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sábado, 25 de setembro de 2010

Mito da Caverna: Uma reflexão atual

Mito da Caverna: Uma reflexão atual
Por Pablo Fabiano Barbosa Carneiro

O Mito da Caverna, ou Alegoria da Caverna, foi escrito pelo filósofo Platão e está contido em “A República”, no livro VII. Na alegoria narra-se o diálogo de Sócrates com Glauco e Adimato. É um dos textos mais lidos no mundo filosófico.

Platão utilizou a linguagem mítica para mostrar o quanto os cidadãos estavam presos a certas crendices e superstições. Para lembrar, apresento uma forma reelaborada do mito. A história narra a vida de alguns homens que nasceram e cresceram dentro de uma caverna e ficavam voltados para o fundo dela. Ali contemplavam uma réstia de luz que refletia sombras no fundo da parede. Esse era o seu mundo. Certo dia, um dos habitantes resolveu voltar-se para o lado de fora da caverna e logo ficou cego devido à claridade da luz. E, aos poucos, vislumbrou outro mundo com natureza, cores, “imagens” diferentes do que estava acostumado a “ver”. Voltou para a caverna para narrar o fato aos seus amigos, mas eles não acreditaram nele e revoltados com a “mentira” o mataram.

Com essa alegoria, Platão divide o mundo em duas realidades: a sensível, que se percebe pelos sentidos, e a inteligível (o mundo das ideias). O primeiro é o mundo da imperfeição e o segundo encontraria toda a verdade possível para o homem. Assim o ser humano deveria procurar o mundo da verdade para que consiga atingir o bem maior para sua vida. Em nossos dias, muitas são as cavernas em que nos envolvemos e pensamos ser a realidade absoluta.

Quando aplicada em sala de aula, tal alegoria resulta em boas reflexões. A tendência é a elaboração de reflexões aplicadas a diversas situações do cotidiano, em que o mundo sensível (a caverna) é comparado às situações como o uso de drogas, manipulação dos meios de comunicação e do sistema capitalista, desrespeito aos direitos humanos, à política, etc. Ao materializar e contextualizar o entendimento desse mito é possível debater sobre o resgate de valores como família, amizade, direitos humanos, solidariedade e honestidade, que podem aparecer como reflexões do mundo ideal.

É perfeitamente possível relacionar a filosofia platônica, sobretudo o mito da caverna, com nossa realidade atual. A partir desta leitura, é possível fazer uma reflexão extremamente proveitosa e resgatar valores de extrema importância para a Filosofia. Além disso, ajuda na formulação do senso crítico e é um ótimo exercício de interpretação de texto. A relevância e atualidade do mito não surpreende: muitas informações denunciam a alienação humana, criam realidades paralelas e alheias. Mas até quando alguns escolherão o fundo da caverna? Será que é uma pré-disposição ao engano ou puro comodismo? O Mito da Caverna é um convite permanente à reflexão.

*Pablo Fabiano B. Carneiro é professor de Filosofia e História Geral e do Brasil para Ensino Médio. Coautor do livro “Coisas da Filosofia e Fatos Sociais”, Editora Allprint

Revista Filosofia

Você Sabia…

…que os gregos consideravam a memória sobrenatural ou divina? Era a deusa Mnemosyne, mãe das musas que protegiam as artes e a história. A deusa Memória dava aos poetas e adivinhos o poder de voltar ao passado para contá-lo no presente ao povo. Tinha o poder de dar a imortalidade aos mortais, pois quando os artistas ou os historiadores registravam em suas obras a fisionomia, gestos, feitos e palavras de um ser humano, ele viveria para sempre. Não seria mais esquecido.
Almanaque Brasil

Mitos que metem medo


Em outubro, em várias partes do mundo, comemora-se o Halloween, ou Dia das Bruxas. Tradição norte-americana. Mas será que é o caso de importar lendas alheias se temos tantos mitos capazes de botar qualquer bruxinha na sandália? Para rebater a data, há quem defenda: 31 de outubro é o Dia do Saci. Do Saci e de toda a sua turma, esses meliantes que vivem à solta, praticando toda sorte de malfeitorias. É hora de puxar a ficha corrida dessa gente e dar o veredicto. Podemos ou não tolerar tamanha série de abomináveis maldades? E mais: haverá cadeia capaz de conter a imaginação?

Atenção. Eles são capazes de qualquer coisa. De azedar o leite a raptar crianças que teimam em não dormir; de tirar gente do rumo de casa a roubar presentes. Quebram pontas de agulha, desferem coices, queimam os desavisados. Tem de todo tipo, pra todo gosto e de todos os cantos. O Cabeça de Cuia vem do Piauí; o Negrinho do Pastoreio, do Rio Grande do Sul; a Cobra Norato, do Pará; o Tibanaré, do Mato Grosso. Tem uns que não se sabe nem de onde vêm. A quadrilha é tão extensa que não caberia num ALMANAQUE todinho dedicado a ela.
Ao longo do tempo, perseguida, essa turma acabou se refugiando longe das histórias que contamos para as crianças. Em 1947, Câmara Cascudo já alertava para o risco de extinção. Em Geografia dos Mitos Brasileiros, para garantir-lhes sobrevida, resolveu prendê-los num campo, bem pobre e curto, mas enfim um campinho onde poderão ser vistos em maior número que no meio das matas, dos capoeirões e das várzeas brasileiras, dos rios, dos ares e das montanhas da Pátria. Fez efeito. Hoje, parte fundamental dos registros sobre a nossa riqueza mitológica está nas páginas do patrono deste ALMANAQUE. E de lá, vira-e-mexe, saltam de volta para o terreno da imaginação dos leitores.

Mal necessário
Segundo o crítico literário Fábio Lucas, os mitos brasileiros servem de referência para que nos identifiquemos enquanto grupo social. “Se alguém fala na Iara, por exemplo, você sabe que é brasileiro. A nação identifica esses símbolos.” No interior do País, lendas viram romances e cantorias em feiras. “Remetem a tempos fabulosos, em que o homem era um prolongamento da natureza, as árvores e os animais falavam”, completa.
Este atenuante é válido. Mas como justificar o medo que instilam nas pessoas, dos senis aos mais jovens? O psicanalista Mário Corso, no livro Monstruário, defende que essa sensação colabora para nosso bem-estar: “É ótimo para as crianças. É mais fácil saber do que se tem medo. Ruim com eles, pior sem”. Para Mário, na cultura ocidental, Deus e o Diabo travam batalha sem fim: enquanto um organiza, o outro bagunça o mundo. E com os dois em baixa atualmente, os entes fantasiosos cumprem bem o papel. “Precisamos desses monstros, pois sozinhos não conseguimos explicar o mal, por isso criamos símbolos para sintetizá-lo”. Que tenha início então o julgamento.

SACI


Já foi tema de livros, filmes e programas de tevê. Há três tipos: o Saci Trique, o Saçurá e o Pererê. Os dois primeiros são coadjuvantes, mas o último, com vocação para a liderança, é altamente perigoso. Delinqüente de uma perna só, com capuz vermelho e cachimbo na boca, é acusado de amarrar o rabo de cavalos, atormentar cachorros e atropelar galinhas. Na cozinha, estraga a sopa, azeda o leite, além de queimar a comida. Apronta também com as costureiras, derrubando dedais, quebrando a ponta de agulhas, escondendo tesouras e embaraçando novelos. Deixa os pregos de ponta para cima. Apesar da brandura de suas malvadezas, é réu reincidente. Prova disso é que Monteiro Lobato, já em 1918, compilou num inquérito as acusações que pesavam sobre o malandrinho, reunindo depoimentos de crianças de todo o Brasil - hoje, seguramente, todas avós, bisavós e tataravós.AcusaçãoCrime de injúria, caracterizado por ferir a honra pessoal da vítima. A ação penal prossegue mediante representação. Detenção de um a seis meses, ou multa, caso não haja acusações de maltrato a animais.
SACI

Criminoso astuto, começou suas atividades sabe-se lá onde. Para alguns, veio da Grécia, onde Licaon, rei da Arcádia, teria servido carne humana a Zeus. Furioso, o deus supremo o teria transformado em lobo. Fugiu então para Roma. Perambulou por séculos pela Europa. Depois de muito fugir, o maldito veio parar no Brasil. Dizem que se esconde hoje na paulista Joanópolis, no sopé da Serra da Mantiqueira, embora haja indícios que não seja um, mas muitos.
Corre à boca pequena que leva vida dupla: de dia age naturalmente, sem despertar suspeitas. Mas em noite de Lua Cheia transforma-se em lobo. Vagando sobre quatro patas, se não mata suas vítimas, transforma-as em lobisomem. No dia seguinte, o bandido acorda com as roupas rasgadas, cansado, apático, amarelo.
A ciência ainda não descobriu cura para readaptar esse tipo à sociedade. Armas comuns são inúteis. Só há duas maneiras de contê-lo, dizem: tiro de bala de prata ou com projétil revestido de cera de vela de altar, no qual celebraram-se três missas natalinas.

