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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quem tem medo da radioatividade?

Como herança da destruição causada pela explosão das bombas atômicas ao fim daSegunda Guerra, a energia nuclear ganhou uma reputação difícil de mudar. Um novo livro desmistifica a radioatividade e aponta as vantagens e desvantagens de seu uso.

Bruna Ventura


Embora a radioatividade esteja associada a bombas atômicas e acidentes nucleares no imaginário de muitos, ela está por trás de inúmeras aplicações benéficas, como a radioterapia (foto: Dina-Roberts Wakulczyk / CC 2.0 BY).


Foram mais de cem mil mortos imediatamente após a explosão das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Noventa por cento deles eram civis. Era o fim da Segunda Guerra Mundial, mas o sofrimento de milhares de pessoas não terminaria em 1945. Gerações depois, as sequelas da radioatividade ainda eram sentidas, como mostram os altos índices de câncer de mama nas meninas nascidas em Hiroshima no pós-guerra.

De uma hora para outra, toda indústria bélica ficou obsoleta, já que a tecnologia de apenas uma bomba poderia destruir uma cidade inteira em minutos.

Ironicamente, as mesmas propriedades do átomo capazes de causar tamanha destruição também podiam salvar vidas se empregadas no tratamento de câncer. A radioterapia, o exame de raios-X e o marca-passo artificial são exemplos de aplicações pacíficas da radioatividade. Para muitos, no entanto, a função da energia nuclear se resume a dizimar vidas.


O temor suscitado pelos cogumelos atômicos se espalhou pelo mundo e ecoa até hoje devido à falta de informações precisas sobre o tema. Para desmistificar essa imagem reducionista e ameaçadora, dois professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) acabam de lançar o livro Perdendo omedo da radioatividade.

No livro, o físico Felipe Damásio e a química Aline Tavares resgatam a história de como o homem explorou o interior do átomo a partir do final do século 19, quando foram descobertos os raios-X, pelo alemão Wilhelm Röntgen, e a radioatividade, pelo francês Antoine Henri Becquerel e pelo casal Pierre e Marie Curie (esta última de origem polonesa).

A obra é fruto de um debate sobre os benefícios e perigos da tecnologia nuclear durante as aulas dadas por eles no Instituto de Física da UFRGS. Durante esses debates, os autores perceberam que muito se falava, mas pouco se sabia sobre o tema e resolveram aprofundá-lo. 


Vilã ou heroína?

A partir dos trabalhos pioneiros do fim do século 19, o livro mostra a evolução do conhecimento científico sobre o interior do átomo, passando pelos trabalhos de Albert Einstein, duas guerras mundiais e a corrida armamentista da Guerra Fria na década de 1960.
O risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear são tratados de forma esclarecedora

Ao destacar as aplicações da tecnologia nuclear na medicina molecular, na agricultura, na indústria e na datação de artefatos na arqueologia, os autores mostram que rotulá-la como vilã ou heroína da história depende do ponto de vista a partir do qual se quer enxergá-la.

A obra também aborda a polêmica que aindaenvolve a geração de energia nas usinas nucleares como alternativa à queima de combustíveis fósseis das usinas termelétricas de gás e carvão e ao impacto socioambiental das hidrelétricas. Os fantasmas associados às usinas nucleares – o risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear – são tratados de forma esclarecedora pelos autores.

O vocabulário do livro é simples, o que faz com que o texto possa ser apreciado mesmo por quem não está familiarizado com o tema. Vale destacar também que as fórmulas matemáticas foram deixadas de lado, para que pessoas sem formação específica em física ou matemática possam formar uma opinião crítica e criteriosa sobre a energia nuclear.

Perdendo o medo da radioatividade
Felipe Damasio e Aline Tavares (ilustrações: Lor)
Campinas, 2010, Autores Associados
148 páginas
Bruna Ventura

Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Reconstrução transformou Hiroshima em 'cidade da paz'



Reconstrução transformou Hiroshima em 'cidade da paz'
Explosão de bomba nuclear pôs fim a décadas de tradição militar de cidade japonesa

Luísa Pécora, iG


A bomba atômica lançada pelos EUA em Hiroshima durante a 2.ª Guerra Mundial provocou uma verdadeira mudança de identidade na cidade japonesa. Com tradição militar desde a era Meiji (1868-1912), Hiroshima adotou o conceito de cidade da paz como base para seu processo de reconstrução.

Até 1945, Hiroshima era sede de importantes instalações das Forças Armadas japonesas e de fábricas que produziam materiais utilizados pelo Exército. A explosão da bomba atômica, em 6 de agosto, destruiu 40% da cidade e matou 140 mil pessoas. Nos anos seguintes, doenças relacionadas à radiação elevaram o número de mortos para 253 mil, segundo o governo japonês.

O mesmo efeito devastador de longo prazo ocorreu em Nagasaki, atingida por outra bomba nuclear três dias depois. Apenas em 1945, 70 mil pessoas morreram, número que passou para 143 mil nos anos seguintes. A tragédia que atingiu as duas cidades levou o Japão a se render em 15 de agosto.




