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terça-feira, 12 de agosto de 2014

O manual de campanha eleitoral da Roma Antiga


Maria Cristina Fernandes

Do Valor

Como ganhar uma eleição
Por Maria Cristina Fernandes

O título é o nome de um livrinho escrito 64 anos antes de Cristo. É de grande utilidade na temporada eleitoral que se inicia. Políticos, marqueteiros e estrategistas de campanha sempre se serviram dele. Por razões inversas, o texto também pode ser de grande serventia para o eleitor.

Sua leitura é especialmente esclarecedora para saudosistas de um tempo que nunca existiu. Os conselhos de Quinto Túlio Cícero mostram que política nunca se escreveu com 'p' maiúsculo. Talvez porque seja feita por gente. Sem conhecê-la, o eleitor se torna presa fácil do discurso de que só os bem-aventurados são capazes de fazer a política maiúscula, aquela da mitologia.

O autor é o irmão mais novo de Marco Túlio Cícero, um advogado de 42 anos com ambição de se tornar cônsul, o mais alto posto da república romana. Descendem de um rico comerciante do sul de Roma que mandou os filhos estudar filosofia e oratória na Grécia.

Marco Túlio torna-se um grande orador nos tribunais mas, para chegar a cônsul, precisa enfrentar as resistências da aristocracia fornecedora de dirigentes da república. Quinto manda seu irmão repetir para si mesmo: "Sou um 'outsider'. Quero ser cônsul. Esta é Roma".

O voto era direto, secreto e masculino, mas o sistema eleitoral conferia mais peso aos nobres. "Nunca deixe que o tomem por um populista", diz Quinto Túlio ao traçar a estratégia de aproximação do irmão com a aristocracia. Deveria ficar claro para os nobres que todo movimento em direção ao povo se devia a tática eleitoral.

Marco Túlio não deveria se deixar intimidar pelos concorrentes de sangue azul. Um tinha tido a propriedade confiscada por dívida e comprara uma escrava para lhe prestar serviços sexuais. Outro matara o cunhado, molestava jovens garotos e corrompia juízes nos tribunais. Essas questões não precisam ser explicitadas mas os adversários devem saber que são conhecidas. Estava lançado aí o primeiro tijolo das fábricas de dossiês.

Esta é a primeira parte da campanha. Em que o candidato se assenhora de sua ambição e se torna amigo dos mais aquinhoados de dinheiro e poder para não ser por eles barrado. Numa disputa eleitoral, diz Quinto, há duas tarefas: assegurar o apoio de seus amigos e ganhar o do público: "Você ganhará o dos amigos com gentilezas, favores, conexões, disponibilidade e charme".

Marco Túlio Cícero deve lhes dizer nunca lhes ter pedido nada antes e que chegara a hora de fazê-lo. "Faça-os saber que se você ganhar a eleição agora você estará em dívida com eles".

O irmão não deve filtrar aliados pelo caráter. Numa campanha, diz o irmão, você não deve ter vergonha de cultivar amigos com gente de quem nenhuma pessoa decente se aproximaria - "Você será um tolo se não o fizer". Nasciam as diretrizes das megacoalizões eleitorais.

A segunda parte da campanha deve tratar de ganhar o povo. O primeiro passo é conhecer as pessoas pelo nome. Num eleitorado de 141 milhões a tarefa é em parte feita pela propaganda na TV. Gente do povo é escolhida a dedo para representar na TV segmentos do eleitorado com quem o candidato deve mostrar intimidade.

Chamar os eleitores pelo nome não basta. Eles precisam saber o que vão ganhar com sua eleição. Por isso, Quinto diz que o irmão não deve ter o pudor de prometer, ainda que mais tarde seja necessário convencer os eleitores de que não foi possível cumprir o prometido.

O mais prudente, diz Quinto, é ser vago em relação às promessas. Dizer aos nobres que manterá seus privilégios, aos empresários que assegurará a estabilidade de seus negócios e ao povo que sempre esteve e estará ao seu lado. "A parte mais importante da campanha é levar esperança às pessoas e atrair seus bons augúrios", diz Quinto. Mas seu irmão deveria saber que não seria capaz de fazê-lo se confiasse facilmente nas pessoas. "A política é cheia de falsidade, deslealdade e traições".

