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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Ovo que vem de longe

A troca de guloseimas durante a Páscoa é muito comum, alem de ser uma tradição muito antiga, que nos remete à Europa do século XIII

Equipe RHBN

Coelhinho da Páscoa, o que trazes pra mim?
Um ovo, dois ovos, três ovos assim
Coelhinho da Páscoa, que cor eles têm?
Azul, amarelo e vermelho também.


A quadrinha popular que se ouve na voz da criançada com a proximidade da Páscoa anuncia a troca de guloseimas no domingo que encerra a Semana Santa. A tradição é antiga na Europa, remonta ao século XIII, quando os estudantes da Universidade de Paris, após entoarem salmos e cânticos de louvor a Deus em frente à catedral, saíam, organizados em procissão, recolhendo presentes. As ofertas, especialmente ovos, eram distribuídas para parentes, amigos e vizinhos. Os ovos, tingidos de azul ou vermelho, simbolizavam o renascimento, a ressurreição e a imortalidade.

Confeccionados em madeira ou argila, com o tempo eles passaram a ser pintados e decorados com requinte. No Brasil, o costume de receber e distribuir ovos de Páscoa data apenas dos anos 1920, introduzido pela colonização alemã nas cidades do Sul. Aos poucos, a prática se espalhou em massa de chocolate pelas confeitarias do resto do país, para o pecado de todos.
Revista  de História da Biblioteca Nacional

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

A História de Deus: visões do paraíso

Literatura da Suméria, Ugarit e Babilônia e tradições orais dos antepassados dos hebreus marcam a história do "Éden"

O Leviatã, figura muitas vezes identificada com a serpente do paraíso (Behemoth e Leviatã, ilustração, William Blake, 1805)

Jeanne Chaillet

No início, no universo perfeito que Deus acaba de criar, há um lugar mais perfeito ainda: o jardim que ele planta com amor para habitá-lo com o homem. Lá se encontram todas as árvores do mundo, todos os animais e todos os pássaros do céu. O que falta ao homem? Uma mulher para amar, que forme com ele uma só carne. Os dois só precisariam viver na felicidade eterna, em harmonia com o Criador. No entanto, a serpente tenta a mulher que, com seu marido, come o fruto proibido da árvore do conhecimento do bem e do mal. O mundo descamba: o animal se torna hostil, a mulher dará à luz na dor, a terra se cobrirá de espinhos, o homem penará todos os dias de sua vida antes de retornar ao pó. Tal é o veredicto de Deus, que, num último gesto de amor, faz ele próprio vestimentas para os banidos. O jardim se fecha para sempre.

A história do paraíso terrestre é marcada pelos mitos do Oriente Próximo: literatura da Suméria, da Babilônia, Ugarit e tradições orais pertencentes aos antepassados dos hebreus. Os escritos mais antigos seriam os herdeiros de um fundo lendário comum ao Oriente Próximo, veiculado por tribos nômades.

UM PARAÍSO MAIS SÓBRIO


A descrição do jardim do Éden tal qual ela aparece no segundo capítulo do Gênesis é de grande sobriedade com relação àquela dos outros lugares paradisíacos orientais. “E Deus plantou um jardim no Éden.” A palavra “Éden” está presente em várias línguas semíticas e designa uma terra arável ou uma planície fértil. Quanto a nosso “paraíso”, ele vem do grego paradeisos, cuja origem é persa: pairidaêza, o terreno da residência do rei Ciro, senhor da Babilônia e libertador dos judeus deportados. Esse terreno no meio do qual passa o rio Meandro comporta pomar, jardim e domínio de caça. Na língua corrente, paradeisos designa um pomar e traduz a palavra hebraica gan: um jardim fechado.

“O Eterno Deus faz brotar do solo árvores de todo tipo, agradáveis de ver e com bons frutos para comer, a árvore da vida no meio do jardim (...). Um rio saía do Éden para irrigar o jardim (...).” A água, as árvores e a planta da vida ocupam um grande espaço nos mitos do Oriente antigo: El, pai dos deuses de Ugarit, reino cananeu, reside nas alturas, na nascente dos rios; na Babilônia, a deusa Ishtar é aspergida com água para subir dos infernos; nas cerimônias, recolhe-se do confl uente do Tigre e do Eufrates a água de Eridu, que, acredita-se, provém diretamente do Apsou, oceano de água doce de onde sai a planta da vida.

O herói mesopotâmico Gilgamesh, em busca do precioso vegetal que lhe garantirá a imortalidade, deve ir primeiro à “embocadura dos rios”, antes de chegar num jardim cujos frutos são rubis e a folhagem, lápis-lazúli. Na Pérsia, o soberano da idade de ouro vive nas alturas, num jardim de onde brota a água da vida, que garante a fertilidade da terra, e onde crescem árvores mágicas, notadamente a da vida.

Se no Gênesis as árvores do paraíso terrestre são as de um pomar, Ezequiel, profeta do exílio, falando ao rei pagão de Tyr, toma emprestados dois outros elementos aos mitos orientais: “Tu estavas no Éden, o jardim de Deus, tu estavas coberto de toda espécie de pedras preciosas (...). Tu estavas sobre a santa montanha de Deus” (Ezequielo 28, 13-14).

Leia este artigo na íntegra na História Viva Volume III à venda nas bancas, livrarias.
Jacques-Noël Pérès, biblista, é pesquisadora de Línguas Orientais Antigas
Revista História Viva

A História de Deus: Maomé espalha a palavra


A vida de Muhammad se divide em antes e depois da Revelação (Retrato do profeta Maomé montado no Burak, guache em papel com folha de ouro, anônimo, séc. XVIII)

Mahmoud Hussein

O leitor ocidental que aborda a vida de Muhammad (Maomé) tem de tentar fazer um esforço de desenraizamento cultural. Aventura-se em um espaço e um tempo inabituais. É preciso, em primeiro lugar, livrar-se do hábito de pensar que só existe uma única figura de fundador de religião possível, a de Jesus. Renunciar a julgar o primeiro por referência ao segundo. Aceitar a diferença que separa não somente suas duas personalidades, mas também as circunstâncias em que eles pregavam. Só assim para acolher Muhammad ibn’Abdallah ibn’Abd al Muttalib – seu nome completo – em sua própria verdade.

Como seu sermão se desenvolve em uma sociedade de tradição oral, os testemunhos escritos de que dispomos para traçar seu perfil são de duas ordens. De uma parte, o Alcorão, que contém muitos versículos a seu respeito. Ele nos fornece informações confiáveis sobre diferentes eventos de sua vida, mas esparsas e lacônicas. E, de outra, os hadiths – os preceitos do profeta – e a sira – os testemunhos de seus companheiros sobre seus feitos e gestos. Esses dois corpora são infinitamente mais ricos em informações sobre ele, porém mais problemáticos, visto que só foram transcritos muito tempo mais tarde.

Há um antes e um depois na vida de Muhammad. Antes e depois da Revelação. Antes, Muhammad era um homem sem história. No âmbito social, ele vivia em harmonia com o mundo tribal que o cercava. Nascido em Meca, no ano 570, pertencia ao clã dos Banu Abd al-Muttalib, guardiães do santuário pagão da Caaba (Ka’ba, o Cubo), venerado em grande parte da Arábia. Mas a fortuna desse clã estava em declínio. Aos 25 anos, casou-se com uma rica viúva, Kadidja, 15 anos mais velha que ele. Ela o protegeria das necessidades e, sobretudo, o apoiaria durante as provas que teria de enfrentar. No plano pessoal, ele se distinguia por disposições intelectuais que o levavam a retiros solitários para reflexões, e também por uma curiosidade que o levou a procurar a companhia dos “detentores do saber” com que ele cruzava, principalmente durante seus périplos em caravanas.

Por volta do ano 610, ele recebeu a Revelação. Deus lhe anuncia que o havia escolhido como seu último mensageiro. Sua vida entra, então, em uma fase radicalmente nova, em que ele lança um desafio frontal a alguns fundamentos da sociedade tribal da qual ele provinha e revela qualidades pessoais até então despercebidas, como para se colocar à altura da missão que lhe cabia. A Revelação se manifestou muitas vezes seguidas, para guiá-lo, revelando-lhe a Palavra de Deus sob a forma de versículos reunidos após sua morte em um livro, o Alcorão.

Leia este artigo na íntegra na História Viva Volume III à venda nas bancas, livrarias.
Mahmoud Hussein, doutor em filosofia política, é autor da série televisiva francesa L’âge d’or de l’Islam
Revista História Viva

A História de Deus: as religiões de axé


O nkisi Nkondi, em representação congolesa do século XIX

  Tatiana Henrique Silva

Modificar seus hábitos, esquecer as suas tradições, a sua família. Ter de recriá-las em solo novo, desconhecido, distante um oceano inteiro. Essa é a já conhecida fábula ao revés enfrentada pelos escravizados na África que foram trazidos para o Brasil ao longo de séculos de sistema escravista brasileiro. Nesse período, etnias africanas – de muitas não temos tipo algum de registro, escrito ou oral – foram silenciadas perenemente, hábitos, apagados, modos de pensar, dissolvidos na travessia.

A tradição oral – isto é, o conjunto de saberes e práticas de uma sociedade, transmitidos pelas gerações através da oralidade, ou seja, da experiência coletiva cotidiana ou ritual – foi o veículo que permitiu a esses povos organizar seu planejamento identitário. Se “a oralidade é uma atitude diante da realidade”, todas as suas práticas e as ideias que as fundamentam seguem em direção à ideia de ancestralidade, ou seja, à memória coletiva.

Na língua ioruba, a ideia de afoxé nos traz a relação entre oralidade e ancestralidade. “Que a palavra possa tornar-se realidade”, ou seja: para que possam agir, as palavras devem ser pronunciadas. Para que assim seja, elas encontram o corpo como veículo das ideias. O conhecimento acumulado do grupo fornece o espírito dessas ideias. Logo, a tradição oral se desloca como tradição corporal (corp-oral): o corpo ordena o discurso da tradição através de suas gestualidades, das mínimas às grandiosas, pelos cantos, ruídos e silêncios.

O corpo atravessa o tempo, inscrevendo em si as memórias desses grupos. Ritos de iniciação, de passagem, de continuidade, o trabalho cotidiano, o compartilhamento da história transformam o corpo transitório em repositório do tempo mítico. Porém, uma vez deslocado do seu ambiente coletivo, levado à situação da escravidão, como prosseguir com essas marcas identitárias?

A tradição corporal é profunda, capaz de atravessar tempo e espaço. É assim que o plano religioso se torna o principal canal do reencontro com as origens culturais – as quais nunca se separaram. Irmandades, capoeiras, batuques – onde as etnias se encontravam e negociavam suas tradições – e tantas outras denominações nasciam e se configuravam como novas memórias.

Leia este artigo na íntegra na História Viva Volume III à venda nas bancas, livrarias.
Tatiana Henrique Silva é mestre em memória social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e licenciada em Letras pela Universidade Estácio de Sá (Unesa) 
Revista História Viva

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Como são os rituais pós-morte das grandes religiões?

 
Sheyla Miranda

BUDISMO

Após sete dias da morte, familiares e amigos reúnem-se para celebrar a memória do falecido, e esse encontro repete-se em intervalos de sete dias, até o 49º, completando sete reuniões. No Brasil, o mais comum é realizar apenas a última reunião

FESTA AO AR LIVRE

O Obon é uma celebração praticada no Japão ou em colônias japonesas, que acontece em 15 de julho ou em 15 de agosto todos os anos. Famílias enfeitam o templo ou áreas ao ar livre com velas e lanternas coloridas, dançam ritmos tradicionais e rezam para homenagear as pessoas queridas que já se foram

VÁRIOS ANIVERSÁRIOS

Também fazem parte da tradição os "ofícios memoriais", em que a família oferece uma cerimônia para celebrar o falecido. Elas ocorrem nos seguintes aniversários de morte: 1º, 3º, 7º, 13º, 17º e 33º. Nessas ocasiões, os mais chegados leem textos sagrados e relembram como era a relação com o morto

HINDUÍSMO

Após a cremação, a família é considerada impura e deve tomar um longo banho ao voltar para casa. O período de reclusão dura de 7 a 40 dias. Todos ficam em casa, comem só coisas leves, livram-se dos pertences do morto e fazem orações. Durante o período, os familiares não frequentam templos nem o comércio

CRISTIANISMO

O luto católico pode durar 7, 30 ou 365 dias, dependendo da vontade dos familiares. Antigamente, as mulheres vestiam preto por pelo menos um ano quando pai, marido ou filhos morriam

ORAR SEM CESSAR

O clássico ritual fúnebre dos católicos é a missa de sétimo dia, celebrada para iluminar a alma do falecido, já que acreditam em ressurreição. Para eles, 2/11 é uma data especial: o Dia de Finados, em que os fiéis oram pelos mortos e os reverenciam. Protestantes oram e se confortam sem rituais marcantes

ISLAMISMO

Em países árabes, três dias após a morte, parentes do falecido contratam vários qãri' , profissionais que declamam o Alcorão ao lado da sepultura. O ato iluminaria o corpo em sua viagem até a eternidade. Ritual mais comum é o encontro de amigos e familiares, depois de 40 dias do óbito, para lembrar o falecido

JUDAÍSMO

Após o enterro, alguns grupos da religião judaica não costumam ir direto para casa; os enlutados mais próximos alteram a rota, param em algum lugar e pedem algo doce para comer. O desvio do caminho é feito para "despistar o anjo da morte" e o açúcar ingerido disfarça o amargor causado pelo óbito

LONGO RECOLHIMENTO

Ao voltar do cemitério, a família fica em casa, de luto, por sete dias. Três vezes ao dia, fazem orações e recebem visitas. Tudo o que reflete, como espelhos e porta-retratos, fica coberto , para que o morto não "veja" a própria imagem. Ao fim do período de luto, a família caminha nas proximidades da casa

ÚLTIMA HOMENAGEM

O último ritual fúnebre dos judeus é a inauguração da lápide , que não é colocada no enterro. O tempo de espera varia de país a país: em Israel, segue-se o tempo mínimo, um mês; no Brasil, a lápide só é colocada 11 meses após a morte. Na cerimônia, o túmulo é coberto com um pano preto e pequenas pedras

CONSULTORIA - Cecilia Ben David, coordenadora pedagógica do Centro de Cultura Judaica; Swami Krishna Priya Ananda, mestre espiritual da Sociedade Internacional Gita do Brasil; Cido Pereira, padre da Arquidiocese de São Paulo; Shake Juma, do Centro de Estudos e Divulgação do Islã; Naguni Seishin, monge do Templo Budista Koyasan Shingonshu Nambei Betsuin da América do Sul
Revista Mundo Estranho

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Reis Magos: origens e tradições populares brasileiras


Bandeira de Folia de Reis
 Xilogravura Bumba-Meu-Boi

Cartaz da “Cabalgata de Reyes Magos” (1999, Sevilha-Espanha)


A história dos personagens cristãos e suas representações na cultura


As celebrações em louvor aos Reis Magos ocorrem basicamente entre o Natal e 6 de janeiro, dia de Santos Reis: é o terceiro momento do ciclo festivo do Natal, que se integra ao patrimônio artístico e cultural. Para alguns, esta alegre manifestação de religiosidade popular teria surgido entre nós; entretanto, ela se originou bem mais remotamente. Esses personagens bíblicos surgem no capítulo 2 do Evangelho de São Mateus, no episódio da Adoração dos Reis Magos, que a eles alude vagamente, sem especificar nomes, categorias, número ou procedência. Após meditação exegética, Apologistas e os Pais da Igreja – Gregório, Ambrósio, Jerônimo, João Crisóstomo, Agostinho e Tomás de Aquino, entre outros, formularam os primeiros dogmas e rituais cristãos e se manifestaram sobre os Magos.

No século VI, os Magos já eram considerados “Reis” e o Papa Leão I, o Grande, fixou-os em número de três. No século XII, em documento atribuído ao monge beneditino inglês Beda, surgem os nomes definitivos: Gaspar, Balthazar e Melchior, e suas descrições foram estabelecidas. Os Magos influenciaram artes e tradições populares desde os primórdios da cristandade. O pesquisador francês Gilbert Vezin, autor da obra clássica “L’Adoration et le cicle des Mages dans l’art chrétien primitif" afirma de modo categórico: “O tema da Adoração dos Magos foi o assunto mais popular e frequente que se expressou na Arte, no Oriente e no Ocidente”.

Na Idade Média, em Creccio-Itália, São Francisco de Assis concebeu, em 1223, a representação da cena da natividade (Presépio), na qual se incorpora a figura dos Reis Magos. Esta criação difundiu-se por toda a cristandade, dando notável impulso ao processo de evangelização da doutrina cristã, passando a estar também presente nos lares mais humildes em zonas rurais e pequenas localidades distantes dos aglomerados urbanos.

Surgiram também estórias e lendas envolvendo os Reis Magos, no sentido de “(...) complementar o que faltava à imaginação popular (...)”, anota o historiador de arte francês Émile Mâle, em artigo publicado nos alvores do século XX, na Gazette de Beaux-Arts. Prossegue o autor: "O povo achava os evangelhos muito suscintos(...). Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais material para o povo que a ‘Adoração dos Magos’. Suas misteriosas figuras mostradas veladamente nos evangelhos despetavam ávida curiosidade nas pessoas.” Dentre essas histórias, sobressai o manuscrito Historia Trium Regum, de Johannes von Hildesheim, carmelita alemão e professor de teologia em Paris, publicado entre 1364-1375, para elucidar a origem dos Magos.

Seus restos mortais, transladados do Oriente para o continente europeu, estiveram desde o século VII abrigados inicialmente num modesto templo construído à época nos arredores de Milão, na Itália. A partir de 1164 seguiram para a Alemanha e encerrados numa urna dourada instalada no altar mor da Catedral de Colônia. Esta grandiosa obra de arte - ouriversaria passou a ser conhecida como “Relicário de Santos Reis”.

O assunto é...

O texto de Hildesheim mereceu ensaio crítico, na reputada coleção "Early English Text Society", em 1876, assinada por seu presidente C. Horstmann, reconhecendo “(...) o grande número de manuscritos espalhados na Inglaterra e por toda Europa cristã, o que comprova a grande popularidade do referido manuscrito”. E conclui: “(...) o assunto dos Três Reis Magos tornou-se um dos temas favoritosda Idade Média, eram os santos mais populares do mundo cristão”. Afora a Terra Santa, as peregrinações a Colônia só eram suplantadas pelas de Roma e de Santiago de Compostela.

A presença dos Magos nas artes visuais alcançou o apogeu na Renascença: artistas de muitas nacionalidades retrataram a Adoração dos Magos. Giotto di Bondone(1266-1337) representou como cometa a estrela que conduziu os Magos do Oriente a Belém, depois de o Cometa Halley passar sobre a Europa, em 1301. O próprio Leonardo da Vinci deixou pintura incompleta da Adoração dos Magos.

No domínio da música clássica, destacam-se as composições de Johann. Sebastian Bach (1685-1750), num ciclo de cantatas dedicadas à solenidade da epifania. Consta que Goethe(Johann Wolfgang von Goethe, 1749-1832), inspirado nos Magos, compôs o poema “Epiphanias”, redescobriu o manuscrito de Hildesheim, em 1818, e se empenhou em traduzi-lo para o alemão, entregando a tarefa ao poeta alemão Gustav Schwab, que não só o traduziu, mas escreveu poema para fazer parte do texto. Publicado em 1821, incorporou pequeno poema de Goethe que conclui: (...) pois, afinal, somos todos Reis Peregrinos, ao alvo querendo chegar.

No medievo, o episódio dos Magos do Oriente era representado nas igrejas européias através dos Dramas (ou Autos) Litúrgicos Medievais, Mistérios ou Officium Stellae. A dramaturgia sobre os Magos se sobressaiu como um dos temas mais apreciados para encenações segundo Karl Young ( The Dramas of the Medieval Church) e William Smoldon(The Music of the Medieval Church Dramas), reconhecidos estudiosos do teatro medieval.

Alguns Autos eram dialogados, outros musicados, como dramas musicais, óperas, ou operetas. Foram famosas as dramatizações do século XII, nas catedrais francesas de Rouen, Limoges e Besançon, cujos originais em latim ainda estão conservados na Biblioteca Nacional da França.

Na Espanha, encenava-se o Auto de los Reyes Magos, de autor desconhecido. Encontrado na Catedral de Toledo, o texto é incompleto e escrito em linguagem castellianizada e influída por el dialecto mozárabe, sendo reconstituído por Ramón Menendez de Pidal, com data provável do século XII, e considerado la pagina más antigua del teatro español.

Presume-se que esta peça se disseminou pela Península Ibérica, influenciando obras similares, abundantes nas literaturas hispânica e lusa. A propósito, cabe mencionar que na Espanha o dia de Reis permanece feriado. Retomando o ensaio de C.Horstmann, se observa um aspecto interessante nas festas medievais dos Reis Magos, de natureza nitidamente profana: “A celebração no dia de Santos Reis era solenizada com incomum alegria e esplendor, com encenações dramáticas dentro da igreja e de mascaradas(sic) fora (...)”.

Émile Male, também referendado anteriormente, registrou a tendência de popularização dos dramas litúrgicos medievais sobre os Magos: “(...) ganhavam o gosto popular e no século XIV o drama dos Magos não se representava somente nas igrejas, mas também em pleno ar livre”. Ele a ilustra, relatando o cortejo dos Reis Magos, dos dominicanos em Milão, em 1336. Esta milenar tradição voltou a ser representada em 1962, após longa interrupção.

Cidades europeias realizam cortejos similares: Florença, Sevilha e Coimbra, dentre outras. No tocante a Portugal, Luiz Francisco Rabelo na “Breve Historia do Teatro Português alude a não aceitar que: “ as manifestações místicas de Idade Média, religiosas ou profanas não houvessem chegado ao extremo ocidental da Península Ibérica”.Mais adiante, conclui:” As Ordens Religiosas que se instalaram em Portugal, certamente trouxeram consigo os mistérios”.

Assim, ordens religiosas na Espanha e em Portugal incorporaram os dramas litúrgicos dos outros países europeus para ensino e propagação da doutrina cristã. Na quadra natalina, grupos peditórios iam de casa em casa, pelas aldeias e freguesias: na Espanha, o costume dos “Villancicos” e, em Portugal, os “Cantares de Janeiras e Reis.”

As tradições populares ibéricas, como dramatizações ou grupos peditórios, foram transplantadas para o Brasil. Os jesuítas que aqui aportaram com o primeiro Governador Geral Tomé de Sousa, em 1549, utilizavam essas tradições sob forma de canto, dança e encenação, na catequese e no ensino a indígenas e colonos portugueses – reinóis. Anchieta, o precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs (a pedido do Padre Manuel da Nóbrega), ensaiou e representou sua peça Pregação Universal, reintitulada Na Festa de Natal, na igreja dos Jesuítas em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e Dia de Reis de 1562. Nesse Auto, insere-se ato com a presença dos Reis Magos.

Sobre o auto, o Padre Armando Cardoso, em obra sobre o teatro anchietano, assegura que a peça foi encenada noutros núcleos jesuítas, no litoral brasileiro. Um deles, o dos Reis Magos, localizava-se no Espírito Santo, 20 km ao norte de Vitória - atual localidade de Nova Almeida -, sendo aí erigida a igreja dos Reis Magos, marco jesuítico do Brasil, tombado pelo IPHAN, em 1943.

Outro registro consta do Compêndio Narrativo do Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, citado por Luiz da Câmara Cascudo: “desses grupos pedindo os Reis (no sentido de oferta) na Bahia, na segunda metade do século XVII”. Do Compêndio, o etnógrafo português Leite de Vasconcellos extraiu comentário sobre a presença de mascarados(sic) nas peças jesuítas.

Graciliano Ramos, atento observador de nossos costumes, no conto Um Natal, escreveu:
“O Natal, festa profana, alcança duas outras; Ano Bom e Reis. Começa dia 24 de dezembro e termina 6 de janeiro, representa uma solução de continuidade nas aperreações do sertanejo”. Assim, entre nós, as tradições populares dos Reis Magos derivam de manifestações ibéricas, em rituais litúrgicos e paralitúrgicos que sofreram influências locais, regionais e étnicas. Realizados no interior das igrejas, pouco a pouco, foram se popularizando no meio rural, praças e ruas. No Brasil, são designados por Reisados, “festejam o Natal e os Reis”, segundo Câmara Cascudo. Compreendem: Folias ou Companhias de Reis, Tiração de Reis, Presépio,Pastor, Pastorinhas, Pastoris e o Bumba meu boi do nordeste oriental.

Há, ainda: Cavalo Marinho, Boi de Reis,Reis de Boi, Terno de Reis (baiano e sulino), Reiadas e outras mais expressões dessa tradição popular, disseminada por quase todo território brasileiro.


Affonso M. Furtado da Silva é vice-presidente da Comissão Nacional de Folclore, membro do Conselho Estadual de Cultura/RJ e autor de Reis Magos: história, arte e tradições (Léo
Christiano Editoria)

Colaboração de Affonso M. Furtado da Silva 
 http://www.cultura.rj.gov.br

quarta-feira, 23 de abril de 2014

São Jorge contra o dragão de cada dia

São Jorge contra o dragão de cada dia

Santo guerreiro supera resistências e conquista devotos

FRANCISCO LUIZ NOEL
Procissão de São Jorge em Quintino, no Rio de
Janeiro / Foto: Divulgação


Provas de que ele teria vivido um dia em carne e osso são inexistentes, assim como relatos documentados de seus milagres, sem contar a façanha de ter abatido um dragão a golpes de lança, desferidos do alto de um cavalo branco. Nem a Igreja põe a mão no fogo quando o assunto é a vida terrena de São Jorge, mas os adeptos desse ícone da religiosidade popular no Brasil não dão a mínima para a reticência das autoridades eclesiásticas e a resistência dos incrédulos. Aos que só acreditam vendo, os devotos respondem com a fé nos poderes de proteção do santo guerreiro, cultuado com reverência fervorosa no dia de sua morte presumida – 23 de abril – e invocado ao longo do ano como poucas outras santidades do panteão católico.

Figura de envergadura nacional entre os brasileiros, São Jorge tem seu maior santuário nas terras cariocas, onde ofusca o prestígio do padroeiro do Rio de Janeiro, São Sebastião, festejado no feriado municipal de 20 de janeiro. Um e outro encarnam a condição de mártir, como militares convertidos ao dogma cristão e perseguidos pelo Império Romano. “Os dois eram cultuados em Portugal quando teve início a colonização do Brasil. O primeiro, evocado com grito de guerra no começo das batalhas campais; o segundo, contra a peste”, diz na Universidade Federal Fluminense (UFF) a historiadora Georgina Silva dos Santos, que estuda a religiosidade popular e tem tese de mestrado sobre a irmandade portuguesa de São Jorge nos tempos da Inquisição.

Na igreja carioca dedicada a São Jorge, matriz da paróquia do subúrbio de Quintino, o pároco Marcelino Modelski traça um paralelo entre os adeptos dos dois mártires. “Os devotos de São Sebastião têm uma característica: de modo mais expressivo, são católicos tradicionais, fiéis de preceito, de missa dominical, que têm na Igreja não apenas uma referência ocasional, mas uma vivência comunitária. É uma fé mais madura, mais esclarecida, que busca o santo não para pedir coisas, mas como inspiração para uma vida de santidade, de doação, de desprendimento, de serviço ao próximo, de amor a Cristo.” O pragmatismo marca os seguidores de São Jorge, que apelam por proteção e força frente às adversidades do dia a dia.

Sob o crivo da ortodoxia religiosa, as duas entidades detêm status distinto no Cânon do Vaticano, que contém uma longa lista de santos oficiais da Igreja. O respeito devocional ao Dia de São Jorge não é obrigatório para os fiéis desde maio de 1969, quando o papa Paulo VI passou a limpo o calendário litúrgico e tornou facultativo o culto de vários santos destituídos de provas documentais de que tenham existido – carência de que não partilha Sebastião, com vida comprovada na região da Itália, no século 3. “Não há dados históricos sobre a vida de São Jorge, mas, desde o início do cristianismo, a Igreja acolheu e respeitou o processo de transmissão da devoção”, salienta o pároco de Quintino.

Sempre figurado com elmo e lança de militar medieval, capa vermelha, cavalo branco e o dragão subjugado no chão, São Jorge ganhou fama por personificar valores como fé e coragem diante das forças associadas ao mal. Padroeiro de Portugal e Inglaterra, da espanhola Catalunha e do escotismo, o santo é personagem recorrente na cultura brasileira. Além de venerado em altares e terreiros, inspirou o cineasta Glauber Rocha em O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, ícone do Cinema Novo, e compositores como Jorge Benjor, Caetano Veloso e Djavan. Em São Paulo, é invocado como protetor pelos corintianos; no Rio, influencia até o ilegal jogo do bicho. Em 23 de abril, como é grande a jogatina no cavalo, o animal é “cotado” pelos bicheiros, que pagam prêmios menores nas apostas feitas no quadrúpede.

Proteção e segurança

Padre Marcelino e a historiadora Georgina creditam à força de dois fatores a popularidade do santo guerreiro no Rio: o sincretismo entre o mundo católico e as religiões afro-brasileiras e o sentimento de insegurança reinante entre a população. “A associação entre São Jorge e os orixás africanos contribuiu e ainda contribui para torná-lo uma entidade popular, ultrapassando os limites impostos por classe social, gênero ou etnia”, diz a pesquisadora. Para os umbandistas cariocas, ele é Ogum, guerreiro valente e senhor do ferro, embora a tradição baiana vincule Jorge a Oxóssi, protetor das matas e ciclos lunares. Por isso, o santo passou a bater-se com o dragão na Lua, cenário que só aparece aos olhos dos devotos brasileiros.

O ardor devocional pelo guerreiro, como intermediário do socorro divino ou como entidade autossuficiente, cresce de forma proporcional ao medo da violência urbana. “O Rio vive uma guerra há décadas. O governo se omite, inexistem políticas públicas e a questão é tratada como problema de polícia, e não de garantia de direitos; em consequência, as pessoas buscam quem as defenda. Elas procuram um herói, um lutador, alguém capaz de conter a força do mal, da morte, da violência. São Jorge faz esse papel”, diz o padre, apontando uma identificação particular dos jovens com o santo combatente. “A imagem da vitória sobre o dragão é fortíssima. O devoto diz que é guerreiro como Jorge e faz tatuagens para mostrar isso. Na oração, reza que está vestido com as armas de Jorge, como se dissesse: ‘Sou lutador e vou vencer’.”

Não é por menos que a economia do estado do Rio de Janeiro para pela terceira vez neste 23 de abril, dia transformado em feriado pelo governador Sérgio Cabral Filho, que sancionou, em março de 2008, lei aprovada pela Assembleia Legislativa. Autor do projeto, o hoje deputado Jorge Babu conseguiu alçar a data a feriado municipal no Rio em 2001, quando era vereador. Fazendo eco a queixas surgidas no meio empresarial, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) ajuizou ação direta de inconstitucionalidade contra a decisão do governador. Aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) cabe, agora, decidir se o dia do santo guerreiro continuará sendo de descanso ou voltará a ser de trabalho para os fluminenses.

Muito antes de 23 de abril ser feriado, a afluência de fiéis à Igreja de São Jorge dava prova da pujança da devoção popular. Na festa de 2009, estima o pároco Marcelino Modelski, 100 mil pessoas passaram pelo templo de Quintino, na Rua Clarimundo de Melo. Para fazer frente ao vaivém das multidões na igreja e nas barraquinhas ao redor, a paróquia mobilizou 300 religiosos e leigos. As cerimônias foram abertas às 5 horas, com alvorada ao som de fogos de artifício, que espocaram também em muitos pontos da cidade. Nove missas foram celebradas na igreja, com destaque para a das 19 horas, assistida pelo prefeito Eduardo Paes, de blusa vermelha e branca – as cores do santo. Em seguida, a tradicional procissão saiu pelas ruas do bairro.

Flores, palmas e espadas-de-são-jorge sobressaem entre as oferendas comuns ao santo. “Na festa, temos uma equipe exclusiva para receber as flores, que são passadas diante da imagem, abençoadas e devolvidas, para ser levadas para as casas”, informa o padre. Há nove anos na paróquia, ele assinala que a graça mais solicitada ao santo é a proteção frente às dificuldades da existência cotidiana. Na data, devido à gigantesca quantidade de fiéis, a igreja não atende confissões e ministra a comunhão numa capela montada especialmente para a ocasião. A tradição inclui uma grande queima de velas – “um problema para a igreja e para os bombeiros”, preocupa-se o religioso. Todos os anos, mais de uma tonelada de velas alimenta o fogaréu.

Em volta da matriz, a festa alegra também os donos das barraquinhas. A fé em São Jorge movimenta um diversificado e multicolorido comércio de bens de cunho religioso, marcado pela informalidade. Nas barracas, os fiéis encontram de tudo um pouco com a imagem do santo, incansável na cena em que, do alto do cavalo, nocauteia o dragão peçonhento. A variedade inclui de imagens de gesso e outros materiais, em todos os tamanhos, a camisetas com a estampa do guerreiro, passando por escapulários, gravuras de parede e adesivos coloridos para vidros e carroceria de automóveis.

Exemplo de fé

Ao longo dos séculos, o apelo protetor de São Jorge relegou a segundo plano o exame racional de suas peripécias, a exemplo do que ocorre com outros santos e figuras lendárias, como o rei Artur, que a história não comprova ter vivido na Grã-Bretanha do século 6. “Nos domínios da fé popular, importa mais a eficácia simbólica do que propriamente a veracidade das informações”, explica a historiadora Georgina. “Ao prestar culto, o fiel pretende saturar-se da força extraordinária do santo para lidar com a realidade, injusta e opressora. A superação de um problema engendra uma relação de gratidão que se perpetua no tempo e reforça essa dependência.”

Nas pesquisas sobre a construção da imagem de São Jorge no imaginário popular, Georgina rastreou duas versões sobre a origem do santo. Segundo a mais antiga, que consta de um fragmento de texto em grego, ele foi torturado ao recusar-se a cultuar divindades pagãs. Por manter-se fiel a Jesus, recebeu marteladas na cabeça, calçou sapatos cheios de pregos, foi cortado a golpes de gládio (espada curta das legiões romanas) e bicado por aves de rapina. Sua sobrevivência ao martírio foi obra de Deus, que o fez ressuscitar três vezes. Numa das voltas à vida, o santo curou um boi, sarou o filho de uma viúva, ressuscitou 400 pagãos e arrematou o milagre batizando todos eles.

No século 4, assinala a historiadora, as narrativas sobre São Jorge foram rechaçadas pelo Concílio de Niceia, que as considerou destoantes das Escrituras. Nem por isso os seguidores abandonaram o santo, venerando-o em regiões costeiras do mar Mediterrâneo e no norte da Europa. No ano 916, nova versão sobre Jorge reforçou sua legenda, adicionando detalhes mais verossímeis à vida do mártir. Segundo esse relato, ele foi homem rico na Capadócia, na atual Turquia, integrou o exército romano e negou-se a curvar-se aos deuses pagãos. Preso por ordem do imperador Diocleciano, doou os bens aos pobres e amargou suplícios cruéis, sempre operando milagres. Depois de converter a imperatriz ao cristianismo, foi condenado à decapitação.

Dragão em cena

O dragão entrou na lenda numa narrativa popular registrada no século 13 pelo arcebispo Jacopo de Varazze, de Gênova. Na coletânea de histórias Legenda Áurea, assinala a pesquisadora da UFF, Jacopo relata que o monstro flagelava a cidade de Lida e saciava a fome com animais entregues pelos moradores. Extintos os rebanhos, as oferendas passaram a ser humanas, por sorteio. Quando teve a filha sorteada, o rei não conseguiu quem a substituísse e foi obrigado a cedê-la ao martírio. Jorge passava pelo lugar e, vendo a jovem aos prantos à espera do dragão voraz, matou-o a golpes de lança. Modesto, dispensou a mão da moça, oferecida pelo pai, e fez dois pedidos ao rei: a propagação da fé cristã e o socorro aos pobres.

Como guardião da fé e defensor de povos e territórios, São Jorge foi invocado por espanhóis e portugueses na resistência às invasões árabes e, do século 11 ao 15, na reconquista da península Ibérica. Em Portugal, no século 12, uma igreja foi dedicada a ele pelo fundador do reino, Afonso Henriques. Com a ascensão ao poder da dinastia dos Avis, o santo foi alçado a patrono do país em formação e deu nome ao paço real – o Castelo de São Jorge, em Lisboa. Na fase dos Descobrimentos, na virada do século 15 para o 16, a figura do guerreiro em luta com o dragão era lembrada pelos portugueses nas aventuras nos mares e lugares em que aportavam, dando nome a uma ilha nos Açores, fortificações na costa africana e, no Brasil, à freguesia de São Jorge dos Ilhéus, em terras que hoje pertencem ao estado da Bahia.

A popularidade de São Jorge entre os lusitanos difundiu-se com a incorporação de sua imagem às celebrações do Corpo de Deus, no fim do século 14, destaca Georgina. A festa de Corpus Christi era a mais concorrida de Portugal, reunindo o povo, autoridades da Igreja e do Estado, contando às vezes com a participação do rei. No Brasil, relata a pesquisadora, o santo guerreiro é venerado desde os primórdios da colonização portuguesa, no século 16. “A primeira notícia é trazida indiretamente pelo padre Manuel da Nóbrega, que afirma ter realizado na Bahia uma procissão do Corpo de Deus, segundo os moldes portugueses. Portanto, a dar crédito à voz do jesuíta, São Jorge saiu no cortejo de 1549”, observa Georgina.

A historiadora explica que o culto ao santo tomou impulso no Brasil depois que a família real portuguesa desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808, fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte. Sob dom João VI, Pedro I e Pedro II, a procissão de Corpus Christi ganhou pompa, trasladando ao Brasil a presença de São Jorge nas celebrações. Em sua pesquisa, Georgina reconstituiu o espetáculo de devoção que caracterizava a data: “A aparição do santo no cortejo era o clímax da festa. Vestido como um general, sobre um garboso cavalo, o mártir era saudado com canhonaços. A única figura a rivalizar com ele era o próprio imperador. O aparato cênico da festa decerto contribui para destacá-lo entre os santos do panteão católico”.

Da Capadócia ao Corinthians

No esporte das multidões, a invocação ao santo guerreiro é uma das armas dos corintianos para vencer o dragão nos gramados. Com sede no Parque São Jorge, situado no bairro paulistano do Tatuapé, o Corinthians mantém uma capela dedicada ao santo, representado no altar por uma vistosa imagem comprada na Turquia pela ex-presidente do clube Marlene Matheus, esposa do lendário ex-presidente Vicente Matheus, morto em 1997. Talhada à mão em madeira, a figura do santo foi benzida pelo papa João Paulo II em 1990, junto com camisas do time levadas ao Vaticano por Marlene e uma sobrinha, após gestões eclesiais de dois corintianos – o então cardeal arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, e o monsenhor Arnaldo Beltrami, capelão do clube, falecido em 2001.

A capela foi erguida em 1969, perto de uma bica de água em que umbandistas – entre eles, Pai Nilson, famoso no Corinthians – realizavam rituais com pedidos a Ogum. “Eu via que o culto a São Jorge era forte na umbanda e queria para os católicos uma imagem feita no lugar em que ele nasceu, abençoada pelo papa”, conta Marlene Matheus. A devota lamenta que, nas procissões feitas no clube em 23 de abril, a imagem usada seja menor, de gesso, comprada no comércio local. Em 2008, levada pelos fiéis à capela depois de missa no salão da sede, a figura caiu do andor e espatifou-se. A comoção foi grande, como se já não fosse pouco o Corinthians ter ficado de fora do Campeonato Brasileiro de Futebol daquele ano, rebaixado à segunda divisão.

Marlene Matheus chegou ao papa, em 1990, graças à intermediação do cardeal Arns, que levou a questão a auxiliares de João Paulo II, como o brasileiro dom Geraldo Majella Agnelo, atual cardeal arcebispo de Salvador. Duas décadas antes, Arns havia saído em defesa de São Jorge quando o guerreiro corria riscos na reforma de Paulo VI. No livro Corintiano, Graças a Deus, de 2004, ele conta que escreveu um bilhete ao pontífice: “Santo Padre, nosso povo não está entendendo direito a questão. São Jorge é muito popular no Brasil, sobretudo entre a imensa torcida do Corinthians, o clube de futebol mais popular de São Paulo”. Demonstrando atenção ao tema, o pontífice respondeu também num bilhete, conservado pelo religioso brasileiro: “Não podemos prejudicar nem a Inglaterra nem o Corinthians”.

Entre os paulistanos, contudo, São Jorge não tem o prestígio adquirido no Rio de Janeiro e é bem menos lembrado que Santo Expedito e São Judas Tadeu. Santo das causas urgentes, Expedito, que também foi militar romano, é venerado em 19 de abril e atrai mais de 100 mil pessoas à tradicional festa na igreja do Jaçanã; Judas Tadeu, apóstolo de Jesus e santo dos desesperados, também arrasta multidões a seu santuário, no Jabaquara, a cada 28 de outubro. No Rio, depois de São Jorge, outro santo bem cotado, além do padroeiro e de Judas Tadeu, é Francisco de Assis, protetor dos animais, lembrado em 4 de outubro. Em alta conta entre os fiéis também estão os santos juninos – Antônio, religioso português do século 12, festejado no dia 13, e os apóstolos João e Pedro, nos dias 24 e 29 –, reverenciados de norte a sul do país.

Revista Problemas Brasileiros

São Jorge: conheça a história do santo


Você sabia que no dia 23 de abril é comemorado o dia de São Jorge? Saiba mais sobre a história deste santo guerreiro

Patricia Bernal

São Jorge, o santo guerreiro, foi imortalizado no conto em que mata um dragão
Foto: Dreamstime

Muitas pessoas, independentemente de religião ou crença, acreditam na força da imagem do São Jorge, cuja memória é celebrada todo dia 23 de abril. O que muita gente desconhece é que o santo foi um padre e soldado romano, venerado como mártir cristão. Antes de ser reconhecido como santo pela igreja católica, e como guerreiro do ferro e das matas pelo candomblé, Jorge percorreu terras longínquas e lutou ardorosamente em defesa de sua fé.

O início de sua popularidade ocorreu no auge da perseguição aos cristãos pelo imperador romano Deocleciano - final do século 3, quando o ousado guerreiro passou a defender com muita fé o cristianismo. A imagem de São Jorge é representada por um jovem vestido com uma armadura, sentado em um cavalo branco com uma lança atravessando o dragão, pois o santo é imortalizado no conto em que mata um dragão.

Sucesso em terras brasileiras

São Jorge foi nomeado pelos portugueses como seus padroeiro. Já no o Brasil, quem realmente o popularizou foram os negros africanos. Segundo o teólogo Antonio Carlos Oliveira Souza, na época do Império, os europeus consideravam sua religião superior e proibiam qualquer tipo de manifestação de fé contrária à sua. Para não perderem suas raízes religiosas, os africanos usavam imagens católicas em seus cultos, associando-as a algum orixá para não serem perseguidos. "Esses fatores culturais e religiosos fizeram com que São Jorge encontrasse espaço definitivo também no candomblé" explica o teólogo.

Nas regiões próximas ao Rio de Janeiro e ao Rio Grande do Sul, o cavaleiro da fé cristã é identificado como Ogum, o guerreiro, o deus do ferro e da agricultura. "Aqueles que desejam resolver os conflitos da vida, abrir os caminhos e tirar os empecilhos à sua frente recorrem a Ogum", afirma o pesquisador Reginaldo Prandi. Um pouco mais ao norte, na Bahia e em todo seu redor, São Jorge é identificado como Oxóssi, patrono da caça e da ecologia. "Diferentemente de Ogum, os que invocam Oxóssi pedem alimento e fartura para seu lar", conta o pesquisador.


Oração de São Jorge

Aprenda a oração que você deve fazer na hora de pedir a proteção de São Jorge:

"Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por Nós."
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segunda-feira, 7 de abril de 2014

Fé contagiosa


No início do século XX, médicos e psiquiatras consideravam o espiritismo uma doença mental que ameaçava a saúde pública

Artur Cesar Isaia


Espiritismo e psiquiatria viviam momentos semelhantes no início do século XX: ambos buscavam aceitação social, guiados pelo mesmo ideal moderno – o elogio da racionalidade.

Mas não demorou para que entrassem em choque frontal. Afinal, à luz da ciência médica da época, manifestações mediúnicas eram sinônimo de atraso, uma afronta à civilização.

Para os médicos formados na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro não havia dúvida: o espiritismo era uma patologia. Preocupados em detectar os focos de doenças físicas e mentais, esses cientistas não tardaram em apontar aquela “superstição” como algo extremamente contagioso, capaz de inutilizar grandes contingentes humanos para o trabalho. Precisava, portanto, ser reprimida pelas autoridades e erradicada por meio de intensas campanhas de saúde pública.

“O combate ao espiritismo deve ser igualado ao que se faz à sífilis, ao alcoolismo, aos entorpecentes (ópio, cocaína, etc.), à tuberculose, à lepra, às verminoses, enfim, a todos os males que contribuem para o aniquilamento das energias vitais, físicas e psíquicas do nosso povo, da nossa raça em formação”, escreveu João Coelho Marques em 1929, em tese de doutorado em Psiquiatria apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. No espaço de uma década, três teses defendidas naquela instituição elegeram o espiritismo como assunto principal. Seu conteúdo revela muito sobre as idéias que norteavam a formação médica da época.

A psiquiatria ensinada naquela Faculdade de Medicina foi fortemente influenciada pelo trabalho do baiano Juliano Moreira (1873-1933). Chegando ao Rio aos 30 anos, depois de estudar na Alemanha, ele trazia como principal referência os estudos de Emil Kraepelin, que acreditava na correspondência entre doenças físicas e mentais. Sua teoria permitia identificar “epidemias contagiosas de loucura” – entre as quais se destacava o espiritismo, supostamente capaz de provocar crises de histeria coletiva.

Mas, por se tratar de uma ciência ainda em formação, a psiquiatria passeava por outros referenciais teóricos, como o positivismo e as primeiras e tímidas investidas da psicanálise freudiana. A tese de doutorado de Oscar dos Santos Pimentel, defendida em 1919, cita o positivista alemão Ernst Haeckel (1834-1919), ao colocar o espiritismo em total oposição à ciência: “A nossa descendência de bárbaros explica filogeneticamente a tendência hereditária que temos para a superstição e para o misticismo”. Se Haeckel dizia isso referindo-se à culta Alemanha, o que pensar de um Brasil marcado pela recente herança escravista, com um povo inculto e doente? O autor expressa seu ponto de vista citando a frase de Miguel Pereira: “O Brasil é um grande hospital”. E como todo grande hospital, requeria a presença ostensiva dos médicos, a fim de tentar reverter o quadro degradante de uma população que sucumbia a toda sorte de males orgânicos.

A miséria facilitava vivências patológicas, em que populações ignorantes eram submetidas ao arbítrio de “doentes mentais” como Antônio Conselheiro, em Canudos, e o padre Cícero, em Juazeiro. Catalisador de energias desconhecidas e primitivas, o espiritismo tinha, para os médicos, o poder de transformar homens e mulheres pacatos em feras humanas. Diversos relatos psiquiátricos enfatizavam situações assustadoras. Franco da Rocha, diretor do Juquery de São Paulo e egresso da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, descreveu um caso de “epidemia psíquica” ocorrido em Taubaté, São Paulo, em meados da década de 1880. Nessa ocasião, “escravos, crianças seminuas e outros sectários do espiritismo” seguiam “cegamente” um advogado, “chefe da seita”, que, em nome dos espíritos, propalava a necessidade de imolação de um de seus seguidores, devendo seu sangue ser bebido por todos.

Outro episódio teria ocorrido em Campina Grande, Paraíba. Inquérito policial relata o caso de uma mulher que logo após dar à luz começou a apresentar sintomas de desequilíbrio mental. “Chamado um charlatão, este declarou que se tratava de simples manifestação de um espírito mau, e determinou o jejum obrigatório e coletivo”. Além disso, teria declarado que a cura aconteceria após a vítima ser transformada em um sapo, que deveria ser morto a pauladas. Em determinado momento, “parentes da doente, julgando chegado o momento de matar o sapo, atiraram-se contra ela a socos, pontapés, murros, dentadas e pauladas, deixando o cadáver insepulto” e, finalmente, queimando-o.

Segundo os médicos da época, o espiritismo confundia o povo crédulo com incursões criminosas na prática médica: “No Brasil só há espíritos de médicos. Os que se manifestam, os que atuam sobre os médiuns, nada mais sabem fazer que receitar até mesmo para pessoas que nunca existiram”, acusa a tese de Pimentel.

Se os fenômenos espíritas eram encarados como fruto da sugestão ou da fraude, os médiuns deveriam ser responsabilizados penalmente por seus delitos ou recolhidos aos manicômios. Com um agravante: o preconceito racial, ainda fortemente marcado na sociedade herdeira do escravismo. Basta saber que na primeira edição de seu Manual de Psiquiatria (1921), em que dedica um capítulo inteiro ao espiritismo, o influente Henrique Roxo (1877-1969) reproduz o discurso médico e católico da época, que remetia a crença, no Brasil, a resquícios do fetichismo africano. “Vê-se muito freqüentemente o que se observa no cinema, nessas danças de negros, com seus movimentos extravagantes, suas contorções e seus gestos”, escreveu.

A tese de João Coelho Marques, de 1929, é reveladora do trabalho classificatório da doença mental. Com o título “Espiritismo e idéias delirantes”, analisa relatos de casos clínicos e tenta enquadrá-los na classificação das doenças mentais da Sociedade Brasileira de Neurologia e Medicina Legal. A maioria dos casos foi classificada como “delírios episódicos dos degenerados”, exatamente a modalidade estudada por Henrique Roxo, que formou levas de novos profissionais da época.

O doutorando concluiu que havia duas possíveis ligações entre doença mental e espiritismo: ou o espiritismo aparecia de maneira secundária, acessória, ou (na maioria dos casos) era identificado como diretamente vinculado aos episódios patológicos, “era a causa de tudo”. Quase todos os casos estudados referiam-se a “indivíduos que viviam a estudar o espiritismo, a assistir sessões espíritas, praticando a mediunidade, vivendo assim impressionados com o que presenciavam, tendo o cérebro em estado de superexcitação. Neste estado, um abalo moral, um pequeno desgosto ou um choque emotivo qualquer podem provocar o aparecimento de alucinações”.

Para enfrentar esse problema de saúde pública, era preciso promover campanhas educacionais, na tentativa de reverter a tendência de credulidade popular. “Seria de desejar que, desde os lares, nos jardins-de-infância e nas escolas primárias, se procurasse fazer uma educação mais racional, menos mentirosa e hipócrita, que tivesse por fim refrear a tendência ao sobrenatural e ao misterioso”, afirma. O doutorando apelava à Liga Brasileira de Higiene Mental e à Igreja Católica para sensibilizarem a opinião pública e os poderes constituídos. Propunha uma “Semana antiespírita”, a espelhar-se na já existente “Semana antialcoólica”, que mobilizava a sociedade contra esse mal.

Dementes, charlatões, incultos, histéricos. O diagnóstico psiquiátrico não poderia ser mais distante do caráter atribuído ao espiritismo pelos seus próceres: as obras que embasavam a crença caminhavam na direção da ciência, da razão, da civilização.
Essa possibilidade de diálogo entre ciência médica e espiritismo foi a motivação da corajosa tese “Contribuição ao estudo da Psiquiatria (Espiritismo e Metapsiquismo)”, escrita em 1922 por Brasílio Marcondes Machado. Corajosa porque ia na contramão do pensamento da instituição que deveria julgá-la. O trabalho defendia a revisão dos princípios norteadores da medicina psiquiátrica, propondo a esta o reconhecimento da sobrevivência da alma e a possibilidade de comunicação entre vivos e mortos. O espiritismo deveria ser apresentado como doutrina aparentada com a modernidade, capaz de embasar-se na razão e na experimentação.

Bom exemplo disso, segundo ele, eram os ensinamentos do médico e espírita cearense Adolpho Bezerra de Menezes Cavalcanti (1831-1900), conhecido como o “Kardec brasileiro”. Na obra A loucura sob novo prisma, escrita no final do século XIX, Bezerra de Menezes coloca o espiritismo a serviço de uma nova compreensão da loucura. Defende que casos de demência podem ser creditados à ação persecutória de espíritos sobre o doente. Essa atuação, denominada obsessão, poderia ser neutralizada por meio da doutrinação do espírito obsessor. O tratamento consistia em fazer o espírito perseguidor conhecer a lei do carma, “pela qual terá que pagar em dores todas as que tem feito sua vítima sofrer”.

A tese também envereda pelo campo da interpretação dos sonhos pela psicanálise. O psiquiatra Francisco Franco da Rocha (1864-1933) chamava de beócios aqueles que encaravam os sonhos como revelações possíveis de contato com espíritos, ligados a “preconceitos populares, superstições, concepções mitológicas”. Provocativamente, Brasílio Machado critica essa idéia citando o astrônomo e espírita francês Camille Flammarion. Mais precisamente, o discurso que Flammarion proferiu junto ao túmulo de Kardec em seu enterro: “Com que direito, pois, pronunciaremos a palavra ‘impossível’ diante dos fatos que testemunhamos, sem podermos descobrir a causa única? A ciência nos fornece dados tão autorizados como os precedentes sobre os fenômenos da vida e sobre a força que nos anima”.

Por fim, o doutorando refuta os fundamentos de Joseph Grasset (1849-1918) para explicar os chamados “estados alterados da consciência”. O neurologista francês defendia a coexistência de dois psiquismos: um superior, sede da razão, outro inferior, domínio do inconsciente. Os fenômenos mediúnicos aconteciam, para Grasset, pela desagregação entre os dois psiquismos. O transe nada mais seria do que a memória e a imaginação do próprio médium vindo à tona. Machado parte dos mesmos conceitos para tentar comprovar a veracidade dos fenômenos espíritas. Acrescenta ao psiquismo superior algo que chama de “superconsciente” – este dotaria o ser humano da capacidade de emancipação total, sobrevivendo à morte física. Fenômenos mediúnicos, para ele, deveriam ser encarados como manifestações do superconsciente dos mortos.

É claro que o autor estava diante de uma missão inglória. Sua argumentação metafísica simplesmente não podia conviver, naquele momento, com a psiquiatria materialista da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Resultado: ao contrário das outras duas – aprovadas com louvor –, a tese de Brasílio Marcondes Machado acabou reprovada. Ele pode não ter se tornado doutor, mas deixou para a posteridade um documento revelador sobre o conflito entre ciência e espiritismo no início do século passado.

Artur Cesar Isaia é professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e organizador da obra Orixás e Espíritos: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea. (Editora da Universidade Federal de Uberlândia, 2006).

Saiba Mais:

CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de. Kardecismo e Umbanda: uma interpretação sociológica. São Paulo: Pioneira, 1961.

COSTA, Jurandir Freire. História da Psiquiatria no Brasil. Um corte ideológico. Rio de Janeiro: Editora Documentário, 1976.

GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos. Uma história de condenação e legitimação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.
Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 3 de abril de 2014

PÁSCOA DE JESUS X PÁSCOA CRISTÃ






Soham é um escritor português que realizou um trabalho de pesquisa sobre Jesus, o judaísmo e o cristianismo.


Se Jesus soubesse de aquilo que hoje se lhe associa quando se fala da Páscoa - sua morte ser equiparada ao sacrifício de um cordeiro pascal, no qual se estabelece uma analogia com a cena do sacrifício de Isaque por Abraão e ainda se lhe acrescenta uma pitada de sangue redentor do conceito do cordeiro para Deus em Yom Kippur - ele ficaria abismado com a mistura de conceitos e símbolos tão díspares que apenas denota que, quem assim procede nada percebeu do que eram esses respectivos símbolos para os judeus, não só de seu tempo como de todos os tempos.

O que o cordeiro pascal representa para Jesus é uma comemoração da libertação por Deus de seu povo e nada tem a ver com o sangue redentor, mais tarde inserido por Paulo e tornado um dogma cristão.

A mensagem implícita na história de Abraão e Isaque, não se refere ao sacrifício de Isaque - como muitos tentam associar, até para fazer a ligação com o sacrifício atribuído a Jesus, de morrer pelos pecados do mundo -, mas sim com o sacrifício de Abraão. Pois, qual não seria o pai que não daria sua própria vida para salvar a vida de um filho seu? Assim, quando Deus pede a Abraão de lhe sacrificar seu filho, Isaque nos dá o exemplo de aceitação de morrer por Deus, perder sua vida por amor a Deus, mas é Abraão que responde aquilo que realmente Deus quer de todos nós, pois ele mostra o que é dar para além de sua vida a Deus. Deus não quer que morramos por ele, nem mesmo ele quis isso de Jesus. O que Deus quer é que vivamos para Ele.

Morrer por Deus é fácil, tantos morrem com orgulho e abnegação por causas sem sentido. Mas viver para Deus, isso requer muito mais, requer aquilo que todos são chamados a fazer e que poucos fizeram com verdade e sem restrição ao longo da história da humanidade.

Ora, o caminho de regresso a Casa, o caminho espiritual de união com Deus, tem progredido muito mais através daqueles que viveram para Deus do que por aqueles que morreram por Ele. Deus, doador de vida, se revela aos homens através daqueles que lhe doam a vida, os que se doam com desapego do mundo, sem condição, sem reserva, sem limite, por e para o Amor.


A SIMBOLOGIA DA PÁSCOA NO TEMPO DE JESUS.

As festividades de Páscoa e dos Pães Ázimos, com duração de uma semana, foram estabelecidas com base no versado no Velho Testamento, e se iniciam no dia 15 de Nissan, a partir do pôr do sol do dia 14.

Pessach, ou Pésah, provavelmente celebrada em sua primeira vez num grupo nômade de pastores de rebanhos, há mais de 3200 anos, portanto bem anterior a Moisés, é a mais antiga festa do calendário judaico. A etimologia da palavra ainda não foi satisfatoriamente esclarecida pelos pesquisadores. Seu significado mais divulgado é o de “Isto é, passagem” [B.J] ou “Passar por fora” no sentido de ser poupado de algum perigo.

Originalmente a festa da Páscoa e a dos Pães Ázimos eram duas festas diferentes celebradas em datas seguidas, de 10 a 14 e de 14 a 21 de Nissan. Já que ambas tinham uma forte ligação simbólica com a saída do Egito, foram oficialmente unidas, tendo sido essa ocorrência atribuída, de modo retroativo, à reforma de Josué. Mais tarde, essas normas foram aperfeiçoadas.

Uma análise profunda e detalhada da origem e evolução das duas festividades nos mostra que suas tradições nem sempre foram as mesmas e evoluíram ao longo dos séculos, até serem unidas numa mesma festa de peregrinação e fixadas por escrito naquilo que hoje se nos parece apresentar como um conjunto de unidades literais, cujo propósito final foi, mais uma vez, a judaização de duas festas pagãs, uma com origem em um rito protetor primitivo, e outra em um rito agrícola.

Nos relatos que serviram à judaização da Páscoa, encontramos ainda vestígios dessa origem como uma observância primitiva com símbolo apotropaico de proteção pelo sangue, de um povo nômade, para, quando da troca de pastagens, afastar o “demônio” que atacava pessoas e animais, indiretamente aludido como “O Exterminador” [Ex 12, 23]. O sangue sobre a entrada das tendas - o rito protetor que afastava o demônio - passou a ser o sangue nas ombreiras. Inteligentemente os sábios judeus preservaram o rito enraizado na crendice popular mudando sua interpretação para mais um sinal da aliança [Ex 12, 13] que vem juntar-se ao sinal do arco-íris [Gn 9, 13] e da circuncisão [Gn 17, 11], tornando, em decorrência de tal assimilação, a festividade da Páscoa, como um decreto perpétuo [Ex 12, 14]. O sinal nas ombreiras encontrou um respaldo de integração em outro símbolo, o do “Guardião das casas de Israel” representado pelo preceito da mezuzá [Dt 6, 9; 11, 20-21].

O sangue do cordeiro pascal parece ser o único referido nos textos, só que também nos é dito que nenhum incircunciso poderá comer da Páscoa [Ex 12, 48].

Depois do cair do sol do dia 14, inicia-se a noite do dia 15 com a ceia pascal. Esse era um momento de grandes dimensões em que vestiam as melhores roupas e as famílias reuniam-se, umas com as outras, para partilhar da alegria da libertação do Egito, porque, como dizia o Rabino Gamaliel: "Em cada geração, todas as pessoas devem encarar, a si próprias, como se também houvessem saído do Egito. O Eterno não redimiu, naquela ocasião, só os nossos antepassados, mas, através deles, a todos nós". Daí essa festa ser ainda mais comunitária - se fosse possível - que as demais, não devendo ninguém festejar sozinho, havendo o dever de nela integrar todos os necessitados.

Após a ceia, muitos saíam às ruas, praças e jardins para festejar, enquanto outros iam para o Templo, que mantinha abertas suas portas nessa noite.

Consulte o site www.jesusatrilogia.com, para conhecer mais.
Mais informações entre em contato com
CLEONICE ROLIM
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré


Os ideais revolucionários de Jesus


REINALDO JOSÉ LOPES

RESUMO Livro de autor norte-americano de origem iraniana defende que as pregações de Jesus convocando o "Reino de Deus" sejam lidas de forma mais literal e revolucionária que espiritual. Embora a tese não seja totalmente inovadora, "Zelota" popularizou-se após seu autor, muçulmano, ser atacado em entrevista à TV nos EUA.

"Não penseis que vim trazer paz à Terra; não vim trazer paz, mas espada. Vim trazer divisão entre o homem e seu pai, entre a filha e sua mãe", declara Jesus no capítulo dez do Evangelho de Mateus.

Durante séculos, a maioria dos cristãos interpretou a frase belicosa do Nazareno de modo espiritual. Afinal, se levadas ao pé da letra, as exigências de Cristo para abandonar riquezas, casa, pais e filhos para segui-lo não estão entre os assuntos mais agradáveis para um almoço familiar de domingo.

Para o escritor norte-americano de origem iraniana Reza Aslan, no entanto, está na hora de voltar a ler os versículos em seu contexto original -no qual a ideia era desembainhar uma espada literal, e não metafórica.

Eis, em essência, a premissa de "Zelota: a Vida e a Época de Jesus de Nazaré" [trad. Marlene Suano, Zahar, 308 págs.], novo livro de Aslan, 41, que acaba de ser lançado no Brasil: Jesus não era um mestre pacifista, que só pensava em exaltar as virtudes dos lírios do campo e oferecer a outra face.

O principal objetivo do profeta de Nazaré, fomentar a vinda do "Reino de Deus", equivalia a um programa político (e revolucionário), que envolvia a expulsão dos romanos da Palestina e a recriação da antiga e gloriosa monarquia israelita, com o próprio Jesus no trono, sob as bênçãos de Deus.

Daí o nome do livro: zelota (do grego "zelotes") é como os autores bíblicos denominavam os judeus especialmente zelosos das prerrogativas religiosas do Deus de Israel -uma divindade que, ao menos no Antigo Testamento, era capaz de uma aterrorizante fúria militar contra os inimigos dos israelitas. Mais tarde, o termo seria usado para designar uma seita revolucionária judaica.

"Vamos colocar a coisa da seguinte forma: há aqueles que acham que Jesus era total e absolutamente único, diferente de todos os judeus do seu tempo. E há os que acham que, embora ele fosse extraordinário e inovador, ainda assim seu pensamento tinha muito em comum com o de outros judeus. Eu faço parte desse segundo grupo", explicou Aslan, à Folha, em entrevista por telefone.

"Os demais judeus do século 1º d.C. acreditavam que o Messias era um descendente do rei Davi cujo trabalho seria derrotar os inimigos de Israel e implantar o Reino de Deus na Terra. Acredito que essa era a visão que Jesus tinha sobre si mesmo."

Aslan é um acadêmico, com mestrado em teologia na Universidade Harvard e doutorado em história das religiões na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara, mas seu livro conquistou o grande público. Razões alheias ao seu conteúdo contribuíram para que a obra tivesse virado best-seller nos nos EUA.

No dia 26 de julho, dez dias após o lançamento norte-americano do livro, Aslan foi hostilizado por uma entrevistadora do canal conservador Fox News, que exigiu que ele explicasse por que um muçulmano iria querer escrever um livro sobre Jesus. "Ser atacado de falta de 'jesusidade' por uma âncora da Fox Nex é aparentemente um bom caminho para conduzir seu livro ao número 1 das listas", comentou Adam Gopnik, na revista "New Yorker".

O que a âncora de TV provavelmente não sabia era que o histórico religioso de Aslan é mais complexo do que ela deu a entender. Nascido numa família iraniana secular, ele tornou-se evangélico na adolescência e, mais tarde, retornou à fé de seus ancestrais.

Larry D. Moore/Wikimedia Commons

O escritor Reza Aslan

"O ponto mais importante, que muito gente não conseguiu entender, é que o livro não é sobre o cristianismo -Jesus, afinal, não era cristão, mas judeu. Meu tema é o judaísmo de veia revolucionária que existia no século 1º d.C., do qual Jesus era um representante", sustenta Aslan, que hoje é professor da Universidade da Califórnia em Riverside.

O BÁSICO

A abordagem do escritor é, em grande medida, uma espécie de "retorno ao básico" na pesquisa histórica sobre a figura de Jesus Cristo.

De fato, um dos primeiros intelectuais a tentar uma interpretação secular para entender quem foi o Nazareno, o alemão Hermann Samuel Reimarus (1694-1768), já defendia que os objetivos de Jesus eram basicamente políticos.

Especialistas contam ao menos três grandes fases de "busca pelo Jesus histórico", a mais recente delas nos anos 1980. Um consenso entre os estudiosos parece quase tão distante quanto era no século 19.

Aslan diz que não há muito mistério sobre o porquê desse aparente fracasso acadêmico. "Fora do Novo Testamento, simplesmente não há nenhum traço de evidências a respeito de Jesus que seja do século 1º d.C.", afirma.

"Creio que até existe algum consenso, mas ele é muito limitado. Podemos dizer que Jesus era um judeu, que iniciou um movimento para os judeus da Palestina, e que Roma o executou como inimigo do Estado. E é só", diz Aslan. "O que conseguimos fazer é pegar esse pouquinho e colocá-lo no contexto do mundo no qual Jesus viveu, sobre o qual sabemos muita coisa.

Sempre há a possibilidade de que alguma nova descoberta arqueológica mude esse cenário. Mas por enquanto isso não aconteceu."

INTERPRETAÇÕES

Diante de tal pobreza de dados, talvez não seja surpreendente que haja hoje no mercado uma variedade enorme de interpretações sobre Jesus.

Excetuando a ideia de que o personagem nunca tenha existido, sendo apenas uma figura mitológica inventada pelo apóstolo Paulo ou outro membro da primeira geração de cristãos -o que raríssimos historiadores sérios consideram como uma possibilidade-, uma das visões mais influentes é a esposada pelo ex-padre irlandês John Dominic Crossan.

Autor de "Quem Matou Jesus?" [trad. André Cardoso, Imago, R$ 60, 268 págs.], Crossan afirma que Jesus teria sido uma versão judaica dos filósofos cínicos gregos. Em outras palavras, um pensador itinerante que atacava as convenções sociais e convidava seus ouvintes a levar uma vida de solidariedade radical ("comensalidade" é um dos termos técnicos), defendendo que o "Reino de Deus" já estava presente entre os membros dessa confraria.

Outro termo técnico para descrever a posição de Crossan e de outros especialistas é "escatologia realizada", no sentido de que o Jesus histórico pintado por eles não esperava o Juízo Final e a ressurreição dos mortos (e talvez nem a sua própria): a "escatologia", ou seja, a consumação do plano de Deus para o mundo, aconteceria naturalmente entre os que abraçassem a mensagem do Nazareno.

Opõe-se a essa visão um grande campo de pesquisadores, bastante heterogêneo, para quem Jesus era acima de tudo um profeta apocalíptico, ou seja, alguém que previa -provavelmente "para ontem", ainda durante seu tempo de vida- a intervenção decisiva de Deus na história, libertando o "povo escolhido" de Israel e instaurando uma nova era de justiça e de paz.

Uma das abordagens mais influentes sob essa perspectiva está em um dos quatro volumes da série, ainda não concluída, "Um Judeu Marginal: Repensando o Jesus Histórico" [trad. Laura Rumchinsky, Imago, 468 págs., esgotado], do padre norte-americano John P. Meier.

Ao analisar algo que parece ser tão banalmente cristão quanto a oração do Pai Nosso, por exemplo, Meier argumenta que a expressão "Venha a nós o vosso reino" deve ser lida, nos lábios de Jesus, como nada menos que um pedido para que a intervenção apocalíptica de Deus no Cosmos acontecesse o mais breve possível -o "reino" nada mais seria que esse domínio restaurado do Senhor.

Aslan pende mais para o segundo campo, embora sua ênfase política o distinga de Meier, de quem se declara admirador. "Não acho que eu esteja explorando algum terreno realmente novo na questão", pondera. "Consegui apenas reunir os principais dados e argumentos de uma maneira coerente e que pode ser compreendida pelo leitor não especializado."

Apesar da modéstia, Aslan teve peito para defender posições controversas mesmo para os padrões da pesquisa sobre o Jesus histórico. Ele vê a célebre "purificação do Templo" (episódio no qual Jesus expulsa cambistas e vendedores de animais do local mais sagrado de Jerusalém) como um ataque político direto à corrupção da elite sacerdotal judaica, aliada a Roma, coisa com a qual muitos outros estudiosos concordam.

Mas vai além e argumenta que a passagem na qual Jesus diz "Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" é, na verdade, uma frase sutilmente subversiva. E parte de uma explicação filológica: o "dai" seria tradução do verbo grego "apodidomi", ou "devolver". Em vez de dizer que é certo pagar imposto para os romanos, tema da frase, Jesus estaria dizendo simplesmente que se deve devolver o dinheiro romano ao imperador e retomar o que pertence a Deus, ou seja, a Terra Santa de Israel.

Da mesma forma, a ideia de "oferecer a outra face" seria aplicável apenas a irmãos judeus, não a pagãos ocupando Jerusalém, ou a qualquer outro não judeu.

"O judaísmo era tudo o que Jesus conhecia e pregava. Ele mesmo afirmou que não veio para abolir nem uma só letra da Lei de Moisés", diz Aslan. "O mandamento de amar ao próximo já estava presente no judaísmo, mas valia apenas para membros da comunidade de Israel."

Pergunto se, sob essa perspectiva, Jesus e outros profetas e revolucionários judaicos do século 1º d.C. (alguns dos quais acabariam expulsando os romanos temporariamente entre 66 d.C. e 70 d.C., até serem esmagados) poderiam ser comparados aos muçulmanos que defendem a jihad hoje.

"Certamente em nenhum momento Jesus pregou a violência contra não combatentes", afirma Aslan. "Mas, é claro, ao longo da história, sempre houve o uso da religião como arma contra potências consideradas opressoras ou em favor da justiça social."

REINALDO JOSÉ LOPES, 34, é jornalista, assina o blog "Darwin e Deus" no site da Folha.
Jornal Folha de S. Paulo

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Arthur Conan Doyle e o espiritismo


Pai do célebre detetive Sherlock Holmes, o escritor escocês foi um dos mais fervorosos seguidores e divulgadores do espiritismo
Maurício Manuel | Colaborou na reportagem: Filipe Albuquerque

Há quem não reconheça o escritor escocês Arthur Conan Doyle pelo nome, mas é bem difícil encontrar alguém que jamais tenha ouvido falar do personagem mais famoso inventado por ele: Sherlock Holmes. Os romances policiais estrelados pelo detetive garantiram ao seu criador um lugar de destaque na história da literatura. O que pouca gente sabe, no entanto, é que Conan Doyle, além de brilhante romancista, também foi um dos mais aguerridos divulgadores do espiritismo.

Oriundo de uma família católica e educado por jesuítas, Conan Doyle nada tinha de espírita até os 28 anos de idade. Ao contrário! Depois de se formar médico, em 1882, revelou-se um tremendo materialista. Renunciou não apenas ao catolicismo mas a toda e qualquer religião, passando a se autodenominar agnóstico - aquele que se julga incapaz de afirmar se Deus existe ou não.

Tudo mudou em 1887. Depois de visitar o amigo Alfred Wilkes Drayson, um importante astrônomo convertido ao kardecismo, Doyle voltou para casa quase convencido de que a existência de vida após a morte era um fato. "Ele não era homem de aceitar facilmente as coisas", afirma a pesquisadora Maria Aparecida Romano, em artigo publicado na Revista Cristã de Espiritismo. "Mas, diante dos seguros argumentos apresentados por Drayson, foi levado a meditar e ler algumas obras espíritas. Em pouco tempo, estava familiarizado com as verdades da nova doutrina."

Semeador

Espiritismo, àquela altura, já não era novidade. O Livro dos Espíritos, no qual Allan Kardec estabelece os princípios da doutrina, já circulava havia 30 anos. Mas demonstrações de mediunidade, como as famosas sessões de mesas girantes, continuavam mobilizando corações e mentes. Doyle passou a frequentá-las.

Numa dessas reuniões, ainda desconfiado de que tudo não passava de trambique, perguntou às entidades que ali se manifestavam: "Quantas moedas tenho no bolso?" Ouviu como resposta uma desconcertante reprimenda: "Estamos aqui para instruir e elevar as almas, não para fazer adivinhações". Dali em diante, Doyle se entregaria ao estudo de fenômenos supostamente espirituais. E não apenas se converteria ao espiritismo. Ele se transformaria numa espécie de soldado da doutrina.

Nas décadas seguintes, o escritor alcançaria fama mundial com as aventuras de Sherlock Holmes. E colocaria todo o prestígio amealhado com elas a serviço de sua nova crença. Doyle atraiu multidões a dezenas de palestras doutrinárias. De 1915 em diante, praticamente abandonou a ficção - passou a escrever apenas obras espíritas. A mais conhecida, História do Espiritismo (Pensamento), é um clássico - até hoje considerada um dos mais completos relatos sobre a origem e o desenvolvimento da doutrina. "Dada a projeção de seu nome", diz a pesquisadora Maria Aparecida, "deve-se a Arthur Conan Doyle parte da penetração do espiritismo em muitos países, notadamente aqueles de língua inglesa."

Elementar, meu caro Doyle

Acusado de enaltecer o ocultismo, escritor foi censurado na União Soviética

O envolvimento de Arthur Conan Doyle com o espiritismo rendeu problemas para quem não tinha nada a ver com isso: o detetive Sherlock Holmes, seu personagem de ficção mais famoso. Em 1929, a série de contos intitulada As Aventuras de Sherlock Holmes foi proibida na União Soviética, que acabava de comemorar os primeiros dez anos de revolução comunista. Tudo porque em outra obra, História do Espiritismo, Doyle louvava fenômenos supostamente espirituais produzidos por médiuns como Eusapia Palladino. O escritor acabou acusado por Stálin de fazer propaganda do ocultismo, algo incompatível com o ateísmo de Estado que vigorava naquele país.

Saiba mais
LIVRO
A Nova Revelação, Arthur Conan Doyle, FEB, 1996.
Nesse pequeno livro (135 páginas), publicado originalmente em 1918, o escritor descreve como se deu sua conversão ao espiritismo.
Revista Aventuras na História

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Arábia, o refúgio dos deuses gregos

Antes da ascensão do islamismo, credos politeístas encontraram na Península Arábica um local para continuar existindo, preservadas das grandes religiões que acreditavam em um deus único, como o cristianismo triunfante

Álvaro Oppermann | Ilustração Daniel Rosini


Por volta do século 5, os habitantes da região do Mediterrâneo tinham se convertido ao cristianismo. O panteão de deuses da Grécia e de Roma era só lembrança do passado. E, pelo jeito, os velhos deuses estavam mesmo na hora de se aposentar. O historiador Plutarco, sacerdote do templo de Delfos, lamentava-se, no século 2, que Apolo se calara: não respondia mais às consultas oraculares feitas por ele. Até os cultos de deuses "importados", como o da egípcia Ísis e do persa Mitra, estavam em baixa. Em 394, um pequeno grupo de devotos de Ísis fez a última procissão em homenagem à deusa pelas ruas de Roma.


As religiões pagãs tinham sido varridas do mapa? Não. No século V, na Península Arábica, os deuses greco-romanos sobreviviam. Em Failaka (no atual Kuwait), festivais populares eram organizados em devoção ao deus Poseidon (o Netuno dos romanos) e à deusa Artemis (Diana). A deusa Minerva (Al-Lat) tinha adoradores na Arábia, na Síria e na Palestina. "Até o século 4, quase todos os habitantes da Arábia eram politeístas", diz o professor de Oxford Robert G. Hoyland, autor de Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam ("Arábia e os Árabes - Da Era do Bronze à Vinda do Islã"). "Al-`Uzza (Afrodite) era cultuada no Sinai e na Arábia", diz James E. Montgomery, professor de História Árabe da Universidade de Cambridge, autor de Arabic Theology, Arabic Philosophy: From the Many to the One ("Teologia Árabe, Filosofia Árabe: do Múltiplo ao Uno").

Como aconteceu essa assimilação? Bem, não foi só da Grécia e de Roma que os árabes pegaram deuses emprestados. "Hoje se acredita que as divindades árabes eram formas locais, adaptadas, das divindades do mundo antigo do Mediterrâneo", registrou Timothy Winter, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, no ciclo de palestras A Crash Course in Islamic History (Breve Curso de História Islâmica). Os árabes assimilaram os deuses dos povos vizinhos, adaptando-os à sua religião. A deusa Al-Lat, como vimos, era Minerva (nome romano da grega Atena) sob disfarce, mas nem tão disfarçada assim: em Cartago, a mesma deusa usava o nome de Allatu. "Muitas das divindades da Antiguidade ocidental poderiam ser facilmente intercambiáveis", diz a historiadora Mary Beard, autora de Religions of Rome ("Religiões de Roma"). No século 5 a.C., isso já tinha despertado a atenção de Heródoto. Em seu périplo por terras árabes, o historiador observou um pacto entre dois chefes tribais feito em nome de Dionísio (o Baco romano). "Os árabes chamam Dionísio de Orotal", escreveu Heródoto nas Histórias (430 a.C.).

Um caso ilustrativo é fornecido pelas observações do general romano Aelius Gallus. Em 26 a.C. ele foi enviado ao sul da Arábia para costurar acordos comerciais com os reinos da região (chamada de Arabia Felix, "feliz"). Os romanos cobiçavam o incenso e as especiarias. Gallus, em seu diário, não deixou de notar a semelhança entre os deuses locais e o panteão romano. "O nosso Júpiter aqui é Dhu'Shara", espantou-se.

Ídolos na caaba

O panteão árabe era bem pobre em termos de causos mitológicos. A origem da religião, ou religiões, da Arábia pré-islâmica está envolta em um manto de obscuridade. "Nós praticamente não possuímos informações sobre os mitos e narrativas que decodificariam a religião da Arábia pré-islâmica", diz Hoyland. "Muitos autores greco-romanos escreveram tratados sobre a Arábia e as coisas dos árabes, mas infelizmente eles foram perdidos, ou deles só sobraram fragmentos." Os dados completos disponíveis são provenientes da historiografia islâmica, posterior. Tal como os primeiros autores cristãos (Eusébio de Cesareia, Santo Agostinho, Tertuliano), os muçulmanos viram o passado pagão - romano ou árabe - sob o prisma da religião nascente. Reza a lenda (exposta no Livro do Gênesis, na Bíblia), que os árabes descenderiam de Ismael, o filho de Abraão com a concubina Hagar, a serva egípcia de sua esposa, Sara. Quando Sara deu à luz Isaac, obrigou o marido a expulsar a serva e o primogênito. Hagar e o menino erraram pelo deserto, até chegarem ao árido vale de Meca, onde se estabeleceram.

A religião original da Arábia seria estritamente monoteísta, baseada na crença no Deus Uno, ensinada por Abraão a Ismael. Segundo a história islâmica, a Caaba - "A Casa de Deus", prédio de forma cúbica no coração de Meca - teria sido construída por Abraão e Ismael. Na obra O Livro dos Ídolos, do século 9, que trata do politeísmo árabe, é dito que o primeiro descendente de Ismael a adulterar a religião de Abraão foi um certo Al-Harith, guardião da Caaba. Ele retornou a Meca com um ídolo de pedra e pediu sua intercessão junto a Deus. Com o tempo, a presença de Deus tornou-se tênue no imaginário local, e os ídolos, que antes serviam de ponte entre os homens e Deus, usurparam a posição divina. Viraram deuses, no plural. No século 3, segundo Al-Azraqi, autor das Crônicas da Meca Gloriosa, 400 ídolos de pedra haviam sido erigidos ao redor da Caaba, homenagem aos mais diversos deuses da Arábia e dos povos vizinhos. Essa é a versão dos historiadores muçulmanos, que enfatizaram, em suas narrativas, um monoteísmo mítico em Meca. Os vestígios arqueológicos, no resto da Arábia, apontam à anterioridade das religiões politeístas na região.

Ascensão do Islã


Graças à Caaba, Meca teve, antes do Islã, importância na vida religiosa árabe. Era uma espécie de Aparecida, que atraía romeiros à cidade. Os líderes de Meca davam boas-vindas a todas as divindades e religiões. A cidade funcionava como uma espécie de ONU multicultural do paganismo antigo. Cada tribo tinha o seu próprio santuário ali. Ao contrário da imponente estatuária romana, os ídolos árabes eram bem modestos. A estátua de Al-Lat em seu templo oficial, em Ta'if, era fruto da reforma de uma panela de pedra, utilizada por um judeu para cozinhar mingau. "Muitas vezes, os ídolos eram somente uma pedra polida", diz Ibn Al-Kalbi.

A vida religiosa não estava restrita a Meca. Cada cidade tinha seu deus. Em Hegra, no norte, os habitantes diziam-se "filhos de Manat", que os gregos chamavam de Tyché - a Fortuna dos romanos. Em Mleiha, nos atuais Emirados Árabes, o deus popular era Kahl. Em Palmira, na Síria, o culto era à deusa Bel. Os templos religiosos pré-islâmicos não diferiam, em sua arquitetura simples, da casa de um árabe afluente da época, em cuja sala de estar erigia-se um pequeno altar dedicado ao deus, ou deuses, da predileção do proprietário. Leite, vinho, cereais, carne de camelo e de ovelha eram depositados diante do altar. Junto à Caaba, em Meca, costumava-se sacrificar camelos. "Os árabes possuíam deidades auxiliares, chamadas mundhat, que cuidavam da proteção dos vilarejos, das casas e até das pessoas individualmente", diz Hoyland. Esses entes sobrenaturais não seriam muito diferentes do que hoje se chamam "anjos".

Na época do surgimento do Islã, no século 7, há indícios de declínio econômico na Península Arábica. O comércio de incenso, vindo do Iêmen, sofreu um baque com a concorrência marítima dos romanos, pelo Mar Vermelho, estabelecida após a missão do general Gallus (que foi na verdade uma rasteira nos mercadores árabes). Um segundo golpe, ainda mais duro, foi sentido com a ascensão do cristianismo, que praticamente aboliu, no Mediterrâneo, o uso religioso do produto, associado ao paganismo. Na época de Mao-mé, o sul da Arábia era uma pálida imagem do passado. Meca tinha uma economia pequena.

O advento do Islã representou o fim do paganismo. Na história do apostolado de Maomé (por volta de 609 a 632 d.C.), os senhores políticos de Meca tentaram dissuadi-lo de sua missão religiosa. Em 622, em reunião na Câmara do Conselho da cidade, chefes de diversos clãs decidiram assassiná-lo. Para sacramentar a decisão, fizeram um banquete, sacrificando animais num altar a Al-`Uzza. O atentado falhou, motivando a Hégira, o êxodo de Maomé a Medina, que marca o início do calendário islâmico.

Em 630, o exército comandado pelo Profeta conquistou Meca. Os ídolos em volta da Caaba foram queimados. Maomé enviou missões militares para demolir os principais templos da península, como o de Al-`Uzza em Nakhla. Lá, o general Khalid bin Walid, um brilhante estrategista militar, conhecido como a "Espada do Islã", não se contentou em destruir o templo. Segundo Waqidi, cronista das campanhas militares dos primórdios do Islã, Khalid viu surgir dos escombros uma mulher nua. Os fios da sua cabeleira, de tão longos, iam quase até o chão. Ela fitou o general, impávida, imóvel, majestosa. Khalid diz ter sentido um calafrio à sua visão. Era a sacerdotisa de Al-`Uzza. "Nós negamos a ti, e não à veneração!", gritou ele. A cavalo, avançou em disparada contra ela, sacou a espada e a decapitou. Era o fim dramático da última representante de Afrodite na Arábia. Nem os deuses duram para sempre.

Divino trio


Na história da Arábia pré-islâmica, três deusas estiveram no centro da devoção popular: Manat, Al-Lat e Al-`Uzza. Segundo o antigo historiador Ibn Al-Kalbi, elas seriam as divindades mais antigas da região. Manat representava a sábia anciã, e seria uma adaptação da deusa grega Tyché (Fortuna para os romanos). Al-Lat, figura materna, uma versão local de Atena (Minerva em Roma). E Al-`Uzza, a adolescente, um sincretismo com a deusa Afrodite (Vênus).

Depois da Caaba, os templos de Al-`Uzza, no Vale de Nakhla (um dia de viagem de camelo ao sul de Meca), e de Al-Lat, em Ta'if, eram os mais visitados. Ta'if, cercada por muralhas, era localizada numa região verdejante e de clima ameno do Hijaz, região centro-oeste da Arábia, próxima ao Mar Vermelho. A cidade era conhecida como "Jardim do Hijaz", e a deusa, a "Dama de Ta'if". (Os árabes gostavam de uma alcunha; esta, aliás, uma palavra de origem árabe: Al-qunya).

Os pastores e camponeses da Arábia faziam preces a Al-Lat para aumentar a fertilidade dos rebanhos. Manat era a deusa da morte e do destino. Isso pode soar funesto, mas tinha um lado positivo: quando uma mudança surpreendente acontecia na vida de um árabe - o paciente desenganado que se recuperava de uma doença grave, ou o pobre que ficava rico por um golpe de sorte -, fazia-se uma oferenda a Manat, a senhora da roda da fortuna. Na Nabateia, os fraudadores de escrituras de tumbas funerárias (comércio escuso que, pelos registros, devia ser bem ativo) tinham de pagar multa - mil moedas de prata - ao templo de Manat em Petra, ao serem descobertos. O culto árabe mais fervoroso era o dedicado a Al-`Uzza, segundo testemunho de autores cristãos que pregaram na região. "Os sarracenos adoram a deusa Vênus e a associam à estrela da manhã", escreveu Santo Hilário, no século 4. ("Sarraceno", de acordo com uma etimologia, seria "aquele expulso por Sara": os árabes eram tidos como descendentes de Ismael, filho de Abraão com a serva egípcia Hagar). Em Meca, a poderosa tribo dos Quraish, principais oponentes de Maomé e do Islã, dizia-se "filha de Hubal e Al-`Uzza".

Deuses e monstros

Os deuses e criaturas sobrenaturais do panteão árabe

Dhu'Shara, o leão alado

Categoria: divindade


Também chamado de Dusares, foi cultuado na Arábia e na Nabateia (atual Síria). Era o "Senhor de Petra", uma grande cidade de estilo romano, com ágora, banhos públicos e avenidas em colunata. Era identificado com Júpiter. Mas, ao que se saiba, não lançava raios. Seu poder mágico era o de se transformar em leão alado. Dhu'Shara era casado com Al-`Uzza (Vênus), virgem adolescente na mitologia árabe.


Nakruh, o senhor da destruição

Categoria: divindade


"Deus da Morte", "Deus do Ódio", "Senhor da Destruição", "Vingador Implacável". Não, não são filmes antigos com Clint Eastwood, e sim algumas das alcunhas do deus árabe. Ele foi muitas vezes associado ao Saturno romano (e ao Cronos grego). Enfezado, tentou assassinar o próprio irmão, Wadd. Mas Nakruh tinha um lado bom e justo. Era o protetor das mulheres grávidas.


Ghila, a maligna

Categoria: animal fantástico


A criatura teria surgido por causa de uma maldição de Dhu'Shara. Certa vez, um grupo de demônios femininos foi à mansão celeste para bisbilhotar. Como punição, foram arremessadas para a Terra. Algumas caíram nos rios, e viraram a fêmea do crocodilo. Outras, cuja parada foi o deserto, viraram ghilas.


Hubal, o deus da Lua

Categoria: divindade


Deus da Lua, na religião de Moab, na atual Síria, foi adotado na Arábia, tornando-se uma de suas principais divindades. O seu primeiro vestígio na região - descoberto nos anos 1990 - é o de um altar e incensórios em Muweilah, nos Emirados Árabes, cuja data aproximada é de 800 a 700 a.C. Não há correspondência entre ele e os deuses greco-romanos. Segundo uma etimologia possível, seria uma corruptela de "Baal", deus semita.


Al-Qaum, o deus da guerra e das caravanas

Categoria: divindade


Quando os mercadores árabes voltavam sãos e salvos de uma longa viagem, faziam oferendas ao deus. Conhecido como divindade da guerra, Al-Qaum era igualmente o protetor das caravanas. Também foi chamado de "Deus da Noite": os nabateus, que, assim como os árabes, o adoraram, transportavam cargas valiosas à noite, para não serem roubados. Faziam então uma reza ao deus.


Serpentes aladas

Categoria: animal fantástico


A melhor descrição sobre estas criaturinhas peçonhentas voadoras foi de Heródoto, que ficou conhecendo sobre elas em suas andanças pela Arábia, no século V a.C. Estes ofídios com asas gostavam de fazer voos migratórios sazonais ao Egito. Mas lá eram repelidos pela íbis, ave que lembra a cegonha.


Orotal, o boa-praça

Categoria: divindade


O Baco da Arábia. Assim como o deus romano, era chegado a um vinho. Aliás, na Arábia pré-islâmica, o costume de beber era arraigado. "O vinho era tido como um dos melhores presentes que a fortuna poderia agraciar ao árabe da era pré-islâmica", diz Toshihiko Izutsu, professor da Universidade de Keio, no Japão. Orotal foi popular na parte norte da Arábia. Não há referência arqueológica a ele no sul da península.


Al-Khutby, o sábio

Categoria: divindade


O deus mais afeito ao conhecimento era Al-Khutby. Foi o deus da sabedoria, protetor dos estudiosos e escribas. Sua representação iconográfica era bem simples, um mero pilar. Na Arábia, sofreu sincretismo com o deus romano Mercúrio (Hermes na Grécia). Tinha asas nos pés, com o poder de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Nas tempestades, "surfava" pelas nuvens, conduzido pelos relâmpagos.


Gênios do bem e do mal

Categoria: ser sutil


Os djinns (traduzidos por "gênios" em línguas ocidentais) eram criaturas feitas de ar, fumaça e fogo. "Um tipo particular de gênio era o qarîn, o 'djinn acompanhante'." Quando uma pessoa nascia, um qarîn nascia ao mesmo tempo. Os dois viveriam juntos e morreriam no mesmo dia. O gênio seria uma alma gêmea do ser humano.


Linha do tempo
2 500 a.C. a 1 750 a.C.

Escavações dão indícios de que, na fronteira da Arábia com a Mesopotâmia, vivia-se um período de prosperidade.

715 a.C.

Primeira referência pictórica à religião do Reino de Sabá: uma inscrição no templo do deus Almaqah. Os sabeus cultuavam essa divindade central.

430 a.C.

Relato de Heródoto sobre os árabes, na obra Histórias. Faz referência aos deuses árabes Orotal e Al-Lat.

50

Em Petra, cidade cosmopolita no norte da Arábia, há registros do culto à deusa Bel e à deusa egípcia Ísis.

219

O autor Al-Azraqi escreve a obra Crônicas da Meca Gloriosa. Retrato do culto politeísta em Meca. Na cidade, 400 estátuas de divindades foram erigidas em volta da Caaba.

609

Início da história do Islã, com a revelação dos primeiros versículos do Alcorão ao profeta Maomé.

622

Perseguição e tentativa de assassinato a Maomé leva à fuga do Profeta para Medina, a Hégira.

624

A Batalha de Badr marca o primeiro conflito armado entre os clãs politeístas de Meca e os adeptos do Islã.

630

Conquista de Meca pelo exército de Maomé. Destruição dos ídolos das divindades da religião politeísta árabe.

632

Morte de Maomé.

632 - 634

Repressão à idolatria pelo primeiro califa, Abu Bakr. Com a morte do Profeta, a região do Najd, no centro da Arábia, abandonou as práticas islâmicas e voltou à antiga religião.

Saiba mais

Livro

Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam, Robert G. Hoyland, Routledge, 2001
Internet

O Livro dos Ídolos, de Ibn Al-Kalbi (em inglês)

Revista Aventuras na História