos anos 1970.

Experimentação
Em álbuns como Todos os olhos e Estudando o samba, Zé elege a canção como seu veículo de experimentação e crítica. Seu objetivo era remodelar o que ele mesmo mais tarde viria chamar de “acordo tácito” entre artista e público, em que existia uma ideia preconcebida do que seria uma canção “de fato” e o que “não seria música” – acusação intermitente do público às vaias nos festivais contra toda música que saísse desse insondável “padrão”.

Dessa forma, Tom Zé vai buscar diferentes recursos para desconstruir a canção a partir de dentro. “Um exemplo é o uso do ostinato, célula rítmica e melódica repetida durante toda a música. Ele utiliza isso em várias composições do período, e a cada repetição algo novo acontece na música. Esse uso não é muito comum na música popular, que costuma ter uma estrutura dividida em primeira e segunda parte, refrão, solo etc.”, observa Vargas.

Além disso, Tom Zé fazia o uso amplo de objetos “não musicais” dentro de suas composições, adaptando propostas da vanguarda erudita. “O que me salvou foi que eu sou um péssimo compositor, um péssimo cantor e um péssimo instrumentista. Então, quem é péssimo, tanto faz tocar piano como tocar enceradeira!”, declarou o músico em 2006, explicando suas escolhas.

Um terceiro ponto que Vargas gosta de observar na obra do compositor nesse período é certa mistura de sinais, com Tom Zé invertendo, misturando e se apropriando de estilemas relacionados a diferentes gêneros populares. Em Estudando o samba essa vocação aparece com vigor, e o músico analisa, decompõe e recompõe “estruturas rítmicas, estilemas melódicos e temáticos, timbres instrumentais e formas tradicionais de interpretação do samba”, como explica Vargas no artigo “As inovações de Tom Zé na linguagem da canção popular dos anos 1970”. “Há no disco uma versão para ‘Felicidade’, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Ele desconstrói a música, fica estranha, mistura o compasso binário do samba com um violão no compasso ternário e apresenta entradas de ruídos, sons gravados.”

Essa fase da música ainda deve render novas discussões. “Quero estudar melhor essas condições em que se desenvolveram esses artistas nos anos 1970 e falar sobre a Continental e a ditadura, as gravadoras e o pano de fundo da época”, conta o pesquisador.

Projeto
Experimentalismo e inovação na música popular brasileira nos anos 1970 – nº 2009/18261. Modalidade: Auxílio Regular a Projeto de Pesquisa. Coordenador: Herom Vargas – Universidade Metodista. Investimento: R$ 11.587,00 (FAPESP). 
Revista FAPESP

domingo, 23 de fevereiro de 2014

MPB: um pouco de história

http://criticadeponta.com

A MPB é um constructo cultural, e como tal nem sempre existiu e nem sempre quis dizer a mesma coisa

A sigla “MPB” apareceu na língua portuguesa em algum momento dos anos 1960, como uma abreviação de “música popular brasileira”. Mas o que se entendia então, e o que se entende hoje, por “música popular brasileira”? A popularidade da música é algo de difícil definição, e, quem sabe, apenas um pouco menos volátil que a popularidade dos políticos.

Talvez seja útil recuar um pouco na história. No século 19, por exemplo, não se falava, salvo engano, em música popular brasileira. Até a libertação dos escravos, estes não eram legalmente considerados como parte do “povo”, e suas formas de expressão sonora não eram consideradas como “música popular”. Aliás, mesmo depois disto, havia quem nem visse razões para chamá-las de “música”. O crítico literário Sílvio Romero, um dos primeiros a se interessar por estes assuntos, chamou seu livro aparecido em 1883 de Cantos populares do Brasil, e não Música popular do Brasil. Talvez, naquele momento, a expressão “música popular” pudesse ser vista como contraditória: a palavra “música” seria reservada para uma das Belas Artes, praticada e usufruída pela aristocracia do fino gosto; e pelo povo só na medida em que se identificasse com os valores daquela. Como escreveu o pianista Arnaldo Estrela em 1931: “Este é o mês do carnaval. (…) Enquanto a Sra. Música no seu recolhimento austero goza as férias de verão, a musa popular samba e canta ao léu das ruas.” (Citado em Andrade, 2004:30)

Por outro lado, no título escolhido por Romero, o emprego do qualificativo “do Brasil”, em vez de “brasileiro”, sugere que os cantos seriam cantados aqui, mas talvez não necessariamente criados aqui, ou de caráter intrinsecamente identificado ao país. (De fato, as pesquisas do crítico sergipano deram grande ênfase à permanência de canções portuguesas entre nós).

Mais tarde, nas primeiras décadas do século 20, Mário de Andrade e outros estudiosos consideraram que o povo brasileiro (formado, na concepção vigente, sobretudo pela população rural) tinha sido capaz de criar expressões musicais próprias, às quais atribuíram grande valor tanto em termos de beleza, quanto de identidade cultural. Esta música foi chamada de “popular”, e talvez a principal obra de síntese escrita sobre ela, da autoria da discípula de Mário de Andrade, Oneyda Alvarenga, teve por título Música popular brasileira (primeira edição em 1947).

Contudo, foi também nas primeiras décadas do século 20 que novas formas de expressão sonora, ligadas ao mundo das cidades, e também a novas formas de tecnologia (como os discos e o rádio), passaram a ganhar crescente importância no país. Compositores como Sinhô, Noel Rosa, Ari Barroso, e intérpretes como Francisco Alves, Carmen Miranda e tantos outros, ganharam entre 1920 e 1940 um novo e logo imenso público, predominantemente urbano, de consumidores de discos e programas de rádio. Esta música, num primeiro momento, não foi chamada de “popular” – pelo menos não por pensadores da estirpe de Romero e Andrade. Tal palavra, para eles, estava por demais associada a certos ideais nacionais, incompatíveis com os ingredientes cosmopolitas e comerciais que, em maior ou menor medida, entravam na composição daqueles novos sambas, marchas e frevos. Esta música foi por isso chamada de “popularesca”, palavra cuja conotação pejorativa não se pretendeu disfarçar.

No decorrer do século 20, porém, esta expressão foi abandonada, e a música urbana passou a ser conhecida como “popular”, adotando-se para a música rural a etiqueta de “folclórica”. A história destas mudanças ainda está para ser contada em detalhes, mas pode-se avançar algumas idéias. Em primeiro lugar, o monopólio do discurso sobre música por parte dos intelectuais tradicionais sofreu no período fortes abalos. A nova música urbana já vinha com seus próprios intelectuais: Alexandre Gonçalves, autor de O choro; Francisco Guimarães, autor de Na roda do samba; Orestes Barbosa, autor de O samba (além de compositor); Almirante, radialista (além de cantor e compositor); Ari Barroso, radialista e vereador (além de pianista e compositor). Todos eles tinham profundas ligações pessoais com a música sobre a qual vieram a manifestar-se como autores de livros, jornalistas, radialistas, e pelo menos em um caso, político. É natural que não quisessem chamá-la com uma etiqueta pejorativa como “popularesca”.

Em segundo lugar, os herdeiros de Sílvio Romero e Mário de Andrade passaram a adotar a expressão “música folclórica” em vez de “música popular”. Esta mudança pode, por sua vez, ter duas explicações. A primeira, é que Renato Almeida e Oneyda Alvarenga entre outros, reconheceram na música dos rádios e dos discos não só o que poderíamos chamar de “popularidade adjetiva” (que seria a “popularesca”, sinônimo de aceitação ampla), mas também “popularidade substantiva”, associada aos nobres ideais da nacionalidade. (A outra face desta moeda, é que personagens depois considerados como ilustres pioneiros da MPB – como Pixinguinha, Donga, Noel Rosa, Almirante – começaram sua carreiras fazendo músicas que, pelos padrões dos anos 1960-70, seriam consideradas “folclóricas”).

A segunda explicação é que a cultura anglo-americana substituiu a cultura francesa como influência dominante no país. Na França, usa-se (ainda hoje) a expressão musique populaire, e não musique folklorique, para designar as expressões sonoras rurais de caráter tradicional. Em inglês, estas são ditas folk music, enquanto popular music corresponde grosso modo ao “música popular” da sigla MPB.

Assim, nos anos 1950 aparece no Rio de Janeiro a Revista de música popular que tem como tema central os compositores e intérpretes do rádio e dos discos. Em 1976, Zuza Homem de Mello publica um livro com o mesmo título daquele que Oneyda Alvarenga publicara em 1947, Música popular brasileira. O conteúdo, entretanto, mudara inteiramente. Agora, falava-se de bossa-nova, e não de bumba-meu-boi; e os personagens não eram mais agricultores anônimos, mas Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina e seus colegas. Ainda mais interessante, da mesma maneira como o público havia entendido nos anos 1940 o significado do título do livro de Alvarenga, entendeu nos anos 1970 o do livro de Homem de Melo.

E a sigla MPB? Ao que tudo indica, ela aparece no início dos anos 1960, mas não se sabe o momento exato. Um dos seus primeiros registros conhecidos é o nome do conjunto MPB-4. Segundo o Dicionário Cravo Albin (www.dicionariompb.com.br): “O histórico do grupo remonta a 1962, inicialmente com formação de trio, integrado por Ruy, Aquiles e Miltinho, responsáveis pelo suporte musical do Centro Popular de Cultura da Universidade Federal Fluminense (filiado ao CPC da UNE), em Niterói. A partir do ano seguinte, com a adesão de Magro, passou a atuar como Quarteto do CPC (…). Em 1964, com a extinção dos CPCs, Magro e Miltinho, na época estudantes de Engenharia, batizaram o conjunto como MPB-4, o que provocou por parte de Sérgio Porto o comentário de que o nome do quarteto parecia ‘prefixo de trem da Central do Brasil’”.