Marco Túlio Cícero elegeu-se cônsul. Durante seu governo, um dos adversários derrotados conspirou para derrotá-lo. Cícero desbaratou a conspiração e persuadiu o Senado a declarar guerra ao adversário. Quinto foi eleito para o mais alto cargo da magistratura, cargo que só perdia para o de cônsul, em poder e prestígio. Depois foi governador na província romana que se tornaria a Turquia. Os irmãos Cícero tinham dominado os códigos para conquistar e exercer o poder na república romana, mas não sobreviveriam à guerra civil que daria início ao Império. No ano 43 A.C. seriam assassinados.
http://jornalggn.com.br/

Manual do Candidato às Eleições: Marketing político existe há 2 mil anos



Manual da Roma antiga ensinava a candidato como se comportar para ganhar votos

Felipe Van Deursen

“Você deve constituir amizades de todos os tipos: nomes ilustres, os quais conferem prestígio ao candidato; magistrados, para garantir a proteção da lei. (...) Isso requer conhecer as pessoas de nome, usar de certa bajulação.” Tá, parece, mas não é uma cartilha encontrada nas coisas de um dos mais de 19 mil candidatos às eleições deste ano.

Trata-se de um trecho do Manual do Candidato às Eleições, escrito em 64 a.C. em Roma, por Quinto Túlio Cícero. O autor preparou o manual (Commentariolus Petitionis, no original em latim) para seu irmão, Marco Túlio Cícero, ilustre orador e político que naquele ano se candidatava ao posto máximo da República romana: o de cônsul. O manual, embora curto, tinha conselhos valiosos para Cícero conseguir ser eleito. Fortalecer amizades já existentes e conquistar novas, cobrar favores prestados a quem pudesse ajudar na campanha, decorar o maior número de nomes possível, sorrir para todos, ser generoso, fazer promessas mesmo sabendo que não cumpriria todas, pedir votos na rua, estar sempre cercado de multidões, falar a língua do povo e tornar públicos os podres dos adversários.

“Em Roma, onde havia poder havia corrupção”, afirma Laura Silveira, especialista no assunto e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “E naquela época da República, como era preciso conquistar todos os setores representados no Senado, as dicas eleitoreiras do manual deveriam ser de grande utilidade.” E foram: Marco Túlio Cícero acabou eleito.


Você Sabia
2006? Não: era 64 a.C.
Podres do passado foram explorados na campanha
Felipe Van Deursen

A eleição em 64 a.C. e o mandato de Marco Túlio Cícero no consulado foram marcados por desavenças políticas, golpes baixos, acusações e grandes discursos. Embora o manual tenha ajudado, Cícero não precisou de muito esforço para ser eleito. Seus maiores rivais, Antônio e Catilina, eram homens de passados condenáveis. Quinto Túlio sugeriu explorar isso (“Ambos desde a juventude assassinos, ambos libertinos”, escreveu). Por isso, mesmo não sendo aristocrata, Cícero tinha a confiança da elite.Antônio também foi eleito (eram duas cadeiras de cônsul, com votações anuais) e reconciliou-se com Cícero. Catilina, no entanto, candidatou-se de novo, perdeu e conspirou contra Cícero, sem sucesso. Liderou um exército revolucionário e acabou morto, em 62 a.C. O cônsul condenou à morte os membros da conjuração, mas foi exilado por abuso de poder. Vinte anos depois, o triunvirato formado por Caio Otávio, Marco Antônio e Lépido afastou os irmãos Cícero da política. Os dois foram mortos.


Falam por si
Alguns trechos do manual

Imagem é tudo

“Apesar de os dons naturais valerem muito, (...) um perfil bem forjado pode falar mais alto que a natureza.”

Promessas

“Se você promete (o que o eleitor pede), essa raiva é incerta, futura e se instala em bem poucos. Mas se você nega, provoca irritação no ato e em muitos.”

Rabo preso“Não quero que você ostente isso (a corrupção dos adversários) diante deles de maneira a parecer que já planeja uma acusação, e sim que, pelo simples medo disso, você consiga com facilidade aquilo que busca.”
Revista Aventuras na História

domingo, 27 de maio de 2012

O poder de persuasão do coronelismo


Na sua origem, o coronelismo consistia em um sistema de poder político que centralizava grande domínio nas mãos de uma única pessoa - geralmente um proeminente homem local, na figura de grandes proprietários de terras, industriais ou comerciantes. Prevaleceu no Brasil no período da República Velha (1889-1930).
Personagem influente no imaginário nacional por suas façanhas e malvadezas contadas na literatura e cantadas em música, presença cativa no folclore político brasileiro, o "coronel" também é sinônimo de um Brasil arcaico que ainda hoje sobrevive em várias regiões brasileiras.

