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segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A força perene de 'Macunaíma'


Noventa anos após sua publicação, o romance segue provocador e atual em relação à forma como lida com questões brasileiras



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Narrativa foi adaptada para o cinema pelo diretor Joaquim Pedro de Andrade em 1969
PUBLICADO EM 18/02/18 - 03h00
No segundo prefácio de “Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter”, Mário de Andrade (1893-1945) destaca que o romance, considerado uma de suas obras-primas, é fruto de “pura brincadeira”. O escritor, poeta, crítico de arte e literatura, musicólogo e folclorista também revela no texto que concebeu a ficção durante suas férias, “em seis dias ininterruptos de rede”. Dessa forma, o título soa como um trabalho, sobretudo, despretensioso.

Inclusive, em outro trecho, Andrade enfatiza: “Não quero que imaginem que pretendi fazer deste livro uma expressão de cultura nacional brasileira. Deus me livre. É agora, depois dele feito, que me parece descobrir nele um sintoma de cultura nossa”.

Publicado em 1928, “Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter”, que completa 90 anos, ganhou, portanto, vida própria, e, desde então, segue desenhando uma trajetória peculiar, talvez até maior do que a imaginada pelo paulistano reverenciado como um dos principais nomes do Modernismo brasileiro.

A escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe observa que a amplitude da obra – constantemente ressaltada como uma das que mais reflete as nuances das bases constitutivas do Brasil –, era inevitável, tendo em vista o imenso repertório de Andrade. “Com toda a erudição, a inteligência e a criatividade que ele tinha na cabeça, não tinha como sair algo que fosse menos significativo. E, quando se escreve um texto de caráter lendário, é natural que acabe saindo nesse processo outras coisas que estão no inconsciente mesmo. Talvez, só depois, Mário de Andrade tenha descoberto que havia mais elementos no livro do que ele tinha pensado em escrever”, diz Noemi.

“O ‘Macunaíma’, pela sua força e pela figura do personagem, acabou se tornando um símbolo da índole e do destino fracassado do brasileiro”, acrescenta ela, que comenta a atualidade da obra. “O romance é perfeito para a época atual, ele nunca se desatualizou. Eu acabo concordando com a análise de Gilda de Mello e Souza, que diz que o Macunaíma é uma figura que resulta da mistura de três etnias: o branco, o negro e o índio. Ele quer sair do lugar, quer se desenraizar, quer ir para a cidade, quer ser mais esperto que as pessoas que já estão instaladas na cidade, os burgueses e os capitalistas, mas a esperteza dele, que vem da floresta, acaba sendo vencida por aquela dos donos do capital”, frisa Noemi.

Para ela, mesmo quando Macunaíma mostra-se vitorioso, o destino final dele é trágico. “Ele quer dar uma volta por cima, mas a volta por cima dele é morrer. Então, acho que isso representa a derrota do povo brasileiro, o que está acontecendo agora. A sociedade está sendo derrotada pelos acumuladores, e nós podemos até achar que somos espertos, como vimos o desfile da (escola de samba) Paraíso do Tuiuti, que é lindo e maravilhoso, mas duvido que isso vá raspar as estruturas de poder. Vai ser uma grande surpresa se o povo conseguir fazer algum protesto, algo que realmente mude o que já está instalado. Não acredito nisso, porque assim tem sido no Brasil há 500 anos”, afirma Noemi.

Eduardo Jardim, que é filósofo e autor da biografia de Mário de Andrade, “Eu Sou Trezentos”, também considera perene a relevância de “Macunaíma” para refletir outras questões, a exemplo da identidade nacional. “Toda vez que nos perguntarmos sobre a identidade do país, precisaremos voltar a ‘Macunaíma’. E toda vez que pretendermos pôr em questão essa busca de uma identidade, precisaremos também nos referir a ‘Macunaíma’. Digo isso porque se trata de um livro muito rico e complexo. Ele expressa o desejo de definir uma identidade, mas é também a confissão do fracasso dessa busca. ‘Macunaíma’ é um livro engraçado, poderoso e muito triste também. Afinal, nunca se alcança o que se buscava”, observa Jardim.

E o autor também chama atenção para o esforço de Andrade em contemplar a visão de uma unidade territorial no romance. “Ele recorre a dois procedimentos para defini-la: a desgeografização e a tradicionalização. Por meio da primeira, ele podia ir além da consideração das partes e das diferenças regionais e ver o todo. Tradicionalizando, ele podia dar conta de um tempo próprio da vida brasileira. O personagem Macunaíma viaja pelo país, desconsiderando todas as fronteiras, e viaja no tempo, desde a colônia até a atualidade de São Paulo. Mário de Andrade não busca conflitos, mas unidade, mesmo que se trate de uma unidade complexa e até díspar muitas vezes”, acrescenta ele.

Contexto. Mário de Andrade escreveu “Macunaíma” após uma viagem pela Amazônia em 1927. Ele encontra o nome do personagem, que batiza o romance, em um dos relatos do etnólogo alemão Theodor Koch-Grunberg (1872-1924), que registrou os mitos dos povos residentes na região do Alto Amazonas, desde Roraima até a Venezuela, no volume “De Roraima ao Orinoco”. Jardim localiza que o livro de Andrade faz parte de um segundo momento da trajetória do intelectual.

“Sua preocupação, desde o tempo inicial do modernismo, como na Semana de 22, foi com a modernização da produção cultural brasileira. Isso significava, para ele, incorporar nossa produção no concerto das nações cultas. O significado dessa incorporação foi revisto em 1924, não só por Mário de Andrade, mas pelos modernistas em geral. Todos passaram a defender que só era possível assegurar nossa participação no cenário moderno com uma produção com traços específicos nacionais, refletindo a vida e a cultura brasileira”, situa o especialista.

Noemi também identifica no gesto de Andrade, ao declarar uma ausência de rigor envolvida na criação de “Macunaíma”, o interesse de ele colocar em prática o projeto modernista. “‘Deseruditizar’, ‘desacademizar’, enfim, ‘desparsianizar’ a linguagem, apesar de Mário ser considerado muito erudito, era seu objetivo. ‘Macunaíma’ é uma sátira, e a linguagem do narrador é toda lúdica. A intenção dele era colocar a linguagem no nível que todos pudessem entender. Ele também insere alguns erros gramaticais propositalmente. Por exemplo, começar uma frase com pronome indireto: ‘me contaram’. Isso foi Mário que introduziu”, detalha a crítica literária.


Nova tradução para o inglês deve sair em 2019

FOTO: ACERVO PESSOAL
Katrina Dodson
Katrina Dodson afirma ter cuidado para manter os hibridismos da linguagem
Em breve, o romance de Mário de Andrade vai ganhar uma nova versão em inglês, por meio do trabalho da tradutora norte-americana Katrina Dodson, que deverá ser concluído neste ano e tem previsão de lançamento para 2019. Ela também já verteu para a língua inglesa contos de Clarice Lispector, o que lhe rendeu, em 2015, o PEN Translate Prize, um dos prêmios de tradução mais importantes dos Estados Unidos. Até o momento, “Macunaíma” havia sido traduzido apenas pelo norte-americano E.A. Goodland, há mais de três décadas. Porém, a qualidade dessa edição é questionada, principalmente, em razão da ruptura com o ritmo e o humor presentes na escrita de Andrade.

“Essa tradução também apagou inteiramente a natureza híbrida da linguagem, traduzindo toda a flora e a fauna para uma linguagem que impõe um sistema de classificação europeu em vez de indígena, e cobrindo os traços das palavras de origem bantu. Claro que muitas dessas palavras já são incorporadas no português do Brasil, o que Mário chamava de ‘brasileiro’. Porém, no livro, ele exagera a proporção das palavras de raízes não-portuguesas até que a linguagem em certos momentos fique quase incompreensível para muitos dos brasileiros. A minha tradução vai ser bem mais experimental do que a anterior, mas isso reflete o espírito vanguardista do original”, comenta Katrina.

Admiradora do romance, ela relata que “Macunaíma” é um de seus livros preferidos, e o processo de tradução a tem levado a novas descobertas. “Eu pensava que o tupi era a única língua indígena no livro, mas agora descobri que ali existem palavras de tribos como Caxinauá, Taurepang, Arekuna e Nhambiquara”, relata Katrina, que enveredou nesse projeto por iniciativa própria. A fim de compreender melhor o universo retratado por Mário de Andrade, ela, inclusive, realizou viagens pelo Brasil, após ser contemplada num programa de residência para tradutores estrangeiros viabilizado pela Biblioteca Nacional.

Um de seus maiores desafios é lidar com a complexidade linguística da obra, o que lhe exige estudos aprofundados. “E depois de toda a pesquisa, ainda tenho que fazer tudo funcionar como obra literária em inglês, que pede uma atenção cuidadosa à música e ao humor do romance, e também ao estilo e ao registro. Há tantas coisas para fazer que, cada vez que penso em tudo, fico paralisada e suspiro ‘ai, que preguiça…’”, brinca Katrina, citando uma das frases mais conhecidas do protagonista Macunaíma.

Ao comentar a possibilidade de a narrativa dialogar com leitores de outros países, ela ressalta que o contexto atual pode facilitar a compreensão da história, a seu ver, afinada com o mundo contemporâneo. “Embora ‘Macunaíma’ seja uma obra bem brasileira, ela retrata o hibridismo e as identidades contraditórias que caracterizam a condição pós-colonial de muitos países, isto é, de ter uma população que derive dos colonizadores, em termos da etnia, da linguagem e da cultura, mas que ao mesmo tempo abrange uma mistura de elementos indígenas e vindos de outros países, seja por causa da imigração ou da escravidão. Hoje estamos vivendo cada vez mais num mundo influenciado pela globalização, pela migração e pelo multiculturalismo. Acredito que os leitores atuais de ‘Macunaíma’ no exterior poderiam compreender seus temas muito melhor do que aqueles em décadas passadas, sobretudo nos Estados Unidos”, finaliza Katrina.


Obra no cinema, no teatro, nos quadrinhos e até na música

FOTO: PATRICIA BLACK/DIVULGAÇÃO
Iara Rennó
Iara Rennó lançou um disco em 2008 e estreou espetáculo dois anos depois
São diversas as criações baseadas em “Macunaíma”. Entre as adaptações mais celebradas figuram o filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade (1932- 1988), de 1969; e a montagem para o teatro de Antunes Filho, realizada em 1978. Mais recentemente, o romance de Mário de Andrade também passou a reverberar em outras linguagens, como os quadrinhos e até mesmo na música, com destaque para o disco “Macunaíma Ópera Tupi”, lançado pela cantora e compositora paulistana Iara Rennó, em 2008.

Ela frisa que esse foi um trabalho pioneiro ao explorar principalmente os recursos musicais encontrados no livro. “Ainda não havia uma proposta dedicada inteiramente à musicalidade dessa narrativa, o que para mim é algo que grita ali”, diz Iara. Ela conta que ficou quase dez anos envolvida na produção do CD e relata ter encontrado um documento no Instituto de Estudos Brasileiros, assinado por Mário de Andrade, que mostra o interesse dele em conceber uma montagem musical a partir de “Macunaíma”. “São duas páginas de um rascunho de um projeto que, de certa forma, eu me senti na incumbência de fazer, como se tivesse recebido um chamado dele”, diz a cantora, filha dos compositores Carlos Rennó e Alzira Espíndola.

Sua aproximação com a ficção se deu durante a faculdade de letras, em que aprofundou os estudos e compreendeu a importância do ritmo, das assonâncias, entre outros recursos, da prosa de Andrade. “Além disso, em vários momentos do romance, os personagens cantam, e vale lembrar que, quando o livro foi lançado, houve uma dificuldade de ele ser categorizado. Não se sabia se ele era um romance ou uma rapsódia, que segue o modelo das histórias cantadas, assim como a ‘Odisseia’ (atribuída a Homero)”, observa Iara.

Processo. Para gravar o álbum, Iara selecionou fragmentos de “Macunaíma” que foram musicados. Depois, em 2010, ela criou o espetáculo multimídia “Macunaíma no Oficina: Ópera Baile”, que estreou no Teatro Oficina Uzina Uzona. Atualmente, ela dedica-se a projetos que pretendem celebrar os dez anos do CD e os 90 do livro de Andrade e espera também vir a Belo Horizonte, apresentado-se numa versão solo ou com banda.

“Eu vou fazer o lançamento desse disco nas plataformas digitais e quero também lançar uma versão especial em vinil. Essa trabalho pode acontecer em vários formatos, desde uma aula-show à parcerias com trio ou banda e bailarinos, o que tem uma dimensão mais operística”, completa a paulistana, que ressalta a importância de “Macunaíma”.

“O livro aborda questões que nunca vão deixar de ser atuais, como aquelas ligadas a nossa cultura, que está sempre em transformação”.
Jornal O Tempo

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Notícias História Viva


A política da preguiça
Em seminário, Adauto Novaes debate a falta de tempo livre para o pensamento
Luiz Zanin Oricchio
Se o nosso Macunaíma murmurou "ai, que preguiça..." ao nascer, o filósofo Albert Camus comentou que "são os ociosos que transformam o mundo, porque os outros não têm tempo". Outras milhares de citações seriam possíveis porque a indolência frequentou a imaginação humana desde tempos imemoriais - e nem sempre com a conotação negativa que hoje a acompanha.

Em torno desse tema, o filósofo Adauto Novaes organiza mais um dos seus famosos seminários, que atraem público grande nas cidades por onde passam e depois se transformam em livros de referência sobre o assunto. O ciclo de conferências Elogio à Preguiça será apresentado no Rio, Belo Horizonte, São Paulo e Brasília, de 11 de agosto a 6 de outubro. As inscrições podem ser feitas no portal www.sescsp.org.br ou nas unidades do Sesc.

O time de palestrantes reúne nomes que já participaram de seminários anteriores, como Marilena Chauí, José Miguel Wisnik, Maria Rita Kehl e Jorge Coli; traz também "estreantes", como os ensaístas Francisco Bosco e Guilherme Wisnik. "A gente mantém o núcleo inicial dos seminários, mas também trazemos os talentos mais jovens", disse Novaes em conversa com o Estado.

A ideia deste seminário obedece a um pressuposto presente nos anteriores: "Não devemos falar em crise da contemporaneidade, mas em mutação", diz Novaes. O que não significa que os desafios sejam menos graves. Pelo contrário. Um dos grandes impasses contemporâneos, na era da técnica, se dá na questão do uso do tempo, daí o tema da preguiça, do ócio criativo, da pausa para pensar e refletir. "Não podemos esquecer Heidegger, que já via uma cisão entre a ciência/tecnologia e o pensamento."

Quer dizer, a técnica é uma criação humana que, por paradoxo, volta-se contra o seu criador. "Havia a crença de que com as novas tecnologias, teríamos mais tempo livre para nos dedicarmos ao nosso aprimoramento não só como profissionais, mas como seres humanos; deu-se o contrário: nunca se trabalhou tanto como hoje", diz.

O trabalho na era da informática tende a ser full time, sem interrupções, nem sequer nos fins de semana. "As corporações dão aos seus executivos celulares, iPhones ou laptops, verdadeiros presentes de grego, pois essa parafernália permite que os funcionários sejam contatados a qualquer hora do dia, inclusive nos momentos de lazer", diz. "O que houve foi uma apropriação brutal do tempo dos indivíduos pelo capitalismo contemporâneo", continua Novaes. Fato com muitas consequências, como o sentimento de urgência permanente, o estresse, a desconstrução de si. Mais grave ainda: esse novo ethos capitalista se opõe frontalmente às experiências do pensamento e da reflexão.

Daí que a preguiça, entendida como reapropriação desse tempo individual, socialmente sequestrado, tornar-se tema político. "Poderíamos até fundar uma Internacional da Preguiça", brinca Novaes, lembrando que as estratégias para administração do tempo alheio são uma forma de dominação. "Em um texto inédito, Foucault estuda como o tempo é disciplinado pela Igreja, pelo capitalismo e presídios", diz. Trata-se de não deixar qualquer tempo vago aos indivíduos, pois seria por ele que as tentações, desordens e queda de produtividade poderiam vir a perturbar o bom andamento das coisas.

Por outro lado, uma das formas eficazes de controle seria estigmatizar a palavra. O preguiçoso torna-se um pária. Mas, lembra Novaes, essa noção é historicamente construída. "Na Grécia e Roma antigas, o ócio era nobre e o trabalho, vil." Transformar a ociosidade em pecado, ou estigma social, é uma forma de culpar os que ousam dispor do seu tempo livre. Não passa de uma estratégia de dominação.

Essa desapropriação do tempo individual pode ter se exacerbado neste estágio do capitalismo, mas é algo que já preocupava pensadores do passado. Paul Lafargue, genro de Marx, escreveu um panfleto famoso, O Direito à Preguiça, no século 19. Mais recentemente, Paul Valéry, no prefácio às Cartas Persas, de Montesquieu, lembrava que nenhuma civilização podia se organizar sem atenção "às coisas vagas". Ou seja, ao pensamento reflexivo, crítico, à produção de obras de arte e inteligência, que dependem do tempo livre e da falta de um objetivo concreto ou prazo a cumprir.

Ao bolar o seminário, Adauto reuniu os conferencistas durante cinco dias em Tiradentes, Minas, para discutir a programação. "Foi muito duro, e todos se queixaram da amplitude da tarefa", diz. Falar da preguiça dá um trabalho danado.

Folha de São Paulo

sexta-feira, 29 de julho de 2011

MACUNAÍMA - O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER


MACUNAÍMA - O HERÓI SEM NENHUM CARÁTER

Aline Soler Parra

Introdução

O objetivo desta memória é estabelecer um paralelo entre o romance Macunaíma - o herói sem nenhum caráter, e Mário de Andrade, e as teorias históricas que fundaram a tradicional cultura ocidental européia que muito influenciou a formação cultural e histórica do Brasil.
Um fator decisivo para que Mário fizesse de Macunaíma o herói de nossa gente foi a nacionalização artística empreendida pelos integrantes do movimento modernista, que pode ser vista como princípio fundamental de todo estilo, na tentativa de criar uma literatura independente e, sobretudo inovadora livre padrões até então determinados pela Europa, embora esse projeto seja marcado por um cunho ideológico.
O romance Macunaíma representará a definição que o autor faz sobre a nacionalidade do país, ponto culminante para que o Brasil continuasse traçando seu caminho na história das civilizações. Entretanto, fatores sociais como a imigração, o domínio econômico da classe cafeicultora e a conseqüente industrialização, acabam por descaracterizar a cultura brasileira com o processo de modernização. É assim que Macunaíma interrompe sua tradição simbolizando a verdade cultural deste país e sucumbe à influência internacional.

Herder (1744 - 1803)

As teorias herdianas sobre a história da humanidade compreendem os ideais filosóficos de Kant sobre a influência dos fatores climáticos e geográficos no desenvolvimento humano. Soma-se a isso a posição de Herder perante a religião: durante certo tempo ocupou altos cargos religiosos e incorporou o plano de Deus em sua definição sobre a história da humanidade.
Segundo ele, O plano de Deus não é a natureza, mas a natureza é a base para se criar o plano de Deus que é o humanismo. O humanismo afirma o valor e a dignidade do homem e centraliza seu interesse no tema da natureza ou da condição humana.
Portanto, o plano de Deus era o de que toda criatura reconhecesse seu criador e diante de suas complexidades tomassem consciência de si, já não atuando mais pela força da natureza mas exercendo atividades diferenciadas e descobrindo sua cultura e suas relações com o mundo. Para compreender Deus é preciso que o homem desenvolva a arte, a música e a poesia que são as peças chave para a formação da cultura.
O pensamento de Herder está todo impregnado da convicção de que a característica mais marcante da história é a variedade e a individualidade apresentadas pelas diferentes nações, isto é, cada nação têm sua própria história, que é diferente de outra nação. Mesmo que o homem seja semelhante a outro habitante de outra civilização, eles jamais serão os mesmos.
Para Herder a espécie humana adquire as características do lugar em que vive. O ambiente geográfico forma diferentes habitats naturais, assim o homem que convive durante séculos num mesmo local, adquire a verdade cultural daquela natureza.
O idioma também tem um grande peso na expressão artística de uma comunidade. Como a alfabetização da época visava em primeiro plano a leitura bíblica - e a Bíblia era o principal livro daquele tempo - o filósofo pôde concluir que a união de um povo, a memória e a verdade desse povo estão no idioma. A experiência de um povo está no idioma e o sentimento compartilhado desse povo está na sua poesia . Diz ainda que a poesia é intransferível pois para a compreensão da mesma é necessária a memória do idioma e a verdade cultural do ambiente; deste modo a tradução para outras línguas não carregaria essa verdade nem o sentimento deste povo.

A Unificação Alemã

A Alemanha é o cenário escolhido para o desenvolvimento de muitas teorias existentes hoje. Com território extenso e situada no centro da Europa, o país sofreu uma desestruturação econômica, política e social em conseqüência do poder descentralizado. Dividida em cerca de 450 zonas políticas - ducados, principados, democracias, feudos, dinastias - não existia nenhuma força política capaz de unificar o Estado.
O país possuía ainda muitas cidades portuárias, com saída para o mar Báltico, que eram mais avançadas que o resto da Alemanha. Os governantes eram eleitos democraticamente, código moderno para a época. As tentativas de unificação do país vieram com o decorrer dos séculos.
Herder defendia a unificação alemã por considerar que seu território, sua população (que o habitava há muito tempo), detentores de uma arte própria, ou seja, era uma verdade cultural enquanto nação. Seu único empecilho eram as forças econômicas e o atraso feudal, que a proibia de abrir relações capitalistas com outros países, o que representaria sua independência como país.
Mas somente durante a Revolução Francesa com a busca de novos territórios e a conquista de novos mercados consumidores, Napoleão invade a Alemanha por volta de 1806 (então denominada Sacro Império Romano Germânico) dissolvendo todas as unidades políticas alemãs, fundando democracias.
Depois de vencer a Guerra Franco - Prussiana a Alemanha organiza-se como nação e finalmente em 1870, ocorre a constituição do Estado Nacional alemão e a corrida pelo desenvolvimento econômico e político.
Essa passagem histórica fundou as famosas filosofias de pensadores como Kant e Marx. E até hoje, interpretar o pensamento alemão tem sido uma das maiores proezas, pelo esforço da filosofia em explicar a própria história: o atraso alemão.

Spengler (1880-1936) e a Decadência do Ocidente

Segundo Oswald Spengler a história é uma sucessão de unidades individuais independentes, a que chama culturas. Para ele cada cultura tem um caráter específico e tem por finalidade exprimir esse caráter durante toda sua vida e no seu desenvolvimento. Mas cada cultura assemelha-se a todas as outras por ter um idêntico ciclo de vida, como o de um organismo.
A teoria de Spengler surgiu após a Alemanha ser arrasada na 1ª Guerra Mundial, o que o fez concluir que não existe nenhuma história universal, mas apenas histórias nacionais que obedecem uma morfologia.
Para ele, a cultura é natural ao meio rural, onde nasce e de onde surgiram os mitos, as lendas e a tradição. Durante o curso do seu desenvolvimento a cultura chega até a cidade e atinge nela a maturidade com a civilização (indústrias, máquinas e falta de religião). Essa influência destrói a tradição cultural que perde sua alma e se descaracteriza; esta é a decadência e o fim da história é representado pela morte do ciclo vital.

O Cenário Histórico Brasileiro

As duas primeiras décadas do século XX, representaram, para a maior parte do mundo ocidental, um movimento contraditório, cheio de conflitos e rupturas em relação a muitos dos valores e idéias do século anterior. Todos os setores da vida humana - social, político, econômico, cultural, científico e tecnológico - sofrem mudanças que alterarão profundamente a visão do homem moderno.
O transporte ferroviário (locomotiva a vapor), o barco a vapor e a eletricidade são algumas conquistas que vieram desde a metade do século XIX e que incorporadas ao século XX com as transmissões radiofônicas, o aeroplano, o automóvel e o cinematógrafo darão maior dinamismo a vida do homem moderno.
Muitas dessas conquistas favoreceram a expansão industrial, propiciando a criação de capitais e de novos investimentos, possibilitando assim uma farta produção de manufaturados. Há também o surgimento de uma nova classe social: a burguesia, que juntamente com a classe média gozavam dos prazeres que a indústria e a vida moderna podiam lhes trazer.
Em detrimento a essa imagem de conforto e segurança estavam os trabalhadores assalariados, que viviam a margem do progresso material. A classe operária se mobilizava na formação de sindicatos e associações que defendessem ideais anarquistas e socialistas; faziam greves e lutavam por melhores condições de vida e trabalho.
Em 1914, estoura a 1ª Guerra Mundial, por razões de ordem política e econômica, dentre as quais o nacionalismo extremo de algumas nações e a necessidade cada vez maior de existência de colônias fornecedoras de matéria - prima e consumidoras dos produtos manufaturados.
No Brasil essa virada encontra o país no início da República Velha , que representava os interesses das oligarquias rurais.
As condições naturais do país, sobretudo de algumas regiões (clima e solo), contribuíram para o desenvolvimento da cultura do café. Mas o fator decisivo que permitiu o surto da lavoura , foi sem dúvida a imigração européia que forneceu a mão-de-obra necessária. São Paulo, como principal produtor, “fez da questão imigratória o programa central de suas atividades dentro de um sistema que se pode considerar perfeito e completo.” [1]
Com o crescimento urbano e industrial verificado no país, principalmente em São Paulo, as condições de vida da sociedade brasileira tornam-se críticas. Concomitantemente à marginalização dos antigos escravos e à formação de uma pequena classe média, tem vez a formação de um proletariado e ainda, um subproletariado, composto basicamente de mão-de-obra estrangeira. Mas é, através dos estrangeiros, italianos essencialmente, que começa a se desenvolver em São Paulo, casas de comércio e indústrias, e o progresso da cidade é eminente, em virtude da eclosão da Guerra e da impossibilidade de importação de produtos estrangeiros.
Em 1917, cresce a agitação política, crescem os ideais socialistas e é realizada a greve geral, que pára São Paulo, obrigando o governo a negociar com os operários. A revolução Russa, ocorrida no mesmo ano, repercute nos meios operários paulistas.
No campo da cultura, o ano de 1917 também é marcado por acontecimentos importantes, como publicações, exposições e polêmicas, renovando a arte e a cultura do Brasil, processo que culminaria na Semana de Arte Moderna, em 1922.

Mário de Andrade e o Modernismo

Mário de Andrade (1893 - 1945), nasceu em São Paulo, cidade que amou imensamente e que retratou em várias de suas obras. Estudou música no Conservatório Musical de São Paulo e cedo iniciou sua carreira de crítico de arte em jornais e revistas.
O autor teve papel decisivo na implantação do modernismo no Brasil, homem culto e pesquisador paciente, em 1917 conhece Oswald de Andrade e Anita Malfatti, os quais retornavam ao país com a nova tendência cultural européia, juntamente a outros artistas formariam a Semana da Arte Moderna, em São Paulo. Com o objetivo de romper com a tradição passadista do país, o evento teve grande repercussão no meio artístico e contribuiu para uma nova concepção das realidades brasileiras, como a literatura clássica que maquiava as condições atuais do Brasil.
Mário era capaz de conciliar, em plena euforia modernista, as lições do passado e as conquistas do presente. Aceitava as propostas formais do futurismo italiano, mas rejeitava sua postura destruidora, esse era o ponto de equilíbrio de toda sua obra.
À par da literatura, Mário também revelou interesse pela música, pelo, folclore, pela antropologia, pela etnografia, pela psicologia e por todas as áreas que pudessem contribuir para a formação de suas atividades essenciais de músico e escritor.
Empreendeu várias viagens pelo Brasil, inicialmente como mero “turista aprendiz” e depois como pesquisador. Passou por cidades históricas mineiras, pelo Norte e Nordeste, colhendo informações culturais, como poemas, canções, modinhas e ritmos de festas religiosas, lendas e músicas indígenas, objetos de arte, etc.
Mário encarava sua atividade como uma missão, isto é, queria ser útil ao processo de reconstrução de um Brasil que mudava social, política, econômica e culturalmente.

Macunaíma

De todas as obras em prosa, Macunaíma foi a obra-prima de Mário de Andrade e, provavelmente, do Modernismo. A obra representa não apenas o resultados das pesquisa mas, a tentativa de realização de um projeto nacionalista. Esse ideal de nacionalismo literário surgiu em virtude dos elos étnicos, lingüísticos e culturais que compunham a nação brasileira.
Assim, a rapsódia Macunaíma o Herói sem Nenhum Caráter, foi escrita em poucos dias no mês de dezembro de 1926, estando Mário de férias numa chácara da família em Araraquara. O ponto de partida foi a leitura que o autor fez da obra Vom Roraima zum Orinoco, do etnógrafo alemão Koch-Grünberg, que colheu na Amazônia (Brasil e Venezuela), um ciclo de lendas dos índios taulipangues e arecunás. Mário fez algumas modificações na lenda original, acrescentou-lhe outras lendas, de origens diversas, adequou-lhe as teorias históricas de Herder e Spengler, incluiu anedotas de histórias brasileiras, aspectos da vida urbana e rural do país, introduziu personagens reais e fictícias, sem deixar de fora a feitiçaria, o erotismo e o absurdo surrealista.
No nível lingüístico, também se verifica uma verdadeira miscelânea formada por vocábulos indígenas, africanos, frases feitas, expressões e provérbios populares, tudo isso formando um estilo narrativo dinâmico e irônico de representação do povo brasileiro.
Há uma oposição, verificada na história, que é a caracterização da obra como romance. Romance é a categorização da forma de expressão da burguesia, a “epopéia burguesa” que é combatida pelo herói nas lutas com o Venceslau Pietro Pietra, representante da civilização européia.
Mário de Andrade classifica o livro como um romance folclórico, pois por detrás de todo contexto há uma verdade mística e tradicional. Mas uma outra justificativa para a oposição existente no livro seria lembrar os diferentes ambientes geográficos e seus resultados culturais. Deste modo a aventura de Macunaíma o retira da mitologia e o dissolve na história.
O livro é uma “história de busca”[2], composto de dois grandes momentos. O primeiro apresenta a personagem Macunaíma e a define como herói de nossa gente. Sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, índios tapanhumas (que quer dizer “gente preta”[3]), vivendo à margem do rio Uraricoera.
Nessa situação inicial, podemos perceber a concepção de herói que Mário de Andrade emprega em Macunaíma. Ele é filho do “silêncio” e do “medo da noite”, portanto, confirma a falta de paternidade, comum a todo herói.
Macunaíma é fundador da cultura de nossa gente, entretanto, Mário interfere na definição do povo representado pelo herói e, baseado em teorias históricas da formação da civilização, o autor define em suas próprias palavras: “O que me interessou por Macunaíma foi incontestavelmente a preocupação em que vivo de trabalhar e descobrir o mais que possa a entidade nacional dos brasileiros. Ora, depois de pelejar muito verifiquei uma coisa que parece certa: o brasileiro não tem caráter. (...) e com a palavra caráter não determino apenas uma realidade moral não em vez entendo a entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes, na ação exterior no sentimento na língua da História da andadura, tanto no bem como no mal.
(O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional. Os franceses têm caráter e assim os jorubas e os mexicanos. Seja porque civilização própria, perigo eminente, ou consciência de séculos tenha auxiliado o certo é que esses uns têm caráter.) Brasileiro (não).”[4]
Assim, o herói representa um povo, é construído à imagem e semelhança desse povo que não tem caráter definido, eis aí o subtítulo do texto. Macunaíma passará a assumir a partir de então um herói que serve de modelo apenas no interior do Mato-Virgem, onde a presença dos mitos, do folclore, enfim, a sua cultura não é ameaçada pela civilização urbana e pelo progresso industrial.
No livro, Macunaíma casa-se com Ci, Mãe do Mato, que lhe ofertará a Muiraquitã, uma pedra - o amuleto nacional símbolo da tradição brasileira. A situação inicial será rompida com a morte de do filho de Macunaíma e Ci, que também resolve morrer e habitar o campo vasto do céu.
O segundo grande momento se dá com a ida do herói para a cidade de São Paulo, na tentativa de recuperar o amuleto perdido para o gigante comedor de gente Venceslau Pietro Pietra.
Na cidade de São Paulo, o herói entra em contato com a civilização e perde sua identidade cultural. Mário de Andrade transpõe para a obra o antagonismo entre a burguesia e o proletariado, a divisão social do trabalho, que obriga a relação patrão-empregado e acaba com os direitos de costume e tradição do indivíduo subordinado e, consequentemente, deixa de existir uma comunidade cultural. A urbanização - sinônimo de industrialização - da cidade denigre a zona rural, detentora dos elementos que compõem a história da comunidade e que poderiam construir uma civilização tipicamente brasileira.
Outro aspecto importante, é a personagem de Vei, a Sol. No decorrer do livro ela aparece para Macunaíma toda vez que um fato novo cruzar seu caminho. A deusa-sol, oferecerá ao herói uma de suas três filhas em casamento. Mário utiliza-se dessa aliança solar para explicar a alegoria de destinos do Brasil e construir através dela uma grande civilização tropical.
Mas, essa aliança não acontece, pois Macunaíma desprotegido do olhar de Vei, enamora-se com uma varina portuguesa e perde a possibilidade de casamento quando Vei o descobre. Ao tentar castigá-lo, Vei faz com que o herói “caia em tentação” pela Sereia do lagoão (que é a Uiara enganosa) e entre na água fria para ficar com ela. Macunaíma entra no lagoão e quando se dá conta do acontecido percebe que havia perdido a perna e a Muiraquitã, que “...tinham sido engolidos pelo monstro Ururau, que não morre com timbó nem pau.” Era noite e era o fim dos dias do herói de nossa gente. “Então Macunaíma não achou mais graça nessa terra.”
“No depoimento de Mário de Andrade, Macunaíma “desiste de viver com Delmiro Gouveia[5], o grande criador. Desiste de ir para Marajó, único lugar do Brasil em que ficaram traços duma civilização superior. Lhe falta o amuleto nacional, não conseguirá vencer mais nada. Então ele prefere ir brilhar no brilho inútil das estrelas.”[6]
“Tudo o que fora existência dele apesar de tantos casos tantas brincadeiras tanta ilusão tanto sofrimento tanto heroísmo, afinal não fora sinão um se deixar viver; e pra parar na cidade de Delmiro ou na ilha de Marajó carecia de ter um sentido.”
Macunaíma “Então vai ser astro que é o destino fatal dos seres (tradição).” [7]
Apesar de adotar a filosofia de Spengler e a partir dela citar: “Não vim no mundo para ser pedra”, que é o destino de toda civilização; Mário ainda tinha uma certa esperança no herói, afinal ele estava tentado construir uma história da civilização brasileira. Mas como nosso herói foi impedido, por uma circunstância do destino talvez, Macunaíma sai da história para entra na vida do povo brasileiro, como tradição...

Bibliografia

ANCONA LOPES, Telê Porto. Macunaíma: a margem e o texto. São Paulo, Hucitec, Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1974.
ANDRADE, Mário. Macunaíma o Herói sem Nenhum Caráter. Livraria Martins Editora S. A, São Paulo, 1974.
BERRIEL, Carlos Eduardo Ornellas. Mário de Andrade Hoje, organização Carlos Eduardo Ornellas Berriel. São Paulo, Ensaio, 1990.
CÂNDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. São Paulo, Edusp, Belo Horizonte, Itatiaia, 1975.
CEREJA, William Roberto. Português: Linguagens: literatura, gramática e redação: 2º grau / Willian Roberto Cereja, Thereza Analia Cochar Magalhães. - 2. Ed. rev. e ampl. - São Paulo, Atual, 1994.
COLLINGWOOD, R. G. A idéia de história. Editorial Presneça, Lisboa, s/d.
GARDINER, Patrick. Teorias da História, Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1984.
HERDER, J. G. Idéias para a Filosofia da História Humana. In: Teorias da História, Patrick Gardiner, Lisboa: Fundação Calouste Gulbekian, 1984.
PRADO, Jr. Caio. História Econômica do Brasil. São Paulo, Brasiliense, 1969.
Grande Enciclopédia Larousse Cultural, Nova Cultural Ltda., 1998.

[1] Caio Prado Júnior, História Econômica do Brasil, p. 226.
[2] Definição de Haroldo de Campos
[3] Carlos Eduardo Ornellas Berriel, A Uiara Enganosa, in Mário de Andrade Hoje, p.161.
[4] Telê porto Ancona Lopes, Macunaíma: a margem e o texto, cit. P. 87.
[5] Delmiro Gouveia foi o pioneiro da industrialização
[6] Carlos Eduardo Ornellas Berriel, A Uiara Enganosa, in Mário de Andrade Hoje, cit. P.158.
[7] Id., ibidem, P. 159

MACUNAÍMA E A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA BRASILEIRA


MACUNAÍMA E A FORMAÇÃO DE UMA CULTURA BRASILEIRA

Fábio Della Paschoa Rodrigues

“A tentativa de implantação da cultura européia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em conseqüências. (...) Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas idéias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. (...) Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.”

(Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil)


INTRODUÇÃO

O movimento modernista da década de 20 ambicionava tornar o Brasil uma nação com forma própria, conquistando nossa individualidade cultural e um lugar no “concerto das nações”, como dizia Mário de Andrade. Nessa tarefa, o autor modernista, baseando-se em certas teorias históricas e filosóficas, empenhou-se em produzir um trabalho que afirmasse a entidade nacional e assim criou o seu Macunaíma.
Neste trabalho, discutiremos questões nacionais levantadas por Macunaíma e as influências e analogias entre a obra de Mário de Andrade e algumas das grandes teorias históricas, particularmente as de Herder, Spengler e Keyserling. Além disso, transportaremos as imagens macunaímicas para nossa realidade atual “globalizada”, fazendo um pequeno paralelo entre Macunaíma e o Brasil dos anos 90 do século XX.

AS INTENÇÕES DE MACUNAÍMA

Como o próprio Mário declarou, ele teve muitas intenções ao escrever Macunaíma, tratando de diversos problemas brasileiros: a falta de definição de um caráter nacional, a cultura submissa e dividida do Brasil, o descaso para com as nossas tradições, a importação de modelos socioculturais e econômicos, a discriminação lingüística etc. Mas a principal preocupação de Mário de Andrade foi buscar uma identidade cultural brasileira. O Brasil na época (e também hoje) não tinha “competência” para desenvolver uma cultura autônoma e toma emprestado modelos europeus, que não se adaptam ao nosso clima quente. A nossa cultura, então, deveria ser distinta das outras e possuir, por outro lado, uma totalidade racial; deveria provir das raízes que aqui haviam, das culturas populares existentes nos recantos do país. O Brasil, como entidade cultural, seria construído pela mistura de todas essas culturas (orais) de cada região brasileira. É justamente o que o escritor faz em Macunaíma: compõe a sua rapsódia reunindo lendas, folclores, crendices, costumes, comidas, falares, bichos e plantas de todas as regiões, não se referindo a nenhuma delas, misturando inclusive as diversas manifestações culturais e religiosas, dando assim um aspecto de unidade nacional, que não condiz com a realidade dividida de nossa cultura. Referindo-se a essa “desgeografização”, Mário de Andrade anota num de seus prefácios inéditos:
“Um dos meus interesses foi desrespeitar lendariamente a geografia e a fauna e flora geográficas. Assim desregionalizava o mais possível a criação ao mesmo tempo que conseguia o mérito de conceber literariamente o Brasil como entidade homogênea = um conceito étnico nacional e geográfico.”

Comentando esse esforço de juntar os elementos constitutivos do ser nacional, Eduardo Jardim de Moraes (In: Berriel, 1990) nota que:
“Na composição de Macunaíma e em seus escritos críticos da época nota-se o cuidado rigoroso de efetuar o levantamento do material que torna possível traçar o perfil do Brasil. Era intenção de Mário de Andrade, em sua perspectiva analítica, ao justapor os variados elementos culturais presentes na esfera nacional, chegar à definição de um elemento comum que qualificasse todos como pertencentes ao mesmo patrimônio cultural.”

Para Mário de Andrade, a modernização brasileira, isto é, a conquista de uma identidade cultural só seria possível se tomássemos consciência de nossas tradições. Em entrevista concedida em 1925, o escritor afirma que “ toda tentativa de modernização implica a passadização da coisa que a gente quer modernizar”. Vai mais além: “nós só seremos de deveras uma Raça o dia em que nos tradicionalizarmos integralmente e só seremos uma Nação quando enriquecermos a humanidade com um contingente original e nacional de cultura”. Macunaíma é, portanto, uma tentativa de modernizar o Brasil através do passado, de nossas tradições; é também a tentativa de fundar a raça brasileira, estreitamente ligada ao seu ambiente geográfico, ao seu clima.
Todas essas intenções macunaímicas tomam por base conceitos de raça e cultura construídos pela filosofia européia, particularmente a alemã. Ele como que tomou emprestado certos conceitos, mas adaptando-os ao nosso clima quente. Passemos então, a analisar os pontos de convergência entre sua obra e as teorias históricas.

MACUNAÍMA E AS TEORIAS HISTÓRICAS

Comecemos analisando as relações entre a obra andradiana e o pensador alemão Johann Gottfried Herder (1744-1803). Para Herder, a característica mais importante da história é a pluralidade e a individualidade das nações, justamente o que buscavam nossos modernistas.
Apesar de não haver material comprovando que Mário de Andrade leu Herder – conforme aponta C. E. Berriel (1987), as idéias deste pensador são claramente notadas na obra do escritor (que podem ter vindo através de Spengler ou do Romantismo brasileiro, ambos influenciados por Herder). O filósofo acreditava que “a literatura de uma nação deve ser verdadeira para com as tradições e o caráter íntimo da mesma nação, e a sua atitude para com a natureza” (Gardiner, 1995). Ora, Macunaíma é esta literatura: busca resgatar as tradições folclóricas brasileiras e afirmar um caráter nacional (que, para Mário, supostamente não há). O pensamento herdiano enfatiza os conceitos de caráter nacional e de meio ambiente, em que há uma unidade entre geografia, cultura e raça. Lendo atentamente Macunaíma, percebemos que Mário de Andrade utiliza todos esses conceitos em seu livro: nosso herói adquire características adequadas ao meio em que vive, ao seu espaço geográfico (que depois abandonará como sabemos), ele é a tentativa de fundar a raça brasileira a partir das “três raças tristes” que dão origem ao brasileiro e, mais ainda, é a possibilidade da criação de uma cultura nacional autêntica.
O escritor modernista partilhava da mesma idéia de que a paisagem está dentro do ser humano, como experiência coletiva ou individual de estar em um determinado lugar, a natureza captada pelos sentidos. Na concepção de Herder, o homem se origina a partir e dentro de uma raça, que está intrinsecamente ligada à paisagem, como ele ilustra em uma metáfora:
“Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades atuantes e o seu sabor, assim o antigo caráter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das ações peculiares a cada um desses povos.”

Neste sentido, Mário traduz literariamente a filosofia de Herder. Ele acreditava que deveríamos construir uma cultura, em sentido amplo, adaptada ao nosso clima, à nossa paisagem. Em resposta a um questionário da Editora Macaulay, em 1933, Mário declarou: “Tanto o meu físico como as minhas disposições de espírito exigem as terras do Equador. Meu desejo é ir viver longe da civilização, na beira de algum rio pequeno da Amazônia...” Ele acreditava que a preguiça era uma necessidade para os povos de clima quente como o Brasil, já que o “trabalho semanal e de tantas horas diárias” era coisa de civilizações cristãs de clima frio.
Mário de Andrade problematiza em Macunaíma as idéias de Herder segundo as quais o destino de um povo “depende primordialmente do tempo e do lugar em que nasce, das partes que o compõem e das circunstâncias exteriores que o rodearam”. Para a formação da entidade nacional é necessário superar todos esses obstáculos que se impõem diante do herói: primeiramente ele não tem caráter, não é ligado ao seu meio geográfico (que, inclusive, renega ao final do livro), as partes (raças) que o compõem são conflitantes com a opressão do componente europeu, o tempo em que o Brasil vive passa por um período de transição, início da industrialização nacional. Verificamos vários outros obstáculos que nosso herói encontra e que tem relação com a teoria herdiana. Herder acreditava que os povos incultos adquirem conhecimentos pela prática ou pelo intercâmbio com outros, mas Macunaíma (o Brasil, na verdade) só importa conhecimento, não troca, ou quando o faz troca “borboletas” por “idéias”, isto é troca o “exótico” pelo “civilizado”. Ainda para ele, os povos permanecem ligados entre si, influenciando uns aos outros, de acordo com a relação de maior ou menor poder, em que o país submisso é subjugado pelo opressor; o Brasil, nessa relação é quase totalmente submetido à cultura cristã européia e não tem forças para influenciar esse continente. Enfim, o Brasil só se consolidaria como entidade cultural se crescesse das próprias raízes, como preconizava o filósofo alemão. Macunaíma, ao invés disso, abandona suas raízes e se rende ao clima frio europeu, desprezando suas tradições e renegando sua paisagem tropical.
Para Herder a história de um povo é orgânica (como também para Spengler, como veremos mais adiante): “uma nação, tal qual o homem, crescerá e morrerá, inevitavelmente”. Mário de Andrade descreve literariamente a nossa história orgânica, desde o nascimento da possível cultura brasileira até seu quase desenvolvimento e enfim sua morte, ou seja, a vida de Macunaíma.
A influência de Oswald Spengler (1880-1936), outro pensador alemão, na obra de Mário de Andrade é patente e reconhecida. Mário leu e se inspirou na obra “A decadência do Ocidente” e em diversas passagens de Macunaíma reconhecemos imagens spenglerianas.
Segundo P. Gardiner (1995), Spengler dá preferência “ao instinto, em oposição ao entendimento, à vida no campo em oposição à vda na cidade, a fé e o respeito pela tradição em oposição ao cálculo racional e ao interesse próprio, à intuição e à imaginação em oposição à análise e ao método científico”. Ainda para Spengler, “uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio do informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, à qual se apega, qual planta”. Isto é, com algumas modificações, a descrição de Macunaíma.
Vejamos: Macunaíma é essa alma adormecida que nasce do ilimitado (o “silêncio tão grande”) no “fundo do mato virgem”, portanto, muito longe da cidade; ele usa sua mágica (intuição) para agir e prever as coisas. Mas nosso herói ficará para sempre “carinha enjoativa de piá”, pois enganara as tradições folclóricas, que ora defende ora se afasta delas (defende o Pai do Mutum mas foge de Capei); age sempre por interesse próprio, não tem caráter; e não se apega “qual planta” à sua paisagem.
Percebemos no livro as diversas oposições levantadas por Spengler: destino x causalidade, cultura x civilização, história x natureza, crescimento e vida x decadência e morte. Aliás, a oposição principal de Macunaíma não é a do herói com o gigante Venceslau Pietro Pietra, mas sim a oposição entre a mata tropical e a cidade temperada, ou seja, a oposição entre cultura (tradição) e civilização, que é oposição básica de Spengler.
No percurso do “herói de nossa gente”, Mário tenta construir a cultura brasileira, segundo os conceitos de Spengler, para quem “as massas de seres humanos fluem numa corrente sem obstáculos, da qual surge de vez em quando a Kultur autoconsciente”; porém, a falta de caráter do herói não possibilita o surgimento da cultura brasileira. Além disso, o herói de nossa gente encontra obstáculos na sua vida, quando está se desenvolvendo: ele se depara com o roubo da muiraquitã (cultura brasileira) pelo gigante Piaimã – o Brasil ao tentar construir sua unidade cultural encontra a Europa no meio do percurso.
Assim como para Herder, Spengler acredita que a força da cultura depende das raízes, da adaptação à terra, à afinidade com a natureza e a consolidação da raça. Para ele, “a História Mundial é a história da ascensão e queda de nações e raças”. E a raça é uma questão de um “sentimento comum” que une gerações sucessivas num todo. Spengler, como já dito, construiu uma concepção orgânica de história e foi além de Herder, supostamente prevendo o destino de todas as civilizações. Outro ponto de concordância entre os dois filósofos era a afirmação de que cada cultura tem o seu caráter específico ou “alma”. Na visão spengleriana “cada cultura tem as suas possibilidades de expressão, que surgem, amadurecem, decaem e não voltam a se repetir”. Já vimos que Mário utiliza essas idéias em seu livro, contando a vida do herói brasileiro, na verdade a vida da cultura brasileira.
Mário também crê na concepção spengleriana de que a indústria (o estágio mais avançado da civilização) é o grande inimigo da Natureza. Ela destrói as nações, as culturas nacionais. A máquina altera a relação do homem com a Natureza, interpondo-se entre eles. Macunaíma se vende às máquinas, quase se tornando uma, e assim frustra-se a tentativa de se estabelecer uma cultura nacional. O herói, como não tem caráter, é facilmente comprado pelas atrações da máquina, esquece a natureza, renega as tradições. Na cidade não há espaço para o sagrado, pois “isso de deuses era gorda mentira antiga” como diz uma “filha da mandioca” para o herói. A máquina não era deus e ninguém podia brincar com ela , pois ela matava. Ao refletir sobre máquinas e homens, Macunaíma chega à conclusão de que “os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens”. Nesse momento, nosso herói começa a maquinar, ele absorve a civilização pois não tem caráter.
Na cidade não há povo, mas uma massa. A cidade-máquina devora os homens e Macunaíma também é devorado por São Paulo. Ele não consegue mais viver e, outro solo que não esse, petrificado; a mata já lhe é estranha e monótona, ele não compreende mais o silêncio que o originou. Assim, Macunaíma, nas palavras de Spengler, “leva a cidade constantemente comsigo (...) perdeu o campo em seu interior e nunca mais o encontrará no mundo de fora”.
A gênese das culturas, na teoria spengleriana, é representada pelo mundo rural, o urbano é a corporificação da decadência das civilizações; a civilização “é um epílogo, a morte seguindo-se à vida, a rigidez seguindo-se à expansão (...) o mundo-cidade petrificante seguindo-se à mãe-terra.”. Macunaíma, rendendo-se à civilização, entra em decadência, petrifica-se e vê São Paulo se petrificar. Mário constrói uma imagem magnífica: para ele, São Paulo deveria se preocupar com o exercício da preguiça, mas como não tem caráter, ela se transforma em um imenso bicho preguiça de pedra.
Mas a cultura brasileira não morre de todo. Mário, de certa forma, acredita no Brasil e deixa, no final do livro, a possibilidade de construirmos a nossa cultura: Macunaíma, na verdade, não morre, sobe para o campo vasto do céu, vira tradição, que poderá ser resgatada e transmitida (como aliás, é transmitida ao próprio Mário no Epílogo).
Essa visão otimista com relação à formação de uma nação brasileira, Mário deve a Keyserling, único pensador que teve sua influência creditada explicitamente, num dos prefácios inéditos.
Na concepção de Keyserling, o homem é uma entidade real que se manifesta através de criações culturais. A teoria dele, assim como a de Herder, afirma o particularismo das culturas e ao mesmo tempo seu lugar universal. O conceito de cultura keyserlinguiano está relacionado a um passado vivo e a cultura “é a forma da vida, como imediata expressão do espírito (...) é obrigação com relação a um passado vivo, (...) é exclusiva e, portanto, estritamente limitada no exterior; é essencialmente unitária, pelo que cada coisa particular nela pressupõe e alude à totalidade” (que, enfatizamos, é o conceito utilizado pelos modernistas de 20). Mas, diferentemente de Spengler, para ele “todas as culturas tradicionais do planeta estão em decadência”, não só a civilização ocidental. Mas se Keyserling considera que todas as culturas tradicionais estão em decadência, porque centradas “no irracional, no impulsivo” – que é intransferível e, assim, não dando continuidade à cultura, por outro lado, a cultura pode ser perpetuada através de tradições vivas.
Mário compartilhava do otimismo de Keyserling, que acreditava que a tradição viva era a via de transmissão da cultura, a despeito da decadência inevitável das civilizações. Por isso Macunaíma, apesar de ter perdido a muiraquitã (a cultura brasileira) vira constelação (tradição). Ou seja, agora ele se transformou em instrumento de transmissão do que poderia vir a ser a entidade brasileira. O projeto andradiano, portanto, pode ser resgatado pelas gerações futuras.
Para Keyserling uma nova cultura se desenvolve “quando da mescla se origina o equivalente a uma nova raça definida”. Esse postulado permite Mário de Andrade conceber a gênese da Raça brasileira, criando seu herói a partir da mescla das três raças tristes (índio, branco e negro). Nosso herói, infelizmente como sabemos, deixa que sua porção branca oprima as outras e se vende à civilização decadente, não definindo uma nova Raça. Cabe ressaltar aqui que a porção branca de Macunaíma – vinda dos portugueses – já era mestiça e não se constituía como Raça; citando Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil: os portugueses apresentavam “ausência completa, ou praticamente completa de qualquer orgulho de raça (...) Essa modalidade de seu caráter explica-se muito pelo fato de serem os portugueses um povo de mestiços”.
Mário de Andrade encontra outro ponto de apoio em Keyserling, com relação à aversão à industrialização nascente, ao capitalismo verdadeiro, como nota C.Berriel (1987):
“Keyserling oferece uma alternativa “não-burguesa” de leitura da realidade histórica, ao rejeitar a economia e a materialidade como formas explicativas. Assim, a crise da sociedade contemporânea pôde ser vista, tanto por Spengler e Keyserling, como por Mário de Andrade, como uma crise da cultura pura e simplesmente”.

Todas essas postulações keyserlinguianas deram base para que Mário criasse seu “poema fundador” da raça brasileira ligada à paisagem tropical, e, por conseqüência, desenvolver a cultura brasileira. Ao pessimismo de Spengler, Mário prefere a possibilidade keyserlinguiana de manter a tradição brasileira viva, na esperança de que ela venha a se despertar novamente; por isso mesmo é que escuta do papagaio a vida do herói de nossa gente e nos transmite.

AS IMAGENS MACUNAÍMICAS E O BRASIL ATUAL


À luz das idéias e conceitos expressos em Macunaíma, transportaremos algumas de suas imagens para o Brasil da era globalizada. A intenção aqui não é aplicar uma teoria histórica (ou sua releitura literária) à atualidade brasileira, nem fazer uma crítica aprofundada sobre a cultura brasileira nos dias de hoje; para isso, seriam necessárias pesquisa e análise mais aprofundadas. A intenção é mostrar pontos de contato entre obra de Mário de Andrade e nosso atual contexto cultural e econômico, é também mostrar que a tradição macunaímica se faz sentir em nossos dias, com as mesmas questões que preocupou os modernistas na década de 20.
A Globalização implica na anulação da identidade nacional dos povos. Ela supostamente unificaria todas as nações o que, na verdade, levaria à perda da identidade cultural de cada nação. Neste sentido, a nova caminha para um objetivo contrário ao das teorias de Herder, Keyserling e da proposta modernista, em que a cultura se afirma como nação pela sua particularidade. O mundo globalizado não admite tradições e particularidades, num momento em que a palavra de ordem é “comunicação”. Comunicação virtual, a informação em alta velocidade através da máquina computador. Uma tribo africana sem e-mail ou home page ficará obsoleta, entrará em decadência, muito mais rapidamente que as civilizações preconizadas por Spengler. A civilização conquistou de tal forma uma técnica apurada – as novas tecnologias, que aceleram desenfreadamente o desaparecimento da cultura tradicional, como dizia Keyserling.
A cultura brasileira, seduzida por essa Uiara, está cada vez mais enxertada de estrangeirismos, que passaram a ser considerados como agregados culturais que contribuiriam para o enriquecimento de nossa “cultura”. O povo (quer dizer, a massa) não se dá conta muitas vezes de que essas “contribuições” na verdade fazem parte de um processo de “lavagem cerebral” das nossas tradições, que a influência cultural e econômica continua sendo unilateral. Não há fluxo de troca entre Brasil e a nova civilização ocidental hegemônica, os Estados Unidos, por exemplo; exportamos “futebol” e importamos “tecnologia”. Cada vez mais nossa realidade é afetada pela bolsa de Nova Iorque, de Tóquio, de Hong Kong etc... Cada vez mais a nossa cultura se rende a enlatados norte-americanos, mexicanos, argentinos... pois a produção nacional (quer seja cultural, social, econômica) não tem valor.
O atual herói se vendeu muito mais facilmente à civilização que o Macunaíma. O novo herói de nossa gente é o Sr. Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso (FHC) que, assim como Macunaíma, não tem caráter: lutou contra a ditadura militar mas entrega agora o país ao capital estrangeiro; diz estar ao lado do povo, mas no capítulo seguinte declara que os aposentados são vagabundos e aprova um plano de previdência que prejudica os trabalhadores; diz defender os pobres para depois salvar bancos privados da falência, despendendo cifras milionárias e cobra mais impostos dos cidadãos. Ele esquece nossas “tradições” e vende nosso petróleo, nossa energia, nossas telecomunicações para os civilizados europeus e norte-americanos. Os gigantes Piaimãs ACM, Tio Sam, FMI querem devorar nosso herói que, para se salvar (entenda-se: salvar a si próprio, não a nação) se transforma em Superman ou Tio Patinhas usando sua “mágica”. A Uiara Globalização seduziu nosso herói por completo, sem a hesitação de Macunaíma.
Percebemos que há várias semelhanças entre as aventuras macunaímas e as aventuras de FHC. Talvez Mário de Andrade, Spengler e Keyserling tenham razão e a depender do novo herói, nosso quadro confirmará as teorias aqui comentadas, reiterando o que Sérgio Buarque de Holanda declarou em seu Raízes do Brasil: “somos uns desterrados em nossa terra”.

BIBLIOGRAFIA

ANDRADE, Mário de. Entrevistas e Depoimentos. Edição organizada por Telê Porto Ancona Lopez. São Paulo: T. A. Queiroz, 1983.

__________. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter – Edição crítica de Telê Porto Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978.

__________. O Turista Aprendiz. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983.

BERRIEL, Carlos Eduardo (org.). Mário de Andrade hoje. São Paulo: Ensaio, 1990.

________. Dimensões de Macunaíma: Filosofia, Gênero e Época. Tese de Mestrado, UNICAMP, 1987.

GARDINER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995.

HERMAN, Arthur. A idéia de decadência na história ocidental. Rio de Janeiro: Editora Record, 1999. Cap.7

HOLANDA, Sérgio Buarque de. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1971.

LOPEZ, Telê Porto Ancona. Macunaíma: a margem e o texto. São Paulo: Hucitec, Secretaria de Cultura, Esportes e Turismo, 1974.

sexta-feira, 26 de março de 2010

OS DEFEITOS DE MACUNAIMA


OS DEFEITOS DE MACUNAIMA

Publicado na Folha da Manhã, terça-feira, 4 de maio de 1937
Neste texto foi mantida a grafia original


Rubem Braga

"Macunaima", appareceu em 2ª edição, o que aliás não quer dizer que esteja ganhando publico. Mario de Andrade continua sendo um literario muito pouco lido, apesar de seu valor. E a culpa é delle. Mario pegou um geito de escrever que seria popular si não fosse precioso. Elle faz parte de um pequeno clube fechado de gastronomos que ha em São Paulo. E faz gastronomia na linguagem tambem —o paladar do povo é simples. Si Mario de Andrade fosse preparar um vatapá, elle faria um vatapá tão bem feito, tão em regra, tão profundamente bahiano, seguindo tantas recommendações de regras especialistas, que nenhum bahiano gostaria do vatapá delle. Foi para a extrema esquerda da língua. Reagindo contra a aristocracia do phraseado solenne e a hierarchia difficil dos pronomes, elle cahiu no populismo mais difficil e precioso. Em "Macunaima" isso se explica, isso faz parte do livro. A linguagem, ahi, está combinando com a acção, com o espirito do livro. Está direito. Apesar disso eu estimaria que alguem fizesse um livro com todo esse material precioso de "Macunaima", todo esse mundo de lendas e de falas brasileiras, de um geito que fosse accessivel ao leitor commum. Um livro onde um brasileiro se embrasileirasse mais, se reconhecesse e se apprendesse. Pelo facto de ser um livro differente dos outros, muitos exageram o valor de "Macunaima". Impressionados pela montanha de suggestões e de "achados" do livro, começam a dizer que elle será uma obra classica. Esquecem que na verdade é um bloco de onde poderia sahir um verdadeiro livro, é uma façanha, uma proeza grande e bonita de inteligencia, e nada mais. Eu digo "e nada mais" porque isso para um sujeito com as possibilidades de Mario de Andrade, é mesmo muito pouco. Para usar a linguagem do seu heróe elle "experimentou força". Prova que tinha muita. E quasi que ficou nisso. Mas deixemos o autor e vamos ao heróe, que não tem nenhum caracter. Na verdade tem algum. Tem, por exemplo, uma sympathia continua. É medroso, preguiçoso, mentiroso e sem vergonha, mas não é mau sujeito. O que elle quer é gosar, como aquelle macado da anedota. Eu gostaria que elle fosse um pouco mais consistente, pois em certos pedaços do livro sinto que o heróe anda no vacuo. Mas depois reage porque já ganhou uma figura propria, já tem o seu caracter e se impõe ao autor. O que prejudica uma certa continuidade do heróe é ter o autor mettido no livro, que deve ter sido feito às pressas, umas coisas que são interessantes em si, mas que ficam deslocadas. O heróe tem de viver essas coisas, e vive a contragosto. Sente-se que elle "não está em casa". Ha, na realidade, material que poderia ser jogado fóra com proveito, porque destôa do resto. Sente-se a pressa do trabalho. O autor, em certos momentos, foi impressionado pelos processos de acção do heróe, esquecendo, que, quanto mais absurdos forem os personagens e mais louca fôr a acção, mais prudente o logico deve se manter o autor encarregado de contar aquella desordem. Acho que o proprio Mario deve sentir hoje esses defeitos de "Macunaima" que, por outro lado, elle não póde corrigir, porque não ha nada que seja um facto mais consummado que um livro que a gente já escreveu.

Folha de São Paulo

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

MACUNAÍMA: UM ESBOÇO DO BRASIL


MACUNAÍMA: UM ESBOÇO DO BRASIL

Ricardo Gaiotto de Moraes

Apresentação


Este estudo busca resgatar as Teorias Históricas que foram base para a obra Macunaíma, de Mário de Andrade. Procurei apontar relações entre os pensamentos filosóficos de Herder, Oswald Splenger e Hermann Keyserling e a obra de Mário de Andrade. É importante ressaltar que o embasamento do pensamento de Mário de Andrade não limita-se a esses três pensadores, porém trabalharemos, principalmente, com essas influências.

Vale ressaltar, no entanto, que Mário de Andrade não se aproveita dessas teorias de forma intrínseca, porém utiliza-se de certos pensamentos, que o ajudarão a transpor essas teorias à realidade brasileira e além disso, permitirão ao escritor montar uma teoria de cultura brasileira.
Cultura e Tradição



I. Macunaíma

II. Maioridade

III. Ci, Mãe do Mato

IV. Boiúna Luna




As relações da obra, Macunaíma, com Teorias Históricas apresentam-se já no primeiro parágrafo do primeiro capítulo:

“No fundo do Mato-Virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamaram de Macunaíma.

Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitavam a falar exclamava:

- Ai! que preguiça!...” [1]

Macunaíma, “herói de nossa gente”, nasce no Mato-Virgem, ou seja, ligado a uma paisagem. Não tem pai, a não ser que consideremos como pai elementos do próprio ambiente geográfico. Nesta passagem, podemos perceber o nascimento de um mito, que tem em si características - ser sapeca e a preguiça – próprias de um ambiente.

Se compararmos essa passagem a outra de Spengler, perceberemos que o nascimento de Macunaíma nos mostra o nascimento de uma cultura : “Uma cultura nasce no momento em que uma grande alma despertar do seu estado primitivo e se surpreender do eterno infantilismo humano; quando uma forma surgir em meio ao informe; quando algo limitado, transitório, originar-se no ilimitado, contínuo. Floresce então no solo de uma paisagem perfeitamente restrita, ao qual se apega, qual planta.”[2]

Após o nascimento de Macunaíma, Mário de Andrade narra episódios, nos quais o herói está numa relação direta com a natureza, ou seja, com a cultura brasileira. Mário faz uma fusão de diversas lendas de diversas regiões do Brasil, mostrando que o Brasil pode ser considerado uma nação. Adiante voltarei a este tema.

É introduzida no livro uma personagem de importância vital. Trata-se de Vei, a Sol, a qual é um elemento determinante nas culturas tropicais. A partir daí, sempre quando é mencionada, introduzirá uma mudança de rumo no romance. Para Herder: “Tal como a água de uma nascente recebe do solo donde brota a sua composição, as suas qualidades atuantes e o seu sabor, assim o antigo caráter dos povos proveio de traços raciais, do clima, do tipo de vida e da educação, das ocupações primitivas e das ações peculiares a cada um desses povos.”[3] Percebemos, então, que Mário de Andrade, busca mostrar seu herói como alguém ligado à cultura brasileira.

A consolidação da relação entre o herói e o meio, afirma-se no episódio em que Macunaíma conhece Ci, mãe do mato:

“Já Vei estava farta de tanto guascar o lombo dos três manos quando légua e meia adiante Macunaíma escoteiro topou com uma cunhã dormindo. Era Ci, Mãe do Mato. Logo viu pelo peito destro seco dela, que a moça fazia parte dessa tribo de mulheres sozinhas parando lá nas praias da lagoa Espelho da Lua, coada pelo Nhamundá. A cunhã era linda com o corpo chupado pelos vícios, colorido com jenipapo.

O herói se atirou por cima dela pra brincar. Ci não queria. Fez lança de flecha tridente enquanto Macunaíma puxava da pajeú. Foi um pega tremendo e por debaixo da copada reboavam os berros dos briguentos diminuindo de medo os corpos dos passarinhos. O herói apanhava. Recebera já um murro de fazer sangue no nariz e um lapo fundo de txara no rabo. A icamiaba não tinha nem um arranhãozinho e cada gesto que fazia era mais sangue no corpo do herói soltando berros formidandos que diminuíam de medo os corpos dos passarinhos. Afinal se vendo nas amarelas porque não podia mesmo com a icamiaba, o herói deitou fugindo chamando pelos manos:

- Me acudam que sinão eu mato! me acudam que sinão eu mato!

Os manos vieram e agarraram Ci. Maanape trançou os braços dela por detrás enquanto Jiguê com a murucu lhe dava uma porrada no coco. E a icamiaba caiu sem auxílio nas samambaias da serrapilheira. Quando ficou bem imóvel, Macunaíma se aproximou e brincou com a Mãe do Mato. Vieram muitas jandaias, muitas araras vermelhas tuins coricas periquitos, muitos papagaios saudar Macunaíma, o novo imperador do Mato-Virgem.”[4]

Neste momento, Macunaíma encontra e “brinca” com Ci, Mãe do Mato. O herói, por isso torna-se imperador do Mato-Virgem. Apodera-se totalmente da cultura e tradição, já que domina a própria mãe do mato. O séquito de pássaros que surge para saudar o herói, é uma manifestação da própria natureza, que agora está a favor de seu mais novo imperador.

“Nem bem seis meses passaram e a Mãe do Mato pariu um filho encarnado. (...) O pecurrucho tinha cabeça chata e Macunaíma inda a achatava mais batendo nela todos os dias e falando pro guri:

- Meu filho, cresce depressa pra você ir pra São Paulo ganhar muito dinheiro.”

“... Mas uma feita jacurutu pousou na maloca do Imperador e soltou o regougo agourento. Macunaíma tremeu assustado espantou os mosquitos e caiu no pajuari por demais pra ver si espantava o medo também. Bebeu e dormiu noite inteira. Então chegou a Cobra Preta e tanto que chupou o único peito vivo de Ci que não deixou nem o apojo. E como Jiguê não conseguira moçar nenhuma das icamiabas o curumim sem ama chupou o peito da mãe no outro dia, chupou mais, deu um suspiro envenenado e morreu.

Botaram o anjinho numa igaçaba esculpida com forma de jaboti e pros boitatás não comerem os olhos do morto o enterraram mesmo no centro da taba com muitos cantos muita dança e muito pajuari.

Terminada a função a companheira de Macunaíma toda enfeitada ainda, tirou do colar uma muiraquitã[5] famosa, deu-a pro companheiro e subiu pro céu por um cipó. É lá que Ci vive agora nos trinques passeando, liberta das formigas, toda enfeitada ainda, toda enfeitada de luz, virada numa estrela. É a Beta do Centauro.

No outro dia quando Macunaíma foi visitar o túmulo do filho viu que nascera do corpo uma plantinha. Trataram dela com muito cuidado e foi o guaraná. Com as frutinhas piladas dessa planta é que a gente cura muita doença e se refresca durante os calorões de Vei, a Sol.”[6]

Esta passagem é uma das principais, já que nos revela vários elementos do livro:

1) Pode revelar-nos uma filiação de Macunaíma à obra Iracema, de José de Alencar, autor romântico, que buscou em suas obras, mesmo que de forma artificial, resgatar o passado indígena brasileiro.[7]

A obra Iracema é, em linhas muito gerais, a lenda da formação do povo cearense. Assim, quando identificamos o filho de Macunaíma e Ci, que “tinha cabeça chata”, como um cearense, de acordo com ditos populares, parece-nos que este filho é a esperança de um povo brasileiro possuidor de sua própria cultura. O filho de Macunaíma, que nesta visão, já fora o filho de Iracema, morre, mas deixa em seu lugar a muiraquitã – um presente de Ci, ou seja da própria natureza (tradição), ou seja a esperança de um Brasil com uma tradição e cultura próprias.

Note-se, que após a morte, o filho de Macunaíma e Ci transforma-se em uma plantinha, o guaraná. É como se o filho, já presente em Iracema, fosse uma esperança que não possibilitou a formação de uma cultura brasileira, mas que abriu caminho e ajudou, como o guaraná, a refrescar o projeto de Mário de Andrade em consolidar a idéia de uma cultura verdadeiramente brasileira.

2) Na passagem mencionada do livro, aparece pela primeira vez a muiraquitã. É o presente que Ci dá a Macunaíma antes de ir para o céu. A muiraquitã representa a esperança do povo brasileiro, como já foi dito acima. É a detentora do projeto de independência brasileiro, pois é o símbolo do enraizamento de uma raça no meio geográfico, o que dá início a uma cultura singular. Note-se, além disso, que Ci sobe ao céu, onde vira uma estrela, a Beta de Centauro. O “campo vasto do céu” representa a tradição dos povos indígenas, é lá que estão os fundadores da cultura, ou seja, aqueles que serviram como totem a tradição.

No capítulo IV, Boiúna Luna, Macunaíma, após uma fuga, perde a muiraquitã.

“(...) Então Macunaíma pôs reparo que perderá o tembetá. Ficou desesperado porque era a única lembrança que guardava de Ci.

(...)

Uma feita em que deitara numa sombra enquanto esperava os manos pescando, o Negrinho do Pastoreio pra quem Macunaíma rezava diariamente, se apiedou do panema e resolveu ajudá-lo. Mandou o passarinho uirapuru. Quando sinão quando o herói escutou um tatalar inquieto e o passarinho uirapuru pousou no joelho dele. Macunaíma fez um gesto de caceteação e enxotou o passarinho uirapuru. Nem bem minuto passado escutou de novo o bulha e o passarinho pousou na barriga dele. Macunaíma nem se amolou mais. Então o passarinho uirapuru agarrou cantando com doçura e o herói entendeu tudo o que ele cantava. E era que Macunaíma estava desinfeliz porque perdera a muiraquitã na praia do rio quando subia no bacupari. Porém agora, cantava o lamento do uirapuru, nunca mais que Macunaíma havia de ser marupiara não, porque uma tracajá engolira a muiraquitã e o mariscador que apanhara a tartaruga tinha vendido a pedra verde pra um regatão peruano se chamando Venceslau Pietro Pietra. O dono do talismã enriquecera e parava fazendeiro e baludo lá em São Paulo, a cidade macota lambida pelo igarapé Tietê.(...)

Então Macunaíma contou o paradeiro da muiraquitã e disse pros manos que estava disposto a ir em São Paulo procurar esse tal Venceslau Pietro Pietra e retomar o tembetá roubado.”[8]

Identificamos, neste momento, as duas personagens aparentemente antagônicas geradoras de conflito no romance: Macunaíma, que tentará recuperar a muiraquitã e Venceslau Pietro Pietra, que tentará manter-se dono da muiraquitã, para garantir sua prosperidade. Este é um dos pontos principais do romance, será que as forças em oposição são realmente Macunaíma e Venceslau Pietro Pietra, ou será que eles representam forças maiores? A esta pergunta responderei mais tarde.

Macunaíma irá para a cidade de São Paulo, ou seja, para a civilização de base européia. No próximo capítulo o ambiente, portanto, passa a ser urbano. Voltando a um ponto mencionado no início deste texto, Mário de Andrade conseguiu até aqui montar uma obra com elementos da cultura brasileira. Esta é uma confirmação de que o Brasil possui realmente uma tradição própria, é portanto uma Nação, ou seja possui uma raça que mantém laços comuns, como o folclore (tradição) e o idioma, que é a máxima prova de um laço social, já que a relação entre significante e significado, somente tem sentido a partir de um “contrato” social que faz parte do arcabouço mental do povo de uma determinada cultura.

Como, segundo Mário de Andrade, o Brasil é uma verdadeira Nação, então precisa de um projeto de desenvolvimento próprio, advindo de uma classe genuinamente brasileira, ou seja, da oligarquia do café, classe tradicional. É importante notar que a muiraquitã - o amuleto, o qual representa para Macunaíma a lembrança de Ci, ou seja, do seu Império, a floresta, ou em outras palavras a tradição – foi roubada por um estrangeiro. Isso pode ser entendido, como a esperança de um desenvolvimento próprio do Brasil ir-se nas mãos do estrangeiro, Venceslau Pietro Pietra. Para continuarmos esta reflexão é necessário avançarmos mais um pouco.

Civilização e Máquina

V. Piaimã

VI. A Francesa e o Gigante

VII. Macumba

VIII. Vei, a Sol

IX. Carta pras Icamiabas

X. Pauí - Podóle

XI. A Velha Ceiuci

XII. Tequeteque, Chupinzão e a Injustiça dos Homens

XIII. A Piolhenta do Jiguê

XIV. Muiraquitã



Continuando a leitura de Macunaíma, no capítulo V, teremos:

“No outro dia Macunaíma pulou cedo na ubá e deu uma chegada até a foz do rio Negro pra deixar a consciência na ilha de Marapatá. Deixou-a bem na ponta dum mandacaru de dez metros, pra não ser comida pelas saúvas. Voltou pro lugar onde os manos esperavam e no pino do dia os três rumaram pra margem esquerda da Sol.

(...) E (Macunaíma) ficou lindo trepando pelo Araguaia aquele poder de igaras, duma em uma duzentas em ajojo que nem flecha na pele do rio. Na frente Macunaíma vinha de pé, carrancudo, procurando no longe a cidade. Matutava matutava roendo os dedos agora cobertos de berrugas de tanto apontarem Ci estrela.”[9]

Macunaíma, a caminho para a cidade, deixa sua consciência na ilha de Marapatá, podemos inferir, daí que o herói dirige-se a um lugar onde sua consciência ligada à cultura indígena – rural – de nada lhe servirá na cidade – civilização.

É importante notar a imponência com que o herói, imperador do Mato-Virgem, parte para São Paulo, afim de reconquistar a muiraquitã roubada: “ficou lindo trepando pelo Araguaia aquele poder de igaras...”

“(...) Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que nem a marca dum pé gigante. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho.

(...) Quando o herói saiu do banho estava branco louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.

Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja de negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. (...)

Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa.”[10]

Estão presentes neste trecho, as três raças formadoras do povo brasileiro, ou seja, o português, o índio e o negro. Estas três raças juntas é que formaram a cultura brasileira, na visão de Mário de Andrade. Note-se aqui, que o autor baseia-se em Keyserling, já que para este: “Se desenvolve uma nova cultura quando da mescla se origina o equivalente a uma nova raça definida.”[11]

Podemos neste instante voltar ao roubo da muiraquitã. Um estrangeiro, não pertencente a uma das raças formadoras do povo brasileiro é quem rouba a muiraquitã, Mário de Andrade, aqui segue mais uma vez Keyserling, pois este depois de comparar a formação de uma nova cultura ao “cruzamento de unidades vitais pré-existentes”, aponta: “Quando os caracteres dos pais são originariamente incompatíveis, formam-se, como no cruzamento de raças díspares, produtos sem caráter que, segundo as circunstâncias, podem ser acolhidas sob a denominação de barbárie, alexandrinismo, ecletismo, sincretismo ou pura civilização de seres que continuam sendo selvagens.”[12]

Tomando como base a situação sócio-econômica brasileira na época em que foi escrito Macunaíma, percebermos que havia uma grande tensão entre a oligarquia cafeicultora nacional tradicional e a nova burguesia industrial urbana formada, em sua maioria, por estrangeiros, mais especificamente italianos. A muiraquitã roubada significa, então o roubo do desenvolvimento independente do Brasil pelo elemento estrangeiro, o qual por não fazer parte da raça formadora do povo brasileiro, ajudou a transformar o Brasil numa “civilização de seres que continuam sendo selvagens”, ou seja, de seres que ainda não tomaram consciência de sua existência como indivíduos próprios de uma cultura e que estão propensos, a até mesmo, negar sua tradição.

Conciliando esta visão com a de Oswald Spengler – ou seja, a visão de que “As culturas são organismos”[13] e que portanto, “cada cultura tem suas possibilidades de expressão, que surgem, amadurecem, decaem e não voltam a repetir-se”[14] – percebemos que o roubo da muiraquitã, em outras palavras, a dominação estrangeira na industrialização dos centro urbanos, representaria um empecilho ao desenvolvimento próprio do Brasil, comprometendo um amadurecimento e conseqüente apogeu da cultura brasileira . Além disso, o Brasil receberia, assim, a decadência de uma civilização estrangeira e de uma raça que não pertence às raças formadoras da cultura nacional.

“E foi numa boca-da-noite fria que os manos toparam com a cidade macota de São Paulo esparramada a beira-rio do igarapé Tietê. Primeiro foi a gritaria da papagaiada imperial se despedindo do herói. E lá se foi o bando sarapintado volvendo pros matos do norte.”[15]

O séquito de pássaros silvestres, herança de Ci, que acompanhava Macunaíma, volta para a floresta. O séquito não protegerá o herói na cidade.

Após brincar com algumas cunhãs, filhinhas da mandioca:

“A inteligência do herói estava muito perturbada. Acordou com os berros da bicharia lá em baixo nas ruas, disparando entre as malocas temíveis. E aquele diacho de sagüi-açu que o carregara pro alto do tapiri tamanho em que dormira... Que mundo de bichos! Que despropósito de papões roncando, mauaris juruparis sacis e boitatás nos atalhos nas socavas nas cordas dos morros furados por grotões donde gentana saía muito branquinha branquíssima, de certo a filharada da mandioca!... A inteligência do herói estava muito perturbada. As cunhãs rindo tinham ensinado pra ele que o sagüi-açu não era sagüim não, chamava elevador e era uma máquina. De-manhãzinha ensinaram que todos aqueles piados berros cuquiadas sopros roncos esturros não eram nada disso não. Eram mas cláxons campainhas apitos buzinas e tudo era máquina.(...) Tupã famanado que os filhos da mandioca chamavam de Máquina, mais cantadeira que a Mãe-d’água, em bulhas de sarapantar.

Então resolveu ir brincar com a Máquina pra ser também imperador dos filhos da mandioca. Mas as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela mata. A máquina não era deus não, nem possuía os distintivos femininos de que o herói gostava tanto. Era feita pelos homens. Se mexia com eletricidade com fogo com água com vento com fumo, os homens aproveitando as forças da natureza. Porém jacaré acreditou? Nem o herói! Se levantou na cama e com um gesto, esse sim! Bem guaçu de desdém, tó! Batendo o antebraço esquerdo dentro do outro dobrado, mexeu com energia a munheca direita pras três cunhãs e partiu. Nesse instante, falam, ele inventou o gesto famanado de ofensa: a pacova.(...)[16]

Macunaíma recém chegado à cidade, encara com estranheza todas as inovações tecnológicas presentes. O herói põe nomes de animais nas “máquinas”, já que seu conhecimento de mundo rural não engloba tantas inovações tecnológicas. A vida nas metrópoles, cercada de máquinas, é algo muito diferente da vida no campo, ou seja, na cultura. Na metrópole, o homem perde suas raízes culturais. Para Spengler: “também a cidade é um ser vegetal, e como toda evolução de uma linguagem de formas superiores, está sempre ligada à paisagem. Somente a Civilização com as suas metrópoles imensas menospreza tais raízes da alma e acaba desprendendo-se delas.”[17]Se voltarmos ao texto de Macunaíma, perceberemos que ele, ainda influenciado pela cultura, neste momento ainda mantém suas raízes, porém, logo as perderá.

Macunaíma resolve ir brincar com a máquina, afinal para se tornar “imperador do mato virgem” também brincara com Ci, se brincasse com a máquina, tornaria-se imperador da metrópole também. Porém, ficou sabendo que não podia brincar com a máquina “porque ela mata”. Percebemos no texto, a incredulidade das cunhãs da cidade em relação aos deuses pertencentes à cultura: “as três cunhãs deram muitas risadas e falaram que isso de deuses era gorda mentira antiga, que não tinha deus não e que com a máquina ninguém não brinca porque ela mata”. Para Spengler: “a alma de todas as culturas vivas é religiosa, tem religião, dê-se isso conta ou não. Mas o homem das metrópoles é irreligioso. Toda religiosidade urbana é uma ilusão”[18]. É este sentimento de incredulidade às crenças antigas que está retratado no trecho retirado de Macunaíma.

Voltando ao livro:

“Macunaíma passou então uma semana sem comer nem brincar só maquinando nas brigas sem vitória dos filhos da mandioca com a Máquina. A Máquina era que matava os homens porém os homens é que mandavam na Máquina... Constatou pasmo que os filhos da mandioca eram donos sem mistério e sem força da máquina sem mistério sem querer sem fastio, incapaz de explicar as infelicidades por si. Estava nostálgico assim. Até que uma noite, suspenso no terraço dum arranhacéu com os manos, Macunaíma concluiu:

- Os filhos da mandioca não ganham da máquina nem ela ganha deles nesta luta. Há empate.

(...) De toda essa embrulhada o pensamento dele sacou bem clarinha uma lua: Os homens é que eram máquinas e as máquinas é que eram homens.”[19]

Macunaíma chega às conclusões acima, pois percebe que o homem, criador da máquina, é ao mesmo tempo submisso a ela. Na metrópole tudo é feito para satisfazer as necessidades da indústria. Segundo Spengler, o “mundo econômico da indústria mecanizada” requer “obediência do industrialista tanto como do operário de fábrica. Ambos são escravos e não donos da máquina, que só agora demonstra o seu secreto e diabólico poder”[20]. Por isso para Macunaíma: “Os homens é que eram máquinas”, isto é, os escravos e “as máquinas é que eram homens”, ou seja, os patrões.

Macunaíma, exposto ao cenário civilizado, vai aos poucos sofrendo uma descaracterização de sua cultura rural. A vida na metrópole vai, aos poucos, denegrindo as raízes da personagem. Se continuarmos a leitura do texto, poderemos perceber elementos que denunciam essa perda de identidade. Esta visão Spengleriana de que a metrópole destruía as raízes do povo rural era muito propícia ao presente de Mário de Andrade. Pois a aceleração da industrialização, assim como a urbanização, foram trazidas pela atividade dos italianos instalados na capital paulista.

Perceberemos, com a leitura de alguns trechos abaixo, que até mesmo os elementos da tradição brasileira vão deixando de apoiar o imperador do Mato-Virgem, este aos poucos vai perdendo o seu trono.

“Caiu dormindo embaixo duma palmeira guairô muito aromada onde um urubu estava encarapitado.

Ora o pássaro careceu de fazer necessidade, fez e o herói ficou escorrendo sujeira de urubu. (...)

Então passou Cuianogue, a estrela-da-manhã. Macunaíma já meio enjoado de tanto viver pediu pra ela que o carregasse pro céu. Caiuanogue foi se chegando porém o herói fedia muito.

- Vá tomar banho! Ela fez. E foi-se embora.

Assim nasceu a expressão “Vá tomar banho!” que os brasileiros empregam se referindo a certos imigrantes europeus.

Vinha passando Capei, a Lua. Macunaíma gritou pra ela:

- Sua benção, dindinha Lua!

- Uhum... que ela secundou.

Então ele pediu pra Lua que o carregasse pra ilha de Marajó. Capei veio chegando porém Macunaíma estava mesmo fedendo por demais.

- Vá tomar banho! Ela fez. E foi-se embora.

E a expressão se fixou definitivamente.

Macunaíma gritou pra Capei que pelo menos desse um foguinho pra ele aquecer.

- Peça no vizinho! Ela fez apontando pra Sol que já vinha lá no longe remando pelo paraná guaçu. E foi-se embora.”[21]

Podemos inferir, que a Estrela-da-Manhã e Capei, a Lua, representantes da tradição brasileira, não favorecem nem reconhecem mais Macunaíma pois o herói já está descaracterizado de suas raízes devido a convivência na metrópole.

Prosseguindo no mesmo capítulo, teremos um representativo episódio.

“E Vei era a Sol. Foi muito bom pra Macunaíma porque lá em casa ele sempre dera presentinhos de bolo-de-aipim pra Sol lamber secando.

Vei tomou Macunaíma na jangada que tinha uma vela cor-de-ferrugem pintada com muruci e fez as três filhas limparem o herói, caçarem os carrapatos e examinarem si as unhas dele estavam limpas. E Macunaíma ficou alinhado outra vez. (...)

Vei queria que Macunaíma ficasse genro dela porque afinal das contas ele era um herói e tinha dado tanto bolo-de-aipim pra ela chupar secando, falou:

- Meu genro: você carece de casar com uma das minhas filhas. O dote que dou pra ti é Oropa França e Bahia. Mas porém você tem de ser fiel e não andar assim brincando com as outras cunhãs por aí.

Macunaíma agradeceu e prometeu que sim jurando pela memória da mãe dele.(...)”[22]

Vei, a Sol queria fazer Macunaíma casar com uma de suas filhas, ou seja, uma das grandes civilizações tropicais, “China, Índia, Peru, México, Egito, filhas do calor.”[23] Por esse casamento ela daria a Macunaíma “Oropa França e Bahia”. O herói, enquanto representante do povo brasileiro, tinha a possibilidade de se tornar genro da Sol. Isso significa que o Brasil aliando-se a uma cultura tropical poderia dominar o mundo. Poderíamos ter a partir daí uma cultura de caráter próprio, como revelam as teorias de Keyserling. Mas,

“Nem bem Vei com as três entram no cerradão que Macunaíma ficou cheio de vontade de ir brincar com uma cunhã. Acendeu um cigarro e a vontade foi subindo. Lá por de debaixo das árvores passavam muitas cunhãs cunhé cunhé se mexemexendo com talento e formosura.

- Pois que fogo devore tudo! Macunaíma exclamou. Não sou froxo agora pra mulher me fazer mal!

- POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!”[24]

Note-se aqui, que Macunaíma, brasileiro formado pela mescla de três raças tristes e por isso dominado por “dois sentimentos tirânicos: sensualismo e paixão do ouro”[25], não tem nenhum caráter, quebra sua promessa e sai a procura de uma cunhã pra brincar. Segundo Mário de Andrade, Macunaíma assim como o brasileiro: “Está que nem o rapaz de vinte anos: a gente mais ou menos pode perceber tendências gerais, mas, ainda não é tempo de afirmar coisa nenhuma.”[26]

A falta de caráter de Macunaíma pode também ser percebida quando analisamos a frase: “POUCA SAÚDE E MUITA SAÚVA, OS MALES DO BRASIL SÃO!”. Macunaíma assume que os males do Brasil são causados por fatores externos e esquece-se que ele próprio está, ao não preservar sua cultura, sendo causa da decadência do Brasil.

“(Macunaíma) Pulou da jangada no sufragante, foi fazer continência diante da imagem de Santo Antônio que era capitão de regimento e depois deu em cima de todas as cunhãs por aí. Logo topou com uma que fora varinha lá na terrinha do compadre chegadinho-chegadinho e ainda cheirava nomais! Um farum bem de peixe. Macunaíma piscou pra ela e os dois vieram na jangada brincar. Fizeram. Bastante eles brincaram. Agora estão se rindo um pro outro.”[27]

Macunaíma, ou seja, o Brasil, prefere se unir as culturas européias, as quais já estão em decadência. Macunaíma brinca com uma portuguesa, porque, de tão descaracterizado só se sente interessado pelas filhinhas da mandioca, desprezando a aliança com as culturas tropicais.

“Quando Vei com suas três filhas chegaram do dia e era a boca-da-noite as moças que vinham na frente encontraram Macunaíma e a portuguesa brincando mais. Então as três filhas de luz se zangaram (...)

Então a Sol se queimou e ralhou assim:

- Ara ara, ara, meus cuidados! Pois não falei pra você não dar em cima de nenhuma cunhã não!... Falei sim! E inda por cima você brinca com ela na jangada minha e agora estão se rindo um pro outro!

- Estava muito tristinho! Macunaíma repetiu.

- Pois si você tivesse me obedecido casava com uma das minhas filhas e havia de ser sempre moço e bonitão. Agora você fica pouco tempo moço talqualmente os outros homens e depois vai ficando mocetudo e sem graça nenhuma.

Macunaíma sentiu vontade de chorar. Suspirou:

- Si eu subesse...

- O “si eu subesse” é santo que nunca não valeu pra ninguém, meus cuidados! Você o que é mas é muito safadinho, isso sim! Não te dou mais nenhuma das minhas filhas não!

Daí Macunaíma pisou nos calos também:

- Pois nem eu queria nenhuma das três, sabe! Três, diabo fez!”[28]

Depois da traição de Macunaíma, Vei, a Sol, desiste definitivamente de protegê-lo e de dar uma de suas filhas para ele se casar. Por causa da traição o herói irá ficar “pouco tempo moço talqualmente os outros homens e depois vai ficando mocetudo e sem graça nenhuma.” O Brasil, portanto, Spenglerianamente, formado por três raças tristes, “Estava muito tristinho”, devido a sua aliança com civilizações européias já em estado de decadência e irá ter um desenvolvimento de cultura tolhido pela decadência da civilização européia.

“Quando foi ali pela hora antes da madrugada, veio a Sol com as moças pra darem o passeio na baía e encontraram Macunaíma com a portuguesa inda pegados no sono. Vei acordou os dois e fez presente da pedra Vató pra Macunaíma. E a pedra Vató dá fogo quando a gente quer. E lá se foi a Sol com as três filhas da luz. (...)

No outro dia Macunaíma não achou mais graça na capital da República. Trocou a pedra Vató por um retrato no jornal e voltou pra taba do igarapé Tietê.”[29]

Perceba-se que Macunaíma não guarda nem o presente da Sol, prefere trocá-lo por algo civilizado, ou seja, a aparição de sua foto no jornal. Algo extremamente urbano.

O herói, na cidade, tenta resgatar a muiraquitã, de várias formas, em corridas desesperada atrás de Venceslau Pietro Pietra, que agora se descobre, é o gigante Piaimã, comedor de gente. Os meios utilizados pelo herói para conseguir realizar sua tarefa são vários: veste-se de mulher, vai a uma macumba... Até que um dia...

“Então Piaimã fez pra ele (Macunaíma) como fizera pro chofer, carregou o herói nas costas de cabeça pra baixo prendido os pés nos buracos das orelhas. Macunaíma aprumou a sarabatana e assim de cabeça pra baixo era ver um atirador malabarista de circo, acertando nos ovinos do alvo. O gigante ficou muito incomodado virou e percebeu tudo.

- Faz isso não, Patrício!

Tomou a sarabatana e jogou longe. Macunaíma agarrava quanto ramo caía na mão dele.

- Que você está fazendo? Perguntou o gigante ressabiado.

- Não vê que os ramos estão batendo na minha cara!

Piaimã virou o herói de cabeça para cima. Então Macunaíma fez cócegas com os ramos nas orelhas do gigante. Piaimã dava grandes gargalhadas e pulava de gozo.

- Não amola mais, patrício! Ele fez.

Chegaram no hol. Por debaixo da escada tinha uma gaiola de ouro com passarinhos cantadores. E os passarinhos do gigante eram cobras e lagartos. Macunaíma pulou na gaiola e principiou muito disfarçado comendo cobra. Piaimã convidava-o pra vir no balanço porém Macunaíma engolia cobras contando:

- Falta cinco...

E engolia mais outra bicha. Afinal as cobras se acabaram e o herói cheio de raiva desceu da gaiola com o pé direito. Olhou cheio de raiva pro gatuno da muiraquitã e rosnou:

- Hhhn... que preguiça!

Mas Piaimã insistia pro herói balangar.

- Eu até que nem não sei balançar... Milhor você vai primeiro, que Macunaíma rosnou.

- Que eu nada, herói! É fácil que-nem beber água! Assuba na japecanga, pronto: eu balanço!

- Então aceito porém você vai primeiro gigante.

Piaimã insistiu mas ele sempre falando pro gigante balançar primeiro. Então Venceslau Pietro Pietra amontou no cipó e Macunaíma foi balançando cada vez mais forte. Cantava:



Bão-ba-lão

Senhor capitão,

Espada na cinta

Ginete na mão!



Deu um arranco. Os espinhos ferraram na carne do gigante e o sangue espirrou. A caapora lá em baixo não sabia que aquela sangueira era do gigante dela e aparava a chuva na macarronada. Molho engrossando.

- Pára! Pára! Piaimã gritava.

- Balança que vos digo! Secundava Macunaíma.

Balançou até o gigante ficar bem tonto e então deu um arranco fortíssimo na japecanga. Era porque tinha comido cobra e estava furibundo. Venceslau Pietro Pietra caiu no buraco berrando cantando:

- Lem lem lem... si desta escapar, nunca mais como ninguém!

Enxergava a macarronada fumegando lá embaixo e berrou pra ela:

- Afasta que vos engulo!

Porém jacaré fastou? Nem tacho! O gigante caiu na macarronada fervendo e subiu no ar um cheiro tão forte de couro cozido que matou todos os ticoticos da cidade e o herói teve uma sapituca. Piaimã se debateu muito e já estava morre-não-morre. Num esforço gigantesco inda se ergueu no fundo do tacho. Afastou os macarrões que corriam na cara dele, revirou os olhos pro alto, lambeu a bigodeira:

- Falta queijo! Exclamou...

E faleceu.

Este foi o fim de Venceslau Pietro Pietra que era o gigante Piaimã comedor de gente.

Macunaíma quando voltou da sapituca foi buscar a muiraquitã e partiu na máquina bonde pra pensão. E chorava gemendo assim:

- Muiraquitã, muiraquitã de minha bela, vejo você mas não vejo ela!...”[30]

Macunaíma, numa luta, mostra sua sagacidade, mata o gigante Piaimã, comedor de gente e retoma a muiraquitã. Se a tensão principal do Romance fosse a perseguição de Macunaíma ao gigante, teríamos, neste momento, o desfecho do livro. Porém o livro avança, indicando que a verdadeira tensão é o conflito entre a Natureza (tradição) e Civilização (cidade).

O herói retoma a muiraquitã, a esperança de um Brasil com um desenvolvimento próprio, porém a cidade tanto o descaracterizou, que agora ele não conta mais nem com a ajuda de Vei, a Sol, ou seja, não é mais “Imperador do Mato Virgem”.


Rumo ao Campo Vasto do Céu.



XV. A Pacuera do Oibê

XVI. Uraricoera

XVII. Ursa Maior



“Então os três manos voltaram pra querência deles.(...)

(...)

- Pouca saúde e muita saúva, os males do Brasil são...

(...)

Depois de muito refletir, Macunaíma gastara o arame derradeiro comprando o que mais o entusiasmara na civilização paulista. Estavam ali com ele o revólver Smith-Wesson o relógio Patek e o casal de galinha Legorne. Do revólver e do relógio Macunaíma fizera os brincos das orelhas e trazia na mão uma gaiola com o galo e a galinha. Não possuía mais nem um tostão do que ganhara no bicho porém balangando no beiço furado pendia a muiraquitã.”[31]

Macunaíma volta a sua terra, porém leva como lembrança da cidade o revólver, o relógio e o casal de galinhas mencionados, todas essas coisas tem origem estrangeira. Além disso, o revólver e o relógio são produtos da civilização das máquina. O herói perdeu sua íntima relação com a floresta. Tanto é verdade que “(Macunaíma) Estava muito contrariado porque não compreendia o silêncio. Logo o silêncio do Uraricoera, que fora um dos fatores responsáveis pelo nascimento dele”.

Macunaíma após perder seus irmãos, terminou seus dias deitado numa rede e contando seus “causos” a um papagaio. Até que numa feita, Macunaíma enfeitiçado pela Uiara é devorado e perde a muiraquitã. Segundo Mário de Andrade:

“(...) ‘Era malvadeza da vigarenta ( a velha Vei, a sol) só por causa do herói não ter se amulherado com uma das filhas da luz’, isto é, as grandes civilizações tropicais, China, Índia, Peru, México, Egito, filhas do calor. A alegoria está desenvolvida no capítulo intitulado “Vei, a Sol”. Macunaíma aceita se casar com uma das filhas solares, mas nem bem a futura sogra se afasta, não se amola mais com a promessa, e sai a procura de mulher. E se amulhera com uma portuguesa, o Portugal que nos herdou os princípios cristãos-europeus. E, por isso, no acabar do livro, no capítulo final, Vei se vinga do herói e o quer matar. Ela que faz aparecer a Uiara que destroça Macunaíma. Foi vingança da região quente solar. (O herói “perde” outra vez a muiraquitã). Macunaíma não se realiza, não consegue adquirir um caráter. E vai pro céu, viver o ‘brilho inútil das estrelas’.”[32]

Macunaíma foi destroçado pela Uiara, perdeu toda sua dignidade. A muiraquitã foi tomada pela Natureza, ou seja, a esperança de um desenvolvimento próprio para o Brasil continua com a Natureza tropical, porém não foi realizado por Macunaíma, herói de nossa gente.





Epílogo





“Acabou-se a história e morreu a vitória.

(...)

A tribo se acabara, a família virara sombras, a maloca ruíra minada pelas saúvas e Macunaíma subirá pro céu (e se transformara na Ursa Maior), porém ficara o aruaí do séquito daqueles tempos de dantes em que o herói fora o grande Macunaíma imperador. E só o papagaio no silêncio do Uraricoera preservava do esquecimento os casos e a fala desaparecida. Só o papagaio conservava no silêncio as frases e feitos do herói.

Tudo ele contou pro homem e depois abriu asa rumo de Lisboa. E o homem sou eu, minha gente, e eu fiquei pra vos contar a história. Por isso que vim aqui. Me acocorei em riba destas folhas, catei meus carrapatos, ponteei na violinha e em toque rasgado botei a boca no mundo cantando na fala impura as frases e os casos de Macunaíma, herói de nossa gente.

Tem mais não.”[33]

Mário de Andrade, em Macunaíma, colocou-se como um contador de causos. Utilizou-se para isso de uma linguagem simples. Tentou aproximar-se ao máximo da oralidade popular. Além disso, misturou os léxicos de várias regiões do país. Tudo isso fez para consolidar a idéia de que o Brasil possui um idioma próprio. Para Spengler:“ Os idiomas, por sua vez, são formações causais, a atuarem pela polaridade dos seus meios. Uma planta tem raça, mas somente os animais são capazes de receber impressões da raça. A vigilância de seres do reino animal é sempre um ato de falar, seja qual for o meio empregado. Ao lado de tal idioma de comunicação, que pretende ser compreendido por determinadas criaturas. Aquele pressupõe apenas uma vigilância; este requer ainda uma ligação de consciências vigilantes.” Desta forma, Mário de Andrade utilizando-se de um idioma popular tenta fundar a identidade do Brasil, enquanto Nação, pelo idioma.

No capítulo IX, Mário de Andrade satiriza a escrita empolada do intelectuais da época, confirmando suas intenções em expressar-se por meio de um idioma próximo ao popular:

“Quanto ao caso da Carta prás Icamiabas, tem aí um milhão de intenções. As intenções justificam a carta porém não provam que ela seja boa, é lógico e reconheço. Primeiro: Macunaíma como todo brasileiro que sabe um poucadinho, vira pedantíssimo. O maior pedantismo do brasileiro atual é o escrever português de lei: academia, Revista de Língua Portuguesa e outras revistas, Rui Barbosa etc. desde Gonçalves Dias. Que ele (Macunaíma) não sabe bem a língua acentuei pelas confusões que faz (testículos da Bíblia por versículos etc. e o fundo sexual dele se acentua nas confusões testículos, buraco por orifício, etc). Escreve pois pretenciosíssimo e irritante. Pra que escreve? Única e tão somente pra pedir dinheiro. Coisa que já serve de provérbio a respeito de brasileiro que mora no estrangeiro: pedir dinheiro pros patrícios em viagem. Isso pode ser vezo de outras raças também, pouco me importa, coincidência não prova que isso não é bem brasileiro. Agora: como pedir dinheiro? Sorrateiramente, subrepticiamente. É o que ele faz dando como função da carta, contar coisas de São Paulo. Conta. Como? O fundo sexual dele está claro pela abundância de preocupações carnais e por começar por elas. Agora a ocasião era boa pra eu satirizar os cronistas nossos (contadores de monstros nas plagas nossas e mentirosos a valer) e o estado atual de São Paulo, urbano, intelectual, político, sociológico. Fiz tudo isso, meu caro. Fiz tudo isso em estilo pretensioso, satirizando o português nosso, e pleiteando subrepticiamente pela linguagem lépida, Sincera.”[34]

“Tem mais não.”

Bibliografia

ANDRADE, Mário de. Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira. Rio de Janeiro. Simões Editora, 1958.

ANDRADE, Mário de. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. 2.ed. Belo Horizonte. Itatiaia. 1985.

BERRIEL, Carlos Eduardo Ornelas. Dimensões de Macunaíma: Filosofia, Gênero e Época. Tese de Mestrado. Campinas, UNICAMP, 1987.

BOSI, Alfredo (organizador). Cultura Brasileira: Temas e situações. 2. Ed. São Paulo. Ática, 1992.

CAMARA CASCUDO, Luis da. Dicionário do Folclore Brasileiro. 7 Ed. Belo Horizonte/Rio de Janeiro. Itatiaia. S/d.

GARDINER, Patrick. Teorias da História. 3. Ed. Lisboa. Fundação Calouste Gulbenkian, 1984.

HERMAN, Arthur. A idéia da decadência na história ocidental. Rio de Janeiro - São Paulo. Record. 1999.

LOPEZ, Telê Porto Ancona. Macunaíma: a margem e o texto. São Paulo. HUCITEC, Secretaria de Cultura, Esporte e Turismo, 1974.

PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira. 9. Ed. São Paulo. Cia das Letras. 1998.

SPENGLER, Oswald. A Decadência do Ocidente: esboço de uma morfologia da História Universal. Edição condensada por Helmut Werner. 2. Ed. Rio de Janeiro. Zahar. 1973.



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[1] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo I.

[2] Oswald SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 96.

[3] Patrick GARDINER, Teorias da História, p. 44.

[4] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo III.

[5] MUIRAQUITÃ: Artefato de jade, que se tem encontrado no Baixo Amazonas, especialmente nos arredores de Óbidos e nas praias, entre as fozes dos rios Nhamundá e Tapajós, a que se atribuem qualidades de amuleto. Segundo uma tradição ainda viva, o muiraquitã teria sido presente que as amazonas davam aos homens em lembrança da sua visita anual. Conta-se que para isso, nas noites de lua cheia, elas extraíam as pedras ainda moles do fundo do lago em cuja margem viviam, dando-lhes a forma que entendiam, antes de ficarem duras com a exposição do ar. (...)”. (CAMARA CASCUDO, Dicionário do Folclore Brasileiro, p.509)

[6] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo III.

[7] Essa filiação é perfeitamente possível, já que na primeira dedicatória não publicada do livro Macunaíma, há uma citação a José de Alencar: “A José de Alencar, pai dos vivos”.

[8] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo IV.

[9] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, cap. V.

[10] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, cap. V.

[11] Carlos E. O. BERRIEL, Dimensões de Macunaíma: Filosofia, Gênero e Época, p. 120. Apud.

[12] Ibid, p. 120. Apud.

[13] Oswald SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 94.

[14] Patrick Gardiner, Teorias da História, p. 236.

[15] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, cap. V.

[16] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. Cáp. V.

[17] Oswald SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 280.

[18] Oswald SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 242.

[19] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo V

[20] Oswald SPENGLER, A Decadência do Ocidente, p. 438.

[21]MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo VIII.

[22] Ibid, capítulo VIII.

[23] Telê Porto Ancona LOPEZ, Macunaíma: a margem e o texto, p. 101. Apud.

[24] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo VIII.

[25] Paulo PRADO, Retrato do Brasil.

[26] Telê Porto Ancona LOPEZ, Macunaíma: a margem e o texto, p. 87. Apud.

[27] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo VIII.

[28] Ibid, capítulo VIII.

[29] Ibid, capítulo VIII.

[30] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, capítulo XIV.

[31] Ibid, capítulo XV.

[32] Telê Porto Ancona LOPEZ, Macunaíma: a margem e o texto, p. 101.

[33] MÁRIO DE ANDRADE, Macunaíma o herói sem nenhum caráter, Epílogo.

[34] Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira, p. 170-171.

UNICAMP