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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Notícias ao molho chilli

Notícias ao molho chilli
A cobertura da Revolução Mexicana de 1910 dividiu a imprensa: uma parte baseou suas reportagens nas informações da mídia norte-americana e outra no ponto de vista dos camponeses
Carlos Alberto Sampaio Barbosa

Há cerca de doze anos, um grupo guerrilheiro surgiu com uma ação relâmpago nas montanhas de um desconhecido estado do sul do México: Chiapas. Sua maneira original de agir, utilizando os meios de comunicação, principalmente a Internet, a crítica ao neoliberalismo e à globalização, além da figura carismática de seu porta-voz, o subcomandante Marcos, chamaram a atenção da mídia, e, como não podia deixar de ser, da imprensa brasileira. Era o nascimento do Exército Zapatista de Libertação Nacional – EZLN. As tensões políticas advindas dos enfrentamentos entre neozapatistas e governo federal, além dos vários assassinatos políticos ao longo daquele ano, levaram, em dezembro de 1994, a uma fuga de aproximadamente 50 milhões de dólares do país. No ano seguinte, estes acontecimentos afetaram outros países emergentes, como a Argentina e o Brasil. O fenômeno ficou conhecido como “efeito tequila” e trouxe o México para as manchetes dos nossos jornais.

Mas o México já vem chamando a atenção da imprensa brasileira há muito mais tempo. Ao longo de todo o século XX, este país, com uma rica história cultural e política, por diversos motivos fascinou e atraiu jornalistas, escritores, artistas e intelectuais. A Revolução Mexicana, que eclodiu em 1910, representou a primeira revolução social, tanto em território latino-americano quanto mundial, precedendo a própria Revolução Russa.

Na época, o jornal O Estado de S. Paulo deu um destaque considerável a este acontecimento. Quase diariamente, publicava notas sobre os desdobramentos revolucionários e chegou a imprimir algumas fotografias dos seus protagonistas. Em contrapartida, o jornal A Voz do Trabalhador, um dos mais importantes das duas primeiras décadas do século XX, criticava a cobertura dada pela imprensa “burguesa” à guerra civil mexicana. As críticas, em grande parte, parecem direcionadas aos jornais brasileiros, como O Estado de S. Paulo, e suas notícias, editadas a partir de informações provenientes da mídia norte-americana.

De fato, as notícias publicadas em O Estado de S. Paulo foram geradas a partir de jornais e revistas da época, como New York Times, New York Sun, New York Herald, Financial News, Daily Mail, Daily News e Morning Post. Esta constatação é interessante, pois denota um intercâmbio de notícias e informações entre órgãos de imprensa brasileiros e norte-americanos. Outras pequenas notas eram enviadas por agências de notícias, como a francesa Havas, a britânica Reuters e, em especial, as norte-americanas International News Service e United Press.

O jornal A Voz do Trabalhador, ao contrário de O Estado de S. Paulo, não utilizou a rede de agências internacionais de notícias. Procurou estabelecer conexões alternativas, como o intercâmbio com publicações anarquistas. Sua visão da Revolução Mexicana enfocava a situação dos camponeses e a questão da terra a partir de uma perspectiva do movimento operário brasileiro. Um dado que chama a atenção foi o anúncio da venda do jornal Regeneración, disponível para compra na redação de A Voz do Trabalhador, ao preço de 500 réis o exemplar. Este fato permite supor a existência de uma rede de distribuição do Regeneración no Brasil, assim como existia em Buenos Aires e Montevidéu. O jornal Regeneración era o órgão de propaganda do PLM (Partido Liberal Mexicano), e naquele momento estava sendo editado nos Estados Unidos.

Um trecho retirado de matéria publicada em A Voz do Trabalhador três anos após a queda de Porfírio Díaz (militar que tomou o poder no México em 1876 e se manteve no cargo por meio de sucessivas eleições até 1911) mostra o posicionamento deste jornal em relação ao tratamento dado pela grande imprensa brasileira à Revolução Mexicana: “De vez em quando os jornais burgueses publicam telegramas, recebidos por vias indiretas, noticiando uma ou outra batalha no México. Essas notícias, para quem não acompanhou o movimento desde o começo, podem levar a crer que a revolução no México é feita com impulsos espasmódicos, que o governo consegue abafar imediatamente. Puro engano. A revolução, iniciada há três anos, com a queda de Díaz, continua até hoje com a mesma intensidade e não cessará, embora apareçam ‘salvadores da situação’ como Madero e Huerta, enquanto os peões não obtiverem o que tanto sangue lhes custou: a restituição das terras que lhes foram roubadas”.