O comentário de Sérgio Porto parece mostrar que a sigla, se não foi inventada pelo grupo, ainda não seria usual naquele momento. Mas a menção a uma outra sigla – CPC – é muito significativa neste contexto. Antes do golpe militar de 1964, se o grupo era conhecida como “Quarteto do CPC”, ele seria algo como o “CPC-4”. Depois do golpe, os CPCs são proscritos, mas não parece improvável que a nova sigla de três letras, rima incluída, e com o “P” de povo por assim dizer no centro, tenha sido sugerida pela recente (e agora censurável) ligação do quarteto. De fato, como argumentei em outro lugar (Sandroni, 2004), a sigla MPB condensa, além de significações musicais – na qual “popular” se define por oposição a “folclórico” e “erudito” – associações políticas, onde ecoam não apenas os CPCs de antes do golpe, mas também o MDB de depois do golpe.

A significação da sigla como etiqueta mercadológica é mais recente e talvez incompatível com as outras duas. A partir dos anos 1990, há uma crescente fragmentação do panorama musical, que põe em cheque a concepção de música-popular-brasileira como frente única e compactada. Tal mudança liga-se, entre outros fatores, à afirmação de identidades musicais regionais ou estaduais (mangue-beat pernambucano, axé baiano), transnacionais (rap, funk) ou de popularidade considerada meramente adjetiva – embora a palavra “popularesco” não tenha sido ressuscitada (forró estilizado, pagode romântico).

Neste contexto fragmentado, a MPB passa a ter uma segunda vida, designando agora uma parcela do mercado de consumo, uma prateleira entre as prateleiras das lojas de discos: aquela onde repousam os CDs de Chico Buarque, Djavan, Gal Costa e outros compositores e intérpretes surgidos para a fama nos anos 1960 e 1970.

Para concluir, acredito que a discussão sobre a situação da MPB pode ganhar com a contextualização histórica das concepções de “música”, “popular” e “brasileiro”. A MPB é um constructo cultural, e como tal nem sempre existiu e nem sempre quis dizer a mesma coisa.

Bibliografia:

Alvarenga, Oneyda. Música popular brasileira. São Paulo: Duas Cidades, 1982.
Andrade, Nivea Maria da Silva. Os significados da música popular : a revista Weco, revista de vida e cultura musical (1928-1931). Rio de Janeiro: PUC-Rio, Departamento de História, 2004.
Mello, José Eduardo Homem de. Música popular brasileira. São Paulo: Melhoramentos, 1976.
Sandroni, Carlos. “Adeus à MPB”. Em Decantando a República, B. Cavalcante, H. Starling e J. Eisenberg (orgs.), Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p.23-35.
Romero, Sílvio. Cantos populares do Brasil. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1954.

Carlos Sandroni
é sociólogo, doutor em Música pela Universidade de Tours, na França, e professor da Universidade Federal de Pernambuco. Autor do livro Feitiço decente: Transformações do samba no Rio de Janeiro, 1917-33, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2001
Revista Cult

domingo, 21 de agosto de 2011

O capitão Zé Lagoa

Rosil Cavalcanti: compositor de 'Sebastiana'


As semelhanças não são poucas. Nasceram em regiões dominadas pela cultura da cana-de-açúcar e pela colonização negra. Quando adultos, foram casados, mas não tiveram filhos. E as coincidências não se restringem à vida. Em anos diferentes, morreram de infarto no mesmo dia e mês. Como se vê, Rosil Cavalcanti (1915 – 1968) e Jackson do Pandeiro (1919 – 1982) tiveram uma relação que vai muito além de 'Sebastiana'. Muito antes de ser proclamado o rei do ritmo, Jackson já convivia com o talento musical de Rosil.

De família tradicional na política de Pernambuco, Rosil de Assis Cavalcanti trabalhou toda vida como funcionário público. Seu primo de segundo grau, Joaquim Francisco chegou a ser governador do estado. Em 1943, com pouco mais de 20 anos, outro parente de Rosil assumiu a prefeitura da cidade de Macaparana, que continua sob influência da família. Maviael Cavalcanti (DEM) é o atual prefeito da cidade. Mas a paixão de Rosil era outra.

Em João Pessoa, no ano de 1947, Rosil deu seus primeiros passos no rádio, participando em programas noturnos na Rádio Tabajara. Nesta ocasião, formou a dupla caipira ‘Café com Leite’ com Jack, rapaz que mais tarde seria famoso como Jackson do Pandeiro. O nome do grupo fazia alusão à aparência dos dois. Jackson, cafuzo de pele escura, era o café. Rosil, branco, o leite. Tocando emboladas, a dupla alcançou um grande sucesso, garantido também pelas tiradas cômicas que faziam os ouvintes darem gargalhadas no auditório.

Quando a dupla se desfez, Jackson levou debaixo do braço várias músicas de Rosil. Uma delas seria o grande destaque do carnaval de 1953. Era o coco 'Sebastiana', originalmente lançado em um disco pelo selo Copacabana e posteriormente regravado por Gal Costa. Por sua vez, Rosil ganhou destaque dez anos depois com o programa ‘Forró de Zé Lagoa’, que teve grande repercussão em Campina Grande.

Apresentado diariamente na Rádio Borborema, em ondas médias e tropicais, a atração era uma mescla de notícias com brincadeiras, onde Rosil encenava o papel do capitão Zé Lagoa e contracenava com os soldados Jaca Mole e Jaca Dura. Entre uma piada e outra, muitos repentistas e cantores passaram por lá, como Genival Lacerda, Zé Calixto, Marinês e Abdias.

Mas, mesmo antes de Sebastiana, Rosil já havia composto uma música gravada comercialmente. Apresentada à cantora Dilú Melo, a canção se chama ‘Meu Cariri’ e foi interpretada por Ademilde Fonseca e Marinês, na sua versão mais famosa. Porém, Rosil não guardava boas recordações de sua estreia nas vitrolas. Apesar de ter composto sozinho música e letra, os créditos do disco apontavam Dilú como parceira de Rosil. Mas não faltariam oportunidades futuras para o devido reconhecimento.

Ao todo, Rosil teve mais de vinte músicas gravadas por Jackson do Pandeiro, como 'Cabo Tenório', 'Lei da Compensação', 'Quadro Negro', 'Forró na Gafieira' e 'Na Base da Chinela'. Feita em parceria com o rei do ritmo, esta última foi regravada posteriormente por Elba Ramalho. Na voz de Marinês destacam-se Saudade de Campina Grande e Aquarela Nordestina, que foi também interpretada por Luiz Gonzaga/ Rosil teve ainda canções gravadas pelo Trio Nordestino, Zé Calixto, Genival Lacerda, Anastácia, Ary Lobo, entre muitos outros que deram sua contribuição para inscrever definitvamente o nome de Rosil na história da música popular nordestina.
Revista de História da Biblioteca Nacional

domingo, 13 de março de 2011

Uma breve biografia do compositor de "Aquarela do Brasil"

O compositor Ary Barroso na Lapa, Rio de Janeiro
Gilberto Gasparetto*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Conhecidíssimo por seus sambas-exaltação, sendo o mais famoso deles "Aquarela do Brasil" (já chamado de "segundo hino nacional"), Ary Barroso foi múltiplo. Atuando como compositor, instrumentista, apresentador de programa de auditório, locutor esportivo, defensor dos direitos autorais ou político, esse mineiro de Ubá se desdobrou em várias atividades e em todas deixou a marca do espírito combativo e do temperamento forte, muitas vezes intransigente.

Várias áreas de atuação
As variadas áreas de atuação de Ary Barroso não impediram que ele se tornasse um dos mais férteis criadores da música popular de seu tempo, influenciando profundamente tanto seus contemporâneos quanto as gerações futuras.

Ary Barroso foi ao Rio de Janeiro estudar direito; porém, em 1922, abandonou a faculdade e deu início à carreira musical, trabalhando como pianista no cinema Íris. Visitou a Bahia, nos anos 1930, que inspirou muitas de suas mais belas músicas.

Em pouco tempo, ele se firmava no cenário artístico do Rio de Janeiro, então capital federal, e passava a receber inúmeros convites e a atender pedidos de músicas de carnaval, de teatro e de cinema.

Mas ele, que compunha incansavelmente, não deixou de criar obras-primas movido exclusivamente pela inspiração, para seu próprio prazer.

Exaltação do Brasil
Alguns dos sambas de Ary Barroso exaltavam as qualidades do Brasil e os valores (segundo ele) autenticamente nacionais, como "No tabuleiro da baiana" (1937), "Na baixa do sapateiro" (1938) e "Isto aqui o que é?" (1942), além de "Aquarela do Brasil" (1939), e eram geralmente arranjados de maneira grandiloqüente, com letras extensas e acompanhamento orquestral.

Ary Barroso foi, porém, também um dos mais delicados e pungentes compositores de canções passionais. Exemplos disso são as sensíveis "Na batucada da vida" (1934, com Luís Peixoto), "Morena boca de ouro" (1941) e "Pra machucar meu coração" (1943).

Ary Barroso e o Estado Novo
Ambicioso, Ary Barroso buscava deixar um legado para as futuras gerações, indo além do sucesso imediato das canções e tentando atingir algo mais permanente e emblemático da brasilidade.

O país vivia, no início dos anos 1940, o Estado Novo e, ao mesmo tempo, a Segunda Guerra Mundial fazia os americanos, por razões estratégicas, se aproximarem do Brasil, inclusive no plano cultural e musical.

O viés "exótico" do cinema hollywoodiano e o populismo do governo de Getúlio Vargas foram o cenário ideal para essa música que exaltava as belezas e riquezas do Brasil, fugindo dos temas da malandragem, bebida, pobreza e amores fracassados.

Assim, fazendo um tipo de música ufanista, que combinava com o espírito do nacional-socialismo de Hitler, o qual inspirava o Estado Novo de Getúlio, Ary Barroso teve a oportunidade de se tornar conhecido no mundo inteiro, através das músicas que compôs para os filmes de Walt Disney.

Precursor da bossa nova
Sua preocupação em divulgar o "samba autêntico", nos anos 1950, levou Ary Barroso a detestar os "acordes americanos" no samba. Ele brigava, por exemplo, para que sua composição "Risque" (1952), um samba lento, não ganhasse batida de bolero.

Crítico da bossa nova, que para ele não era autenticamente nacional, o autor de "É luxo só" (1957, com Luís Peixoto) foi na verdade um precursor do movimento, tendo sido grande influência para os maiores nomes do gênero, Tom Jobim e João Gilberto.

