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quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A “medicina popular” durante a epidemia de gripe espanhola[*1] de 1918 no município de São Paulo

A Capital - 06.11.1918 - Acervo APESP.

A “medicina popular” durante a epidemia de gripe espanhola[*1] de 1918 no município de São Paulo.

Leandro Carvalho Damacena Neto


“Da impotência do saber médico em dialogar com a moléstia abriu-se a oportunidade para a utilização de práticas alternativas. Ao contrário do que em outras ocasiões, nada fez a medicina acadêmica para combater o discurso não oficial sobre a enfermidade, mesmo estando esta mesma medicina em um momento critico de sua própria legalização enquanto único saber sobre os corpos e as enfermidades”.
(Cláudio Bertolli Filho: 1986, p.148)
No período epidêmico de 1918 a medicina científica comemorava as grandes descobertas da bacteriologia, a sociedade tinha no seu imaginário, que a humanidade estava livre das doenças que as acometiam desde tempos remotos, além disto consideravam a medicina como uma religião, “salvadora da humanidade”.

A moléstia de influenza espanhola veio juntamente com a população paulista questionar a crença na medicina científica, pois o saber médico oficial se tornou impotente para solucionar a crise sanitária que o desafiava. Os mecanismos de transmissão da gripe constituíam-se em uma incógnita para a medicina oficial das primeiras décadas do século XX.

As idéias e os remédios referentes às enfermidades confrontavam as premissas fundamentais da medicina oficial, essas eram veiculadas tanto por leigos quanto por pequena parte de doutores da comunidade médica. È bom ressaltar que as práticas tradicionais não deixaram de ser utilizadas devido ao avanço da bacteriologia, existia na verdade uma mescla de saberes no seio da sociedade e da própria comunidade médica, sendo utilizadas as descobertas bacteriológicas e as práticas tradicionais, que estavam arraigados no saber popular.

Para explicitarmos quais foram as medidas profiláticas apoiadas na sabedoria popular utilizadas pela população, abordaremos as memórias dos contemporâneos da moléstia. O incremento da medicina popular durante o ano de 1918 ocorre pela inocuidade e inacessibilidade às propostas terapêuticas por parte da população. Sugestões preventivas e mais ainda as curativas foram solicitadas pela sociedade flagelada pela gripe, o desconhecimento da doença pela medicina científica fez com que, na falta de uma profilaxia determinada, vários médicos começassem a receitar medicamentos na maioria das vezes ineficazes para a população, no sentido de amenizar, aliviar o sofrimento desta, tendo em vista, segundo Goulart, a pressão social a que estavam submetidos:

Historicamente, o médico tem um papel social que inclui, entre outros aspectos, a elaboração de respostas às doenças que acometem a sociedade. A explicação médica tem grande importância social e emocional, uma vez que permite ao doente compreender seu infortúnio. Um dos aspectos essenciais do papel e do poder social do médico está em sua capacidade de nomear o sofrimento do paciente. Dentro desse quadro, pode-se entender o valor do diagnóstico e do prognóstico de uma doença. Mesmo se tratando de uma doença perigosa, esses mecanismos possibilitam torná-la compreensível e emocionalmente mais aceitável que uma doença incompreensível.( GOULART: 2005, p. 114 )

A gripe espanhola tornou-se, dentro desse quadro uma doença incompreensível, tanto para os médicos, como para a sociedade. A população enferma reivindicava soluções para o mal que os acometia, e os aterrorizava:

Feche seus olhos por um momento e tente se imaginar entrando num quarto onde, num leito, se estende um corpo como o rosto azulado, cianótico, uma pessoa morrendo asfixiado como os pés pretos – o sinal de que a hora era chegada. Agora imagine que essa pessoa é um irmão, um pai, uma mãe, ou qualquer ente querido seu. Se isso acontecesse com você e sua família, é lógico que você iria querer entender o que aconteceu.[*2]

Ocorre que vários médicos utilizam-se dessas práticas populares de medicina. Tais práticas seguiam as medidas expedidas pelas autoridades oficiais, o saber leigo repetia muitas vezes o saber clínico sobre a influenza e as possibilidades terapêuticas como foram produzidas originalmente pela ciência (BERTOLLI FILHO: 1986, p. 155). Entendendo que não houve a predominância em 1918, de uma prática oficial ou de uma prática popular, no ápice da epidemia as duas falas tornaram-se aliadas para o tratamento da população.

Ressaltamos que no período da hegemonia da medicina científica, um pouco antes da epidemia de gripe, grande parte da comunidade médica clínica, rejeitava as práticas da medicina popular, considerando os curandeiros e benzedeiras como charlatães que se aproveitavam do leigo para obter vantagens pecuniárias, vendendo remédios ineficazes e placebos. Durante a fase epidêmica na capital paulista, desenvolveu-se um comércio com a intenção de angariar lucros. Divulgam em jornais da capital paulista remédios que eram utilizados, antes da epidemia para outras finalidades, indicando-os para o tratamento da gripe, conforme assinala Bertolli Filho que aponta para os descaminhos da propaganda durante a fase epidêmica:

A lógica que dirigia o discurso propagandístico era ditada antes pela busca do lucro do que pela prevenção e cura dos gripados, daí a incorporação nos anúncios tanto do ideário médico oficial quanto o da medicina popular, na expectativa de maximalizar a venda dos produtos apresentados. ( BERTOLLI FILHO: 1986, p. 162-3)

Remédios que antes da epidemia de influenza eram utilizados para outras finalidades foram adaptados especificamente para o tratamento da população:

(...) O que geralmente ocorria era a adaptação de antigos anúncios às necessidades surgidas com a gripe espanhola, procedendo-se à atualização do discurso propagandístico e a conseqüente redefinição ou extensão das propriedades terapêuticas dos produtos anunciados. Somente a partir dessa operação, que tinha como objetivo seduzir o receptor da mensagem, é que se tornou viável o anúncio como específico para o combate da Influenza de drogas como o Maleitosan que tanto a marca de venda quanto décadas de propagandização haviam popularizado como um remédio próprio para o combate à malária. (Idem, p. 163)

A desconfiança frente à medicina acadêmica levou a população a procurar uma resposta para o desconhecimento da doença de gripe. A medicina caseira ou popular viveu seu apogeu durante a epidemia, diante da ineficiência das drogas indicadas nos receituários médicos.

A sociedade cada dia mais vitimada pela gripe, não iria ficar esperando de “braços cruzados” a epidemia ceifa-lá totalmente, A população tinha a sua disposição os saberes populares, então por que não utilizá-los? Foi exatamente isto que ocorreu no ano de 1918, sendo que muitos dos que não tinham acesso aos tratamentos e medicamentos da comunidade médica acabaram se beneficiando de suas vantagens, menos como terapias alternativas e mais como única forma de tratamento gratuito disponível. Na memória dos contemporâneos da epidemia de influenza espanhola, obtemos informações mais precisas sobre os remédios populares. A partir daí percebemos a grande ascensão que teve a medicina popular naquele ano para o tratamento da doença de gripe:

Foi uma gripe tão agressiva que já não davam conta de fazer remédios. Só limão. Numa certa hora acabaram também os limões em São Paulo. Eu comia pouco, só tomava água com limão. (BOSI apud BERTOLLI FILHO: 1986, p. 159 )

A utilização de produtos naturais pelos enfermos se tornou uma crença na cura da doença, grande parte da população tinha em produtos como o limão, o alho, o quinino, e o sal, a única esperança para curar e prevenir a gripe espanhola. Ressaltamos que muitas pessoas com condições de obter tratamento médico oficial recorreriam à medicina popular. Muitos desses utilizavam medicamentos populares que eram receitados por diverso esculápios com a finalidade de “aliviar” a população com uma terapêutica específica.

Entre as práticas médicas e populares durante a epidemia de gripe espanhola temos o “ressurgimento” de teorias consideradas ultrapassadas como a teoria do miasma, para a qual as doenças se originavam a partir de certas condições atmosféricas e climáticas específicas, existentes em determinados locais. Algumas medidas adotadas pelas autoridades sanitárias ou recomendadas pelo próprio costume tinham base na concepção miasmática das doenças, como, por exemplo, a prática da fumigação, entranhada na memória popular:

A sugestão para a queima de alcatrão, para limpeza do interior de edifícios pouco higiênicos, bueiros, ratos e fezes de animais (...) inalações de vaselina mentolada, os gargarejos com água e sal, com água iodada, com ácido cítrico, tanino e infusões de plantas contendo tanino, como folhas de goiabeira e outras (...) como preventivo, internamente, pode-se usar qualquer sal de quinino nas doses de 0,25 a 0,50 centígramos por dia, devendo usá-los de preferência no momento das refeições para impedir os zumbidos nos ouvidos, os tremores etc. ( BERTUCCI: 2003, p. 109 )

As doses do quinino foram controladas com maior rigidez em medidas estipuladas, sendo aconselhado o uso após as refeições, pois o quinino poderia deixar a pessoa inconsciente. O uso abusivo dessa substância pela população enferma na cidade de São Paulo foi uma constante, muitos utilizavam altas doses, ocorrendo assim desmaios em plena rua, sendo muitas pessoas confundidas com mortos, e levadas para serem sepultadas ainda vivas, conforme relatos estarrecedores difundidos como verdadeiras lendas urbanas durante e após a epidemia gripal.

A teoria miasmática exerceu grande influência na interpretação da doença de gripe e nas medidas adotadas pelo Serviço Sanitário Estadual, uma dessas interpretações é que a origem da epidemia de gripe espanhola de 1918 se deu a partir da Guerra no continente Europeu:

A Guerra Européia em toda a sua extensão e violência havia interferido inclusive nas leis naturais que regiam o universo; Imunação imperfeita de milhares de corpos, a decomposição do sangue derramado nos campos de batalhas, a ausência de higiene nas trincheiras, deflagração de milhares de projéteis e explosivos alteraram a atmosfera e a natureza de todo o globo (...) as mudanças ocorridas na atmosfera causou alterações nos micróbios que ganharam uma virulência ímpar. ( BERTOLLI FILHO, op cit. , p. 156-7)

A medicina popular surgiu então como alternativa diante de uma doença desconhecida. A proliferação de receitas milagrosas, chás, emplastos, beberagens diversas espelham as insatisfações da população com a falta de atendimento adequado, com a impossibilidade de estabelecimento de um diagnóstico preciso, pela ausência de estratégias do governo e das autoridades sanitárias. “Desconhecido o agente causador da doença de gripe, a solução foi à utilização de uma profilaxia individual e sintomática, constituindo assim uma terapêutica heterogênea” (GOULART: 2005, p. 112 ), até mesmo a aguardente tornou-se medicamento bastante utilizado como preventivo da moléstia:

O botequim da rua do Thesouro e a Casa Pomona, no Largo da Sé, passam os dias repletos. Extranhando esse facto, procuramos saber a sua causa. Entramos no Pomona, dispostos a dar dois dedos de prosa com qualquer dos garçons. Não foi necessário. Um apreciador da branquinha, que entoava desafinadamente a “Pinga com Limão, Cura a urucubaca”, forneceu-nos indirectamente a explicação que buscávamos. Pinga com limão, si cura a urucubaca, também pode curar a influenza.[*3]

A população estava à procura da cura e prevenção da doença de gripe, a medicina popular e sua farmacologia constituiram-se numa crença ou esperança para a sobrevivência à epidemia, pois o saber médico, acabou deixando a população, parafraseando Max Weber, em uma “Gaiola de Ferro” ( WEBER: 2004, p. 135):

Cada médico tinha uma “tentativa” de explicação diferente; nós não sabíamos no quê e em quem acreditar. Esperávamos por uma explicação que ninguém tinha para dar, como até hoje esperamos para saber o que foi aquela sassânida infernal.[*4]

Assim a população mostrou-se cética diante de um discurso que proclamava o “fim das enfermidades” que acometiam a humanidade buscando forças, crença e esperança na memória popular, ou seja, na tradição, tão desacreditada pela modernização em curso naquele período. Não é possível falar em impotência do saber popular, uma vez que esse saber permitiu que a população acreditasse de novo na possibilidade de sobrevivência, foi ele que constituiu o imaginário de grande parte da população, que se tornou sobrevivente do flagelo de gripe espanhola no ano de 1918.

Bibliografia

BERTOLLI FILHO, Cláudio. Epidemia e Sociedade: a gripe espanhola no município de São Paulo. SP, 1986, 482p. Dissertação (Mestrado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo.
BERTUCCI, Liane Maria. “Conselhos ao Povo”: Educação contra a Influenza de 1918. Cad. Cedes, Campinas, v. 23, n. 59, p. 103-117, abril 2003 (Disponível em http://www.cedes.unicamp.br)
_____________________. Entre Doutores e para leigos. Fragmentos do discurso médico na Influenza de 1918. Hist., ciênc., saúde. Manguinhos, abr. 2005, vol. 12, n. 1, p. 143-157.
BOSI, Ecléa. Memória e sociedade. Lembranças de velhos. São Paulo: TAQ/ Edusp, 1987.
GOULART, Adriana da C. Revisitando a espanhola: a gripe pandêmica de 1918 no Rio de Janeiro. Hist., ciênc., saúde. Manguinhos, vol. 12, n. 1, p. 101-42, jan.-abr. 2005.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo. Trad., Pietro Nassetti. São Paulo: Martin Claret, 2004.
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Revista de Histórica - Arquivo Público do Estado de São Paulo

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A fúria da gripe espanhola


A fúria da gripe espanhola
No início da década de 20, enquanto a Europa reunia os cacos da Primeira Guerra, um inimigo ainda mais devastador assustou o mundo todo e, em dois anos, matou mais de 30 milhões de pessoas: a gripe
por Moacyr Scliar
Os sintomas todo mundo conhece: febre, dor de cabeça, dores pelo corpo, mal-estar geral, tosse e coriza, ou seja, corrimento nasal. No entanto, esse quadro que hoje se resolve com um comprimido e alguns dias repouso podia significar uma sentença de morte se você vivesse no início do século, mais precisamente em 1918. É que nesse ano uma epidemia de gripe se espalhou pelo mundo e matou entre 30 e 100 milhões de pessoas. A doença, uma variação do vírus da gripe comum, causava um terrível agravamento dos sintomas e ficou conhecida como gripe espanhola, ou apenas a espanhola.

Na época ninguém conhecia a causa da doença. O microscópio já era usado e muitas bactérias causadoras de enfermidades tinham sido identificadas, já a partir do século 19. Mas os equipamentos não eram lá muito potentes e não podiam mostrar os vírus, que são muito menores que bactérias. Assim, a causa da gripe era (e permaneceu até recentemente) uma incógnita. Ela era associada ao frio. O termo influenza, que é usado como sinônimo para gripe, fala disso. Vem do italiano influenza di freddo, “influência do frio” (de influenza surgiu o nome inglês para a gripe – flu). De fato, é uma doença dos meses frios. Nessa época, tendemos a ficar confinados em casa e o vírus pode passar facilmente de uma pessoa para outra.

Também não se tinha certeza que na Espanha tenham surgido os primeiros casos, ainda que o rei espanhol Afonso XIII tenha sido uma das primeiras vítimas ilustres da doença. Muitos pesquisadores defendem a idéia de que a doença começou não na Europa, mas nos Estados Unidos, e foi levada para a Europa pelos soldados que combateram na Primeira Guerra. Ao certo, sabe-se que foi na Espanha que surgiram as primeiras notícias sobre a doença: o país, neutro no conflito, não impunha a censura à imprensa, como acontecia com as potências beligerantes. Assim que a doença surgia em outros países, era logo chamada de “espanhola”. A moda de uns países atribuírem a outros a origem de doenças não é nova: quando a sífilis apareceu, na Idade Média, os franceses chamavam-na de “mal napolitano”, e os italianos de “mal francês”.

Mesmo a expressão gripe espanhola (ou ainda “La Dansarina”) deu lugar, em alguns países, a distintas denominações. Na Rússia soviética era chamada febre siberiana, na Sibéria febre chinesa e na Espanha (que afinal também tinha de se defender) febre russa. A enfermidade se disseminou rapidamente, chegando ao Sudeste Asiático, à China, ao Japão, ao Caribe, às Américas: cerca de um quinto da humanidade contraiu a doença. A letalidade – isto é, a proporção de mortes entre os doentes – era altíssima, duas vezes e meia maior que nos casos de gripe comum. Estima-se que a gripe tenha matado no mundo todo de 20 a 100 milhões de pessoas – muito mais que a Primeira Guerra (cerca de 15 milhões de vítimas) ou mais do que a aids.

A pandemia de gripe devastou populações inteiras. Alguns historiadores acham inclusive que a guerra de 1914-18 pode ter terminado mais cedo por falta de soldados. O fim da guerra, aliás, não significou o fim da pandemia: a Alemanha, derrotada, recebia de volta 6 milhões de ex-soldados desmoralizados e famintos. Isto sem falar em outras regiões do mundo, como África, Índia e China, onde a ausência de dados tornava impossível avaliar a extensão da hecatombe. No Alasca populações foram dizimadas pelo mal que os esquimós acreditavam ser causado por um “espírito branco”. Em Londres, cartazes afixados nos teatros proibiam expressamente tossir. E, nos Estados Unidos, o costume de apertar as mãos foi praticamente abandonado.

A doença se propagou em duas gigantescas ondas: a primeira, na primavera e no verão de 1918. Nessa fase, a gripe era muito contagiosa, mas causou relativamente poucas mortes. Em agosto, contudo, uma forma altamente virulenta da doença disseminou-se pelo mundo, chegando ao auge nos meses de setembro a novembro (ou seja, o outono do hemisfério norte). A curva que mostrava os óbitos por faixas etárias tinha a forma de um W, com três picos, um correspondendo a crianças pequenas, outro a adultos jovens (o que era uma novidade; pensava-se que esse era um grupo mais resistente) e um terceiro, que era o dos idosos. Nos Estados Unidos a expectativa de vida, isto é, o número de anos que uma pessoa pode esperar viver desde o nascimento, foi reduzida em dez anos.

Os brasileiros foram atingidos pela gripe antes mesmo que a doença chegasse ao país. Uma divisão que o governo enviara em navio para participar da guerra adoeceu enquanto a esquadra que transportava os militares estava ancorada em Dacar, Senegal: 156 mortos. E o país não poderia escapar à espanhola. Ainda que as viagens aéreas, que difundiram a Sars (pneumonia que no ano passado causou pânico no Sudeste Asiático), não fossem comuns à época, muita gente viajava de navio – e o país estava recebendo então grandes contingentes migratórios. Em setembro de 1918 chegava um navio com imigrantes vindos da Espanha, vários dos quais com sintomas de gripe. Outros navios foram apontados, entre eles o inglês Demerara, que atracou em Recife e Salvador, mas o certo é que no início de novembro de 1918 a doença já estava no Brasil. As cidades portuárias foram as que mais sofreram.

“Já morrem 24 pessoas por dia em Coritiba”, dizia uma manchete do dia 14 de outubro. Na mesma data, um anúncio: “Precisa-se de dois cocheiros na Empreza Funerária de P. Falce”. Essas manchetes dos jornais da época reproduzidas no livro O Mez da Grippe (assim mesmo, com essa grafia), de Valêncio Xavier, dão uma idéia do quadro assustador. A reação entre os curitibanos foi de pânico. Por causa disto, as notícias a respeito foram censuradas. O livro mostra a primeira página do jornal Diário da Tarde, em que, de um artigo sobre “A Influenza”, só ficou o título – o resto está em branco. Já o Commercio do Paraná adotou uma atitude diferente; a epidemia seria apenas uma gripe comum. Mas teve de admitir, em 25 de outubro: “A nossa edição de hontem saiu muito aquem da expectativa em conseqüência de terem adoecido operários da secção da composição, obrigando-nos assim ao sacrifício de materia redaccional cuja inserção foi absolutamente impossivel.”

Em outras cidades a repercussão não foi menor. A imprensa carioca estava cheia de notícias alarmantes – e de protestos contra as autoridades sanitárias, consideradas omissas: “O que se está passando na Saúde do Porto da nossa capital é simplesmente assombroso. Os navios entram infeccionados, os passageiros e tripulantes atacados saltam livremente contribuindo para contaminar cada vez mais a cidade, não soffrendo os navios o mais rudimentar expurgo! [...] Telegrammas chegados ha dias de Estados do Norte, annunciaram detalhadamente dezenas de casos de ‘influenza hespanhola’ occoridos a bordo da ‘Itassucê’. Era o caso do Sr. Carlos Seidl tomar providencias energicas, para isolar os enfermos e expurgar o navio, mal chegasse elle á Guanabara, si s.ex levasse a sério seus deveres. Nada disso, entretanto, aconteceu. O ‘Itassucê’ chegou, foi desimpedido e os doentes desceram calmamente á terra, sem que o director da Saude Publica mandasse tomar a minima providencia!” (Rio Jornal, 11 de outubro de 1918).

Ou esta outra notícia: “Em todas as ruas, e a todas as horas, vemos cahir subitamente, tombar sobre a calçada victimas do mal estranho. Os hospitais estão repletos.” (Rio Jornal, 14 de outubro de 1918). A criticada “medicina official”, como aconteceu com as autoridades em Curitiba, tentava minimizar o problema e evitar o pânico. Mas, no final de 1918, a gripe era, no Brasil e no mundo, uma realidade brutal. O jornal A Rua, de 15 de outubro de 1918, fazia uma denúncia: “Desde as primeiras horas em que se declarou a epidemia que a romaria ás pharmacias não parou nem um instante. Houve então uma grande desorientação e uma ignobil exploração por parte de algumas pharmacias. Os preços variavam de pharmacia para pharmacia e de bairro para bairro. O tubo de bromo-quinino passou a custar de 1500 a 8 mil e 9 mil réis. Uma limonada purgativa 4, 6 e 8 mil réis. Uma capsula com 25 ctgrs. de Sulphato de Quinino custava 400 réis, no maximo, custa 2 e até 3 mil réis! É o furto, parecendo que nem se quer estamos numa cidade policiada! Mas a necessidade era grande e os doentes nos milhares, o que fez com que apezar do descabido escandaloso dos preços, os medicamentos se esgotassem. Várias pharmacias, especialmente nos suburbios, allegam tambem a doença do seu pessoal. Que será da população sem ter sequer medicamentos”?

Esses medicamentos, diga-se, não tinham qualquer efeito sobre a doença. O quinino era usado para malária, que é, porém, uma enfermidade totalmente diferente da gripe, causada por protozoário e não por vírus. Também eram inócuos os “Conselhos aos que se acham no inicio da infecção”, dados pela Diretoria Geral de Saúde Pública, e que começavam com um purgativo forte (além de ter gripe, a pessoa ficava também com diarréia). Em termos de dieta, indicava-se a tradicional canja de galinha (que pelo menos, a exemplo da cautela, não fazia mal a ninguém). O resultado foram saques aos armazéns atrás de frangos. Diante disso a Diretoria Geral de Saúde Pública voltou atrás: “O uso do frango ou da gallinha não é indispensavel. A dieta poderá ser mantida por meio de leite, caldo de sopa de cereaes, de legumes, de lentilhas, de arroz, aveia, centeio, etc., etc.”

E continuava: “Fazer diariamente uso de uma solução de essencia de canela, conforme as seguintes dóses: uma colherinha das de café em meio copo de agua assucarada, de duas em duas horas, até desapparecer a febre. Depois tomar uma colherinha em meio copo de agua tres vezes ao dia.”

Claro, é fácil achar graça dessas medidas quase 90 anos depois, mas os médicos recomendavam aquilo que imaginavam ser útil. É preciso dizer que a campanha contra a gripe era comandada por ninguém menos que o sanitarista Carlos Chagas, descobridor da doença que leva seu nome, grande pesquisador e um dos discípulos prediletos de Oswaldo Cruz. Entre os conselhos da saúde pública, havia alguns apropriados: evitar aglomerações, guardar repouso em caso de doença. De qualquer maneira, o quadro era sombrio em 2 de novembro de 1918, Dia de Finados (“Nunca o dia dos mortos foi tão propriamente um dia de mortos como o de hoje”, dizia a manchete de A Noite).

No Rio de Janeiro morreram cerca de 12 mil pessoas em dois meses. Na cidade, como faltavam coveiros, presidiários foram convocados para fazer esse trabalho. Os corpos muitas vezes eram transportados em bondes. Os hospitais não tinham vagas e a hospitalização, por sua vez, não evitava o óbito. No Hospital Deodoro, na Glória, os cadáveres formavam uma pilha de 2 metros de altura. As ruas estavam desertas; as pessoas não se atreviam a sair. Em Porto Alegre, foi criado um cemitério especialmente para as vítimas da gripe. Em todo o país foram cerca de 35 mil mortos. Nos últimos meses de 1918, uma esperança: o novo presidente seria Rodrigues Alves, conhecido por ter livrado, em seu primeiro mandato, a capital Rio de Janeiro de epidemias de febre amarela, peste e varíola. Mas ele não chegou a assumir o cargo. Morreu em 16 de janeiro de 1919, de gripe espanhola.



Dormindo com o inimigo
A virologia progrediu imensamente com o susto de 1918. Mas só em 1933 o vírus da gripe foi isolado pela primeira vez, por Andrew, Smith e Laidlaw, na Inglaterra. Mas não era o agente causador da espanhola. Como era esse vírus? A dúvida persistia e motivou conhecidos pesquisadores, como os americanos Jeffery K. Taubenberger e Johan Hultin. Eles encontraram o vírus em cadáveres preservados pelo frio. Em 1951, os cientistas da Universidade de Iowa exumaram corpos de vítimas da gripe sepultados no Alasca. Uma outra fonte de possível material eram amostras de tecidos obtidas em necrópsias realizadas em 1918, que eram preservados em parafina. Os esforços deram resultado. Uma amostra de tecido pulmonar de um soldado americano forneceu aquilo que Taubenberger e seus colaboradores ansiosamente buscavam: fragmentos intactos da substância viral, cuja composição pôde ser identificada. O mesmo se encontrou na amostra de um segundo cadáver.

Hultin, por sua vez, isolou material viral dos pulmões de uma mulher da etnia inuit, conhecida como “Lucy”, sepultada no Alasca. Taubenberg foi além e, em 2002, conseguiu criar um vírus com os genes mais letais do espécime de 1918 (esse revelou-se mais agressivo para os animais de laboratórios do que os outros ”fabricados” com genes do vírus da gripe habitual). O argumento para esse tipo de estudo é o de conhecer melhor o “inimigo”, identificar sua estrutura e descobrir como ela muda. Muitos cientistas, contudo, fazem objeções a esse trabalho. Alegam que já temos um número suficiente de vírus gripais estudados e que “ressuscitar” o vírus de 1918 significaria “libertar o demônio”. Mas o receio de toda a comunidade é óbvio, sobretudo em uma época que transformou a guerra bacteriológica em ameaça e em obsessão. Como observou outro pesquisador, Jan van Aken, se Jeffery Taubenberger estivesse trabalhando num laboratório russo, chinês ou iraniano, seria visto como um inimigo em potencial.


Da Espanhola à Sars
A gripe de 1918 continuou provocando ondas de choque que chegaram até nossos dias. Cada vez que surgiam casos novos da doença era aquele calafrio: será que a espanhola está voltando? Cepas do vírus da gripe com material genético recentemente incorporado causaram pandemias em 1957 e 1968. A pandemia de 1957 ficou conhecida como gripe asiática, por ter se iniciado na China e na Indonésia. No Brasil, a asiática foi diagnosticada primeiro no Rio Grande do Sul, sendo logo depois detectada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Uma nova causa de alarme surgiu em 1976: recrutas de Fort Dix, nos Estados Unidos, contraíram uma doença gripal que levou um deles à morte. Dessa vez o agente causador da doença foi isolado. Era um vírus de gripe suína. Ora, muitos cientistas achavam que a gripe de 1918 tinha sido exatamente isso, uma virose transmitida pelos porcos aos seres humanos. O pânico chegou aos altos escalões do governo americano, na administração do presidente Gerald Ford.

Era véspera de eleições e uma epidemia poderia ter sérias conseqüências políticas. Uma vacina foi preparada às pressas e, em meio a discussões, aplicada em 40 milhões de pessoas. Várias delas tiveram problemas neurológicos (a síndrome de Guillain-Barré), o que só fez aumentar a controvérsia. No fim, a epidemia não ocorreu. Uma outra fonte de infecção foi identificada em 1997, em Hong Kong, quando 18 pessoas foram infectadas por um vírus comum em aves. Isso gera uma alarmante analogia com o vírus da Sars, que possivelmente veio de aves na China.


Saiba mais
Livros

O Mez da Grippe, Valêncio Xavier, Companhia das Letras, 1981

Gripe: A História da Pandemia de 1918, Gina Kolata, Record

A História e suas Epidemias, Stefan Cunha Ujvari, Senac, O primeiro é um romance feito de colagens de recortes de jornais sobre a gripe, tratada em nível mundial no segundo livro. Já Ujvari fala das outras epidemias que abalaram o mundo

Revista Aventuras na Historia