Segundo Hidaki Shinoda, professor da Universidade de Hiroshima, a bomba atômica destruiu completamente o propósito da antiga cidade militar. "Hiroshima perdeu tudo, inclusive sua identidade", afirmou em entrevista ao iG.

Autor do estudo "Post-War Reconstruction of Hiroshima as a Case of Peacebuilding" (A Reconstrução de Hiroshima no Pós-Guerra como Caso de Construção da Paz, em tradução livre), Shinoda argumenta que a mudança de identidade foi uma "necessidade", já que a própria participação do Japão no conflito terminou seis dias depois do bombardeio. Não era possível restaurar uma cidade militar no Japão pós-guerra, por isso uma nova base era necessária, escreve.

Em novembro de 1945, o governo japonês iniciou um plano de reconstrução que incluiu 119 cidades destruídas durante a guerra. Em Hiroshima, foram construídas casas temporárias próximas a estradas, e revitalizadas ruas, parques e escolas, em um processo que empregou cerca de 100 mil pessoas.

Um passo fundamental foi dado em 1949, com a promulgação do ato de construção do Parque Memorial da Paz. Projetada pelo arquiteto japonês Kenzo Tange e inaugurada em 1954, a área está localizada no antigo distrito de Nakajima. A bomba destruiu o local, até então um dos principais centros comerciais de Hiroshima, onde viviam 6.500 pessoas. As construções que ficaram em pé, ainda que parcialmente, foram preservadas no projeto do parque, que tem cerca de 122.100 metros quadrados e abriga um museu sobre a tragédia.

Para o professor Shinoda, era preciso dar à população um lugar onde obter informações e refletir sobre o acontecimento. Se a bomba atômica fosse esquecida ou lembrada apenas com ódio e sofrimento, a nova cidade da paz não conseguiria avançar em sua reconstrução, afirmou. O mais difícil é reconstruir a mente de pessoas que estão tomadas pela raiva e pela perda.

Shinoda relembra que, quando o parque foi inaugurado, a direita japonesa criticou o governo por gravar em um dos monumentos a frase "nunca repita esse erro", sem especificar qual país lançou a bomba. "A intenção oficial era fazer do ataque a Hiroshima um chamado mundial ao pacifismo, para que a população não sentisse raiva dos Estados Unidos quando lembrasse do que aconteceu", explicou.

Com Reuters
http://ultimosegundo.ig.com.br

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki precederam Guerra Fria



Ataques nucleares a Hiroshima e Nagasaki precederam Guerra Fria
EUA e URSS não se enfrentarem de forma direta no período, marcado por coalizões militares, corrida nuclear e disputa econômica

Em 15 de agosto de 1945, nove dias depois da explosão nuclear em Hiroshima e seis após a de Nagasaki, o Japão anunciou sua rendição aos Aliados, liderados por Grã-Bretanha, Estados Unidos e ex-União Soviética. Em 2 de setembro, o país asiático assinou o Instrumento de Rendição, oficialmente pondo fim à Guerra do Pacífico travada na Ásia e, portanto, à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

O conflito armado foi sucedido pela Guerra Fria (1947–1991), período de conflito político, tensão militar e competição econômica que existia primordialmente entre a União Soviética e seus Estados satélites e os países Ocidentais, em particular os EUA.

Embora as principais forças militares nunca tenham se enfrentado oficialmente de forma direta (característica que deu o nome ao conflito), eles expressaram o confronto por meio de coalizões militares, posicionamento de forças convencionais estratégicas, amplo auxílio financeiro a Estados considerados vulneráveis, guerras indiretas travadas nos territórios de outros países, espionagem, propaganda, corrida de armas nucleares e competições econômicas e tecnológicas, como a Corrida Espacial.

Apesar de serem aliados contra os poderes do Eixo (liderados por Alemanha, Itália e Japão) e terem as forças militares mais poderosas entre as demais nações, a URSS e os EUA divergiram sobre qual teria de ser a configuração do mundo enquanto ocupassem a Europa, onde o conflito começou com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista.

A URSS estabeleceu o Bloco Oriental com os países que ocupou no leste da Europa, anexando como Repúblicas Socialistas Soviéticas e mantendo outros como Estados satélites, oito dos quais foram mais tarde consolidados na aliança militar do Pacto de Varsóvia (1955–1991).

Os EUA e alguns países da Europa Ocidental estabeleceram a contenção do comunismo como uma política de defesa, criando alianças como a Organização do Atlântico Norte (Otan) com esse objetivo.

Vários desses países também coordenaram o Plano Marshall, especialmente na Alemanha Oriental, ao qual a URSS se opôs. O plano foi o principal projeto dos EUA para reconstruir e criar uma fundação econômica mais forte para os países da Europa.

Em outros lugares, como a América Latina e o Sudeste da Ásia, a ex-URSS ajudou a desencadear revoluções comunistas, que sofreram oposição de vários países ocidentais e seus aliados regionais. Alguns países se alinharam à Otan e outros ao Pacto de Varsóvia, enquanto outros formaram o Movimento de Países Não-Alinhados.

A Guerra Fria foi caracterizada por períodos de relativa calma e de alta tensão internacional - o Bloqueio de Berlim (1948-1949), a Guerra da Coreia (1950-1953), a Crise de Berlim de 1961, a Guerra do Vietnã (1959-1975), a Crise dos Mísseis de Cuba (1962), a guerra soviética no Afeganistão (1979–1989). Ambos os lados buscaram contenção para aliviar tensões políticas e evitar um ataque militar direto, que provavelmente resultaria em sua destruição mútua com armas nucleares.

Nos anos 80, os EUA aumentaram suas pressões diplomáticas, militares e econômicas na União Soviética, em um momento em que o país sofria estagnação econômica. No final dessa década, o presidente soviético Mikhail Gorbachev introduziu as reformas liberalizantes da perestroika ("reconstrução", "reorganização", 1987) e glasnost ("abertura", 1985).

A Guerra Fria acabou após o colapso da União Soviética em 1991, deixando os EUA como o poder militar dominante, e a Rússia possuindo a maior parte do arsenal nuclear da ex-URSS.
http://ultimosegundo.ig.com.br

domingo, 7 de março de 2010

Albert Einstein - A Estrada da Paz


Agosto de 1945

Quando bombas atômicas arrasaram Hiroxima e Nagasaki, o físico Albert Einstein foi chamado de responsável indireto pelas tragédias. Neste artigo, ele nega esse papel, sugere a criação de uma nova organização global e se diz alarmado com a hipótese de uma nova guerra: ela aniquilaria a Terra.

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao presidente Franklin Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Foi o que disse a ele. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi, portanto, minhas responsabilidades. Sou, no entanto, um pacifista apaixonado, e minha maneira de ver as coisas não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz.

Já que as nações não resolvem suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacifica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. O horror nesta escalada consiste em sua aparente inevitabilidade. Cada progresso parece a conseqüência inevitável do progresso precedente. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, as nações concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

"O perigo está em
que cada um, sem
fazer nada, espere
que ajam em seu
favor. Cada um de
nós tem culpa."


Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações. Compreendiam sua importância. Agora, esta posição moral é rechaçada pelos progressos técnicos. E nossa humanidade civilizada conhece o novo sentido da palavra paz: significa sobrevivência. A descoberta das reações atômicas em cadeia não constitui para a humanidade perigo maior do que a invenção dos fósforos. Mas temos de empregar tudo para suprimir o seu mau uso. Quando tivermos reconhecido isto, encontraremos então a força de realizar os sacrificios necessários para a salvaguarda do gênero humano. Cada um de nós seria o culpado se o objetivo não fosse atingido a tempo. O perigo está em que cada um, sem fazer nada, espere que ajam em seu favor.

A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade hoje. Em todos os países do mundo, grupos poderosos fabricam amas ou participam de sua fabricação; em todos os paises do mundo, eles se opõem à resolução pacifica do menor litígio internacional. Contra eles, porém, os governos atingirão este objetivo essencial da paz quando a maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regimes democráticos e nosso destino e o de nossos povos dependem inteiramente de nós. A vontade coletiva se inspirará nesta intima convicção pessoal. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? ...
Autoridade internacional - Os progressos da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do direito à guerra. Mas a guerra não é um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as negras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não valem nada. somente a rejeição incondicional da guerra pede salvar-nos.

"Não é possível o
desarmamento por
etapas, só de uma
vez por todas. E a
solução é clara -
é tudo ou nada."


Enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente extinta, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo prossivel para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com os tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca. A solução é clara: tudo ou nada. Até este momento, os esforços empregados para conseguir a paz fracassaram, porque ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Não se pode chegar a uma paz verdadeira se se determina sua política exclusivamente pela eventualidade de um futuro conflito, sobretudo quando se tornou evidente que semelhante conflito significaria a completa ruína. A linha diretriz de toda a política deveria ser: Que podemos nós fazer para incitar as nações a viverem em comum pacificamente e tão bem quanto for possível? A eliminação do medo e da defesa recíproca, eis o primeiro problema. A solene recusa de empregar a força, uns contra os outros, impõe-se absolutamente. Tal recusa somente será eficaz se se referir à criação de uma autoridade internacional judiciária e executiva, à qual se delegaria a resolução de qualquer problema concernente diretamente à segurança das nações. A declaração por parte das nações de participar lealmente da instalação de um governo mundial restrito já diminuiria singularmente o risco da guerra. A coexistência pacifica dos homens baseia-se em primeiro lugar na confiança mútua. ...
"Nós não podemos
nos desesperar dos
homens, pois nós
somos homens. A
solução, acredito,
está com o povo."


Uma nova etapa - As gerações anteriores talvez tenham julgado que os progressos intelectuais e sociais apenas representavam os frutos do trabalho de seus antepassados, que conseguiram uma vida mais fácil, mais bela. As cruéis provações de nosso tempo mostram que há aí uma ilusão. Compreendemos melhor agora que os esforços mais consideráveis devem ser empregados no sentido de que nossa herança se torne, para a humanidade, não uma catástrofe, mas uma uma oportunidade. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Não podemos nos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra.

Que os povos compreendam. Que se manifeste sua consciência. Desta forma galgaríamos uma nova etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados. O destino da humanidade repousa essencialmente e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição. Desarmamento e segurança só se conquistam juntos. A segurança não será verdadeira a não ser que todas as nações tomem o compromisso de executar por completo as decisões internacionais. Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada já freqüentada da força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis. De um lado, liberdade dos indivíduos e segurança das comunidades nos esperam. Do outro, servidão dos indivíduos e aniquilamento da civilização nos ameaçam. Nosso destino será o que escolhermos.

Albert Einstein ,de 66 anos, é professor de Física na Universidade de Princeton, nos EUA. Alemão naturalizado americano, ele recebeu o Prêmio Nobel em 1921 e realizou dezenas de estudos científicos de espetacular impacto nas últimas décadas.

Revista Veja na História

terça-feira, 28 de julho de 2009

Hiroshima - O abominável mundo novo



Hiroshima - O abominável mundo novo
Seis de agosto de 1945. Uma superbomba explode sobre o Japão, matando cerca de 100 mil pessoas. As repercussões daquela manhã de sol mudariam as regras do jogo. A eliminação da raça humana era uma possibilidade real
por Leandro Narloch
Sol, calor, nada para fazer: um baita domingo de verão na base aérea de Tinian, uma das ilhas Marianas, no Pacífico. De folga, os soldados americanos do 509º Grupo Misto aproveitaram para tirar um cochilo, bater papo, se divertir. O major Tom Ferebee, de 26 anos, passou o dia com a luva e a bola de beisebol – ex-jogador do Boston Red Sox, uma espécie de Flamengo do tradicional esporte americano – e não via a hora de voltar para casa. O sargento Bob Caron, de 21 anos, limpou sua máquina fotográfica. Muitos jogaram pôquer. No fim da tarde, a moleza foi interrompida com a convocação para uma reunião. O capitão da Marinha William Parsons queria dar uma notícia: no dia seguinte, 6 de agosto de 1945, aquele grupo de jovens lançaria sobre Hiroshima, no Japão, a arma mais terrível da história. “A bomba que vocês vão jogar é uma coisa nova nas guerras. É a mais poderosa arma já produzida. Vai destruir uma área de cinco quilômetros quadrados.”

Até aí, a missão para a qual os soldados do 509º estavam se preparando havia um ano era desconhecida mesmo para eles. Envolvera milhares de pessoas, entre cientistas e militares, três anos de trabalho e dois bilhões de dólares. Tudo para construir uma bomba inédita, tecnologicamente revolucionária e com o poder de 12 mil toneladas de dinamite. Mas por que os americanos precisavam de uma arma tão poderosa? Em maio de 1945 a guerra na Europa havia terminado. Hitler estava morto, e Berlim, em ruínas, ocupada pelo Exército Vermelho. Os aliados já discutiam o mundo pós-guerra e dividiam os territórios libertados pelos nazistas. Só que, enquanto a Europa era fatiada, o Japão resistia.

No dia 25 de julho, em seu gabinete improvisado no cruzador USS Augusta, no meio do Atlântico, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, tomou sua decisão e ordenou o ataque nuclear ao Japão. Tinha na mão uma lista de cidades-alvo, feita pelo secretário de Guerra, Henry Stimson: Hiroshima, Kyoto, Kokura, Niigata e Nagasaki. Segundo a biografia oficial de Truman, da jornalista Nancy Lewis, o presidente excluiu uma, Kyoto, que fora capital imperial do Japão, e insistiu na escolha de um alvo militar. Hiroshima, com 40 mil soldados e 220 civis, tornou-se, assim, o alvo prioritário. No navio, o presidente escreveu em seu diário: “A arma finalmente será usada contra o Japão. Parece a coisa mais terrível já descoberta”.

Restava escolher o homem certo para a missão. O piloto da marinha Paul Tibbets, um comandante nascido em Quincy, era o favorito. Apesar de seus 30 anos de idade, já acumulava grande experiência em combate. Sua ficha, no entanto, ficou três meses nas mãos do FBI. Sua vida familiar, seus parentes e amigos da faculdade, suas preferências partidárias, tudo foi vasculhado. Afinal, Tibbets teria sob seu comando a mais mortal arma de guerra jamais construída. Nada poderia dar errado. E se desse, o comandante da missão deveria estar preparado. Tibbets receberia cápsulas de cianureto para toda a equipe. Se alguém se negasse a tomá-las, ele deveria executar o colega. Isso, porém, ainda era segredo naquele domingo de sol.

O tempo também estava claro e calorento a 2700 quilômetros dali, em Hiroshima. Mesmo sendo domingo, o trabalho não parava: a cidade era um dos poucos centros industriais do Japão que não tinham sido atacados pelos bombardeios dos B-29, que incendiavam quarteirões inteiros. “Todos sabiam que seríamos os próximos”, lembra Takashi Morita, policial militar japonês que sobreviveu ao ataque e que, hoje, aos 82 anos, é comerciante e mora no bairro Jabaquara, em São Paulo. Ao som dos rotineiros alarmes antiaéreos das últimas semanas, os moradores gastaram o dia levando móveis para casas de parentes longe do centro ou improvisando abrigos. Grupos de meninas estudantes – os meninos com mais de 12 anos estavam no Exército – desmontavam as casas de madeira para minimizar os incêndios quando a cidade fosse bombardeada.

Em Tinian, onde o sol se punha magnífico nas águas azuis do Pacífico, os soldados inteiravam-se da missão. Partiriam em três aviões: o primeiro, apelidado de Straight Flush, examinaria o clima em Hiroshima e daria sinal verde para o ataque. O segundo lançaria a bomba e o terceiro avaliaria e registraria os resultados. O avião da bomba foi batizado pelo capitão Tibbets com o nome de sua mãe, Enola Gay, provocando a ira de Robert Lewis, que geralmente pilotava aquele B-29, mas que foi apenas co-piloto da missão. “Perguntei a ele que diabos estava fazendo. Era o meu avião e eu é que deveria escolher o nome”, diria Lewis ao historiador britânico Gordon Thomas, autor de Enola Gay: Mission to Hiroshima (Enola Gay: Missão Hiroshima, inédito em português).

Lewis e Tibbets não se falaram mais até a hora do vôo. Às duas da manhã, a bomba de cinco toneladas, apelidada de Little Boy (“garotinho”), foi colocada no avião. “Com quase sete mil galões de combustível, a bomba e 12 homens a bordo, o bombardeiro estava perigosamente pesado”, afirma o historiador americano Malcolm McConnell, autor de A Última Missão. Um acidente na decolagem, coisa comum, poderia fazê-la explodir ali na base. O jeito era levar a bomba desarmada e montar o dispositivo de disparo a bordo, trabalho que ficou a cargo do capitão Parsons. Às 2h45 do dia 6 de agosto, o Enola Gay decolou de Tinian rumo aos livros de história.

O avião levaria cinco horas e meia para chegar ao destino, mas durante toda a madrugada soaram alarmes antiaéreos em Hiroshima. O fotógrafo Yoshito Matsushige passou a noite revelando as fotos que tirara no dia anterior para o jornal local, o Chigoku Shimbun. De manhã, às 7h30, ele ouviu mais um alarme antiaéreo. “Pela janela, vi o avião americano. Ele me pareceu enorme”, diz Matsushige. Era o Straight Flush verificando o clima na cidade. Se houvesse nuvens e pouca visibilidade, o alvo mudaria para Kokura ou para Nagasaki. Mas a manhã era de sol. “As nuvens cobrem menos de 3/10 em todas as altitudes. Aviso: alvo primário”, foi a informação que chegou ao Enola Gay.

Se permitiu que os aviões americanos avistassem seu alvo, o céu claro sobre Hiroshima também possibilitou que seus habitantes percebessem a aproximação de seus algozes. Perto das oito horas, o médico Masakazu Fujii resolveu ler o jornal no terraço de seu consultório, de onde viu o grupo de meninas retornando ao trabalho do dia anterior. No avião, o major Thomas Ferebee ajustou os aparelhos e mirou para que a bomba atingisse uma ponte que cortava um dos sete rios da cidade. A jovem Ayako, de 20 anos, que depois se tornaria esposa do militar Takashi, olhava para o relógio do seu escritório: 8h15. Nesse momento a bomba foi lançada, livre do peso, o B-29 deu um salto para cima. O “garotinho” estava a caminho. Em segundos, um clarão silencioso foi visto na cidade. Do avião, o sargento Bob Caron fotografou o enorme cogumelo. Espantado com o impacto da explosão, o co-piloto Lewis escreveu em seu diário: “Meu Deus, o que fizemos?” Essa é a versão mais conhecida. Segundo o historiador Gordon Thomas, porém, essa frase veio depois que o coronel Tibbets pediu que ele reescrevesse algo mais educado. A frase verdadeira teria sido algo como “Caramba, que filha-da-puta!”



Por quê?

Sessenta anos depois que aquele flash gigantesco e silencioso disparou a 580 metros de altura, Hiroshima é hoje uma cidade moderna e tranqüila. Tem 2,8 milhões de habitantes, é conhecida por abrigar a fábrica de carros Mazda e um dos melhores e mais populares times de beisebol do país, o Hiroshima Carps. Tem estacionamentos verticais, canteiros de azaléias e placas Enjoy Coca-Cola pela rua. A maioria dos habitantes fala inglês e é comum as clínicas de cirurgia plástica oferecerem a chamada ocidentalização das pálpebras, intervenção que transforma olhos puxados em arredondados. Da destruição da cidade, restou uma ruína, o Domo de Hiroshima, antigo palácio de exposições. E uma pergunta: por que fazer um ataque nuclear ali?

Em agosto de 1945, a guerra contra o Japão estava quase vencida. Desde março, o país vinha cedendo o domínio de ilhas importantes no Pacífico sul, como Iwo Jima, diante do avanço dos americanos comandados pelo general Douglas MacArthur. Cidades importantes como Nagoya e Okinawa estavam arrasadas. A capital Tóquio havia sido destruída por um bombardeio de 334 aviões B-29. Oitenta mil habitantes foram mortos. “Em julho, a guerra no pacífico estava ganha”, afirma o professor Justin Libby, especialista em Relações Internacionais da Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. “A rendição, porém, era um tema polêmico tanto para japoneses, quanto para americanos. Mas, pelo menos quatro tentativas de rendição negociada foram feitas por japoneses antes de Hiroshima.”

Duas delas aconteceram por iniciativas de embaixadores japoneses na Europa impressionados com o caos na Alemanha. “Em maio de 1945, o representante japonês na Alemanha, Yoshiro Fujimura, trocou telegramas secretos com autoridades de Tóquio, apresentando as propostas de paz defendidas pelo diretor do Escritório de Serviços Estratégicos na Europa, Allen Dulles, e outros oficiais americanos na Suíça”, diz Libby. Como o cargo de Fujimura era pequeno demais para negociar o fim da guerra, ele foi ignorado por japoneses e americanos. O mesmo aconteceu com o adido militar japonês em Estocolmo, Makoto Ono. Ele entrou em contato com o rei Gustavo V, que mantinha boas relações com o imperador japonês. A idéia era chegar até o governo britânico e convencer Churchill a interceder pela paz. Ono não foi feliz. E acabou investigado por militares japoneses por querer a paz enquanto seu país queria a guerra.

A tentativa de paz mais consistente envolveu o primeiro-ministro japonês Suzuki Kantaro e foi feita via Moscou. A União Soviética e o Japão, mesmo em lados opostos, não estavam em guerra, e o japoneses acreditavam que poderiam usar a diplomacia e a força de Stálin para impor a paz negociada aos Estados Unidos. Mensagens dessas tentativas foram decodificadas pelos americanos, que as utilizaram para pressionar os soviéticos a declarar guerra aos japoneses. As mensagens mostram também que muito antes do ataque nuclear os americanos sabiam da possibilidade de rendição.

No Japão, todo mundo sabia que a guerra estava perdida. Com sua indústria de guerra paralisada, os aviões americanos B-29 passeavam pelo espaço aéreo do país quase sem resistência. Mas render-se era demais para os militares. Seria o fim do sonho expansionista que começara nos anos 30, com o Japão estendendo seus braços sobre Coréia e China. Significaria, ainda, a primeira derrota em séculos e poderia derrubar o imperador Hiroito, considerado o arahitogami, “sucessor direto dos tempos eternos”.

Por isso, os manda-chuvas do Conselho japonês, incluindo o primeiro-ministro, estavam divididos. Alguns aclamavam a população para lutar a ketsu-go, a “batalha decisiva pela pátria”. Entre eles estava o ministro da Guerra, Korechika Anami, um fanático pela tradição guerreira do país, que, como um antigo samurai, escrevia poesia clássica e dominava o kendo, luta em que um sujeito dá pauladas no outro com uma vara de bambu. Em Kyushu, no sul do país, Anami mantinha 570 mil homens à espera dos americanos. Ele também ordenara a convocação de 13 milhões de crianças e velhos que estavam sendo treinados às pressas para lutar.

O próprio imperador Hiroito assumira uma posição aparentemente contraditória: apoiava as iniciativas de paz dos embaixadores, mas também aplaudia os esforços militares de resistir à invasão, o que lhe daria melhores condições de negociar.

Mas militares e políticos americanos tinham seus próprios problemas em aceitar a paz. A opinião pública apoiava a guerra total contra o Japão e exigia a rendição absoluta. O ataque à base militar de Pearl Harbor, no Havaí, em dezembro de 1941, quando 2,4 mil americanos morreram, não fora esquecido. Uma pesquisa do Instituto Gallup de 29 de junho de 1945 revelou que 70% dos americanos queriam o Japão destruído e o imperador Hiroito retirado do cargo e julgado como criminoso de guerra. Mais: a maior parte, 33%, queria a cabeça do homem. Harry Truman, sucessor de Franklin Roosevelt, reconhecia a importância dos números. Entre os documentos liberados recentemente pelo governo americano, há um bilhete do ex-secretário de Estado Cordell Hull dirigido ao presidente e datado do dia da partida de Truman para a Europa: “Concessões aos japoneses poderão causar repercussões políticas terríveis em casa”. Hull era um dos signatários de um estudo que a guerra contra o Japão poderia durar até 1946, ano de eleições para o Congresso.

Só que Truman tinha ainda outros números com que se preocupar. Desde que assumira, a quantidade de soldados mortos era quase a metade do total dos três anos de guerra do Pacífico. Em junho, os militares apresentaram um plano de invasão ao Japão. Seriam duas operações: a Olympic e a Coronet. O presidente pediu um cálculo das baixas na empreitada. A projeção do Pentágono foi de 220 mil soldados mortos e 150 mil feridos. “Depois da guerra, essas estimativas foram ‘corrigidas’ por Washington, primeiro para 500 mil e depois para um milhão de mortos à medida que se tornou preciso justificar a bomba atômica”, diz o historiador Samuel Walker, da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos e autor de Prompt and Utter Destruction – Truman and the Use of Atomic Bombs Against Japan (Destruição total e imediata – Truman e a utilização das bombas atômicas contra o Japão, inédito no Brasil).

Para Walker, o maior empecilho para a paz com os japoneses estava longe do Japão. “Apesar da guerra continuar no oriente, em julho, duas semanas antes de Hiroshima, o foco de Truman era outro: ele estava em Potsdam, na Alemanha, onde se reuniria com os líderes da Grã-Bretanha e da União Soviética”, afirma. “Se ao sair dos Estados Unidos, Truman ainda tinha dúvidas, em Potsdam ele selou o destino de Hiroshima.” Na tarde do dia 16, Truman recebeu uma notícia que havia muito aguardava. Num ultra-secreto experimento no deserto do Novo México, militares e cientistas do projeto Manhattan realizaram com sucesso a primeira explosão nuclear. Truman não se conteve e durante o encontro com Churchill e Stálin, cochichou no ouvido do ditador soviético: “Temos um explosivo muito poderoso que iremos usar contra os japoneses e pôr fim à guerra”.

Segundo David S. Painter, professor de história da Universidade de Georgetown, em Washington, foi aí que nasceu a tese de que o ataque a Hiroshima foi um recado para Stálin. “Pôr a bomba em prática mostrou a Stálin que, apesar de ter vencido a guerra na Europa, levando sua influência a boa parte do continente, ele não ditaria as regras. E, do ponto de vista militar, a bomba atômica mostrou que havia algo mais poderoso que o Exército Vermelho”, diz Painter. “Não é à toa que muitos apontam a detonação da bomba – e não a construção do Muro de Berlim –, como o marco inicial da Guerra Fria.”

Não deixa de ser irônico: a Guerra Fria, o conflito velado entre americanos e soviéticos que marcou a segunda metade do século 20, começou com uma arma cujo núcleo chegou a 50 milhões de graus centígrados.



Memorial de guerra
Em desenhos simples, vítimas eternizaram a tragédia
8h15, dia 6

“Um flash de luz prata como se dezenas de milhares de câmeras tivessem sido disparadas ao mesmo tempo iluminou a área. Surpreso, eu virei e, no instante seguinte, ouvi um estrondo que parecia forte o suficiente para arrancar a Terra de seu eixo. Então, uma coluna gigante de fumaça subiu ao céu. Sirenes começaram a soar por toda a ilha enquanto o grande avião de bombardeio fugiu para o sul.”

Eiji Horio

Idade na época: 32 anos

Distância da explosão: 5 km

9h10, dia 6

“Eu engatinhei desesperado para sair de baixo da minha casa. Alguns dos vizinhos estavam cambaleando pela rua com feridas enormes, com pedaços de pele pendurados pelo corpo. Outros eu nem reconheci, estavam sentados no chão, olhando para o nada. Ver as pessoas naquele estado vai além da nossa imaginação.”

Mitsuko Matsutomi

Idade na época: 13 anos

Distância da explosão: 1,2 km

11h15, dia 6

“No meio de um monte de ruínas a gente via corpos queimados e inchados.”

Michie Matsushima

Idade na época: 17 anos

Distância da explosão: 450 metros

13h15, dia 6

“Vi os corpos carbonizados de uma mulher e de uma criança que pareciam que estavam tentando sair do bonde. Foi o que mais me impressionou.”

Miyoshi Kokubo

Idade na época: 26 anos

Distância da explosão: 1,2 km

17h, dia 6

“Entre as pessoas anônimas queimando, eu achei meu tio chamando minha tia com uma voz fraca. Ele deu seu último suspiro quatro horas depois.”

Yukiko Migitani

Idade na época: 22 anos

Distância da explosão: 1,7 km

6h30, dia 7

“Andei com a minha bicicleta pelas ruínas. No nariz, cheiros muito esquisitos.”

Yoshio Kawata

Idade na época: 23 anos

Distância da explosão: 2,3 km

14h, dia 8

“Me lembro de ter seis anos de idade e estar procurando por minha mãe, que estava desaparecida. Vi um corpo com o rosto queimado todo vermelho e inchado, apenas a área ao redor dos olhos ainda era branca. Sob o sol do verão, o cheiro era insuportável.“

Katsuko Kuwamoto

Idade na época: 6 anos

Distância da explosão: 1,7 km


A cara do horror
Sobreviventes relembram o dia mais longo de suas vidas
“Eu tinha acabado de tomar café-da- manhã e me preparava para ir ao jornal onde trabalhava. De repente, o mundo ao meu redor ficou branco e brilhante, como se tivessem disparado um flash na minha cara. Depois, veio a explosão. A sensação era de centenas de alfinetes me penetrando ao mesmo tempo. Após cerca de 40 minutos, peguei minha câmera, vesti uma roupa que achei no meio dos escombros e saí para a rua. Na ponte Miyuki, encontrei estudantes do Colégio para Mulheres de Hiroshima, mobilizadas para derrubar casas. Estavam cobertas de queimaduras. Puxei minha câmera, mas não consegui apertar o botão. Eu tinha sofrido apenas ferimentos leves causados por estilhaços de vidro, e aquelas pessoas estavam morrendo. Hesitei por uns 20 minutos, até tomar coragem. Lembro que o visor da câmera ficou embaçado pelas minhas lágrimas. Endureci o coração para fotografar. Depois, vi um bonde queimando. Dentro estavam 15 ou 16 passageiros, mortos uns sobre os outros, com as roupas arrancadas. Meus cabelos arrepiaram e as minhas pernas tremeram. Caminhei para tirar uma foto. Não consegui. Havia outros fotógrafos lá, mas nenhum deles conseguiu fotografar. É uma pequeno consolo ter sido capaz de tirar pelo menos cinco fotografias que se tornaram registro daquela atrocidade”.