SACI

Acusação
Homicídio qualificado praticado por motivo fútil: vai a júri popular. Crime hediondo. Pena de 12 a 30 anos. Caso fosse réu primário, poderia cumprir parte da pena em regime aberto. Como é estrangeiro clandestino, está sujeito a extradição sumária.

CUCA

Também conhecida como Coca, é velha, feia e desgrenhada. Aparece de noite para levar embora criança s inquietas, que teimam em não dormir quando os pais mandam. Não por acaso, existe uma canção de ninar ( na verdade um aviso para os mais levados): Nana, neném, que a Cuca vem pegar/Papai foi pra roça, mamãe pro cafezal.
Articulou um a quadrilha que possibilita agir simultaneamente em várias regiões do País, raptando crianças sem deixar rastro. Em diversas partes do mundo sabe-se de sua existência. Recentemente, passou por transformações tão radicais que testemunhas relataram parecer-se mais com um dragão, ou um jacaré: tem o corpo repleto de escamas, uma boca enorme e uma cabeleira vermelha (não se sabe se usa tintura).

SACI

Acusação
Formação de quadrilha. Artigo 288 do Código Penal. Pena de um a três anos. Cárcere privado: até três anos de reclusão. Reincidente, circunstância agravante que aumenta o tempo de pena. Para diminuí-la, a defesa pode alegar crime continuado (dois ou mais crimes da mesma espécie).

Ouvidas as testemunhas, acusações e defesas, este ALMANAQUE resolve livrar a barra dos acusados. A favor deles pesam os seguintes fatos: aguçam a curiosidade, revelam sobre nossa identidade, estimulam a criatividade, engrossam com muita sustança nosso caldo cultural. Que venham novos acusados, que se somem mais relatos, que se crie , no fértil terreno das idéias, tantos campos quanto puderem abrigar nossas lendas e mitos. E nem poderia mesmo ser diferente. Eles se multiplicam, estão em qualquer lugar, surgem a qualquer hora em que se risque a fagulha de novas histórias. Afinal, haverá cadeia capaz de aprisionar a imaginação?
Consultoria jurídica: Leonardo Sica e Bruno Caires

SAIBA MAIS

Monstruário: inventário de entidades imaginárias e de mitos brasileiros, de Mário Corso (Tomo Editorial, 2004).
Geografia dos Mitos Brasileiros, de Câmara Cascudo (Global, 2002).
Danilo Ribeiro Gallucci

Pé de pato, mangalô, três vezes

{agosto de 2009}


.Não adianta tentar escapar. Mesmo os mais céticos são um pouco supersticiosos. “Evitar superstição já é outra superstição”, dizia o filósofo inglês Francis Bacon. A máxima vale ainda mais em terras brasileiras. A mistura de lendas indígenas, europeias e africanas criou vasto cardápio de crenças e mandingas.

Boa parte de nossas crendices está ligada a religiões populares do Brasil, como catolicismo, umbanda e candomblé – e, em muitos casos, a uma mistura das três. A superstição baseia-se na fé ou no medo. Se tal ritual não for cumprido, “coisas más hão de acontecer”. E que ninguém ouse desafiar as forças ocultas.
Mesmo os “doutores” não a deixam de lado. “Joaquim Nabuco não era supersticioso. Mas não passava por debaixo de uma escada. Nem o Barão do Rio Branco. Nem João Pessoa, presidente da Paraíba, ministro do Supremo Tribunal Militar”, narra o escritor Afonso Lopes de Almeida.
De cidadezinhas a grandes metrópoles, o povo não esquece dos rituais que trazem sorte. Há quem corta o bolo de aniversário de baixo pra cima (pra subir na vida). Quem não oferece a primeira bolacha do pacote (pra não perder o namorado). Quem bate na madeira (pra evitar que algo dito aconteça). Quem se apavora ao cruzar com um gato preto, e quem não esquece o amuleto da sorte. O folclorista Câmara Cascudo explica: “As superstições participam da própria essência intelectual humana. Não há momento na história do mundo sem a sua inevitável presença”.
Mas, claro, há os mais exagerados, que incorporam o hábito para toda a vida. O dicionário Houaiss não dá uma definição muito simpática para o termo.
Superstição: crença ou noção sem base na razão ou no conhecimento, que leva a criar falsas obrigações, a temer coisas inócuas, a depositar confiança em coisas absurdas, sem nenhuma relação racional entre os fatos e as supostas causas a eles associadas; crendice, misticismo.
Pelo sim, pelo não, o povo continua com suas crendices e misticismos. Afinal, como reza a sabedoria popular: se bem não faz, mal não há de fazer.


Dorival Caymmi ensina: Quem vai ao Bonfim, minha nega / Nunca mais quer voltar / Muita sorte teve / Muita sorte tem / Muita sorte terá / Você já foi à Bahia, nega? / Não? / Então vá. Terá mais sorte ainda se comprar uma fitinha do Senhor do Bonfim, um dos amuletos mais populares do País.
O preço é camarada: não passa de 10 centavos.
Símbolo do sincretismo religioso brasileiro, é usada para exaltar Jesus Cristo, Senhor do Bonfim e Oxalá, o pai de todos os orixás. É preciso amarrá-la ao pulso ou ao tornozelo com três nós. Para cada nó, um pedido, que será atendido assim que a fitinha cair naturalmente. Mas tenha paciência. Antes de algodão, agora elas são feitas de material sintético. Podem demorar mais de um ano para se desprender.



Coloque uma imagem de santo Antônio de ponta-cabeça dentro de um recipiente cheio de água. E só desafogue o santinho depois que ele lhe arrumar um par.


.Meio-dia é um horário temido para muitos. “É uma das horas abertas em que o Diabo se solta, os doentes pioram, os feitiços ganham poderio nas encruzilhadas desertas”, explica Câmara Cascudo. Ele ainda sugere que não se pragueje, cante alto, assobie e tampouco abra os braços quando os ponteiros do relógio marcarem meio-dia. O folclorista ainda lembra da frase de um professor: “Só temo neste mundo a revólver descarregado e praga ao meio-dia!”.



A vida de Roberto Carlos é cercada de manias e superstições. O cantor evita a cor marrom, passa longe do número 13 e adora se vestir de azul. Nunca usou a expressão “fita demo”, aquelas fitinhas cassete para demonstrar o trabalho. Prefere “fita amo”.
Durante anos se recusou a tocar um dos principais sucessos do início da carreira, Quero que Vá Tudo pro Inferno, por causa da palavrinha diabólica. Certa vez, numa coletiva de imprensa, o organizador colocou a canção para tocar. Na hora do refrão, em vez de entrar a palavra da discórdia, surgiu a voz de Cid Moreira recitando um salmo da Bíblia.



• Transmite asma e coqueluche. Só curáveis ao comer a carne do gato assada.
• Não ama seus donos, mas sim a casa em que vive. Por isso, ao se mudar, é preciso levar o gato dentro de um saco para que não saiba aonde está indo. Também é preciso passar azeite no focinho do bichano, para que perca o faro e não encontre o caminho de volta.
• O diabo constantemente toma a forma de um gato preto.
• Se pisar no rabo de um gato, o sujeito não se casará durante um ano.




Em 1927, um comparsa de Lampião sugeriu atacar Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ideia rechaçada pelo capitão. Primeiro por ser devoto de santa Luzia, a padroeira do município.
E depois por não gostar de atacar cidades que tivessem quatro igrejas – ou “quatro torres”, como dizia.
Mas, de tanto insistir, acabou aceitando o ataque, sob a justificativa de que o povo da cidade era pacato, até covarde. Resultado: o capitão sofreu uma vexatória derrota no embate com os mossoroenses.



Em 1937, estava marcado um jogo entre Vasco da Gama e Andaraí. Mas a delegação vascaína se atrasou devido a um acidente de trânsito. O árbitro já cogitava encerrar a partida e proclamar o Andaraí vencedor. Mas os jogadores, compreensivos, pediram para esperar um pouco mais. Mesmo sob uma chuva torrencial.
Os vascaínos chegaram e fizeram pouco caso do fair play: meteram impiedosos 12 a 0. O ponta-esquerda Arubinha resolveu se vingar. Afirmou que havia enterrado um sapo no campo do Vasco e rogado uma praga: “Se houver um Deus no céu, o Vasco da Gama há de ficar 12 anos sem ganhar”. Um ano por gol sofrido naquela tarde chuvosa.E, de fato, o Vasco passou a não ganhar nada. Até que um dia um dirigente do clube chamou Arubinha para conversar. “Vamos esquecer aquela história. A partir de agora você trabalhará aqui no clube, com um ordenado bom. Mas me diga uma coisa: onde está o sapo?” Arubinha confessou que não havia sapo algum, e prometeu retirar a praga. Oito anos depois do massacre do Andaraí, o Vasco se tornou campeão invicto.


Quer saber mais uma invenção de Santos Dumont? Na casa que construiu, em Petrópolis, a escada de acesso tinha apenas um pedaço de madeira do lado direito – o equivalente a meio degrau. Ou seja: o visitante era obrigado a começar a visita com o pé direito. A casa existe até hoje, e se tornou um museu em memória do supersticioso pai da aviação.



O polegar entre o indicador e o dedo médio simboliza o ato sexual. Tempos depois passou a ser usada para afastar maus-olhados e feitiços. Se perder uma figa, não se preocupe em procurá-la. Toda a carga negativa que recairia sobre você foi embora com ela.


É notório que o número 13 dá azar, certo? Menos para o técnico Zagallo, que vê o 13 em tudo – e sempre como um sinal de bom presságio. Após vencer a Copa América de 2004 contra a Argentina, o Velho Lobo disparou a pérola: “‘Argentina vice’ tem 13 letras!”. “‘Brasil sem hexa’ também”, lembrou um argentino maldoso, dois anos depois.




• Para afastar visitas indesejáveis, recomenda-se colocar uma vassoura de ponta-cabeça atrás da porta.
• Não se deve deixar crianças brincarem de montar nelas, sob pena de tornarem-se infelizes.
• Varrer à noite afasta a tranquilidade da casa.
• Quando a vassoura ficar velha, deve-se queimá-la em vez de jogar fora. É para manter a felicidade do lar.



Tanto na Europa quanto no Brasil, o sal é um símbolo da amizade. “Não te deves fiar senão daquele com quem já comeste um moio de sal”, relembra o folclorista Pedro Chaves. Agora derramar o sal é um símbolo do repúdio e da traição. Não à toa, Leonardo da Vinci retratou a Santa Ceia com o saleiro caído diante de Judas. Também era hábito cobrir de sal o chão da propriedade dos condenados. Foi o que aconteceu com Tiradentes antes do enforcamento. Para que nada mais cresça, impõem os detratores.


As correntes de internet já se tornaram uma praga dos nossos tempos. E existe de todos os tipos: para encontrar o amor, se tornar rico, achar um bom emprego. Basta que o internauta repasse a mensagem para determinado número de e-mails. Uma das correntes mais assustadoras – ou cômica – é a da menina Samara: Oi, meu nome é Samara, tenho 14 anos (teria se estivesse viva), morri aos 13 em Cascavel-PR [...] Envie isso para 20 amigos e minha alma estará sendo salva por você e pelos outros 20 que receberão. Caso não repasse essa mensagem vou visitar-lhe hoje à noite. Não quebre essa corrente por favor, a não ser que queira sentir a minha presença.
Pelo sim, pelo não, Samara tornou-se uma celebridade da internet.


Saiba Mais
Superstição no Brasil, de Luís da Câmara Cascudo (Global, 2001).

Bruno Hoffmann

Almanaque Brasil

MITOS BRASILEIROS

MITOS BRASILEIROS

Passemos em análise, mas a título de simples lembrança, alguns Mitos brasileiros catalogados e distribuídos por Basílio de Magalhães, um dos mais brilhantes espíritos de nossa geração, a quem muito admiramos pela cultura que esponta em tudo que lhe sai da pena fulgurante e pela admirável honestidade com que aborda todos os assuntos.

Sem essa revista, que em nada critica ou diminui o que ele disse, ficaria incompleta a primeira parte deste livro e de algum modo sacrificados estudos que virão adiante.

Quase ninguém liga mais ao Lobisomem, à Mula sem cabeça e à Porca-Mole, especialmente no Recôncavo Baiano. onde há tantos mitos e tantas "histórias" diferentes para se ouvir e contar que esses passaram ao rol das futilidades folclóricas. Os motivos, de tão batidos e de tão escassos de interesse, são sempre os mesmos e a estrutura das peças passou a ser parasitária de outros do nosso riquíssimo e quase desconhecido Fabulário Popular.

Talvez, sem tais quedas perceberem e querendo reviver e reanimar mitos agonizantes e que vão desaparecendo a galope do farto repertório dos acalôs, alguns Folcloristas menos avisados andem, por isso, a ver sempre lobisomens, mulas sem cabeça e porcas-moles nos personagens de outros contos, favorecendo assim, com tais e tão esdrúxulas deduções, teses verdadeiramente falsas que se apoiam em hábitos inveterados de "escolas" e de "mestres" e em peças por demais suspeitas de transformação e mescla no curso da vulgarização.

Nós, os do Norte, rimos sempre dos que, sem virem por esses mundos em que as tradições vivem, metem-se, do alto de seus tamanquinhos, a afirmar a mentira de estar o nosso Folclore eivado de equivalências, semelhanças e igualdades, como, por exemplo, Caiçara e Caipora, Caipora e Curupira, Curupira e Jurupari, quando a verdade é que, os Folcloristas sempre tiveram preguiça de os distinguir e confrontar, restabelecendo-os e limitando os característicos e os atributos de cada um.

Dos mitos ameríndios, o do Saci-Pererê assumiu, — do paralelo 20 Lat. S. até os limites do Brasil com o Paraguai, o Uruguai e a Argentina, — todos os vultos de bondade, de brejeirice, de esperteza, de devoção religiosa, de carpideira atroz dos defuntos e até de gaio de fábula, com todas as mazelas e todas as virtudes dos companheiros europeus, africanos, asiáticos e regionais, não sendo mesmo difícil que já tenha aparecido de casaca a disputar uma corrida de automóveis, ou fardado, dentro dum avião de bombardeio, a explorar estratosfera.

Modesta ave noturna de uma perna só em 1850, não é de duvidar um dia venha a ser o símbolo da Criação Brasileira.

Felizmente, na Bahia não existe esse degenerado Saci-Pererê. Nem na Bahia, nem no Norte.

Por essas bandas, especialmente no Recôncavo, temos o Sassu, — beija-flor, — famigerado ladrão de moças bonitas, bem empernadas, que aos noivos não cabe possuir, mas a ele que é perdidinho por donzelas. Um sátiro sem cornos nem pés de hircino, ou melhor, um sultãozinho alado, que vem dos tempos da Colônia e não tem, como o infeliz Saci, — pelo menos no nome, — um olho doente, mas lindos e grandes olhos negros, (sassu), — e ambos vivos, arregalados, tentadores e invencíveis (pererê).

Sassu fez tantos furtos e adivinhou tais coisas de amor que o crioulo baiano o materializou no Sussu, — um povo sundanês cujos homens viviam pelos candomblés do Garcia e da Cruz do Cosme a papar donzelas, — levando-o numa segunda-feira do Bonfim, ao som de canzás e agogôs e outros instrumentos afronegros, à denuncia: —

Sussu, sossegue,

Vá dormir seu sono.

Tá com medo, diga.

Quer dinheiro, tome.

Ficou o Sessu-Sossegue por uns tempos nas cantigas populares, mas um dia a Polícia acordou e varejou os terreiros à procura dos Sussus-suberês, que sabem tudo que se sabe e o que não se sabe, e mandou-os às pulgas da Correção.

Isso foi um incidente sem importância no anedotário do Sassu, pois nem lhe pegou a alcunha de Martim Pereira, nome de um português, caixeirinho de venda, e escolhido para desposar a filha do patrão, airada de amores por um moço que, depois de muitos anos de carinhos, lhe fugira de uma vez.

Martim Pereira caiu na sinonímia do Tapa-Buraco, do Pedreiro Martim, do Seu Pereira e de outros tantos despidos de poesia e de encantos que tem o Sossu, todo ternura e todo belezas, mimese perfeita do Deus do Amor, metamorfizando-se em moço ou em menino nos leitos das donzelas, mas sempre o mesmo Beija-flor ou o Beija-florzinho do Folclore Baiano.

