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quinta-feira, 3 de junho de 2010

Cuidado com o tigre!


Bichos mortos nas ruas, dejetos atirados ao mar, doenças se propagando: o insalubre cotidiano da capital pernambucana nos tempos do Império
Manuela Arruda dos Santos

As grandes cidades brasileiras não eram exatamente localidades agradáveis no século XIX. Sujo, nojento e enlameado, o cenário urbano se compunha de carniças, bichos mortos, alimentos podres e outras imundícies abandonadas perto das pontes e nas praias.

O Recife, assim como o Rio de Janeiro e Salvador, sofria com sérios problemas provocados pelo inchaço populacional. Numa época em que o sistema de esgotos ainda não existia, o que fazer com os dejetos e águas sujas – ou “águas servidas” –, produzidos diariamente pela população? Nas cercanias da cidade e em locais onde existiam grandes terrenos, era fácil abrir buracos para servir de fossas, mas também se atirava de tudo diretamente nos rios e mangues. No apertado centro, porém, era mais complicado livrar-se dos dejetos.

Nesse tempo, imperava nas cidades um fedor que, hoje, dificilmente podemos conceber. Nas ruas e nos becos estreitos, os maus cheiros se confundiam. Nas praças, vísceras de animais e restos de vegetais estragados compunham um ambiente insalubre. Dentro das casas, cozinhas sem ventilação tornavam o ar viciado, com exalações pútridas de matérias orgânicas em decomposição. Nos quartos, poeira e mofo se misturavam ao cheiro dos penicos.

Todo dia de manhã, eles eram esvaziados em barris de madeira que ficavam embaixo das escadas ou em um canto mais recolhido da casa. Quando o tonel já estava quase transbordando, recorria-se ao “préstimo” do escravo! Era sobre as cabeças deles que o peso das barricas era conduzido para ser despejado na “beira” das marés. Em seguida, os carregadores retornavam com os recipientes vazios para receber nova carga.

Esses barris eram chamados de “tigres” e os seus condutores, de “tigreiros”. Talvez o nome fosse uma alusão à coragem dos carregadores ou, quem sabe, à imagem desagradável das barricas que, ao transbordar, espalhavam fezes nos corpos dos escravos e dos negros de ganho, numa combinação que lembrava a pelagem dos tigres. Existem versões que afirmam que o apelido foi dado porque, ao avistar os negros levando barris de dejetos, os transeuntes, com medo de ficarem sujos, afastavam-se rapidamente, como se fugissem de um animal selvagem.

Quando um “tigre” passava, as pessoas tapavam o nariz com lenços, viravam o rosto, se encolhiam. De longe, os “tigreiros” vinham alertando os moradores com seu bordão “Abra o olho! Abra o olho!” Os passantes se esquivavam, com medo de que um simples esbarrão acarretasse um banho asqueroso.

Para os médicos higienistas, o vai-e-vem dos barris de dejetos pelas ruas aumentava o perigo dos miasmas — como eram chamadas as supostas emanações que corriam pelo ar, na época consideradas responsáveis por moléstias, como os surtos de “febres malignas”, sarampo, varíola, disenterias, lepra, sarnas, oftalmias e tantas outras doenças tão comuns ao longo de todo o século XIX.

A princípio, as imundícies e o lixo doméstico podiam ser despejados em qualquer lugar. Até que, em 1843, um edital da administração municipal estabeleceu locais apropriados para isso. Mas como a falta de recursos limitava a fiscalização, a sujeira continuou sendo jogada em áreas proibidas.

O tratamento dado aos dejetos líquidos gerava freqüentes queixas dos moradores, porque outro hábito comum na cidade era o despejo dos penicos cheios do alto dos sobrados, sem perdoar o caminhante que passava distraído pela rua, a qualquer hora do dia ou da noite. Os algozes ficavam à espreita por trás das janelas dos sobrados, esperando algum desafeto passar para “honrá-lo” com excrementos atirados pela janela. A situação era tão séria que em 1831 a Câmara Municipal editou um regulamento determinando que o arremesso de “águas servidas” para a rua só poderia ser feito à noite, e, mesmo assim, após ser dado um aviso prévio por três vezes seguidas: “Água vai!... Água vai!... Água vai!...”.

O infrator estaria sujeito a multa e deveria pagar indenização pelos prejuízos causados à vítima. Mais uma vez, a lei não “pegou”: banhos involuntários e mal-cheirosos continuaram marcando a paisagem recifense, o que causava repulsa aos viajantes estrangeiros, como Charles Darwin (1809-1882), que, de passagem pelo Recife em 1836, afirmou que a cidade tinha um aspecto repugnante: “as ruas são estreitas, mal calçadas e imundas”. Já o naturalista escocês George Gardner (1812-1849) considerava todas as cidades e capitais do país terrivelmente sujas. Recife, segundo Gardner, era “pouco recomendável para quem não tem negócios a tratar”.

Em abril de 1840, o Diário de Pernambuco publicou mais uma denúncia sobre o não-cumprimento da proibição do despejo de dejetos do alto dos sobrados. Rogava-se que as autoridades policiais lançassem suas vistas de “piedade e caridade para a infeliz e imunda Rua do Livramento, onde em pleno dia são lançadas da casa do Tesoureiro Geral uma fartura d’águas pútridas, por seus escravos, os quais, apesar de advertidos, continuam em tal procedimento, transformando a rua em lamoso charco, que causa miasmas fétidos e nocivos à salubridade pública”. O artigo relata que os vizinhos não podiam conter a náusea diante do mau cheiro.

À medida que o Recife crescia e a produção de dejetos aumentava, o trânsito de “tigres” ficava cada vez mais freqüente. A situação se agravava nas épocas de epidemia. Foram as constantes moléstias que serviram de base para a reformulação das noções de higiene. Entre as iniciativas para controlar as emanações maléficas, foram pavimentadas e drenadas algumas ruas. O espaço público também passou a ser lavado com a ajuda de moradores, e foram publicadas instruções favoráveis à circulação do ar e da água, como a construção de chafarizes com água potável e a proibição de sepultamentos dentro das igrejas. Incentivado pelos governantes e pelos médicos higienistas, o banho, que ainda não era um costume diário para boa parte da população, passou a ser visto como uma defesa suplementar contra as doenças. Já em alguns pontos das margens do Rio Capibaribe existiam pequenos cercados feitos de palha onde as famílias iam banhar-se, protegidas dos olhares alheios.

Os “tigres” também entraram na mira das autoridades. Um relatório sobre a saúde pública, apresentado à Presidência da Província em 1854, ressaltava a inconveniência de se transportarem dejetos em barricas, e propunha sua substituição por latrinas móveis e hermeticamente fechadas. Em 1858, houve a primeira tentativa de organização de uma empresa responsável por implantar um sistema moderno de esgotos na cidade. Acreditava-se que com tal empreendimento o Recife ganharia ares de civilidade, tendo como referência as idéias francesas. Sendo assim, não foi por acaso que um francês, o engenheiro Charles-Louis Cambronne, obteve o direito de explorar o serviço, cujo contrato previa o escoamento das “águas servidas” para o rio, por meio de canos de ferro ou grés (espécie de cerâmica vitrificada).

Já as matérias sólidas seriam depositadas em caixas de madeira revestidas de metal, que a empresa forneceria a cada domicílio. Após quinze dias, esses depósitos seriam transportados para locais distantes por carros da companhia, que também se ocuparia da coleta do lixo doméstico e das ruas. As obras levariam cinco anos e os contribuintes pagariam uma quantia anual pelo serviço.

A primeira tentativa não deu certo. Os custos para a concretização do projeto eram elevados e a população não via com bons olhos tantas mudanças, mas, mesmo assim, em 1865 foi renovado o contrato com o engenheiro francês. Cláusulas adicionais previam que Cambronne deveria assegurar à população um sistema completo de limpeza e escoamento de dejetos das casas existentes e das que viessem a ser construídas. Prédios e sobrados tinham que ter ao menos uma latrina (vaso sanitário) por andar. Seriam construídos vasos e mictórios públicos, e a cidade ficaria divida em três distritos: Recife, Santo Antônio (que englobava a freguesia de São José) e Boa Vista. No intuito de regularizar a coleta, a empresa teria preferência na remoção do lixo dos domicílios, regularizando assim o trabalho que antes estava a cargo de escravos e negros de ganho. O sistema proposto era o mais eficiente da época, exigindo dupla canalização, emprego de máquinas a vapor e adoção de aparelhos a sifão, semelhantes aos de Londres, com abundante suprimento de água.

O fato é que, por volta de 1867, os jornais da cidade reclamavam que o projeto dos esgotos ainda não havia saído completamente do papel, pois o número de latrinas era insuficiente e a canalização dos esgotos não chegara a boa parte das casas. Descontente, a população apelidou de “cambrone” os aparelhos de latrina. A companhia, por sua vez, argumentava que os moradores não utilizavam os vasos corretamente, lançando panos, ossos, espinhas de peixe e outros resíduos de cozinha, o que obstruía o sistema e causava prejuízos.

O sistema de esgotos funcionou precariamente durante a segunda metade do século XIX, contribuindo para a proliferação de epidemias, principalmente as de tifo e disenteria. Sem manutenção e higienização adequadas, as latrinas se transformaram em focos de ratos e baratas dentro das casas. O mau estado de conservação dos canos provocava a contaminação do solo, e as descargas eram insuficientes. Assim, os “tigres” continuariam a passear com seus repugnantes conteúdos pelas ruas do Recife, e durante muitos anos ainda se ouviria falar das feras terríveis que ali vagavam durante a noite.

MANUELA ARRUDA DOS SANTOS é mestranda em História Social da Cultura Regional na Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde desenvolve a pesquisa "Higienizar para civilizar: a mudança de percepção em relação ao lixo no Recife (1830-1845)".

Saiba Mais - Livros:

ALENCASTRO, Luiz Felipe de. “Vida privada e ordem privada no Império” In: História da vida privada no Brasil II: Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

ARRAIS, Raimundo. O pântano e o riacho: a formação do espaço público no Recife do século XIX. São Paulo: Humanistas/ FFLCH/USP, 2004.

AZEVEDO, Aloisio. O cortiço. São Paulo: Ática, 2005.

BUENO, Eduardo. Passado a limpo: história da higiene pessoal no Brasil. Gabarito, 2007.

Saiba Mais - Filmes:

“Carlota Joaquina, princesa do Brasil”, de Carla Camurati. Brasil, 1995.

“Ilha das Flores”, de Jorge Furtado. 1989. Disponível em www.portacurtas.com.br

“O perfume: história de um assassino”. 2006.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 30 de março de 2010

A lavagem do Rio

Jeanne Marie Gagnebin

Professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e da Universidade Estadual de Campinas, Cidade Universitária Zeferino Vaz, Caixa Postal, 6110 Barão Geraldo, 13081-970 Campinas — SP Brasil

Myriam Bahia Lopes
O Rio em movimento — quadros médicos e(m) história: 1890-1920
Rio de Janeiro, Editora Fiocruz, 2001, 136p.

Para um leitor, como a autora desta resenha, que não é nenhum especialista em história, o livro de Myriam Bahia Lopes, O Rio em movimento — quadros médicos e(m) história: 1890-1920, reserva surpresas instigantes. Embora trate de um período relativamente curto, de um episódio singular, a Revolta da Vacina, e restrito ao Rio de Janeiro, a obra levanta questões que dizem respeito tanto à representação do passado quanto à representação da especificidade brasileira sobre esse passado. O questionamento historiográfico salutar leva o leitor, atento à voz crítica que ali se articula certamente com discrição, mas com firmeza, a se perguntar se alguns lugares-comuns sobre a interpretação do Brasil de hoje não poderiam igualmente ser chacoalhados com proveito.

Desde o início, Myriam Bahia define seu livro como um ensaio, isto é, uma tentativa ou, como ela também diz, uma luta. O livro apresenta um momento histórico preciso, um acontecimento singular, mas, ao mesmo tempo e de forma inseparável, também procede a uma constante auto-reflexão sobre as categorias empregadas nessa apresentação, categorias como "modernidade" (versus "atraso"), civilização, "regeneração" (versus "decadência"). Essa "luta implícita contra a rigidez das palavras", segundo Myriam, faz desse texto um pequeno laboratório de indagações preciosas sobre algumas idéias prontas, mesmo que bem-intencionadas e progressistas, que circulam a respeito de nossa "triste realidade nacional", como se diz, e que impedem que se tenha uma percepção mais atenta de sua complexidade, de seus paradoxos, talvez até de suas contradições e também de suas possibilidades insuspeitas.

Para estimular essa percepção mais fina, para "intervir nas imagens cristalizadas na memória histórica", a autora lança mão de uma quantidade e de uma diversidade notáveis de documentos, dos quais a lista de fontes consultadas ao final do volume dá uma boa idéia. Arquivos, bibliotecas, fundações, casas, museus, correspondências, jornais fornecem não só textos, mas também canções e imagens que mostram uma multiplicidade de visões, de interpretações e, portanto, de narrações dos acontecimentos.

Gostaria de ressaltar aqui o olhar perspicaz de Myriam Bahia quando analisa as fotografias da época, essas imagens que não reproduzem a realidade, mas são elas também construções ideológicas e artísticas. Um exemplo: a construção de 'tipos' urbanos, isto é, de figuras isoladas do seu contexto concreto de rua ou de moradia graças ao fundo, fornecido por um pano branco que recobre o resto, pano que o fotógrafo Marc Ferrez carrega consigo. Myriam estabelece um contraste entre várias fotografias assépticas do Rio em obras, protótipos de uma modernização urbana ordenada, e as numerosas caricaturas que revelam a sujeira, o desconforto, a exclusão dos moradores em decorrência desse mesmo processo de "modernização". Assim, as ilustrações fazem mais do que 'ilustrar' o texto escrito; tornam-se documentos à part entière que trazem outras informações possíveis e trazem-no de uma outra forma que a fornecida pelo documento escrito.

No último capítulo, especificamente consagrado à eclosão e ao desenrolar da revolta, podemos examinar croquis cuidadosamente elaborados dos bairros cariocas no dia da revolta, todos eles dotados de um sistema de convenções desenhadas pela autora, como "bonde virado", "crianças representando batalhas", "pancadarias" ou "quartel de polícia". Textos e croquis apóiam-se e comentam-se mutuamente, num esforço visível de deixar em aberto a interpretação dos acontecimentos: no cenário da cidade, que os mapas apresentam, os revoltosos encenam uma história cujo desfecho não está prefixado e cuja conclusão não é definitiva.

A respeito do fim da revolta só se pode afirmar com segurança o seguinte: "Os presos, em torno de setecentos, aguardaram na Ilha das Cobras antes de serem enviados para o Acre." A imagem corrente da Revolta da Vacina é a de um levante popular provocado pela pobreza e cujo pretexto foi a resistência da população mais simples à obrigatoriedade da vacina contra a varíola. Ademais, em vez de esclarecer o povo sobre os benefícios da medida, vários jornais de oposição aproveitaram-se de sua ingenuidade para propagar a suspeita de que a vacina transmitia doenças, em vez de combatê-las. Assim, monta-se um quadro composto pelo atraso brasileiro (em relação ao resto do mundo moderno e higiênico), pelo obscurantismo popular encorajado pela miséria e pela manipulação proveniente de algumas pessoas da elite que não têm escrúpulos.

Myriam Bahia não nega a presença parcial de tais elementos. Sua estratégia consiste, porém, em afirmar a existência geralmente ignorada ou silenciada de outras dinâmicas em jogo que permitem relativizar as conclusões cínicas ou resignadas decorrentes da versão anterior, que eram do tipo: "Enquanto houver tamanha pobreza no Brasil, não se pode esperar nenhuma independência crítica por parte do povo, que sempre se deixará seduzir por indivíduos malvados e interesseiros."

A estratégia argumentativa do livro desenvolve-se em duas direções principais. Primeiro, mostrar que a Revolta da Vacina também se inscreve em um movimento de resistência popular muito mais amplo contra a 'modernização' do Rio de Janeiro. Segundo, mostrar que os argumentos ideológicos e científicos contra a vacina obrigatória também remetem a uma outra concepção igualmente coerente da medicina, concepção defendida por vários movimentos internacionais.

O primeiro passo da obra baseia-se numa evocação cuidadosa das transformações urbanísticas impostas pelo governo à capital do Brasil. O Rio de Janeiro devia passar de uma cidade colonial atrasada, suja, malcheirosa, símbolo de um Império decadente, para uma capital moderna e limpa, imagem da nova ordem republicana e das ambições políticas renovadas do Brasil no cenário internacional. Contra o atraso tropical colonial, tratava-se de "integrar o Brasil no mundo civilizado" (nas palavras de Stepan citadas por Bahia), e isso através de duas operações higiênicas diferentes, mas paralelas: operação de saneamento da cidade e operação de vacinação da população. O livro estabelece uma analogia muito fecunda entre o espaço físico da cidade, o corpo urbano, por assim dizer, e o corpo individual singular de cada cidadão. Os dois corpos devem ser limpos, sadios, higiênicos, isto é, também delimitados, controláveis e controlados.

Assim, como na Paris de Hausmann, aqui, a destruição dos bairros populares e dos cortiços não serve à erradicação da pobreza (que continua e migra para os morros ou para a periferia). Ela visa, talvez antes de tudo, à delimitação disciplinadora de uma população que sabia viver sem domicílio nem trabalho fixos e ocupar um espaço urbano sem seguir as regras estabelecidas pelas autoridades. A rua colonial, local reservado a homens vagabundos, capoeiras, ladrões, negros quadrilheiros, prostitutas, mendigos ou penitentes (sic)" — só faltam os nossos camelôs —, devia ceder lugar a largas e modernas avenidas, como a avenida Central, de recorte claro e racional, pelas quais transitam indivíduos ordeiros, isto é, com família e lar determinados, locais de trabalho e de diversão definidos. Trata-se, diz Myriam, de "fixar os indivíduos pelo lar, promovendo a família, e, ao mesmo tempo, fazê-los circular por uma rede de trajetórias previstas e de instituições normativas, tais como as ruas, as praças, a casa de comércio, a escola, a fábrica e a moradia".

A introdução da iluminação a gás nas ruas e nas casas sem dúvida aumenta a segurança dos cidadãos, mas também permite um controle mais eficaz de seus afazeres e movimentos. A escuridão ameaçadora, mas também aconchegante, no seio da qual todos os negócios lícitos e ilícitos são possíveis, é substituída pela visibilidade invasiva: não foi por acaso que os revoltados da vacina destruiriam os postos de iluminação e mergulhariam os bons burgueses proprietários no "medo de escuro" e na insônia, segundo uns versos satíricos de Xiquote, de 1905.

Ora, essa intervenção agressiva no corpo da cidade, que tinha crescido certamente de maneira "desordenada", mas seguindo a ordem dos ritmos e das necessidades de seus habitantes, essa intervenção repetia-se agora sob a forma da obrigatoriedade da vacina, pela ação das brigadas sanitaristas que, acompanhadas por policiais, entravam à força nas casas e espetavam os corpos indefesos da população. Em termos simbólicos, é uma invasão semelhante que desaloja agora o indivíduo não só da sua rua ou da sua moradia, mas também do seu próprio corpo, seu espaço mais íntimo e incontestado.

Não se tratava somente de convencer a população a vencer um medo irracional diante da lanceta. Também não podemos esquecer dos inúmeros 'acidentes' (reações mórbidas à vacina) provocados, entre outros fatores, pelas péssimas condições de transporte da vacina, que geravam desconfiança na população e que seriam silenciados pela historiografia futura, pronta a denunciar rapidamente a falta de esclarecimento científico. Tratava-se, antes de mais nada, de uma outra relação do sujeito com seu próprio corpo: este não era visto como um organismo cuja saúde dependia do saber de outros (enfermeiros, médicos, cientistas) e que devia, portanto, se prestar a manipulações e a controles benéficos por parte dessas autoridades. Mais fundamentalmente, o corpo pertencia ao sujeito de maneira tão íntima e imediata que este nem podia dizer que era seu, como se fosse propriedade sua: ele não era nem mesmo 'dono' do seu corpo, mas existia nele, ele o era. Sentimento primeiro e difuso que talvez não chegue a se explicitar verbalmente, mas que está na raiz da resistência à intervenção sanitarista pública, percebida como uma desapropriação íntima e um controle repressivo sob o gesto da prevenção.

Nesse segundo momento de sua exposição, Myriam detém-se e puxa de sua manga de arguta historiadora dois trunfos inesperados: a concepção holística de muitos médicos positivistas da época, no Brasil, e a presença de um forte movimento internacional, nos meios médicos e políticos, contra a vacinação obrigatória, fato negligenciado pela historiografia da revolta. A análise de vários documentos e de inúmeras declarações, em particular na imprensa, de médicos ou de notáveis, membros da Igreja e Apostolado Positivista do Brasil (IAPB), revela uma concepção singular da saúde e do saber médico. A concepção remonta a Hipócrates e continua viva em práticas atuais como a homeopatia. Ela repousa na afirmação da interligação entre o meio biológico e o meio social, inaugurando uma nova teoria, a mesologia. Daí decorre uma concepção holística da saúde e de sua preservação. O médico deve ajudar o paciente a manter o equilíbrio natural, que é definição da saúde, e a fortalecê-lo quando ele se torna precário, mas sem recorrer a intervenções diretas no funcionamento dos órgãos.

No quadro da doutrina positivista da sociedade, o dever de manutenção da saúde não faz parte das atribuições do Estado, não pertence ao domínio público. A saúde só se fortalecerá se houver um projeto moralizador da população para retornar às sagradas leis da natureza, em particular à preponderância dos laços familiares na educação, na formação e na manutenção da vida, passando pela reabilitação do papel central da mulher, elo privilegiado entre o natural e o social. Por essas razões, numerosos positivistas se opunham às "instituições de seqüestro (sic)", tais como a escola e o hospital, que retiravam o indivíduo do seu meio natural originário, isto é, da família.

Myriam não esconde o viés reacionário dessas teorias. Mas ela insiste no fato de que os médicos positivistas — que não são unânimes entre si; é importante ressaltar várias diferenças, em particular entre cariocas e paulistas — apresentavam uma teoria coerente que não era simplesmente uma cópia grotesca de seus mestres europeus. Sobretudo a luta entre positivistas e sanitaristas não é uma discussão entre charlatães supersticiosos e cientistas íntegros, mas um "debate travado entre duas figuras de saber": de um lado, uma concepção holística da saúde decorrente de uma teoria do meio; do outro, a teoria do agente específico de cada doença, isto é, a possibilidade de descoberta de estratégias e de técnicas específicas singulares (remédios, injeções, vacinas, operações etc.) que permitem lutar contra esses agentes isolados.

Pesquisando o acervo particular de um ilustre médico positivista, membro do IAPB, J. C. Bagueira Leal, Myriam encontrou cartas da Anti-Vaccination League of America e da National Anti-Vaccination League da Inglaterra. Bagueira Leal, aliás, seria eleito vice-presidente honorário da liga norte-americana em outubro de 1908. Myriam analisa aqui rapidamente os argumentos do movimento inglês (ela os estudará com mais detalhes em sua tese de doutoramento, concluída em Paris em 1997). À diferença da argumentação positivista brasileira, de cunho mais religioso — mesmo que se trate de uma teoria religiosa da natureza — os antivacinistas ingleses filiavam-se a uma longa tradição de luta dos radicais, segundo a qual "a ingerência estatal no domínio privado dos corpos cria o direito de resistência dos cidadãos".

A rica correspondência entre os antivacinistas brasileiros e seus colegas ingleses ou americanos revela a existência, apesar das diversas filiações, de um debate internacional importante, de relevância científica e política, sobre as novas práticas sanitaristas: a luta contra a vacinação obrigatória significa, portanto, muito mais que uma grotesca resistência de pseudocientistas da periferia tropical do mundo civilizado.

Concluamos. Ao lado da engenhosa e precisa pesquisa histórica, o maior mérito do ensaio parece ser sua capacidade de recontar um episódio da história brasileira sem cair nem no relativismo historiográfico nem no posterior acerto de contas para decidir quem estava com (a) razão. Essa revisão cuidadosa dos esquemas narrativos e interpretativos em uso na história da Revolta da Vacina permite vislumbrar uma outra hipótese. E se essa luta popular não fosse o mero levante de pobres miseráveis, atrasados e ignorantes, mas muito mais a tentativa de esboçar uma outra organização do espaço: do espaço exterior, da cidade, como palco da invenção de outras práticas de habitação; do espaço interior, dos corpos, como territórios não controláveis da invenção da vida?

Revista FIOCRUZ

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não havia higiene na Idade Média?

Os homens cheiravam mal e não trocavam de roupa, e os camponeses viviam com animais. Não existiam banhos, mesmo porque lavar-se não era coisa bem vista. Certo? Errado!
por Olivier Tosseri
Coleção Waldburg-Wolfegg, Castelo de Wolfegg


Banho público na Alemanha. Ilustração de manuscrito do século XV

Muita gente aprende nos bancos escolares ou em referências no cinema e em livros que os tempos medievais foram um zero à esquerda em matéria de asseio. Não é bem assim. Havia higiene na Idade Média, quando também se usava a água por prazer. Esse só não era um valor tão disseminado como hoje nas sociedades carentes, como em todos os períodos passados, de meios de educação abrangentes e democráticos.

Acervos preciosos de arte e objetos do período incluem itens usados na toalete de homens e mulheres, assim como iluminuras que representam pessoas se lavando. Os tratados de medicina e educação de Bartholomeus Anglicus, Vicente de Beauvais ou Aldobrandino de Siena, monges que viveram no século XIII, mostram uma preocupação real em valorizar a limpeza, principalmente a infantil.

A água era um elemento terapêutico e servia tanto para prevenir quanto para curar as doenças. Desenvolveram-se as estâncias termais e era recomendado e estimulado lavar-se regularmente. Como as casas não tinham água corrente, os grandes locais de higiene eram os banhos. Certamente herdados da Antiguidade, é provável que tenham voltado à moda graças aos cruzados retornados do Oriente, onde se havia conservado a tradição.

Nas cidades, a maioria dos bairros tinha banhos públicos, chamados de “estufas”, cuja abertura os pregoeiros anunciavam de manhã. Em 1292, Paris, por exemplo, contava com 27 estabelecimentos. Alguns deles pertenciam ao clero. O preço da entrada era elevado, e nem todos podiam visitá-los com assiduidade.

Na origem, os frequentadores se contentavam com a imersão em grandes banheiras de água quente. O procedimento se aperfeiçoou com o surgimento de banhos saturados de vapor de água. Utilizava-se o sabonete ou a saponária, planta que fazia a água espumar, para um melhor resultado. Para branquear os dentes, recorria-se a abrasivos à base de conchas e corais.

Tal era o sucesso desses locais que a corporação dos estufeiros foi regulamentada. Eles tinham direito a preços predeterminados e o dever de manter água própria e impedir a entrada de doentes e prostitutas. A verdade, porém, é que as estufas foram se transformando cada vez mais em lugar de encontros galantes: os banhos em comum e os quartos colocados à disposição dos clientes favoreciam a prostituição.

No século XIV, recorreu-se a éditos para separar os homens das mulheres, mas foi durante o século XV que se verificou uma mudança de mentalidade. A Igreja endureceu suas regras morais, pois passou a ver com maus olhos tudo quanto se relacionasse com o corpo. E os médicos já não consideravam a água benéfica, mas sim responsável e vetor de enfermidades e epidemias. Segundo eles, os poros dilatados facilitavam a entrada de miasmas e impurezas.

A grande peste de 1348 recrudesceu esse entendimento. Desde então, passou-se a desconfiar da água, que devia ser usada com moderação. Os banhos declinaram e, pouco a pouco, desapareceram. Foi preciso aguardar o século XIX e o movimento higienista para que se produzisse uma nova mudança de mentalidade.

Olivier Tosseri é jornalista

Revista História Viva

sábado, 1 de agosto de 2009

Como Fazíamos Sem...Absorvente


Como Fazíamos Sem...Absorvente
Mulheres improvisavam com panos, chumaço de lã e rolinho de grama
Dizia o comercial de TV que incomodadas ficavam as nossas avós. Ele tinha razão. Antes da invenção do absorvente descartável, a mulherada sofria. E improvisava.

De acordo com dados da instituição americana Museu da Menstruação e da Saúde Feminina, na Antiguidade, em Roma, as mulheres enfiavam pequenos chumaços de lã no interior da vagina para conter o fluxo menstrual. Em algumas tribos da África, usavam rolinhos de grama. As gregas revestiam ripas de madeira com várias camadas de retalho. Já as japonesas se viravam confeccionando canudinhos de papel. Na Indonésia, fibras vegetais eram usadas na tentativa de absorver o fluxo, ao passo que, no Egito, canutilhos de papiro faziam as vezes de absorvente higiênico. Todas essas invenções eram intravaginais – por isso, era melhor deixar um pedacinho para fora, para facilitar a retirada.

Registros arqueológicos mostram que, desde o século 15 a.C, as mulheres já pensavam em alguma espécie de proteção para aqueles dias. Mas uma das referências mais conhecidas acerca do assunto é encontrada nos escritos deixados pelo grego Hipócrates, mencionando expressamente a utilização de protetores intravaginais entre suas contemporâneas – ele viveu de 460 a 370 a.C.

Durante toda a Idade Média uma opção eram as toalhinhas higiênicas, feitas de qualquer resto de tecido – não raro, elas levavam ao surgimento de coceiras, assaduras e irritações no corpo. De todo modo, qualquer coisa devia ser melhor do que o isolamento a que as mulheres de diversas tribos indígenas eram submetidas: elas ficavam longe dos olhos dos outros, sentadas numa espécie de ninho, que absorvia o sangue.

Só no século 19 têm início pesquisas voltadas ao desenvolvimento de apetrechos mais funcionais. Em 1933 o absorvente interno foi patenteado, mas a novidade só chegou ao Brasil 40 anos depois. Por outro lado, toalhas descartáveis já ocupavam as prateleiras desde o fim da Primeira Guerra. Algumas tinham o formato de uma calcinha, ficando presas à cintura, enquanto outras eram presas com alfinetes – os absorventes com fita adesiva chegaram em 1970.

Um alívio sem precedentes, que livrou as mulheres de preocupações, como a de o que fazer para que ninguém visse o varal coalhado de retalhos suspeitos – afinal, as moças de boa família não podiam expor suas intimidades.

Revista Aventuras na Historia