João Gilberto gravou Ary Barroso logo em seu disco de estréia, em 1959. "O próprio Tom Jobim", lembra o crítico Tárik de Souza, "regravaria incontáveis vezes "Aquarela do Brasil", em versões intimistas que exploravam recônditos achados harmônicos e melódicos do original".

Ary Barroso morreu em 9 de fevereiro de 1964, em pleno Carnaval, momentos antes da escola de samba Império Serrano entrar na avenida com um samba-enredo em sua homenagem.http://educacao.uol.com.br *Gilberto Gasparetto é músico e jornalista. gilgasp@hotmail.com

sábado, 12 de março de 2011

Cartola foi um sonho que a gente teve


Fundador da Mangueira, autor de alguns dos mais belos sambas da música brasileira... A face conhecida do grande compositor esconde o homem reservado, que adorava a poesia de Bilac, lia Drummond e Padre Vieira, encantava Villa-Lobos, ensinou e aprendeu com Noel Rosa, mas retratava as pessoas e o cotidiano em que vivia. Sua obra sofisticada está mais viva e conhecida 30 anos depois de sua morte

Por Frédi Vasconcelos
A frase de Nelson Sargento, afirmando que "Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve", talvez corasse o reservado e tímido Angenor de Oliveira, que passou para a história da MPB como Cartola por causa do chapéu-coco que o pedreiro usava para livrar-se do cimento no cabelo. Aliás, curiosidade sobre seu nome é que se chamava Agenor até o dia em que teve de tirar papéis para o casamento e descobriu o “N” a mais em sua certidão, obra de um escrevente criativo. Para, em suas próprias palavras, não ter de mudar toda a papelada, acabou assumindo o novo nome.

As histórias curiosas do jovem nascido no Catete, em 1908, que na sua juventude dizia ser o “pretinho mais bem-vestido de Laranjeiras”, bairro de classe média para o qual se mudou ainda criança, não param aí. Poucos sabem, mas Cartola nasceu no início do século num bairro de classe média por ser neto do cozinheiro do senador Nilo Peçanha, que se tornaria depois presidente e levaria seu avô para o Palácio do Catete. O pai, que era primo da mãe, veio de Campos para se casar e na hora de assinar os documentos teve de confessar à frente do juiz que era analfabeto. Segundo a amiga e biógrafa de Cartola, Marília Barboza, nesse momento declarou que nunca mais passaria tal vexame na frente de outra pessoa. Matriculou-se no Liceu de Artes e Ofícios, aprendeu português, francês e música, e tomou gosto pela poesia. Paixões que passou para o filho, que com ele aprendeu os rudimentos de violão e tomou gosto por poetas que o acompanharam pela vida.

Com a morte do avô, os pais não conseguem manter o padrão de vida e a família acaba se mudando para perto do morro da Mangueira, onde o compositor começa a escrever sua história mais conhecida. Aos 17 anos, ele rompe com o pai, que foi embora da Mangueira e com quem só voltou a se encontrar muitos anos depois. Mas o gosto pela poesia permaneceu. Marília lembra que Cartola tinha um desejo imenso de aprender e lia Olavo Bilac, Guerra Junqueira, Carlos Drummond de Andrade e autores como Padre Vieira. E essa curiosidade também esteve presente num encontro decisivo para a música brasileira, o de Cartola com Noel Rosa, que ia para sua casa no morro. Segundo a biógrafa, Noel pegou a malandragem do ritmo e a melodia do samba do criador da Mangueira. Cartola conversava e observava as letras do Noel e passou também a falar do cotidiano, estilo do compositor de Vila Isabel.

Dessa época, final dos anos 1920 e começo dos anos 1930, há dois fatos marcantes na vida de Cartola. A primeira gravação de um samba seu, “Que Infeliz Sorte”, comprado por Mário Reis, mas gravado por Francisco Alves. E o primeiro samba com que a Mangueira desfilou, “Chega de Demanda”. Há ainda o encontro com outro personagem essencial da música brasileira, Pixinguinha. Embora nunca tenham composto juntos, eram amigos. E o principal assunto entre eles nada tinha a ver com música, mas sim com o fato de que os dois não podiam ter filhos e haviam adotado crianças. Admiravam-se como compositores, mas a diferença entre o samba-canção de Cartola e o choro de Pixinguinha provavelmente não permitiu a parceria.

Mas os dois gênios da MPB estiveram juntos em outro momento, mais precisamente em 1940, quando foram levados por Villa-Lobos para mostrar suas músicas para um dos mais famosos maestros do mundo à época, Leopold Stokowski. Nesse encontro, a bordo do navio SS Uruguai, ancorado no porto do Rio, foram gravadas dezenas de faixas, das quais 16 acabaram lançadas nos Estados Unidos no álbum duplo Brazilian Native Music. Cartola compareceu nessa seleção com “Quem Me Vê Sorrindo”, entoada por ele e algumas pastoras da Mangueira. Provavelmente, o primeiro registro de uma música sua, com sua voz. No Brasil, isso só viria a acontecer em 1968.

Antes, na fase áurea do rádio, vendeu sambas que acabaram gravados por Francisco Alves, Mário Reis, Carmen Miranda, entre outros. Cabe destacar que Cartola, diferentemente de outros compositores, vendia os direitos comerciais de disco, mas fazia questão que seu nome permanecesse. Segundo Marília Barboza, a novidade que interessou a essas estrelas do rádio é que Cartola fazia um samba diferente do maxixe de compositores como Donga. “Havia cansaço de todo mundo em gravar músicas como ‘Pelo Telefone’. Cartola aparece com um samba diferente, que vinha da tradição dos negros bantos, que só apareceram depois da abolição e começaram a botar letra profana no batuque da macumba. Isso era novidade”, afirma.

Passada essa fase, em meados dos anos 1940, quase se vai embora a carreira de Angenor. Depois de ter vendido vários sambas, ganhado pouco dinheiro e nunca gravado um disco, Cartola enfrenta uma série de problemas pessoais, como a morte da primeira mulher. Desentende-se com o pessoal da Mangueira, vai morar em outro bairro e fica “sumido” por quase uma década. Chegaram a dizer que estava morto. E quase, porque nesse período enfrentou uma meningite, foi lavar carros e “tomar conta de um prédio”. Acabou “redescoberto”, em 1956, quando foi tomar café num bar e encontrou com o jornalista Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que lhe perguntou se não era o grande Cartola. Com a confirmação, Sérgio prometeu tirá-lo daquela vida, o levou para algumas rádios. Cartola voltou a ser visto e reconhecido, embora sem ainda ganhar dinheiro suficiente para viver com sua música. Pouco depois, voltou a trabalhar como contínuo.

O estudioso e autor do Dicionário Houaiss de Música Popular Brasileira, Ricardo Cravo Albin, diz que Cartola foi durante quarenta anos o maior desperdício da música popular, ficou alijado da carreira por conta de uma série de preconceitos. “Pelo fato de morar em morro, ter empregos apequenados ante a visão da aristocracia, viver nos botequins da cidade, ele não teve carreira como Noel, Ary Barroso, Lamartine Babo, Dorival Caymmi, que são seus contemporâneos,” analisa.

Nos início dos anos 1960, fato marcante é a abertura do restaurante Zicartola, na Rua da Carioca, no Centro do Rio, com sua segunda mulher, Zica. Ela comandava a cozinha; Cartola, as músicas. Foi um espaço para a sociedade brasileira ver e rever músicos como Ismael Silva, Nelson Cavaquinho, Zé Ketti, também esquecidos, e jovens iniciantes como Paulinho da Viola e Elton Medeiros, que viria a se tornar parceiro de Angenor. Paulinho, ao recordar esse tempo, emociona-se. “Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Nelson Cavaquinho, essas pessoas não morrem, é o que eu sinto do fundo da alma. Não estou falando da morte física, é claro.”

Ele lembra que já conhecia Cartola de nome e de algumas músicas quando o compositor Hermínio Bello de Carvalho o convidou para ir ao Zicartola. “Na época, não era interessado em composição, queria ser músico, acompanhar outros artistas. “Cartola, Zé Ketti e Elton Medeiros é que me influenciaram e incentivaram a compor. Eles me estimularam e deram muita força”, relata. E o mestre deve ter gostado do que se transformou a criatura, pois sempre que questionado referia-se a Paulinho como seu descendente, aquele cuja música mais se assemelharia à sua.

“Com certeza tenho a influência dele, porque minha admiração era muito grande. Isso é algo do fundo do meu coração, que falei hoje com um amigo. Eu me acho com muita honra um vassalo de Pixinguinha, Cartola, Roberto Silva, Ciro Monteiro... A gente fica teorizando, bota um acorde aqui e ali, mas isso é uma continuação. Sinto-me orgulhoso de fazer parte da linhagem dessas pessoas.”

O Zicartola faliu pelo fato de seus donos serem muito melhores para cozinhar e compor músicas do que para administrar finanças. Cartola voltou a ser gravado por alguns cantores, participou em 1968 do antológico disco Fala Mangueira (sua primeira gravação no Brasil), junto com Odete Amaral, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Mas sua estreia com voz e composições próprias só seria registrada em 1974, já com 65 anos de idade, pela gravadora Discos Marcos Pereira (veja discografia abaixo).

Marília Barboza diz que quando o disco, que se chama Cartola, foi lançado, “assustou os pesquisadores, os críticos e o público em geral com doze faixas que eram excelentes”. Depois, foram mais três LPs num período de cinco anos, mas muita coisa ainda ficou sem gravar. “Ele deixou comigo uma fita com quarenta músicas inéditas, que passei para a neta dele. Dali algumas coisas foram gravadas, mas poucas. O Nelson Sargento ficou com algumas de memória, mas além dessas novas, nos discos há várias composições maravilhosas que são pouco divulgadas.”

Hoje, 30 anos depois da morte, ele é mais conhecido que em vida. Suas músicas ainda podem ser ouvidas nas gravações de cantoras consagradas como Elis Regina, Nara Leão, de parceiros e amigos como Zé Ketti e Nelson Sargento, Paulinho da Viola, e sua influência é reconhecida em artistas que resgatam o samba, como as bandas Imperial e Republicana, Casuarina e uma série de novos cantores e cantoras.

