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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A saga cigana


A saga cigana
A história e os segredos do povo mais misterioso do mundo
por Texto Luciano Marsiglia
Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira assinada nem história. E que a vida deles passe despercebida, como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltará preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem-vindo ao mundo cigano.
Ou melhor: à imagem que temos dele. O universo cigano é tão antigo e extenso, tão cheio de crenças e histórias que nem mesmo seu próprio povo conhece bem o limite entre verdade e lenda. É que o nome “cigano” designa muitos povos espalhados por quase todas as regiões do mundo. Povos com diferentes cores, crenças, religiões, costumes, rituais, que, por razões às vezes difíceis de compreender, foram abrigados sob esse o imenso guarda-chuva (assim como populações muito diferentes são chamadas de índios).
A história dos ciganos é toda baseada em suposições. E a razão é simples: faltam documentos. Os ciganos são um povo sem escrita. Eles nunca deixaram nenhum registro que pudesse explicar suas origens e seus costumes. Suas tradições são transmitidas oralmente, mas nem disso eles fazem muita questão – os ciganos vivem o hoje, não se interessam por nenhum resquício do passado e não se esforçam por se manterem unidos. A dificuldade em se fixar, o conceito quase inexistente de propriedade e a forma com que lidam com a morte – eliminando todos os pertences do falecido – dificultam ainda mais o trabalho aprofundado de pesquisa.
Uma teoria, contudo, é aceita pela maioria dos especialistas. A partir da constatação da semelhança entre as línguas romani (praticada pelos rom, o maior dos grupos ciganos) e hindi (variação do sânscrito, praticada no noroeste da Índia, onde hoje fica o Paquistão), foi possível elucidar a primeira e grande diáspora cigana. Um grande contingente, formado, possivelmente, por uma casta de guerreiros, teria abandonado a Índia no século 11, quando o sultão persa Mahmoud Ghazni invadiu e dominou o norte do país. De lá, emigraram para a Pérsia, onde hoje fica o Irã. A natureza nômade de muitos grupos ciganos, entretanto, também permite supor um movimento natural de imigração que tenha chegado à Europa conforme suas cidades se desenvolviam, oferecendo oportunidades de negócios para toda sorte de viajantes e peregrinos.
É provável que, pelo caminho, por volta do século 15, tenham passado pelo Pequeno Egito, uma região do Peloponeso, no interior da Grécia. Pelo menos era de lá que eles diziam vir a quem perguntava a sua origem. Daí o nome gypsy (em inglês), ou gitanos (em espanhol). Mas, antes disso, ainda no século 13, um documento escrito por um patriarca de Constantinopla já advertia sobre a presença dos adingánous, um povo errante que, dizia, ensinava coisas diabólicas. O registro é o primeiro a tratar os ciganos de forma pejorativa e a registrar o medo que as cidades européias sentiam de suas caravanas. Era o começo da sina cigana.
“Desde o início do contato com o Ocidente, eles foram causa de conflitos, provocadores de desordem e subversivos ao sistema. E sofreram todo tipo de perseguições religiosa, cultural, política e racial”, diz Aluízio Azevedo, mestre em história cigana pela Universidade Federal de Mato Grosso e ele mesmo um cigano calon (veja no quadro ao lado os principais grupos ciganos). É difícil saber o que veio primeiro: hábitos pouco ortodoxos ou o preconceito em relação a uma cultura tão diferente. Os ciganos tinham a pele escura, muitos filhos, uma língua indecifrável e origem desconhecida. Talvez a falta de oportunidades de emprego tenha sido a causa do seu destino artístico. Eram enxotados e então se mudavam, levando novidades dos lugares de onde vinham. Assim, surgiu a fama de mágicos, feiticeiros. Se todos acreditavam nisso, por que não aproveitar para fazer dinheiro? E, então, as mulheres passaram a ler as mãos, a prever o futuro. Negociar objetos era outra forma de sobrevivência: os ciganos tinham acesso a mercadorias “exóticas” e podiam levar sua tralha para onde quer que fossem.
Os bandos que chegavam ao continente europeu eram liderados por falsos condes, duques ou outros títulos de nobreza. Observando os peregrinos europeus, que entravam e saíam facilmente das cidades, copiaram a idéia de salvo-conduto – uma espécie de pai do passaporte. Os ciganos inventavam que seus documentos haviam sido expedidos por Sigismundo, rei da Hungria. Justificavam a vida nômade dizendo que bispos os haviam condenado a peregrinar durante 7 anos como penitência pelo abandono da fé cristã. Alguns dos salvos-condutos permitiam até que furtassem quem não lhes desse esmolas. Uma tática para aumentar a chance de ser aceitos nas comunidades, fazer negócios e exibir seus dons artísticos. Até que a farsa acabava e eles pulavam novamente para outra cidade.
Durante a Reconquista Cristã de 1492, na península Ibérica, árabes, judeus e ciganos foram expulsos – muitos deles vieram para as Américas. Um século mais tarde, eram varridos da França, por Luís 12, e da Inglaterra, por Henrique 8o. Logo depois, a rainha Elisabeth 1a decretou que ser cigano era crime punido com morte. Uma das lendas que surgiram nessa época, e que até hoje perdura, é a de que um dos ferreiros que fizeram os pregos que prenderam Jesus na cruz era cigano. Por isso, sua gente teria sido amaldiçoada com uma vida nômade. E dessa forma construiu-se a imagem de povo errante, místico, perigoso e contraventor. Assim, no contato com as imagens construídas e alimentadas no Ocidente, foi criado o conceito de um povo cigano.
E o que é ser cigano?
Definir a identidade cigana é bem mais difícil do que parece. Subdivididos em 3 principais etnias (rom, calon e sinti), eles não constituem um povo homogêneo. Nem todos são nômades. Nem todos falam romani. Nem todos dançam ao redor de fogueiras ou usam roupas coloridas. Podem ser pobres ou ricos. Podem ser cristãos, muçulmanos, judeus. O que faz deles um povo é uma sensação comum de não serem gadgés – como eles chamam os não-ciganos – e de se identificarem como rom, calon ou sinti. “O termo ‘cigano’ só funciona nessa oposição”, diz o pesquisador Frans Moonen, autor do livro Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil.
Mas, apesar de todas as divergências, algumas características permitem traçar um perfil comum a esses grupos. A primeira delas é o espírito viajante. Ainda que nem todos sejam nômades, os ciganos não se sentem pertencentes a um único lugar. Não criam raízes, não têm uma noção concreta de propriedade – estão sempre fazendo negócios com seus pertences, preferencialmente em ouro, que não perde valor e é aceito em qualquer nação (por isso a imagem cigana é vinculada ao uso do ouro como adereço, especialmente nos dentes das mulheres). Eles não gostam de se submeter a leis e a regras que não sejam as deles. Prezam, acima de tudo, a liberdade. Assim, podem até se estabelecer por muito tempo em um mesmo lugar (como é comum entre os sinti). Mas, nesse caso, procuram morar em uma mesma rua ou, de preferência, em acampamentos onde possam preservar sua autonomia e manter a unidade familiar – outro aspecto primordial na vida cigana.
É em torno da família que uma comunidade cigana se organiza. Há um líder, sempre um homem, nomeado por mérito e não por herança. Ele é escolhido levando em conta vários aspectos. Um deles, importantíssimo para conseguir alugar um terreno, montar um circo ou participar de feiras, é ter um documento de identidade, o que se tornou um verdadeiro desafio – o cigano não consegue registrar o nascimento dos filhos porque não possui documentos próprios, em um processo sem fim. Também deve ser um bom interlocutor entre o poder público e seu grupo, além de ter habilidade para resolver os problemas internos do acampamento. É ele quem dita as regras, divide as tarefas, cria as leis do grupo.
A sociedade cigana é patriarcal, quase machista. Ao se casar, o homem vira o responsável pelo sustento do lar. A mulher passa a morar com a família do marido e deve cuidar dele, dos sogros, da casa e dos filhos. Isso costuma acontecer cedo, ainda na adolescência: logo após a primeira menstruação, a menina já é considerada apta para casar e ter filhos. A noiva deve ser virgem. Tradicionalmente, sua pureza é comprovada em um dos rituais da longa festa de casamento, em que o lençol da noite de núpcias é exibido para toda a comunidade. Antigamente, os pais do noivo deviam pagar um dote à família da moça, mas esse hábito já não existe mais na maior parte dos acampamentos.
O casamento entre primos, no entanto, continua sendo estimulado, também na tentativa de preservar o núcleo familiar. É natural que em comunidades nômades seja mais difícil acontecer um casamento entre ciganos e gadgés. Mas é possível e permitido. Nesse caso, o homem ou a mulher deve mudar de vida. Ser cigano não depende do sangue – se o gadgé optar por se integrar ao grupo, automaticamente vira um deles.
À medida que se estabeleceram na Europa e nas Américas, os ciganos assimilaram cerimônias e ritos ocidentais. No Brasil, por exemplo, o catolicismo foi adotado pela maioria (é comum encontrar imagens da Nossa Senhora Aparecida nas barracas). Mas algumas tradições permanecem fortes. A simbologia da morte é a principal delas. “Quando um cigano morre, há um processo de morte que se instala em todos os indivíduos do grupo”, afirma Aluízio. Os calon realizam rituais de cura assim que é diagnosticada a doença. Além de aceitar a medicina tradicional, eles recorrem a rezas, correntes de orações, garrafadas de ervas, chás e simpatias, geralmente ministradas por uma curandeira do grupo.
Durante o velório, o morto é o centro do ritual e, dependendo da posição que ele ocupava, a família se reestrutura: uma nova liderança terá que ser eleita. O corpo do falecido é lavado, untado com ervas aromáticas e vestido adequadamente. Esse momento de sofrimento e cumplicidade é importante para a identidade do grupo. Como em outras culturas, percebe-se a possibilidade de transcendência. No caso dos ciganos, esse é o momento de encontrar a sua alma naturalmente viajante.
Em alguns acampamentos, eliminam-se todos os pertences do morto. Até o seu trailer chega a ser queimado. “É como um corte na história. Nada é guardado, não se resgata o passado”, diz Florencia Ferrari, estudiosa do assunto e autora do livro Palavra Cigana. Depois da morte de um membro, muitos grupos ciganos se mudam para outro acampamento.
Os ciganos hoje
Imagina-se que existam 15 milhões de ciganos espalhados pelo mundo. Como tudo relacionado a esse universo, essa é só uma estimativa – eles vivem à margem da sociedade e não costumam participar de pesquisas de censo demográfico.
E isso, por si só, já é uma polêmica. Em maio deste ano, o premiê italiano, Silvio Berlusconi, autorizou que fosse feito um censo especial para mapear a presença de ciganos sem moradia fixa na periferia das grandes cidades italianas. O censo incluiria dados como etnia, religião e impressão digital – que não são exigidos na identidade dos italianos. Os ciganos saíram às ruas em protesto, argumentando que essa seria uma ferramenta racista e discriminatória.
A medida foi considerada ilegal pelo Parlamento Europeu, já que impõe exigências desiguais a cidadãos do bloco. Mas os ciganos continuam com medo de ser expulsos do país, ainda que um terço dessa população não seja nem mesmo imigrante.
O receio é justificável: desde o século 15 os ciganos não têm um momento de folga. Até o século 19, eles foram escravizados na região onde hoje é a Romênia. Durante a 2a Guerra Mundial, foram perseguidos pelos nazistas, sendo, de acordo com alguns historiadores, o povo mais dizimado pelo Holocausto: do 1 milhão de ciganos que vivia na Europa, 500 mil foram assassinados. Muitos dos sobreviventes emigraram para os EUA, daí a lei que impedia sua entrada no estado de Nova Jersey, que só foi abolida nos anos 90.
“Na Europa, em praticamente todos os países, os ciganos são a minoria mais discriminada, muito mais do que os judeus ou os negros”, diz Moonen. E no Brasil não é muito diferente. O primeiro grupo de ciganos, de maioria calon, chegou por aqui no século 16, deportados de Portugal. Os rom vieram de forma voluntária a partir da 2a metade do século 19. Naquela época, eram comerciantes ambulantes de escravos, cavalos e artesanatos. Hoje compram e vendem carros, televisores e toalhas. Os mais recentes, às vezes bem pobres, vieram do Leste Europeu após a derrocada da União Soviética. Alguns são sedentários, mas a maioria se mantém na vida itinerante. Todos sofrem com desconfianças e preconceitos.
A cidade de Sousa, no interior da Paraíba, é um caso clássico. Os cerca de 450 ciganos fixados há anos por lá não recebiam entregas de correio nem tinham o lixo coletado em seu acampamento. Curiosamente, muitas escolas recusavam a matrícula de crianças ciganas. O caso ficou bem conhecido na região: foi necessária a intervenção da Procuradoria da República da Paraíba para resolver a questão.
Tanto no Brasil quanto na Europa, o analfabetismo entre os ciganos é alto. Por aqui, segundo a historiadora Isabel Fonseca, 3 em cada 4 mulheres ciganas são analfabetas. Por lá, escolas que só aceitam ciganos têm os piores níveis de qualidade. A falta de estudo e a vida à margem os empurram cada vez mais para a criminalidade, o que alimenta as visões deturpadas e generalizadas que sobrevivem desde os primeiros contatos entre ciganos e europeus. Enquanto não forem compreendidos, eles se mudarão e começarão tudo de novo. Seguirão vivendo sua saga cigana.
“Parece que os ciganos vieram ao mundo somente para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se com ladrões, estudam para ser ladrões (...).”
– La Gitanilla, Miguel de Cervantes, 1613.

Iguais, mas diferentes
Quem são os 3 principais grupos ciganos
Rom ou Roma
Predominantes nos países balcânicos, principalmente na Romênia, falam romani, a mais conhecida das línguas ciganas, e são o grupo mais estudado pelos pesquisadores. São divididos em subgrupos: kalderash, matchuaia, curcira, entre outros. Consideram-se os “ciganos autênticos”.
Sinti
Também chamados de manouch, são mais numerosos na Itália, no sul da França e na Alemanha. Falam a lingua sintó, para alguns pesquisadores, uma variação do romani. Não há estudos que apontem a presença significativa desse grupo no Brasil.
Calon ou Kalé
Conhecidos por “ciganos ibéricos”, já que viviam na Espanha e em Portugal antes de se espalhar pelo resto da Europa e da América do Sul. São os criadores do flamenco e responsáveis pela popularização da figura da dançarina cigana. Falam a língua caló e são o grupo mais numeroso do Brasil.

Verdade ou mentira?
A origem das histórias do imaginário cigano
Ciganas lêem a sorte
Amparados pelo mistério que os rodeava, os ciganos perceberam que poderiam utilizar a curiosidade dos povoados sobre o futuro como um modo de fazer negócio e ganhar dinheiro. A crença virou parte da cultura cigana. Hoje, as ciganas lêem até mesmo a sorte de outras mulheres do grupo, mas, nesse caso, sem dinheiro envolvido.
Ciganos roubam crianças
Essa crença pode ter vindo do hábito dos ciganos de circo de incorporar à trupe crianças órfãs ou abandonadas que se encantavam pelo seu estilo de vida. Mas o mais provável é que o medo daquele povo desconhecido o tenha transformado em uma espécie de bicho-papão para os europeus.
Ciganos são negociantes
É possível que sua vida errante tenha favorecido atividades relacionadas ao comércio. Além de terem acesso a objetos “maravilhosos” dos lugares por que passavam, conseguiam carregar a sua forma de sustento numa mala sempre que precisavam levantar acampamento.
Ciganos são trapaceiros
Na Idade Média, aquelas pessoas exóticas e desconhecidos eram vistas como bruxas (muitas foram queimadas durante a Inquisição). A vida à margem da sociedade muitas vezes os empurrava à criminalidade. As outras formas que encontravam para ganhar dinheiro – comércio e leitura de mãos – colocavam à prova sua honestidade. Essa confluência de fatores pode ter criado a imagem do cigano trapaceiro.
Ciganos falsificam ouro
Tradicionalmente, muitos grupos ciganos dominam o trabalho com metais. Algumas etnias carregam isso até no nome, como os kalderash (“caldeireiros”, em romani). No Brasil, os ciganos participaram da exploração de minas de ouro no século 18. Junte-se tudo isso à fama de trapaceiros e fica fácil entender a crença de que eles falsificam metais.
Ciganos honram a palavra
Como são um povo sem escrita, as leis ciganas são regidas com base na palavra dada. O não-cumprimento de uma regra ou de um acordo representa uma grande ofensa à sociedade cigana, e quem o faz é desmoralizado perante o grupo.

Para saber mais
Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil
Frans Moonen, Centro de Cultura Cigana, 2008.dhnet.org.br/direitos/sos/ciganos/index.html
História do Povo Cigano
Angus Fraser, Teorema (Portugal), 1997.

Revista Aventuras na História

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Uma vila cigana no sertão paraibano

Uma vila cigana no sertão paraibano

Descendentes de nômades, eles se fixaram no nordeste e enfrentam pobreza e preconceito

CARLOS JULIANO BARROS

Foto: Carlos Juliano Barros

“Sua excelência, o que me atraiu para a vida cigana foi o amor a essa velha!” Vicente Vidal de Negreiro não poupa palavras de carinho a sua esposa, Rita de Cássia. Estamos sentados na varanda de uma casa modesta, cuja estrutura já não parece das mais confiáveis, erguida na periferia de Sousa – município de 70 mil habitantes, localizado em pleno semiárido da Paraíba, a 420 quilômetros de João Pessoa. Do alto de seus 79 anos, com a saúde um tanto debilitada, Vicente me trata com respeito comovente. Além de “sua excelência”, ele também me chama a todo momento de “seu dotô”, enquanto relembra alguns episódios de sua incrível trajetória. Filho de um “ilustre sujeito”, segundo ele próprio, de Catolé do Rocha, outra pequena cidade do interior da Paraíba, Vicente se deparou com os ciganos pela primeira vez ainda muito menino, quando um grupo acampou nas terras de seu pai. Ao conhecer aquela que se tornaria a mãe de dez filhos seus, não teve alternativa senão abandonar a família e aderir à sina nômade para se casar com a então jovem e linda Rita de Cássia, que passara a habitar seus sonhos mais íntimos. Com o passar do tempo, o próprio Vicente se transformaria em um dos chefes dos ciganos.

Já vai longe, porém, o tempo em que levas de pessoas obedientes a esses míticos e valentes líderes vagavam sob o sol de rachar da Paraíba, do Ceará e do Rio Grande do Norte, em que as crianças nasciam em barracas montadas debaixo da generosa sombra de uma árvore, em que os homens negociavam animais com fazendeiros da região e em que as mulheres liam mãos e botavam baralho para quem desejasse conhecer a própria sorte. Há pelo menos um quarto de século, esses ciganos sertanejos do ramo dos calons (ver texto abaixo) deixaram de lado o nomadismo e fincaram raízes na área menos nobre da cidade de Sousa. “Parece-me que foi um decreto da divindade. O Padre Cícero profetizou que, quando os ciganos parassem de andar, é porque estava perto o fim das épocas”, explica Pedro Maia, outro chefe cigano que não economiza nas solenidades e que, por sinal, é irmão de Rita de Cássia. É impossível dizer como os calons chegaram à região de Sousa. Eles dizem que sempre estiveram por lá. Atualmente, o município é um importante polo comercial do estado, além de grande produtor de leite e de coco verde. Também é internacionalmente conhecido pelas impressionantes pegadas de dinossauros impregnadas no barro seco e rachado do solo do sertão (ver texto abaixo).

Vicente, Rita de Cássia, Pedro Maia e outros ciganos da velha guarda de Sousa compõem o retrato de um tempo que não volta mais, de uma cultura secular que vem minguando a conta-gotas, desde que a comunidade se tornou sedentária, em meados da década de 1980. Hoje, os chefes já não mandam tanto assim, apesar de inspirar respeito. É cada vez mais raro encontrar um jovem que domine o dialeto caló – principal identidade desse grupo social. Também é praticamente impossível ver uma adolescente que entenda de quiromancia, como é chamada a arte de ler as linhas da mão. Até mesmo as festas embaladas por modinhas de violão típicas à beira da fogueira – tão presentes nas memórias de alguns idosos – já não acontecem. Saudosismos à parte, é preciso reconhecer que muitos ciganos, senão a maioria, preferem a segurança proporcionada pela vida sedentária. Apesar da tristeza de presenciar a decadência de uma cultura transmitida ao longo de diversas gerações, há quem entenda esse processo como algo inevitável, fruto dos novos tempos que também chegaram a galope ao sertão da Paraíba. “A gente tem de partir para a realidade: colocar os meninos na escola, arrumar emprego para os jovens”, pondera Niobel Fernandes, de 63 anos.

Não há dados oficiais precisos sobre o total de habitantes do bairro cigano de Sousa, mas o número de famílias certamente não é superior a duas centenas. As casas são bem simples – algumas de alvenaria, outras de taipa mesmo –, divididas basicamente em dois “ranchos” vizinhos um ao outro, conhecidos pelos nomes dos principais chefes ciganos: Vicente e Pedro Maia. A população dessa que é a maior comunidade cigana de todo o Brasil vive em condições bastante precárias, sem acesso a serviços públicos básicos, e enfrenta mazelas comuns a qualquer bairro carente, como o desemprego e o alcoolismo – que já vitima inclusive adolescentes. Alguns moradores fazem pequenos “bicos”, outros recebem o benefício do Bolsa Família do governo federal, e também existem alguns pedintes, embora representem minoria absoluta. Aparentemente alheia à minha conversa com seu marido, Rita de Cássia rompe o silêncio e desabafa: “A pobreza e a ‘precisão’ só se comparam à morte”, afirma ela, sempre amparada pelo olhar zeloso de Vicente. Assim como a esposa, ele também parece retirar as palavras de um livro digno de Guimarães Rosa: “A pobreza é hoje, não é amanhã”.

Como desgraça pouca é bobagem, esses cidadãos de segunda classe de Sousa ainda precisam vencer um obstáculo que até vem sendo superado nos últimos anos, mas que ainda não foi completamente transposto: o preconceito. Em toda a história da humanidade, poucos grupos sociais foram vítimas de tantas perseguições quanto os ciganos. Os livros didáticos, por exemplo, raramente contam que, durante o regime nazista na Alemanha de Hitler, o holocausto judeu também foi acompanhado de um massacre impiedoso dessa etnia. Em Sousa, não ocorreu nenhum genocídio, mas a marginalização é evidente. A área ocupada pelos calons fica vizinha a um lixão, a uma colônia penal agrícola e ao local onde deverá ser instalado o novo cemitério da cidade. Somando-se a isso, eles ainda são obrigados a conviver com o triste estigma que pesa sobre mendigos, além de ser tachados de bandidos ou de ladrões de crianças.

“Não há um cigano sequer empregado no comércio da cidade. Os poucos que arrumam ocupação fixa são funcionários públicos”, afirma João Bosco Araújo, professor de uma escola particular de Sousa e pesquisador da cultura cigana. Ele também trabalha como mestre de cerimônias da prefeitura, e atua como uma espécie de “embaixador” do poder público municipal na comunidade. “Acho que existe um débito muito grande da cidade para com os ciganos. E isso não vai ser transposto em quatro ou oito anos. Essa mudança ideológica vai demandar um bom tempo”, admite o próprio prefeito, Fabio Tyrone (PTB).

Iniciativa pioneira

Para estancar esse dramático processo de “extinção cultural”, por assim dizer, e ao mesmo tempo viabilizar alternativas de renda à comunidade, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – órgão vinculado diretamente ao gabinete da Presidência da República – criou, em conjunto com o Ministério da Cultura (Minc) e com recursos desembolsados pela Eletrobrás, o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI). Segundo a Seppir, trata-se da primeira iniciativa dessa natureza bancada por um governo em toda a América Latina.

O prédio foi inaugurado em agosto do ano passado durante cerimônia que contou com a presença do governador do estado, José Maranhão (PMDB), e do ministro Edson Santos, titular da Seppir. Também estava lá o deputado federal Marcondes Gadelha (PSC-PB), membro de uma tradicionalíssima família da oligarquia de Sousa, que ganhou muito dinheiro com o comércio do grande volume de algodão que era produzido décadas atrás no município e hoje investe em hotéis, hospitais e outros ramos empresariais. Ele reivindica a paternidade do projeto de criação do centro, que teria sido idealizado por ele enquanto seu irmão, Salomão Gadelha, estava à frente da prefeitura da cidade, entre 2003 e 2008. “Pensei em transformar o limão numa limonada. Se os ciganos eram um estorvo para a população de Sousa, poderíamos, ao contrário, gerar algum interesse cultural ou econômico se conseguíssemos resgatar a cultura deles. Fazer com que eles voltassem a ser ciganos”, resume o deputado. Ele também alimenta o sonho de criar um grande festival cigano na cidade, a fim de atrair turistas do Brasil inteiro.

Entretanto, perguntado sobre a influência do deputado Marcondes Gadelha para a escolha de Sousa como sede do CCDI, o subsecretário de Políticas para Comunidades Tradicionais da Seppir, Alexandro Reis, desconversa e afirma que a opção pelo município do semiárido paraibano justifica-se pela grande concentração de calons na cidade e pelos dramáticos problemas sociais enfrentados por eles. “A orientação da Seppir é estabelecer políticas públicas nas áreas com comunidades mais vulneráveis, e é o caso de Sousa”, explica.

O fato é que, transcorridos meses desde a abertura do CCDI, até agora nenhuma atividade saiu do papel, e o edifício se encontra literalmente vazio. “Estou pensando em manter as portas do centro totalmente fechadas, como um protesto, até que sejam resolvidos os problemas”, afirma Francisco Soares Figueiredo, o Coronel, filho do chefe cigano Pedro Maia, responsável por uma associação comunitária local e pela presidência do CCDI. A instalação de computadores, a criação de um cinema e de uma oficina de produção de filmes são algumas das ideias que constam do projeto original. O atual prefeito, Fabio Tyrone, por sua vez, afirma que vai apoiar a construção de um aviário e de uma horta comunitária, a fim de melhorar a qualidade da alimentação e gerar alguma renda aos moradores do bairro dos calons.

Porém, toda essa demora já desperta a descrença por parte dos ciganos. “Primeiro, vamos estabelecer uma parceria com a prefeitura de Sousa a fim de garantir a manutenção e a operacionalização do centro. Também estamos definindo recursos da Seppir, do Minc e da Secretaria Especial de Direitos Humanos”, justifica Alexandro Reis. “Isso, no entanto, envolve também uma discussão com a comunidade, processo que estamos construindo com bastante respeito e cuidado”, completa.

Essa “discussão com a comunidade”, contudo, não é tão simples de conduzir, uma vez que há uma espécie de racha entre os dois grandes chefes, Vicente e Pedro Maia – o que não deixa de ser curioso, já que são cunhados. A disputa tem a ver, entre outras coisas, com questões da política paraibana. Vicente, por exemplo, guarda na entrada de casa um retrato caindo aos pedaços de Antonio Mariz, conhecido político da região que foi prefeito de Sousa, deputado federal, senador e governador do estado, até falecer em 1995. Na realidade, foi ele o responsável pela fixação definitiva dos calons em Sousa, ao doar as primeiras casas na área dos ranchos. Mariz também era o adversário por excelência dos Gadelha, que, por sua vez, arrebanharam simpatizantes entre os ciganos liderados por Pedro Maia e seu filho, o Coronel. O presidente do CCDI, que mantém o costume típico de revestir os dentes com placas de ouro, é aliado político declarado dessa tradicional família de Sousa. A intimidade é tanta que ele chegou até a pintar no muro de sua casa uma propaganda política de André Gadelha, derrotado por Fabio Tyrone nas últimas eleições para a prefeitura municipal.

No dia a dia, não existem grandes problemas de convívio entre os moradores dos dois ranchos, até porque quase todos são parentes. Porém, alguns ciganos ouvidos pela reportagem confessaram certo receio de que as atividades do centro – quando estiver funcionando – acabem beneficiando apenas os mais chegados ao presidente do CCDI, como se o Coronel pudesse decidir segundo sua vontade os destinos de uma obra que é, na verdade, do poder público. Na opinião do subsecretário da Seppir, Alexandro Reis, não existe um “racha”, mas “um processo de entendimento na comunidade”. Apesar de nenhum representante do órgão ligado à Presidência da República aparecer no bairro dos calons de Sousa há meses, ele garante que a secretaria está atenta para impedir que haja privilégios indevidos a quem quer que seja.

Comunidade de eleitores relativamente numerosa para uma cidade do porte de Sousa, há tempos os ciganos são alvo das velhas práticas políticas clientelistas. Hoje, os calons apoiam majoritariamente a família Gadelha, tida como a única que dá algum tipo de “atenção” aos moradores do bairro. Por outro lado, o prefeito Fabio Tyrone, adversário político dos Gadelha, enxerga essa relação com olhos bem mais críticos. “O que se fez até hoje foi estimular a mendicância. Mas temos de quebrar esse paradigma. Não se pode fazer politicagem com a situação de carência absurda em que eles vivem”, critica.

Futuro

As sobrancelhas grossas e o cabelo longo, preto e liso não deixam dúvidas quanto aos traços ibéricos herdados por Ana Cristina Marques, conhecida também pelo apelido cigano Lília. Ela é uma das últimas mulheres calons, talvez a única, que ainda ganha algum dinheiro lendo mão e jogando baralho. Porém, sua filha adolescente já não foi iniciada na mesma arte, e nem parece ter interesse por isso. “Não quero que ela me siga. Espero que ela estude e seja alguém na vida”, desabafa Lília.

As novas gerações de ciganos, nascidos já depois que os pais pararam de andar sertão afora, são o retrato de uma verdadeira metamorfose – mas não há nada de errado com isso, diga-se de passagem. É muito comum, por exemplo, encontrar adolescentes de 16 anos com o nome de Cícero Romão Batista, em reverência ao Padre Cícero, ícone do catolicismo popular que é tido como santo no semiárido nordestino. São esses mesmos jovens, que carregam na certidão de nascimento o tradicionalíssimo costume de homenagear personalidades históricas, os mais seduzidos pelas músicas sertanejas que substituíram ao violão as modinhas típicas de seus antepassados. Contraditoriamente, são também os mais empolgados em aprender dança cigana com um professor não cigano, ao som do famoso grupo francês Gipsy Kings. Além disso, eles montam comunidades virtuais em sites de relacionamento na internet, afirmando-se como calons. Mas, ao mesmo tempo, e como nem poderia deixar de ser, tentam diariamente superar preconceitos para se integrar plenamente à sociedade de Sousa.

Na ânsia de “salvar” tradições que vêm se perdendo, é necessário tomar muito cuidado, no entanto, para que pessoas de fora do bairro dos calons, até de forma involuntária, não imponham um suposto jeito de ser cigano aos moradores, como se isso fosse o suficiente para melhorar a tão sofrida vida dessa gente. Aliás, como ninguém vive só de cultura, é preciso atacar de forma mais contundente os graves problemas que realmente assolam a comunidade, como o desemprego, a falta de saneamento básico, a baixa escolaridade. “O que vai acontecer daqui a uns dez ou 20 anos, não posso prever. É até possível que, nesse novo centro, alguém de fora lhes venha ensinar ‘cultura cigana’ (ou algo que seja considerado como tal). Já vi acontecer esse fenômeno entre os índios potiguaras, no litoral da Paraíba. Há séculos não falam mais a sua língua, e lá vem de repente alguém de São Paulo para lhes dar aula de tupi-guarani! É possível que a Seppir contrate alguém para ensinar ao pessoal de Sousa como fabricar tachos de cobre”, ironiza o antropólogo Frans Moonen, talvez o único pesquisador a ter estudado a comunidade dos calons de Sousa, e que demonstra desconfiança com relação ao funcionamento do CCDI.


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De onde eles vêm?

Como o romani, o sintó, o caló e outros dialetos falados pelos povos ciganos são ágrafos – ou seja, não têm escrita –, não há registros precisos sobre a história dessas etnias, que podem ser reunidas em três grandes grupos: o dos rons, o dos sintis e o dos calons – este último proveniente da península Ibérica. Porém, a hipótese mais aceita é que todos seriam originários da Índia. De lá, teriam se espalhado pelo continente europeu. O Brasil foi o primeiro país da América do Sul a receber esses grupos. Já em 1574, o rei português dom Sebastião mandou, na condição de degredado, o cigano João Torres e sua família para cá. Não há dados oficiais, mas a estimativa é que atualmente haja de 600 mil a 800 mil pessoas dessa etnia espalhadas pelo território nacional. Personalidades históricas do país têm sangue cigano, como a escritora Cecília Meireles e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, que nunca admitiu publicamente sua ascendência.


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Apoio público

Há algumas décadas, as chamadas “populações tradicionais”, como os indígenas e os descendentes de quilombolas, por exemplo, são objeto de programas específicos do poder público para promoção de direitos. No caso dos ciganos, o reconhecimento de suas peculiaridades e de suas necessidades ainda está engatinhando. Nos últimos anos, porém, algumas ações governamentais vêm sendo tomadas com esse objetivo.

Em 2007, foi comemorado pela primeira vez o dia nacional do cigano, 24 de maio, em homenagem à padroeira dessa etnia, Santa Sara Kali. O Ministério da Cultura, por sua vez, criou um concurso para premiar manifestações típicas, e em agosto de 2009 foi inaugurado o Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI), em Sousa (PB). Dois anos atrás, o Ministério da Saúde também chegou a anunciar o programa Ciganos no SUS. A ideia era criar uma espécie de carteirinha para identificar aqueles que ainda são nômades e não possuem documentos oficiais, a fim de facilitar o atendimento nos hospitais do Sistema Único de Saúde. Porém, até agora, o projeto não saiu do papel.

“O movimento cigano é um dos mais novos. Eu já fui a 16 estados para ensinar o cigano a ter direito de ter direitos. Estamos conscientizando o povo para que eles se organizem”, afirma Mirian Stanescon, integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR). Criado em 2003, esse colegiado é formado por órgãos do governo federal e entidades da sociedade civil e tem a missão de formular políticas públicas para comunidades socialmente vulneráveis.

Apesar de embrionário, o movimento cigano já está dividido. Pelo menos cinco entidades contestam a eleição de Mirian Stanescon para o CNPIR e afirmam que ela não está legitimada a representá-las. Além disso, na avaliação de Wasyl Stuparyk, presidente da Associação Brasileira dos Ciganos no Paraná (Abracipr), as atuais políticas voltadas a essa população não respondem a suas reais necessidades, e deveriam ser focadas principalmente na expedição de documentos e no acesso a serviços básicos de saúde e educação. “Precisamos cair na real. Não existem mais ciganos no meio da praça tocando violino. Antes de preservar a cultura, temos de preservar o ser humano”, afirma.


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Pegadas pré-históricas

Além da maior comunidade cigana do Brasil, Sousa também abriga um dos mais importantes sítios paleontológicos do mundo. Encravado na bacia sedimentar do rio do Peixe, o chamado Vale dos Dinossauros é a principal atração turística do município, e recebe cerca de 1,5 mil visitantes por mês. Lá podem ser vistas pegadas de dezenas de tipos de répteis pré-históricos, um impressionante registro da passagem desses seres gigantescos pelo solo do sertão paraibano, ocorrida há pelo menos 130 milhões de anos.

Administrado pelo governo estadual da Paraíba, o Monumento Natural do Vale dos Dinossauros foi inaugurado em 1999. Além de conhecer um pequeno museu na entrada do parque, o visitante pode observar a mais longa trilha de pegadas de dinossauros de que se tem notícia em todo o planeta. As instalações do local necessitam, porém, de uma reforma urgente. “O Vale está abandonado, e isso nos causa preocupação porque é um patrimônio muito valioso”, lamenta o prefeito de Sousa, Fabio Tyrone.

Além da importância científica, há outro ótimo motivo para conhecer o parque: conversar com Robson Araújo Marques, de 66 anos, conhecido como Guardião do Vale. Há mais de três décadas, ele ganha um salário mínimo para recepcionar turistas e pesquisadores. As primeiras pegadas de dinossauros foram descobertas em 1897 por seu avô, que à primeira vista pensou tratar-se de rastros de bois e emas. Também foi Marques o “cicerone” de Giuseppe Leonardi, cientista italiano que fez pesquisas no local ao longo de 17 anos e com o qual aprendeu muita coisa de paleontologia. Autodidata, ele também escreve poemas e contos. “O Vale é minha alma. Minha esposa reclama, diz que sou maluco porque vivi a vida inteira por conta dessas pedras”, brinca.

Revista Problemas Brasileiros

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Ciganos: Sem destino


Ciganos: Sem destino
A história dos ciganos, que hoje são cerca de 12 milhões espalhados pelo mundo inteiro, não é tão colorida quanto eles: teve diáspora, perseguição, escravidão e genocídio
por Isabelle Somma
Em uma determinada noite do começo dos anos 40, o médico nazista alemão Josef Mengele reuniu 14 pares de gêmeos no campo de concentração de Auschwitz, na Polônia. Colocou as crianças sobre sua mesa e as fez dormir. Calmamente, injetou clorofórmio em suas veias. A morte foi instantânea. Mais tarde, as abriu e meticulosamente dissecou seus cadáveres.

As crianças não eram judias. Eram de um outro grupo cuja história também é marcada por diáspora, perseguições, escravidão e genocídio, especialmente na Segunda Guerra. Os ciganos – termo genérico para designar grupos que se autodenominam rom, calon e sinti, entre outros – podem ser encontrados em várias partes do mundo, divididos em culturas, religiões e línguas diferentes. Alguns têm o dialeto, a profissão ou apenas a opção pela vida itinerante. O que todos os cerca de 12 milhões espalhados pelos cinco continentes têm em comum é uma longa história pautada pelo preconceito. Que continua ainda hoje.

Pouco se sabe sobre a origem dos ciganos – que, assim como quase tudo que diz respeito a eles, está marcada por fantasias. Alguns dizem que eles descendem de egípcios do tempo dos faraós. Outros, de uma região conhecida como “Novo Egito”, na Grécia – daí a palavra “cigano”, que vem de “egipciano”. Essa história, contudo, é totalmente descartada por estudiosos do assunto. Para eles, os ciganos teriam vindo do Paquistão e do norte da Índia, nos atuais Rajastão e Punjab. A maior prova disso vem de estudos lingüísticos. O romani, a língua falada por eles, possui grandes semelhanças com o hindi, falado na Índia. A análise biológica corrobora essa tese. Um estudo realizado com integrantes de comunidades ciganas da Europa demonstrou que era possível traçar a origem indiana de boa parte dos ciganos pesquisados.

Grupo migrante

Dali, um grande contingente teria partido em uma espécie de diáspora. Ainda hoje existem comunidades ciganas na Ásia, assim como nos locais por onde passaram até chegar à Europa, como o Oriente Médio e norte da África. “Por que e quando eles deixaram a Índia, quais foram os grupos que fugiram e como se relacionavam entre eles ainda é tema de debate entre os estudiosos”, diz David Nemeth, professor de Geografia e Planejamento da Universidade de Toledo, em Ohio, nos Estados Unidos, especialista em povos nômades. “Alguns dizem que todos deixaram a Índia de uma vez, há mil anos. Outros dizem que eles foram saindo gradualmente.”

Um problema, de acordo com os especialistas, é falar dos ciganos como se eles fossem um grupo racial, um povo. “A explicação da origem indiana dos ciganos dá a falsa impressão de que eles são um grupo fechado, constituído como uma unidade isolada na Índia e que viajou mantendo essa integridade”, afirma a antropóloga Florencia Ferrari, cuja pesquisa de doutorado na Universidade de São Paulo é sobre ciganos de São Paulo. Na verdade, eles apresentam uma grande mistura.

O estudo lingüístico aponta uma provável data em que a maior leva de ciganos teria deixado seu território de origem: meados do século 11. Esse período coincide com a invasão, ao norte do subcontinente indiano, do sultão persa Mahmoud Ghazni (971-1030). Acredita-se que o sultão vitorioso teria expulsado essa população, provavelmente uma casta de guerreiros, do território conquistado entre 1001 e 1026.

Há outras teorias para o movimento dos ciganos. Alguns especialistas supõem que eles pertençam a um antigo grupo de viajantes que nunca parou de se deslocar. Outros, que eram grupos sedentários forçados a deixar a Índia devido à expansão de outros povos. Também não se descarta que eles eram párias expulsos de suas terras.

Tudo isso é suposição por causa da falta de relatos escritos sobre o assunto. Os ciganos mantêm sua história através da tradição oral – e muito do que se passou entre eles foi perdido. Segundo Isabel Fonseca, autora de Enterrem-me em Pé – A Longa Viagem dos Ciganos, o primeiro documento escrito que menciona os ciganos é um contrato de compra e venda do século 10. Mais tarde, monges relatam sobre os “atsiganoi”, povo itinerante de adivinhos e ventríloquos que visitou o imperador bizantino Constantino IX em 1054.

A diáspora cigana levou-os a migrarem a oeste, fazendo com que se espalhassem pela Europa a partir do século 14. “Quando apareceram pela primeira vez na Europa, os ciganos apresentaram-se como peregrinos e liam a sorte: duas boas profissões numa época de superstição”, afirma a autora. Os grupos começaram a percorrer com maior assiduidade certas regiões, e acabaram adotando a língua e a religião delas. Mas sem perder seus próprios costumes e língua.

Perseguição e caça

Dessa mesma época já datam os primeiros registros de perseguições contra os ciganos. Em 1471, leis contra eles foram aprovadas na Suíça. Na península Ibérica, a chamada Reconquista Cristã, em 1492, significou não apenas a expulsão de árabes e judeus, mas de ciganos também. No século 16, os ciganos também foram expulsos da França, durante o reinado de Luís XII, e da Inglaterra, pelo rei Henrique VIII. Mais tarde, Elizabeth I fez pior: durante seu reinado, entre 1558 e 1603, uma lei tornava ilegal ser um cigano. Isso quer dizer que a pessoa era condenada à morte simplesmente por ser filha de pais ciganos. “Eles se tornaram os últimos bodes expiatórios dos males sociais da sociedade do período Tudor”, afirma Thomas Acton, professor de Estudos Romani da Universidade de Greenwich, Inglaterra.

A perseguição nos Bálcãs foi ainda mais aguda. A partir do século 13, os ciganos foram vistos como estrangeiros que não eram bem-vindos. Acabaram escravizados. A libertação ocorreu apenas em 1864. Na Romênia não foi diferente: os ciganos foram feitos escravos lá até o século 19. Em 1445, o príncipe Vlad Dracul, da Valáquia (antiga província da Romênia), escravizou em seu país cerca de 12 mil pessoas da Bulgária. Essa gente, de acordo com registros da época, “parecia egípcia”. Vlad Dracul, apenas a título de curiosidade, é pai do príncipe que ficou conhecido pela alcunha de Drácula.

A partir do século 16, países como Suíça, Holanda e Dinamarca, passaram a promover o que ficou conhecido como “caçada aos ciganos”. Ela funcionava mais ou menos como uma caçada a raposas mesmo, quase um esporte. Não era preciso o sujeito ter cometido crime algum para ser aprisionado ou morto como um animal. Recompensas e honras eram prestadas aos que participavam das caçadas. Na Dinamarca, por exemplo, uma grande caçada foi marcada para o dia 11 de novembro de 1835. O resultado foram 260 homens, mulheres e crianças presos ou mortos.

Preconceito

Alguns pesquisadores acreditam que a origem do preconceito contra as comunidades ciganas esteja relacionada com as profissões com as quais eles ganhavam a vida. Segundo Nemeth, os ciganos historicamente lidam com três ramos de ocupação nada bem vistos na Idade Média. Eles estão associados à indústria da “diversão”, como músicos, dançarinos e adivinhos, da “morte”, como açougueiros, e da “sujeira”, como ferreiros. Várias lendas populares pipocaram na Europa na Idade Média. Uma delas é a de que o ferreiro que fez os pregos colocados em Jesus na cruz era cigano. Jesus então teria amaldiçoado todos os ciganos com uma vida de vagância.

Aliás, é o nomadismo o fator apontado como o principal motivo da desconfiança que vários povos alimentaram contra eles. “A estigmatização da vida errante se tornou um fator de demonização daqueles ciganos que eram nômades comerciais”, afirma Acton. A necessidade de deslocar-se pela lunga drom – ou “longa estrada”, em romani –­, geralmente em coloridas caravanas, fez com que os ciganos tivessem um contato mínimo com o mundo gadjikane – “não-cigano”. Assim, o grupo continuaria com seu estilo de vida. A história da polonesa Papuzsa (“boneca” em romani) é prova de que muitos grupos temem que seu modo de vida seja alterado pela revelação de seus costumes. Harpista, ela compunha música e poesia contando os sofrimentos de seu povo. No fim da década de 50, um poeta publicou a tradução de seus poemas em polonês, à revelia da vontade de Papuzsa. Resultado: foi expulsa da comunidade por traição. Morreu em 1987, só e esquecida.

A partir do fim do século 18, com a ascensão do capitalismo industrial e a rápida urbanização, o que era visto como uma diferença apenas cultural passou a ser visto como um comportamento motivado por uma questão racial. O racismo culminou com a Segunda Guerra Mundial. Além de judeus, homossexuais, comunistas e opositores do regime, os nazistas também perseguiram implacavelmente os ciganos. Eles foram deportados para campos de concentração e foram alvo dos einsatzgruppen, esquadrões móveis de extermínio. Não há estatísticas exatas sobre o número de vítimas, mas estima-se que, dos cerca de 1 milhão de ciganos que viviam na Europa antes da guerra, pelo menos 500 mil tenham sido eliminados no Holocausto.

Com o fim do conflito, muitos deles imigraram para os Estados Unidos – que, atualmente, é o país com o maior número de ciganos no mundo, cerca de 1 milhão. A última lei contra os ciganos no país, que impedia a entrada deles no estado de Nova Jersey, só foi eliminada na década de 90. Os que ficaram na Europa, no entanto, continuaram a ser sistematicamente perseguidos por diferentes governos. Na Bulgária, a língua e a música ciganas foram proibidas. Na antiga Tchecoslováquia e na Noruega, políticas oficiais promoveram campanhas de esterilização de mulheres ciganas. Até 1972, o governo suíço tomava crianças ciganas de seus pais para serem criadas por famílias não-ciganas.

A maioria deles, 8 milhões, ainda vive na Europa. É a maior minoria sem país do continente. A partir de 1989, começaram a surgir partidos políticos ciganos, que tentam reverter políticas discriminatórias. Atualmente, há programas de televisão falados na língua romani na Romênia e na Macedônia. Se, por um lado, isso pode ser um fator que ajude a diminuir o preconceito em alguns locais, por outro pode também significar a absorção dos ciganos pela cultura gadjikane. O destino deles, porém, é difícil de ser lido.



Ciganos pelo mundo
A relação entre os vários grupos ainda não é conhecida
Há diversos grupos de ciganos espalhados pelos cinco continentes. Abaixo estão os principais. Muitos falam uma língua próxima, o romani (ou romanês) – com muitas palavras emprestadas de línguas locais. Grupos que vivem no Brasil, por exemplo, dizem: “Vamos pinhá o paim”. Querem dizer: “Vamos beber água” – a estrutura é a do português, mas com palavras em romani. Grupos de viajantes, como artistas circenses, são confundidos com os ciganos por serem nômades.

Erlides

Também conhecidos como yerlii ou arli, os erlides são mais comuns em comunidades localizadas no sudeste da Europa e na Turquia. Muitos deles são muçulmanos ou cristãos ortodoxos. Há ainda pequenos grupos na Palestina, Jordânia e também no Iraque.

Roma

Os rom, ou roma, têm origem não-ibérica e são o grupo mais numeroso. Tanto que possui subgrupos, como os kalderash, matchuara, lovara e tchurara. Podem ser encontrados na Europa (especialmente nos Bálcãs), nos Estados Unidos e no Brasil. “Muita gente confunde os roma com os romenos. Há ciganos romenos, mas nem todo romeno é cigano”, diz o professor David Nemeth.

Gitanos

Chamado também de calon, o grupo é encontrado principalmente na península Ibérica, no norte da África e no sul da França. Na Espanha, os gitanos são associados à música e à dança – o flamenco é considerado de origem gitana. O mais famoso é o grupo francês Gipsy Kings. No Brasil, há uma grande quantidade de grupos calon, que se dedicam ao comércio de carros, mantas e ouro – as mulheres, à leitura da sorte.

Sinti

Os sinti ou manouch também reconhecem uma origem na Índia e praticam o nomadismo. Eles falam a língua sintó e são encontrados principalmente na Alsácia, entre outras regiões da França, na Alemanha e na Itália. Há poucos deles no Brasil, chegados também no século 19.

Romnichal

O grupo mais numeroso na Grã-Bretanha, encontrado nos Estados Unidos e na Austrália, é chamado também de rom’nie. Sua história remonta ao século 16, quando teriam chegado à Inglaterra. Foram expulsos e perseguidos no país ao longo dos séculos, mas ainda são numerosos lá.


JK era cigano
Bisavô do presidente brasileiro chegou aqui no século 19
A história dos ciganos no Brasil se confunde com o início de nossa colonização. Segundo o geógrafo Rodrigo Teixeira Corrêa, autor de História dos Ciganos no Brasil, o primeiro registro é de 1574, quando o comerciante João Torres, sua mulher e seus filhos foram expulsos de Portugal para cá. A maioria dos que aqui chegaram veio da península Ibérica, mas os que imigraram mais recentemente, no século passado, vêm da Europa Oriental. No século 16, os ciganos degredados se instalaram principalmente na Bahia. O comércio é a principal atividade ligada a eles até hoje. Há registros, do século 18, da presença de comunidades nômades em Minas Gerais – mas apenas dão conta de problemas em que eles se envolviam, como roubos e brigas. Em Minas, mais precisamente em Diamantina, viveu a família do mais ilustre descendente de cigano do país. O primeiro cigano não-ibérico a aportar no Brasil foi Jan Nepomuscky Kubitschek, no século 19. Reconheceu o sobrenome? Seu bisneto, Juscelino, assumiu a presidência do país em 1956.

Vários ciganos, como ele, deixaram a vida nômade, mas há milhares que ainda vivem dessa forma nos grandes centros urbanos. Há entre eles artistas circenses e comerciantes – e, claro, mulheres que lêem a sorte. Não há fontes seguras nem censo sobre o número de ciganos no Brasil – acredita-se que haja cerca de 600 mil. Assim como em outros países do mundo, o principal problema da comunidade é a documentação. Aqueles que não possuem endereço fixo têm problemas para conseguir acesso a serviços públicos. “Não possuir documento é uma opção deles”, diz a antropóloga Florencia Ferrari. “A questão fascinante é como e por que eles escolhem viver assim.”


Costumes próprios
Grupos evitaram casamentos com não-ciganos na tentiva de preservar a cultura
Por causa do convívio com os gadjikane (“não-ciganos”), os ciganos mantiveram determinados costumes para não se “contaminar” pela cultura externa. Evitaram durante séculos, por exemplo, casamentos com não-ciganos. Alguns deles só falam romani. “Para se referir a um não-cigano, há ciganos no país que o tratam por ‘brasileiro’. Isso reforça a idéia de que eles são supranacionais”, diz a antropóloga Florencia Ferrari. Outra característica é que eles também evitaram freqüentar escolas. Segundo a pesquisadora Isabel Fonseca, cerca de três quartos das mulheres ciganas são analfabetas. Isso se mostra na própria língua romani, que não tem forma escrita. Nela, não existem palavras específicas para “escrever” e “ler”. Em seu lugar, são usadas palavras da língua local, onde quer que o grupo se encontre, ou adaptações. A palavra gin, que significa “contar”, faz as vezes de “ler”. Outro costume cigano é as mulheres lerem a sorte, além de usarem saias longas – mostrar os joelhos é um tabu para elas, assim como cortar as unhas. A segregação dos sexos também é um hábito. Homens e mulheres, por exemplo, não comem juntos. As comunidades ciganas valorizam os ritos, como casamento e funeral. Os casamentos são resultado de combinações entre famílias. Os noivos se casam muito jovens. Aos 10 anos ou menos, logo após a primeira menstruação, as meninas já estão aptas a contrair matrimônio. Além disso, a religião não ocupa lugar privilegiado na vida dos ciganos. Há comunidades que ainda preservam algumas características do shaktismo, uma corrente do hinduísmo. Alguns símbolos da antiga religião são identificados pelos gadjikane com a maior parte dos ciganos, como o tridente, arma utilizada pelo deus hindu Shiva. A palavra para tridente, em romani, é a mesma que alguns ciganos cristãos utilizam para cruz. Portanto, o que houve na maioria dos casos foi a assimilação das religiões por onde as correntes migratórias passaram. Na Europa e nas Américas, o cristianismo é a principal fé. Já no Oriente Médio e nos Bálcãs, há ciganos muçulmanos.

Saiba mais
Livros

Enterrem-me em Pé – A Longa Viagem dos Ciganos, Isabel Fonseca, Companhia das Letras, 1996.

A autora se embrenhou entre grupos de várias partes do mundo para descrever sua cultura e sua história.

História dos Ciganos no Brasil, Rodrigo Corrêa Teixeira, Núcleo de Estudos Ciganos, Recife, 1999

O autor apresenta a trajetória dos ciganos ibéricos e não-ibéricos no país.

Palavra Cigana – Seis Contos Nômades, Florencia Ferrari, Cosac Naify, 2005

A antropóloga reúne aqui contos da tradição oral de comunidades ciganas do mundo todo.

Revista Aventuras na Historia

domingo, 6 de setembro de 2009

A saga cigana


A saga cigana
A história e os segredos do povo mais misterioso do mundo
por Texto Luciano Marsiglia
Imagine um mundo em que as pessoas não tenham endereço fixo, documentos, conta em banco, carteira assinada nem história. E que a vida deles passe despercebida, como se não existisse. Que a única certeza é que nunca faltará preconceito e ignorância, medo e fascínio, injustiças e alegrias ao longo de sua interminável jornada. Bem-vindo ao mundo cigano.

Ou melhor: à imagem que temos dele. O universo cigano é tão antigo e extenso, tão cheio de crenças e histórias que nem mesmo seu próprio povo conhece bem o limite entre verdade e lenda. É que o nome “cigano” designa muitos povos espalhados por quase todas as regiões do mundo. Povos com diferentes cores, crenças, religiões, costumes, rituais, que, por razões às vezes difíceis de compreender, foram abrigados sob esse o imenso guarda-chuva (assim como populações muito diferentes são chamadas de índios).

A história dos ciganos é toda baseada em suposições. E a razão é simples: faltam documentos. Os ciganos são um povo sem escrita. Eles nunca deixaram nenhum registro que pudesse explicar suas origens e seus costumes. Suas tradições são transmitidas oralmente, mas nem disso eles fazem muita questão – os ciganos vivem o hoje, não se interessam por nenhum resquício do passado e não se esforçam por se manterem unidos. A dificuldade em se fixar, o conceito quase inexistente de propriedade e a forma com que lidam com a morte – eliminando todos os pertences do falecido – dificultam ainda mais o trabalho aprofundado de pesquisa.

Uma teoria, contudo, é aceita pela maioria dos especialistas. A partir da constatação da semelhança entre as línguas romani (praticada pelos rom, o maior dos grupos ciganos) e hindi (variação do sânscrito, praticada no noroeste da Índia, onde hoje fica o Paquistão), foi possível elucidar a primeira e grande diáspora cigana. Um grande contingente, formado, possivelmente, por uma casta de guerreiros, teria abandonado a Índia no século 11, quando o sultão persa Mahmoud Ghazni invadiu e dominou o norte do país. De lá, emigraram para a Pérsia, onde hoje fica o Irã. A natureza nômade de muitos grupos ciganos, entretanto, também permite supor um movimento natural de imigração que tenha chegado à Europa conforme suas cidades se desenvolviam, oferecendo oportunidades de negócios para toda sorte de viajantes e peregrinos.

É provável que, pelo caminho, por volta do século 15, tenham passado pelo Pequeno Egito, uma região do Peloponeso, no interior da Grécia. Pelo menos era de lá que eles diziam vir a quem perguntava a sua origem. Daí o nome gypsy (em inglês), ou gitanos (em espanhol). Mas, antes disso, ainda no século 13, um documento escrito por um patriarca de Constantinopla já advertia sobre a presença dos adingánous, um povo errante que, dizia, ensinava coisas diabólicas. O registro é o primeiro a tratar os ciganos de forma pejorativa e a registrar o medo que as cidades européias sentiam de suas caravanas. Era o começo da sina cigana.

“Desde o início do contato com o Ocidente, eles foram causa de conflitos, provocadores de desordem e subversivos ao sistema. E sofreram todo tipo de perseguições religiosa, cultural, política e racial”, diz Aluízio Azevedo, mestre em história cigana pela Universidade Federal de Mato Grosso e ele mesmo um cigano calon (veja no quadro ao lado os principais grupos ciganos). É difícil saber o que veio primeiro: hábitos pouco ortodoxos ou o preconceito em relação a uma cultura tão diferente. Os ciganos tinham a pele escura, muitos filhos, uma língua indecifrável e origem desconhecida. Talvez a falta de oportunidades de emprego tenha sido a causa do seu destino artístico. Eram enxotados e então se mudavam, levando novidades dos lugares de onde vinham. Assim, surgiu a fama de mágicos, feiticeiros. Se todos acreditavam nisso, por que não aproveitar para fazer dinheiro? E, então, as mulheres passaram a ler as mãos, a prever o futuro. Negociar objetos era outra forma de sobrevivência: os ciganos tinham acesso a mercadorias “exóticas” e podiam levar sua tralha para onde quer que fossem.

Os bandos que chegavam ao continente europeu eram liderados por falsos condes, duques ou outros títulos de nobreza. Observando os peregrinos europeus, que entravam e saíam facilmente das cidades, copiaram a idéia de salvo-conduto – uma espécie de pai do passaporte. Os ciganos inventavam que seus documentos haviam sido expedidos por Sigismundo, rei da Hungria. Justificavam a vida nômade dizendo que bispos os haviam condenado a peregrinar durante 7 anos como penitência pelo abandono da fé cristã. Alguns dos salvos-condutos permitiam até que furtassem quem não lhes desse esmolas. Uma tática para aumentar a chance de ser aceitos nas comunidades, fazer negócios e exibir seus dons artísticos. Até que a farsa acabava e eles pulavam novamente para outra cidade.

Durante a Reconquista Cristã de 1492, na península Ibérica, árabes, judeus e ciganos foram expulsos – muitos deles vieram para as Américas. Um século mais tarde, eram varridos da França, por Luís 12, e da Inglaterra, por Henrique 8o. Logo depois, a rainha Elisabeth 1a decretou que ser cigano era crime punido com morte. Uma das lendas que surgiram nessa época, e que até hoje perdura, é a de que um dos ferreiros que fizeram os pregos que prenderam Jesus na cruz era cigano. Por isso, sua gente teria sido amaldiçoada com uma vida nômade. E dessa forma construiu-se a imagem de povo errante, místico, perigoso e contraventor. Assim, no contato com as imagens construídas e alimentadas no Ocidente, foi criado o conceito de um povo cigano.

E o que é ser cigano?

Definir a identidade cigana é bem mais difícil do que parece. Subdivididos em 3 principais etnias (rom, calon e sinti), eles não constituem um povo homogêneo. Nem todos são nômades. Nem todos falam romani. Nem todos dançam ao redor de fogueiras ou usam roupas coloridas. Podem ser pobres ou ricos. Podem ser cristãos, muçulmanos, judeus. O que faz deles um povo é uma sensação comum de não serem gadgés – como eles chamam os não-ciganos – e de se identificarem como rom, calon ou sinti. “O termo ‘cigano’ só funciona nessa oposição”, diz o pesquisador Frans Moonen, autor do livro Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil.

Mas, apesar de todas as divergências, algumas características permitem traçar um perfil comum a esses grupos. A primeira delas é o espírito viajante. Ainda que nem todos sejam nômades, os ciganos não se sentem pertencentes a um único lugar. Não criam raízes, não têm uma noção concreta de propriedade – estão sempre fazendo negócios com seus pertences, preferencialmente em ouro, que não perde valor e é aceito em qualquer nação (por isso a imagem cigana é vinculada ao uso do ouro como adereço, especialmente nos dentes das mulheres). Eles não gostam de se submeter a leis e a regras que não sejam as deles. Prezam, acima de tudo, a liberdade. Assim, podem até se estabelecer por muito tempo em um mesmo lugar (como é comum entre os sinti). Mas, nesse caso, procuram morar em uma mesma rua ou, de preferência, em acampamentos onde possam preservar sua autonomia e manter a unidade familiar – outro aspecto primordial na vida cigana.

É em torno da família que uma comunidade cigana se organiza. Há um líder, sempre um homem, nomeado por mérito e não por herança. Ele é escolhido levando em conta vários aspectos. Um deles, importantíssimo para conseguir alugar um terreno, montar um circo ou participar de feiras, é ter um documento de identidade, o que se tornou um verdadeiro desafio – o cigano não consegue registrar o nascimento dos filhos porque não possui documentos próprios, em um processo sem fim. Também deve ser um bom interlocutor entre o poder público e seu grupo, além de ter habilidade para resolver os problemas internos do acampamento. É ele quem dita as regras, divide as tarefas, cria as leis do grupo.

A sociedade cigana é patriarcal, quase machista. Ao se casar, o homem vira o responsável pelo sustento do lar. A mulher passa a morar com a família do marido e deve cuidar dele, dos sogros, da casa e dos filhos. Isso costuma acontecer cedo, ainda na adolescência: logo após a primeira menstruação, a menina já é considerada apta para casar e ter filhos. A noiva deve ser virgem. Tradicionalmente, sua pureza é comprovada em um dos rituais da longa festa de casamento, em que o lençol da noite de núpcias é exibido para toda a comunidade. Antigamente, os pais do noivo deviam pagar um dote à família da moça, mas esse hábito já não existe mais na maior parte dos acampamentos.

O casamento entre primos, no entanto, continua sendo estimulado, também na tentativa de preservar o núcleo familiar. É natural que em comunidades nômades seja mais difícil acontecer um casamento entre ciganos e gadgés. Mas é possível e permitido. Nesse caso, o homem ou a mulher deve mudar de vida. Ser cigano não depende do sangue – se o gadgé optar por se integrar ao grupo, automaticamente vira um deles.

À medida que se estabeleceram na Europa e nas Américas, os ciganos assimilaram cerimônias e ritos ocidentais. No Brasil, por exemplo, o catolicismo foi adotado pela maioria (é comum encontrar imagens da Nossa Senhora Aparecida nas barracas). Mas algumas tradições permanecem fortes. A simbologia da morte é a principal delas. “Quando um cigano morre, há um processo de morte que se instala em todos os indivíduos do grupo”, afirma Aluízio. Os calon realizam rituais de cura assim que é diagnosticada a doença. Além de aceitar a medicina tradicional, eles recorrem a rezas, correntes de orações, garrafadas de ervas, chás e simpatias, geralmente ministradas por uma curandeira do grupo.

Durante o velório, o morto é o centro do ritual e, dependendo da posição que ele ocupava, a família se reestrutura: uma nova liderança terá que ser eleita. O corpo do falecido é lavado, untado com ervas aromáticas e vestido adequadamente. Esse momento de sofrimento e cumplicidade é importante para a identidade do grupo. Como em outras culturas, percebe-se a possibilidade de transcendência. No caso dos ciganos, esse é o momento de encontrar a sua alma naturalmente viajante.

Em alguns acampamentos, eliminam-se todos os pertences do morto. Até o seu trailer chega a ser queimado. “É como um corte na história. Nada é guardado, não se resgata o passado”, diz Florencia Ferrari, estudiosa do assunto e autora do livro Palavra Cigana. Depois da morte de um membro, muitos grupos ciganos se mudam para outro acampamento.

Os ciganos hoje

Imagina-se que existam 15 milhões de ciganos espalhados pelo mundo. Como tudo relacionado a esse universo, essa é só uma estimativa – eles vivem à margem da sociedade e não costumam participar de pesquisas de censo demográfico.

E isso, por si só, já é uma polêmica. Em maio deste ano, o premiê italiano, Silvio Berlusconi, autorizou que fosse feito um censo especial para mapear a presença de ciganos sem moradia fixa na periferia das grandes cidades italianas. O censo incluiria dados como etnia, religião e impressão digital – que não são exigidos na identidade dos italianos. Os ciganos saíram às ruas em protesto, argumentando que essa seria uma ferramenta racista e discriminatória.

A medida foi considerada ilegal pelo Parlamento Europeu, já que impõe exigências desiguais a cidadãos do bloco. Mas os ciganos continuam com medo de ser expulsos do país, ainda que um terço dessa população não seja nem mesmo imigrante.

O receio é justificável: desde o século 15 os ciganos não têm um momento de folga. Até o século 19, eles foram escravizados na região onde hoje é a Romênia. Durante a 2a Guerra Mundial, foram perseguidos pelos nazistas, sendo, de acordo com alguns historiadores, o povo mais dizimado pelo Holocausto: do 1 milhão de ciganos que vivia na Europa, 500 mil foram assassinados. Muitos dos sobreviventes emigraram para os EUA, daí a lei que impedia sua entrada no estado de Nova Jersey, que só foi abolida nos anos 90.

“Na Europa, em praticamente todos os países, os ciganos são a minoria mais discriminada, muito mais do que os judeus ou os negros”, diz Moonen. E no Brasil não é muito diferente. O primeiro grupo de ciganos, de maioria calon, chegou por aqui no século 16, deportados de Portugal. Os rom vieram de forma voluntária a partir da 2a metade do século 19. Naquela época, eram comerciantes ambulantes de escravos, cavalos e artesanatos. Hoje compram e vendem carros, televisores e toalhas. Os mais recentes, às vezes bem pobres, vieram do Leste Europeu após a derrocada da União Soviética. Alguns são sedentários, mas a maioria se mantém na vida itinerante. Todos sofrem com desconfianças e preconceitos.

A cidade de Sousa, no interior da Paraíba, é um caso clássico. Os cerca de 450 ciganos fixados há anos por lá não recebiam entregas de correio nem tinham o lixo coletado em seu acampamento. Curiosamente, muitas escolas recusavam a matrícula de crianças ciganas. O caso ficou bem conhecido na região: foi necessária a intervenção da Procuradoria da República da Paraíba para resolver a questão.

Tanto no Brasil quanto na Europa, o analfabetismo entre os ciganos é alto. Por aqui, segundo a historiadora Isabel Fonseca, 3 em cada 4 mulheres ciganas são analfabetas. Por lá, escolas que só aceitam ciganos têm os piores níveis de qualidade. A falta de estudo e a vida à margem os empurram cada vez mais para a criminalidade, o que alimenta as visões deturpadas e generalizadas que sobrevivem desde os primeiros contatos entre ciganos e europeus. Enquanto não forem compreendidos, eles se mudarão e começarão tudo de novo. Seguirão vivendo sua saga cigana.

“Parece que os ciganos vieram ao mundo somente para ser ladrões: nascem de pais ladrões, criam-se com ladrões, estudam para ser ladrões (...).”

– La Gitanilla, Miguel de Cervantes, 1613.



Iguais, mas diferentes
Quem são os 3 principais grupos ciganos
Rom ou Roma

Predominantes nos países balcânicos, principalmente na Romênia, falam romani, a mais conhecida das línguas ciganas, e são o grupo mais estudado pelos pesquisadores. São divididos em subgrupos: kalderash, matchuaia, curcira, entre outros. Consideram-se os “ciganos autênticos”.

Sinti

Também chamados de manouch, são mais numerosos na Itália, no sul da França e na Alemanha. Falam a lingua sintó, para alguns pesquisadores, uma variação do romani. Não há estudos que apontem a presença significativa desse grupo no Brasil.

Calon ou Kalé

Conhecidos por “ciganos ibéricos”, já que viviam na Espanha e em Portugal antes de se espalhar pelo resto da Europa e da América do Sul. São os criadores do flamenco e responsáveis pela popularização da figura da dançarina cigana. Falam a língua caló e são o grupo mais numeroso do Brasil.


Verdade ou mentira?
A origem das histórias do imaginário cigano
Ciganas lêem a sorte

Amparados pelo mistério que os rodeava, os ciganos perceberam que poderiam utilizar a curiosidade dos povoados sobre o futuro como um modo de fazer negócio e ganhar dinheiro. A crença virou parte da cultura cigana. Hoje, as ciganas lêem até mesmo a sorte de outras mulheres do grupo, mas, nesse caso, sem dinheiro envolvido.

Ciganos roubam crianças

Essa crença pode ter vindo do hábito dos ciganos de circo de incorporar à trupe crianças órfãs ou abandonadas que se encantavam pelo seu estilo de vida. Mas o mais provável é que o medo daquele povo desconhecido o tenha transformado em uma espécie de bicho-papão para os europeus.

Ciganos são negociantes

É possível que sua vida errante tenha favorecido atividades relacionadas ao comércio. Além de terem acesso a objetos “maravilhosos” dos lugares por que passavam, conseguiam carregar a sua forma de sustento numa mala sempre que precisavam levantar acampamento.

Ciganos são trapaceiros

Na Idade Média, aquelas pessoas exóticas e desconhecidos eram vistas como bruxas (muitas foram queimadas durante a Inquisição). A vida à margem da sociedade muitas vezes os empurrava à criminalidade. As outras formas que encontravam para ganhar dinheiro – comércio e leitura de mãos – colocavam à prova sua honestidade. Essa confluência de fatores pode ter criado a imagem do cigano trapaceiro.

Ciganos falsificam ouro

Tradicionalmente, muitos grupos ciganos dominam o trabalho com metais. Algumas etnias carregam isso até no nome, como os kalderash (“caldeireiros”, em romani). No Brasil, os ciganos participaram da exploração de minas de ouro no século 18. Junte-se tudo isso à fama de trapaceiros e fica fácil entender a crença de que eles falsificam metais.

Ciganos honram a palavra

Como são um povo sem escrita, as leis ciganas são regidas com base na palavra dada. O não-cumprimento de uma regra ou de um acordo representa uma grande ofensa à sociedade cigana, e quem o faz é desmoralizado perante o grupo.


Para saber mais
Anticiganismo – Os Ciganos na Europa e no Brasil

Frans Moonen, Centro de Cultura Cigana, 2008.dhnet.org.br/direitos/sos/ciganos/index.html

História do Povo Cigano

Angus Fraser, Teorema (Portugal), 1997.

Revista Superinteressante

domingo, 19 de abril de 2009

Ciganos - Fazer o quê?


A política metropolitana em relação aos ciganos era cheia de ambigüidades quanto à sua inclusão no projeto colonial
Andréa Lisly Gonçalves

As Ordenações Manuelinas (1514-21) proibiam que ciganos e seus descendentes ocupassem cargos públicos, eclesiásticos, e recebessem títulos honoríficos em Portugal. Essas proibições tornaram-se ainda mais vigorosas nas Ordenações Filipinas (1603), que, no seu Livro V, título 69, estabelecem “que não entrem no Reino ciganos, armênios, árabes, persas nem mouriscos de Granada”.

As proibições se estenderam à América portuguesa pelo menos até fins do século XVII, quando o destino dos ciganos condenados ao degredo pelas autoridades portuguesas era a África. Em 1754, o governador de Angola, o conde da Cunha, defendeu, sem êxito, que a metrópole promovesse a emigração de ciganos que, por sua resistência ao clima, seriam úteis à defesa de Angola, ajudando na concretização de seu projeto de instalação de uma fortificação que serviria de base para a travessia da África.

Mas em 1698 já se registra a chegada da primeira leva de pessoas da etnia Calon ou Kalé ao Maranhão, deportada de Portugal. Essa etnia compunha a maioria do grupo cigano da Península Ibérica. A escolha do Maranhão não era, de modo algum, aleatória: o destino dos degredados seria as áreas menos densamente ocupadas pelos colonizadores, nas quais o espaço seria disputado com os índios. Ainda que segregados na metrópole, dava-se preferência aos ciganos, e não ao gentio da terra, no processo de ocupação de determinadas áreas da colônia portuguesa na América.

Os primeiros ciganos vindos de Portugal se espalharam rapidamente pelo território brasileiro – há registros da presença de ciganos em Minas Gerais em fins do século XVII. O fato é que a própria política de D. João V, de recrudescer as proibições contra a presença dos ciganos em solo lusitano, resultou na vinda de vários contingentes dessa etnia para o ultramar português, com destaque para o Brasil. Assim, já no ano de 1718 tem-se o registro da presença de várias famílias de ciganos em território mineiro, apesar da oposição da Coroa.


Parece impossível determinar o número de ciganos presentes na capitania de Minas na década de 1730, mas, a se julgar pela preocupação das autoridades em legislar continuamente sobre a necessidade de impor restrições, ou até mesmo de expulsar os ciganos das Minas, é bem provável que sua presença não fosse numericamente insignificante. Por outro lado, e confirmando as ambigüidades da política oficial em relação aos ciganos, não faltaram autoridades que buscaram uma política mais branda em relação ao grupo. Como no caso do governador Gomes Freire de Andrade, que em 1737 recomendava que fossem presos somente os ciganos que cometessem delitos e deixados em paz aqueles que se mostrassem integrados à sociedade.

A insistência com que o governador interino das Minas, José Carvalho de Andrade, defendia junto ao conde de Oeiras, em 1761, o atendimento dos pedidos de alguns ciganos de arrendarem terras e se fixarem na capitania, demonstra que vários ciganos estavam radicados nas Minas Gerais. A contrapartida oferecida pelo grupo seria a de alistarem seus filhos adultos no serviço das milícias, um dos pontos mais sensíveis da administração colonial. No mesmo sentido, apenas um ano antes, em 27 de março, a Câmara de Mariana enviava representação ao rei protestando contra a presença na cidade de uma “casta de gente ... com o título de ciganos tendo só por vida viajarem com toda a sua família de umas para outras comarcas furtando cavalos e tudo o mais que podem por ser assim próprio de semelhante gente” . Mas o documento, após insistir na aplicação de penas severas, inclusive o degredo, aos que fossem surpreendidos na prática de semelhantes crimes, não propõe – diferentemente do que estabelecia o bando de 1732 – que os ciganos fossem “despejados” das Minas. Antes, pedia que fixassem residência, em vez de seguirem errando pelas diversas regiões da capitania.

Ainda que o grupo continuasse identificado com a prática de crimes “contra a propriedade”, várias mudanças foram observadas no tratamento dispensado pelas autoridades e pela população colonial aos ciganos ao longo do tempo. Talvez devido ao papel que alguns de seus representantes vieram a desempenhar no tráfico interno de escravos já no século XVIII. Além disso, muitos senhores de escravos não hesitavam em recorrer ao auxílio dos ciganos para recuperar um cativo fugido de seus plantéis. Afinal, os ciganos eram famosos pelas mais fortes simpatias e orações “para aparecer negro fugido”.

Sobretudo do porto do Rio de Janeiro para as províncias de Minas e São Paulo, tal especialização no tráfico interno de cativos persistiu ao longo do século XIX. Ainda que recaísse sobre os escravos vendidos pelos ciganos – injusta ou justamente – a suspeita de serem produto de furto, o fato é que muitos pequenos proprietários mineiros se abasteceram de mão-de-obra escrava adquirida de comerciantes ciganos. Não é possível saber o vulto das transações realizadas pelos ciganos acusados de comercializarem “carga” roubada, mas surpreendem a ponto de parecer-nos suspeitos, esses sim, os montantes divulgados pelas autoridades. Um documento do ano de 1832 registra “a prisão do cigano Joaquim José de Roiz, suspeito de haver roubado e vendido em Minas e em São Paulo mais de ‘mil escravos’”.

Longe de ser linear, a política metropolitana em relação aos ciganos foi ambígua. As autoridades oscilavam entre proibições as mais abrangentes e a pretensão de incluírem – ainda que de forma instável – esse grupo social nos planos de expansão de seu império colonial.


Andréa Lisly Gonçalves é pós-doutora pela USP e professora do departamento de história da UFOP.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

Ciganos - Meirinhos aristocráticos


Foi como oficiais de justiça que os ciganos calom eliminaram o preconceito contra o grupo e garantiram seu lugar na sociedade carioca
Mirian Alves de Souza

Durante praticamente todo o século XIX e parte do XX, ciganos calom do bairro do Catumbi ocuparam posições bem definidas no Judiciário da cidade do Rio de Janeiro. Observando as árvores genealógicas do grupo, surpreende o fato de quase todos os seus membros ocuparem a função de oficial de justiça, desde a época em que ele era conhecido como meirinho. Pode-se dizer que, entre os calom, o ofício se transformou mesmo em objeto de transmissão hereditária: podem ser identificadas linhas de descendência nas quais toda uma geração de filhos e netos trabalha no métier.

Os calom do Catumbi traçam sua descendência a partir das famílias que chegaram ao Brasil deportadas de Portugal, no fim do século XVIII, e, em menor número, daquelas que vieram acompanhando a comitiva de D. João VI, em 1808. Foi estabelecido um arranjo familiar marcado por intensas relações de proximidade e circunscrito ao bairro do Catumbi, onde estão desde a primeira metade do século XIX.

Sua participação institucional no Judiciário costuma ser assinalada como um importante referencial de sedentarização, pois foi em razão das atividades exercidas na Justiça carioca que o grupo se torna, por assim dizer, parte fixa da sociedade majoritária. Mas atividades exercidas no mercado de escravos africanos também contribuíram para que o grupo fosse gradativamente abandonando o nomadismo, consagrado como referência para a identidade do grupo. De fato, muitos ciganos tiveram êxito nesse ramo, a ponto de ocuparem mais do que posições intermediárias na hierarquia traficante. Membros de famílias incluídas em decretos de banimento conseguiram até mesmo figurar nas listagens das fortunas cariocas e de agraciados com condecorações. José Rabello e José Luiz da Mota tiveram seus nomes registrados na relação dos mais prósperos traficantes de escravos que atuaram entre 1811 e 1830. Enriqueceram e chegaram a despontar com uma visibilidade considerável na vida urbana carioca. A ponto de alguns membros desse grupo bem- sucedido participarem de festividades reais, como o aniversário do príncipe regente D. João, em 1810, e o casamento da filha mais velha de D. João VI.

Gradativamente, a tradicional imagem de paria passava por mudanças substantivas no Rio de Janeiro. Mas a inserção social e econômica dos ciganos na cidade não dissolveu o estigma que os acompanha. Ainda eram conhecidos como ladrões e sedutores de escravos, por exemplo.


A trajetória dos calom do Catumbi se entrelaça a ofícios que, apesar de quase inteiramente desprezados, são fundamentais para a engrenagem de uma cidade escravocrata e indispensáveis ao funcionamento da Justiça. Durante gerações, os ciganos foram quase todos oficiais de justiça, aparecendo vinculados ao Judiciário desde a criação do Desembargo do Paço no Rio de Janeiro. Mas, diferentemente do que aconteceu no mercado de cativos, onde alguns enriqueceram e galgaram posições, no Judiciário os calom estão diretamente relacionados a determinados ofícios: meirinhos, porteiros de auditório, taquígrafos, auxiliares-datilógrafos, oficiais de justiça, comissários de menores, comissários de vigilância. Outros são ainda escreventes, datilógrafos, ficharistas. Mas são, sobretudo, oficiais de justiça. Este ofício parece ter sido um verdadeiro negócio de ocasião, e a ocasião – a oportunidade para ocupá-lo – foi a transferência da metrópole para a Colônia, entre outras coisas.

Ao que parece, os calom souberam aproveitar a oportunidade de trabalho surgida, a despeito de toda a rejeição que lhes era dirigida. Entre os grupos definidos como culturalmente estrangeiros, e em relação aos quais são impostas várias restrições à interação social, é comum o desprezo pelos estereótipos imputados a certos ofícios, pois o mais importante é encontrar e ocupar uma posição na sociedade em que estão.

Quando informantes ou a literatura consultada descrevem o meirinho do tempo do rei ou o oficial de justiça da década de 1940, é comum realçarem signos exteriores de uma identidade profissional compartilhada. De maneira geral, aqueles que ocupavam posições no Judiciário não dispensavam certos apetrechos de distinção. Os meirinhos usavam casaca, chapéu armado e bengala (e até um aristocrático espadim). Avançando no tempo, os oficiais de justiça já não mais se vestiam como à época dos meirinhos. Os ciganos, no entanto, continuaram cultivando certas formas de distinção. Os calom incorporaram a casaca e a bengala ao seu traje profissional, de modo que pareciam formar uma curiosa confraria dentro de seu grupo profissional.

A descrição que nos é oferecida por antigos oficiais de justiça e outros membros do Judiciário está em consonância com o registro da crônica e do romance urbanos, como em Memórias de um Sargento de Milícias, que caracteriza os meirinhos e oficiais de justiça não só por seu vestuário, mas também por uma forma bastante específica de atuação:


Os meirinhos desse belo tempo (...) não se confundiam com ninguém; eram originais, eram tipos: nos seus semblantes transluzia um certo ar de majestade forense, seus olhares calculados e sagazes significavam chicana. Trajavam sisuda casaca preta, calção e meias da mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático espadim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco, cuja significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu armado. Colocado sob a importância vantajosa destas condições, o meirinho usava e abusava de sua posição.

Pode-se dizer que, por meio de sinais indicativos de valor e formas de ação, identificam-se aqueles que exercem o métier. De todo modo, quando se sugere uma correspondência entre o relato de membros do Judiciário e a crônica, deve-se destacar que certo traje e rito podiam até caracterizar aqueles que ocupavam o ofício, mas foram os ciganos que os conservaram até quase a segunda metade do século XX.

A década de 1950 corresponde a um período no qual os calom já estão devidamente, e de forma expressiva, vinculados à atividade cujo recrutamento, até certa época, nos remete à tradição dos antigos ofícios artesanais. A imagem de uma corporação parece adequada para se pensar a forma de ingresso na carreira de oficial de justiça, porque, no interior de tal estrutura, era comum o pai assumir o papel de mestre e ensinar ao filho as artes do ofício. Assim se realizava a inserção profissional de ciganos no Judiciário: desde pequenos eram preparados para o ofício, a exemplo de Rafael Barroso da Costa Verani, que começou a trabalhar “extra-oficialmente” na condição de auxiliar de seu pai, o oficial de justiça Rafael Barroso da Costa Verani.

De modo geral, os depoimentos reunidos costumam apresentar os ciganos como oficiais de justiça bastante eficientes, pois “faziam o que tinha que ser feito, mesmo que a tarefa fosse antipática". Pode-se supor que realmente exerciam o oficio com exação; afinal, seu ingresso dependia da nomeação (ad hoc) dos juízes, aos quais estão diretamente subordinados. Quanto à boa aceitação do grupo na Justiça, costuma-se explicá-la pelo fato de os ciganos serem, por assim dizer, talhados para o ofício, ou seja, bem preparados para o exercício da função. Afinal, por volta dos catorze anos, o cigano era iniciado no oficio na condição de ajudante de seu pai, tio ou avô – acompanhava as diligências, ajudava na rotina dos cartórios.... Daí, quando adulto, tornava-se um candidato preferencial aos olhos do juiz, que vislumbrava nele a continuidade dos bons serviços prestados pelo pai.


Quando se instituem formas diferenciadas de ingresso, nas quais o poder de decisão dos juízes era menor, os ciganos criam mecanismos para continuarem a ser admitidos na função. Um bom exemplo disso são os cursos preparatórios oferecidos por Rafael Barroso da Costa Verani em sua casa. Ele preparava os calom para a prova de habilitação e, em razão disso, era conhecido como “professor”. Desde o começo do século XIX, a família Verani é bastante conhecida entre os oficiais de justiça. Em 1809, encontramos José Manoel Verani como porteiro do Fórum e Antonio Maria Verani como oficial praticante, mas também servindo de porteiro. Paulo Barroso da Costa Verani, cuja competência lingüística e o refinamento intelectual são sempre destacados por aqueles que o conheceram, foi escolhido para ser o primeiro orador da Associação dos Oficiais de Justiça do Estado da Guanabara (hoje AOJA), a entidade de classe mais antiga do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, fundada em 1956. A propósito, a Associação se constitui em resposta à declaração de um corregedor, que classifica os oficiais de justiça como “a praga do Tribunal de Justiça”, alegando que, na época, a classe era “dominada por ciganos”. Esta declaração resultou na mobilização da categoria em uma Associação, que tem na relação dos oficiais instituidores, como era de se esperar, muitos ciganos.

Apesar de declarações como essas, e que reforçam a posição do oficial de justiça na cadeia judiciária, evocar o reconhecimento de sua participação no quadro do Judiciário parece muito importante para os calom, possivelmente por ser essa uma maneira de destacar sua contribuição positiva para a história social da cidade, dissociando-se do conjunto de estigmas que lhes é tradicionalmente imputado ou, pelo menos, referindo-se positivamente a suas propriedades e capacidades concretas.

Evocar sua participação no Judiciário é uma forma de operar o que se pode chamar de “inversão do estigma”. De fato, a posição que os ciganos ocuparam historicamente os colocava ao lado dos mantenedores da ordem pública. Os calom se dedicaram, durante sucessivas gerações, a um ofício que tem fé pública, ou seja, que torna a sua palavra presumidamente verdadeira. Pode-se, sem muito esforço, imaginar a repercussão disso para um grupo constantemente posto sob suspeição.

Contudo, a vinculação dos ciganos ao Judiciário, motivo de surpresa e inquietação, merece que venhamos a observar-lhe o caráter de “trabalho de ocasião”, de uma posição cuja representação, do ponto de vista da hierarquia do Judiciário, é menor e bastante estigmatizada por seus magistrados e serventuários. Isto, no entanto, em nada diminui sua importância para os calom, já que, pelos ofícios que ocuparam, conseguiram conservar seu estilo de vida e garantir a seus membros uma posição bem definida na sociedade carioca.

Mirian Alves de Souza é mestre em Antropologia pela UFF e professora da SUESC e UCAM. Marco Antonio da Silva Mello é Doutor em Antropologia pela USP, professor da UFF e UFRJ e coordenador do LeMetro/UFRJ.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional

Ladrões de crianças


Os primeiros estudos sobre a tradição cigana na cultura brasileira não escaparam dos estereótipos que perseguem o grupo
Cristina Betioli Ribeiro

Muito antes de o médico baiano Alexandre José de Mello Moraes Filho (1843-1919) publicar o Cancioneiro dos Ciganos (1885) e Os Ciganos no Brasil (1886), outras obras de gênero diverso, que figuraram entre os primeiros romances modernos produzidos no Brasil, já cediam espaço às controversas descrições dos chamados calons.

Em As tardes de um pintor (1847), narrativa ficcional do romancista carioca Teixeira e Souza (1812-1861), no capítulo sobre “O campo dos ciganos”, os preâmbulos para a apresentação do personagem Justo – um cigano de fato justiceiro – fazem alusão a uma raça de “antípodas da civilidade e bons costumes”. Nas páginas folhetinescas de Memórias de um sargento de milícias (1852), Manuel Antônio de Almeida (1831-1861) submete seus dois protagonistas, Leonardo Pataca e o filho homônimo, a paixões e aventuras adversas com ciganos, pintados como lascivos, velhacos e “acostumados à vida vagabunda”.

Era de se esperar que em obras de outra natureza, voltadas para as preocupações com as origens de nossas manifestações folclóricas, o tom fosse diferente. No entanto, resistem sensíveis semelhanças. Numa época em que médicos e juristas também se ocupavam de literatura e de estudos culturais, Mello Moraes Filho integra um significativo movimento ideológico que propõe investigações expressamente “científicas” sobre a cultura popular brasileira, em oposição à estética romântica. Este movimento ganha corpo principalmente a partir dos anos 70 do século XIX, sob influência do positivismo. Naquele momento, o folclore é substancialmente tomado como novo mote nacionalista. A maioria dos intelectuais envolvidos nesta corrente reformadora provém ou é simpatizante da Escola de Recife, definição para o grupo de ideólogos formado na antiga Faculdade de Direito pernambucana.

O mestiço, celebrado por Sílvio Romero (1851-1914) como o máximo representante da brasilidade desde “A Poesia Popular do Brasil” (Revista Brasileira, 1879), torna-se alvo dos estudos etnográficos, orientados por pesquisas que buscam nas contribuições portuguesa, indígena e africana os componentes dos costumes, dos usos, das superstições e dos cancioneiros populares.


É com esse espírito que Mello Moraes Filho escreve sobre os ciganos, mas sem se desvencilhar completamente dos juízos de valor sinalizados naquela prosa de ficção de meados do século XIX. No Cancioneiro dos Ciganos, fruto do trabalho direto de coleta de canções nas regiões cariocas habitadas por calons à época (Cidade Nova e Valongo), o discurso é o de resgate de uma poesia que poderia ter origem em costumes da Antiguidade. Para o folclorista, em consonância com seus pares Sílvio Romero, Franklin Távora (1842-1888), João Barboza Rodrigues (1842-1909), Alfredo do Vale Cabral (1851-1894) e muitos outros, o valor do cancioneiro, produzido por “hordas sem culto, sem asilo e sem lar”, seria, portanto, mais arqueológico do que literário. Cultura e arte ciganas são “fossilizadas” neste movimento de apreensão e de descrição etnográficas, única via pela qual Mello Moraes consegue apreciá-las. Embora reconheça um “misticismo admirável” nos versos reunidos, sua essencial identidade popular e seu relevo para a reconstituição do passado, o autor destaca neles um “canto de dor” dos banidos ou subjugados, também caro aos negros e índios, igualmente considerados inferiores em relação à raça branca do português desbravador. Nas “Elegíacas”, reunidas na segunda parte do Cancioneiro dos Ciganos, são reproduzidas as agruras cantadas por um povo oprimido havia séculos. Registrado em redondilhas maiores, métrica típica da poesia oral, o poema expõe as lamentações de um injustiçado: “Para contar os meus males/ Meu natural me contém;/ As sepulturas têm flores,/ A minha vida não tem./ (...) Quando o réu é infeliz/ Mesmo com razão tem crime;/ Sua defesa não vale,/ Sua inocência o oprime./ Se houver um ente que sofra/ Ainda mais do que eu,/ Digam ser meu mal mentira/ E zombem do pranto meu./ Sofro às vezes tantas dores/ Que adormeço soluçando,/ A mim mesmo sou contrário/ O meu pranto motivando.”

A suposta capacidade dos ciganos de manterem suas tradições invioladas no contato com outras culturas poderia ser questionada simplesmente pelas características abrasileiradas desta poesia, apesar da possibilidade de adulterações do registro escrito. Ainda assim, o coletor sustenta a hipótese de uma imunidade cultural e a julga simultaneamente positiva e negativa. Positiva por preservar usos preciosos para o conhecimento arqueológico, mas negativa por levar os ciganos, por resignação, a recair nos vícios e a se manterem “bárbaros” em relação aos povos “civilizados”.

Estas concepções desprestigiam organizações socioculturais distintas dos valores e práticas dos centros urbanos, e estão ligadas às datadas idéias positivistas de progresso e evolução, além de também servirem de base para os julgamentos presentes em Os Ciganos no Brasil.

Nesta segunda obra sobre a raça que teria migrado da Índia para se estabelecer no Egito e sucessivamente em outras nações européias, sobretudo na Espanha, Mello Moraes oferece detalhadas descrições sobre fisiologia, costumes, crenças e festas próprios dos ciganos. Examina a propensão da raça à surdez; destaca a tendência à linguagem cifrada e às alcunhas; comenta a beleza irresistível das calins, formosas, mas de “mau exemplo no lar doméstico”; ressalta o apreço pelas celebrações de casamento e morte; lista e transcreve as mais usuais superstições. Nos chamados bródios, salienta o imprescindível toque da viola e as danças sensuais. Tudo com a tonalidade pitoresca do binóculo de folclorista.

{NOVAPÁGINA}

No tocante à religiosidade, o autor detecta apenas os credos supersticiosos. Fator principal do hipotético atraso mental e da “infância das sociedades”, o fetichismo é considerado, segundo as prescrições da filosofia positiva, uma etapa retardatária do estado teológico humano. Sob pontos de vista semelhantes, o médico maranhense Nina Rodrigues (1862-1906) realiza um exame cultural da mesma natureza sobre os africanos em O animismo fetichista dos negros baianos (1896). O interessante para a discussão de Mello Moraes é exatamente o ponto em que ele flagra a contribuição do “povo misterioso e errante” na “herança psíquica do brasileiro”. Mais do que isso, é quando reconhece no cigano a fonte principal de crendices populares e “a solda da mestiçagem” no Brasil.

A influência na cultura brasileira atribuída aos calons por Mello Moraes é contestada por Sílvio Romero, que recusa a afirmação de que os ciganos teriam participado como “solda” na composição do mestiço e questiona o escorregadio propósito da investigação de fontes há muito permeadas por outras culturas. Se os ciganos retratados por Mello Moraes eram os deportados de Portugal para o Brasil desde o início do século XVIII, como garantir que seus costumes e cancioneiros fossem genuínos? Em que medida não se teriam mesclado aos portugueses e brasileiros?

É certo que, no momento histórico de comemoração da independência política do Brasil e de elaboração das primeiras definições para o povo e o “nacional”, muitos preconceitos foram semeados. Dos índios, por exemplo, o brasileiro herdou o adjetivo “preguiçoso”, relido por Mário de Andrade em Macunaíma (1928), reiterado nos caboclos caipiras dos contos populares, como Jeca-Tatu e Pedro Malasartes, e estendido ao conhecido atributo do “jeitinho”.

Dos ciganos, permaneceu mais a idéia de imisturáveis, “supersticiosos, desclassificados e desconfiados” do que de participantes da formação do brasileiro. Também vítimas do estigma de ladrões, qualidade associável às antigas práticas asiáticas de “pilhagem”, os ciganos foram alvo de perseguições policiais e rejeitados pelo projeto civilizador do Brasil oitocentista. O mito de que os ciganos roubavam crianças, já inscrito nas Novelas exemplares (1613), de Miguel de Cervantes (1547-1616), desde o século XVII, foi reforçado ao longo do tempo pela ótica depreciativa sobre seus hábitos e modo de vida. Casos nunca comprovados de raptos de crianças por ciganos, possivelmente ligados ao acolhimento voluntário de filhos ilegítimos ou enjeitados atraídos pelo convívio mambembe, consolidaram a imagem de que os ciganos eram perigosos (assassinos e canibais), exemplo de barbárie, e, portanto, uma “casta” a ser afastada da sociedade que se queria fundar no Brasil. Contrários aos modelos de conduta cívica e virtuosa, estritamente recomendados aos leitores de romances do século XIX, os ciganos eram maus exemplos, mas exóticos e fascinantes. Os “ladrões de crianças” eram personagens interessantes para a literatura, porém maus cidadãos. Na condição de marginalizados, muitos ciganos de fato se rendiam à exclusão e correspondiam à imagem preconcebida de marginais, tornando-se alvo de ocorrências policiais e notícias jornalísticas, que sedimentavam opiniões negativas e generalizadas sobre o seu povo.

(NOVAPÁGINA}

Neste contexto político e ideológico é que começaram as pesquisas e os registros sobre a cultura cigana no Brasil. As descrições sobre seus costumes e manifestações artísticas, envoltas em preconceitos, mistificações e banimento social, vinham impregnadas da expectativa de “branqueamento” da população e da exaltação científica do progresso das civilizações.

Mesmo depois de muito tempo, as convicções culturais plantadas no passado permaneceram influentes sobre os estudos de folclore. As diversificadas formas de expressão popular, intrincadas, ininterruptas e constantemente mutáveis, continuam sendo associadas à extinção ou à corrida contra o tempo. Muito do que permanece das iniciativas válidas, mas problemáticas, de “salvação” do seu manancial, resulta, em parte, na perpetuação de caricaturas sociais ou de falsos estereótipos.


Cristina Betioli Ribeiro é doutoranda na Unicamp e autora da dissertação de mestrado “O Norte – um lugar para a nacionalidade” (Campinas, IEL-Unicamp, 2003), sobre os primeiros folcloristas brasileiros.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional