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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Saúde e Doença na Idade Média: entre o castigo e a redenção

"A extração da pedra da loucura" (1485), do pintor italiano Hieronymus Bosch (1450-1516), retrata a concepção medieval que supunha a loucura como uma pedra no cérebro. Bosch, na sua imaginação, no momento da extração da doença, coloca no lugar da dureza da pedra a delicadeza de uma flor. A imagem que se tinha da loucura era de algo místico, desconhecido, considerado o lugar imaginário da passagem da vida à morte.

Ma Idade Média, o espetáculo da doença e da morte atingia a todos. Para lubridiar a morte, evitava-se o contato, a proximidade, o toque e, ao mesmo tempo, buscava-se neutralizar com perfumes e com máscaras os odores que corrompiam o ar. Por isso, os médicos que cuidavam de doentes com a peste negra usavam máscara como uma forma de proteção. O formato de um bico de pássaro era para distanciar ainda mais o contato com o ar pestilento.


O Navio dos Loucos, pintura de Hieronymus Bosch (1450 - 1516), apresenta, de forma alegórica, a devassidão e a profanidade presentes em todos os grupos sociais da Idade Média, incluindo o Clero, como se pode ver na imagem onde são retratados uma freira e um frade franciscanos que se encontram tão distraídos, tentando fincar os dente num pedaço de pão pendurado por um fio, que nem reparam que um ladrão tenta roubar o pouco que lhes resta. Na imagem, mais uma vez, a morte é representada pela caveira na árvore. (Fonte: www.wikipedia.org - em junho de 2010)


Carlos Batistella
Com a queda do Império Romano e a ascensão do regime feudal, por volta do ano 476 d.C., evidenciaram-se o declínio da cultura urbana e a decadência da organização e das práticas de saúde pública. As instalações sanitárias tanto na sede como nas províncias do antigo Império foram destruídas ou arruinaram-se pela falta de manutenção e reparos (Rosen, 1994).

Enquanto no Ocidente a desmantelação da máquina do governo e o declínio econômico fazia o Império agonizar; no Oriente, em Bizâncio (hoje Istambul, Turquia), onde as invasões bárbaras não chegaram a ameaçar, foram mantidas várias das conquistas do mundo clássico e a herança da tradição médica greco-romana.

A Idade Média (500-1500 d.C.) foi marcada pelo sofrimento impingido pelas inúmeras pestilências e epidemias à população. A expansão e o fortalecimento da Igreja são traços marcantes desse período.

O cristianismo afirmava a existência de uma conexão fundamental entre a doença e o pecado. Como este mundo representava apenas uma passagem para purificação da alma, as doenças passaram a ser entendidas como castigo de Deus, expiação dos pecados ou possessão do demônio. Conseqüência desta visão, as práticas de cura deixaram de ser realizadas por médicos e passaram a ser atribuição de religiosos. No lugar de recomendações dietéticas, exercícios, chás, repousos e outras medidas terapêuticas da medicina clássica, são recomendadas rezas, penitências, invocações de santos, exorcismos, unções e outros procedimentos para purificação da alma, uma vez que o corpo físico, apesar de albergá-la, não tinha a mesma importância. Como eram poucos os recursos para deter o avanço das doenças, a interpretação cristã oferecia conforto espiritual, e morrer equivalia à libertação (Rosen, 1994).

A difusão da igreja católica e de sua visão tornou marginal qualquer explicação racional que pretendesse aprofundar o conhecimento a partir da observação da natureza. As ciências, e especialmente a medicina, eram consideradas blasfêmias diante do evangelho. A especulação científica era, portanto, desnecessária (Scliar, 2002). Assim, o desenvolvimento da medicina só teve continuidade entre os árabes e judeus, onde a tradição de Hipócrates e Galeno de Pérgamo foi acrescida de importantes estudos em farmacologia e cirurgia. Destacam-se nesse período Avicena (980-1037) e Averróes (1126-1198).

O medo das doenças era constante nos burgos medievais. Dentre as inúmeras epidemias que aterrorizavam as populações (varíola, difteria, sarampo, influenza, ergotismo, tuberculose, escabiose, erisipela etc), a lepra e a peste bubônica foram, sem dúvida, aquelas de maior importância e preocupação.

Caso emblemático, a lepra era tida como manifestação evidente da impureza diante de Deus, e seus portadores deveriam ser condenados ao isolamento, conforme descrição bíblica. Considerados mortos, rezava-se uma missa de corpo presente antes do mesmo seguirem para o leprosário. Aqueles que vagassem pelas estradas deveriam usar vestes características e fazer soar uma matraca para advertir a outros de sua perigosa ameaça. Todo estigma e as conseqüências de seu diagnóstico fizeram da lepra a doença mais temida nesse período (Rosen, 1994; Scliar, 2002).

A peste bubônica, por sua vez, marcou o início e o ocaso da Idade Média. Causada por uma bactéria, Pasteurella pestis, transmitida pela pulga de ratos, a doença foi responsável pela morte de cerca de ¼ da população européia em 1347. Dentre as principais causas apontadas estavam as viagens marítimas e o aumento da população urbana, que, somados aos conflitos militares, aos intensos movimentos migratórios, à miséria, à promiscuidade e à falta de higiene nos burgos medievais, tornaram o final deste período histórico digno da expressão muitas vezes evocada para descrevê-la: a idade das trevas.

Ainda que limitadas, algumas ações de saúde pública foram desenvolvidas na intenção de sanear as cidades medievais. A aglomeração crescente da população – que chegava trazendo hábitos da vida rural, como a criação de animais (porcos, gansos, patos) –, o acúmulo de excrementos nas ruas sem pavimentação, a poluição das fontes de água, a ausência de esgotamento e as péssimas condições de higiene, produziam um quadro aterrador. Buscou-se então garantir o suprimento de água aos moradores para beber e cozinhar; pedia-se que não fossem lançados animais mortos ou refugos na corrente do rio; proibiase a lavagem de peles e o despejo de resíduos dos tintureiros nas águas que serviam à comunidade.

Somente no final da Idade Média é que, pouco a pouco, foram sendo criados códigos sanitários visando normatizar a localização de chiqueiros, matadouros, o despejo de restos, o recolhimento do lixo, a pavimentação das ruas e a canalização de dejetos para poços cobertos (Rosen, 1994). Ainda assim, é preciso lembrar que os hábitos culturais dos habitantes tornavam boa parte das medidas inócuas.

Também na Idade Média é que surgem os primeiros hospitais. Originados da igreja, nas ordens monásticas, inicialmente estavam destinados a acolher os pobres e doentes. Para Foucault (1982a: 99-100),

Antes do século XVIII, o hospital era essencialmente uma instituição de assistência aos pobres. Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. O pobre como pobre tem necessidade de assistência e, como doente, portador de doença e de possível contágio, é perigoso. Por estas razões, o hospital deve estar presente tanto para recolhê-lo quanto para proteger os outros do perigo que ele encarna. O personagem ideal do hospital, até o século XVIII, não é o doente que é preciso curar, mas o pobre que está morrendo. É alguém que deve ser assistido material e espiritualmente, alguém a quem se deve dar os últimos cuidados e o último sacramento. (...) E o pessoal hospitalar não era fundamentalmente destinado a realizar a cura do doente, mas a conseguir sua própria salvação.
Outra importante contribuição deste período foi a instituição da prática da quarentena para deter a propagação das doenças. A êxito da experiência do isolamento de leprosos – embora proposta por razões religiosas – reforçou a idéia de sua utilização para outras doenças comunicáveis. Diante da epidemia da peste, em meio a outras práticas baseadas na compreensão miasmática e no misticismo (como uso de perfumes, fogueiras purificadoras etc), a retirada das pessoas da convivência e a sua observação até a garantia de que não estivessem doentes já apontavam uma preocupação com a natureza contagiosa de algumas doenças.

Surgida em 1348 em Veneza, principal porto de comércio com o Oriente, a quarentena consistia na notificação de casos suspeitos às autoridades e no isolamento e observação rigorosa de pessoas suspeitas, embarcações e mercadorias por quarenta dias, em uma ilha situada na laguna. Posteriormente, outros locais foram designados com a finalidade de promover a reclusão quarentenária.

Como síntese desse período, parece-nos importante lembrar que, embora a natureza comunicável de algumas doenças fosse cada vez mais nítida - como a lepra e a peste –, a teoria miasmática ainda persistia como modelo explicativo. Ou seja, não havia evidência do elemento comunicável que não aqueles já sugeridos por Hipócrates: uma alteração atmosférica, onde águas estagnadas e matéria orgânica em decomposição corrompiam o ar. Naturalmente que, sob o poder da igreja, foram desautorizadas todas as iniciativas de avanço no conhecimento das causas das doenças e até mesmo de sugestão de qualquer explicação que estivesse além da fé. Aqueles que insistissem enfrentariam os tribunais da Inquisição.
FIOCRUZ

domingo, 21 de novembro de 2010

Medicina e Adivinhação na abadia beneditina medieval

História reconhece duas grandes etapas na evolução do conhecimento médico da Idade Média ocidental: a medicina acadêmica que cresce nas universidades de 12º-13º séculos e medicina tradicionalmente associados com grandes abadias monástica de período carolíngio. O último é uma medicina praticada pelos monges para o benefício de suas comunidades, mas as populações vizinhas não são excluídos. O 11º-12º séculos, a descoberta do mundo latino, especialmente em Monte Cassino e Salerno, medicina greco-árabe é uma articulação entre essas duas fases. Médicinaire de um corpo médico de Jacques de Liège-Saint mostra a sobrevivência da medicina monástica no final da Idade Média, junto com a medicina acadêmica, e destaca os laços que unem a tradição médica acadêmica.

Sobre médicinaire Saint-Jacques de Liège

Saint Jacques

Escrito em um dialeto da língua francesa ", médicinaire Liege" é um manuscrito, em Darmstadt. Conhecida desde o final dos anos 19º século, foi editado por Jean haust em 1941. Haust focada em aspectos filológicos, mas pouca discussão sobre o seu conteúdo.

O médicinaire No entanto, é um documento complexo, que consiste em quatro principais tratados: a chave para os sonhos, uma lua - ou seja, uma série de previsões válidas para cada dia do mês lunar - um herbário, um Catálogo das plantas úteis para a composição de remédios e, finalmente, uma coleção de receitas ou réceptaire. Este último é rico com cerca de 170 receitas médicas, à base de plantas ou matéria animal (por exemplo animalibus medicinae). Também inclui um vinte encantos (do Lat.carmen).

Receita mostram uma medicina baseada principalmente sobre os sintomas e desprovida de qualquer sistema explicativo da ocorrência da doença. Os remédios não exigem que os produtos baratos e fáceis de obter, em jardins ou estradas. A sua aplicação é acessível a todos. Plantas são triturados e macerados, cozidos, etc. Para ser especialmente pomadas ou poções. A irracionalidade é outra peculiaridade a este medicamento. Colocados no mesmo plano que os rendimentos de drogas, os encantos são supostamente para tratar vários transtornos, como sangramento ou febre. Ele também usa durante o parto. Eles também são válidas para os animais. Muitas vezes, consistem de uma oração, fórmulas litúrgicas ou empréstimo da história sagrada, medicamento que dão um tom cristão. O médicinaire também contém algumas barbara nomina estático, desprovido de qualquer significado, pronunciá-los como tal. Estas características diferentes pode ajudar na compreensão deste tipo de medicamento para medicamento chamado interno "um" que os proprietários praticada desde os tempos antigos em seus campos, passando por médico.

Médicinaire de Saint-Jacques

Existem tratados anteriores equivalentes fontes potenciais para médicinaire Saint-Jacques, e textos paralelos como algumas de suas receitas, e incluídos em coleções de documentos contemporâneos Liege. Eles atestam que o conhecimento médico era bastante difundido na Idade Média. Com cinco legislativo equivalente escalonadas entre 13ª e 15ª séculos (dois em Paris, uma em Oxford, uma em Montpellier e em Cambrai), significava um teste para determinar se um paciente vai sobreviver ou não a doença é o caso mais eloqüente de uma ampla divulgação no espaço.

Os textos constituem a médicinaire vezes enraizados longe no tempo. A chave para os sonhos e voltar para a Antiguidade lunar do Oriente Médio. A sua introdução no Ocidente refere-se à 8ª e 9ª séculos. Quanto à receita, são os encantos e Medicinae animalibus ex que fornecem mais conexões com os tratados antigos, de origem antiga e da Alta Idade Média.

Este tipo de medicina, mas as ligações com a medicina aprendeu. Em 1974, Guy Beaujouan salientou inicialmente aprendeu muitas receitas medievais. A busca por Hélène Marganne Polytrichum-Marie sobre como estimular o cabelo mencionado no médicinaire, confirmou o fato. O corpo médico do Saint-Jacques também são abundantes evidências para uma ligação entre a medicina monástica do final da Idade Média e do médico a tempo acadêmico. Lamedicina irmão de Leonard († 1401), escrito em muitas referências Abbey aprendeu a medicina, em especial noCanon de Avicena.

Além de medicina geral, essa coleção de Saint-Jacques contém receitas ginecológico ou veterinários. A menos que você acha que eles só foram transcritas para o registro, sua presença sugere um público mais amplo do que apenas os monges professos. Pense-se na população do entorno, masculino e feminino, e seu gado. Sob certas condições, um costume estabelecido no final dos anos 13º século Saint-Jacques, também autoriza a prestação de assistência a estrangeiros na comunidade monástica. La familia da abadia é mencionado pelo nome.

Os monges velho remédio vai aparecer lá, die hard. No 18º século, Saint-Hubert ou Orval, assistência religiosa para os moradores. Essas práticas são, então, a caridade médica, para beneficiar os pobres. Este medicamento é o herdeiro da medicina interna. Na segunda metade do 19º século continua Littré dá a esta actividade médica a seguinte definição: "prática da medicina por aqueles que, não sabendo nada sobre a medicina, administração de medicamentos em casa ou pobres utilizando livros e formas. " Poderia ser mais explícito?

Genevieve Xhayet
Fevereiro 2010

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Genevieve Xhayet é pesquisador do Centro de História da Ciência e Techniques.Ses principais focos de investigação sobre a relação da ciência e da medicina com a sociedade. Ela publicou Medicina e Adivinhação na beneditina medieval do mundo.




G. Xhayet
Genevieve Xhayet
Medicina e adivinhação do mundo beneditino medieval
Clássicos edições Ganier
Al. Conhecimento duas medieval, Paris, 2010