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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Mergulho para a morte


Quem eram os Kamikazes e por que, para eles, o suicídio era uma saída mais aceitável que a derrota. 
 Da Redação

Fernanda Campanelli Massarotto

Eis-me finalmente incorporado às Unidades Especiais. Os 30 dias que restam vão ser minha verdadeira vida. Chegou a hora. O treinamento para a morte me espera: um aprendizado intenso para morrer com beleza. Parto para o combate contemplando a imagem trágica da pátria. Sou um homem entre outros. Nem bom nem mau. Nem sou superior nem sou um imbecil. Sou decididamente um homem.”

A carta acima, escrita em 22 de fevereiro de 1945, é a última mensagem do piloto japonês Okabe Hirabazau para sua família. Dias depois ele morreria, aos 24 anos, em um ataque aéreo suicida às Filipinas realizado pela Marinha do Japão. Hirabazau integra um contingente de mais de 20 000 jovens, adolescentes e até meninos que se engajaram na desesperada estratégia japonesa para não perder a disputa para os Aliados. Eram os kamikazes.

A explicação para essa entrega total pode ser encontrada no passado japonês. A Segunda Guerra mexeu com os brios do Japão. Até então, a história militar do país foi repleta de vitórias. Ninguém jamais conseguiu invadir a ilha. O Japão, ao contrário, subjugou todo o Sudeste Asiático. Primeiro derrotou a China, no final do século XIX (1895), na Guerra Sino-Japonesa. Depois, incorporou parte da Coréia, em 1910. E, por fim, dominou a Mandchúria, em 1931, consolidando o império nipônico. Mesmo durante a Segunda Guerra, até certa altura do conflito o Japão só havia conhecido vitórias: muitas ilhas do Pacífico e parte da Tailândia foram anexadas.

O domínio japonês no Pacífico só estremeceu com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra, em resposta a um ataque da Marinha japonesa ao porto americano de Pearl Harbor, situado na ilha de Oahu, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941. Em pouco tempo, a Marinha e o Exército do imperador Hiroito (1926-1989, era Showa) colecionaram derrotas frente ao fogo americano. Na pequena ilha de Saipan, capital das Ilhas Marianas do Norte, parte da Federação dos Estados da Micronésia (oeste da Oceania), em uma única batalha, em julho de 1944, morreram 12 000 americanos contra mais de 130 000 japoneses. Uma proporção de dez baixas orientais para cada baixa americana.

O efeito dessa desvantagem sobre o Japão dos anos 40 faz parecer até natural o nascimento de um impulso suicida entre os jovens nipônicos. Os milhares de mortos envergonhavam o país, mas a imprensa de Tóquio os exaltava e descrevia a ação dos mártires como exemplos a serem seguidos. Os rapazes, como que expiando a humilhação nacional, colocavam-se às centenas à disposição das Forças Armadas. A lealdade às tradições do país e ao imperador deu o impulso que faltava, e toda uma geração entregou-se às armas, disposta a tudo para não perder a guerra para os americanos – chamados de chikucho (algo como “besta inumana”). Por fim, o rígido código de honra militar japonês sugeria uma única saída para uma guerra que, àquela altura, estava claramente perdida: a morte. Os kamikazes (kami é “deus” e kaze é “vento”, em japonês) são a faceta mais contundente desse espírito nacional.

O criador da ação kamikaze foi o almirante da Marinha Takajiro Onishi. Em 19 de outubro de 1944, Onishi comunicou a seus pilotos que os americanos haviam desembarcado nas Filipinas. A batalha naval estava próxima, e os métodos tradicionais não seriam suficientes para deter os inimigos. Havia, porém, uma esperança. Aviões de caça do tipo Zero, armados com uma única bomba de 250 quilos, se chocariam contra navios inimigos. A ousadia e o poder destruidor do ataque seriam fatais.

Faltava apenas encontrar voluntários para o mergulho mortal. Em qualquer sociedade ocidental, seria impensável pedir a um soldado que cometesse um suicídio altruísta. Não há registro de situação similar na história das guerras no Ocidente. Missões militares sempre comportam risco de vida. Mas o que dizer de abdicar dela de antemão? No Japão da década de 40, encontrar jovens corajosos com data e hora marcadas para morrer não foi um problema. Invocou-se a ética guerreira. Quem não encarnaria de bom grado o “vento dos deuses”? Que honraria maior do que personificar o “tufão divino” contra os inimigos?

Logo de início, os ataques dos kamikazes operaram muitos estragos na armada inimiga, que não sabia como reagir a esse tipo de ação. Os números comprovam a eficácia da estratégia: 57 navios inimigos foram afundados; 108 totalmente destruídos; 83 parcialmente destruídos e 206 danificados. Os momentos de glória eram desfrutados antes e depois das missões. Toda a esquadrilha se reunia e compartilhava, com os que iam partir, uma última dose de saquê, tradicional aguardente de arroz japonesa. Nas fotografias remanescentes da época, é possível ver o sorriso sereno dos jovens a caminho da morte. Na testa, uma faixa branca com um sol vermelho.

As unidades de combate kamikaze, na verdade, retomavam o espírito dos antigos samurais, guerreiros japoneses da Idade Média. “Mas não podemos pensar que os kamikazes foram os samurais do Japão moderno”, diz o doutor em história moderna do Japão Takane Kawashima, da Universidade de Meiji, em Tóquio, que publicou um estudo, em 1994, sobre o sentimento da população japonesa durante o conflito. “Há, simplesmente, a transposição do sacrifício pelo senhor feudal para a morte pelo imperador, em nome de uma lealdade radical. O samurai realizava o haraquiri, o corte do próprio ventre, uma morte solitária. O kamikaze, ao morrer, levava o inimigo consigo.”

Embora muito se tenha falado nas razões do espírito para justificar a ação kamikaze, os milhares de pilotos suicidas jamais foram movidos pela religião. O xintoísmo e o budismo, as duas principais religiões no Japão, condenam o suicídio. O Japão da era Meiji, que começou em 1872 com a abertura do país ao resto do mundo e encerrou-se com a derrota na Segunda Guerra, era fortemente influenciado pelos valores de Confúcio, filósofo chinês que viveu entre 551 a 479 a.C. Para o confucionismo, a família é a base da sociedade. E as relações de pai e filho são fundamentais. O Estado, por sua vez, é visto como uma grande sociedade familiar em que o imperador funciona como o pai. “A moral confuciana não é favorável ao suicídio. Mas suas idéias de obediência conduzem à devoção absoluta em relação ao soberano”, afirma Eduardo Basto, historiador especialista em religião da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

O primeiro ataque kamikaze ocorreu em 25 de outubro de 1944, durante a batalha de Samos, na costa de Leyte, nas Filipinas. As unidades especiais de ataque por choque corporal, os tokkotai, eram compostas por 25 pilotos suicidas, ou tokko. Um sucesso, a princípio, as investidas kamikazes foram, com o tempo, revelando seu preço: a extinção dos pilotos de elite. Foi preciso então formar pelotões inexperientes. Os jovens japoneses foram convocados a entrar na guerra e, prontamente, atenderam ao chamado. Muitos eram universitários. Estudantes da área jurídica e literária eram prontamente aceitos. Os cientistas eram poupados, pois se considerava que eles seriam mais úteis para o futuro do país. Morrer aos 20 anos podia não fazer parte dos planos daqueles jovens, mas o dever de obediência ao imperador era mais forte.

“Até 1945, os japoneses cultivavam uma adoração extrema ao imperador, que era visto como o filho da divindade solar, uma filosofia básica do xintoísmo, a religião mais popular do Japão”, diz Eduardo Basto. “Hiroito só foi abdicar desse poder ‘divino’ em janeiro de 1946, por exigência dos americanos, depois que o Japão se rendeu, em 15 de agosto de 1945, e começou o período de ocupação americana no país, que durou até abril de 1952.”

Os japoneses ouviram em meio às lágrimas o discurso de rendição do soberano. Foi o episódio mais amargo da história do país. “Ponho um fim a esta guerra por minha própria autoridade”, anunciou Hiroito. Mas, para surpresa até dos mais céticos, em poucos meses, a paz determinaria a morte do caráter divino imperial: os ultranacionalistas se resignaram e o povo acolheu sem revoltas o pedido superior. No entanto, alguns militares da Marinha e do Exército, inconformados com a derrota, invocaram os samurais e suicidaram-se cometendo haraquiri. Entre eles estava o criador das missões kamikazes, o almirante Onishi. Estrategicamente, os Aliados conservaram o imperador no poder. Temia-se que o imperador se matasse e o mundo assistisse a um suicídio em massa. De fato, sacrificar a vida (jusshi reuisho, em japonês) pelo país era uma obrigação da família real. E uma honra, uma regra de conduta que não poderia ser evitada para os cidadãos comuns.

Quem se rebelasse envergonharia toda a família. Dinastias com séculos de história podiam cair em desgraça na sociedade.

Foi precisamente a devoção à pátria e ao imperador que levou Kiyoshi Tokudome, então um garoto de 15 anos, a se alistar na Marinha japonesa em maio de 1944. Tokudome hoje tem 71 anos. Vive há 45 no Brasil. Ele dirige a Associação Cultural Kagoshima do Brasil, que leva o nome de sua província natal, no sul do Japão. Tokudome, ao entrar para a Marinha, foi enviado para um campo de aviação em Nagasaki. Segundo ele, o aprendizado não foi fácil. Com o avanço das tropas Aliadas, o curso de oito estágios com duração de três anos acabou reduzido para quatro semestres. O cronograma ficou apertado. O dia inteiro era preenchido com treinamento militar em aulas práticas e teóricas, manuseio de equipamentos, mecânica e simulações de vôo.

“A rotina começava às seis da manhã e muitas vezes se estendia até tarde da noite.” Caso os regulamentos fossem infringidos, as punições eram severas. Era muito comum os futuros pilotos serem esbofeteados pelos superiores. E jamais reclamavam. “Nossa educação baseava-se nos princípios de disciplina, lealdade, obrigação, devoção e soberania”, afirma Kawashima, da Universidade de Meiji.

A possibilidade de se tornar um prisioneiro de guerra não era concebida entre os militares japoneses. Cair diante do inimigo era considerado uma espécie de morte muito menos honrosa que o suicídio. “A maioria dos japoneses não imaginava uma guerra sem vitória. Não haviam sido educados para ser prisioneiros”, diz Kawashima. “Caso isso viesse a acontecer, por que não abraçar o fim na forma de um suicídio altruísta, abnegado, que reverenciasse os samurais?”

Para saber mais
Na livraria
Kamikaze, Piloto Suicida, Saburo Sakai e Martin Caidin, Ibrasa, 1975
O Suicídio, Emile Durkheim, Martins Fontes, 2000
O Crisântemo e a Espada, Ruth Benedict, Perspectiva, 1997
A Morte Voluntária no Japão, Maurice Pinguet, Editora Rocco, 1987

Na internet
http://www.japanbrazil.com
http://www.geocities.com/kamikazes_web/index.html
http://www.tcr.org/kamikaze.html
Revista Superinteressante

domingo, 21 de junho de 2009

Kamikazes, as bombas humanas

A derrota esboçada no início de 1944 não era sequer cogitada pelo Japão, que respondeu à armada americana com guerreiros suicidas.
por Charles Meyer

Grupo de pilotos kamikazes japoneses em uniforme de vôo, em 1945

O culto dos heróis é sem dúvida o mais difundido no mundo desde a Antigüidade. Muitas civilizações têm templos e rituais em homenagem aos "mortos pela pátria".
No país do sol nascente, o Yasukuni jinja, ou "Santuário da nação em paz", receberia as almas dos soldados japoneses mortos em combate. Ele foi construído em Tóquio, em 1869, pelo imperador Meiji, vinculado ao xintoísmo, a religião do Estado, bastante impregnada pelo militarismo. Na história de todas as sociedades humanas, os exemplos de gestos heróicos ou feitos realizados durante as guerras jamais são esquecidos. No Japão, os atos suicidas (jibaku) eram cometidos muitas vezes em caráter individual por soldados carregados com explosivos, que se jogavam sobre as posições inimigas, por aviadores em meio às grandes batalhas aeronavais, tendo na mente o lema banzai "antes a morte que a rendição". Os americanos atribuíam essas atitudes ao "fanatismo".