Sussu aparece com esses nomes no fabulário recolhido por Silva Campos e publicado por Basílio de Magalhães, sem o ameríndio, que substituiu o de Chibamba, Zizi das moças casadeiras, diferente de todos os Sacis, de todos os Martins,de todos os Negrinhos, de todos Os Yacis do Brasil, — não sendo ele o Romãozinho, Sussu dos crioulos da Bahia que emigrou para o sul do Estado e daí para Minas Gerais.

O mito do fogo-falso tem sido puro veículo de propaganda católica e de exibição dos letrados. É um dos que necessita ser buscado de novo na boca do ameríndio para se ter a certeza da realidade.

Minhocão, mineiro, sertanejo? Pois sim. A Boiuna, como a Boiassu, são "almas" muito baratas de Boianan, a serpente fantasma, e de Aboinan, a minhoca fantasma, mito com que os ameríndios explicavam, — e ainda hoje explicam, — a origem de Paraguassu, capital deles, que era a Bahia, e de como se formaram suas montanhas e apareceram os animais que substituiram os existentes antes do dilúvio em que Boinas, ou mais seguramente Amboianan, passou pela faquirização, fenômeno esse comum na vida dos jacarés, pitus, &.

Uirá e também Yara, o Pai e a Mãe-d'água, perderam a virtude diante de Iemanjá, de Janaína, de Anamburucu, de Quianda, e de outras chimbis afronegras.

Uiara, andrógino, seduziu-se a si próprio, despertou o libido, fez-se mulher, Iara, para se prostituir ou para ser infeliz como esposa e assim perder a virgindade (para a honra da Igreja) e a divindade (para glória do Fetichismo). Essa é a lenda moderna. Ypu-pi-ára não é Uiara. Na tradição de alguns pontos do Recôncavo, Uiara morreu dentro do corpo de Iara, que ficou viva, e, em vez dele, ou de seu espírito, nasceu Ypipiara, - que foi morar no fundo do mar, de quem Iara tinha horror, não se vendo, jamais um no outro.

A "verdade", porém, não é essa. Veremos, em outro livro, quem são Iara, Uiara e Ypi ou Ypupiara

Tutu, Bicho e Mandu têm feito cócegas na sabedoria e calombos na inteligência de muitos de nossos Folcloristas e até hoje só os têm feito cambês, zarês, manês, zambês e marambaias. Quem manda essas "crenças" se meterem com "gente do mato?"

Mãe do Ouro, paulista, paranaense, gaúcha? Veio da África, na bagagem dos escravos, com Mãe da Chuva, em companhia de Mãe do Mundo, — mitos dos primeiros tempos da Humanidade. Andam. pelo Norte afora, em lindos contos — (no Pará, no Maranhão, no Ceará, em Pernambuco, em Alagoas, na Bahia), — de feição primitivamente árabe, por demais estragados pela vulgarização, sem perderem entretanto suas linhas mestras de beleza.

O Curupira não se desmoralizou ainda no Norte do Brasil. Em Minas Gerais, o Saci fê-lo negrinho em vez de caboclo, roubou-lhe uns tantos adornos e umas tantas roupas e andou a fazer visagens nas estradas.

Desovergonhado esse Saci: — atira para os outros o que é dele e aparece até promovendo tempestades para naufraga galeras...

Yurupari, cuja lenda só tem belezas na Amazônia, ainda aparece, com chifres e cauda de Satanás que os Padres da catequese lhe botaram.

os Folcloristas de agora, seguindo o exemplo dos etnólogos que por lá tem andado, podem, rindo-se das penas da excomunhão, elevá-lo ao trono que lhe cabe na tradição ameríndia.

AS lendas do Irapuru do Norte, ou do Inhamburu do Nordeste até o sul da Bahia, lindas de poesia e de felicidade, infelizmente são raras nos registros folclóricos e ainda no verso brasileiro. Como elas, as do Tongará, que dança ao som de sua própria música.

O mito do Mapin-guari é antigo na costa e no interior do Brasil, desde a Bahia até o extremo Norte.

Já aparece, nas "histórias" que a ele se referem,

o meio de matá-lo: — tiro do umbigo. Isso é puro reflexo da ação sudanesa no Folclore trazido pelos bantos que se transmitiu aos mitos ameríndios. No Recôncavo da Bahia, como no Baixo São Francisco (Sergipe - Alagoas) não encontramos essa perversão.

O Quibungo tem metido, na barriga das costas, muita gente boa.

O verdadeiro "perdeu as forças", mas sua "história", como totem angolês, é a pagina mais formidável da tradição afronegra no Brasil. Dela é que se poderá partir para a reconstituição do mito, aliás muito confuso no Fabulário que tem sido o entusiasmo de seus admiradores.

Mãe do Cabelo, nem mineira, nem afronegra. É parte da Cuiassara, que é uma mina de mitos.

A Cuiassara é haitiana. Os escritores chamam-na Caissara e dizem ser o mesmo que Caipora, embora muitos grafem caa-çara e caa-póra para mentirem com mais "inteligência".

No último quarto do século XIX, Vale Cabral descobriu, na Bahia, o Tutu-Zambê "incorporando-se" num porco. Toda gente riu-se, riram-se os Tutus, e até as pedras riram-se. Chibamba, que é o "rei dos encantados", convidou todo mundo para ver o filhinho do Tutu-Zambê com a Queixada de Vale Cabral. — Que beleza era o pimpolho! Mentira pura, todo mentira. Disforme, nasceu morto. — Os bichos riam-se ainda mais vendo também o retrato de Chibamba pintado, em Minas Gerais, pelo mesmo senhor: — "Anda envolto em longa esteira de bananeira, ronca como porco e dança compassadamente". Chibamba riu-se de mitógrafo...

A Mão-Pelada vive na boca dos caçadores, desde o Ceará até o Norte de Minas Gerais e ainda em território goiano, mas sua ideação é confusa ao sair dessa região.

O Corpo-Seco, de São Paulo, não é realmente a Cabeça de Cuia do Piaui, mas os dois são remanescentes de "histórias de excomunhão" trazida de Roma aos pais brasileiros de outros tempos. Ainda hoje há quem comungue filhos.

Pelo Rio Grande do Sul andam umas lendas de tesouros encantados que também nascem e crescem no Norte e no Centro do Brasil. Por lá correm umas "histórias" da Mulita, dos Zahoris, do Teiú-yaguá e do Nhandu-tata desconhecidas desde o território fluminenese até as regiões equatoriais. A do Boi Barroso é muito parecida com as do Boi Amarelo, Boi Branco, Boi Espacio, Boi Chita e de outros Bois, inclusive mesmo o Barroso, que figuram nos rimários dos vaqueiros das regiões pastoris do resto do Brasil.

E assim deixamos, em traços largos, a "história" dos chamados mitos principais e regionais do Folclore Brasileiro que os folcloristas deveriam ter escrito para chegarem, sem mais auxilio, às seguintes conclusões:

1.° — os mitos havidos como principais refletem uma grande confusão, ou porque os afronegros houvessem "alterado" ou "renovado" os ameríndios, ou porque uns e outros houvessem crescido ou diminuído em atributos próprios ou emprestados;

2.° — mesmo que não existissem, como existem, tribos selvagens e semicivilizadas, além das aldeadas oficialmente ou já emancipadas, em territórios baiano, mineiro, paulista, &. há nessa confusão que os Indianistas e Folcloristas primam em ativar, sem a esclarecer, um tanto de desleixo, senão de descrédito para os intelectuais que não entram em contato com as massas, — pois a Amazônia é onde a influência afronegra não conseguiu penetrar a selva, ou melhor, é o tesouro de tudo que se pode buscar por intermédio do nheengatu, que é, mais ou menos o mesmo tupi que serviu de base à Língua Geral Brasílica;

3.º — não valeram as pesquisas, as obras, os anos de martírio dos naturalistas e outros sábios que se internaram pelas matas virgens para ao menos termos destruída essa confusão e restabelecidos mitos ameríndio em seus predicados e em seus característicos primitivos, pois, a fora muitos casos berrantes, nem Indianistas, nem Folcloristas que escrevem caa-pora fizeram a identificação do verdadeiro e do único Caa-pora, tapir ou tapira, icurê, anta, o morador das selvas, nem do gênio (?), i-cai-pora, Caipora, que aliás não mora no caitetu, - cai-(tetu)-pora;

4.º — tem sido mesmo, caiporas os mitos do nosso abundante e riquíssimo Folclore, todos varejados pela incursão de outros que podem e devem ser reconstituídos.

Sejamos sinceros diante desse espetáculo de carcaças de mitos que passam aos nossos olhos nos livros, nas revistas, nos jornais, nos desenhos.

Assemelham-se a variolosos abandonados em plena via publica que a Polícia atira em casas rotuladas de hospitais, mas sem leitos, sem remédios, sem cuidados, sem clínicos e até sem telhas. Os "benfeitores", que nada fazem para suavizar a agonia de tantos infelizes, "merecem" retratos nas páginas de topo dos periódicos encabeçando entrevistas sobre os progressos da pomada na Europa e na América. Enquanto isso, a peste vai se alastrando mais e as vidas se esvaem ao relento e à mingua.

Esse estado de coisas não se justifica na altura em que vão a Ciência e as Letras no Brasil, atingindo níveis superiores e pronunciadamente novos. Tudo que se tem feito no Folclore quase destoa desses máximos e da independência que a nossa formidável capacidade intelectual se empenha em aumentar.

Nem o registro das Tradições Populares mereceu consecutivos tratos após a febre que reinou no Império e veio aos primeiros tempos da República: — tudo está pedindo se volte a percutir seus bronzes que parecem carcomidos até pelo caruncho.

A mitologia ameríndia, salvo a que se coligiu e veio a lume e a que se fantasiou nos estilos pomposos de nossos polígrafos, vive cheia de belezas e de imaginação do "selvagens" no Norte do Brasil.

Os vastos cabedais que a Amazônia poderia oferecer aos que se entregam a tais misteres desafiam o gênio humano a buscá-los e transferi-los aos patrimônios da Tradição Americana como joias que, se não se emparelham com as dos povos desde cedo trabalhados pela cultura, também não perdem para as primitivas civilizações de outros.

E nem se necessitava ir tão a fundo nesses traços de ideação aborígene. Ainda restam, aqui e ali, esparsos, antigos núcleos que há bem poucos anos se emanciparam ou ainda se têm mantido como um resto do Brasil de outrora entre a cruz dos catequistas e o domínio do colonizador.

Numa e noutra partes ainda se encontram maravilhas jamais registradas e um considerável séquito de "heróis"" e de ciclopes cujos palcos, destruídos ou não, se ficaram na tradição que ainda não está de todo perdida.

Mesmo nos candomblés do Recôncavo Baiano, apenas penetrados com êxito científico por Nina Rodrigues e Artur Ramos e a título de informação por Manoel Querino, a obra do Folclorista não se pôde de todo manifestar. Embora tudo pareça trancado com os sete selos do Apocalipse, ainda se varejam os cantos dos santuários atrás das yawos e das mães de santo,

também dos equejis, dos babalôs e dos pais de terreiro, em busca de pérolas sagradas ou não que se guardam como parte das "histórias" dos orixás bem e malfazejos que passaram, na África, pelos transes dos sacrifícios e pelas fogueiras da divinização.

Infelizmente, em quase tudo que se vê publicado, é a máscara de um na voz de falsete de outro personagem, do negro dos olhos vivos na cara do caboclo desconfiado, — e vice-versa, — senão mesmo o disfarce de um ciclope ou de um ciclame que vem debochando gerações consecutivas sem que ninguém o identifique.

É esse o carnaval que não para aos olhos dos Folcloristas que se deleitam em ver e em comentar, achando semelhanças e igualdade do Boto e da Curacanga e o retrato fiel da Mãe d'Água na Caipora de um pé só que vai de braço com o Saci perneta para a festa do céu.

Enlevado nessas atrações pueris, esses Folcloristas, milionários de avenidas de "castelos", tem horror aos canfundós em que a sociedade sem máscaras se entruda como nos velhos tempos, mas se esconde assim que um chapéu de penacho aponta no alto da montanha distante.

Em registros quase todos velhos, em interpretações subordinadas a "escolas", em glorificações retumbantes de "mestres", em críticas e polêmicas satânicas para desmoralizar a obra sincera dos investigadores, em marmotas europeias que não enxergam à claridade dos trópicos, mas aparecem endeusadas como sóis que divulgam o infinitamente pequeno de um grão de poeira num dos cavos da lua, em assinalamentos de "variantes" e de "fontes" por um caminho transposto às tontas num deserto de Ciência e de Arte, — resume-se quase toda a história do Folclore no Brasil.

Seu Estudo tem quase se limitado a uma tentativa sem diretrizes científicas, sem objetivação artística, sem finalidade propriamente brasileira. Faltaram-lhe as bases que se estão pronunciando de uns tempos a esta parte como neecessárias e indispensáveis: — a Língua Geral Africana, a Língua Geral Brasílica e a Linguagem Popular, pois sem o conhecimento delas não há Folclorista que se aprume nem teorista de Folclore Brasileiro que mereça fé, — além de outros conhecimentos que não vêm "de dentro", mas só se conseguem pelo hábito das análises dos elementos ou pelo acentuado contato com os meios.

Não tente embrenhar-se pela dificuldade do estudo do Folclore quem não se achar suficientemente forrado de cultura científica e literária, mas, por isso, não se invalidem os brasileiros: — Colijam as peças que puderem e façam suas coletâneas sem mudança do que ouvirem, pois é o serviço que mais se afigura sempre necessário e sempre útil.

Obra: Os mitos africanos no Brasil: ciência do folclore (1937)
Por: Antonio Joaquim de Sousa Carneiro

Mitos de Exu: entre ordenamento da estrutura e conduta social e história exemplar

MITOLOGIA AFRICANA
Mitos de Exu: entre ordenamento da estrutura e conduta social e história exemplar
Por Nágila Oliveira dos Santos
Especialista em África / Brasil: laços e diferenças - UCB
Psicanalista Clínica – ESFLUP
Docente da SEEDUC - RJ
E-mail: nagila.oliveira@gmail.com

Passaremos a analisar os mitos iorubás, enquanto ordenadores da estrutura e conduta social e como história exemplar. Para essa finalidade, selecionados alguns mitos referentes ao orixá Exu.
Os mitos sobre Exu foram selecionados pelo seu forte aspecto de história exemplar, uma vez que Exu é o orixá que possui personalidade mais próxima dos homens. Segundo Barcellos “Exu é o nosso interior, é a nossa intimidade, o nosso poder de ser bom ou mau, de acordo com a nossa própria vontade. Exu é o ponto mais obscuro do ser humano e é, ao mesmo tempo, aquilo que existe de mais óbvio e claro”. (BARCELLOS, 2002 p.51)
O trecho abaixo, extraído do mito no qual Exu ganha poder sobre as encruzilhadas, orienta a conduta do iaô e do povo de santo como um todo; no que se refere ao processo de aquisição de conhecimento e vivência dos iniciados na casa de santo.
“Exu não perguntava
Exu observava
Exu prestava atenção
Exu aprendeu tudo”
(PRANDI, 2002 p.40)

Graças à habilidade de observação e não de indagação, Exu foi capaz de aprender tudo que era necessário para auxiliar Oxalá na modelagem dos homens.
“Exu prestava muita atenção na modelagem e aprendeu como Oxalá fabricava as mãos, os pés, a boca, os olhos, o pênis dos homens, as mãos, os pés, a boca, os olhos, a vagina das mulheres. (PRANDI, 2002. p. 40)
A ética do serviço, tão necessária e presente entre o povo de santo, encontra-se também no mito, destacando seu aspecto de história exemplar na qual “Exu não tinha riqueza, não tinha fazenda, não tinha rio, não tinha profissão, nem artes, nem missão. Exu vagabundeava pelo mundo sem paradeiro...” (PRANDI, 2002. p. 40)
Exu que nada possuía, encontra paradeiro na Casa de Oxalá, onde através de muita observação e serviço é recompensado e torna-se o orixá mensageiro, dono das encruzilhadas, guardião da porta da casa de Oxalá, como podemos observar:

“Exu trabalhava demais e fez ali a sua casa,
ali na encruzilhada.
Ganhou uma rendosa profissão, ganhou seu lugar, sua casa”.
“... Exu ficou rico e poderoso.
Ninguém pode mais passar pela encruzilhada
sem pagar alguma coisa a Exu”. (PRANDI, 2002. p. 41)
Outro exemplo, do mito enquanto ordenador de conduta social está no mito em que
Exu respeita o tabu e por isso é feito o decano dos orixás.
“Aquele que usa o ecodidé
Foi quem trouxe todos a mim.
Todos trouxeram oferendas
E ele não trouxe nada.
Ele respeitou o tabu
E não trouxe nada na cabeça.
Ele está certo.
Ele acatou o sinal de submissão”. (PRANDI, 2002. p.43)

A passagem acima chama a atenção para importância de se respeitar os tabus estabelecidos. Exu obedece ao impedimento de não usar nada sobre a cabeça enquanto utilizava o ecodidé, respeitando o euó. Dessa forma, é recompensado por Olodumare,
tornando-se seu mensageiro e o decano dos orixás, como mostra o fragmento a seguir:
“Doravante será meu mensageiro,
pois respeitou o euó
Tudo o que quiserem de mim,
que me seja mandado dizer por intermédio de Exu.
E então por isso, por sua missão,
que ele seja homenageado antes dos mais velhos,
porque ele é aquele que usou o ecodidé
e não levou carrego na cabeça
em sinal de respeito e submissão”. (PRANDI, 2002. p.43)
Através do mesmo mito podemos analisar a questão do respeito à senioridade, um aspecto importante entre o povo de santo. Dentro desse, a idade de iniciação na religião prevalece sobre a idade biológica. Sendo assim, o mais velho pode dever reverência ao mais novo, _ “Exu era o mais jovem dos orixás. Exu assim devia reverência a todos eles, sendo sempre o último a ser cumprimentado...” (PRANDI, 2002. p.42)
No mito, a senioridade almejada por Exu é garantida a partir da realização de um ebó e pelo respeito ao tabu.

“Assim o mais novo dos orixás,
O que era saudado em último lugar,
Passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos.
O mais novo foi feito o mais velho.
Exu é o mais velho, é o decano dos orixás”. (PRANDI, 2002. p. 43-44)

O terceiro mito aqui analisado refere-se àquele em que Exu ajuda Olofim-Olodumare na criação do mundo. De acordo com o mito, Olofim-Oludumare reunira todos os sábios do Orum para que o ajudasse na criação do mundo. No entanto, as idéias de todos traziam algum inconveniente para a finalização do propósito de Olodumare.
No entanto, Exu ao propor pela primeira vez o sacrifício dos pombos e ao guiar Olofim por todos os lugares onde se deveria verter o sangue dos mesmos, torna possível a concretização da intenção de Olodumare. Sendo assim, novamente Exu é recompensado:

“Muito me ajudaste
e eu bendigo teus atos por toda a eternidade.
Serás reconhecido, Exu,
serás louvado sempre
Antes do começo de qualquer empreitada”. (PRANDI, 2002. p. 45)

Essa recompensa de Olodumare, aliada a outros feitos de Exu em tempos imemoriais, deu origem ao rito das casas de santo de o homenagearem antes de todos os orixás e antes do início de qualquer trabalho.
A primazia de Exu no que se refere ao recebimento das oferendas está atrelada a outro mito, no qual, Orunmilá tenta controlar a fome incontrolável de Exu, que mesmo após a morte continuava consumindo tudo, pondo tudo e todos em risco. Após consultar o oráculo Orunmilá ordenou: “Doravante, para que Exu não provoque mais catástrofes, sempre que fizerem oferendas aos orixás deverão em primeiro lugar servir comida a ele’. (PRANDI, 2002. p. 46)
Sendo assim, conclui-se que para haver paz e tranqüilidade entre os homens torna-se preciso dar de comer a Exu em primeiro lugar.
Alguns mitos também apresentam um caráter mais desordeiro de Exu, como o qual, após por fogo na casa em que estivera hospedado, ele fica rico.
Há um mito no qual, Exu, almejando criar fortuna depressa, realiza um ebó e segue para a cidade de Ijebu. Chegando lá, hospeda-se na casa de um homem de importante posição oficial e ao cair da noite pôs fogo na casa do mesmo. Alegando ter perdido uma fortuna com o incidente, e criando grande reboliço devido ao incêndio, Exu por ser estrangeiro, acaba sendo recompensado pelas perdas sendo proclamado rei de Ijebu, tornando todos os habitantes seus súditos.
Esse mito deixa claro que reboliço e confusão são os espaços de Exu. Para Barcellos, Exu é a bagunça generalizada.
Há mitos que apresentam um caráter vingativo de Exu, como no mito em que ele leva dois amigos camponeses a uma luta de morte. De acordo com esse mito, Exu, furioso, por não ser louvado pelos camponeses pôs-se no caminho dos dois, na divisa das duas roças, tendo um a sua direita e outro a esquerda. Exu utilizou-se de um boné de um lado branco e do outro vermelho, de forma que cada camponês via apenas uma cor. A verdade sobre a cor do boné do estrangeiro, Exu, provoca discussão entre os amigos e acaba na morte de ambos, à golpe de enxada.
E ao implantar a desestabilização “Exu cantava e dançava. Exu estava vingado”.
(PRANDI, 2002. p. 49)
Dessa forma, podemos perceber no mito, um caráter de ordenador de conduta social, uma vez que retrata a necessidade de se cumprir com as oferendas para não despertar a sede de vingança de Exu.
Outro ponto que chama a atenção no mito concentra-se na quebra do conceito de verdade absoluta e na desestabilização trazida pela mesma. Exu, ao utilizar duas cores no mesmo boné relativiza a verdade e explicita a sua persona de relativizar, negar e afirmar.
Sendo assim, não existe verdade absoluta para Exu. Exu é a própria contradição.
No entanto, podemos nos indagar sobre a seguinte questão: o que teria de fato levado a briga e a morte dos dois amigos, a intolerância entre ambos motivada pela busca da verdade absoluta ou Exu? Exu trouxe a dúvida e a instabilidade, mas o desencadeamento da trama foi uma escolha humana.
Exu está na alteração de ânimo, na divergência, no nervosismo. Ele também se encontra presente na falta de controle do ser humano. (BARCELLOS, 2002)
A traquinagem é um dos muitos elementos da composição da personalidade de Exu e é explicitada em outros mitos. Temos por exemplo, um mito no qual, ele ajuda um homem a trapacear ou no qual provoca a rivalidade entre duas esposas a partir do ciúme e da competição.
Tratando-se de uma religião onde o intercâmbio entre os homens e orixás é estabelecido a partir da realização de oferendas e sacrifícios, a displicência no preparo do ebó é tão perigosa quanto à ausência da oferenda.
Há um mito, no qual Exu vinga-se por causa de um ebó feito com displicência. De acordo com o mito, um lavrador que precisava de chuvas para irrigar seus campos secos ofereceu um ebó para Exu. No entanto, preparou-o de forma displicente, apimentando-o e deixando Exu com muita sede. Com sede, Exu, abriu a torneira da chuva, fazendo com que a água jorrasse incessantemente, inundando e pondo em risco toda a colheita. Após refazer o ebó cuidando para que a comida estivesse no ponto, Exu o aceita e estanca a chuva.
Dentre os diversos mitos sobre Exu podemos concluir que:
“São muitas as tramóias de Exu.
Exu pode fazer contra,
Exu pode fazer a favor.
Exu faz o que faz, é o que é”.
Revista África e Africanidades – Ano 2 - n. 8 Fevereiro. 2010 - ISSN 1983-2354
www.africaeafricanidades.com

O mito africano no cotidiano dos afro-brasileiros

O mito africano no cotidiano dos afro-brasileiros

Sérgio Paulo Adolfo
Universidade Estadual de Londrina – UEL


Ao iniciarmos nossa comunicação faz-se necessário esclarecer que estamos usando o termo afro-brasileiros porque estamos tratando de uma realidade ligada às comunidades religiosas de matriz africana, mais especificamente, as comunidades-terreiro de candomblé, cujo estoque humano é composto por elementos oriundos de várias etnias e não somente por afro-descendentes. Assim sendo, a terminologia que melhor nos pareceu foi a de afro-brasileiros, por se tratar de uma questão ligada à cultura e não exatamente a etnia, apesar de reconhecermos que a etnia africana comparece com maior número de adeptos e que a cultura africana é, nesses espaços, a cultura preponderante.

O êxodo forçado dos africanos pelos europeus a partir do século XV, provocou profundas mudanças culturais e raciais no continente americano e durante os séculos de escravidão, a contribuição dos africanos foi marcante e determinante para definir a feição dos povos deste continente. Detentores de uma cultura milenar, os africanos souberam e conseguiram preservar e amalgamar sua cultura com as culturas locais e com a cultura do dominador europeu, criando um fenômeno humano sui generis, multi-cultural. Dentre essas contribuições, temos a considerar a contribuição religiosa, que no caso brasileiro, tanto os bantos, africanos do centro-sul africano, quanto os sudaneses, sobretudo os de origem iorubá, criaram em nosso país, vertentes religiosas que hoje convivem, enfrentam e afrontam de maneira vigorosa, a religião oficial do estado, o catolicismo, assim como algumas outras variantes cristãs.

