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segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma menina: trabalho e infãncia inexistente


Uma menina: trabalho e infÂncia inexistente
no conto machadiano “O caso da vara”
João Roberto Maia
(Universidade Federal Fluminense / CNPq)


RESUMO

Aparentemente em segundo plano, a questão nuclear, no conto “O caso da vara” de Machado de Assis, é o de certa experiência de trabalho na sociedade brasileira escravocrata, em período anterior a 1850. O conto pode servir como ponto de partida para pensar o problema do trabalho na obra machadiana.

ABSTRACT

Apparently in the background, the core question, in the Machado de Assis’ short story “O caso da vara”, is a certain work experience in slavocrat brazilian society, before 1850. The short story may be a starting point to think about the labour problem in Machado’s work.


O início do título deste texto está inspirado, como é óbvio, em outro título: Duas meninas, um dos últimos livros de Roberto Schwarz. A inspiração não é gratuita. Como se verá, boa parte de minha leitura do conto machadiano deve a reflexões do crítico paulista. Além disso, a amenidade irônica daquele título de Schwarz quadra com certa leveza e prosaísmo que há no que foi escolhido (também de modo irônico) por Machado de Assis – como se o conto não passasse de um despretensioso “caso” que se desenvolve em torno de um objeto banal. Diga-se ainda que se compararmos as três meninas em questão, aquela que está no centro de interesse deste estudo ocupa posição inferior na sociedade brasileira do século 19, bem abaixo da Capitu que casa com um herdeiro de rendas e propriedades, bem como da mocinha descendente de ingleses na Diamantina oitocentista, Helena Morley. Trata-se de Lucrécia, cria de Sinhá Rita, menina que trabalha duro, aprendendo a fazer rendas e bordados, cuja voz ouvimos apenas no final da narrativa, tomada pelo desespero. Cumpre dizer que o pequeno caso em que está envolvida diz muito sobre parte da história brasileira e do legado que, como nação, ainda hoje suportamos. E é neste aspecto que a negrinha (como às vezes é referida no conto) pode ser relacionada às outras duas meninas.

Já foi dito que “os contos de Machado de Assis são uma grande exploração, muito sistematizada, extremamente poderosa, da experiência histórica brasileira”, sem concessões ao pitoresco, pois o que é importante, dentro da visada machadiana, é “o sistema das relações sociais brasileiras”, ou seja, “o problema de uma sociedade escravista inserida no mundo moderno” (SCHWARZ: 1999, 9). Meu objetivo é o de viabilizar uma leitura de “O caso da vara” que esteja ajustada a este ponto de vista.

“O caso da vara” foi publicado pela primeira vez em 1891 na Gazeta de Notícias. Estamos, pois, no período do Machado maduro, que já havia publicado Memórias póstumas de Brás Cubas. 1891 é também o ano da publicação em livro de Quincas Borba. E aquele conto, publicado em livro (Páginas recolhidas) no ano de 1899, é representante digno da produção literária madura do escritor.

Antes de iniciar a análise do conto, cabe uma explanação, um pouco extensa, a respeito de uma questão que precisa avançar no debate sobre Machado de Assis. Refiro-me a um problema que, até onde sei, não recebeu ainda maior atenção da crítica: os modos pelos quais o trabalho está representado em sua obra. É evidente que seria necessário, para que a discussão ganhasse substância, a especificação das formas diversas de trabalho e das diferentes esferas sociais em que se situam aqueles que trabalham. Não obstante o pequeno número de intervenções neste debate, há algumas opiniões em jogo. Afrânio Coutinho afirmou a ausência de trabalho em Machado como conseqüência do “ódio à vida”, postura machadiana relevante na ótica do crítico (COUTINHO: 1959, 116). A afirmação de Coutinho é considerada “justa” por Sérgio Buarque de Holanda, para quem as personagens machadianas “vivem de expediente ou de proteção, ou da boa fortuna, e raras se sustentam pelo próprio esforço” (HOLANDA: 1996, 317). Com efeito, se pensarmos no conjunto da obra ficcional de Machado, nossa tendência será a de reconhecer as opiniões dos dois críticos como válidas, enquanto postulações gerais. Entretanto, um exame mais detido, com foco na trajetória de algumas personagens dos romances e na situação nuclear de pelo menos dois de seus contos (“O caso da vara” e “Pai contra mãe”), pode facultar, sim, a percepção de que a questão do trabalho em Machado tem presença considerável como problema a ser estudado, e escapou às observações críticas de cunho genérico como as referidas acima. Neste pouco explorado terreno de reflexão sobre Machado de Assis, Raymundo Faoro assinala, por sua vez, que o enriquecimento das personagens machadianas é normalmente sinônimo de “pôr-se ao abrigo do trabalho”, pois proporciona a chance de desempenhar apenas “as serenas funções de capitalista”. Faoro anota que este “horror ao trabalho” é compartilhado por herdeiros como Brás Cubas, Bentinho, Estácio, Rubião e outros; aversão que, em certo passo de A mão e a luva, é objeto de censura do narrador aparentemente convencido de que é válida a asserção edificante, à feição burguesa, segundo a qual a labuta é penhor de legitimação da existência – ainda que tal asserção não esteja explicitamente enunciada. Em outra passagem de seu livro clássico, o estudioso gaúcho insiste no desprestígio do trabalho, ao qual prefere-se “a ocupação ligada à coisa pública, reservada ao estamento político”, que não exige efetivamente esforço. Em linha com as verificações anteriores, Faoro ainda acentua “a sobrevivência de um estilo senhorial, a que repugna o contato do trabalho rotineiro, valorizando-se em ocupações mais altas, sobretudo na política” (FAORO: 2001, 28-29, 231-232, 248). [1] Em suma, são observações que põem o acento na captação literária realista de um dado estrutural da sociedade brasileira à época do Segundo Império e dos primeiros anos da República, na qual era muito viva a nota infamante a respeito do trabalho que demandasse esforço real, em função da vigência ou da lembrança nítida da escravidão recentemente abolida. Sem prejuízo do acerto de tais observações, sobretudo quanto ao desmerecimento histórico da lida, elas deixam de fora a consideração de outras implicações do problema. Penso que Roberto Schwarz oferece pistas substanciais a respeito de tais implicações. Para dar formulação própria ao plano de estudo proposto pelo crítico em entrevista, digamos que em dois dos principais romances machadianos, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, vemos que entre os personagens que pertencem à classe proprietária o trabalho está, sem dúvida, quase ausente. Brás Cubas atravessa toda sua existência sem nunca precisar ganhá-la por esforço próprio, o que ele mesmo considera, no famoso capítulo derradeiro do livro, o “das negativas”, como “boa fortuna”. Bentinho trabalha muito pouco apesar de estabelecido como advogado, pois o que lhe garante mesmo é a propriedade. Mas há também aqueles que conseguem enriquecer por força de muito trabalho, como o cunhado Cotrim das Memórias e Cristiano Palha, personagem pertencente a outro grande romance, Quincas Borba (neste aspecto a posição de Schwarz é inteiramente diversa da de Faoro). É verdade que a noção de trabalho aqui está rebaixada na medida em que, na trajetória de tais figuras, é inseparável de negociatas e contrabando de escravos (Cotrim), e da especulação e ludíbrio de incautos (Palha). Trata-se de esforços e formas de enriquecimento que ganham relevo se compreendidos criticamente no conjunto que formam e na experiência histórica de que são representativos, e que talvez possam ser comparados, por exemplo, com processos de acumulação de riquezas que são centrais n’ O cortiço e em S. Bernardo, explicitadas as diferenças dos contextos (FAVERO, PASCHOA, MARIUTTI e FALLEIROS: 2000, 58). [2]

Acrescente-se que no universo machadiano, Dona Plácida talvez seja a principal representante daqueles para os quais a dura lida, a que têm de se submeter, longe de ser um fator de enriquecimento, pode apenas manter uma existência de privações. O destino da personagem está marcado pelo esforço inteiramente destituído de sentido, o qual diz muito sobre certa forma histórica do trabalho vigente na sociedade brasileira escravocrata; forma desconectada da valorização burguesa do trabalho (SCHWARZ: 1990, 98-105).

Como ficou sugerido, “O caso da vara” é um conto em que o trabalho aparece como questão nuclear, ainda que aparentemente – por ser esforço humilde de “crias” – esteja em segundo plano. Trata-se de experiência de trabalho escravo, pois a palavra escravidão “não é forte demais”, como bem disse John Gledson, para caracterizar as relações entre Sinhá Rita e as meninas de sua “escola” (GLEDSON: 1998, 52-53). Portanto, o conto dá oportunidade para pensar o problema exposto acima na literatura de Machado de Assis. Detenho-me agora em sua análise.

O início do conto dá notícia de uma fuga: o rapazinho Damião, que escapa do seminário, anda pelas ruas “espantado, medroso, fugitivo”, inicialmente sem rumo definido. O que chama a atenção logo nas primeiras frases é um contraste entre o propósito de exatidão quanto ao registro do momento em que se deu a fuga e a imprecisão a respeito do ano em que se passa a história. Assim, se o narrador anota, com a segurança de sua onisciência, a hora, o dia da semana e o mês do episódio - "às onze horas de uma sexta-feira de agosto" logo a seguir ele relativiza tal saber inconteste – “não sei bem o ano; foi antes de 1850” (ASSIS: 1997, 577). Embora esteja posta, a relativização da onisciência narrativa não é o mais importante na passagem. Veremos que as duas formas de notação temporal – tanto a que tem aparência de exata e constitui a primeira marcação cronológica mais imediata da peripécia, quanto a que é algo imprecisa e remete ao contexto histórico – são recursos importantes para a leitura interessada em desvelar os modos pelos quais o conto coloca em causa fundamentos sociais da época do episódio narrado, bem como sugere a possível persistência de atitudes, também elas sociais, no período da publicação do conto, já posterior à Abolição. Mais precisamente, anotemos que, além do contraste com a outra notação cronológica, aquele registro do ano de 1850, como se se tratasse de informação dispensável, contrasta ainda com sua importância para entender o passado recente (recente, é claro, do ângulo de Machado e de seus leitores coetâneos) e sugerir de modo implícito, quanto a um problema central do episódio narrado, o confronto entre aquele mesmo passado e o período da publicação do conto. Retornarei a estas questões.

Em reforço ao primeiro parágrafo que flagra o instante após a fuga, o primeiro diálogo, travado na ocasião em que o rapaz fora levado ao seminário pelo padrinho João Carneiro, define o drama da personagem fugitiva e assinala o fundamento patriarcal da sociedade brasileira oitocentista. Ao fugir do seminário como se fugisse da peste, Damião deixa explícito, já no início da narrativa, que sua destinação à carreira de padre não passa de imposição paterna. “O grande homem que há de ser”, fórmula com que o padrinho o apresentara ao reitor, é senha do projeto imposto pelo pai. A resposta do reitor corrobora a autoridade e o propósito paternos – “venha o grande homem” –, apenas acrescentando a necessidade de afirmação de valores – humildade, bondade – que tornem esta grandeza mais compatível com o exercício da carreira eclesiástica, ao menos com a face pública de tal carreira. A convergência das duas falas, a que reproduz o desígnio paterno e a eclesiástica, dá a medida do atraso e feição tradicional que caracterizam a sociedade representada, na qual a experiência do trabalho infantil escravo, sob a ameaça e efetivação de castigos físicos, bem ajustada ao cotidiano, como a que o conto dá notícia, constitui a demão última da referida caracterização.

Volto à alusão a 1850. É sintomático que este ano sirva como referência temporal para marcar o contexto histórico do episódio narrado. Como se sabe, em 1850 a aprovação da lei de 4 de setembro contribuiu decisivamente para a crise do regime escravista, que se instaurou nas décadas seguintes. Sabemos que o tráfico negreiro já era ilegal desde 1831, sua condição de contrabando foi reforçada na década de 1840, até que a lei de 1850 constituiu instrumento eficaz para obstá-lo. Registre-se a informação de que o período anterior ao ano referido no conto e ainda a década de 1850 são tempos de hegemonia senhorial-escravista. [3] É neste contexto que a experiência de trabalho de Lucrécia e de suas companheiras está situada.

Vimos que Damião fugiu do seminário e estava sem saber qual o rumo que deveria tomar. Em certo momento ilumina-se o cérebro do rapazinho e ele se lembra de recorrer ao auxílio de Sinhá Rita, pois tinha a percepção vaga da ascendência desta mulher sobre o padrinho. Nos termos contidos do narrador machadiano, quase sempre mais inclinado a insinuar, trata-se de “uma viúva, querida de João Carneiro” (ASSIS: 1997, 577). A caracterização de Sinhá Rita, feita após as explicações de Damião e seu pedido de ajuda à viúva, é sumária, mas suficiente para deixar à vista a articulação entre as disposições da esfera individual e o que só é efetivamente inteligível no âmbito da posição na sociedade. Diga-se de passagem que este modo de desvelar uma personagem, de que Machado é mestre, faz lembrar, sem prejuízo das óbvias diferenças, passagens célebres de outras obras do mesmo autor, como as que consagra ao cunhado de Brás Cubas, o Cotrim, e ao agregado José Dias de Dom Casmurro. A viúva em questão é apresentada como “apessoada”, prazenteira, chegada a uma boa farra. No entanto, ela é também “brava como diabo”, e para captar a duplicidade de tal qualificativo é preciso não o reduzir à exposição de certo traço psicológico individual, como parece ser o caso à primeira vista. Na verdade, não obstante sua definição como elemento comportamental de um indivíduo, o qualificativo dá expressão envenenada, com certa pretensão escarninha, à posição de tal senhora no sistema de relações da sociedade escravocrata. Pois esta mulher, tão boa praça, vive do trabalho de meninas, às quais ensina “a fazer renda, crivo e bordado”, obrigando-as a trabalhar por período extenso para dar conta das tarefas determinadas, cujo não cumprimento tem como conseqüência, para as “crias”, uma boa surra a golpes de vara. Diga-se que no conto a vítima do ser “bravo como diabo” é uma das pequenas, Lucrécia, que não consegue terminar a contento a incumbência imposta. Assim, em sociedade tão assimétrica, constituída em parte substantiva por pessoas postas no mesmo nível de “qualquer outra coisa de domínio particular”, os cativos (NABUCO: 2000, 123), é fácil para alguém, dependendo da posição social que ocupe, dar largas ao seu mau gênio, dirigindo-o aos muitos que podem estar em nível subalterno ou, abaixo de todos, aos que se encontram na condição servil. Acrescente-se que no mesmo parágrafo e na fala seguinte de Sinhá Rita, a descrição de seu modo de ser é posta em situação. Em outras palavras, a ação da viúva, logo a seguir, reforça os termos com que o narrador a caracterizou, num trecho muito concentrado, elaborado com um poder de síntese capaz de definir, de uma vez por todas, dinamismos centrais daquela personagem. Refiro-me a seu empenho em alegrar o seminarista forçado e fazer com que o momento difícil pese menos no espírito do rapaz. Para isso provoca-lhe risos, conta-lhe anedotas, pede-lhe que conte outras por sua vez. Uma das anedotas desperta a comicidade de Lucrécia, que esquece por um instante o trabalho, atenta aos trejeitos do moço que conta a piada. A pequena interrupção da faina infantil não escapa à vigilância de Sinhá Rita. Num instante a agradável senhora, “amiga de rir>”, dá lugar à matrona severa – o seu lado “brava como diabo” –, sempre pronta a mostrar o instrumento de castigo e ameaçar: “Lucrécia, olha a vara!” (ASSIS: 1997, 578).

Inteirada da situação do rapaz e do pedido de ajuda suplicante que lhe dirige, a querida de João Carneiro não toma inicialmente o partido daquele que é a vítima da imposição. Pelo contrário, sua intervenção inicial indica convergência com o desígnio imposto (“A vida de padre era santa e bonita”), estando portanto afinada ou conformada com o poder paternalista a que estão submetidos os dependentes. Entretanto, Sinhá Rita muda de posição logo após a referência de Damião ao padrinho, com quem o rapaz julgava não poder contar, pois ninguém seria capaz de fazê-lo assumir a causa do lado mais fraco. “Ferida em seus brios”, toma para si o problema do mocinho para fazer valer o domínio que tem sobre João Carneiro. Assim, o que a move é a força do orgulho pessoal e não a atitude solidária perante o desespero do outro ou a postura crítica face à vontade do mais forte que se quer incontrastável. Sintomaticamente, um pouco antes as súplicas do rapaz só foram capazes de deixá-la “lisonjeada”.

Quando o padrinho chega, a “brava como diabo” dá-lhe a conhecer sua opinião e postura intransigente, já abertamente adversárias da aspiração paterna – “antes um padre de menos que um padre ruim” (ASSIS: 1997, 579), diz-lhe. Por sua vez, João Carneiro tenta mostrar a autoridade que tem sobre o jovem, à base da promessa de castigos. Detido neste intento por Sinhá Rita, não lhe cabe senão colocar-se a serviço da causa de Damião, enfrentando a previsível ira de seu compadre, com o objetivo de salvaguardar suas relações com a amante. Vê-se diante da assimetria entre suas próprias forças e os dois poderes representados por sua querida e pelo compadre – “Estava entre um puxar de forças opostas”; “Imaginai que o barbeiro de Napoleão era encarregado de comandar a batalha de Austerlitz” (ASSIS: 1997, 580).

Não há como decidir, já que o conto não nos dá informação pronta a respeito, se a relutância de João Carneiro em se colocar contra o projeto eclesiástico deve-se apenas ao fato de ele ser “um moleirão sem vontade>” ou se há alguma relação de dependência sua perante o pai de Damião. A primeira hipótese é, sem dúvida, a mais provável e a única que está explicitada, mas há indicações que talvez permitam não descartar inteiramente a segunda. O verdadeiro pavor que o homem sente ao antever sua conversa com o outro sobre o assunto delicado – “João Carneiro estava com a pupila desvairada, a pálpebra trêmula, o peito ofegante” – não sugeriria a situação de alguém posto em estado de alguma espécie de sujeição pessoal? Prevê mesmo a possibilidade de a ira do outro voltar-se contra ele próprio, tornando-se até, na hipótese mais extrema, vítima de agressão física: “Conhecia o velho; era capaz de lhe quebrar uma jarra na cara.” (ASSIS: 1997, 580). Claro que esta sua tentativa de antecipar uma reação adversa pode ser compreendida menos como risco efetivo para sua integridade física do que como versão hiperbólica da consideração do mau gênio do compadre. Mas acho razoável admitir a hipótese de que, além do que é ditado pelo temperamento, a atitude muito acovardada resultaria de condições objetivas de sujeição, as quais poderiam ser o resultado, por sua vez, da organização paternalista da sociedade brasileira àquela época.

Seja como for, ainda mais explicitamente do que no caso de Sinhá Rita, João Carneiro só toma para si a defesa de Damião em razão de seu interesse exclusivo. A sorte do jovem está na conta dos assuntos aos quais não dedica o menor interesse. O contraponto destes dois modos de interferências em prol de outra pessoa, pautados por desejos e conveniências alheias à causa em si, pode ser encontrado no sentimento que Lucrécia inspira a Damião, quando ele decide que lhe tomaria a defesa se ela não terminasse a tarefa a tempo. Além de sentir-se responsável pelo riso fora de hora da menina (na perspectiva da matrona), parece haver no rapaz, de fato, interesse e compaixão por aquela criança. Também não há no caso, como é óbvio, nenhuma chance de vantagem pessoal para o mocinho. No final do conto o propósito do seminarista forçado não se mantém. Verificamos então que é mais forte sua própria necessidade de escapar a uma determinação da esfera do poder paterno, crucial para sua vida, valendo-se da instância de um poder feminino sobre o padrinho; instância que representa, ao mesmo tempo, trunfo para ainda vislumbrar alguma chance de autodeterminação na escolha da carreira profissional, que é a parte que cabe a Damião, e inclemência dos castigos físicos, que é o que fica com Lucrécia.

Se tomarmos o quadro que foi traçado até aqui pelo ângulo da matéria social representada no conto, veremos que algumas das linhas de força desta já estão explicitadas. Assim, em primeiro lugar estampa-se a posição do pater famílias, cujas prerrogativas se querem incontornáveis e, de fato, não podem ser enfrentadas diretamente, de peito aberto, por aqueles que estão mais à mercê de seu raio de ação – por isso, Damião tem de recorrer à força de outros que lhe possam garantir alguma chance de intervenção diante do arbítrio paterno. Vemos também que a mesma mulher que toma decididamente o partido da autodeterminação do jovem contra a decisão autoritária, ainda que tal atitude esteja motivada pelo orgulho pessoal, não se faz de rogada ao tirar o proveito que pode da estrutura de relações sociais iníquas, sabendo ser cruel – ou “brava como diabo” – com meninas indefesas. Sublinhemos ainda que o limite da única manifestação de interesse verdadeiro pelo drama do outro no conto, o que se revela em Damião pelas dificuldades de Lucrécia, tem fundamento prático, uma vez que sua principal razão de ser está na desigualdade social extrema, que pode tornar incompatíveis a recorrência ao poder mais à mão para garantir alguma margem de manobra e a capacidade de manter solidariedade a alguém que se encontra sob este mesmo poder, sobretudo se alguém for um escravo. E entre parênteses, assinale-se que esta razão não impede de considerar criticamente a pusilanimidade do rapaz e sua decisão de sequer arriscar o próprio interesse, mas ela sinaliza que o foco da postura crítica não deve estar principalmente, neste caso, na esfera individual de responsabilidade.

A cena seguinte, após a incumbência imposta ao padrinho, é um dos momentos fortes do conto, representativo da sutileza machadiana. Antes de comentá-la, tocarei num assunto – que foi posto por Wilson Martins – cuja pertinência será verificada em relação à mesma cena.

No terceiro volume de História da inteligência brasileira, Martins cita um poema escrito por Bittencourt Sampaio no ano de 1860, intitulado “A mucama”, que tem afinidade, como lembra o crítico, com o poema “A crioula” (1853) de Trajano Galvão. Trata-se de “poesia antiabolicionista” e que aponta, como afirma Martins, para um aspecto da sociedade escravocrata: não obstante “os horrores da escravidão”, que não podem ser negados ou minimizados, o regime servil estava bem integrado à estrutura social como “um dos elementos da banalidade cotidiana” (MARTINS: 1977, 96-98). Deste ângulo, a ausência da escravidão como instituição inaceitável nesta poesia tinha, em parte, fundamento prático e sinalizava a existência de distinções no mundo dos escravos em razão da diferença de suas funções e até da posição social dos senhores a que serviam.

Como o próprio título indica, no poema de Bittencourt Sampaio trata-se de uma escrava cuja vida não é das mais duras entre cativos, pois está incumbida do serviço doméstico. Ela ostenta orgulho por ter certa proximidade afetiva com a senhora, declara ter gosto pela vida que lhe cabe e não admite ser chamada de crioula, pois, por certo, sente-se rebaixada quando a designam com uma palavra que podia ser endereçada a qualquer escrava. É flagrante o contraponto entre as preferências e disponibilidades da mucama e alguns dos temas que cevam a atmosfera de denúncia e inconformismo da poesia abolicionista. Sobre tal contraponto, são suficientes os dois seguintes exemplos. Num poema como “Mauro, o escravo” de Fagundes Varela, todo o conflito, de que resultam duas mortes, é desencadeado pela tentativa do senhor de abusar fisicamente da escrava; ação que é claramente objeto de denúncia no poema. Já no de Bittencourt Sampaio não há sinal de drama e conflito, porque a mucama entrega-se, com enlevo, ao senhor. Outro exemplo: se o exílio imposto tortura o escravo e as saudades de seu torrão natal o enchem de pesar n’ “A canção do africano” de Castro Alves, à mucama, ao contrário, não a pungem as recordações da terra de origem, pois, como ela própria afirma, sua aceitação plena da condição de escrava anula o sentimento da saudade por uma origem longínqua (SAMPAIO: 1959, 117-118) [4] .

Concordo parcialmente com Wilson Martins. No entanto, o crítico não tenta ver a questão que assinala por outro ângulo, e por isso não nota o que, a meu ver, é uma limitação séria desta poesia, e diminui bastante seu fundamento objetivo: o tratamento edulcorado da escravidão, uma vez que esta é concebida de um ponto de vista por demais descomprometido e que força a nota quanto à existência de uma felicidade deslocada da extrema brutalidade das relações na sociedade escravocrata (os dois exemplos assinalados acima explicitam a suavização da matéria). Como se sabe, mesmo a condição de mucama, embora fosse de fato portadora de privilégios em relação à grande maioria dos escravos, estava mais diretamente exposta a toda a sorte de caprichos de amas e senhores, além de submetida à fiscalização mais severa (COSTA: 1998, 297).

Volto a “O caso da vara” e passo a comentar a cena que apresenta, em situação e concepção diversas, o mesmo problema posto por Wilson Martins.

À espera da resposta de seu pai à intervenção do padrinho, Damião fica apreensivo e cabisbaixo durante algum tempo, mas à tarde volta às anedotas da manhã. Logo chegam cinco moças vizinhas, visitantes habituais da viúva, com quem tomavam café todas as tardes. Após a janta, enquanto as “discípulas” voltam incontinenti ao trabalho, Sinhá Rita, Damião e as moças entregam-se ao recreio. Neste momento de descontração (de que estão excluídas as pequenas), “o sussurro dos bilros”, índice da faina que recomeça, ajusta-se ao “palavrear das moças” no espírito do seminarista forçado, enquanto anódinos “ecos tão mundanos” – em verdade, trata-se de ajustamento alheio ao desajuste real, vale dizer social, daqueles sons. Envolvido pelo clima alegre e atendendo a um pedido de Sinhá Rita, o rapaz torna a contar a anedota que fizera rir Lucrécia. Após o riso das visitantes, ele não esquece de olhar para a “cria” e verificar se ela rira de novo. A pequena, porém, parece estar inteiramente absorvida pela urgência de terminar a tarefa. Por isso, “não ria; ou teria rido para dentro, como tossia” (ASSIS: 1997, 581). Assim, na mesma sala coexistem pilhérias, conversação alegre, cantorias e trabalho duro de meninas. A distribuição das partes constitutivas de tal arranjo, divertimento e dureza, estabelecida de modo a destinar esta última a crianças – as que menos a deveriam suportar – possui força sugestiva suficiente para dispensar comentários do narrador, oferecendo curso livre à leitura crítica. É um bom exemplo do que já se chamou de “técnica de espectador”, uma especialidade narrativa que Machado soube apurar a seu modo (CANDIDO: 1995, 26-27). No caso, a técnica de espectador favorece a exposição sutil de relações sociais recriadas pela ficção, à margem da denúncia explícita, cujo norte é a aposta no discernimento crítico do leitor. Com efeito, a cena aviva a inaceitabilidade da imposição de trabalho a crianças (em última instância, a inaceitabilidade da escravidão) por sua inserção num quadro doméstico em que a contigüidade dos prazeres da recreação (a que pouco ou nenhum acesso têm aqueles que estão sob o jugo do cumprimento compulsório de tarefas) dá-lhe matiz de trivialidade cotidiana. Adaptando ao caso um comentário de Roberto Schwarz a respeito de uma passagem de Memórias póstumas de Brás Cubas, digamos que a promiscuidade entre divertimentos de adultos e fardos do trabalho infantil em ambiência doméstica, bem ajustada ao dia-a-dia, pode ser visto como “um traço ferino de ‘cor local’” (SCHWARZ: 1990, 106). A esta altura, creio que o leitor já entendeu que o mesmo problema percebido por Wilson Martins na poesia antiabolicionista, a normalização cotidiana de práticas do regime servil, comparece aqui em clave bem diversa, que não edulcora nada, muito pelo contrário. A cena ilustra outra técnica que Machado soube desenvolver, segundo a definição lapidar de Antonio Candido: “o contraste entre a normalidade social dos fatos e a sua anormalidade essencial” (CANDIDO: 1995, 27).

Vejamos ainda o mesmo problema na esfera da cronologia, considerada enquanto marcação temporal do episódio narrado e como indicativo do contexto histórico.

Em relação ao episódio narrado, é preciso atentar para a longa jornada de trabalho das meninas sugerida no conto. Uma vez mais, também aqui a postura do narrador é aparentemente descomprometida, pois seu interesse vincula-se ostensivamente a outra cronologia, como a mimetizar a opinião dominante, segundo a qual na sociedade brasileira escravocrata, dentro dos limites históricos em que se insere a peripécia em questão, o trabalho excessivo dos sem eira nem beira, mesmo quando se trata de crianças, não dá motivo algum para escândalo. Porém, o leitor atento não deixa de perceber que, se em primeiro plano, a discreta mas recorrente notação de referências temporais dá configuração cronológica ao drama de Damião à espera da resolução de seu pai, subliminarmente, com a meia palavra que requer o bom entendedor, registra a extensão do período de trabalho das pequenas, o qual cobre grande parte do dia.

A primeira informação fornecida pelo narrador é que a fuga de Damião ocorreu às onze horas da manhã. Pouco depois, ainda pela manhã, ele chega à casa de Sinhá Rita. Já neste período matutino trabalham as “crias”. Aliás, atenta ao fato de que elas “fizeram parar os bilros e as mãos” quando da chegada do rapaz, a viúva logo “ordenou às pequenas que trabalhassem” (ASSIS: 1997, 577-578). Vimos que à tarde, após a refeição, elas retornam imediatamente a suas tarefas. No momento em que as moças vizinhas saem do serão divertido, a tarde já havia caído inteiramente e as meninas continuavam na labuta. Só “à boca da noite” a tarefa chega ao fim, período em que a “brava como diabo” examina e recolhe os trabalhos. Assim, da manhã ao princípio da noite, vigiadas, compulsoriamente absorvidas pela tarefa rotineira sob ameaças de castigos físicos, as meninas trabalham.

Quanto ao contexto histórico, valho-me da sugestão de Regina Zilberman, para quem a escolha do período anterior ao ano de 1850 para situar a ação não correspondia apenas ao intento do autor de expor a ambiência doméstica e cotidiana de práticas bem representativas de um período de domínio senhorial-escravista. Como ficou dito, “O caso da vara” foi publicado na década de 1890. Há margem para pensar, de acordo com Zilberman, que Machado tinha em mira a sociedade brasileira contemporânea à publicação do conto, pois uma das questões implícitas que a narrativa levanta pode ser assim formulada: as posturas e práticas que o conto situa na primeira metade do século XIX dizem respeito apenas àquele período ou persistem, ainda que modificadas, no final do mesmo século, em contexto não-escravista e republicano (ZILBERMAN: 1989, 19-24)? [5] Em reforço à pertinência em pôr na pauta esta questão, lembremos o ceticismo de Machado a respeito dos resultados da Abolição e do avanço que representaria a República.

A cena final de “O caso da vara” é forte. Embora tenha prometido a si mesmo apadrinhar a pequena, Damião sucumbe à força de seu interesse pessoal e prefere atender à Sinhá Rita, entregando-lhe a vara com que castigará Lucrécia, a ceder às súplicas desesperadas da “cria”: “– me acuda, meu sinhô moço!” (ASSIS: 1997, 582). Este desfecho talvez tenha efeito desconcertante para o leitor que porventura acompanhasse com mais interesse, a despeito do próprio título do conto, o drama que se desenrola em nível mais ostensivo: o de Damião. Com efeito, em consonância com o seu significado social enquanto experiência integrada ao dia-a-dia do regime escravista, os esforços de Lucrécia têm visibilidade bem menor e estão quase no nível de pano de fundo na economia do conto. Entretanto, o desfecho que a narrativa nos faculta não é o do drama do seminarista, mas sim o da menina; desfecho que na verdade vinha sendo sinalizado e sobre o qual talvez incidisse, para o leitor mais preocupado com os sofrimentos da menina, a expectativa da intervenção de Damião no sentido de evitar a surra prometida. Por ser assim, digamos figuradamente que o drama encenado no fundo do palco ganha ao final relevo maior do que aquele que vinha sendo encenado no proscênio, o que talvez permita dizer que o principal alvo de Machado de Assis aqui, entre os problemas diante dos quais o conto se situa, é o de fazer pensar sobre certa experiência do trabalho, imposta a crianças, na sociedade escravocrata, insinuando possivelmente aos seus contemporâneos na década de 1890 as conseqüências de tal experiência num país que não fizera ou sequer iniciara (e ainda não fez) as reformas sociais necessárias para a efetiva integração dos negros, ex-escravos e seus descendentes.

Para finalizar, note-se em “O caso da vara” a ausência de personagens, práticas e assuntos que estão entre os principais do mundo patriarcal-escravista: o proprietário de escravos poderoso, o tráfico negreiro, a vida nas senzalas etc. O episódio narrado tem alcance modesto, pois se dá em torno de uma senhora que vive principalmente do favor proporcionado pelo amante (que lhe arranjara as “crias”), e os dramas e experiência de trabalho, que na narrativa se desvelam, são vistos apenas em ambiência doméstica. Nem por isso, como vimos, este microcosmo deixa de apresentar algumas das linhas de força da sociedade representada. E quanto ao problema que foi aqui priorizado, “O caso da vara” é mais um exemplo da capacidade de tratar as matérias sociais em chave realmente crítica, um dos pontos altos da ficção machadiana e um dos fatores que a distinguem no quadro da literatura brasileira feita por seus contemporâneos.


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[1] A observação sobre o narrador de A mão e a luva também pertence a Faoro.

[2] Nesta entrevista concedida por Schwarz, o crítico lançou a sugestão de um estudo comparativo entre Machado, Aluísio Azevedo e Graciliano, cujo eixo é o tema do trabalho.

[3] Sobre a relação entre a obra machadiana e esse momento histórico, do ângulo de um historiador, ver o livro recém-publicado de alguém que é um dos bons estudiosos de Machado: CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis historiador, 2003.

[4] O poema “A crioula” está reproduzido no mesmo volume, pp. 117 – 118.

[5] Não obstante a convergência de pontos de vista quanto à sugestão de que me aproprio, minha leitura do conto é divergente da de Zilberman.


Referências bibliográficas:


ASSIS, Machado de. “O caso da vara”. In: Obra completa, v. II, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1997.

CANDIDO, Antonio. “Esquema de Machado de Assis”. In: Vários escritos, 3ª ed., São Paulo: Duas cidades, 1995.

CHALHOUB, Sidney. Machado de Assis historiador. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

COSTA, Emília Viotti da. Da senzala à colônia. 3ª ed., São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1998.

COUTINHO, Afrânio. A filosofia de Machado de Assis e outros estudos. 2ª ed., Rio de Janeiro, Livraria São José, 1959.

FAVERO, Afonso, PASCHOA, Airton, MARIUTTI, Francisco e FALLEIROS, Marcos. Tira-dúvidas com Roberto Schwarz. Novos Estudos Cebrap (58), 2000.

FAORO, Raymundo. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio, 4ª ed., São Paulo: Globo, 2001.

GLEDSON, John. “A machete e o violoncelo”. In: ASSIS, Machado. Contos: uma antologia, v. I. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

HOLANDA, Sérgio Buarque de. “Notas sobre o romance”. In: O espírito e a letra: estudos de crítica literária I, 1920-1947, V.I. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira, v. III. São Paulo: Cultrix, 1977.

NABUCO, Joaquim. O abolicionismo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Publifolha, 2000.

SAMPAIO, Bittencourt. “A mucama”. In: Cavalheiro, Edgard. Panorama da poesia brasileira, v. II. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1959.

SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. 2ª ed., São Paulo: Duas Cidades, 1990.

________. “ A pulga no cachorro” . Folha de S. Paulo, Mais!, 28/03/1999.

ZILBERMAN, Regina. “ Um caso para o leitor pensar” . In: Revista de Letras, v. 29, São Paulo, 1989.


João Roberto Maia é doutor em Letras Vernáculas pela UFRJ. Bolsista do CNPq (Recém-Doutor) no setor de Literatura Brasileira da UFF, onde desenvolve projeto de pesquisa cujo título é “O trabalho e seus resultados em Machado de Assis, Aluísio Azevedo e Graciliano Ramos”.

Contato: jrmcruz@uol.com.br
Revista Brasil de Literatura

sábado, 3 de outubro de 2009

O gênio das letras


O gênio das letras

CECÍLIA PRADA

A obra literária de Joaquim Maria Machado de Assis, como a de todos os grandes artistas criadores, resiste no tempo de maneira constante.

Noventa anos após a sua morte, seus livros constituem um patrimônio indiscutível da nacionalidade, pedra fundamental da língua e da expressão, retrato animado da sociedade brasileira do Segundo Império, mas que consegue transcender a época e chegar ao umbral do século 21 como fonte permanente de prazer estético e de reflexão.

Como homem, Machado tem também oferecido campo psicológico dos mais interessantes para estudo.

As incontáveis análises críticas e biográficas que motivou certamente não esgotaram ainda o grande mistério que cercou, durante muito tempo, a personalidade daquele que se transformaria no nosso maior escritor.

Até a década de 40, pouco se sabia das circunstâncias em que Machado nascera e fora criado. A maior parte de seus biógrafos pasmava, sem atinar como um menino pobre, mulato, doentio, que diziam todos ter nascido na miséria, no morro do Livramento, filho de um pardo e de uma lavadeira portuguesa, conseguira sozinho abrir uma brecha e ascender verticalmente até posições de prestígio. E como pudera descrever tão bem uma camada social à qual não teria tido acesso.

A grande discrição mantida sempre pelo escritor sobre a família, a ausência de documentos válidos, dera origem a essa lenda romântica, de irresistível atração para os biógrafos, mas em nada condizente com a realidade. Lúcia Miguel Pereira, em prefácio feito em 1944 à biografia que escrevera em 1935, enfatiza: a descoberta da certidão de batismo do escritor, e de outros documentos, tornara enfim possível esclarecer o mistério familiar e mesmo literário do grande Machado. Ao contrário do que se pensava, embora tendo nascido sem fortuna, o escritor nunca fora miserável. Pelo contrário, seus pais viviam confortavelmente numa casa situada na Chácara do Livramento, onde eram benquistos por todos. Sua mãe, que viera menina para o Brasil, não teria sido lavadeira, mas sim até senhora de fino trato, amiga e protegida da proprietária, dona Maria José de Mendonça Barros, viúva do senador Bento Barroso Pereira, que fora por duas vezes ministro do Império.

Essa senhora foi também madrinha de Joaquim Maria, e este passou toda a sua infância convivendo no ambiente requintado da casa-grande, familiarizado com as situações sociais e com as pessoas que mais tarde descreveria tão bem. Sua própria condição de cria ou agregado não teria provocado nele ressentimentos e complexos (como os criadores de sua lenda pretendiam), mas, pelo contrário, permitido que se situasse no ponto de vista do observador, indispensável para um escritor.

A morte da mãe, Maria Leopoldina, não ocorreu - como era dito - quando ele teria seus 2 ou 4 anos, mas sim quando já contava 10 anos. Fato traumático, sem dúvida, seguido no mesmo ano da morte da madrinha, mas uma continuidade de carinho foi propiciada amplamente pela madrasta Maria Inês, a ele tão afeiçoada, que, segundo se conta, teria ido procurar ela própria um professor de francês para o inteligente enteado.

Outra mentira da "lenda machadiana", o jovem Machadinho teria sido obrigado a exercer funções humildes, mal pagas, para sustentar a madrasta após a morte do pai. Segundo as pesquisas biográficas mais dignas de fé, Machado teria sido apenas por pouco tempo caixeiro e tipógrafo. Logo seria admitido como redator num jornal político importante, o "Correio Mercantil". E quando seu pai morreu, em 1864, já tinha posição financeira e social assegurada. Quanto a Maria Inês, ficara amparada com a pensão do marido.

Sem deixar jamais de exercer o jornalismo, como crítico e como cronista do cotidiano, Machado conseguiu logo também um cargo estável no funcionalismo público, no Ministério da Agricultura. Aos 30 anos, o casamento com a portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novais completou o quadro de sua serenidade doméstica e social - dali por diante, durante 35 anos, o gênio teria ao seu lado, infatigável, atenta, cercando-o de carinho, minimizando os inconvenientes da epilepsia que o acometia, a mulher adorada, a cuja morte sobreviveu apenas durante quatro anos.

Matriarcado feliz

Vista à sua verdadeira luz, a biografia de nosso maior escritor reverte a "lenda" e nos dá, pelo contrário, um quadro de amor, acolhimento, conforto psicológico, equilíbrio, fornecido quase sempre por um ambiente de matriarcado - transposto nitidamente, aliás, para a sua obra.

Em Dom Casmurro, o ambiente em que transcorre a infância do personagem Bentinho pode ser facilmente identificado como a mansão da madrinha rica: uma espécie de corte pessoal em que, entre ociosas conversações com cônegos e partidas de gamão com agregados, os destinos de filhos e crias são determinados.

Nos outros romances, a mesma constância do ambiente, os mesmos personagens sofisticados, complicados, a alta burguesia escravocrata, as intrigas do poder e do dinheiro, e a série de personagens femininos apresentados de maneira profunda, desvendados em sua psicologia. Hoje, os críticos não se espantam mais com eles, sabem que o escritor utilizou afinal o seu material de infância - como acontece com todos os grandes escritores. E pôde fazê-lo de maneira serena, apartada de qualquer envolvimento ideológico, e por isso mesmo mais verdadeira.

Desde os primeiros anos de jornalismo, Machado soube firmar um estilo próprio, um fino humor sob o qual transparecia, entretanto, amarga constatação da precariedade da condição humana.

Como o finado Brás Cubas, seu personagem, dizia "escrever com a pena da galhofa e a tinta da melancolia". Esses traços estilísticos se acentuaram sob a influência dos autores ingleses em que mergulhou - levado por Carolina, extremamente culta, a ler sistematicamente Shakespeare e os grandes humoristas, Sterne, Swift. A influência intelectual da mulher foi mesmo decisiva na sua obra. Diariamente discutiam seus textos e, segundo dizem, ela corrigia às vezes não somente a ortografia como também a própria redação.

Presença literária

A carreira literária de Machado de Assis estende-se ininterruptamente durante 53 anos - da publicação dos primeiros versos, em 1855, à de Memorial de Aires, no próprio ano de sua morte, 1909. Aparecido em pleno fastígio do romantismo, contemporâneo de José de Alencar e Gonçalves Dias, Machado manteve-se imune ao fervor indianista e ufanista por eles manifestado.

Embora considerado por muitos como nosso primeiro escritor realista, sua obra original nunca pôde enquadrar-se em escola alguma e sobreviveu aos modismos de várias gerações.

Um de seus mais abalizados críticos, José Aderaldo Castelo, diz que ele "soube orientar-se criticamente a si mesmo, no combate aos lugares-comuns e aos excessos de uns e de outros, dos clássicos aos contemporâneos". Nesse esforço, firmou a independência e a originalidade da sua obra, "de tal forma", diz ainda Castelo, "que a obra do ficcionista, com as qualidades que contribuem para sua projeção na posteridade, apresenta todas as gradações do romance brasileiro do século 19, inclusive o enraizamento histórico apoiado na tradição da língua".

E enquanto o crítico Sílvio Romero dizia, derrisoriamente, "Machado gagueja no estilo, na palavra escrita, como outros na palavra falada", outro estudioso da sua obra, Alcides Maya, comentava: "Se é exato que ele tartamudeia na palavra escrita e repisa, repete, torce e retorce as idéias e os termos, tal sucede porque esse é um meio seguro de conduzir a ação cômica".

A visão trágica da vida, temperada com o veio sutil da ironia, o finíssimo faro psicológico, dão ao romancista maduro os instrumentos necessários para a perfeita expressão de uma arte que definia como "consolo metafísico para um mal metafísico". Porque, como dizia dom Casmurro, "o discurso humano é assim mesmo, um composto de partes excessivas e partes diminutas, que se compensam, ajustando-se".

Revista Problemas Brasileiros

sábado, 26 de setembro de 2009

A magia histórica do bruxo do Cosme Velho

Estudo mostra Machado de Assis, romancista ou funcionário público, como crítico da truculência brasileira
Carlos Haag
Edição Impressa 96


Pesquisa FAPESP - À primeira vista, nada menos propício aos vôos literários do que o ambiente pachorrento de uma repartição pública. Curiosamente, todo aquele tédio fez milagres com alguns de nossos escritores, entre eles Drummond, Graciliano, Guimarães Rosa e, descobrimos agora, o bruxo do Cosme Velho, tema do recém-lançado Machado de Assis historiador (Companhia das Letras, 345 págs., R$ 41,00), de Sidney Chalhoub, que contou com o apoio da FAPESP em seu pós-doutorado na Universidade de Michigan, EUA, onde concluiu a pesquisa sobre como os anos como chefe da modorrenta segunda seção da Diretoria da Agricultura, do Ministério da Agricultura (entre 1870 e 1880), contribuíram para a feitura de obras-primas como Memórias póstumas de Brás Cubas. "O Machado romancista e o Machado funcionário público compartilhavam a mesma ideologia: ambos aprenderam a não esperar nada de bom da classe senhorial escravista brasileira do século 19", diz Chalhoub.

O período em que esteve à frente do departamento coincide com todo o debate social e político feito pelos políticos do Império que acabaram culminando na lei de 28 de setembro de 1871, depois chamada de Lei do Ventre Livre. Ambos os "Machados" foram envolvidos pela polêmica. "O romancista esmerou-se em mostrar em seus escritos que a polidez e a aparente civilidade de senhores e proprietários assentavam-se na violência e no arbítrio, ainda que sugerisse também a capacidade dos dependentes em penetrar tal ideologia e torcê-la na busca de objetivos próprios", explica. "O funcionário trabalhava para submeter o poder privado dos senhores ao domínio da lei. Acreditava na importância do poder público para disciplinar a barbárie senhorial." Afinal, a política dessa elite assentava-se justamente sobre a inviolabilidade da vontade dos senhores que, ao lado da ideologia dos dependentes (para os quais era melhor concordar e lutar na surdina do que enfrentar a ira dos mestres), deu às inusitadas relações sociais brasileiras um sentido natural e perene.

"Tento mostrar no livro que um dos objetivos de Machado é analisar os modos de atuação política cotidiana dos dependentes, homens e mulheres, livres ou escravos", fala o pesquisador. Nesse contexto, observa Chalhoub, "Machado foi capaz de 'traduzir' a complexidade de seu tempo histórico, de interpretar o nexo entre as coisas e de mostrar a indeterminação inerente à experiência histórica". Eis que a literatura consegue fazer história, em especial por meio dos afamados "diálogos machadianos". "Os diálogos são parte importante desse exercício analítico, pois mostram dependentes buscando atingir objetivos próprios por dentro da ideologia senhorial, de modo a não se expor à retaliação, caracteristicamente incivilizada, de que eram capazes proprietários e senhores de escravos."

Para tanto, não é preciso nem sequer esperar as grandes obras da maturidade. "Um romance como Helena é muito mais complexo do que se pode suspeitar à primeira vista. Ela, por exemplo, quando quer conseguir algo de Estácio, trabalha a situação de maneira a tornar desejo dele, Estácio, fazer precisamente aquilo que ela, Helena, espera que seja feito. Enfim, tudo muito sutil, indireto, dissimulado, como a própria literatura machadiana", nota o pesquisador. Uma literatura para olhos atentos, pois, diz Chalhoub, "sua percepção exige do leitor que decodifique por si mesmo a maior parte dos trejeitos e gracejos que constituem a arte da resistência na rapariga e qualquer leitor do século 19 saberia observar essa aparência a contrapelo, e o bruxo certamente contava com esse olhar."

De certa forma, o historiador era o pai do romancista. "A história de Estácio e de Helena, antes que o drama choroso de um amor impossível, é a descrição do período de hegemonia inconteste da classe senhorial-escravista, cuja crise profunda o romancista vivenciara entre 1866 e 1871, e cujo desmanchar ele assistia com olhar investigativo na década de 1870", diz o autor, para quem, Machado de Assis, ao escrever Helena, não tinha mais ilusões sobre a continuidade do status quo do poder. Para Chalhoub, o escritor deixa então a mocinha falar por ele. Mas os tempos ainda não davam uma luz ao fim do túnel. "Se não tem mais ilusões, Machado sofre com o impasse e não vê alternativa e, assim, a ambigüidade da protagonista traduzia a experiência histórica de um sem-número de dependentes desse tempo: seduzidos pela ideologia senhorial, Helena e seus semelhantes podiam mostrar-se gratos aos senhores e relutar em sacudir as estruturas tradicionais."

Teatro perigoso - Nada mais natural: como lutar contra séculos de dominação e contra uma classe cujo paternalismo se configurava num mundo idealizado pelos senhores, uma "sociedade imaginária que eles sonhavam realizar no cotidiano", em que tudo acontecia em função do seu desejo. Contra isso, apenas era possível a "esperteza" dos dependentes em torcer a vontade senhorial em prol da sua própria sobrevivência. Daí, nas palavras do pesquisador, "o desafio de Helena, Luís Garcia, Capitu, José Dias e tantos outros de afirmar a diferença no centro mesmo dos rituais da dominação senhorial". Um teatro perigoso em que se devia saber o limite de viver em meio à violência apenas pelo poder das palavras.

Assim, o Brasil machadiano era bem mais do que apenas a dicotomia casa grande-senzala. "Havia condições intermediárias entre a escravidão e a liberdade que, ao mesmo tempo que matizam a visão tradicional de uma sociedade dividida entre senhores e escravos, sugerem o tanto de precariedade inerente à condição desses dependentes." A grande "sacada" do bruxo surgiu justamente no bojo das discussões que presenciava (e das quais participava) como funcionário público: "A crise da sociedade senhorial escravista originava-se basicamente no processo histórico de emancipação dos escravos". A mágica do bruxo foi justamente ir além da dicotomia e perceber os interstícios, usando esse conhecimento como matéria-prima de seus romances. Daí, os romances vão aos poucos mudando sutilmente de tom, cada um deles, diz Chalhoub, "com uma lógica social própria, sendo importante ver o modo como surgem na história de seu tempo e o modo como se insurgem contra ela, tentando entendê-la e transformá-la".

Dessa forma, após Helena, em Iaiá Garcia, de 1878, a narrativa agora espelha a crise decisiva do paternalismo. "A novidade é que os dependentes se confrontam com uma vontade senhorial mais consciente de si, ciente da resistência a seus desígnios e decidida a fazer valer sua autoridade por meio da astúcia e mesmo da fraude, não hesitando em violentar os subordinados", nota o autor. Em Memórias póstumas de Brás Cubas tudo se consolida. "Há o solo comum da crítica ao mundo senhorial, agora de forma quase brutal, na exposição do arbítrio e da violência dos senhores, mas também na sugestão de que havia situações em que os dependentes faziam gato-sapato do todo-poderoso Brás Cubas. Em Memórias, Machado reescreveu Helena e, se o menino é o pai do homem, Brás é filho de Estácio." Aos poucos, a luta para corroer a elite torna-se mais intensa, quase aberta e os podres poderes mostram-se em sua inteireza. Brás decide o destino da borboleta negra como decide a vida de seus subalternos sociais e dona Plácida, a alcoviteira, só viera à existência porque foi necessidade dele que ela viesse. Abusando da liberdade da morte, Cubas é um senhor boquirroto, cujas confidências de arrogância nos assombram pela sinceridade.

Após a crueza de Memórias, Machado faz a "crítica cerebral de Dom Casmurro, romance tão sereno quanto cirúrgico no relato dos horrores senhoriais. Talvez uma autópsia do mundo dos senhores de escravos, pois que esse se fora, em grande medida, no momento da escrita do livro", observa o pesquisador. O "xadrez político dos dependentes" agora incomoda os senhores, que vêem traição e dissimulação em todos os cantos e olhos. "Capitu conhecia a arte do diálogo político. Em Dom Casmurro, a menina é mãe da mulher. Sempre que sujeitos da história, os dependentes traem os senhores. Se é esta a única clave possível, podemos respirar aliviados: Capitu traiu Bentinho."


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O Projeto
Machado de Assis e a Emancipação dos Escravos

Modalidade
Bolsa de Pós-doutorado

Bolsista
Sidney Chalhoub - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/ Unicamp

Revista FAPESP

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Diário da loucura


Diário da loucura
O Alienista pode ser lido como intervenção caricatural de Machado de Assis no grande debate entre o altar e o trono

Ivan Teixeira

A figuração da loucura é uma das linhas de força de O Alienista, mas não a única nem a principal. A denúncia irônica da ciência e a exploração humorística da loucura exercem função secundária em argumento mais importante na dinâmica da história. Apoiado no motivo da insânia, o tema central da novela é a disputa pelo poder, processo em que se destaca o padre Lopes, alegoria da Igreja. Desde o início, ele ambiciona desautorizar as pesquisas de Simão Bacamarte, neutralizar as verdades da ciência, ratificar a teologia e manter o controle da cidade. Afinal, é ele quem decreta a loucura de Bacamarte, confinando-o na Casa Verde. Assim, O Alienista pode ser lido como intervenção caricatural de Machado de Assis no grande debate entre o altar e o trono, ocorrido por ocasião da Questão Religiosa (1872-1875), em que Pedro II teve de se curvar diante do poder internacional do clero. Por essa perspectiva, o dirigente da Casa Verde seria uma espécie de simulacro irônico do imperador, que representaria certas distorções do poder ilustrado da razão. Nas décadas de 1870 e 1880, era corrente no Rio o pensamento irônico de que o clero pretendia assumir o controle da vida pública no país. Trata-se de reação contra o desfecho da Questão Religiosa. O Alienista pode ser entendido como versão literária dessa tradição caricatural, sustentada sobretudo pelos jornais satíricos da época.

Em Nota Preliminar, aos contos humorísticos de Edgar Allan Poe, Oscar Mendes levanta a hipótese de que Machado teria se inspirado em The System of Dr. Tarr and Prof. Fether para escrever O Alienista. A nota de Oscar Mendes não vai além dessa revelação. Mas não é pouco, visto que daí poderá resultar relevante estudo comparativo, donde se extrairão dados sobre o repertório técnico de Machado, particularmente sobre seu modo de apropriação das fontes.

É bem provável que a história de Poe tenha menos alcance artístico que a de Machado e não ocupa, na literatura americana, o mesmo lugar que O Alienista ocupa na brasileira. O conto de Poe também narra a reviravolta nos critérios de estabelecimento da loucura em um asilo. No sul da França, em meio a uma floresta sonâmbula, um hospício tornara-se famoso pela adoção do método de brandura, cuja doutrina consistia em dar liberdade aos internos e em satisfazer suas fantasias, admitindo como verdade seus delírios. De tanto conviver com os insanos, o diretor do asilo, Sr. Maillard, enlouqueceu e foi convertido em paciente. Tirando proveito da liberdade do método de brandura, o ex-diretor liderou uma revolta, libertou os maníacos e internou os funcionários, reimplantando o método tradicional, ao qual, além do confinamento, ele adiciona a tortura do alcatrão e da pena.


Um dos dispositivos técnicos mais fortes do conto consiste na escolha do ponto de vista da narrativa, que se constrói pela ótica de um visitante ao asilo. Aqui, a técnica compõe o assunto. Testemunhando as ocorrências pelo prisma do espanto e da novidade, o visitante descreve a situação com olhos ingênuos. Sendo completamente maluco, o Sr. Maillard apresenta-se como prudente diretor do asilo. E o narrador acredita nisso. Unindo-se pelo tema e pela perspectiva relativista do humor cínico, os dois textos possuem estrutura muito diversa. A narrativa de Poe inicia-se perto do final da ação, cujo início e meio se reconstituem por informes fragmentários que se intercalam ao desenrolar dos fatos que compõem o presente de enunciação. O conto abre-se pela chegada do narrador à clínica. Em seguida, o visitante conhece as instalações e os habitantes, até presenciar a revolta final, quando os antigos funcionários livram-se das prisões e, com violência, restabelecem a ordem no hospício.



O interesse do conto funda-se na duplicidade do modo narrativo, rigorosamente irônico. O fermento da mudança ou da catástrofe, que converte o drama em comédia, estando em plena maturação e já em ponto de explodir desde o início do texto, é ignorado pelo narrador, que não o percebe por falta de domínio sobre o cenário. Assim, a evidência da loucura, sendo apreendida muito cedo pelo leitor, só será notada pelo narrador no momento crucial do óbvio. Assim, o relato será sempre duplo, oscilando entre o delírio e a razão. Por trás da falácia do diretor, instaura-se a verdade da ironia, que deixa espaço para a independência dos acontecimentos. Além de reproduzir as múltiplas vozes das personagens, que funcionam como casos intercalados na história central, a voz do narrador dialoga com a voz hipotética do leitor, produzindo não só a impressionante variedade rítmica da narrativa, mas também a diversidade da estrutura e a polivalência do sentido. Assim, o núcleo da significação irônica do texto decorre da disparidade entre o que o narrador observa e aquilo que o leitor entende a partir da interpretação das observações dele.



Em que pese as diferenças entre O Alienista e o conto de Poe, parece bastante aceitável a hipótese de que Machado não só leu The System of Dr. Tarr and Prof. Fether, como pode ter extraído daí, no mínimo, três sugestões específicas para compor sua novela: a tópica do mundo às avessas, segundo a qual os loucos assumem o lugar dos normais; o modo alegórico de composição, que faculta a existência de diferentes planos bem delimitados na significação do texto; conquista do humor pela exploração do grotesco. Além disso, ambos os textos adotam a técnica do conto enquadrado, graças à interpolação de pequenas histórias no fio central da narrativa.



Diferentemente do que ocorre em O Alienista, The System of Dr. Tarr and Prof. Fether concentra-se no assunto da loucura, sem deixar de expandi-lo em outras direções. Privilegiando a instabilidade do conceito de demência, ambos satirizam a precariedade da terapia adotada nos respectivos espaços culturais. Se a insânia não se deixa caracterizar com precisão, o que dizer dos métodos de cura? Assim, os textos, em sua ruidosa inversão de valores, estabelecem um paradoxo entre a relatividade da definição de loucura e a certeza dos métodos, donde resulta o humor satírico de cada narrativa. Machado não só apresenta uma resposta ficcional a questões importantes no debate político do tempo, como intervém na controvérsia cultural sobre o tratamento da demência, que foi uma das primeiras preocupações do governo do segundo imperador.



Da mesma forma, o conto de Poe contém diversas alusões a discursos políticos e culturais de seu tempo. Poe deve ter freqüentado o State Hospital for the Insane at South Boston, um dos pioneiros na aplicação do método soothing system nos EUA, cujo diretor, Dr. Pliny Earle, era seu amigo. Além disso, é corrente a idéia de que The System of Dr. Tarr and Prof. Fether dialoga com escritos de Charles Dickens e Nathaniel Parker Willis. Mas nenhum desses textos associa o estudo da demência ao propósito de classificação das pessoas como forma de controle social, tal como o faz Machado de Assis. Por isso, a atenção de O Alienista recai sobre a cidade, sendo a Casa Verde o meio pelo qual se mantém a viligância sobre a população. Em Poe, ao contrário, a narrativa concentra-se no hospício, que se constrói isolado de qualquer contexto social, visto que sua função é, basicamente, problematizar o conceito de sanatório e condenar, por meio do ambiente fechado do asilo, os métodos abertos de punição física do século 18 conhecidos como tarring & feathering.


Ivan Teixeira é professor da Universidade do Texas; o texto é resultado parcial de pesquisa que desenvolve com apoio do Lozano Long Institute

26 de setembro de 2008

JORNAL O ESTADÃO

Machado de Assis - Um escritor saudosista


Um escritor saudosista
Para o inglês John Gledson, tradutor de Dom Casmurro, Machado desafiava o leitor "com uma dose de agressão, ou um convite a uma espécie de auto-análise"

Quem ousa dizer algo novo sobre Machado de Assis corre o risco de desafiar velhas convenções. O professor inglês John Gledson, tradutor de Dom Casmurro, vem descobrindo um novo Machado para si e para os leitores, ao analisar sua abordagem de temas espinhosos, como a homossexualidade ou a escravidão. Gledson, autor de alguns livros sobre o escritor, sendo o último Por Um Novo Machado de Assis (Companhia das Letras), concedeu entrevista ao jornalista Antonio Gonçalves Filho, em que falou, entre outros assuntos, do lugar da crônica em sua obra, gênero que revelou como nenhum outro as opiniões de um escritor por muito tempo tido como indiferente à política.

Em Por Um Novo Machado de Assis, o senhor chama a atenção para a necessidade de se examinar trabalhos supostamente menores de Machado em busca de uma visão mais abrangente de sua obra. As crônicas do escritor estariam entre esses trabalhos "menores", que deixaram de ser analisados pelos ensaístas justamente em razão de uma miopia crítica?


Sim, é claro que as crônicas estão entre as obras menores - entre elas, talvez sejam as mais interessantes. O próprio autor incluiu meia dúzia delas na coletânea Páginas Recolhidas, de 1899, e mesmo assim cortou trechos que lhe pareciam atrelados a assuntos da época, e que o leitor contemporâneo (de 1899) não reconheceria. Chegou a excluir um poema admirado e até meio famoso, Menina e Moça, das Poesias Completas, de 1900, porque mencionava duas lojas do Rio de 1870. É uma atitude muito compreensível - para 1899. Nós temos outro ponto de vista - essas obrinhas, e diria que principalmente as crônicas, pela própria espontaneidade (relativa...) e a qualidade de imediato que têm, nos deixam ver aspectos inesperados do autor, nos acostumam à sua maneira de ver as coisas, aos autores de que mais gostava, aos seus hábitos de pensar, de gracejar, etc. etc. Mas, arriscando puxar a brasa para minha sardinha, devo insistir que essas crônicas precisam de boas edições, que reduzam a distância entre 1878 (digamos) e 2008 - e isso pede muita pesquisa. Vamos publicar, pela Editora da Unicamp, a Lúcia Granja e eu, a série de 1878, Notas Semanais, que contém algumas surpresas, e minha edição de Bons Dias!, há muito esgotada, saiu agora em nova edição pela mesma editora. Tudo isso está, pouco a pouco, mudando as atitudes e a nossa maneira de ver Machado.



O papel do sexo na obra de Machado é ainda pouco estudado pelos ensaístas, como o senhor mesmo observa em seu livro, mencionando um estupro homossexual em Casa Velha. De certo modo, as relações de amizade entre homens nos romances de Machado poderiam igualmente sugerir que essa era, de fato, uma preocupação do escritor. A crítica brasileira seria moralista a ponto de desconsiderar a sexualidade na obra machadiana?


Não sei, eu diria que foi simplesmente um pouco míope, o que não é exclusivo do Brasil nem do caso de Machado. Magalhães Júnior, ao topar com o referido estupro homossexual de Casa Velha, confessou honestamente que não sabia por que o autor teve que incluir esse detalhe escabroso na novela. Os tempos eram outros, e as pessoas literalmente não viam o que estava (pensamos nós) diante dos seus olhos. A rainha Vitória não acreditava no lesbianismo, ou assim se diz. Dessa maneira, o lesbianismo escapou de ser proscrito quando a homossexualidade masculina foi proibida na década de 1880. Mas não pensemos que somos tão superiores - recentemente tive que explicar para um colega, aliás nada ingênuo, que a dor de cabeça de Sofia no fim do capítulo 50 de Quincas Borba é uma "dor de cabeça" estratégica (e cômica) - e note bem que nem eu explicito tudo - por moralismo? Por que assim fica mais engraçado? Machado até bate na tecla de novo no capítulo 71, em que a citada senhora se livra da mesma enxaqueca, mas mesmo assim... Tem momentos em que eu titubeio - o conto, muito interessante, de 1903, Pílades e Orestes, trata do homossexualismo? Não sei, mas a explicação que mais me satisfaz é que é sobre um homossexual num mundo em que a homossexualidade "inexiste", se me entendem. Vê como as coisas podem ser complicadas, nesses assuntos.



Muitos críticos chamam a atenção para um possível "declínio criativo" de Machado no fim da vida. Sei que essa não é a sua opinião, mas como colocaria o Memorial de Aires em relação às obras anteriores do escritor? Quais são os traços biográficos de Machado que o senhor identifica na figura do conselheiro?


Não diria que essa não é minha opinião - apenas argumento que Memorial de Aires é um livro que pode "traicionar" o leitor tanto quanto Dom Casmurro; que é um livro calculado e muito engenhoso, que usa a forma do diário para fazer com que o conselheiro não possa adivinhar o futuro. Sabe Deus o que ele pensa depois do romance terminar. Nós, os leitores, temos outros indícios, a começar pelas epígrafes das cantigas de amigo ("Em Lixboa, sobre lo mar /barcas novas mandei lavrar"). Agora, já disse que obviamente o romance não tem a verve nem o humor, nem talvez a agressividade de Memórias Póstumas, por exemplo. É bem possível (e bem compreensível) que a "criatividade" tenha tido um declínio nos anos finais do autor. Perdera a mulher, estava ele mesmo doente, etc., etc. E é bom lembrar que Machado sempre tivera auges criativos, e grandes problemas de composição - pensem nos anos 80, com seus quase 50 contos em dois anos, e a imensa luta que foi Quincas Borba. Os contos finais também não têm a originalidade e a verve dos dos anos 80. Os traços biográficos - não sei. A distância implícita no fato de que o conselheiro é ludibriado pelo feliz casal (Fidélia e Tristão) não pode ser esquecida, mas um dos jogos de Machado com Bentinho, com o conselheiro, até com Brás Cubas, é que ele se identifica com eles para melhor entendê-los, e bem possivelmente põe traços dele mesmo, Joaquim Maria, para construir uma personagem convincente. O conselheiro gosta de música, Machado também gostava muito... Mas as fronteiras são muito difíceis de estabelecer em questões como essas.



É citada no livro Por Um Novo Machado de Assis uma crônica em que o autor se opõe à destruição do cortiço Cabeça de Porco em 1893 e que revelaria sua posição diante da chegada da modernidade ao Rio, opondo-se a ela, se fosse preciso, para preservar a memória da cidade. Essa atitude deve ser vista como saudosista ou Machado era um visionário, que via com ceticismo as decisões unilaterais da classe dominante?


Essa crônica, de 29 de janeiro de 1893, para mim, contém conflitos, como não podia deixar de ser. Machado tinha, sim, um certo lado saudosista, diria melhor, um desejo de preservar a história da cidade, que os partidários do "bota-abaixo" não tinham em absoluto. Agora, pretender que ele queria preservar um cortiço infecto como foi o Cabeça de Porco, só porque fazia parte da história da cidade, é outra coisa. Há alguns indícios na crônica que Machado percebia ser o problema maior não o da preservação da cidade, mas o de fornecer à população pobre alojamento decente. Também via - disso também há indícios na crônica - que esse "bota-abaixo" servia aos interesses da classe média, e que lá entrava também um bom elemento de corrupção, de gente que queria construir nessa terra. Ou seja, de tudo há nessa crônica, mas Machado também sabia que não podia resistir à História, com "h" maiúsculo. Tanto é assim que a cena viria a repetir-se, com variantes, muitas vezes no século 20.



A paródia, em Machado, não seria um exercício isolado, como o senhor defende em seu novo livro? Essa atitude paródica sobre a obra de escritores como Alencar teria apenas o propósito de zombar da linguagem melodramática de autores brasileiros ou seria uma carta de intenções pré-modernista?


Para mim, nem uma coisa nem outra. O uso da paródia é fundamental para a criação machadiana, e estende-se para além da ficção puramente dita - parodia a história do Brasil, parodia a Bíblia, parodia Fernão Mendes Pinto (tudo bem, pode ser ficção...), parodia a Revolução Francesa. Chega um momento em que a palavra paródia quase que não parece adequada, porque nos damos conta que é um procedimento criativo básico, e muito abrangente. E, muito mais que parodiar a linguagem, parodia os enredos, as situações, como Roberto Schwarz mostrou no caso de Lucíola em Memórias Póstumas. E muitas vezes com fins realistas - isto é, repensa uma situação falsa, calculando como teria sido realmente, sem óculos românticos, ou naturalistas (o caso de Eça de Queiroz, que também parodia). Acho difícil que existissem "intenções pré-modernistas" em Machado - confesso que não vejo a utilidade do adjetivo, porque definir um momento histórico pelo que veio no fim dele, e do qual não podia ter consciência, é impor uma finalidade histórica que não existia nesse momento, e, até esse ponto, distorcer. Podem existir paralelos entre o que Machado fez e o que fez um Oswald, mas temos que definir muito melhor nossos termos, e não estamos (diria eu) ainda na posição de fazê-lo com um mínimo de confiança.



Ensaístas como Abel Barros Baptista já aventaram a hipótese de Machado ter sido indiferente ao modo como seus leitores leriam seus romances. Em que documentos podemos confiar para confirmar essa possível indiferença?


Bem, documentar uma coisa negativa, como é a indiferença, sempre vai ser difícil. É verdade que Machado quase nunca comenta a sua ficção, e quando a comenta, fá-lo dentro dos pressupostos dessa mesma ficção (pequena exceção, que quase prova a regra, é o prefácio à terceira edição de Memórias Póstumas). Outro sinal negativo é o fato de que tirou certos indícios que podiam ajudar o leitor a compreender o romance, como é o caso da epígrafe à primeira versão, em folhetins, de Memórias Póstumas, tirado de Como Gostais (As you like it) de Shakespeare, e que dá uma dica básica acerca do narrador, que principalmente se critica a si mesmo. Em outros textos do período da grande transição (a de 1880), vê-se que Machado aprendeu a deixar fora esse tipo de indício "exterior", e não comentar, por exemplo, seus narradores. Sobre o tipo de indiferença que isso representa, o seu significado, questão sobre a qual nossos pontos de vista (de Abel e meu) diferem bastante, já expus um argumento detalhado no capítulo 9 de Por Um Novo Machado de Assis. Resumindo muitíssimo (quase ao ponto de distorção), para mim essa "indiferença" é um desafio ao leitor, com uma dose de agressão, ou um convite a uma espécie de auto-análise; para Abel, é indiferença mesmo.



Hoje, discute-se no Brasil se Machado seria um escritor local ou universal, revivendo uma questão levantada por Schwarz sobre o paradoxo de ter sido um autor enraizado no próprio tempo e ainda assim tão avançado. Para o senhor, seu tradutor, ele é "local" ou "universal"?


A resposta óbvia é que ele é ambas coisas, local e universal. Não queria abordar a questão, que tem elementos realmente muito importantes, de um modo excessivamente abstrato, e não sei se tenho respostas a certos problemas. Apenas algumas sugestões, portanto: um é que Machado tinha perfeita consciência da sua universalidade, pelo menos no sentido de querer ser lido fora do Brasil - esforçou-se para ser traduzido para o alemão, e Brás Cubas foi publicado em parte num jornal do Porto, em 1883 (descoberta recente, de Arnaldo Saraiva). Ambos esforços malograram. Essa ambição transparece em Instinto de Nacionalidade, e de fato em toda a sua carreira.

26 de setembro de 2008

JORNAL O ESTADÃO

O pai da prosa brasileira


O pai da prosa brasileira
Tudo nele tem razão de ser, o que o deixa extremamente alerta para incorporar improvisos

Daniel Piza

Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908) não teve filhos, mas transmitiu às novas gerações o legado de sua obra. É o pai da literatura brasileira e não apenas num gênero, o do romance, principalmente a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881). É também o pai da crônica - se Rubem Braga foi o príncipe, é porque antes houve um rei -, o pai do ensaio - pois de seu Instinto de Nacionalidade (1873) nasceram os Sérgios Buarques e Antonios Candidos - e o pai do conto - que sua primeira biógrafa, Lúcia Miguel Pereira, considerou exageradamente como o melhor de sua obra. Por isso tudo e mais alguns motivos, ele é, enfim, o pai da prosa brasileira moderna.

Alguns escritores têm jeito, outros têm estilo, disse Graciliano Ramos. E, numa injustiça consigo mesmo, acrescentou que tinha jeito; quem tem estilo, no Brasil, é Machado. Mas, afinal, o que era o estilo de Machado? Estilo não é apenas o conjunto de recursos de linguagem mais utilizados por um escritor; é o uso desses recursos para a expressão articulada de seu ponto de vista único, de sua visão pessoal de mundo. E poucos como Machado lançaram mão de figuras e ritmos com tamanha consciência que não podemos alterar uma vírgula sem prejudicar sua força e integridade. Tudo nele tem razão de ser, o que o deixa extremamente alerta para incorporar improvisos.



Um dos recursos que mais caracterizam a prosa de Machado é a maneira com que usa as metáforas. As metáforas foram usadas e abusadas no romantismo para criar imagens simbólicas que levassem ao que então se chamava de "sublime", a uma intensidade emocional máxima. No Machado maduro, pós-romântico, as metáforas se concretizam ironicamente; voltam do campo idealista para sua materialidade. O exemplo mais famoso é do início de Brás Cubas: "Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um x: decifra-me ou devoro-te."



Outra passagem conhecida em que a meditação desmancha metáforas e mostra ironias é de Dom Casmurro: "Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até ao fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. (...) Não sei o que era a minha. Eu ainda não era Casmurro, nem Dom Casmurro; o receio é que me tolhia a franqueza, mas, como as portas não tinham chaves nem fechaduras, bastava empurrá-las, e Escobar empurrou-as e entrou. Cá o achei dentro, cá ficou, até que..."



Não à toa é que Cubas descreve o morrer como "estudar a geologia dos campos santos". As metáforas de Machado servem para desconstruir o comportamento romântico e/ou religioso, devolvendo o símbolo à imagem. Em alguns momentos ele leva o jogo com as metáforas a tal ponto que é capaz de criar um diálogo entre dois burros sobre o bonde elétrico (em crônicas) ou mostrar Deus e o Diabo conversando sobre a ópera que fariam em parceria (Dom Casmurro) ou fazer a célebre história em que agulha e linha trocam opinião sobre seus papéis morais (no conto Um Apólogo). Se Machado escreve alegorias, não é para fins edificantes ou barrocos, mas inspirado na literatura satírica iluminista de autores como Voltaire e Diderot.



Na mesma linha entram suas paródias e citações da Bíblia. Machado escreveu paródia do Sermão das Montanhas ("Bem-aventurados os que não descem"), citou o Eclesiastes em muitas ocasiões como no capítulo final de Dom Casmurro, satirizou o clero em figuras como a do padre glutão do mesmo livro. Outras crenças foram ironizadas, como o espiritismo e o hipnotismo. As menções eruditas - a pensadores, romancistas, músicos e personagens históricos - também são comuns, mas nunca como recurso "de autoridade", para dar verniz sofisticado à história. Quando o Conselheiro Aires escreve em seu Memorial que releu Shelley e Thackeray e que "um consolou-me do outro, este desenganou-me daquele; é assim que o engenho completa o engenho, e o espírito aprende as línguas do espírito", deixa claro o contraste entre romantismo e realismo que está na raiz das preocupações literárias de Machado.



Outra figura tipicamente machadiana é o "understatement", o modo como diz coisas importantes sem parecer que as diz. Casmurro, o narrador, é mestre nisso. Quando conta que depois do casamento com Capitu vive "dias de felicidade e glória" e que "ao fim de dois anos de casado, salvo o desgosto grande de não ter um filho, tudo corria bem", o leitor atento percebe: como é que tudo pode correr tão gloriosamente se existe um desgosto grande? Casmurro conta isso entre vírgulas, num aposto, como se fosse algo secundário na frase e em sua vida. Mas sabemos que não é. E Machado lida como ninguém com as expectativas do leitor, com as informações que lhe dá ou deixa de dar - ou então dá sem a devida hierarquia, sem a corriqueira explicitude.



Há uma série de modos que Machado usa para fazer suas descrições mais sugestivas, sombrias, ambíguas. Um deles, pouco analisado, é a própria construção sintática. Um exemplo excelente de Brás Cubas está no capítulo do delírio, outra grande metáfora ou alegoria desfeita pela ironia. É quando Pandora diz: "Levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens. Tremes?". Ao usar "o maior de todos", Machado nos levanta a dúvida: maior de todos os bens ou maior de todos os males - ou de ambos? O mesmo vale para o último capítulo, Das Negativas, quando, depois de enumerar derrotas e consolos de sua biografia, o defunto Cubas diz: "Ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas." Cabe ao leitor julgar se esse pequeno saldo é positivo ou negativo.



Com essas maneiras peculiares de aplicar metáforas, paródias, apostos e ambigüidades, Machado queria justamente fugir às dicotomias. Não só aquelas vigentes em seu tempo e lugar, mas também as eternas dicotomias, a "eterna contradição humana" - entre bem e mal, alma e corpo, etc. Isso, no entanto, não significava ficar em cima do muro ou buscar um meio-termo confortável, conformista; muito ao contrário. Para ir além das dualidades banais, Machado precisou explorar o idioma em toda sua complexidade, o que só é possível para quem o tem como orgânico e elástico, não como algo congelado em dicionários.



Outro dilema que Machado superou, em conseqüência disso, foi aquele entre norma culta e norma coloquial. Ele fez uma grande e criteriosa mistura entre ambas. Para entender como escreveu de modo mais próximo da fala, sem pompas, sem academicismos, basta comparar qualquer página sua com a de um contemporâneo que por sinal admirava, Coelho Neto. Até hoje lingüistas reagem à falta de purismo de Machado. Olhando o mundo como olhava, não poderia ser diferente. Machado era um crítico das ilusões de pureza, de plenitude, de totalidade, de conciliação perfeita dos contrários. Esse é seu maior assunto.



É por isso tudo que escreve frases como "Dessa terra e desse estrume nasceu esta flor". Ou que usa num mesmo parágrafos termos "nobres" como "perpetuidade" e termos "chulos" como "jururu". Ou que Cubas confessa que em seu cérebro "cruzavam-se pensamentos de vária casta e feição". E acrescenta: "Não havia ali a atmosfera somente da águia e do beija-flor; havia também a da lesma e do sapo." Essa mescla de registros, tão mal compreendida até hoje, é seu maior trunfo lingüístico. É com ela que Machado consegue criar a "simultaneidade" de naturezas que Pascal não admitia.



Antipuritano, Machado também "suja" o texto com uma variedade enorme de sinais gráficos; sua pontuação não exclui nada, os dois pontos, o travessão, o ponto-e-vírgula, a exclamação, as reticências... Seus períodos podem ser tão curtos quanto uma palavra ou tão extensos quanto um parágrafo. E em geral há um contraponto entre breves e longos: "Não havia lua; mas nossa amiga aborrecia a lua - não se sabe bem por quê -, ou porque brilha de empréstimo, ou porque toda a gente a admira, e pode ser que por ambas as razões. Era uma de suas esquisitices" (Trio em Lá Menor).



Poeta e dramaturgo frustrado, Machado soube dar novo uso a esse aprendizado juvenil. Seu ouvido para as palavras é excelente, como se vê nos trechos em que dá voz romântica aos narradores: "Vi-a sair de uma cadeirinha, airosa e vistosa, um corpo esbelto, ondulante, um desgarre, alguma cousa que nunca achara nas mulheres puras." Seus adjetivos nunca são redundantes, nunca usados somente para completar a métrica. E o teatro aparece nos enredos ou em cenas específicas, como aquela em que Bentinho desvia a atenção de José Dias dizendo que o botão de sua calça está aberto - e que soa extraída de uma comédia de salão como as que Machado escrevera aos 20 e poucos anos.



É também para não cair em dualidades que Machado usa com freqüência expressões como "sem... nem..." ou "nem... nem..." ou "mas também". Em Dom Casmurro, por exemplo, o narrador descreve sua vida pós-Capitu como "sem encantos nem espinhos", o que quer dizer que o problema de Bento era acreditar que existem encantos sem espinhos, homem iludido e covarde que é, sempre pronto a acreditar em sua própria felicidade. E, quando ele sente ciúme dos braços de Capitu, ela os veste com um tecido "que não cobria nem descobria inteiramente". Nos contos, os exemplos também são muitos: "Nem entusiasmo nas primeiras horas, nem horror depois da primeira semana; algum prazer e certo fastio" (Um Homem Célebre); "Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia" (Uns Braços).



Machado também não respeita a pureza dos gêneros, o que explica que tenha sido pai da prosa brasileira em quase todos eles. Seus romances têm passagens que poderiam ser destacadas e publicadas isoladamente como crônicas (a exemplo do capítulo da Confeitaria do Custódio em Esaú e Jacó) ou contos (História de Dona Plácida em Brás Cubas). Escritor elíptico, que deixa lacunas no texto em vez de trabalhar por acumulação (como um Eça de Queirós trabalhava), ele adota formas fragmentárias, principalmente os capítulos curtos. Cada um, por sinal, na linha de Cervantes e Sterne, tem seu título, muitas vezes contendo uma auto-referência irônica.



Os nomes dos personagens tampouco são casuais. A mãe de Bento se chama Glória, a "santíssima", segundo o superlativo que o filho poria em sua lápide. Capitu na verdade se chama Capitolina, aquela que na Roma Antiga era capaz de convencer os outros de sua suposta inocência pelas artimanhas do discurso. O compositor que não consegue ir além das polcas em Um Homem Célebre se chama Pestana. Cubas, na terceira acepção do dicionário Houaiss, significa um sujeito malandro, esperto, dado a fantasia. Pedro é o irmão monarquista do republicano Paulo em Esaú e Jacó. O alferes de O Espelho se chama Jacobina. Por tática simbólica ou humorística, os nomes sempre são significativos.



Foi com a filosofia e o humor que Machado superou a ficção romântica sem aderir aos dogmas do realismo. O idioma foi o maior beneficiado. O que Machado tem, afinal, é o dom de fazer frases: "Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada mais." Como as pessoas que escrevem em inglês não conseguem esquecer a música das palavras de Shakespeare, nós que escrevemos em português - mesmo inconscientemente - temos uma dívida com Machado a cada período. Cromático e sintético, seu estilo é inspirador, mas inimitável; modelar, mas único. Como são os melhores pais
26 de setembro de 2008
JORNAL O ESTADÃO

domingo, 10 de maio de 2009

As agruras de um escritor


Machado ganhava pouco com sua produção literária e precisava de outras fontes de renda para pagar as despesas

1864-1872

Em 1864, aos 25 anos, a venda para a Editora Garnier (foto) dos direitos autorais de Crisálidas, seu primeiro livro de versos, rende a Machado 150 réis por exemplar.

Cinco anos depois, em 1869, novo contrato com a mesma editora, pelos direitos do segundo livro de versos, Falenas, e do primeiro de contos, Contos Fluminenses, prevê um valor só um pouco maior: 200 réis por exemplar. No mesmo ano, a venda dos direitos do primeiro romance, Ressurreição, e de outro livro de contos, Histórias da meia-noite, sempre pela Garnier, é feita de outra forma, num pacote fechado: 400$000 (400 mil-réis) por edição.

A que correspondia essa quantia? Machado acabava de casar-se com Carolina, em novembro de 1869, e o dinheiro de editora serviria para pagar só alguns meses de aluguel da casa, na Rua dos Andradas, 116, centro da cidade. Evidentemente, não dava para viver só da publicação de livros. O escritor tinha que se virar em várias atividades. Naqueles anos, era redator da Semana Illustrada e do Diário do Rio de Janeiro, colaborava com outras revistas, como o Jornal das Famílias, e desde 1867 atuava como ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial.

1873-1880

A segurança financeira só seria possível com um emprego estável. E ele veio quando Machado ingressou no funcionalismo público, em 1873. Nomeado primeiro oficial da 2ª Seção da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, passou a receber um salário de 4:000$000 (4 contos de réis, isto é, 4 milhões de réis) anuais. Não era muita coisa, mas dava para pagar o aluguel e outras despesas com certa folga. Em poucos anos, o casal muda três vezes de residência: primeiro para a Rua Santa Luzia, 54, depois para o segundo andar da Rua da Lapa, 96, e finalmente para a Rua das Laranjeiras, 4, afastando-se progressivamente do centro da cidade.

E se em 1876 a venda dos direitos do novo romance, Helena, não lhe rende mais do que 600 mil-réis, uma promoção torna Machado chefe de seção na mesma Secretaria de Estado. Dois anos depois, novo endereço para Carolina e seu marido: Rua do Catete, 206.

1881-1889

Na década de 1880, período da publicação de Memórias Póstumas e de outras coletâneas de contos, Machado se torna oficial de gabinete do ministro da Agricultura.

O casal pode agora mudar-se para uma casa mais confortável, na Rua Cosme Velho, 18, com um aluguel de 130 mil-réis por mês. Machado colabora com a revista A Estação e com o jornal Gazeta de Notícias, mas o pulo-do-gato acontece de novo dentro do serviço público: em março de 1889, beirando os 50 anos, é promovido a diretor geral da Diretoria do Comércio, com um salário anual de 8 contos de réis. Nada comparável aos vencimentos que a nova República garante ao presidente provisório (120 contos por mês!), mas o suficiente para uma vida tranqüila.

Casa-trabalho, trabalho-casa: todo dia, lá pelas 10 da manhã, Machado vai de bonde para o Ministério, atrás do Largo do Paço, e sai por volta das 16 horas, sem deixar de passar pela Livraria Garnier, na Rua do Ouvidor, para uma conversa com amigos e colegas.

1890-1899

Nestes primeiros anos republicanos, Garnier não altera muito os valores pagos a Machado pelos direitos sobre suas obras: 600 mil-réis pela primeira edição de Quincas Borba; 250 mil-réis pela segunda edição do mesmo livro, para a segunda de Iaiá Garcia e para a terceira edição de Memórias Póstumas.

O verdadeiro ganha-pão do escritor, que a esta altura da vida já é reconhecido e aclamado primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, continua sendo o funcionalismo: no Ministério (que agora se chama da Indústria, Viação e Obras Públicas), ele é diretor geral da Viação.

É dessa época o seu primeiro testamento. Lavrado em 30 de julho de 1898, nele Machado nomeia como sua herdeira a esposa Carolina e lista suas posses pecuniárias. São elas: sete apólices de um empréstimo de 1895, de um conto de réis cada; uma apólice da dívida pública, também de um conto de réis; cinco ações da Gazeta de Notícias, no valor de 200 mil-réis cada; e 3:079$663 na Caixa Econômica, caderneta nº 14.304.

No emprego, as coisas desandaram no início de 1898. Por conta de uma reforma “técnica” do Ministério, foi posto em disponibilidade. Como não era engenheiro, perdeu o cargo e ficou encostado em casa, recebendo sem trabalhar. Mas não durou muito essa injustiça com o funcionário-padrão. Em outubro, o novo ministro, Severino Vieira, o chama para ser seu secretário. E ele permaneceria no cargo com os ministros seguintes.

Em 1899 publica Dom Casmurro. Mas sua grande negociação com a Garnier é a venda da “propriedade inteira e perfeita” de toda a sua obra, pela quantia de 8 contos de réis. Era o valor de duas passagens de navio para a Europa. Mas Machado não gastava o dinheiro com viagens, preferindo as apólices da dívida pública.

1900-1908

Em 1902, Machado volta para a sua antiga repartição, desta vez com o cargo de diretor geral de Contabilidade. Comparados com o salário fixo e garantido pela máquina pública, os rendimentos que suas obras lhe proporcionam continuam escassos: 1 conto e meio por Esaú e Jacó e outro tanto para os contos de Relíquias de casa velha. Fica viúvo em 1904, e o aluguel da casa sobe de 150 para 200 mil-réis. Um bom terno custava na época 80 mil-réis; um quilo de queijo, 6 mil, e o de manteiga, 3.500 réis.

No dia 12 de outubro de 1905, inutiliza o testamento anterior e declara sua herdeira Laura, filha de sua sobrinha e comadre Sara Braga da Costa. No segundo testamento, Machado declara possuir doze apólices gerais da dívida pública, de um conto de réis cada, depositadas no London and Brazilian Bank Ltd., além de “algum dinheiro numa conta corrente do mesmo banco” e “certa quantia” em caderneta da Caixa Econômica.

Após sua morte, será esse dinheiro que o inventariante – o compadre major Bonifácio, pai de Laura – usará para fechar as contas que o escritor deixara penduradas em armazéns, açougues e farmácias: devia 19 mil-réis pelo consumo de dois meses de gás, 43 mil de leite no Grande Estábulo das Vacas, 30 mil em remédios da Pharmacia Laranjeiras e 18 mil em biscoitos e água de Vichy no Armazém de Molhados da Rua do Ouvidor. Sem esquecer os salários de suas duas empregadas, Jovita e Carolina: 110 mil- réis cada, correspondentes aos últimos dois meses de trabalho.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 27 de abril de 2009

As duas pontas da vida

Correspondência completa de Machado acompanha suas transformações ao longo do tempo
Sergio Paulo Rouanet

Em carta de 21 de abril de 1908, escrita poucos meses antes de sua morte, Machado de Assis autorizava o amigo José Veríssimo a recolher e publicar sua correspondência. A permissão, no entanto, foi dada com um ceticismo tipicamente machadiano: “Não me parece que de tantas cartas que escrevi a amigos e a estranhos se possa apurar nada de interessante, salvo as recordações pessoais que conservarem para alguns... O tempo decorrido e a leitura que fizer da correspondência lhe mostrará que é melhor deixá-la esquecida e calada”.

Obviamente, a posteridade discordou de Machado de Assis nesse ponto, e muitas cartas foram sendo publicadas ao longo dos anos, despertando sempre o interesse de leitores e biógrafos.

A Editora Jackson fez um trabalho pioneiro nessa área, reunindo várias correspondências de e para Machado de Assis, mas segundo um critério altamente seletivo, que deixava de fora inúmeras cartas e a maioria dos correspondentes. A Nova Aguilar teve o mérito inestimável de publicar novas cartas de Machado, mas excluiu a correspondência passiva, o que tem a desvantagem de privar o fluxo epistolar de sua dimensão dialógica. Além desses dois epistolários gerais, foram também publicadas, em livros, jornais e revistas, cartas com interlocutores específicos, como Quintino Bocaiúva, Joaquim Nabuco, Salvador de Mendonça, Joaquim Serra, Miguel de Novaes, Mario de Alencar e Magalhães de Azeredo. O problema é que o privilégio concedido à relação isolada com um interlocutor faz com que se perca a visão de conjunto de um Machado múltiplo, que mantinha, simultaneamente, relações epistolares com muitos outros correspondentes, revelando-se assim ao leitor sob aspectos mais variados do que se lêssemos apenas as cartas trocadas com um determinado missivista. Finalmente, várias cartas foram transcritas em biografias, como Vida e obra de Machado de Assis, de R. Magalhães Júnior, o que tem o inconveniente de que a correspondências passam a ser interpretadas segundo o enfoque específico do biógrafo, impedindo seus autores de falarem por si mesmos.

Por tudo isso, pareceu à Academia Brasileira de Letras que uma das melhores maneiras de homenagear Machado de Assis por ocasião do centenário de sua morte seria publicar, por ordem cronológica, a correspondência completa do nosso maior escritor, tanto a ativa quanto a passiva, tanto a já publicada quanto a inédita. Ainda é cedo para se fazer uma avaliação do que essas cartas possam trazer de novo do ponto de vista da obra de Machado, mas podemos dizer desde já que elas são extremamente interessantes do ponto de vista biográfico. Em particular, as cartas da mocidade, sobretudo as recebidas, contribuem para desconstruir a imagem de Machado como um homem ensimesmado, casmurro, frio nas relações humanas. Elas revelam, ao contrário, um jovem boêmio, namorador, com quem os amigos se abriam e a quem faziam confidências amorosas, no tom ultra-romântico de uma juventude que fizera seu aprendizado literário lendo Musset e Álvares de Azevedo. É só nas cartas da maturidade que vai se consolidando a figura do funcionário sisudo e respeitável. Nelas se vê a transformação do Machadinho em Machado de Assis. Depois da morte de Carolina, em 1904, as cartas mostram o homem desesperado, niilista, que os biógrafos nos habituaram a ver atrás do escritor.

A mediação entre o primeiro Machado e o último é feita por Salvador de Mendonça, um dos seus correspondentes da juventude e o destinatário da que talvez seja sua última carta, escrita três semanas antes da morte. Neste sentido, pode-se dizer que Machado conseguiu, pela correspondência, “atar as duas pontas de sua vida”, objetivo que o destino recusou a Dom Casmurro, incapaz de reencontrar no Engenho Novo o adolescente de Matacavalos.

A ABL fez bem em ignorar o pessimismo do seu primeiro presidente, para quem sua correspondência deveria permanecer “esquecida e calada”: mais do que nunca ela merece ser lembrada e ouvida.

Sergio Paulo Rouanet é diplomata, ensaísta, membro da Academia Brasileira de Letras e autor de Riso e Melancolia. A forma shandiana em Sterne, Diderot, Xavier de Maistre, Almeida Garret e Machado de Assis (Companhia das Letras, 2007).

Cartas reunidas

O projeto dedicado a reunir e publicar a correspondência de Machado, conduzido pela ABL, vem sendo realizado por iniciativa do ex-presidente da casa, Marcos Vilaça, com total apoio do atual, Cícero Sandroni. A equipe coordenada por Sergio Paulo Rouanet percorreu o acervo da ABL e os arquivos de outras instituições, como a Biblioteca Nacional, a Casa de Rui Barbosa, a Fundação Getulio Vargas e o Ministério das Relações Exteriores. O projeto ainda teve a colaboração de particulares. As pesquisadoras Irene Moutinho e Silvia Eleutério ficaram responsáveis pela reunião e pela transcrição de todas as cartas. Segundo Rouanet, uma das novidades dessa edição é o fato de dispor de centenas de notas, com dados sobre inúmeras personagens e sobre episódios da vida política e cultural do Brasil, mencionados nas cartas, mas hoje praticamente desconhecidos. O primeiro volume, de 1860 a 1879, sairá este ano. As cartas seguintes, de 1880 a 1908, deverão ser publicadas em 2009.

Os três Machados

Boêmia juventude


“Machadinho, tenho muita precisão de falar contigo, e, como és um boêmio, incerto em toda a parte, ouso pedir-te que me procures na Praça [do Comércio], hoje, sem falta; melhor seria que lá chegasses antes de começares os teus trabalhos. Entra naquele soberbo edifício, atravessa-o impávido, e encaracola-te por uma escada de caracol que hás-de encontrar adiante do nariz. [...]
Espera-te sem falta, o teu do Coração,
F. X. de Novais”

(Rio de Janeiro, 14 de julho de 1865).
[Faustino Xavier de Novais era poeta e irmão de Carolina, futura esposa de Machado]

Sábia maturidade

“Recebi a carta de Vossa Excelência e o 1.º número da Revista Amazônica. Na carta, manifesta o receio de que a tentativa não corresponda à intenção, e que a Revista não se possa fundar. Não importa; a simples tentativa é já uma honra para Vossa Excelência, para os seus colaboradores e para a Província do Pará, que assim nos dá uma lição à Corte.
Há alguns dias [...] disse esta verdade de La Palisse: que não há revistas, sem um público de revistas. Tal é o caso do Brasil. Não temos ainda a massa de leitores necessária para essa espécie de publicações. [...]
Esta linguagem não é a mais própria para saudar o aparecimento de uma nova tentativa; mas sei que falo a um espírito prático, sabedor das dificuldades, e resoluto a vencê-las ou diminuí-las, ao menos. E realmente a Revista Amazônica pode fazer muito; acho-a bem feita e séria. Pela minha parte, desde que possa enviar-lhe alguma coisa, fá-lo-ei, agradecendo assim a fineza que me fez, convidando-me para seu colaborador”

(A José Veríssimo, Rio de Janeiro, 19 de abril de 1883).

Solitária velhice

“[...] Daqui a pouco a casa Garnier publicará um livro meu [Memorial de Aires], e é o último. A idade não me dá tempo nem força de começar outro. [...] Completei no dia 21 sessenta e nove anos; entro na ordem dos septuagenários. Admira-me como pude viver até hoje, mormente depois do grande golpe que recebi e no meio da solidão em que fiquei, por mais que amigos busquem temperá-la de carinhos [...]”

(A Joaquim Nabuco, Rio de Janeiro, 28 de junho de 1908)

Revista de Historia da Biblioteca Nacional