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sábado, 21 de setembro de 2013

Pimenta, especiaria da América


Colombo e seus navegadores foram os primeiros europeus a conhecer as pimentas das Américas

No século XVI os navios europeus vinham às Américas não só para buscar pau-brasil e algodão, macacos e papagaios, mas também um produto a que os historiadores não davam muita atenção: as pimentas conhecidas como ardidas – dedo-de-moça, piripiri, tabasco, jalapeño, pimentão e pimenta-doce. Originárias das Américas do Sul e Central, eram diferentes da pimenta-negra (Piper nigrum) trazida da Ásia com o cravo, a canela e outras especiarias, argumentam Christian Fausto dos Santos, Fabiano Bracht e Gisele Cristina da Conceição, pesquisadores do Laboratório de História, Ciências e Ambiente da Universidade Estadual de Maringá, com base em relatos de cronistas, médicos e viajantes da época (Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Ciências Humanas, janeiro-abril de 2013). Segundo os pesquisadores, Cristóvão Colombo e seus navegadores, no século XV, foram os primeiros europeus a conhecer as pimentas americanas, que eram plantadas no México havia 9 mil anos e nos Andes peruanos desde 2.500 anos antes de Cristo. Depois de Colombo, a disseminação foi rápida, e as pimentas começaram a ser plantadas em hortas e quintais, inicialmente da península Ibérica. Um dos relatos indicou que as variedades americanas eram mais aromáticas e de gosto melhor do que as das Índias, então a principal especiaria buscada no Oriente. Em outro estudo, o grupo de Maringá relatou que as pimentas eram usadas no preparo das comidas a bordo dos navios, para evitar o escorbuto.
Revista FAPESP

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Especiaria das especiarias



Mylton Severiano e Kátia Reinisch

Condimento, alimento e remédio. Estimulante. “Companheira sem rival”, disse Cascudo. A pimenta, de ardente sabor, agrada gente de toda classe. E, na época dos descobrimentos, interferiu na geopolítica do mundo e pôs Portugal no centro do cenário europeu.

Há dezesseis séculos, no ano 408 da nossa era, o rei dos visigodos, Alarico, venceu os romanos e, dentre outros tributos de guerra, lhes impôs um bem pesado. Prata? Ouro? Não: pimenta! Três mil quilos de pimenta. Vale a pena conhecer a história da frutinha pela qual reis, sultões e outros potentados foram capazes de arrostar céus, terras e mares.

Desde a mais remota antiguidade, era a pimenta que figurava no topo das famosas especiarias que a Europa importava do Oriente. Longa, vermelha, ashanti, mas principalmente a malagueta, a redonda-branca e a redonda-negra – estas duas por nós conhecidas como pimentas-do-reino.

O maior centro produtor era a Costa de Malabar, no sudoeste da Índia. Sua pimenta já chegava em larga escala à Europa no século 7. Santo Antonino (1389-1450), referindo-se à introdução do cristianismo naquela região indiana, conta que todo ano vinha de lá precioso presente para o papa: um carregamento de pimenta.

A especiaria saía da costa de Malabar rumo ao Mar Vermelho em galeras egípcias e fenícias, depois em veleiros árabes, os dahws. Descarregada em portos africanos, seguia em cáfilas – as caravanas de camelos – até o rio Nilo; e, navegando para o norte, ancorava em Alexandria. Nesse porto egípcio do Mediterrâneo, operavam corretores italianos e bizantinos que encaminhavam as cargas para Gênova, Veneza e Constantinopla – maiores centros distribuidores para toda a Europa.

Mas a pimenta, por seu valor, iria mexer até com a geopolítica da época. Pois o povo português, que revolucionaria a arte da navegação, não permaneceria para sempre à mercê dos “pedágios” cobrados pelos atravessadores. Um desses, rajá de Travancore, a quem cronistas portugueses chamavam de Rei da Pimenta. Nem uma arrobazinha deixava seus domínios sem pagar imposto. Outro, sultão do Egito, cobrava 1 ducado para permitir o embarque de cada bahal (cerca de 300 quilos). E cada bahal chegava à Europa por 100 ducados.

Então, no início do século 16, com suas caravelas, última palavra em matéria de tecnologia naval, os portugueses se lançam ao além-mar, desviando o comércio da via mediterrânea para a via atlântica. Lisboa se tornaria o novo centro comercial das especiarias, particularmente a pimenta, que, no dizer do cronista Gaspar Correia, é o “lume dos olhos de Portugal”.


Três famílias fogosas e provocantes
As mais de cem espécies pertencem a três famílias botânicas – as espécies marcadas com * são nativas do Brasil. Piperáceas: pimenta-do-reino, do-mato*, dos-índios*. Solanáceas: malagueta*, cumari*, caiena ou dedo-de-moça*, pimenta-de-cheiro*. Anonáceas: pimentas da-guiné, dos-negros, de-bugre*, do-sertão*.

A aromática pimenta-do-reino, nativa das Índias, amplamente cultivada no Pará, é o condimento mais usado no mundo, seja para dar sabor aos alimentos, seja para conservá-los. Seu nome científico é Piper nigrum.

Mas, seja de que família for, o que é que a pimenta tem que há milênios nos cativa? A culpa é da capsaicina, seu princípio ativo, que lhe confere o ardor e as propriedades benéficas: cicatriza feridas, combate dores de cabeça e tumores; melhora o humor; nos mantém cheios de vitalidade e disposição sexual.


Assim falou o cientista Pereira Barreto
“As nossa pimenta malagueta, que é a alma do vatapá baiano, constitui um condimento anódino de suprema eficácia como estimulante das glândulas de pepsina, para fazê-las derramar no estômago copioso suco gástrico e assim produzir uma ativa digestão. A pimenta malagueta, associada ao limão galego, é um excelente tópico para as inflamações da garganta, tão comuns entre nós. Podemos subscrever sem hesitação tudo quanto os baianos referem a favor da nossa inquitaya [malagueta e sal].”


Assim falou o folclorista Câmara Cascudo
“O condimento incomparável para o brasileiro é a pimenta, a pimentinha, companheira sem rival, transformando o peixe cozido em obra-prima, ressaltando os valores sápidos de todas as iguarias, aceleradora digestiva, masculinizando o sabor. ‘A malagueta esmagada simplesmente no vinagre é o prato permanente e de rigor para o brasileiro de todas as classes’, escrevia Debret entre 1816 e 1831, em Viagem Pitoresca e História do Brasil.”


SAIBA MAIS
História da Alimentação no Brasil, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2004).
Dicionário do Folclore Brasileiro, de Luis da Câmara Cascudo (Global, 2000).
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Editorial Enciclopédia, 1978)
http://www.almanaquebrasil.com.br