Roger Bastide, nos seus célebres estudos sobre os candomblés baianos, chamava atenção para o fenômeno multi racial encontrado nesse universo, pois segundo ele, indivíduos das mais diversas procedências étnicas africanizavam-se através da iniciação religiosa. Através do processo iniciático os neófitos, brancos, negros ou asiáticos, tomam contato com a realidade africana, realidade essa mítica, idealizada, contudo africana, e a partir desse processo o indivíduo pautará sua existência religiosa e com o correr do tempo seu cotidiano, ancorado nos mitos referentes às divindades africanas. O processo de iniciação é o portal do conhecimento religioso, mítico e cultural oferecido ao neófito, conhecimento que permitirá ao mesmo aprofundar-se na raiz da religião e conseqüentemente nas raízes do espaço africano.

A oralidade se constitui no ponto fulcral das atividades no recinto das casas de culto, oralidade vinda, em parte do “ethos” africano dos povos aqui aportados, mas que também passou por um processo de reconstrução, de rearranjo necessário para a estruturação do atual fato cultural. No candomblé, a narrativa é tudo e tudo se estrutura como uma narrativa, sendo os acontecimentos sagrados (ou sacramentados) passados de pessoa para pessoa, como insistem os autores clássicos, Roger Bastide e Juana Elbein. A entonação da voz, o calor dos lábios, a saliva, são partes do ritual, completam o conteúdo do narrado, enfim, não é o fim último – mas é o elemento que veicula um trajeto maior: o trajeto no qual se constrói a iniciação.

A oralidade, a voz do Povo-de-Santo não é apenas uma fala, mas é o próprio alicerce da existência sagrada e profana, pois é a partir da memória e da voz que se constrói o gesto do homem e o sentido do mundo:

“A palavra é isso, um bilhete de entrada, um cartão de acesso a esta ou àquela das moradas do edifício cosmogônico.” (ZIEGLER: 1977: p. 117)

A fala como mediadora do sagrado é uma fala privilegiada restrita ao conhecimento de uns poucos e o seu uso fora dos limites do espaço do candomblé, sem os componentes que lhe dão sustentação e razão, perde significação litúrgica e semântica. Ao longo dos anos de iniciação, o indivíduo vai, pouco a pouco, apoderando-se desse cabedal oral e narrativo, o que lhe confere um status e uma respeitabilidade de quem é dono da palavra e, portanto, do saber iniciático, tornando-se, dessa forma, dono do poder estatuído. O dono da palavra é também o dono da voz, do gesto, do fazer e, portanto, do decidir.

A gênese e a sustentação das religiões se dá através da palavra poética, no sentido que lhe dá Octávio Paz, pois o mito, a história real do tempo mitológico, em que os deuses criaram os homens e o mundo, constitui-se de um conjunto de textos primeiramente literários possuidores, portanto de verossimilhança, ou a verdade da ficção. As ações das divindades são relatos que reconstroem os fatos e dão sentido à vida do homem religioso, sendo que sem mito não há religião, pois o mito é a palavra e a poesia é sempre tributária da palavra.

Por sua vez, o candomblé, enquanto religião, ampara-se e estrutura-se num discurso multiarticulado e numa memória que lhe dá sustentação teológica interna, ao mesmo tempo que, lhe permite jogar com outras instâncias sociais. Tal como em outras religiões, esse discurso multiarticulado abebera-se em fontes, por vezes perfeitamente conhecidas, outras, que precisam ser rastreadas e mapeadas, pois, a partir desse mapeamento redesenha-se o caminho percorrido, chegando-se ao resultado atual: ao discurso presentificado. Esse discurso que pretendemos analisar a partir de três momentos específicos, uma vez que os rituais e comemorações do candomblé realizam-se a partir dele.

É com esse programa simbólico que o candomblé atua, na medida em que a filiação sagrada é vista como um modelo de comportamento, que os rituais mimetizam os gestos primordiais e fundadores, que as obrigações estabelecem/restabelecem o equilíbrio cósmico e que as narrativas dão conta da realidade e declaram a verossimilhança em meio ao caos dos acontecimentos. No entanto, essa relação sagrada x cotidiano não é completamente resolvida, pois fissuras, conflitos, atritos, obrigam o Povo-de-Santo a tecer estratégias contínuas para manter o alinhamento entre a concepção ideal e a realidade vivenciada.

Sendo a palavra, como vimos, o ponto essencial das atividades do candomblé, é importante que consideremos as narrativas e os poemas como parte integrante de um corpus literário, no sentido funcional, pois não somente atendem à transcendência, por serem textos religiosos, mas também cumprem funções eminentemente literárias, enquanto preenchem nossos vazios de ilusão e fantasia, assim como proporcionam através de si meios do homem conhecer e alargar sua humanidade. Há no corpus literário do candomblé, poemas e narrativas, sendo os poemas apresentados em forma de cantigas, orikis, ingorossis, e as narrativas em forma de mitos e de histórias exemplares.

As cantigas revelam a composição do enredo do Orixá ou do Inkice, enumeram as suas qualidades, tecem loas aos seus feitos e às suas habilidades e vitórias.

Em linguagem de candomblé, chama-se enredo do orixá, sua história, suas ligações míticas e suas relações com os homens. Essas cantigas-poemas, já o dissemos, contêm as histórias dos Inkices e dos Orixás, suas origens e suas principais qualidades. Portanto, nessas cantigas há um corpus mitológico do povo africano que no caso dos Bantos, especificamente, revelado virá desmistificar muitos dos pontos de vista até agora sustentados pelos nossos africanistas. A mitologia banto chegou ao Brasil em levas sucessivas do século XVI ao XIX, trazendo pessoas de reinos os mais diversos. Há dessa forma muitos mitos sobrepostos e recontados de maneiras muito variadas, considerando-se que a cultura e especificamente a literatura participam de um dinamismo irreversível, mas o que se pode perceber é que ao longo do corpus poético do candomblé Congo-Angola esses nomes aparecem sinalizando assim uma determinada origem de acordo com o Inkice presente.

Quanto aos mitos, é lugar comum dizermos que os bantos brasileiros não possuem um corpus organizado como os iorubás. Essa ausência levou os nossos pesquisadores a imputarem aos bantos ausência de mitos ou declararem que os mesmos possuíam uma mitologia paupérrima, tendo por isso de utilizar os mitos nagôs. Esse corpus mitológico encontra-se no interior das cantigas, dijinas e ingorossis, pois se o sistema adivinhatório nagô conservou um corpus mitológico aparentemente coerente, o sistema adivinhatório banto é de outra natureza e a própria idéia de divindade dos bantos está ligada sobretudo à ancestralidade, resultando dessa forma em mitos de fundação com heróis bem delineados. Uma das divindades do panteão banto, iaiá Matamba, erroneamente nomeada de Oyá Matamba por assimilação com o orixá nagô Iansã também nomeada de Oyá, é ninguém menos que a legendária Rainha Nzinga, poderosa guerreira, rainha dos Jagas, que castigou duramente os portugueses no século XVI. Matamba é a região no planalto angolano onde viveu essa rainha poderosa, que hoje se apresenta nos candomblés bantos exibindo a sua força guerreira, o seu poder de ventania e tempestade.

A linguagem simbólica do candomblé trazida nos porões dos navios negreiros, acrescida e enriquecida na realidade brasileira, é perpassada e remoldada no cotidiano das práticas das Casas-de-Santo. As histórias e mitos, os fundamentos orais da religião formam um conjunto narrativo assaz sugestivo e peculiar. Ancorados em André Jolles podemos afirmar que esse conjunto oral-literário faz parte das “formas simples”, destacando-se como um rol de contos, mitos e algumas sagas que tem servido como matéria prima na tessitura de algumas narrativas complexas brasileiras. Faz parte da literatura moderna, no Brasil, vários romances, novelas e contos, que trazem como motivo principal as peripécias ligadas aos Orixás. A literatura oral, portanto, pode ser vista sob dois ângulos: como sustentáculo discursivo do complexo religioso do candomblé e como matéria-prima de parte da literatura brasileira na sua vertente afro-brasileira.

Segundo Gwyn Prins1 , pode-se distinguir três modos de comunicação:

1)culturas totalmente orais que desconhecem a escrita;
2)culturas somente de linguagem escrita (línguas clássicas);
3)compostas, que possuem tanto as formas orais quanto as escritas.

Nesse terceiro modo reconhecemos culturas universalmente alfabetizadas e restritamente alfabetizadas.

A memória coletiva e individual é assim o esteio das atividades do povo-de-Santo. Entretanto, é necessário que se distinga a memória coletiva da memória individual sendo que a individual pode ser caracterizada como reminiscência, enquanto a coletiva formaria o arcabouço da tradição. Enquanto a reminiscência é de caráter pessoal e raramente ultrapassa a segunda geração, a tradição resiste ao tempo cronológico e torna-se um corpus mais ou menos fechado, impermeável às influências do meio circundante. Porém é necessário destacar que essa tradição mesmo resistente às influências do meio pode sofrer, com a inexorabilidade do tempo, lacunas e esquecimentos uma vez que está restrita ao terreno da memória, sem, muitas vezes, o registro escrito.

Jan Vansina divide a tradição em quatro tipos:

a) quanto à forma, pode ser:
congelada – poesia (incluindo canções, listas, e a épica)
livre – fórmulas (nomes, provérbios, etc.) e a narrativa.

b) quanto à expressão, pode ser:
automática – poesia e as fórmulas,
não-automática – a épica e a narrativa.

Com esses esclarecimentos iniciais podemos tratar do tema que nos propomos que é verificar até que ponto o arcabouço narrativo e poético de matriz africana interage no cotidiano dos afro-brasileiros. É preciso, no entanto, que não caiamos na tentação da generalização, uma vez que cada casa de Candomblé constitui-se numa unidade isolada, mesmo as com raízes comuns, obedecendo a ritmos e influxos diferenciados. Não há uniformidade de rituais e nem o conjunto de mitos é o mesmo para todas as casas. Isso sem levarmos em conta que são muitas as religiões de matriz africana, e estamos restringindo o nosso olhar apenas aos candomblés de origem banto ou sudanesa.

Quando dissemos que o conjunto de narrativas e poéticas que dão sustentação às práticas litúrgicas do candomblé são sempre orais não estamos querendo afirmar que sejam sempre memoriais, pois se não existem livros publicados, e agora até já existe, esse conjunto de narrativas geralmente se encontra em cadernos manuscritos, passados de geração em geração e acrescidos de anotações no decorrer do tempo, cadernos esses guardados a sete chaves pelos Zeladores por conterem em si os fundamentos da religião e portanto não poderem ser manuseados por mãos e olhos profanos. Daí os pesquisadores ouvirem referências a eles, mas dificilmente tiveram contato direto com esses famosos cadernos. Toda casa que se preza, ou que deseja impor uma tradição, tem nesses cadernos deixados pelos antigos Zeladores verdadeira veneração, tal como os cristãos têm com as relíquias de seus mártires e santos canonizados.

Uma espécie desses cadernos foi transformado em livro pela Mãe-de-Santo Beata de Yemonjá, com Casa-de-Santo no Rio de Janeiro. Seu bonito livro chama-se Caroço de Dendê e foi editado pela Editora Pallas. É composto de uma série de contos, num total de 43, cuja temática são os ensinamentos recebidos pelos Filhos-de-Santo de Mãe Beata. Há um subtítulo – A sabedoria dos terreiros – como ialorixás e babalorixás passam conhecimentos a seus filhos. As ilustrações são do Prof. Raul Lody, a apresentação da autora é feito pelo Babalorixá e antropólogo Júlio Braga, a introdução é de Vânia Cardoso e o prefácio de Zeca Ligiero, o que dá ao livro o respaldo da academia, pois todos os apresentadores são sobejamente conhecidos pelos seus trabalhos científicos. São várias histórias, algumas tendo como protagonistas os próprios Orixás, enquanto outras são narrativas protagonizadas por tipos populares, compondo histórias exemplares.

Os mitos ou histórias exemplares relatados por Mãe Beata fazem parte do arcabouço de conhecimentos do Povo-de-Santo pertencentes ao mundo do candomblé. Algumas dessas narrativas são bastante populares ao evocarem nomes de orixás cultuados mesmo nas casas mais sincréticas, enquanto outras pertencem ao mundo restrito de sua nação e de seu Axé. É possível que dentro de pouco tempo, os conhecimentos de Mãe Beata passem a ser usados por muitos Pais-de-Santo que se apropriarão desses conhecimentos sem citar as fontes. Mãe Beata está, com certeza, criando sem querer uma nova nação, um novo axé, a partir do seu caroço de dendê. Assim como Edson Carneiro, Roger Bastide e Pierre Verger “fizeram” muitos Pais-de-Santo de nação Keto, através de suas obras de observação nos terreiros tradicionais da Bahia, Mãe Beata ao relatar histórias ligadas ao seu cotidiano no mundo do Santo também servirá de modelo e de inspiração a apressados Pais-de-Santo feitos de um dia para o outro.

Por outro lado, Mãe Beata faz parte de uma nova geração de zeladores, que mesmo mantendo a seriedade da religião, a profundidade dos fundamentos teológicos, não faz disso uma arma pessoal, mas como pessoa generosa, aliás característica dos sacerdotes realmente escolhidos para tal fim, distribui de forma poética as histórias ligadas a sua atividade como sacerdotisa, mantendo é claro, em segredo, escondido nos silêncios do seu texto, aquilo que deverá ficar velado aos olhos profanos. Os textos de Mãe Beata poderão ser lidos de várias maneiras, aliás como toda boa literatura, e nesse caso, os textos encerram uma sabedoria só desvendável a quem possui a chave do mistério sagrado, o conhecimento de Camarinha, os caminhos da iniciação. Por isso, acreditamos que os contos e mitos relatados por Mãe Beata serão muito imitados na letra, mas não no espírito pois para se chegar ao fundo das narrativas de Mãe Beata é necessário ter percorrido os caminhos ditados pelos orixás nos longos silêncios da reclusão.

Durante as iniciações, que independendo da nação e do Axé a que o sujeito se ligue, é que se aprende os fundamentos da religião dos orixás. Trata-se de um longo processo em que o sujeito vai passando, lentamente, da vida civil, do cotidiano apressado e incivilizatório das grandes cidades, para a vida religiosa, no cotidiano do sagrado, na convivência íntima com os deuses e com os homens. Ao abandonar, por certos períodos do ano, o mundo burguês despojado de significações satisfatórias e adentrar num outro mundo, pré-capitalista, pleno de significações que dão sentido a existência do homem, o sujeito vai internalizando comportamentos que delinearão por diante seu cotidiano mesmo no mundo irracional em que é obrigado a viver. A civilização do candomblé servirá de suporte psicológico assim como de anteparo contrastivo ao seu fazer no mundo. Os mitos dos orixás irão com o correr do tempo tornando-se a razão de ser da sua vida e da sua presença no mundo, pois como disse Roger Bastide e Monique Augras, conhecer o orixá é conhecer nossa própria natureza. É interessante notarmos que, enquanto outras religiões, sobretudo as salvacionistas exigem do homem uma total conversão, o que equivale que o mesmo deixe sua antiga natureza para revestir-se de uma nova, transformada e portanto, o indivíduo deve deixar de ser ele mesmo, lutar contra si próprio e sua própria condição de ser no mundo, o candomblé, por sua vez, apenas conduz o indivíduo para uma maior aproximação com seu orixá, o que significa conhecer melhor e aproximar-se de si mesmo em atuação no mundo. Os mitos dos orixás são histórias exemplares de como o mundo se fez e da atuação da força divina temperada com a força humana na condução desse mundo. O fiel ao rememorar os feitos do seu deus e esse deus é feito através dele quando se da o processo de iniciação, daí o nome feitura de santo, porque cada orixá é recriado a partir da natureza profunda do homem, ou seja, homens e orixás são feitos da mesma matéria, da mesma energia e o candomblé nada mais faz que ensinar ao homem a harmonizar-se com sua própria natureza. O mito de Ajalá, o oleiro construtor das cabeças é a chave explicativa do cotidiano do homem de Santo. As escolhermos nossa cabeça, feita de algum elemento da natureza por Ajalá, estamos escolhendo nosso próprio destino e nossa própria natureza intrínsica e na medida que conhecemos as histórias de nossos orixás estamos conhecendo nossa própria história mítica. O fiel de candomblé não é incentivado a mudar, a ser outra pessoa, mas sim a aperfeiçoar, tendo como referencial o mito de seus orixás, a sua própria natureza. A sabedoria africana não quer que o homem seja outro, nem seja deus, mas que seja profundamente homem porque no recôndito de sua humanidade encontrá-se o divino, a força motriz, o grande construtor e mantenedor da vida.

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