Yoshito Matsushige

Único fotógrafo a registrar o cenário desolador logo após a explosão da bomba.

Idade na época: 32 anos

Distância da explosão: 2.7 Km

À flor da pele

“Posso até dizer que tive sorte dupla naquele dia. Eu trabalhava em um departamento do governo a 500 metros do epicentro da explosão. Mas, por estar doente, estava cumprindo o expediente em outro prédio, mais distante do local da bomba. E, no momento exato da explosão, eu tinha ido beber água. Longe da janela, fiquei protegida da radiação. Saí do prédio coberta de sangue por causa dos ferimentos causados pelos estilhaços de vidro e fui correndo para casa, que não estava mais lá. No caminho, vi uns meninos pendurando alguma coisa no corpo. Quando cheguei perto, percebi que seguravam a própria pele. Nos dias que se seguiram, diziam que viveríamos apenas dois anos, e que nenhuma planta nasceria em Hiroshima. Como o capim começou a crescer, pensamos que também sobreviveríamos. E sobrevivemos. Um ano depois, conheci meu marido e viemos para o Brasil. Estamos juntos há quase 60 anos e temos dois filhos saudáveis. Mas eu ainda sonho com aquele dia.”

Ayako Motita

Estudante

Idade na época: 20 anos

Distância da explosão: 1.2 Km

Chuva negra

“Eu estava levando 15 prisioneiros americanos para construírem um abrigo antiaéreo. Caminhávamos, quando senti uma luz nas minhas costas que me jogou uns 10 metros para frente. Depois, caiu uma chuva negra. Corri para o abrigo em construção e fui enviado pelo meu superior para saber o que estava acontecendo. Levei três horas para percorrer um quilômetro, vendo pelo caminho gente pegando fogo. A cena que mais marcou foi a de um bonde cheio de corpos carbonizados. Dava para ver a expressão de susto nos cadáveres. Eu já tinha presenciado o bombardeio a Tóquio meses antes, que matou muita gente, mas parecia bem pior. Os rios estavam cheios de corpos. Eu e meus colegas militares lutaríamos até a morte naquela guerra. Pode ser até que merecêssemos a morte. Nunca nos renderíamos aos americanos. Mas nossas mulheres e crianças não tinham nada a ver com isso.”

Takashi Morita

Policial militar

Idade na época: 22 anos

Distância da explosão: 1.3 Km

“Quantos nós matamos?”

“O clarão foi terrível. Quando viramos o avião e pudemos observar os resultados da nossa ação, vimos a maior explosão que o homem já testemunhou. Mais de 90% da cidade estava coberta de fumaça, e por uma coluna de nuvem branca que em menos de três minutos alcançou 30 mil pés. Tenho certeza que toda a tripulação experimentou uma sensação maior do que qualquer ser humano podia suportar. É impossível de compreender. Quantas pessoas nós matamos? Meu Deus, o que fizemos? Se eu viver 100 anos, nunca vou tirar aqueles poucos minutos da minha cabeça.”

Robert Lewis

Co-piloto do enola gay. O depoimento foi tirado do seu diário de bordo.

Idade na época: 26 anos

Almas penadas

“Eu tinha acabado de chegar no hospital e dizia ‘bom dia’ para as pessoas, quando um brilho vermelho invadiu a sala. Fiquei inconsciente por 30 segundos. Acordei atordoado e caminhei até a janela, de onde vi um cogumelo de fumaça perto da companhia de gás. Nesse momento alguém me chamou para atender feridos. Comecei a trabalhar, com a ajuda de enfermeiras e residentes. Aí ouvimos um barulho. Eram dezenas de pessoas caminhando na direção do hospital. Estavam queimadas e tinham vidros quebrados ou madeira no corpo. Pareciam fantasmas. Eu vi fantasmas. Uma hora, quando parei o trabalho para respirar, uma mulher grávida pegou na minha perna e disse: ‘Eu sei que vou morrer, mas posso sentir meu filho se mexendo. Se eu fizer o parto agora, ele se salva’. Mas não dava para fazer um parto aquela hora. Tudo que eu pude fazer foi dizer que voltaria. A imagem daquela mulher nunca saiu da minha cabeça. Naquele dia atendi 200 ou 300 pacientes. Foi o dia mais longo da minha vida.”

Hiroshi Sawachika

Médico

Idade na época: 28 anos

Distância da explosão: 5.1 Km
Saiba mais
Livro

Prompt and Utter Destruction, J. Samuel Walker, The North Caroline Press, 1997 - Para o professor David S. Painter, da Universidade Georgetown, esse é o melhor livro sobre o assunto. Mostra como o uso da bomba atômica foi justificado na época e também traz análises posteriores

Revista Aventuras na Historia