Os chefes militares japoneses sabiam que o tempo agia contra eles e que a esmagadora superioridade da produção de guerra americana conduzia irremediavelmente à derrota do Japão e, também, à da Alemanha hitlerista. A menos que fossem introduzidas armas novas que revertessem a situação. Em todos os países em guerra, os cientistas desempenhavam o papel de aprendizes de feiticeiro, envolvidos, entre outros projetos, na fabricação de uma bomba atômica. Mas os de Los Alamos, nos Estados Unidos, estavam confortavelmente mais adiantados que seus "concorrentes" alemães de Hechingen e, ainda mais, dos japoneses do centro nuclear de Hunan, na Coréia do Norte. O resultado seria visto em Hiroshima e Nagasaki.

O sonho japonês de levar a guerra ao solo americano ficou patente com o lançamento de 9 mil balões de 10 metros de diâmetro, carregando uma carga explosiva e incendiária de 90 quilos, empurrados para o leste pelos ventos dominantes sobre o oceano Pacífico e que atingiam 300 km/h, acima de 10 mil metros de altitude. Cerca de um milhar deles atingiram os Estados Unidos provocando somente incêndios de extensão limitada. A obsessão era sua eventual utilização na guerra bacteriológica, pois as pesquisas da unidade 731, do general Ishiii Shiro, estavam significativamente avançadas. Mais modestamente, os engenheiros japoneses tinham se inspirado no "torpedo humano" italiano chamado maiale, montado por dois homens-rãs que se soltavam após fixar no casco de um navio inimigo uma carga explosiva de efeito retardado. O engenho japonês, operacional em abril de 1944, chamava-se kaiten (volta ao céu) e, implicitamente, não previa a sobrevivência dos homens-rãs, chamados fukuryu (dragões sorrateiros).

Batizada de kikumizutai (crisântemos d\\'água), a operação de 19 de novembro de 1944 pela primeira equipe de cinco homens-torpedos, transportados por três submarinos cargueiros ancorados na ilha Ulithi, entre as Marianas e as Palau, foi um fracasso. Em janeiro de 1945, uma segunda operação contra navios americanos em Guam obteve resultados tão modestos que os kaiten foram abandonados. Como o seriam as sentinelas suicidas Shinyo (agitadores marítimos), que navegavam a 30 nós com duas toneladas de bombas na dianteira.


Iniciativa isolada
Buscava-se, a propósito, o aumento da eficiência. A superioridade aeronaval americana era evidente, mas havia meses os pilotos da marinha imperial falavam de ataques suicidas contra os navios de guerra americanos para restabelecer o equilíbrio de forças. O comandante da base de Tateyama sugeriu ao almirante Ito organizá-los e torná-los oficiais. A idéia não foi logo aprovada, mas começou a vingar.

O primeiro ataque suicida coordenado foi uma iniciativa isolada dos pilotos de nove aviões Zeros e de oito bombardeiros torpedeiros que decolaram de Iwo Jima em 8 de julho de 1944 (ou 20 de junho, segundo outras fontes); 12 foram abatidos pelos Hellcats americanos, mas cinco outros retornaram à base. Em 15 de outubro, o gesto do almirante Masabumi Arima, que mergulhou com uma esquadrilha ao encontro da frota invasora nas costas das Filipinas, espatifando-se contra um porta-aviões americano, agitou os ânimos.

Quatro dias depois, o almirante Takijiro Onishi, comandante da 1a frota naval, reuniu os oficiais da 201a esquadra na base de Mabalacat, na ilha de Luzon. Era iminente o confronto no golfo de Leyte e no mar de Sibuyan entre as forças imperiais e a frota americana invasora das Filipinas. O discurso de Onishi, como seria depois contado, não deixou dúvida: a aviação japonesa não tinha os meios de cumprir seu papel na batalha. Salvo com o recurso sistemático às ações especiais "por percussão" e, segundo a fórmula preconizada, "um só homem num Zero, com uma bomba de 250 quilos, para destruir um porta-aviões com uma tripulação de mil homens".

Os estudos demonstram, com efeito, que num ataque clássico a um navio de guerra os tiros não alcançam 10% do objetivo, enquanto a eficiência se eleva para 30% com a tática kamikaze. Os voluntários responderam: os 26 pilotos de Zeros da 201a apresentaram-se todos. Em 25 de outubro de 1944, o primeiro ataque "especial" dos cinco caças da esquadrilha Shikishima custou à esquadra americana, na baía de Samar, os porta-aviões Saint-Lô, que explodiu e naufragou, Suwanee, seriamente afetado, que perdeu 150 homens e dez aviões, e Kalinin Bay, atingido de maneira mais leve. Os almirantes americanos notaram que se tratava, dessa vez, de uma intervenção coordenada, mas limitada, de kamikazes, enquanto os adversários japoneses ali tinham enxergado o preâmbulo de uma nova tática que poderia assinalar uma reversão da guerra.

A iniciativa do almirante Onishi tinha sido convincente. Em 25 de novembro de 1944, nas mesmas paragens, uma formação de 35 kamikazes infligira danos sérios aos porta-aviões Independence, Essex e alguns outros; depois, no dia 27, ao encouraçado Colorado e a dois cruzadores, e, ainda no dia 29, ao encouraçado Maryland. Os japoneses, aliás, poderiam passar a acreditar num sinal do céu quando, no dia 18 de dezembro, um tufão de extrema violência varreu a 3a frota americana, provocando o naufrágio de três destróieres e estragos consideráveis aos porta-aviões e aos cruzadores. Durante a defesa das Filipinas, que não cessaria até a capitulação do Japão, 650 kamikazes decolaram e afundaram 16 navios, além de causar danos em outros 150.

Tradição do sacrifício
O estado-maior imperial japonês convenceu-se da eficácia dos Tokotai, e o imperador Hirohito aprovou o discurso que assegurava que esses garotos de 20 anos estavam indo "morrer felizes e orgulhosos por ele e pela vitória". Os voluntários eram dez vezes mais numerosos que os aviões disponíveis. O ponto de vista oficial da marinha americana sobre a nova tática resumia-se numa frase: "Diabólica mas eficaz, particularmente bem adaptada às circunstâncias, sustentada e estimulada por uma poderosa campanha de propaganda". Essa eficácia não deixava de inquietar, a ponto de, nos Estados Unidos, o blecaute preventivo dos ataques suicidas ter sido mantido até abril de 1945. A abordagem americana da questão militar e técnica era absolutamente rigorosa; deixou os psicólogos americanos alucinados na tentativa de analisar o pensamento e o comportamento dos kamikazes, que se transformaram num enigma até para a juventude japonesa de hoje. Todos os testemunhos confirmam: seu engajamento não era suscitado por uma "lavagem cerebral", nem provocado mediante constrangimento.

Tratava-se de uma decisão pensada, refletida, tomada com toda a liberdade, apoiada por uma "pesquisa espiritual" alimentada pelo ideal xintoísta (promovido a religião nacional), associada à divinização do imperador e ao bushido (o caminho do guerreiro) ou mesmo a uma das escolas da sabedoria budista. Com referências, no entanto, aos velhos mitos lembrados pelos militaristas e pelos ultranacionalistas do governo. Um deles foi o de Amaterasu Omikami, deusa do sol e da origem da dinastia imperial, invocada como protetora dos kamikazes. Enfim e sobretudo, a tradição do sacrifício e da morte voluntária, escolhida e não impingida, tinha ainda um grande fascínio. Maurice Pinguet escreveu: "Como os pilotos sabiam que morreriam cedo ou tarde num combate desigual, era preferível escolher uma morte mais rápida, porém mais eficaz. A esses homens não era prometida, a propósito, nenhuma recompensa, nenhum paraíso, logo eles não esperavam nem mesmo a vitória. Nada embotava para eles o fio cortante da morte".

Da assinatura do compromisso até sua morte, adiada mas inelutavelmente programada, podiam transcorrer várias semanas. Os voluntários, entre os quais numerosos estudantes, muitas vezes não recebiam mais do que uma instrução básica de pilotagem. Faziam um estágio especial de uma semana: dois dias para a decolagem com uma bomba de 250 quilos, dois dias para o vôo em formação e três dias para a abordagem e o ataque. Uma grande importância era atribuída à preparação mental para um sacrifício cuja única justificativa era a eficácia, senão a utilidade, exigindo-se daquele que o realizava perfeita lucidez, paz de espírito e autocontrole. A ênfase era colocada na necessidade absoluta de manter os olhos abertos até o "encontro" com o objetivo, pois uma distração de uma fração de segundo poderia provocar o fracasso. Descobriu-se que os kamikazes interrogavam-se vivamente sobre as possibilidades de controle desse último instante.
Suicídio nacional
Num determinado momento, o comandante anunciava que seria na alvorada seguinte: sua última noite e sua última carta - conformista e por vezes crítica ao regime militarista - aos pais. De madrugada, depois da costumeira instrução, eles estavam todos lá, em posição de vôo, com o sabre de samurai ao lado, e na cabeça o cachecol branco batido pelo sol nascente daqueles que iriam morrer. O comandante da base oferecia a cada um deles um copo de saquê, e todos se inclinavam na direção do imperador antes de correr para os aviões sob as aclamações dos camaradas.

Em abril de 1945, o almirante Matome Ugaki, encarregado da coordenação dos ataques especiais para a defesa de Okinawa, onde os fuzileiros navais americanos haviam acabado de desembarcar, dispunha de 700 sentinelas suicidas Shinyo e de uma considerável quantidade de aviões baseados em Kyushu, dentre os quais vários milhares de Zeros e bombardeiros Nakajima Ki-115, que carregavam uma bomba de 500 quilos e tinham um raio de ação de 1.200 km. O método de ataque era o direto.

Os aparelhos kamikazes escoltados por caças deveriam aproximar-se em baixa altitude até perto da frota americana, subir até 4.500 metros e mergulhar em direção aos alvos, para atingir a cabine do elevador central do porta-aviões ou a passagem estreita da passarela entre os outros edifícios.

Em 6 de abril de 1945, 355 aviões suicidas (dos quais 230 da marinha) partiram para o ataque; os americanos abateram 250 antes que eles conseguissem se aproximar de seus objetivos. Mas os sobreviventes puseram fora de combate o porta-aviões Hancock, afundaram dois grandes transportes de assalto, danificaram o encouraçado Maryland e diversos destróieres. Em 12 de abril seriam 185, seguidos por 135 caças e bombardeiros carregando um engenho novo, o Oka 11: 1.800 quilos de explosivos, propelido a mil km/h por três foguetes, disparados a 6 mil metros de altitude, com alcance de 32 km, ao qual os americanos deram o nome japonês de baka (estúpido). As unidades kamikazes de elite que os transportavam tinham sido batizadas de Jinrai Oka (Flores de Cerejeiras do Trovão dos Deuses). Mas os resultados não corresponderam às expectativas.

Os combates encarniçados de Okinawa terminaram em 22 de junho com o sepukku (haraquiri) dos generais Ushijima e Chô, realizado segundo a melhor tradição.

Durante suas 1.900 missões suicidas, os kamikazes da marinha e da aviação tinham afundado cerca de 30 embarcações americanas e danificado cerca de 300, causando diretamente a morte de 4.907 marinheiros. A marinha americana lhes havia oposto uma defesa que, embora eficaz, não era impermeável. Com 14,7% de acertos, os resultados dos ataques kamikazes continuavam ainda muito acima da média dos ataques convencionais. Certos comandantes militares japoneses excederam-se nas considerações de natureza militar. O almirante Onishi, por exemplo, declarava: "Eficazes ou não, esses ataques oferecem ao mundo e a nós mesmos um espetáculo de heroísmo, de orgulho. Eles asseguram, seja qual for o resultado, a sobrevivência de nosso patriotismo espiritual". O discurso pretendia justificar uma espécie de suicídio nacional, que pareceria insignificante depois de Hiroshima e Nagasaki. E totalmente absurdo 50 anos mais tarde.

Sobrevida indecorosa
Em 15 de agosto de 1945, eles ouviram em pé, com as cabeças baixas, abatidos, incrédulos, o imperador Hirohito anunciar a capitulação. De volta à vida civil, muitos desenvolveram, durante um tempo mais ou menos longo, um complexo de culpa por não terem levado a termo seu compromisso e por não terem seguido os 4.615 pilotos kamikazes que haviam se juntado aos deuses. Na época, eles eram milhares que a derrota mergulhara na desordem ou no desespero e que não conseguiam mais conferir sentido à palavra "futuro". Seus inspiradores, em grande número, optaram pelo suicídio e muitos os imitaram. Em 15 de agosto, o almirante Ugaki, comandante da V Frota, de Kyushu, voou para Okinawa acompanhado por uma dezena de pilotos suicidas e, antes de desaparecer, transmitiu uma última mensagem, na qual se dizia "(...) convencido mais do que nunca da eternidade do império e da exaltação sem cessar renovada do espírito dos kamikazes".

A desmobilização das forças armadas japonesas efetuou-se em seis semanas no arquipélago nipônico. Vários milhares de kamikazes retornaram a seus lares, abandonados pela falência da ordem social até então dominada pelos guerreiros, em meio ao desmoronamento da ordem mental em que vivia o povo japonês. As antigas classes dirigentes, responsabilizadas pela guerra e pela derrota, foram expurgadas, mas reapareceriam em 1948. Os velhos militaristas proclamaram seus feitos de armas, "com o rosto voltado para o passado, o coração cheio de desgosto e desespero diante do presente", difundindo imprecações contra o governo e a administração americana; eles caíram no esquecimento.

Os "heróis" tinham logo compreendido que os chefes lhes haviam mentido, que eles tinham sido enganados, manipulados, sacrificados. Marcados pela terrível familiaridade com a morte, os kamikazes muitas vezes transformaram sua amargura em furor contra o que havia oprimido a sua juventude, a instituição imperial e a familiar, as concepções religiosas, ideológicas, militaristas e favoráveis à idéia de Estado, agrupadas sob o nome kokkotai, que os americanos não estavam empenhados em respeitar. Nos anos 1946-1948, alguns se juntaram ao partido comunista, outros foram seduzidos pelo niilismo. E os nostálgicos da vida coletiva e do enquadramento agregaram-se em grupos de todas as tendências políticas, por vezes aos bandos de saqueadores e malfeitores que tiveram sua idade de ouro nessa época. Sua reintegração ao conformismo social se efetuaria sem ruído depois de 1951, graças ao milagre econômico japonês. Os kamikazes, aureolados de glória em 1945, fizeram carreira nas sociedades Sony, Honda, Denzu ou outras. Eles são hoje retratos serenos que falam pouco dos fantasmas do passado.

O vento dos deuses
O nome kamikaze foi inventado em referência a um episódio histórico conhecido por todos e que acabou associado à ameaça de invasão da época. Em junho de 1281, o imperador mongol Kublai Khan havia lançado uma nova e muito poderosa expedição contra o Japão, que se recusava a pagar-lhe tributos. Uma forte armada de mais de 3 mil navios desembarcou 160 mil conquistadores mongóis, chineses e coreanos em Kyushu e nas ilhotas de Takashima e Hirado. Os defensores estavam em deplorável situação quando, em 15 de agosto, um terrível tufão dispersou e afundou a esquadra mongol. Essa "intervenção" que salvou o Japão ficou na memória coletiva como "o vento dos deuses" (kamikaze). A palavra entrou no Larousse para designar indiferentemente o avião ou o piloto suicida, mas teria, diz-se, sido preservada pelo vocabulário japonês. Em outubro de 1944, a designação oficial era Taiatari Tokubetsu Kogekitai (a contração é Tokotai), que significa "corpo especial de ataques por choque corporal". Falava-se, todavia, kamikaze ou shimpu.

Charles Meyer é historiador, especialista em Extremo Oriente.

Revista Historia Viva