Paulinho até hoje trata Cartola com deferência e exemplifica como é difícil cantar algumas músicas suas. “Em 1965, quando eu fazia entrevistas para um programa da TV Cultura, a gente recebeu o Cartola. Num dado momento ele tomou a frente e disse que queria cantar um samba novo. Aquilo não estava no roteiro, não sabia o que fazer, mas o diretor mandou seguir em frente. Foi a primeira vez que ouvi “As Rosas Não Falam”. Os que estavam ali presentes, os diretores, o pessoal da técnica, todos ficaram assim sem ter o que falar, comoveu todo mundo. Fiquei tão tocado que não conseguia cantar essa música, me emocionava sempre que tentava, e só consegui cantar e gravar há pouco tempo.”

A obra de Cartola, hoje, é divulgada pela internet, pela TV, pelo cinema, pelo teatro, mas para quem conviveu com ele o personagem era muito maior. Como disse Nelson Sargento, Cartola não existiu, foi um sonho que a gente teve. Homenagem que Sargento continuou a fazer ao compor, depois de sua morte, uma descrição do grande sambista a partir dos títulos e trechos de seus sambas. “Só um Peito vazio descobre que O mundo é um moinho/ E quando isso Acontece a Alegria vai embora/ E as Cordas de aço de um violão solam baixinho/ Uma canção que se chama Disfarça e chora,/ Eu confesso que Tive sim, um Amor proibido/Vai amigo e diz-lhe o quanto eu tenho sofrido/ Mas tudo se ajustará numa linda Alvorada/ O sol nascerá, Pouco importa depois/ Se estamos juntos Nós dois/ O nosso amor brilhará numa noite tão linda/ As Rosas não falam, mas podem enfeitar/ A grande Festa da vinda”.

Box - Cinco discos marcantes

As gravações originais de Cartola, com sua própria voz, aparecem em apenas cinco discos gravados no Brasil.

Fala Mangueira, de 1968, em que grava duas faixas.

Cartola, de 1974, com 12 músicas excepcionais, algumas delas guardadas por décadas como “Quem me Vê Sorrindo” e outras compostas depois, como o sucesso “O Sol Nascerá”, em parceria com Elton Medeiros.

Cartola, de 1976. A sofisticação só foi crescendo, com o lançamento de músicas inesquecíveis como “O Mundo é um Moinho”, “As Rosas Não Falam” e “Cordas de Aço”.

Verde Que Te Quero Rosa, de 1977, com direção artística do maestro Radamés Gnatalli, chamado a pedido do compositor, e músicas como “Autonomia”. Cartola 70 Anos, editado em 1979, um ano antes de sua morte.
REVISTA FÓRUM

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Mulher na Música Popular Brasileira

Introdução – A questão básica que se coloca (qual ou quem é a mulher da MPB) estabelece a relação entre um nível de realidade simbólica – a música, o canto, a letra – e o sujeito desta mesma realidade simbólica - o ser humano – mas tomado em sua dimensão especial, biológica; o
sujeito-fêmea, agente e criador do símbolo, mas cuja situação é marcada pelo gerar e parir o criador-macho: o Homem.
Neste sentido a mulher da MPB é porção, complemento do criador, sujeito do discurso, mas é também – ou parcialmente – objeto da criação.
O discurso da MPB é pois o relato da relação fundamental entre o criador -sujeito e seu complemento – musa – objetivado no cantar, no discurso musical. Da natureza dialética da relação que se estabelece, decorre que a apreensão de um dos termos – mulher, musa, objeto do canto - implica a apreensão do outro – homem, criador, sujeito do cantar. E mais, não há como entender o discurso – a MPB – senão pela inserção da relação fundamental na realidade, na qual se inscreve, e da qual decorrem os sentidos atribuídos a ambos os termos e que emergem no discurso musical.
Sobre as questões de método e procedimento Trabalhar com as categorias homem/mulher é operar com uma seção da realidade do sujeito histórico (ser humano), pois ambas as categorias
referem-se a uma dada realidade social, histórica e cultural. Homem/mulher, relação fundamental, se cria na história, no agir, nas condições dadas pela história que os homens e mulheres alteram com sua ação.
Neste sentido, o criador na MPB, sujeito, é inscrito numa realidade histórica, cultural, numa dada estrutura de classes, à qual corresponde uma dada divisão de trabalho social e sexual. A mulher da MPB é pois, enquanto categoria, uma objetivação simbólica, cultural, e portanto histórica, que se faz ao longo do processo de transformação social, assim como o homem, de quem é feita complemento. Ambos submetidos às mesmas condições sociais.
A MPB torna-se assim um nível da práxis objetiva, marcada pelas condições concretas em que homens e mulheres existiram e a criaram, com um nível de discurso, no cotidiano de suas vidas, de suas estórias.
Esse discurso – aqui nível privilegiado de análise – reflete, como construção simbólica, os dois planos do processo histórico anteriormente mencionado: aquela história-práxis coletiva-tempo-
realidade e referência a uma dada formação social, e a estória individual, reflexo e referência da outra. Se a primeira permite apreender a natureza essencial da segunda, é esta que se objetiva no relato, no discurso, nas representações, na criação musical.
Portanto, cada música tomada individualmente apresenta-se ao pesquisador como peça única em uma série peculiar a cada autor.
Cada autor projeta em sua obra uma dada percepção do real, onde se reflete a sua posição de classe, sua estória, vivida na história.
Cada música é assim um cantar de tempo (época) no processo social e um canto do autor, de sua estória, ou dos autores (letra e música).
Autores que podem ser homens-mulheres que cantam seu complemento.
A cada situação corresponde uma disposição em relação à mulher - ou ao homem – e sua estória na história. Neste sentido é que se coloca a questão da posição do sujeito? Objeto, criador-criatura em relação à mulher na MPB.
Nesta dupla dimensão do histórico, de uma formação social e da estória individual, situa-se a mulher da MPB, referida, em geral, a um estereótipo de complemento do homem. Ele, por sua vez, também estereotipado. Os tipos femininos da MPB correspondem, pois, perto ou longe, a tipos masculinos que ficam no interdito, implícitos, disfarçados, camuflados no discurso, submetidos ambos às condições concretas e de classe, historicamente referidas na formação social.
Cada “peça” da MPB compõe-se de, pelo menos, duas linguagens simultâneas: letra e música (melodia, ritmo). Se a pesquisa de tipos femininos privilegia a letra (discurso, língua), a referência histórica, as dimensões estória/história encontram-se também, ou até propriamente, na linguagem musical, sobretudo ritmo.
A opção pelo ritmo, enquanto forma cultural, trai a origem do autor, e, em certo sentido, denota o discurso.
Admitindo-se que exista afinidade entre compositor e letrista, a “peça” resultante a caracteriza. Isto não significa que esta afinidade resolva origens (estórias) diferentes, às vezes radicalmente diferentes. Embora conscientes desta dificuldade, os autores deste trabalho não a exploraram, preferindo considerar, em uma primeira aproximação, como possível de serem trabalhadas as peças, admitindo que a afinidade existente, entre letra e melodia, ainda que pontual, revela acordo, parceria, encontro.
Para este estudo exploratório foram utilizadas coleções particulares de discos de MPB e a coleção Nova História da Música Popular Brasileira editada em 1976, pela Abril Cultural. Procedeu-se a um levantamento das letras, análises e identificação dos tipos femininos aqui discutidos.
Os limites do presente trabalho estão situados também no material utilizado; enfim, a escolha de músicas para fascículos ou discoteca particular atende a critérios externos aos aqui observados. A
continuidade do trabalho, e utilização de outras fontes de pesquisa, permitirá a crítica e aprofundamento das conclusões aqui expostas.
O grande útero, uma questão de origem
A música que hoje reconhecemos como popular brasileira surge no Rio de Janeiro, na segunda metade do Século XIX, como o canto de camadas populares urbanas em formação. Grosso modo pode-se dizer, portanto, que os ritmos típicos identificados com a atual MPB trazem aquela marca de origem, e surgem já como o canto de um povo em formação na Capital do Império.
A emergência dessa categoria social decorre dos processos de desagregação do modo escravista de produção de matérias-primas e da emergência do modo capitalista de produção de mercadorias, [1] levando à liberação da mão-de-obra escrava, sua transformação em força de trabalho assalariada, porém não-qualificada, deslocamento e concentração desta população nas áreas urbanas, sobretudo capitais provinciais e Corte, onde se manteve a preservação e recriação de formas culturais de origem, inclusive a música. Ali foram combinado lundu e modinha pelos artistas de “pau de corda”, resultando, ao longo do tempo, o maxixe, um ritmo erótico, no dizer dos comentaristas da época. [2]
O declínio da exportação de fumo e cacau na Bahia e café, na área fluminense do Vale do Paraíba, é fator que remonta mais ou menos a 1870, citado [3] como responsável pelo deslocamento da mão-de-obra escrava e, mais tarde, não-escrava para o Rio. É na Corte que o contingente da população negra, transformado pela força de lei de meio de produção em fator de produção, ou seja, mão-de-obra assalariada, vai tentar integrar-se à economia nacional, buscando a possibilidade de trabalho urbano compatível com sua baixa qualificação:
a estiva, na zona portuária da Saúde. [4] Mais tarde chegam ao Rio, já Capital da República, 1898, “os primeiros ex-combatentes de regresso da Campanha de Canudos, que iriam constituir, com suas cabrochas, a primeira Favela da cidade”. Na bagagem pouca, esta população colorida trouxera da Bahia a movimentação, o ritmo e o modo de cantar; as festas religiosas e aquelas de pretexto religioso; sobretudo, a disponibilidade para o festejo de modo ruidoso, lascivo, exótico ou erótico – adjetivos aplicados conforme a intenção do comentarista. É no ritmo e modo de cantar e
dançar desta população que Chiquinha Gonzaga inspirou-se para a criação da marcha Ó abre alas. [5]
O carnaval, festa do povo, refletiu, no Rio, do final do século e princípio do Século XX, a estratificação social que se formava resultante dos processos já mencionados, bem como expressava as diferentes formas pelas quais as classes populares se divertiam; cordões e ranchos, marchas, marchas-ranchos, batuques e estribilhos eram cantados nos diferentes carnavais: “o dos pobres na Praça Onze, dos remediados na Avenida Central e dos ricos nos corsos com automóveis”. [6]
A toda festa a vertente negra, sobretudo baiana, contribuía significativamente. Instalados na “cidade Nova e adjacências, bairros da Saúde, Estácio de Sá e Lapa”, [7] daí saiu o primeiro rancho carioca (1893) “Rei de Ouro”, fundado por Hilário Jovino Ferreira, que no princípio do século já era Tenente da Guarda Nacional. Refletindo ele próprio e outros elementos um processo de mobilidade social que se observava segmento da população.
A ação propiciatória à efervescência musical dos alegres baianos de origem negra esteve reservada à mulher: Seja parceira no erotismo do batuque, dança lasciva, como queria Alfredo Sarmento, onde “encenava -se a estória de uma virgem a quem são explicados os prazeres misteriosos do casamento”. [8] Sejam as respeitabilíssimas Tias baianas, elas sim ” úteros” geradores do samba. Sérgio Cabral aponta: “Tia Sadata, fundadora do Rancho da Sereia, Tia Dadá, Tia Gracinda, Tia Amélia, mãe de Donga, Tia Presciliana de Santo Amaro, mãe de João da Bahiana, e, a mais famosa, Tia Ceata”. [9]
Interessante notar que o tratamento “Tia” é um misto de respeito e carinho usado para designar figuras que, pertencentes ao Candomblé, sobretudo de origem em Angola ou Congo, têm conforme preceitos religiosos, um certo grau ou muitos anos de iniciação; [10] é um tratamento próximo ao de Mãe (Yalorixá). Tia Ceata deveria ser uma das yalorixá, aliás é quase nesta posição que Tinhorão a apresenta [11] com o nome de Omim (Água). Portanto, as festas que em sua casa eram realizadas, ao que tudo indica, tinham também propósito ou pretexto religioso.
A figura de Tia Ceata surge nos textos como realmente figura propiciatória, aquela que cria condições para que ajam as forças da Natureza, tal qual age a Mãe de Santo, Yalorixá, no culto africano: sua ação não é de criar ou gerar, ela própria, mas sim a de favorecer, de participar com seu instinto, “força de axé” e conhecimento do ato de criação.
Assim nasce o samba em casa de Hilária Batista de Almeida, baiana chegada ao Rio por volta de 1870, com tabuleiro na 7 de Setembro e, mais tarde, casada com o médico João Batista da Silva. Ela realizava festas em sua casa, possivelmente, associadas às comemorações religiosas, e nelas participavam “os bambas” da época: Caninha, Sinhô, Donga, Heitor dos Prazeres, Marinho que Toca, Mauro de Almeida, João da Bahiana e outros.
A figura feminina, da baiana, exatamente pela dança e roupas, tinha um destaque especial nestas festas. “Com seus balangandãs, camisus, cabeção de crivo, anáguas de crivo gomadas. Os calcanhares bem arranhados com cacos de telha… se o samba fosse de partido alto as veteranas ficavam perto dos tocadores, raiadores e das cantoras de chulas, estas com seus panos da costa ou xales de rica confecção.
Assim que acabava a parte cantada, as baianas davam início à dança, rodando três vezes em torno dos músicos, fazendo o miudinho, mexendo os quadris, e deixando cair os xales até a cintura. O sapateado das baianas arrancava aplausos.” [12]
A baiana, figura feminina que representa o próprio país, era então, na festa, o centro, com seu gingado e dança, aliás do mesmo tipo que aquela descrita como lasciva e erótica. É interessante notar, entretanto, que na cultura negra de origem, sobretudo na dimensão religiosa, encontra-se a mulher representada parceira do homem na luta, na guerra, ao lado da mulher-mãe. O reconhecimento das diferentes dimensões da mulher, em igualdade de condições com o homem, talvez seja um elemento diferenciador na cultura negra que ajude a explicar este assumir de uma dança que, para o europeu, parecia erótica.
Por outro lado, a disponibilidade de Tia Ceata proporcionando as “intermináveis festas” das quais fala o comentarista, encontra-se igualmente refletida na natureza das festas religiosas – em geral três dias – além de ser, ao que tudo indica, um traço comum às pioneiras do samba de pagode. [13] “Lindaura Rocha Miranda – uma das mais antigas damas da Portela, primeira a pisar um palanque de Escola de Samba (faz de) sua casa um eterno pagode, nunca está fechada p’ra ninguém. A hora que chegar, tá bem chegado.” [14]
A figura feminina marca assim a história do samba, permitindo que se diga mesmo de um “grande útero” propiciatório a este gênero típico de música popular. Assim também as escolas de samba e os ranchos tiveram suas fundadoras ou damas ilustres, inclusive Tia Ceata, e outras citadas por Beth Carvalho. [15]
“Chiquita, primeira compositora do Cacique de Ramos, Zica, mulher de Cartola e líder das pastoras; Dona Ivone Lara, compositora desde os doze anos e a primeira a enfrentar a ala de compositores, desfila na ala das baianas do Império Serrano; Paula do Salgueiro, da Mangueira; Tia Vicentina, Doca e Eunice, Portela; Clementina, Tia Ester, a Ceata da Portela, e a própria Tia Ceata”. São mulheres do povo, cujas estórias de vida escrevem parte da história do canto popular sobre o cotidiano triste e alegre, da vida na cidade, da sobrevivência do morro e fora dele.
Mas também as marchas, tida por Tinhorão [16] como ritmo mais ao gosto da classe média, teve uma mulher – Chiquinha Gonzaga - (1842-1934) como “mãe”. Aqui, entretanto, trata-se de uma outra dimensão do sujeito feminino: é a mulher que, rompendo com os papéis que lhe reservava a sociedade da época (casamento, filhos e anonimato), assume sua própria vida como obra de criação, construindo-a apesar dos preconceitos e conceitos da época. Branca, educada à européia, compositora e maestrina, Chiquinha em nada se assemelha às Tias-Mães do samba. Sua estória, e sua liberdade enquanto mulher, é traçada no caminho da criação da MPB, criação da marcha, democraticamente assumida pelo povo e classes populares.
Ela foi, a seu tempo, o que Dona Ivone Lara dizia ser proibido: compositora. Esta só aparece na década de 60, quando na MPB se registra um movimento de busca às origens populares. Dona Ivone dizia em entrevista, muito tempo depois,” compositora mulher não pode, né?”. [17]
Em síntese, na origem da MPB a figura feminina assume duas dimensões complementares e não exclusivas: a de propiciar e de criar, exemplificadas, grosso modo, pelas figuras da negra Tia Ceata e da branca Chiquinha Gonzaga.
Ambas as dimensões refletindo posturas aproximadas ao sujeito do discurso. Há porém, no conceito da MPB, a representação do feminino como construção estereotipada, que se remete às condições históricas e sociais de cada época e situação social.
Neste sentido é que se coloca a figura feminina como “construção de época” assim como o homem que a ela se relaciona. O importante a ressaltar, entretanto, é que, para a mulher, este estereótipo, idealização masculina sobre a contraparte, é tomado como um dos espelhos em que a mulher se reflete, buscando identificação, com maior ou menor “preocupação” em moldar-se, conforme a classe social e a própria postura individual.
A fase de identificação feminina – com a mãe durante a infância – vai se completando na adolescência e, não raro, na idade adulta, por esta dimensão social do tipo feminino construído pelo homem. Há, neste sentido, um moldar-se ao padrão, à expectativa, uma correspondência muda à mulher, representação cultural e ideológica masculina. Tais são os tipos femininos buscados neste trabalho: objetivações estereotipadas que correspondem a representações masculinas idealizadas da contraparte.
Sujeito compõe e musa inspira Diferentemente da “atitude propiciatória das primeira mulheres da MPB, a mulher-musa do canto popular é sobretudo uma construção simbólica masculina, ainda que, em muitos casos, esta mulher tenha existido na estória do seu criador, sua imagem no canto é idealizada numa representação que permite comunicar, não o específico, a autobiografia,
mas a condição, generalização, simbolização.
Exemplos desta situação existem muitos na MPB: Geraldo Pereira, eterno amante de sua “nêga” Isaura, Roberto Carlos e o canto para a mãe “Lady Laura”, Lupicínio Rodrigues e sua dor-de-cotovelo pela Iná, e assim muitos. [18]
A musa inspiradora torna-se objeto-motivo que sugere o canto, transcendendo este a situação particular em que foi criado. É a partir deste processo de generalização que se vai encontrar a figura feminina representando dimensões de processos em curso na sociedade brasileira, os quais, obviamente, a transcendem na medida em que se referem a um dado momento histórico e relações de classe.
Uma das músicas “clássicas” do repertório popular brasileiro tem esta origem: Maringá, de Joubert de Carvalho. Conforme o próprio autor, a cabocla Maringá não existiu, mas representou a calamitosa situação da seca nordestina. [19] Da mesma forma a cabocla Caxangá de Catulo, 1913. São figuras femininas que representam a pureza e beleza do sertão, no saudosismo rural da década de 20, como p. ex. Chuá, Chuá, de Pedro Sá Pereira, 1926, ou representam a tristeza da partida, como em Maringá, ou a aridez e desolação da seca, como Maria do Maranhão, Carlos Lyra, 1962. Seja o êxodo rural, seja a migração nordestina, trata-se de processos sociais que transcendem ao feminino, mas que o compositor representa colocando a mulher na posição de símbolo, sujeita, ela própria, àquelas condições, e assim representando e comunicando um conteúdo além do feminino.
Todavia, a cabocla Maringá é a “retirante que mais dava o que falá” cuja ausência “deixava o sertão triste”; da mesma forma as outras figuras desta fase rural dos anos 20 são trabalhadas a partir de categorias e atributos como “eterno feminino”: a beleza, formosura, singeleza, etc.
Portanto, encarnam ao mesmo tempo a concepção de mulher do autor e uma dada dimensão de processo social à qual está sujeita.
Tem-se, portanto, a mulher-motivo, musa e símbolo, dimensões que existem decorrentes da colocação da mulher como objeto de desejo, inacessível ao sujeito, e por isso mesmo motivando, inspirando, sugerindo, e como tal ainda representando figurativamente condições que a transcendem.
Se a construção da mulher-símbolo, representação, se dá pela apreensão, por parte do sujeito, de uma dada dimensão ou condição do processo histórico-social, trata-se de uma construção ideológica cuja existência estereotipada é inscrita nos processos de transformação da sociedade brasileira. Por outro lado, a musa, o mesmo objeto inacessível do desejo, tem sua existência marcada ao nível dos processos psicológicos afetivos, não menos ideológicos, porém pessoais, particulares. Ambas as dimensões, social e psicológica, terminam entretanto por resultarem em estereótipos cuja compreensão ultrapassa a estória do sujeito, atingindo a história do canto popular brasileiro. Ambas as dimensões expressam modos distintos de manipulação simbólica e portanto também ideológica, do mesmo objeto de desejo: a mulher.
A construção de estereótipos femininos de modo geral, e na MPB em particular, pode ser entendida desta forma, pela confluência das duas dimensões ideológicas apontadas: a psicológica, cultural, e a de classe.
Ambas evidentemente contidas na história da formação social.
Os estereótipos, como resultantes de processo de manipulação simbólica do objeto-mulher, diferem na medida em que se reportam a posições de classe diferenciadas, linguagens e condições sociais e histórias diferentes. Aproximam-se na medida em que reproduzem a perspectiva masculina na manipulação psicológica, cultural, no trato do objeto do desejo-mulher.
É neste sentido que o estereótipo feminino mais freqüente na MPB é o da mulher amada, amante, idealizada, tanto na louvação do amor-afeto -sexo, quanto representando a contraproposta: o ódio, abandono. O conteúdo do discurso difere, pela inscrição ao nível social, como foi dito, mas há uma irrefutável aproximação que trai a dimensão cultural masculina, p. ex.: o lirismo de Pixinguinha em Rosa, 1914, “Tu és, divina e majestosa…”não seria comparável ao de Ivan Lins em Madalena, 1968,”… o meu peito percebeu que o mar é uma gota, comparado ao pranto seu…”?
Na linguagem das primeiras décadas da MPB (10 a 30), a mulher amada é uma construção sobretudo estética, comparável à flor (amorosa, perfumosa, formosa) à rosa, como em Catulo e Pixinguinha, dentre inúmeros outros exemplos.
Coloca-se a mulher como algo inatingível, distante, inacessível. O desejo está nas entrelinhas do verso dirigido a um ser que não é de carne-e-osso, real, cotidiano, mas evanescente imagem doce, pura, distinta, discreta, ardente musa inspiradora mal adivinhada pelo autor.
O requinte do verso lembra o beletrismo criticado pelo modernismo de 22. Enfim, obras para serem cantadas em saraus e serenatas; lirismo delirante ao ritmo da canção, e valsa, para consumo, talvez, da classe média. À moral repressiva da época talvez se possa imputar o abuso das metáforas.
Neste tipo de mulher “a beleza é fundamental”, como diria Vinícius muito depois, sendo a beleza efêmera, como fez notar Catulo (Talento e formosura, 1904-1909), enquanto inteligência e sensibilidade, atributos masculinos, são perenes. A mulher permanece, pois, em desvantagem com referência ao homem, mesmo nas qualidades cobiçáveis e cortejadas.
A inacessibilidade e beleza permanecem no estereótipo da mulher amada ao longo de toda a MPB, independentemente das condições sociais em que se situa o sujeito. É interessante notar que a sensualidade, componente “de raiz” da MPB, fica implícita ao texto, como atributo presente, porém não mencionado, ou, quando feito, mascarado como carinho. A mulher amada é carinhosa e formosa e totalmente disponível. Como dizia Vinícius, “Formosa, não faz assim, carinho não é ruim, mulher que nega o que não é para negar, tem uma fibra de menos no seu coração..”
A construção do estereótipo da mulher amada está descrita de forma quase completa em Escultura, Adelino Moreira, 1957. Compõe o sujeito “de retalho em retalho” uma escultura que é a mulher amada, figura esta que combina o sorriso de Gioconda, glamour de Du Barry, voz de Dulcinéa, malícia de Frinéia, pureza de Maria. O resultado deste trabalho é a idealizada como objeto inacessível de desejo, disponível, parceira, dentre cujas qualidades e atributos “de um eterno feminino”, produto e manipulação da cultura masculina, devem ser acrescidos: devotamente, renúncia em função do homem.
Este estereótipo feminino está presente em A volta do Boêmio, Adelino Moreira, 1956 – renúncia; Amélia, Ataulfo Alves, 1941 – devotamente, sacrifício; Marina, Dorival Caymi, 1947 – obediência; Disritmia, Martinho da Vila – disponibilidade; Garota de Ipanema, Tom Jobim e Vinícius, 1964 – “coisa mais linda, cheia de graça”.
Como se pode observar, diferem as linguagens, as condições sociais e históricas e de classe em que se podem situar os criadores deste estereótipo. Todavia, a obra construída, a representação do objeto, é comum, aproximada, servindo possivelmente como modelo para a mulher, que assim procura corresponder às qualidades e atributos que lhe define o homem. Note-se a respeito que Dolores Duram, 1957, lamentava ao som de samba-canção, Noite do Meu Bem, “não ter a pureza que queria dar ao homem…”.
Por outro lado, este objeto feminino elaborado na imaginação não resiste ao cotidiano. Quando ganha a dimensão do real, desfaz-se a beleza e a idealização e o cantor passa ao relato de uma outra mulher objeto-construído, um outro estereótipo: a falsa, interesseira, que se utiliza do homem como valor-de-uso para sua sobrevivência.
Todavia, utilizar-se do homem para sobreviver só é possível quando a mulher-objeto é vista sob novo ângulo. Não mais o inacessível ser desejado, mas o objeto possuído, conquistado, dependente, sobretudo financeiro.
A falsidade e o interesse feminino pelo dinheiro estão presentes no canto daqueles que enalteceram também a boemia, a malandragem como postura ante a sociedade competitiva em formação, ou filosofia de vida, p. ex. Geraldo Pereira, bem como daqueles que fizeram da música uma opção profissional, p. ex. Sinhô, assim como de outros que combinaram profissões como jornalismo, a condição de operário com a de compositor, Orestes Barbosa, Bide. Neste sentido, não se pode entender o estereótipo feminino da falsa-interesseira como um simples “desabafo de malandro”, muito embora a pressão econômica em que sobrevivem as classes populares esteja presente na maioria das peças onde ela aparece.
Todavia, trata-se de um estereótipo construído na contradição do sujeito. Assim como revela Sinhô, Pé de Anjo, 1917, “a mulher e a galinha são dois bichos interesseiros: a galinha pelo milho, a mulher pelo dinheiro…” mas ele mesmo diz, em Gosto que me Enrosco, “Deus nos livre das mulheres de hoje em dia/desprezam o homem só por causa da orgia… mas o homem com toda fortaleza/desce da nobreza/e faz o que ela quer…”.
Há pois uma atitude dúplice diante da mulher-parceira (objeto idealizado /objeto odiado) que se revela também no trato com a relação financeira:
ao mesmo tempo em que a dependência econômica da mulher é um elemento a mais na posse, ela é apontada como um risco de falsidade na relação amorosa. Como diz Geraldo Pereira, Escurinha, 1945, “Escurinha tu tem que ser minha de alguma maneira/te dou meu boteco /… sai disso bobinha/só nessa cozinha levando a pior…”. O dinheiro está sendo usado como argumento de conquista, mas ao mesmo tempo pode encerrar um risco de perda, de falsidade, na medida em que pode se tornar justificativa da relação. Diz ainda Geraldo Pereira, Bolinha de Papel, 1945, “só tem medo de falsete/mas adoro a Julieta… mas só não quero que me faça de bolinha de papel/tiro você do emprego/dou-lhe amor e sossego/vou ao banco tiro tudo p’ra você gastar…”. A insegurança diante da natureza da relação com o objeto possuído aparece também em Orestes Barbosa, Caixa Econômica, 1933, “Você quer comprar sossego/me vendo morrer num emprego/p’ra então gozar/… eu não sou livro de cheque p’ra você descontar”.
Trata-se enfim de um jogo, como diz Ismael Silva, Se Você Jurar, “A mulher é um jogo/difícil de acertar/E o homem como bobo/não se cansa de jogar…”.
Exemplos são muitos ao longo de toda a MPB, de Sinhô a João Bosco e Aldir Blanc, Incompatibilidade de Gênios, 1976. Em geral relatando, no cenário da precariedade das condições econômicas das classes populares, o conflito doméstico, onde a mulher esposa, “nêga” – teúda e manteúda -, objeto possuído, adquire o estereótipo da falsa interesseira. Assim aparece em Wilson Batista, 1945; Zé Kéti, 1964; Bide e Marçal, 1941. Ao mesmo tempo, dela é esperada a conformação ante o inexorável, a compreensão ante a boemia e sobretudo ante a infidelidade no carnaval.
Assis Valente, Camisa Listada, 1937, Fez Bobagem, 1942; Ary Barroso, Camisa Amarela, 1937, dente outros, assumindo o discurso feminino, descrevem a atitude compassiva que integra o estereótipo da mulher- objeto-possuído, p. ex.: “despertou mal humorado/quis brigar comigo/que perigo/mas não ligo/o meu pedaço me domina/me fascina/ele é o tal/por isso não levo a mal” ; “Meu moreno fez bobagem/aproveitou minha ausência/e botou mulher sambando no meu barracão/E eu bem longe me acabando/trabalhando p’ra viver”.
A passagem do objeto inacessível (amada) para o objeto possuído (nêga, esposa), seja de que forma for, é apontada na MPB como um jogo (Ismael Silva) ou uma artimanha feminina (Pedro Caetano, Botões de Laranjeira, 1942) onde ela, a mulher, detém o controle e mais se beneficia. O casamento torna-se então um elemento construtor dos estereótipos femininos, na medida em que, através dele, explica-se a condição de “pertencer a alguém”, a condição de posse do objeto que, no discurso masculino da MPB, caracteriza destinos femininos típicos:
a mãe, esposa, “outra”, mulher solteira, a de muitos amores, etc.
Estes destinos estereotipados estão presentes na MPB de todas as décadas em discursos diferenciados pela linguagem que, em certo sentido, trai a origem social do sujeito, referentes à mulher esposa, companheira, das classes populares. A ausência da ligação de posse é cantada como um mal, identificada ao desespero e solidão.
Exemplos típicos seriam Buquê de Isabel, Sérgio Ricardo, 1958, “Isabel fez um sorriso aflito, p’ra que o buquê?”; Jair Amorim, Conceição, 1956; Lupicínio Rodrigues, Maria Rosa, e tantas outras.
A ambição feminina pela mobilidade social, representada pela “busca do asfalto” abandono do morro, etc. é sempre penalizada na música, e está associada, nas entrelinhas do verso, à prostituição, especialmente na década de 50, que se caracteriza pelo canto da fossa, do samba- canção existencial e de dor-de-cotovelo, enquanto a sociedade brasileira passava por intenso processo de mobilidade social e urbanização provocado pela industrialização. Os elementos culturais constitutivos deste discurso estão presentes ainda na MPB; veja-se Aldir Blanc e João Bosco, Miss Suéter, 1976; Martinho da Vila, Iaiá do Cais Dourado; Chico Buarque, Quem te viu, quem te vê.
Os estereótipos femininos comentados até agora têm em comum a perspectiva do sujeito homem relatando uma realidade que lhe é externa, e com a qual, objeto do canto, ele trava uma relação de desejo e posse.
É nesse sentido que o sujeito relata a mulher na MPB. É assim que Noel, 1937, diz – a Lindaura, sua esposa – Você vai se quiser (trabalhar) “mas não venha dizer depois/que você não tem vestido/e que o jantar não dá p’ra dois”. É também desta perspectiva que Martinho da Vila descreve, em 1971, em Menina-Moça, etapas da vida feminina: namoro, noivado, casamento, desquite.
É também desta perspectiva externa, por assim dizer, que são descritos os tipos da baiana, mulata, loura, normalista, operária, funcionária pública, bailarina etc. A todos eles correspondem
“qualidades” ou “defeitos”, enfim atributos diferenciadores: a mulata é assanhada, sensual; a loura, um convite; a normalista, linda; operária, obediente; funcionária pública é relapsa; bailarina é quase prostituta, enquanto mãe, uma categoria à parte, encerra todas as virtudes.
Seria difícil nos limites deste texto trabalhar todos os estereótipos femininos da MPB. É importante acentuar, contudo, que eles são construídos com base em traços distintivos, físicos, sociais, parentesco, etc., ou seja, atributos tomados pelo cantor como elemento de construção da mulher-objeto de seu canto.
Este procedimento está presente ao longo de toda a MPB, em que pese à linguagem apresentar diferenças que a situam em momentos históricos distintos.

Neusa Meirelles Costa é doutora em Ciência Política pela UNICAMP e professora do Mestrado em Comunicação Social do IMS-SBC.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Adoniran, o eterno sambista das malocas

Há cem anos aparecia o autor de “Trem das Onze”, porque “pobre não nasce”

HERBERT CARVALHO


Busto na Praça Don Orione, em São
Paulo / Foto: Herbert Carvalho

Se o senhor não está lembrado, dá licença de contar. Seu nome era João Rubinato. Sétimo e último rebento – como ele mesmo diria – de um casal de imigrantes italianos do Vêneto, nasceu em Valinhos (SP), então distrito de Campinas, no dia 6 de agosto de 1910, conforme consta na certidão de nascimento e na carteira de identidade daquele que se tornaria nacional e internacionalmente conhecido pelo nome artístico de Adoniran Barbosa.

A data centenária está sendo comemorada principalmente nos bairros da cidade de São Paulo imortalizados em seus mais de cem sambas, ainda que não seja isenta de controvérsias, como outros aspectos de sua vida: para alguns ele teria sido “envelhecido” dois anos de forma a poder colaborar no sustento da família, já ao tempo da escola primária, ajudando o pai a carregar e descarregar vagões da São Paulo Railway em Jundiaí, uma das pontas da estrada de ferro construída pelos ingleses para ligar o interior paulista ao porto de Santos.

Nascido e criado numa época em que as ferrovias eram predominantes, Adoniran eternizaria esse meio de transporte em seu maior sucesso, Trem das Onze, reservando profeticamente para o automóvel o papel de vilão, como nas músicas Iracema (atropelada ao atravessar na contramão a Avenida São João) e Tiro ao Álvaro (“Teu olhar mata mais que atropelamento de automóvel”).

Sempre reservado a respeito da própria intimidade, Adoniran cortava as especulações sobre seu nascimento com uma de suas frases típicas: “Não nasci, porque pobre não nasce. Aparece...” A pobreza, de fato, marcou a vida do menino rebelde expulso do grupo escolar, no terceiro ano, apenas com os rudimentos das letras e dos números.

A partir daí ele trabalharia sucessivamente como entregador de marmitas e varredor, ainda em Jundiaí, e depois em Santo André, no ABC paulista, como tecelão, pintor de paredes, encanador, serralheiro, metalúrgico e garçom. Nesta última função, em 1926, serviu à mesa na residência paulista do ministro da Guerra, Pandiá Calógeras.

“Tanta coisa que eu fui e só deu pra fazer samba. Fazia samba no caminho, andando. Vivia batucando, mandavam logo embora. Eu só queria fazer samba”, confessaria Adoniran em 1972 no programa “MPB Especial”, da TV Cultura de São Paulo, criado por Fernando Faro, autor também de “Ensaio”, na mesma emissora. Ambas as séries resultaram na monumental coleção de CDs e livros intitulada A Música Brasileira deste Século por Seus Autores e Intérpretes, editada no ano 2000 pelo Sesc SP em parceria com a Fundação Padre Anchieta, cujo volume 1 é encabeçado precisamente por Adoniran Barbosa.

Nome bíblico

Em 1932 João Rubinato chega à cidade em que viveria pelos 50 anos seguintes, até sua morte, em 1982. Com cerca de 1 milhão de habitantes, a São Paulo da década de 1930, com seus primeiros arranha-céus, simbolizava o país que deixava de ser agrário e rural para se urbanizar e industrializar. Na multidão apinhada nos bondes ou que andava apressada pelas ruas Direita e São Bento destacavam-se tanto o português macarrônico dos imigrantes italianos, satirizado pelo humor de Juó Bananére, como a fala estropiada dos interioranos recém-chegados, os caipiras retratados por Cornélio Pires. Dessas vertentes nasceriam obras-primas como Samba Italiano – no idioma de Dante, que ouvia quando criança – e Samba do Arnesto, em cuja casa “nóis fumo e não encontremos ninguém”, emblemático da arte de falar errado (como ele definia), que se tornaria a marca registrada do compositor.

Fazer samba, porém, ainda era um horizonte distante para o jovem que passou a ganhar a vida entregando “pras madamas” os tecidos de uma loja da Rua 25 de Março, enquanto acalentava o sonho de ser artista. E o caminho para a consagração pública, na época, passava obrigatoriamente pelo rádio, que se firmava como o grande veículo de comunicação de massa desde que o presidente Getúlio Vargas autorizara seu financiamento por meio da publicidade.

Foi na Rádio Cruzeiro do Sul, nas imediações da Ladeira Porto Geral – onde vivia, em um quarto de pensão – que João, após vários gongos em um programa de calouros, conseguiu chegar até o fim cantando o samba Filosofia, de Noel Rosa, o mais célebre dos compositores cariocas da primeira metade do século passado, cujo centenário se comemora também neste ano. O feito lhe rende um contrato para cantar em um programa semanal de 15 minutos e o leva à decisão de trocar de nome. “Se eu soubesse que ia ser radioator, teleator e artista de cinema não mudava meu nome. Ficava João Rubinato mesmo. Mas cantar samba com nome italiano não dá”, justificaria. Sobre esse episódio, um de seus biógrafos, Ayrton Mugnaini Jr., conta no livro Adoniran (Editora 34): “Ao saber que João Rubinato queimava o cérebro em busca de um nome artístico incomum e marcante, um colega de boemia, Adoniran Alves, lhe propõe: ‘Por que você não adota meu nome, João?’ ” A sugestão de usar o nome que aparece originalmente na Bíblia como de um dos ministros do rei Salomão foi aceita e completada com o sobrenome emprestado de um sambista carioca famoso na época, morto precocemente, Luiz Barbosa (1910-1938).

Artista multimídia

O ano de 1934 assinala o nascimento do compositor Adoniran Barbosa, com a marchinha Dona Boa, feita em parceria com o carioca J. Aimberê. Gravada por Raul Torres (1906-1970) – um dos pioneiros da música caipira feita na cidade grande –, foi a vencedora do concurso de carnaval da prefeitura de São Paulo, embora estivesse a anos-luz de distância das composições maduras que Adoniran faria 20 anos mais tarde. Classificada por ele mesmo como “uma porcaria”, rendeu-lhe a quantia – significativa na época – de 300 mil-réis, que torrou bebendo com os amigos em uma única noite. Garantiu-lhe, também, um programa exclusivo na Rádio São Paulo, a mesma que abrigava em seu cast a dupla Alvarenga e Ranchinho, a mais popular e ousada da época, por suas sátiras de caráter político. O sucesso encoraja Adoniran a pedir a mão de Olga Krum, bela e jovem descendente de alemães. O casamento dura menos de um ano, mas deixa como fruto a filha Maria Helena Rubinato, que seria criada no Rio de Janeiro por uma irmã de Adoniran. Hoje é sua única descendente direta, já que não houve filhos na união com Mathilde de Luttis, sua companheira por 40 anos, desde 1942, para quem compôs Prova de Carinho, comovente oferta de uma aliança feita com a corda de um cavaquinho.

A inclinação natural de Adoniran pela composição, entretanto, seria postergada por mais de uma década, cedendo lugar, de maneira compulsória, ao intérprete de músicas alheias, gravadas em 1936 em discos de 78 rotações para o selo Columbia. Como na época o compositor não passava de mero acessório para cantores de sucesso como Francisco Alves, ele decide apostar na própria voz, ainda livre do timbre roufenho que permaneceria na memória dos que o ouviram no final da vida. Mas o reconhecimento público não iria para o cantor e só se manifestaria a partir de 1941, quando Adoniran se transfere para a Rádio Record – onde permanece até sua aposentadoria em 1972 – e passa a atuar como ator cômico, além de locutor e discotecário. Na Record, Adoniran conhece o escritor e roteirista Oswaldo Molles, especialista em linguagem popular, que além de seu futuro parceiro em vários sambas criaria para ele personagens radiofônicos como Zé Cunversa e Charutinho, este último o grande sucesso do programa humorístico “História das Malocas”, nos anos 1950.

Como o pagamento na rádio é parco e incerto, Adoniran estreia como ator de cinema em 1945, vivendo o personagem Moisés Rabinovitch, na comédia musical Pif-Paf; no total ele atuaria em 15 filmes, desde O Cangaceiro, de Lima Barreto, primeira fita brasileira a fazer sucesso no exterior, em 1953, até pornochanchadas como A Superfêmea e Elas São do Baralho, nos anos 1970. Verdadeiro artista multimídia, como hoje se diria, Adoniran trabalhou também no circo e em telenovelas de sucesso, como “Mulheres de Areia”, da extinta TV Tupi, em que fazia o papel de um pescador. Gravou ainda comerciais para a TV, como aquele de uma marca de cerveja em que dizia o célebre bordão “Nóis viemos aqui pra beber ou pra conversar?”, que resultaria na marchinha Nóis viemos aqui pra quê?

Trem carioca

Assim como para o Brasil – que veria a construção de Brasília, o aparecimento da Bossa Nova e da indústria automobilística e a conquista do primeiro campeonato mundial de futebol –, a década de 1950 foi decisiva para Adoniran Barbosa, que se transformaria em um dos ícones da cultura paulista. Deixando de lado o estilo de Noel Rosa, que até então imitava, e colocando nas frases e melodias o ambiente das ruas e das malocas que ele próprio ecoava nos programas de rádio, entre 1951 e 1953 Adoniran compõe, entre outros, dois de seus sambas imortais, Saudosa Maloca eSamba do Arnesto, que se tornam sucessos imediatos nas interpretações dos Demônios da Garoa, marcadas pelos característicos quais-quais-quais e cariguduns. Reconhecidos pelo Guinness Book of Records como o grupo vocal-instrumental de música popular de mais longa carreira ininterrupta (desde 1943), os Demônios plasmam sua imagem na de Adoniran e vice-versa, numa simbiose compositor-intérprete tão perfeita quanto havia sido a de Noel/Aracy de Almeida ou seria a de Lupicínio Rodrigues/Jamelão.

A dobradinha Adoniran/Demônios explodiria novamente em 1965 com a gravação de Trem das Onze, que apesar de escolhida pelo público como a música que mais tinha a “cara” de São Paulo, em votação realizada pela Rede Globo no ano 2000 (desbancando Sampa, de Caetano Veloso), fez sucesso inicialmente como campeã do carnaval carioca, justamente no ano do 4º Centenário do Rio de Janeiro.

“Fazia tempo que não havia um samba legal no Rio e quando apareceu Trem das Onze foi aquele delírio. O doutor Carlos Lacerda, que era o governador, me deu dois milhão de cruzeiro de prêmio”, contou Adoniran ao programa “MPB Especial”. Extrapolando o eixo Rio-São Paulo, Trem das Onze torna-se sucesso nacional em 1973, na voz de Gal Costa. Na Itália, gravada por Mina com o nome de Figlio Unico, esteve entre as cem músicas mais tocadas nas décadas de 1960/70.

Voz da cidade

Apesar de ter composto todos os seus principais sucessos entre 1951 e 1972, foi apenas em 1974 que Adoniran Barbosa gravou seu primeiro LP, produzido por João Carlos Botezelli, o Pelão, posteriormente coordenador da mencionada coleção do Sesc SP/TV Cultura. Após tantas décadas de frustrações devido à falta de reconhecimento, o repentino sucesso de público e crítica no outono da existência – a exemplo do que ocorreu com Cartola, Nelson Cavaquinho e Clementina de Jesus, entre tantos outros geniais artistas populares que passaram no limbo a maior parte da vida – não o entusiasma nem altera seu jeito simples de viver. “Só depois de velho vieram dar valor à minha música. Por que não fizeram isso 20 anos atrás?”, desabafou em entrevista ao jornal carioca O Pasquim.

Vivendo no subúrbio distante de Cidade Ademar, na zona sul da capital paulista – longe dos bairros que cantou, mas onde nunca morou, como Brás, Mooca, Bexiga ou Casa Verde –, Adoniran passa os últimos anos de sua vida curtindo o cachorro Peteleco (que usaria como pseudônimo em algumas composições e para quem pagava filés nos restaurantes) e construindo com pedaços de lata e madeira pequenos objetos de ourivesaria popular, como rodas-gigantes, trens e carrosséis.

Foi com uma bicicleta em miniatura feita por ele mesmo que Adoniran retribuiu o gesto de Antonio Candido, um dos intelectuais brasileiros de maior prestígio, que, convidado a assinar um texto na contracapa do segundo LP do compositor, escreveu, em 1975: “Lírico e sarcástico, malicioso e logo emocionado, com o encanto insinuante de sua antivoz rouca, o chapeuzinho de aba quebrada sobre a permanência do laço de borboleta de outros tempos, ele é a voz da cidade”.

O professor emérito de teoria literária da Universidade de São Paulo resumia, desse modo, o que outros representantes do universo cultural paulista e brasileiro já sabiam há muito tempo, como os poetas Vinicius de Moraes e Hilda Hilst, que foram seus parceiros, ou o zoólogo-sambista Paulo Vanzolini. O autor de Ronda e Praça Clóvis, entre outras canções que também retratam a metrópole paulistana, não titubeia em ceder ao amigo, que homenageou num samba intituladoSeu Barbosa, o título de principal cronista musical da cidade: “A música que melhor representa São Paulo é qualquer uma do Adoniran. Quando na letra de Apaga o Fogo, Mané a Inês sai para comprar um pavio de lampião, ele está dando uma definição que vale por sete volumes de sociologia sobre a periferia. Adoniran era um gênio”. “Ele conseguiu dar humor e beleza a São Paulo, uma cidade bastante carente”, acrescenta o maestro Júlio Medaglia.

Após ser brindado em 1980 com um disco comemorativo de seus 70 anos, que traz Elis Regina cantando Tiro ao Álvaro– entre outros convidados do porte de Djavan, Clara Nunes e Gonzaguinha –, os muitos cigarros Yolanda fumados desde a adolescência o conduzem no início de novembro de 1982 ao Hospital São Luiz, onde morre de enfisema pulmonar às 17h15 do dia 23. Com o caixão coberto pela bandeira da escola de samba Colorado do Brás, que o homenageara no carnaval daquele ano, foi sepultado no Cemitério da Paz, no bairro do Morumbi, ao som de Trem das Onze entoado durante mais de 30 minutos seguidos pelas 500 pessoas presentes. Faltou, entretanto, a bandeira do Corinthians, time que foi sua grande paixão e que homenageou na música Coríntia – Meu Amor é o Timão.

Palhaço triste

Durante alguns anos, as miniaturas que construiu, seus objetos pessoais e outros referentes à preservação de sua memória foram reunidos no Museu Adoniran Barbosa, que funcionou dentro da antiga caixa-forte de um banco desativado na Rua XV de Novembro, no centro velho de São Paulo. Esse acervo está sendo digitalizado para figurar no website oficial de Adoniran, organizado pela filha Maria Helena e pelo sobrinho Sérgio Rubinato. No bairro do Bexiga há uma rua batizada com seu nome, e seu busto foi erguido sob as árvores da Praça Don Orione, onde aos domingos acontece uma feira de antiguidades.

Cronista dos fatos cotidianos da grande metrópole – como atropelamentos e desocupações judiciais que hoje, 28 anos após sua morte, continuam a ocorrer de forma ainda mais dramática –, Adoniran tornou-se não apenas a “voz da cidade”, como sublinhou Candido. Ele foi, sobretudo, a voz dos sofredores que resgatava da multidão anônima e silenciosa, como os moradores de rua e das malocas, os engraxates, faxineiras, operários e demais seres solitários, fragmentados pela brutalidade da metrópole, aviltados e despojados de sua dignidade. Se vivo fosse, certamente cantaria as desventuras de motoboys e de operadoras de telemarketing, trabalhadores desprezados hoje como em seu tempo foram os operários da construção civil ou as margaridas do metrô.

Apaixonado por São Paulo, apontava seus defeitos, principalmente a vertiginosa velocidade de suas transformações, que podiam deixar mais bonito o Viaduto Santa Ifigênia, mas também desfiguravam a paisagem urbana, como na Praça da Sé, após o advento do metrô. Como nesses dois casos, as músicas que fez com nome dos logradouros públicos permitem comparar a cidade de hoje com a de ontem: a Rua dos Gusmões, que ele atravessava “lendo Ali Babá e os Quarenta Ladrões”, como prova de amor à namorada, depois de pertencer à Boca do Lixo e à Cracolândia agora está no coração da Nova Luz, o bairro que se busca revitalizar entre as estações da Luz e Júlio Prestes (antiga Sorocabana, atual sede da Sala São Paulo).

Como um misto de repórter e dramaturgo, Adoniran narrava tragédias como a de Iracema, mas também comédias, como em O Casamento do Moacir (que já “era casado cinco veiz lá no estado do Rio”) ou Um Samba no Bexiga (onde estoura uma briga e “era só pizza que avoava, junto com as brachola”). Apesar do bom humor que exteriorizava, ele próprio admitia ser “um palhaço triste”, como foi retratado para a capa de um disco pelo artista gráfico Elifas Andreato.

A cidade que nos versos de Adoniran reconhecia pelo nome seus habitantes desapareceu, mas permanece aquela que ainda não sabe responder à pergunta final de Despejo na Favela: “E essa gente aí, hem? Como é que faz?”

Revista Problemas Brasileiros