A patente de "coronel" surgiu da participação na Guarda Nacional (criada em 1831 com a deposição de D.Pedro I), que assegurou a ordem interna no País durante o Império. Como apenas os mais abastados tinham condições de arcar com os custos da compra de uniformes e armas para pertencer à Guarda Nacional, o governo da Regência (1831-1840) colocou os postos militares da Guarda Nacional à venda: só não havia o posto de general porque este era prerrogativa do Exército. Com o tempo, o "coronel" passou a ser visto pela população como homem poderoso, de quem os demais eram dependentes. O "coronel" não era uma pessoa qualquer, era "o dono do lugar". Proclamada a República, a Guarda Nacional foi extinta, mas os coronéis de patentes compradas permaneceram na posse do título, do poder e das vantagens do posto.
A evolução do termo e do personagem aponta algumas identificações regionais, como o "coronel caudilho" no Sul, o "coronel de barranco" nos rios amazônicos da região Norte, o "coronel donatário" nos sertões do Nordeste e o "coronel empresário" na região Sudeste. Ainda que as características variem, a estrutura de poder permanece a mesma.
Os estudiosos costumam identificar três tipos de coronelismo: o tribal, patriarca de um clã, cujo poder se espalha por vários municípios e deriva dele pertencer a uma família tradicionalmente poderosa; o personalista, que deve tudo ao seu carisma pessoal, tem atributos que são próprios e particulares, impossíveis de serem transmitidos por herança e que geralmente desaparecem com a sua morte; e o colegiado, formado por aqueles mais estáveis, que dirigem os negócios políticos em comum acordo com outros coronéis, sem grandes desentendimentos no grupo.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Às urnas, cidadãos!

Urna em Madeira Brasil Império 1822 - 1889
Urna de Votação em Madeira
Suas principais característica são a abertura superior para depositar a cédula e o sistema de fechadura com três chaves imitando o antigo “Piloro” – uma chave para o Juiz, outra para o Escrivão e a terceira para o Ministério Público.
Este modelo foi utilizada na época do Brasil - Império.
A Independência do Brasil obrigou o país a aperfeiçoar sua legislação eleitoral, que passou a ser influenciada pelo modelo francês.
Durante o Império, as eleições eram controladas pelo imperador, por meio da Secretaria do Estado dos Negócios do Brasil, dos presidentes das províncias e da oligarquia rural. Para garantir maioria ao governo, as alterações na legislação eram feitas às vésperas das eleições. Todo o processo eleitoral era eivado de vícios e propiciava um sem-número de fraudes.
www.tre-rn.gov.br/.../acervo/urnas_cmemoria.htm

Escapando ao controle das elites políticas, as eleições no Império eram períodos de grande desordem, que muitas vezes terminavam em pancadaria e morte
Suzana Cavani

Eleições, no Império, eram um acontecimento muito especial. Nesses dias sempre solenes, marcados por muita liturgia cívica, o mais modesto cidadão vestia sua melhor roupa, ou a menos surrada, e exibia até sapatos, peças do vestuário tão valorizadas entre aqueles que pouco tinham. Em contraste com essa maioria de gente nada refinada no trajar, destacava-se uma minoria sempre vestida com pompa e circunstância. Vestimentas de gala de autoridades civis, militares e eclesiásticas, roupas importadas – tudo do bom e do melhor compunha a indumentária de quem era mais que um cidadão qualquer e queria exibir em público essa sua privilegiada condição.

Esse desfile de contrastes mostrava o que as eleições representavam: um momento de afirmação de hierarquias e distinções sociais. A estratificação ficava ainda mais visível nos direitos dos cidadãos brasileiros definidos na Constituição. Nem todos podiam votar ou candidatar-se a cargos eletivos: tudo dependia da sua condição financeira. O sistema eleitoral do Império era bem diferente do atual. Até a reforma de 1881, o pleito era indireto. O eleitorado era dividido em dois grupos distintos: votantes e eleitores. Nas eleições primárias, ou de primeiro grau, cabia à maioria, os votantes, escolher nas urnas a minoria, os eleitores. Nas eleições seguintes, as secundárias ou de segundo grau, delegava-se aos eleitores, e somente a eles, a responsabilidade de eleger deputados e senadores.

A renda é que definia o lugar de cada cidadão nas eleições. Os que tinham renda líquida a partir de 100 mil-réis anuais compunham o corpo dos votantes. Os que tinham ganhos de 200 mil-réis ou mais, o dos eleitores. Cem mil-réis correspondiam à pensão de um estudante rico, ao custo de um luxuoso vestido de seda ou de dez pares de calçados ingleses. Após a reforma de 1845, quando a renda exigida para os votantes e eleitores já havia dobrado de valor, calculou-se que um trabalhador das plantações de café, que ganhava, em média, dois mil-réis por dia, ao término de 100 dias de labuta já teria o suficiente para votar.

Embora a escravidão deixasse sem cidadania uma fração significativa da população – pois os escravos não tinham direito a voto –, para os padrões da época muita gente votava no Brasil antes de 1881, inclusive os analfabetos. Além disso, durante muito tempo não se exigia nenhum documento que comprovasse o rendimento do eleitor. O simples testemunho de uma pessoa idônea resolvia a questão. Estima-se que na década de 1870 o eleitorado era composto de 10% da população do país. Muita gente de condição humilde votava nas eleições primárias. Só nas secundárias é que o eleitorado minguava drasticamente. O exemplo de uma freguesia urbana do Recife, em 1856, ilustra bem tal disparidade. Em Santo Antônio, para os seus 2.003 votantes, havia apenas 38 eleitores.


Na década de 1840, era quase consenso entre os políticos a necessidade de aumentar a renda do eleitorado, única medida considerada eficaz para reduzir a fraude e a interferência do governo nas urnas. Para eles, a corrupção eleitoral estava associada principalmente à participação popular. A reforma de 1845 elevou os rendimentos para o dobro do seu valor. O aceso debate que ocorreu no Parlamento nesta ocasião sugere que muitas pessoas, apesar de modestas, tinham recursos suficientes para votar. Mas quem eram os populares com direito a voto no Império? Pelas listas dos votantes da freguesia São Pedro, em Olinda, entre 606 cidadãos registrados havia alfaiates, pescadores, sapateiros, canoeiros, jornaleiros, marceneiros e pedreiros, que formavam metade do eleitorado. Nas regiões rurais, os votantes mais modestos saíam das fileiras de agregados dos engenhos e fazendas.

As eleições eram realizadas com regularidade, sempre que a lei determinava. De quatro em quatro anos eram escolhidos deputados, vereadores e juízes de paz [magistrados que exerciam nas paróquias a função de juiz de casos mais simples, como a conciliação entre litigantes]. De dois em dois anos, os deputados provinciais. Para o Senado, só havia eleições em caso de morte dos seus membros, já que este Parlamento era vitalício. Pelo que se sabe, nunca se deixou de cumprir o calendário eleitoral no Império, mesmo em tempos difíceis, como o da Guerra do Paraguai, quando só não houve pleito na província do Rio Grande do Sul, dada a sua proximidade com o conflito.

O período eleitoral era muitas vezes marcado por desordens. A imprensa do Recife, em 1860, noticiava disputas apaixonadas, que quase sempre terminavam em pancadaria e morte: “Não há homem ou mulher, menino ou moço, rico ou pobre, nobre ou plebeu, branco ou preto que em dias de eleição popular não sinta o vivo efeito de uma animação voluntária para o vulgar. Nestes dias, perdem-se as amizades (...) e há quem tenha perdido a vida”.

As eleições eram, enfim, um grande problema a ser administrado pelo Estado, pois os dois partidos imperiais – liberais e conservadores – nunca deixaram de valer-se da violência para levar a melhor nas urnas. Formados majoritariamente por representantes das classes proprietárias de terras e de escravos e, por isso mesmo, sem grandes diferenças programáticas quanto à ordem social (foi só na década de 1870 que os liberais aderiram, a muito custo, à causa antiescravocrata), os dois partidos tinham divergências no plano político que os levavam a disputar com afinco as eleições. Para os liberais, o que importava, fundamentalmente, era a descentralização do poder e a autonomia das províncias; os conservadores, ao contrário, queriam a centralização política e as províncias com atribuições de poder limitadas. Às vezes, porém, causas “menos nobres” – rixas entre famílias, conflitos entre grandes proprietários para a definição dos limites de suas terras – se tornavam motivo para o apoio a partidos e candidaturas. Assim, a tarefa mais árdua das autoridades públicas consistia mesmo em refrear a ação das classes populares mobilizadas por grupos de interesses opostos.