As notícias tiveram maior destaque no ano de 1913, período que coincide com a fase mais intensa da participação popular na Revolução. Assim, em um conjunto de artigos publicados ao longo desse ano, os editores do jornal expressaram uma série de posicionamentos, como a declaração de apoio aos rebeldes mexicanos; a explicação da situação política no país do ponto de vista dos revolucionários camponeses e o envio de uma carta de protesto ao presidente dos Estados Unidos, contra a detenção dos líderes do Partido Liberal Mexicano Ricardo e Enrique Flores Magón, Anselmo Figueroa e Librado Rivera.

Mas quais eram as temáticas mais recorrentes nas matérias publicadas pelo Estado de S. Paulo nesse período? Em primeiro lugar, uma parcela considerável era referente aos Estados Unidos e seus interesses econômicos e políticos no México; em segundo lugar, as notas descreviam o desenrolar dos acontecimentos internos no México; em terceiro, os diversos acontecimentos de fronteira entre México e Estados Unidos e, por fim, também mereceram destaque a mobilização de tropas e a possibilidade de intervenção norte-americana. Ou seja, predominava a perspectiva norte-americana do conflito.

O principal articulista do jornal O Estado de S. Paulo era o embaixador Oliveira Lima, que redigiu vários artigos durante sua estada em Bruxelas, na Bélgica, entre 1908 e 1912. Nessa fase, seu trabalho consistiu em atividades mais voltadas para uma diplomacia cultural, pois fez uma série de conferências em universidades européias. Nos artigos escritos para o jornal, assim como em seus livros, expressou sua opinião de que as repúblicas hispano-americanas tiveram suas histórias marcadas pelo caudilhismo, pelo militarismo, pela instabilidade política, pela debilidade econômica, política e cultural, o que facilitou o expansionismo dos Estados Unidos.

O primeiro artigo foi publicado na coluna “Coisas Estrangeiras” com o título “A situação no México”. Nele, traçava um perfil do país e de seu governante: “A morte do presidente Díaz significaria uma perturbação profunda da tranqüilidade pública do país, que, sob sua ditadura de mais de trinta anos, desenvolveu consideravelmente os seus recursos, alcançando notável grau de prosperidade e de crédito, e até a reputação de uma nação organizada, estável e progressista, tal a irradiação projetada pela paz forçada em que tem ela vivido desde que a governa a mão férrea”.

O autor destaca que foi este centralismo político que levou ao desenvolvimento econômico, à estabilidade política, e que transformou a imagem da nação. Em outro momento, ele continuou destacando os atributos e métodos políticos do presidente: “Com Dom Porfírio desaparecera um dos homens eminentes de século XIX (...). Foi este o segredo do êxito das sucessivas administrações de Díaz: nenhum quartel aos adversários em armas (...). Resta saber se com outro método teria Dom Porfírio imposto a paz e feito voltar a ordem no México (...). Chega-se a duvidar que pudessem surtir efeito processos diferentes. Não sei de história mais anarquizada e mais vergonhosa”. Embora o considerasse um “fazedor de nação”, esta interpretação não o impedia de compará-lo a outros ditadores de repúblicas latino-americanas, como veremos mais adiante.

As dificuldades de Díaz decorriam do caos político e econômico reinante durante as décadas anteriores, em especial no governo do general Antonio López de Santa Anna, com vários mandatos entre 1833 e 1855, que Oliveira Lima considerava um “truão sinistro” (uma espécie de palhaço), e completava dizendo que este agia “ora trucidando adversários, ora fazendo-se chamar de ‘Alteza Sereníssima’, ou fugindo covardemente diante dos americanos, ou tratando de negociar pedaços do território nacional e a própria independência da pátria (...) general de comédia (...)”.


A proximidade do México com os Estados Unidos também era uma das questões mais debatidas na imprensa brasileira. Qual seria a atitude dos norte-americanos com seu vizinho do sul? Além disso, os norte-americanos, nos últimos anos do século XIX e no início do XX, fizeram maciços investimentos em solo mexicano. Construíram milhares de quilômetros de estradas de ferro e interligaram esta rede às suas malhas ferroviárias. Investiram também na exploração de petróleo, carvão e minérios.

Oliveira Lima aborda estes temas em outro artigo, publicado no dia 10 de julho de 1911. Nele, desenvolveu a tese de que o país foi dominado pelos grupos econômico-financeiros norte-americanos, que possuíam investimentos de aproximadamente 900 milhões de dólares. O resultado foi o reflexo do domínio econômico no ambiente político. Lima escreveu: “Para onde quer que corra o capital, este dominará o governo”.

Esta análise da situação econômica e a inter-relação com os Estados Unidos se aproximam de interpretações mais recentes das causas da Revolução Mexicana, como a de John Hart. Para este autor, a Revolução foi um movimento de massa, de caráter nacionalista, diante da penetração imperialista norte-americana. Neste sentido, foi uma das primeiras reações contra a penetração econômica e o controle político dos Estados Unidos, comparável com outros movimentos revolucionários ocorridos no mundo nesse momento. Esses fenômenos se caracterizavam por serem reativos ao imperialismo britânico ou norte-americano, como as revoluções chinesa, iraniana e russa de 1905.

O que chamou a atenção de Oliveira Lima foi que, “com tanta ameaça de desassossego do outro lado da fronteira” e a iminência de uma guerra civil generalizada, e, ao mesmo tempo, com tantos investimentos no país, não se cogitava a anexação do México aos Estados Unidos. Essa contradição era explicada pela seguinte conclusão: intervenção sim, para proteger seus interesses, “incorporação não, porque o sistema de trabalho, que permite os referidos lucros, com muito maior certeza se manterá sob a bandeira mexicana que sob a bandeira americana (...), e enquanto puder ser conservado como uma colônia servil, não será anexada”. E, de fato, a intervenção direta aconteceu posteriormente.

Foi durante o mandato do presidente republicano William Taft que o embaixador norte-americano articulou o golpe de Estado que derrubou Francisco Madero em fevereiro de 1913, levando ao poder Victoriano Huerta, um militar que era visto como simpático aos Estados Unidos. Um ano depois, o novo presidente norte-americano, o democrata Woodrow Wilson, enviou fuzileiros navais norte-americanos para desembarcarem em Veracruz, principal porto de escoamento das exportações mexicanas. Este presidente, recém-empossado, optou pela intervenção armada como forma de influenciar na correlação de forças da guerra civil. Wilson iniciava assim uma política diferenciada em relação ao México; desejava um vizinho estável e que garantisse os investimentos americanos naquele país.

Em outro artigo, “O ocaso de um grande homem”, publicado alguns dias depois, Oliveira Lima comparou Díaz a outros “tiranos” latino-americanos, como Juan Manuel de Rosas, da Argentina, e Julián Castro, da Venezuela. Utilizou como subsídio para este artigo o livro Barbarous Mexico – An Indictment of a Cruel and Corrupt System. Este livro, publicado em 1911, foi escrito pelo jornalista norte-americano John Kenneth Turner. Incluía fotografias impressionantes, que chocaram a opinião pública norte-americana na época. Relatava as atrocidades cometidas pela polícia secreta do Estado mexicano. No artigo de Oliveira Lima, o regime de Porfírio Díaz era definido como de “caciquismo” político, dominado pelos chefes políticos locais, sustentado pela polícia rural e por um exército violento e ignorante.

A América de origem espanhola não era tão desconhecida do público brasileiro no início do século XX. Havia uma circulação de informações e idéias. Enquanto Oliveira Lima, a partir da Europa, escrevia sobre assuntos mexicanos no jornal O Estado de S. Paulo e comentava as notícias dos jornais norte-americanos e dos livros recentes publicados nos Estados Unidos, era possível comprar, em plena cidade do Rio de Janeiro, exemplares de um periódico político editado nos Estados Unidos e voltado para o público mexicano. Os acontecimentos da Revolução Mexicana romperam fronteiras e ecoaram em território brasileiro.

Carlos Alberto Sampaio Barbosa é Professor De História Da América No Departamento De História Da Faculdade De Ciências E Letras Da Universidade Estadual Paulista (Unesp/Assis) E Autor Do Livro A Fotografia A Serviço De Clio: Uma Interpretação Da História Visual Da Revolução Mexicana 1900 – 1940. São Paulo: Editora Da Unesp, 2006.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 26 de maio de 2009

Real Teatro da Discórdia

Largo do Paço, Rio de Janeiro, em 1865.
Óleo sobre tela (72,5 x 114 cm), por Luigi Stallone.
Museu Histórico da Cidade do Rio de Janeiro, Brasil.

Troca de insultos, ironia e muita indelicadeza marcaram um dos primeiros debates públicos que apareceram na infância da imprensa brasileira
Filipe Monteiro

Imagine uma peça teatral que tenha sido um grande sucesso de público. Atores e diretor ovacionados pela platéia, pessoas nas ruas debatendo calorosamente cada cena, críticos e autores se engalfinhando nos jornais de maior circulação. Coisa rara hoje em dia? Pois, acredite, durante a maior parte do período joanino, quando a Corte lusitana esteve no Brasil (1808-1821), espetáculos desse porte chacoalhavam o cotidiano da capital do Império Português. Em um meio tão efervescente, freqüentemente, surgiam grandes polêmicas – como a aqui narrada, envolvendo um dramaturgo a serviço do Rei e um jornalista mordaz.

Tudo começa no Largo do Paço, no Rio de Janeiro, onde funcionava, em 1808, uma casa conhecida popularmente como “Teatro de Manuel Luiz”. Ex-tocador de fagote, dançarino e cômico português, Manuel Luiz havia construído uma das primeiras casas de ópera da cidade. Seu teatro era um grande sucesso, mas começava a ficar pequeno para as pretensões dos artistas que se instalavam na cidade.

Com a vinda da família real em 1808, uma nova classe política e intelectual, quase toda formada
por membros das famílias nobres portuguesas,chegava ao Rio, trazendo músicos, atores, compositores.

Esse conjunto de artistas de primeira ordem,muito estimados em Portugal, pretendia encenar
aqui os grandes musicais e espetáculos de gala apresentados em Lisboa.

O pequeno Teatro de Manuel Luiz não comportaria esse ambicioso propósito. Além disso, o público da época era considerado “inculto”, dono de antigos costumes típicos de um país que carecia de “sentimento artístico”. Tendo isso em mente e sofrendo a pressão dos artistas que embarcaram junto com a Corte, o príncipe D. João bateu o martelo e determinou a construção de um novo teatro no Largo do Rocio, atual Praça Tiradentes. O Real Teatro de São João, como foi chamado, se transformaria em pouco tempo no centro nervoso da vida social carioca, onde também eram realizados importantes eventos políticos.

Para a sua inauguração, prevista para o dia 12 de outubro de 1813, D. João havia encomendado ao escritor e dramaturgo português D. Gastão Fausto da Câmara Coutinho (1772-1852) a ópera intitulada “O Juramento dos Numes”. D. Gastão,que chegou ao Brasil com a família real, era muito
próximo do rei. Sua posição, porém, não seria suficiente para evitar que o manuscrito de seu novo drama fosse exaustivamente criticado por Manuel Ferreira de Araújo Guimarães (1777-1838), redator e editor do periódico O Patriota: Jornal Literário, Político e Mercantil, que circulou entre 1813 e 1814.

Em maio de 1808, D. João VI permitiu a criação da Imprensa Régia, uma instituição que tinha por objetivo a divulgação de medidas oficiais de seu governo. Entretanto, por ela também rodaram publicações de caráter científico, obras sobre arte e literatura, além de periódicos que tratavam de
costumes da época, viagens, curiosidades etc. Um deles era justamente O Patriota, que nasceu como um jornal de variedades, divulgando textos políticos, memórias históricas e geográficas, entre outros. Apesar da conhecida ligação informal com a Corte – publicando, inclusive, diversos atos do gogoverno –, o jornal conseguiu manter certa autonomia e estimular debates políticos e literários no seio da nascente intelectualidade brasileira. E foi isso que fez Araújo Guimarães ao contestar abertamente na imprensa a qualidade e a importância da ópera escrita por D. Gastão.

O drama em questão era uma ode a Sua Alteza Real, D. João, e ao povo lusitano. “Numes” eram as divindades mitológicas, como Vênus e Vulcano, que prestavam juramento ao príncipe ameaçado em suas fronteiras pelas “hostes francesas” – o exército de Napoleão, que invadira Portugal em 1807. Recorrendo à Antiguidade clássica, o escritor criou um poema lírico em que os deuses gregos dialogavam sobre os motivos para defender o rei português e seu novo Império nos trópicos, região que ainda viria a ser a “atalaia e farol do mundo inteiro”. O sucesso da peça se daria menos pela narrativa das façanhas do heróico “Sexto João” do que pelo intenso debate que ela inspirou.

A crítica inicial afirmava sem reservas: “Este trabalho vem mesmo a ser inútil!” Após ler o prólogo da peça, o jornalista ficaria revoltado com D. Gastão, pois este afirmara que em composições daquele gênero não se deveria seguir ao pé da letra determinados “preceitos dramaticaes”. Não satisfeito, o jornalista avisava que não examinaria o estilo de escrita de D. Gastão, pois nem o nome de poeta ele merecia. O artigo de duas páginas, que saiu na edição de outubro de 1813 do Patriota, terminava de forma ácida: “Não mais entreteremos o leitor sobre um drama, que as artes se empenharão em avultar”.

A crítica ao espetáculo caiu como uma bomba no meio artístico pouco tempo antes da abertura do Real Teatro. Aquilo era uma novidade para a população, desacostumada dos debates públicos
através da imprensa, que naquele momento ensaiava seus primeiros passos. O Patriota fez parte do boom de publicações que surgiram com a expansão da atividade jornalística depois da chegada da Corte portuguesa ao Brasil. A circulação de livros e jornais havia sido reprimida por quase três séculos, e todas as tentativas de burlar as determinações da Coroa fracassaram. E não foram poucas.

Em Pernambuco, por exemplo, uma pequena tipografia montada durante o governo de Francisco de Castro Morais, em 1706, foi liquidada e todo o material gráfico, confiscado. No Rio, Antonio Isidoro da Fonseca, antigo impressor em Lisboa que imigrou para o Brasil com a família, trouxe clandestinamente na bagagem preciosas ferramentas para montar uma pequena oficina, que chegou a funcionar em 1747, mas em pouco tempo foi fechada, acusada de propagar idéias contrárias ao “interesse do Estado”.

Com a permissão do funcionamento da imprensa surgiram centenas de folhetins, gazetas e libretos, muitos dos quais tiveram curtíssima duração. Na Corte, além do Patriota, também circularam a célebre Gazeta do Rio de Janeiro, publicada entre 1808 e 1822, O Bem da Ordem, O Amigo do Rei e da Nação, entre outros. Em Salvador apareceu o periódico a Idade d´Ouro do Brasil, em 1811, e em Recife, em 1821, surgia a Aurora Pernambucana. A maioria das publicações era favorável a D. João, diferentemente de periódicos portugueses publicados
no exterior, que faziam franca oposição ao governo português, como o famoso Correio Braziliense,
vendido em Londres. Aqui no Brasil, os censores a serviço da Junta Diretora da Imprensa Régia
não davam conta de ler tudo que era impresso.Portanto, era possível a publicação de uma crítica, mesmo que dirigida a um funcionário da Corte.

Sentindo-se atacado por Araújo Guimarães, D.Gastão rapidamente redigiu uma resposta efensiva à censura do redactor. Pedia, então, que Araújo explicasse o que entendia por poema dramático e lírico, pois, em sua opinião, o redator não sabia do que estava falando. Os miradores de ópera do século XIX debatiam constantemente a respeito da importância do texto frente à música do espetáculo.

O que era mais importante, um escritor ter liberdade de criação para produzir um belo poema ou submeter-se aos caprichos dos mestres compositores da música? Pelo visto, D. Gastão se posicionava ao lado daqueles que almejavam maior liberdade para as falas.

Apesar da enérgica resposta à sua crítica, Araújo não pôde contestá-la, pois caiu doente e não escreveu a tréplica antes da representação da ópera. Para felicidade de D. Gastão, outros jornais da época saudaram o espetáculo, definindo-o como magnífico. Na edição do Patriota de janeiro de 1814, é finalmente publicado o Exame da resposta defensiva à censura do Redactor.

Indiferente ao êxito que a peça obteve, o jornalista não suspende a artilharia e indaga: “Pensa o poeta que em menos de duas páginas caberiam todos os seus defeitos?” E ao responder ao pedido de seu rival para que explicasse o que entendia por poema dramático e lírico, escreveu, de forma irônica, que não imaginava que alguém pudesse compor um gênero que não conhecesse.

Já era o mês de fevereiro de 1814 quando chegou à praça o Recenseamento ao pseudo-Exame
da resposta defensiva à censura do redactor. Percebe-se aqui que D. Gastão deixa de lado a
polidez de sua última resposta e parte para o ataque final, dizendo que havia desistido de continuar com a disputa após ter lido aquela “rebolaria de palavras”, mas mudara de idéia, pois queria desqualificar “todas aquellas pulhas de ralé baixa”. O dramaturgo condenava o que ele chamou de “pseudo-exame”, pois este tinha enxovalhado uma bela produção revista pela competente Secretaria de Estado, votada a Sua Alteza Real e representada em Sua Augusta Presença.

A discussão termina com uma resposta indireta do redator do Patriota, que, reproduzindo uma breve citação do poeta britânico Alexander Pope (1688-1744), infantiliza D. Gastão comparando-o a mulheres e crianças, e dando a entender que este só saberia difamar, e não dialogar. Para muitos, inclusive membros do governo, o debate foi desgastante, na medida em que resvalou numa troca de acusações mútuas e ofensas pessoais. O censor régio Luiz José de Carvalho e Melo, em um parecer enviado ao rei, relatava que os dois escritores não se contiveram nos limites de uma disputa literária, da qual o público teria tirado proveito e eles, a glória. Apesar da falta de compostura dos dois escritores, essa querela refletia algo inédito para os brasileiros. Era o florescimento de uma imprensa que, mesmo vigiada e limitada, permitia a divulgação de novas idéias e fomentava o debate público em torno de temas que interessavam ao nascente mercado consumidor de arte e literatura.

Um cochilo dispendioso

A construção do Real Teatro de São João era um projeto acalentado por D. João VI desde o momento em que a comitiva real desembarcou no Rio de Janeiro. A obra, determinada pelo
decreto de 28 de maio de 1810, foi financiada pelo empresário Fernando José de Almeida.
Criado à imagem do Teatro de São Carlos, templo da dramaturgia portuguesa, o prédio comportava 1.020 pessoas e chegou a oferecer ao público cinco espetáculos por semana. Dizem as más línguas que D. João, freqüentador assíduo, tinha o péssimo hábito de dormir durante os espetáculos. Parte ou não do folclore em torno da controversa imagem do monarca, tido como bonachão e preguiçoso, o fato é que esse cochilo custava caro ao Erário Régio, que pagava cem mil-réis pela Tribuna Real e 50 mil-réis pelos camarotes dos ministros.

Como não era desejo do monarca aumentar os impostos nem criar novos, foi elaborado um sistema de loterias para a subvenção do estabelecimento e para a contratação de maquinistas, figurinistas, ar tistas etc. O belo edifício, que serviu de inspiração para Jean- Baptiste Debret, cenógrafo contratado do teatro, pegou fogo no dia 25 de março de 1824, durante um espetáculo. Em menos de duas horas estava reduzido a cinzas. Seu proprietário, no entanto, não desistiu, e conseguiu um empréstimo no Banco do Brasil para a reconstrução da casa. A reinauguração se deu em 22 de janeiro de 1826, com o nome de Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara.

Revista de Historia da Biblioteca Nacional