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quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Segredos e mentiras


O sigilo absoluto das reuniões da maçonaria serviu de pretexto para os ataques feitos por uma Igreja Católica conservadora

Françoise Jean de Oliveira Souza

“Cumpre, antes de mais nada, rasgar as falsas vestiduras com que se adornam os maçons e mostrar o que eles são”. A frase do papa Leão XIII (1879-1903) reflete bem o antagonismo que se estabeleceu entre a Igreja Católica e a maçonaria mundial ao longo do século XIX e no início do XX. Repudiados pelo catolicismo, os maçons foram duramente acusados de crimes como transgressão das leis, conspiração e satanismo. Diante do crescimento das idéias liberais, a Igreja via ameaçada a sua presença no mundo ocidental. O pensamento conservador católico lançou-se então, violentamente, contra seus principais inimigos, numa tentativa de “barrar o carro da revolução”, como se dizia na época.

As transformações políticas ocorridas depois da Revolução Francesa, que puseram à prova as bases do absolutismo em fins do século XVIII, levaram a Igreja a combater ferozmente movimentos considerados revolucionários, como os liberais, comunistas, anarquistas, progressistas e outras tendências políticas. A maçonaria foi uma das práticas consideradas ameaçadoras pela Igreja. Mas por que os maçons estavam na lista de inimigos da Igreja?

A maçonaria tem origem em corporações de ofício medievais, compostas por trabalhadores especializados na arte da construção. Devido à natureza itinerante de sua atividade, eles não se prendiam a nenhum feudo, tendo o privilégio da livre circulação. Com isso, surge a expressão “pedreiros-livres”, ou “francos-maçons”. Só a partir do século XVI a maçonaria passa a admitir membros de outras classes de trabalhadores.

Os setores mais conservadores da Igreja eram contrários às idéias liberais difundidas pela maçonaria. Insistindo na defesa de valores tradicionais absolutistas, o conservadorismo católico rejeitava a liberdade de pensamento e de culto, a igualdade de direitos, o individualismo e o racionalismo.



A ordem maçônica se desenvolveu em harmonia com os novos espaços e valores modernos, nos quais os indivíduos tinham liberdade para expor suas idéias e debatê-las dentro das novas regras constitucionais. O caráter fechado dessas sociedades, que cultivavam em estrito sigilo as práticas e os rituais realizados dentro dos templos, fez da Maçonaria um dos primeiros espaços privados sobre os quais a jurisdição da Igreja Católica não podia atuar, o que certamente representava uma afronta ao poder do papa. A Igreja Católica via na ordem maçônica uma ameaça à salvação das almas daqueles que conviviam com a promiscuidade das seitas pagãs e um perigo para os Estados monarquistas absolutistas.

Durante o século XIX, a preocupação com os maçons se torna mais visível. Nessa época, aumenta a quantidade de documentos oficiais da Igreja que condenavam essa sociedade: de 1738 a 1840 foram publicados 14 documentos papais; entre 1846 e 1903, esse número subiu para 201. Mas o momento máximo de radicalização do conservadorismo católico ocorreu em 1864, quando o papa Pio IX redigiu a encíclica Quanta Cura. Nesta espécie de carta circular da Igreja, ele condena os “erros modernos”, entre os quais destaca a maçonaria. Diante da reestruturação da sociedade em moldes liberais, a Igreja insiste numa postura inflexível e procura defender sua doutrina a todo custo.

A partir da segunda metade do século XIX, os planos conservadores também ganharam força no clero brasileiro, quando se inicia um processo de reorganização interna da Igreja no Brasil conhecido por “romanização”. Este procedimento buscava excluir da Igreja os elementos influenciados pelas idéias modernas e defendia a supremacia do poder do papa. Além disso, os planos conservadores visavam proteger a estrutura familiar patriarcal, a cidadania associada ao catolicismo, e combater tentativas de implantação de uma educação laica. 

Além da fragilidade, da ingenuidade e do exagero dos argumentos apresentados pelas idéias conservadoras, havia ainda aspectos históricos e culturais da sociedade brasileira, fortemente marcada pelo sincretismo religioso. A Igreja Católica, por exemplo, também não conseguiu manter afastados outros oponentes, como as religiões afro-brasileiras, o espiritismo e o protestantismo. Neste sentido, pode-se dizer que esse discurso conservador fracassou.

Mas, em compensação, o argumento católico foi vitorioso na construção de um conjunto de representações simbólicas referentes à instituição maçônica. Grande parte da população brasileira não teria receio de definir a maçonaria como uma sociedade marcada pelas práticas ocultistas, realizadora de rituais macabros, e que a todo o momento está conspirando contra algo.
Para firmar negativamente a maçonaria na imaginação coletiva, o mito do complô maçônico foi o principal instrumento dos pensadores católicos pertencentes à ala conservadora. Foi comum, por exemplo, a aproximação da maçonaria ao judaísmo. A maçonaria foi associada ao estereótipo do judeu traidor e obcecado pelo desejo de dominar o mundo. Dessa associação surgiu a crença de que a maçonaria era um instrumento dos judeus para se infiltrarem em vários países, segmentos sociais, instituições e até mesmo no interior da Igreja, onde “o chefe israelita da “franco-maçonaria” seria conduzido ao papado.

Elaborada na Europa no fim do século XIX, a idéia do complô maçônico influenciou vários autores brasileiros, sendo que cada um montou, à sua maneira, diferentes versões para esse mito. Dom Vital, bispo de Olinda entre 1872 e 1878, escreveu em uma de suas instruções pastorais que previa uma conspiração maçônica com a intenção de aniquilar a religião católica e o cristianismo para, num segundo momento, eliminar todas as monarquias e implantar a república universal.

Segundo o bispo, os maçons penetrariam no meio católico, aproveitando-se do clero mais jovem para difundir as idéias liberais, até conseguirem a cooptação do papa. Da mesma forma, ao pregar no Brasil o ensino laico, sem influência de qualquer religião, a maçonaria visava atingir a juventude para formar uma geração materialista e que apoiaria a segunda etapa do plano: o fim da monarquia.

No século XX, é possível perceber a permanência do mito do complô entre os intelectuais católicos brasileiros. Gustavo Barroso foi um dos seus maiores divulgadores ao traduzir para o português “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, obra de autoria desconhecida que denunciava um plano judaico-maçônico de dominação mundial. Dizia Barroso que a maçonaria teria se colocado a serviço do judaísmo para que este, por meio de seus membros, articulasse a Revolução Francesa, considerada a etapa inicial da ascensão dos judeus ao poder. E completava dizendo que o passo seguinte seria a revolução socialista, também articulada pela maçonaria, que assim ganharia a confiança das massas proletárias. O último passo seria o domínio universal de Israel.



Gustavo Barroso também via um plano maçônico específico para o Brasil. Segundo ele, os principais acontecimentos da história brasileira podiam ser explicados como resultado das ações conspiratórias maçônicas. Utilizando-se da filantropia, por exemplo, a maçonaria teria apoiado o movimento de libertação dos escravos, não com intenções nobres, mas visando provocar a queda da monarquia. Aliás, dos primeiros movimentos de libertação até a proclamação da República, a maçonaria teria agido sempre de maneira oculta.

A Igreja encontrou na maçonaria características que permitiram transformá-la em um verdadeiro “bode expiatório”, responsabilizando-a por todos os males. Na verdade, o medo da maçonaria significava insegurança frente ao estabelecimento da sociedade burguesa, que trazia consigo novas estruturas sociais, valores e formas de organização política aos quais a Igreja já não conseguia impor sua influência com a mesma intensidade de antes.

Outro ponto forte do discurso antimaçônico se refere à associação direta da instituição ao satanismo. Sustentar esta acusação não foi tarefa difícil, já que a simbologia maçônica, com sua influência egípcia e cabalística, além de seus incompreensíveis rituais e cerimônias de iniciação, alimentavam essas associações. Muitas versões foram desenvolvidas pelos católicos para explicar a origem satânica dos maçons.

Na primeira das versões, conta-se que, após o surgimento das corporações dos pedreiros-livres, o diabo teria delas se apoderado. Em seguida, misturou à maçonaria todos os pecados que havia feito brotar na Terra e a transformou na “seita tenebrosa”, uma verdadeira síntese de todas as heresias.


Numa segunda versão elaborada pelos ideólogos católicos, a maçonaria descenderia dos templários, da cabala, do protestantismo ou do gnosticismo, uma espécie de método que procura conciliar todas as religiões por meio do conhecimento. Independentemente da versão que narra as suas origens, a maçonaria estava sempre associada à idéia de pecado e erro.

A terceira associação freqüentemente feita à maçonaria refere-se ao seu caráter revolucionário. Para Dom Vital, a maçonaria seria a “revolução em permanência”, e de seus “antros” teriam saído os principais líderes da “nefasta” Revolução Francesa. Os católicos conservadores, já preocupados com o crescimento do movimento operário, também associaram o discurso maçônico de igualdade e fraternidade universal às idéias anarquistas e comunistas, acusando a maçonaria de querer formar uma sociedade sem distinção de classes e de pátria. Tal situação seria desejada pelos maçons, porque desta maneira o povo ficaria completamente sem governo, permanecendo na anarquia e em situação ideal para que satanás criasse seu “trono imperial”.

FRANÇOISE JEAN É DOUTORANDA EM HISTÓRIA PELA UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO DE JANEIRO (UERJ) E AUTORA DA DISSERTAÇÃO “VOZES MAÇÔNICAS NA PROVÍNCIA MINEIRA 1868-1889”. UFMG, 2004.
Revista de História da Biblioteca Nacional

domingo, 21 de agosto de 2011

A maçonaria no século XXI

Da mais importante instituição do ideário moderno à consolidação das atividades solidárias: as transformações das lojas maçônicas ao longo dos séculos
Um banquete maçônico, na França, em 1840 / Fonte: Wikimedia-cc


A chegada da Maçonaria ao Brasil, no final do século XVIII, pode ser entendida como um dos sinais do processo de modernização do país. A instituição foi o mais importante espaço de divulgação do ideário moderno (mesmo que mesclado com um mais tradicional) e conseguiu atrair uma parcela significativa da elite para dialogar, à sua maneira, com os ideais iluministas emergentes no período.

A atividade maçônica formou, a partir do início do século XIX, uma rede de lojas por todo o território brasileiro e organizou o que, provavelmente, foi a primeira atuação política articulada (nacional e internacionalmente) de uma instituição civil de que temos notícia no nosso país. Funcionava como uma espécie de arena para discussões voltadas ao processo de modernização, a Independência, a abdicação de Dom Pedro I, o abolicionismo, a questão religiosa, a separação da Igreja do Estado, o movimento republicano e outros assuntos menos comentados.

O ambiente maçônico é um lugar que privilegia discussões filosóficas, atividades filantrópicas, debates sobre a realidade sócio-econômica e cultural. Ao mesmo tempo, a maçonaria é uma instituição secreta, iniciática e, consequentemente, aristocrática, na qual só participam homens (pelo menos no “movimento maçônico regular”), alfabetizados, sem defeitos físicos, maiores de idade e com nível de renda suficiente para assumirem os custos da filiação à instituição; instituição na qual a hierarquia está presente em todos os seus procedimentos, desde a estratificação em graus de iniciação, até os vários níveis de luto quando da morte de seus integrantes.

Ao longo do século XX o adensamento da sociedade civil e a consequente emergência de novos atores no espaço público fizeram com que a maçonaria perdesse aquele protagonismo identificado no século XIX. Mesmo assim a organização está presente em todas as capitais e principais cidades do país. Além disso, estima-se que somente o Grande Oriente do Brasil (GOB), uma das federações maçônicas brasileiras, abrigue em torno de 100 mil maçons, nas suas mais de 2.200 lojas. A taxa de crescimento do número dessas lojas girou em torno de 10% nos últimos dez anos. A maçonaria, portanto, não está se desintegrando, continua em expansão.

Podemos verificar na solidariedade maçônica um conjunto de atividades que procura apoiar, auxiliar, defender e acompanhar maçons e não-maçons em situações adversas, contingentes ou permanentes. Essas ações que, quase sempre, se desenvolveram por meio das próprias lojas, já se viabilizam a partir de organizações civis criadas especificamente para estes fins.

A maçonaria também tem participado intensamente de várias campanhas, entre elas, contra o trabalho infantil e contra as drogas. Tais campanhas são encaminhadas conjuntamente com órgãos estatais (como as prefeituras, Polícia Federal, Ministério do Trabalho), instituições internacionais (como a OIT e a Unesco) e várias outras organizações da sociedade civil.

Outro tipo de ação solidária que também pode ser observada no universo maçônico é aquela que socorre imediatamente cidadãos que se encontram em situação de extrema dificuldade de sobrevivência e envolve arrecadação de alimentos, remédios, roupas, cobertores, como é o caso das campanhas de ajuda aos flagelados da seca no Nordeste e aquelas campanhas que se solidarizam com vítimas de outras catástrofes naturais (cheias, epidemias, desabamentos etc.).

Muitas ações maçônicas passam despercebidas, não somente pelo fato da instituição primar por certa discrição, mas também porque no imaginário sobre a Ordem sempre se destacaram outros aspectos que giram em torno dos seus segredos rituais, da proibição da participação das mulheres, do seu anticlericalismo, da sua suposta onipresença nos espaços de decisão política e muitas outras representações que foram se fixando ao longo dos tempos e que construíram, muitas vezes, uma imagem distorcida da maçonaria. A pesquisa social, no entanto, tem feito muito pouco para compreender esse tipo de ação da instituição que vem desempenhando um papel importante na formação da nossa cultura associativa, na nossa tradição assistencial e no nosso modelo de voluntariado. Podemos considerar, pelo menos, quatro hipóteses para esse desinteresse: a) a maçonaria se manteve muito fechada ao diálogo com a academia; b) a instituição, de fato, perdeu importância com a expansão do associativismo em geral; c) a maçonaria foi identificada com a ditadura militar em função do seu apoio explícito à contrarrevolução de 64; d) o estudo sobre elites não é o forte da pesquisa social brasileira.

O percurso da maçonaria não é linear ao longo da história. Nos três séculos de sua existência, viveu muitos momentos de glória, bem como situações extremamente difíceis. Perseguiu e foi perseguida. Em todos esses momentos, os maçons reinventaram suas próprias tradições para continuar seu caminho. Resta saber se essa força e capacidade continuarão a caracterizar a instituição neste século que se inicia.

José Rodorval Ramalho é professor de Ciências Sociais na Universidade Federal de Sergipe e autor de “Novae sed Antiquae: tradição e modernidade na maçonaria brasileira” (Ed.Ex-libris, 2008).
Revista de História da Biblioteca Nacional

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Testamento maçom


Testamento maçom
Washington esconde marcas da ordem que já reuniu um terço dos presidentes americanos e abriga hoje 3 milhões de pessoas no mundo. O novo livro de Dan Brown pretende desvendar os símbolos perdidos na capital
por Raquel Krahenbuhl

O Artigo 1, seção 8 da Constituição Americana (1787), determina os poderes do Congresso e prevê a criação de um território de até 256 quilômetros quadrados para abrigar o governo dos Estados Unidos. O perímetro exato foi determinado pelo presidente George Washington (1732-1799), numa área pantanosa doada pelos estados de Maryland e Virgínia, na bifurcação do rio Potomac. O pai da pátria escolheu os arquitetos, supervisionou o planejamento e emprestou o nome à capital federal, no Distrito de Colúmbia. No dia 18 de setembro de 1793, tambores rufaram para que ele marchasse até o platô onde seria construído o mais importante edifício da nação. Numa cerimônia maçônica típica, ostentando um avental da fraternidade, o presidente instalou a pedra fundamental do Capitólio.

A cidade nasceu em 1790 sob forte influência maçom, assim como o país. "Muitos americanos viam os princípios da ordem como uma representação importante do que a nação deveria ser: cosmopolita, educada, religiosa sem ser sectária e aberta a todas as pessoas talentosas e de boa moral", diz o historiador Steven Bullock, do Instituto Politécnico Worcester. Quase um terço dos signatários da Constituição era maçom, como Benjamin Franklin (1706-1790). Escritor, soldado, diplomata e inventor, foi figura central na revolução americana. Honra, disciplina e respeito faziam parte do código de conduta que ele e os irmãos da ordem pretendiam disseminar, sob os ideais da liberdade, fraternidade e igualdade. Franklin é considerado figura-chave na formação dos valores e do caráter dos americanos. Depois de George Washington, 14 dos 44 presidentes dos Estados Unidos aderiram à maçonaria. Entre eles, Theodore Roosevelt e Harry Truman. Lyndon Johnson foi o ultimo de que se tem notícia.

Todos puderam encarar a arquitetura da capital com particular orgulho, capazes de entender os sinais espalhados pela fraternidade (veja nas págs. 37 e 38). O Símbolo Perdido, de Dan Brown, pretende revelar algumas dessas marcas. Na sequência de O Código Da Vinci, o simbologista Robert Langdon tenta desvendar o testamento maçônico da cidade para resgatar o amigo Peter Solomon, grão-mestre de um segmento da ordem, o Rito Escocês. O sequestrador é o vilão tatuado, Mal’akh, interessado numa espécie de tesouro mágico guardado pelos membros da fraternidade.

Entre ficção e realidade, a capital se transforma no cenário ideal para a busca de Langdon. Além dos líderes fundadores, arquitetos e engenheiros de Washington pertenciam à maçonaria, cuja origem remonta às corporações de ofício da Idade Média - a dos pedreiros (masons em inglês) estava entre as mais poderosas e inaugurou a fidelidade a rituais e simbologia próprios, mantidos sob sigilo juramentado. Benjamin Latrobe, um dos arquitetos do Capitólio e do interior da Casa Branca, era maçom, assim como James Hoban, autor da planta da morada presidencial. Primeiro a planejar a cidade, o engenheiro francês Pierre Charles L'Enfant, ao contrário do que sustenta Brown, não era membro da ordem, mas sim amigo de muitos. Ele foi escolhido e assessorado - de modo insistente, até - por George Washington. Antes da sede do Congresso, a Casa Branca e depois muitos edifícios públicos e monumentos da capital receberam as pedras fundamentais em rituais maçônicos. "Há uma mensagem religiosa implícita em quase todos os prédios, memoriais e artes de Washington que remete aos ideais originais dos Pais Fundadores", afirma James Wasserman em The Secrets of Masonic Washington ("Os segredos da Washington maçônica", inédito no Brasil). "A arquitetura clássica pretendia trazer perfeição e estabilidade aos sonhos modernos do novo país."

A irmandade mantém dois grandes "santuários" na região: a Casa do Templo, onde transcorrem capítulos decisivos de O Símbolo Perdido, e o Monumento Maçônico Nacional a George Washington, na vizinha Alexandria, no estado da Virgínia. O prédio, construído entre as décadas de 1920 e 30, foi inspirado no antigo farol da cidade egípcia e ainda abriga as reuniões da loja que o patriarca dirigiu. Erguida em 1910, a Casa do Templo remete ao mausoléu de Halicarnasso, tumba pré-cristã do rei Mausolo - vem daí o termo mausoléu. Há também várias estátuas de maçons na capital, como a de Albert Pike, na Judiciary Square, e a do presidente James Garfield, nos jardins do Capitólio.

Desenho da cidade
Existe muita controvérsia a respeito, mas historiadores acreditam que quando L’Enfant planejou a capital, em 1791, ele visualizou um triângulo na interligação do Capitólio, da Casa Branca e do monumento a Washington. O triângulo reflete princípios maçônicos básicos: "liberdade, igualdade e fraternidade" e "fé, esperança e caridade". "As estrelas do triângulo da constelação de Virgem correspondem aos pontos de L’Enfant", diz David Ovason em A Cidade Secreta da Maçonaria. Ele argumenta que a data e a hora de fundação dos três marcos foram determinadas de olho na configuração do céu, de modo a trazer a melhor influência astral possível. Virgem é o signo do perfeccionismo. Há quem acredite ainda que algumas das construções do National Mall (o parque delimitado entre o Capitólio e o monumento a Lincoln) representam um compasso e um esquadro. O obelisco, ao centro, estaria no lugar da letra G, referência a God (Deus), e a Geometry (Geometria). O compasso traduz a busca pela perfeição moral e a racionalidade científica. O esquadro refere-se ao poder do homem de transformar a natureza e à retidão que deve conduzi-lo. Bullock é cético a respeito dos símbolos no mapa: "Algumas pessoas veem sinais maçônicos, outras, de satanismo. É irônico. A planta original seguiu princípios de planejamento urbano certos, indo além do desenvolvimento casual das ruas e destacando o centro da cidade, a partir do Capitólio e da Casa Branca".

Na onda do livro de Brown, empresas de turismo já oferecem excursões por lugares com referências maçônicas. O arquivista da Casa do Templo, Arturo de Hoyos (abaixo), prevê o aumento do fluxo de pessoas interessadas em visitar a sede. "Isso vai ser bom, porque poderemos mostrar o que é realmente a maçonaria."

Pedra fundamental
As pistas da herança maçônica em Washington

Antes de Dan Brown, vários autores já se dedicaram a desvendar as marcas ocultas na arquitetura de Washington. Aqui há uma seleção das principais, situadas apenas em edificações públicas. Há muita polêmica sobre as referências, mas a maior controvérsia está nos desenhos delineados a partir da planta da cidade. Além do triângulo, que remete à "liberdade, igualdade e fraternidade" e à "fé, esperança e caridade", há o compasso e o esquadro, símbolos da racionalidade científica e da retidão moral com que os maçons devem encarar a vida. A letra G significa Deus.

1. Academia Nacional de Ciência
Quatro portas de bronze na entrada do prédio de 1924 têm três signos do zodíaco cada uma. A astrologia é uma das ciências caras aos maçons, embora, obviamente, não se restrinja à fraternidade. Do lado de fora, aos pés de uma estátua de Albert Einstein, há um mapa que revela a posição de mais de 2,7 mil estrelas e outros astros.

2. Banco central americano
Ramos de trigo, que evocam a fertilidade, estão gravados em várias partes do edifício (de 1937). Mas os detalhes mais curiosos são dois lustres no hall. Cercadas por um anel onde estão os signos do zodíaco, as peças têm a parte de baixo azul-escura vazada por estrelas. A área acima do anel é clara. Aqui, estariam representados o Sol no centro do universo e a dualidade entre bem e mal, espírito e corpo, luz e trevas; são temas comuns na simbologia e aparecem no piso das lojas maçons.

3. Casa branca
Foi o primeiro prédio da cidade a receber uma pedra fundamental, em 13 de outubro de 1792. A cargo da obra estava o maçom James Hoban. Em 1948, uma reforma determinada pelo presidente Harry Truman localizou pedras gravadas com símbolos da ordem. Há indícios de que algumas foram usadas na lareira da sala Vermeil, no térreo. Acima da porta de acesso entre as salas Leste e Verde está em relevo a mesma pirâmide inacabada da nota de 1 dólar. O "olho que tudo vê" representa Deus. O símbolo, já usado por egípcios e cristãos, foi adotado pelos maçons e ainda está no verso do Grande Selo dos EUA.

4. Monumento a washington
A pedra fundamental foi colocada no dia 4 de julho de 1848. No topo do obelisco de quase 170 metros, uma pirâmide feita de alumínio (diferente das pedras usadas no resto) dá a impressão de algo inacabado (lembrança do trabalho necessário para tornar o mundo melhor) e tem gravada a frase Laus Deo "Ore a Deus" . A pirâmide é um símbolo de ascensão. Dentro do monumento há 21 pedras dedicadas por maçons.

5. Capitólio
A sede do Congresso é repleta de sinais

É um dos edifícios mais ricos da capital em simbologia maçônica. Benjamin Latrobe, um dos mais importantes arquitetos encarregados, era maçom. Dois painéis de bronze instalados no Senado, de 1868 e 1893, referem-se à cerimônia da pedra fundamental. O mais novo, no corredor sudoeste da ala norte, anuncia a localização aproximada da "pedra angular" colocada em 18 de setembro de 1793. O painel de 1868 está na porta do Senado e representa várias cenas da vida de George Washington. Ele também é o protagonista do afresco A Apoteose de Washington (dir.) (1865), de Constantino Brumidi. Localizado na cúpula da Rotunda, a sala abaixo do domo, mostra o patriarca se transformando em deus, no meio de duas figuras que representam a Liberdade e a Vitória. Ao redor deles, formando um triângulo, estão 13 damas simbolizando as colônias originárias do país. Deuses da mitologia greco-romana aparecem oferecendo conhecimento de várias áreas aos Pais da Pátria. No topo do prédio está a Estátua da Liberdade, esculpida em bronze pelo maçom Thomas Crawford. Para a ordem, as estrelas de cinco pontas no capacete simbolizam a perfeição e os aspectos físico, mental, espiritual, intuitivo e emocional do homem.

Com a palavra, o maçom
Historiador prevê crescimento da fraternidade

Dos 3 milhões de maçons espalhados pelo mundo, a metade está nos Estados Unidos. Esse contingente voltou a crescer, diz o grão-arquivista e grão-historiador do Rito Escocês da Casa do Templo, Arturo de Hoyos, sem explicar exatamente por quê. Certo é que a publicidade oferecida pelo livro de Dan Brown foi muito bem recebida, embora Hoyos trate com desdém as digitais deixadas pela irmandade em Washington. "Essa é uma ideia popular entre pessoas interessadas em vender livros, mas não é baseada em fatos", diz, apesar de admitir a profusão de referências no Capitólio. As credenciais do historiador maçônico justificam conhecer sua versão da ordem.

Princípios
"A maçonaria oferece a homens bons, de todas as raças e religiões, a oportunidade de colocar de lado suas diferenças pessoais e trabalhar juntos pelo bem da humanidade."

O sigilo
"Os primeiros pedreiros, como ocorre em outros ofícios, tinham certos ‘segredos corporativos’ para resguardar sua subsistência. Eles eram protegidos por símbolos e sinais através dos quais os membros poderiam identificar uns aos outros. À medida que a ordem tornou-se uma fraternidade, os modos confidenciais de reconhecimento passaram a representar os laços de confiança entre os integrantes."

O livro de Dan Brown
"Eu gostei. Há uma mistura de verdade e ficção. A cerimônia de iniciação ao 33.º Grau do Rito Escocês descrito no livro (o pretendente toma vinho tinto de um crânio humano) não existe, é baseada nas celebrações de uma pseudo-organização maçônica dos anos 1800, a "Cerneausim". Há uma série de lendas recitadas nas nossas cerimônias. Uma delas conta a história da morte do arquiteto o templo do rei Salomão (o livro mostra a simulação de um assassinato como rito de entrada à maçonaria), mas a versão do autor não é a mesma usada em todo o país."

Saiba mais

LIVRO
The Secrets of Masonic Washington, James Wasserman, Destiny Books, 2008

Inédito em português, é um guia para a simbologia na arquitetura da capital.

A Cidade Secreta da Maçonaria, David Ovason, Planeta, 2007

O autor reforça a astrologia no planejamento da cidade.

Revista Aventuras na História