Surpresas de peso, de todo modo, nunca aconteciam. Aqui e ali o partido de oposição elegia um candidato, mas o grande vitorioso acabava sendo sempre o partido da situação, que contava com o auxílio da máquina governamental. Nas últimas décadas do período imperial, porém, as grandes cidades pareciam despontar, timidamente, como espaços mais propícios à liberdade de voto, ou, pelo menos, a certas barganhas eleitorais. Ali já proliferava, a preços módicos, a venda ilegal de votos, assim como a revenda dos mesmos, para tristeza dos candidatos que primeiro desembolsavam dinheiro. O caso das cédulas coloridas, em 1856, é um curioso exemplo das “traições” do votante aos políticos e àqueles de quem dependiam para sobreviver. Conforme o costume, visando controlar os eleitores, cada partido, por segurança, escolhia uma cor para suas cédulas, e ele próprio as imprimia. No sistema antigo, estas é que eram depositadas nas urnas. Mesmo assim, os votantes encontravam formas de driblar o controle. Pelo menos foi o que aconteceu no Recife, na freguesia de Santo Antônio, em 1856, onde se registrou o caso da “cédula-melancia”, ou seja, de uma cor por fora, de outra por dentro. Sinal de que o votante camuflava a cédula que recebia de um partido para votar no outro. Provavelmente, ele fazia isso colando uma sobre a outra. Depois de 1881, as cédulas coloridas foram proibidas.


Uma novidade eleitoral interessante, introduzida na capital pernambucana ainda na década de 1840, foram os meetings. Adotados tanto por liberais quanto por conservadores, eles eram equivalentes aos comícios de hoje, para conquistar votantes, eleitores, e mesmo quem não votava. Na época, o setor comercial a retalho se achava monopolizado pelos portugueses, assim como o ofício de caixeiro de loja. Os trabalhadores livres brasileiros há muito reivindicavam medidas contra tal situação. Então os “praieiros”, ou liberais pernambucanos, nas eleições de 1846, promoveram meetings nos bairros populares em defesa da nacionalização daquele comércio. Os conservadores, ou “gabirus”, contra-atacaram, utilizando o mesmo modo de mobilização. Os próprios praieiros, por seu lado, registraram na imprensa algo inusitado de se ver no Recife naquele tempo: o barão da Boa Vista, eminente político gabiru, “andando pelas ruas a pé”, apertando a mão dos pardos e fazendo “mesuras” aos pretos!

Nas eleições de 1860, seria a vez de os meetings fazerem sucesso na própria cidade do Rio de Janeiro. Em 1884, nas eleições para a Câmara dos Deputados, a bandeira da abolição congregaria outra vez muita gente trabalhadora, além de uma nascente classe média, nos afamados meetings das principais cidades brasileiras. É possível até se conseguir um mapa socioeconômico dos bairros do Recife acompanhando os discursos de Joaquim Nabuco (1849-1910) nos encontros que organizou. Em São José, um dos bairros mais populares, o orador seria aclamado pelo povo por sua defesa do trabalho, segundo ele prejudicado pela vigência da escravidão. Na freguesia da Madalena, sua fala será endereçada aos moradores “do bairro da riqueza”, na de Afogados, aos residentes no “ bairro da miséria”. Esses encontros, ao que parece, congregavam muita gente. O Jornal do Recife, em novembro de 1884, chegou a falar de duas mil pessoas reunidas num meeting, noticiando ainda que, por causa do evento, os bondes “transitaram constantemente cheios”, transportando apenas “menos de metade dos que se dispuseram a comparecer àquela reunião”.

Mas a reforma eleitoral de 1881, conhecida como Lei Saraiva, reduziu drasticamente o eleitorado do Brasil, que ficou restrito a 1% da população. Boa parte dos que “viviam do trabalho” e prestigiavam os meetings não mais votariam. A nova legislação, que introduziu as eleições diretas no país, passou a exigir dos cidadãos com direito a voto duas coisas difíceis para a maioria deles: alfabetização e prova documental de renda. Para o povo brasileiro, portanto, aquelas “Diretas Já” do século XIX foram uma grande derrota. No entanto, a luta pelo livre exercício do voto, assim como pela cidadania de maneira geral, continuaria República afora, para chegar, entre avanços e recuos, até os dias de hoje.

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SUZANA CAVANI É PROFESSORA DE HISTÓRIA DA UNIVERDIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO (UFPE) E AUTORA DA TESE "S EMPERRADOS E OS LIGUEIROS: A HISTÓRIA DA CONCILIAÇÃO EM PERNAMBUCO (1849-1857)" RECIFE: UFPE, 1999.



SAIBA MAIS:

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 4ª edição, 2003.

GRAHAM, Richard. Clientelismo e Política no Brasil do Século XIX. Rio de Janeiro: Campus/UFRJ, 1997.

SOUZA, Francisco Belizário Soares de. O sistema eleitoral no Império. Brasília: Senado Federal, 1979.

Fontes impressas
LISBOA, José Francisco. Jornal de Timon. Partidos e eleições no Maranhão. Introdução e notas de José Murilo de Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional