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quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Caminhos de ferro

Caminhos de ferro
Engenheiro faz um passeio histórico pela construção das primeiras ferrovias brasileiras
Mario Góes

Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre


Trabalhadores estrangeiros nas obras da Madeira-Mamoré


Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Trabalhadores estrangeiros nas obras da Madeira-Mamoré



Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Trabalhadores estrangeiros nas obras da Mamoré-Madeira



Acervo Rubens Fernandes Júnior

Túnel na Serra de Santos


Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Autoridades em visita ao primeiro trecho pronto da Madeira-Mamoré


Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Deslizamento de trilhos devido às chuvas

Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Descarrilamento de vagões

Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

Castanheira derrubada para dar lugar à ferrovia

Acervo do Museu Paulista da Universidade de São Paulo/fotógrafo Dana Merril/reprodução fotográfica de Helio Nobre

NO MEIO DA FLORESTA Trabalhadores em obras da Ferrovia Madeira-Mamoré

Acervo Rubens Fernandes Júnior

SUL-SUDESTE Obras da ponte Barra do Rio Grande, da E.F. São Paulo-Rio Grande


Editada em dois volumes, Nos Trilhos do Progresso - A Ferrovia no Brasil Imperial Vista pela Fotografia e Ferrovia e Fotografia no Brasil da Primeira República, a obra de Pedro Karp Vasquez (Editora Metalivros) trata das estradas de ferro regionais construídas e operadas na Primeira República. Entre elas, Central do Brasil e Leopoldina, no Rio; Recife-Bahia, São Francisco, Great Western, Alagoas e Central da Bahia, no Nordeste; Tereza Cristina, Southern Brazil (de Rio Grande a Bagé), Cie. General de Chemins de Fer (Paraná), na região Sul; e a Madeira Mamoré, na Amazônia. Ao me debruçar sobre suas páginas, relembrei histórias e debates de um fascinante repertório com o qual tive o privilégio de conviver nos cerca de 30 anos que trabalhei com locomotivas, como engenheiro. Vou repartir alguns desses temas com os leitores da Brasileiros.

A construção da Madeira-Mamoré, a "Ferrovia do Diabo", é assunto fascinante, que já inspirou muitos ensaios e obras de ficção. A idéia de uma ferrovia em plena selva amazônica foi esboçada pelo governo imperial, em 1870, com o ciclo da borracha, e só foi se tornar oficial já na República. No Tratado de Petrópolis, em 1903, o Barão do Rio Branco prometeu realizá-la, como compensação à Bolívia pela ocupação brasileira da região que constitui hoje o Acre. A estrada deveria dar à Bolívia acesso ao Atlântico.

O grande interessado na obra a ser contratada era Percival Farquhar, empreiteiro americano que deu finalmente a partida na construção, não economizando recursos para implantar na selva amazônica toda a estrutura necessária - e, até, a desnecessária. Farquhar, que recebeu 33 milhões de dólares, dos quais 22 milhões fornecidos pelo governo brasileiro, transferiu para o local 25.000 operários das mais diversas nacionalidades, e criou desde benefícios essenciais para a construção da estrada, como oficinas e alojamentos para toda essa população, até requintes inteiramente dispensáveis naquela situação, como quadras de tênis e uma lavanderia a vapor!

Muitas centenas de operários morreram na construção, vitimados por acidentes e malária. Os trabalhos eram uma luta inglória contra as forças da natureza amazônica - chuvas torrenciais destruíam o que se construía durante a seca. Enquanto a obra se arrastava, o ciclo da borracha esgotava-se. Era visível que as condições do início da obra, com o dinheiro farto da borracha, estavam mudando, mas ela foi levada ao fim sem qualquer benefício para ninguém.

Quando a estrada finalmente ficou pronta, em 1912, o ciclo da borracha estava nos estertores e nem a Bolívia nem o Brasil tinham o que transportar. Aos construtores interessava apenas entregar a obra e escapar o quanto antes daquele inferno. Os presidentes brasileiro e boliviano - e, sequer, o sr. Percival Farquhar - não se dignaram a comparecer à inauguração. Restou para o País a ruína mais cara do mundo, uma vergonha que nem a lavanderia a vapor conseguiu lavar da memória.

É interessante lembrar que 70 anos depois da epopéia da construção da Madeira Mamoré , em Carajás, no extremo oposto da Bacia Amazônica, foi preciso construir uma estrada de ferro para escoar a produção de minas de hematita. A Vale do Rio Doce deu início à Estrada de Ferro Carajás e experimentou as mesmas dificuldades de toda construção na selva amazônica, mas, ao contrário da borracha, as jazidas de hematita não iriam se esgotar. Havia minério suficiente para torná-la rentável desde o início das operações, com trens que no início da operação carregavam 19.000 toneladas e hoje transportam 21.000, talvez a maior carga do mundo.

A tragédia da Madeira-Mamoré e os recordes de eficiência de uma ferrovia como a de Carajás chamam a atenção para o fato de que a sobrevivência das estradas de ferro está intimamente ligada aos produtos que elas transportam e à necessidade de ser projetadas dentro de uma logística regional. As estradas de ferro cumpriram bem o seu papel quando trouxeram um grande impulso à economia, atendendo à demanda de transporte de um determinado setor, como o café, a cana-de-açúcar e os minérios. O declínio da atividade trouxe consigo a decadência da respectiva ferrovia. As estatísticas da ferrovia de Carajás foram sempre crescentes porque ela está ligada a uma atividade rentável, a exportação de minério, mas também graças a uma visão administrativa que conhece os inconvenientes de se cuidar só da mina ou só da ferrovia (é uma ironia o fato de que o responsável por toda essa competência, o ex-presidente da Vale, Eliezer Batista, tenha sido demitido pelos militares).

No Brasil a era do trem começa no final do século XIX, com o transporte de uma das maiores riquezas do País, o café, uma história contada por muitos autores, mas nem por isso menos fascinante. Entre outros livros que tive oportunidade de ler sobre o assunto, chamou-me a atenção Café, Ferro e Argila, do arquiteto Fábio Cyrino. Conta, através da arquitetura, a história da grande estrada de ferro que foi a São Paulo Railway Company Ltd.

Sua criação resultou do crescimento muito rápido da cafeicultura no Estado de São Paulo, que demandava transporte eficiente de grande quantidade de café para Santos. Os produtores paulistas tiveram a ferrovia que precisavam e a São Paulo Railway Co. transportou, por algumas décadas, um volume de carga que justificava sua existência.

Como mostra o belo livro de Cyrino, os ingleses reproduziram aqui a arquitetura que desenvolveram na Inglaterra. Quem já passou pela Estação da Luz, em São Paulo, ou visitou as instalações da estrada em Paranapiacaba, ou visitou as oficinas de Jundiaí, percebe em cada prédio o toque inglês.

As ferrovias e seus construtores deixaram nas regiões por onde passaram outros sinais marcantes, além da arquitetura. Alguns deles em nosso idioma. Um dos mais pitorescos é a palavra "bigoana", que no interior de São Paulo significava uma pedra muito grande, que, para ser removida inteira, necessita do uso de explosivos. Vem, é claro, de big one. No Rio, os trilhos dos trens estabeleceram uma importante divisão geográfica entre os subúrbios - os da Central e os da Leopoldina, referência às estradas de ferro do Rio de Janeiro, ao longo das quais eles se desenvolveram. Sobreviveu por muito tempo uma série de termos tirados da nomenclatura das locomotivas a vapor, como se verifica na descrição de uma briga feita por um malandro carioca: "Levou uma na caixa de fumaça e ficou sem a grade da fornalha"- que pode ser traduzido por "levou um soco na cara e quebrou os dentes da frente".

A São Paulo Railway Company foi a matriz da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, que manteve por muitas décadas os padrões de excelência implantados pelos ingleses. Tive a oportunidade de verificá-los, de 1959 a 1963, como engenheiro da Cia. Técnica de Motores, encarregado de assistir as oficinas das estradas que usavam as locomotivas EMD, vendidas pela companhia. Minha rotina de visitas levava-me a Bauru, onde chegava de avião, vindo do Rio, seguia de ônibus ou de limusine para Araraquara e, finalmente, para Jundiaí, no bom trem da Paulista. O trem que saía de Colômbia, no oeste do Estado, chegava à estação de Araraquara às 2h47, segundo o cartão de horários. Nessa hora, se o trem não estivesse na estação, estava visível, a, no máximo, cem metros do ponto de parada. Com a mesma precisão eu chegava a Jundiaí dentro do horário e cumpria o ritual de minhas visitas às oficinas mais limpas que encontrei em meu trabalho com estradas de ferro em quatro continentes. O mestre geral, que me acompanhava, chamava-se Martinho. Para entrar com ele nas oficinas, eu tirava meu paletó e Martinho punha o seu, pois era norma da estrada que ele tinha orgulho de respeitar.

Por algum tempo, ainda, a Cia. Paulista de Estradas de Ferro conseguiu manter o padrão de qualidade que herdou da São Paulo Railway, apesar do franco declínio do volume de carga transportada. A decadência culminou com a centralização das estradas do Estado de São Paulo, representada pela criação da Ferrovia Paulista S/A (Fepasa), num esforço equivocado, que propunha salvar várias ferrovias com uma administração centralizada, quando o que faltava, na verdade, era carga a transportar, por falta de uma política de transporte ligada aos centros de produção. A Central do Brasil, a Cia. Paulista, a Sorocabana, a Mogiana, a Leopoldina e muitas outras tiveram suas existências ameaçadas por providências semelhantes.

Nos últimos anos, as estradas privatizadas já demonstraram que estão no caminho certo, tendo encarado os programas a partir de seus centros produtores, transporte ferroviário, estocagem, etc.

O caso das estradas de ferro que operam trens de passageiros é diferente. O transporte de passageiros atende uma necessidade ligada à vida de regiões, de cidades e até a condições de planejamento econômico nacional, e é sem dúvida menos atraente do ponto de vista de remuneração, pois exige um veículo mais caro, uma operação mais cara para uma carga mais leve, o que torna o custo de transporte muito mais elevado. Na Europa, onde o transporte de passageiros foi sempre muito eficiente, é, com raras exceções, uma atividade mantida por governos, que se dão por satisfeitos em operar sem prejuízo ou com um mínimo de lucro.

Parece ser este o caso das estradas de ferro SNCF na França, Deutsche Bundesbahn na Alemanha, Renfe na Espanha, British Rails na Inglaterra. Nos Estados Unidos, onde as ferrovias são entidades privadas, o transporte de carga manteve-se como atividade lucrativa, mas o de passageiros chegou próximo da extinção, utilizando subterfúgios para que o governo federal contornasse a proibição de subsidiar atividades privadas, como o frete pago para transporte para os Correios e com a criação da Amtrack (vem de American Track, algo como Trilhos Americanos), uma firma de transporte de passageiros que utiliza concessões para usarem os trilhos de ferrovias que se veem felizes de se livrarem da parte podre do negócio sem prejudicar uma atividade de interesse nacional.

Os trens de passageiros tiveram um surto de progresso no mundo todo, no século passado, a partir da implantação de trens de alta velocidade como o japonês Shinkansen e o francês TGV (sigla para train de grande vitesse, ou trem de alta velocidade). Embora no Japão os abalos sísmicos frequentes tenham impedido a fixação de trilhos que sustentassem velocidades superiores a 200 quilômetros por hora, os fundamentos da nova era, lançados ali, resultaram em trens que operam a 300 quilômetros por hora.

Quando, no ano passado, o TGV 150 bateu seu próprio recorde de velocidade, alcançando 574,8 km/h, tinha a bordo como convidados especiais, Sérgio Cabral, governador do Rio de Janeiro, e Julio Lopes, seu secretário dos Transportes. Existem bons motivos para se acreditar que os próximos capítulos dessa história, no Brasil, serão emocionantes.

NOS TRILHOS

A história das ferrovias brasileiras é tema de dois livros ricamente ilustrados de Pedro Karp Vasquez, editados pela Metalivros. Em Nos Trilhos do Progresso, a Ferrovia no Brasil Imperial vista pela Fotografia, de 2007, ele conta a importância da visão progressista de D. Pedro II no advento ferroviário. Já em Ferrovia e Fotografia no Brasil da Primeira República, mostra, entre outras coisas, a expansão da malha ferroviária.

Revista Brasileiros

terça-feira, 10 de novembro de 2009

As Paralelas do café (parte 1)

As Paralelas do café
A semente da bebida negra moldou a economia do Sudeste e impulsionou a economia da região por meio das ferrovias

POR CELSO LUIS RODRIGUES VEGRO*


Basta os meteorologistas apontarem para um final de semana de muito sol com temperaturas elevadas para que a urbe paulistana se desloque em massa para o litoral. Atualmente, passar um fim de semana na praia é algo absolutamente trivial, pelo menos para os mais afortunados. Só que nem sempre foi assim. Até o século XVIII subir ou descer a Serra do Mar era uma aventura perigosa e cara, uma via crucis que só teria um fim quando a força mecânica da locomotiva encontrasse sua única motivação para superar a muralha natural: o café.

A caminho de Piratininga (onde em 25 de janeiro de 1554 seria fundada a cidade de São Paulo de Piratininga, atual São Paulo), Martim Afonso desembarcou no Porto de Piaçagüera (área no município paulista de Cubatão) em outubro de 1532, conforme retratado em óleo de Benedito Calixto existente no Palácio São Joaquim, no Rio de Janeiro, parcialmente reproduzido


O OBSTÁCULO DA COLÔNIA AO IMPÉRIO
Em seguimento do “Apóstolo do Brasil”, outro filho de Santo Inácio (o fundador da Companhia de Jesus) Pe. Fernão Cardim, chegou ao Brasil em 1583, acompanhando missão de visitação à colônia encabeçada por Cristóvão de Gouveia. Após percorrer incontáveis caminhos e estudar as diversas cidades brasileiras de então, resolveu visitar o Colégio de Piratininga para participar das festividades comemorativas de sua fundação. Partiu de São Vicente em 21 de janeiro de 1583 e percorreu uma outra picada (Passagem de Cubatão), que fora aberta com o intuito de “racionalizar” a viagem entre São Vicente e o Planalto, porém seu testemunho confirmou que se tratava “do pior caminho que poderia haver no mundo1”.

Desde o envio de exércitos para enfrentar as tentativas de invasão da cidade de Santos/São Vicente por parte de corsários holandeses e franceses até a apreensão de sal sonegado aos moradores das zonas costeiras e ribeirinhas, incontáveis outros acontecimentos históricos ocorreram graças à existência dos caminhos de ligação entre o litoral e o planalto. Dentre os mais marcantes, houve a travessia realizada por D. Pedro I e sua comitiva há exatos 185 anos. Extenuados pela difícil subida até o planalto, o grupo fez breve descanso às margens do rio Ipiranga, sendo ali alcançados por ofi- cial do correio vindo da corte fluminense. Ao receber a notícia de que deveria extinguir a Assembléia Constituinte, instituída pelo próprio imperador, e que iria redigir a Constituição Brasileira, o monarca declarou a Independência do Brasil às margens do famoso córrego (parte do caminho que terminava no centro velho da cidade de São Paulo).

SÉC. XV AO XVII: O PESADO CUSTO DO TRANSPORTE TROPEIRO
Ao longo de todo o período colonial, os caminhos ligando o litoral a São Paulo foram imensamente utilizados pelos nativos capturados incumbidos de realizar o transporte de açúcar, de trigo e de banha/toucinho tanto para o abastecimento dos habitantes da beira-mar e exportação para a metrópole, como de sal e tecidos em sentido contrário. Mais tarde, com a organização de tropas de mulas, os nativos foram substituídos pelos animais, como relata TAUNAY (1943) ao dizer que “ao centro distribuidor paulista vinham recorrer as solicitações das mais longínquas regiões brasileiras... as mulas de Sorocaba, trazidas por seus tropeiros, faziam milhas e milhas de quilômetros na vastidão brasileira”. O tropeirismo associado ao “quadrilátero do açúcar2”, formaram juntos a base da economia paulista do segundo quartel do século XVIII.


Rancho grande dos tropeiros (direita) (1775). Esse rancho foi concluído em 1837, no governo do conselheiro Gavião Peixoto (na então Província de São Paulo), cujo relatório oficial citava: “Ali encontravam enfim o abrigo de que tanto necessitavam os pobres tropeiros”

O desenvolvimento econômico impingiu aos tropeiros o pioneirismo no processo civilizatório do denominado “sertão”. Tal papel se acentuou com o surgimento e expansão da cafeicultura, pois seu serviço transformou-se na coluna de sustentação do novo sujeito social que passou a compor o tecido social brasileiro: o fazendeiro. A expansão dos cinturões cafeeiros foi de tal magnitude que se esgotaram as capacidades de reposição de muares destinados ao transporte da produção. A procura por bestas de carga cresceu tão rapidamente que seus preços dispararam na praça de Sorocaba.

“Além das despesas com o aluguel ou a aquisição, havia as de manutenção das tropas. As viagens demoradas obrigavam a paradas forçadas durante a noite para o repouso dos animais e das tropas, arreadores e carreiros, o que atrasava a marcha ainda mais. Descarregava-se a mercadoria, no dia seguinte novamente a carregavam. Nos ranchos, novas despesas com pousada, alimentação e forragem para os animais. Somavam-se a esses gastos os impostos das barreiras e os prejuízos eventuais decorrentes das viagens acidentadas, pelas más condições dos caminhos ou pela instabilidade climática dessas regiões, onde a qualquer momento uma chuva inesperada punha em risco a integridade da carga, prejudicando a qualidade do café e o seu preço em virtude da umidade que o atingia. Ao atravessar os lamaçais, as poças d’água, ao percorrer os desfiladeiros e encostas íngremes, muita carga se perdia, se deteriorava e, às vezes, os próprios animais extraviavam-se. Tudo isso acarretava, segundo cálculos da época, uma despesa correspondente a mais da terça parte do valor do café” 3.

Os custos envolvidos com a contratação de tropas para condução do café aos portos de embarque, fluminenses e paulistas, tornaram-se impraticáveis, especialmente se considerarmos a capacidade líquida de cada jacá transportado. Estimar um custo de produção sob a vigência do trabalho servil é verdadeiramente uma aberração, mas houve quem apontasse entre um terço e metade, a participação do transporte no preço final recebido pela arroba de café. Assim, surgiu enorme pressão dos fazendeiros para que os caminhos para o litoral fossem menos árduos para a realização dos carretos e, conseqüentemente, houvesse barateamento dos custos envolvidos.

OS TROPEIROS
“Hoje o berrante está calado/ já não toca, não, meu senhor/ Veio a marcha do progresso/ Deixou o cavalo- vapor” dita a Sinfonia do Tropeiro, versos que resgatam a extinção do tropeirismo, inviabilizado aos poucos, consequência da epidemia de febre amarela e a chegada do trem. O tropeiro, transportador de mercadorias entre as regiões produtoras e os centros consumidores, exerceu não só um fundamental papel econômico como também cultural, ao posicionar-se como veiculador de idéias e notícias. Algumas tantas cidades do Brasil, como Sorocaba e São Vicente, desenvolveram-se grandemente devido o trânsito de animais de carga; a primeira, por exemplo, teve na sua Feira de Muares um importante ponto de comércio de animais. Associado a ele, veio o capital e o financiamento da indústria de algodão e da seda.*



O engenheiro João da Costa Ferreira foi incumbido de projetar a pavimentação da Estrada da Serra de Cubatão, no ano de 1790, e o fez calçando o caminho com lajes em zigue-zague. Pelo alívio que o projeto trouxe aos pés dos cidadão paulistanos, Ferreira foi homenageado com um monumento comemorativo. Abaixo, o mapa do caminho antes das ferrovias (destacado em vermelho).
1788 – 1854: A ESTRADA E OS PRIMEIROS TRILHOS
Sob o mando do 5o Capitão Geral de São Paulo, Bernardo José de Lorena, que exerceu o seu governo entre 1788 e 1797, foi conduzido o primeiro esforço de regularizar o trajeto, tornando-o carroçável. Ao revestir todo o caminho com macadame, uma mistura de pedras britadas, breu e areia, o percurso pôde não apenas ser transposto pelas tradicionais mulas, como também pelos carretos puxados por parelhas de bois. Frei Gaspar da Madre de Deus, um recorrente usuário do caminho, em carta ao governador Lorena, elogiou o trabalho efetuado com as seguintes palavras: “se não tivera certeza de que me conduziam pelo caminho de São Paulo, não haveria de acreditar que a Serra é a mesma por onde eu havia feito seis viagens”4. A “Calçada do Lorena”, serviu de caminho principal para as tropas rumo ao litoral e vice-versa, por pelo menos 70 anos, escoando tanto o café do sertão (Jundiaí, Campinas) como do já próspero Vale do Paraíba. Com as obras da “Estrada da Maioridade”, trecho de pontes e aterros sobre os manguezais de Cubatão, a estrada foi definitivamente concluída. Por meio dessa calçada, pôde a cidade de Santos iniciar sua escalada enquanto principal porto de escoamento do café, firmando-a como o mais importante local de comércio de café no mundo, conquista que se mantém até o presente.

O calçamento do caminho trouxe impacto imediato para toda a economia cafeeira paulista, porém a avalanche de mulas carregadas, principalmente com café, não arrefecia, mas ao contrário, exibia extraordinário ímpeto. Foi nessa época que São Paulo conheceu seus primeiros congestionamentos, pois a interrupção do tráfego era freqüente: às vezes para ceder a passagem para comitivas maiores ou até para resgatar animais que despencavam da serra.

A possibilidade de prover o País de estradas de ferro foi cogitada pelas autoridades do governo imperial logo após o invento surgir na Inglaterra5. A Lei Feijó promulgada em 1835, de autoria do então regente Diogo Antonio Feijó que comandou o Império durante a minoridade do sucessor ao trono brasileiro, Pedro II, instituía algumas vantagens6 para os eventuais empreendedores interessados em realizar estudos visando à construção de ferrovias no Brasil. A dificuldade em angariar capitais (na maior parte comprometidos com a compra de escravos para as lavouras em plena expansão) e a falta de experiência em projetos de engenharia conduziu ao fracasso essa primeira tentativa em criar uma malha ferroviária. Foram necessários cerca de 20 anos para o sonho ferroviário ganhar concreção.

DESGOVERNO DO PROGRESSO
“Se o sistema ferroviário muito contribui para a urbanização e o desenvolvimento do parque industrial brasileiro - antes da construção da ferrovia São Paulo Railway, pouco se atestava a existência de fábricas dentro do perímetro urbano de São Paulo, por exemplo - a decadência do meio de transporte expôs localidades inteiras à carência estrutural. Talvez uma das cidades mais atingidas pelo progresso aleatório advindo do surto ferroviário seja Cubatão, que ainda hoje ostenta a fisionomia de uma cidade improvisada em função da indústria. À época, a oferta de empregos desencadeou um processo migratório espantoso. Em 1940, a população era de 1.887 habitantes; em 1960, 18.885, em 1970, 51.155. Sem infra-estrutura suficiente para abarcar esse contigente, o volume populacional foi se adequando de forma ingrata às condições da região. As consequências foram amargas: a explosão de um oleoduto em 1984 vitima 96 moradores de um bairro cubatense; a cidade bate recordes mundias de doenças feto-degenerativas advindas da poluição; os deslizamentos constantes da Serra devido à desestabilização das encostas.”*


Neste quadro, o cais do porto santista em fase de aterramento, e a presença da linha férrea da São Paulo Railway, o que data a imagem do final do século XIX
Em 1852 foi reeditada a lei de incentivo ao desenvolvimento ferroviário, a qual, além de revalidar as vantagens anteriores, foi acrescida dos privilégios de zona e do pagamento de juros. Nesses moldes, o investimento tornou-se mais interessante, especialmente por ocorrer após a proibição do tráfico negreiro7. Um dos primeiros a mostrar efetivo interesse na construção de uma linha ferroviária foi o arrojado empreendedor Irineu Evangelista de Souza, conhecido por Barão e depois Visconde de Mauá. A Raiz da Serra, nome dado à ferrovia de 14,5 km, inaugurada em 1854, ligava a região portuária da Baia de Guanabara (Praça. Mauá) até o sopé da serra de Petrópolis8. As dificuldades em transpor a serra não o desestimularam, mas, ao contrário, tratou o empresário de construir estrada de rodagem entre Juiz de Fora e Petrópolis (chamada de União e Indústria) aguardando o momento ideal para empreender a imensa tarefa de transpor com seus trilhos os 800 metros de desnível que separavam o litoral da estrada. A demora em concluir a União e Indústria desestimulou a utilização da Raiz da Serra que, isoladamente, não era economicamente viável. Ademais, o traçado da ferrovia desconsiderava o principal cinturão cafeeiro do sul fluminense com pólo na cidade de Vassouras, fato que contribuiu para o esvaziamento do projeto do empresário. O ideal abolicionista e pró-indústria de Mauá granjeou grande hostilidade de incrédulos retrógrados com voz ativa junto ao governo imperial. Aos poucos, o patrimônio do Barão foi consumido por empreendimentos deficitários e amortização de dívidas que contraiu. Como denota MATOS (1974), “a primeira fase9, como sempre acontece, é a dos ensaios malogrados, cujo grande mérito consiste em preparar o terreno para futuras realizações”.

"É de enfunar o peito a impressão de quem PELA PRIMEIRA VEZ navega sobre o oceano verde-escuro. Horas a fio, num Pullman da Paulista ou num carro da Mogiana, a CORTAR UM CAFEZAL SÓ – milhões e milhões de pés que ondulam por morro e vale até se perderam no horizonte CONFUNDIDOS COM O CÉU"
Monteiro Lobato, A Onda Verde, 1920.

A estação da Raiz da Serra da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, por volta de 1910. Acima à esquerda a cidade de Cubatão, que se desenvolveu a partir da ferrovia


FIM DO SÉC. XIX: O CAFÉ EXIGE A RAILWAY
Em meados do século XIX, a província de São Paulo exibia importantes saltos na produção cafeeira. Enquanto a produtividade do tradicional cinturão cafeeiro do Vale do Paraíba tendia ao declínio, a abundância de solos argilosos de média e alta fertilidade outorgava grande produtividade para as lavouras recém- implantadas na fronteira oeste (Campinas e adjacências)10. Em 1860, cerca de 10% da produção brasileira de café tinha sua origem no oeste paulista. Tornou-se imperativo encontrar formas econômicas de escoamento dessa produção para o único porto capaz de recebê-la: o de Santos. Assim, sob concessão imperial, sociedade de capitalistas ingleses, cafeicultores paulistas e, inclusive, o Barão de Mauá, articulou um pool que conduziu a construção da São Paulo Railway (atualmente Santos-Jundiaí). O projeto impraticável da Raiz da Serra foi nesse momento posto à prova, pois os empreendedores tinham diante de si os mesmos 800 metros de desnível que separavam o porto da cidade de São Paulo.

MALHAS PELO MUNDO


“Em 27 de setembro de 1825 foi concebida a primeira ferrovia pública de tração a vapor da história, a inglesa Companhia Estrada de Ferro Stockton & Darlington. George Stephenson finalmente provava aos ingleses que uma locomotiva a vapor era capaz de conduzir uma composição ferroviária. A conquista encorajou os comerciantes de Manchester a apostar na idéia: a “Liverpool & Manchester Railway”, precursora da Era das Ferrovias, encurtou a barreira entre cidades. O revolucionário poder econômico do meio era inquestionável. Em 1930, as fronteiras internacionais não mais seguravam os trilhos: França e Estados Unidos já construíam suas malhas. Os latinos apostariam no cavalo a vapor 7 anos mais tarde, com a cubana Habana a Guines. Peru e Chile vieram em seguida: 1851 e 1852. O Brasil abraçou a idéia em 1854.”*

Revista Leituras da História

domingo, 7 de junho de 2009

Coração ferroviário do Brasil

BRASIL EXPANSÃO SÉC. XIX E XX
Estrada de Ferro Central do Brasil faz 150 anos

POR HELENA GUIMARÃES CAMPOS

"Sportsmen" do Athletico Mineiro Foot-Ball, o "Galo", tirada na estação de Santos Dumont, da Central do Brasil, quando eles seguiam em viagem para Juiz de Fora. Todas as práticas culturais que exigiam deslocamentos ligavam-se à ferrovia

Lá estava o imperador, na plataforma da estação, cercado de autoridades, de empresários, comerciantes, da nobreza tupiniquim e da população para a inauguração da Estrada de Ferro Mauá. Mal sabia D. Pedro II que aquele fato inédito iria adquirir ares de rotina, pois, daquele histórico 30 de abril de 1854 até a queda de seu Império, mais 65 ferrovias seriam inauguradas, muitas delas contando com o seu incentivo e a Sua Majestosa presença para abrilhantar as comemorações.
Nenhuma, porém, haveria de lhe ser tão cara quanto aquela que o homenageara, tomando-lhe de empréstimo o nome. Trata-se da Estrada de Ferro D. Pedro II (EFDPII), inaugurada em 29 de março de 1858 e que, neste ano de 2008, comemora seus 150 anos. Lamentavelmente, para o regente, os ventos republicanos varreriam a demonstração de fi delidade e a homenagem, mudando o nome da ferrovia para Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB).


Hoje com um século e meio de vida, a Estrada de Ferro Central do Brasil surgiu com o nome de Pedro II, mas sofreu à descaracterização após a Proclamação da República. A Estrada veio com a premissa de ligar todas as regiões do Brasil

O Imperador era presença absoluta nas inaugurações de novas vias. Na imagem, inauguração do Túnel da Mantiqueira na Estrada de Ferro que interligava o Rio de Janeiro a Minas Gerais, junto da Imperatriz Tereza Cristina

Em 1987 já se notavam os rumos da ferrovia no Brasil: trens exclusivamente para cargas; passageiros, só em trenzinhos turísticos, como este que aparece no detalhe (circula entre São João del Rei e Tiradentes)

MODERNIDADE FORA DOS TRILHOS
A maior parte da população brasileira só se lembra da ferrovia quando sofre, na pele, os impactos de uma matriz de transporte que privilegia o modo rodoviário.
Em meio ao calor escaldante ou às chuvas torrenciais, muitas pessoas se lembram da contribuição da absurda frota de veículos rodoviários do país para a poluição atmosférica que agrava o efeito estufa. Mas poucas são as que atentam para as vantagens ambientais de uma maior participação das ferrovias nos transportes.

O que confere identidade à estrada de ferro é o trem de passageiros que, no Brasil, praticamente não existe mais

Nas grandes cidades, só os irritantes congestionamentos é que são capazes de levar a população a questionar a insignifi cante quilometragem de nossos sistemas de transportes urbanos sobre trilhos, sejam eles subterrâneos ou de superfície. Geralmente, é após os feriadões, divulgados os macabros balanços do número de acidentes em rodovias, que os trens são lembrados como solução para desafogar as estradas, retirando-lhes parte do pesado tráfego de caminhões. E, mesmo nesses casos, difi cilmente há quem pense em como seria bom se pudesse substituir seu automóvel pelo trem de passageiros. Então, basta assistir à propaganda de um novo modelo da indústria automobilística para os sonhos de consumo apagarem da lembrança qualquer idéia ligada ao transporte ferroviário.
A razão para esse descaso é simples: a ferrovia não faz parte da vida do brasileiro. O que confere identidade à estrada de ferro é o trem de passageiros que, no Brasil, praticamente não existe mais. Dos trens de carga, a população mal dá notícia. Quando o faz é para reclamar do barulho ou da espera que eles provocam nas passagens de nível. Todavia, se hoje é essa a nossa realidade, há pouco mais de quarenta anos, nenhum setor da vida social prescindia da ferrovia e não havia história de vida que, diretamente ou indiretamente, não se ligasse a ela.
Para melhor avaliarmos esse protagonismo da estrada de ferro no passado, nada melhor que recuperar um pouco da história da Estrada de Ferro Central do Brasil, a mais importante de nossas ferrovias.

A EPOPÉIA DA CENTRAL
Terceira ferrovia do Brasil, inaugurada em 1858 - menos de dois meses após a Estrada de Ferro Recife a São Francisco -, a EFDPII nasceu com duas fi nalidades: atender aos interesses da cafeicultura e promover a integração do território.
Os benefícios para os cafeicultores do Vale do Paraíba foram amplos. Além da valorização de suas propriedades, eles se benefi ciaram com as tarifas ferroviárias, mais em conta que os custos das tradicionais tropas de burros. Como a Lei Eusébio de Queiroz, de 1850, proibira o tráfi - co oceânico de escravos, a ferrovia liberou seus cativos, antes ocupados nos serviços das tropas, para os da lavoura. Ela também contribuiu para assegurar a mão-de-obra escrava para os fazendeiros, pois havia lei proibindo o uso de escravos na sua construção e operação. Claro que, no país do "jeitinho", a lei não foi cumprida à risca, pois há documento que comprova a presença de escravos a serviço de engenheiro inglês que realizou estudos para determinar o traçado da ferrovia em terras fl uminenses. Contudo, se o trabalho compulsório existiu, não foi regra.
À época da inauguração da EFDPII havia uma nítida preocupação com a integração do território brasileiro e, certamente, para isso contribuíram as turbulências políticas e sociais do período de consolidação do Estado brasileiro. Uma das principais questões em pauta era a introdução da navegação a vapor na Bacia do São Francisco.
Por iniciativa do Segundo Império, fez-se o mapeamento dos Rios das Velhas e do São Francisco. De 1852 a 1854, o alemão Halfeld explorou a Bacia do São Francisco, de Pirapora até a foz, no Atlântico. Complementando o seu trabalho, o francês Liais estudou o Rio São Francisco, da nascente até Pirapora, e pesquisou o seu afl uente, o Rio das Velhas, de Sabará à foz. As conclusões da pesquisa de Liais foram publicadas em 1865, na França, em um livro que continha contribuições de Halfeld e de técnicos brasileiros. Já o relatório que Halfeld fez de seus trabalhos data de 1860. Com base nesses estudos é que as condições de navegabilidade seriam avaliadas e introduzidos os vapores. Foi, também, com vistas à integração ferro- fl uvial que foi concebida a EFDPII.

A terceira ferrovia do Brasil, inaugurada em 1858, nasceu com duas fi nalidades: atender aos interesses à cafeicultura e promover integração

Pelos termos da concessão para sua construção e operação, a D. Pedro II deveria iniciar-se na cidade do Rio de Janeiro e estender sua linha principal - Linha do Centro - até o Rio São Francisco, em Minas Gerais. Além disso, deveria lançar outra linha até a cidade de São Paulo. Ora, tais exigências não faziam mais do que reforçar o histórico traçado das antigas estradas coloniais - as estradas reais, determinando a substituição das centenárias tropas por uma modalidade de transporte mais efi ciente: de maior capacidade e mais veloz. E não poderia ser diferente, uma vez que a ferrovia sobrevive dos serviços de transporte de passageiros e de cargas; logo, as áreas tradicionalmente ocupadas e com produção estruturada seriam as servidas pela estrada de ferro.
A Linha do Centro, partindo da Corte, precisou vencer a Serra do Mar e a Serra da Mantiqueira para alcançar Minas Gerais. O fato mais marcante da história da construção da EFDPII, sem dúvida, foi a quebra de bitola em Conselheiro Lafaiete, ou seja, a mudança da largura dos trilhos. Até atingir essa localidade mineira, a estrada de ferro fora construída em bitola de 1,60 metro. A adoção dessa bitola deveu-se ao contrato com empreiteiros ingleses para a construção dos primeiros quilômetros. Como, à época, a Inglaterra já unifi cara a bitola em seu território, adotando a medida de 1,435 metro, para não perder dinheiro, os ingleses construíram, mundo afora, ferrovias de diversas bitolas para aproveitar sua "sucata", isto é, seus equipamentos ferroviários fora do padrão.


Primeira Estação de Sítio, atual Antônio Carlos, inaugurada em 1878 e ponto de entroncamento com a Estrada de Ferro Oeste de Minas. Fonte: FIGUEIRA, Manoel. (Org.). Memória Histórica da Estrada de Ferro Central do Brasil

Construído durante o Império, o Pontilhão de Raposos, sobre o Rio das Velhas, foi inaugurado no período republicano, ostentando ao alto as iniciais EFDPII

Primeira Estação de Sabará, em 1930. A estação, inaugurada em 1891, foi demolida na década de 1970, para a construção de outra adequada aos carros de aço carbono dos trens de subúrbio

Foi a necessidade de economia que levou à mudança de bitola, a partir de então, de 1 metro. As conseqüências desse fato foram enormes, pois trens que circulam em uma linha não o fazem na outra. Se houve uma economia com aterros, pontes, pontilhões, túneis, trilhos, dormentes, lastro, locomotivas, vagões, carros de passageiros e outros equipamentos, mais baratos, os prejuízos com baldeações e com a impossibilidade de integrar as duas redes ferroviárias foram signifi - cativos e determinantes para a história da estrada de ferro que, de Conselheiro Lafaiete até o Rio São Francisco, seguiu em bitola métrica.

PERÍODO REPUBLICANO
A República veio quando o tráfego da EFDPII estava aberto até a cidade de Itabirito. A partir de então, como EFCB, a ferrovia prolongou suas linhas até alcançar Pirapora, em 1910. Como havia planos de estender os trilhos até Belém, no Pará, construiu-se a bela ponte Marechal Hermes sobre o São Francisco. Todavia, só mais dois quilômetros de linhas foram assentados, até Buritizeiro.
Mais tarde, os trilhos foram estendidos de Corinto a Montes Claros (1926) e, depois, a Monte Azul (1947), na divisa com a Bahia. Dada a relevância estratégica e a extensão quilométrica dessa linha, ela passou a ser considerada parte da Linha do Centro, fi cando o trecho Corinto-Pirapora como ramal.
O ramal de São Paulo foi parcialmente construído pela EFDPII, a partir de Barra do Piraí (1864), passando por Volta Redonda (1871), Barra Mansa (1871) e Cachoeira Paulista (1875). Em 1891, encampando a Estrada de Ferro São Paulo- Rio de Janeiro com a qual se entroncava nessa última estação, a Central do Brasil completou a ligação com a capital paulista.
Mais tarde, os trilhos foram estendidos de Corinto a Montes Claros (1926) e, depois, a Monte Azul (1947), na divisa com a Bahia. Dada a relevância estratégica e a extensão quilométrica dessa linha, ela passou a ser considerada parte da Linha do Centro, fi cando o trecho Corinto-Pirapora como ramal. O ramal de São Paulo foi parcialmente construído pela EFDPII, a partir de Barra do Piraí (1864), passando por Volta Redonda (1871), Barra Mansa (1871) e Cachoeira Paulista (1875). Em 1891, encampando a Estrada de Ferro São Paulo- Rio de Janeiro com a qual se entroncava nessa última estação, a Central do Brasil completou a ligação com a capital paulista.

NOS TRILHOS DA URBANIZAÇÃO
Pensar a relação da ferrovia com a urbanização não é tarefa muito difícil, pois a viabilidade econômica da estrada de ferro dependia dos transportes, o que orientava os trilhos para áreas com tradição no povoamento e na produção. Para a Central do Brasil, era conveniente buscar Minas, a província mais povoada e com maior número de núcleos urbanos do Império, e o café do Vale do Paraíba, sua principal carga durante décadas.
A Central do Brasil, com seu traçado coincidente com o das estradas coloniais, obrigatoriamente serviu aos antigos núcleos urbanos desses trajetos. Na maioria deles, limitou-se a tangenciar seus subúrbios, fi cando um pouco afastada dos centros, de ocupação inicial. Esse é o caso, em terras mineiras, de Sabará, Ouro Preto, Itabirito, Santa Bárbara, Caeté, Diamantina e outras cidades surgidas de núcleos mineradores. Também Juiz de Fora, Santos Dumont, Barbacena, Conselheiro Lafaiete, Corinto e outras cidades, situadas nos caminhos que levavam às antigas áreas de mineração, receberam a ferrovia em suas periferias.

Com a chegada da EFCB, surgia uma nova dinâmica urbana. A cidade se dividia em duas: a antiga e a nova

Com a chegada da EFCB, surgia uma nova dinâmica urbana. A cidade se dividia em duas: a antiga e a nova. Na primeira, herdada da época colonial, fi cavam as construções, os negócios e as famílias tradicionais; a moderna, surgida da ocupação do entorno da estação e dos demais equipamentos ferroviários por estabelecimentos comerciais e industriais e por moradias populares, passava a concentrar todo o movimento, injetando ânimo no tradicionalismo das velhas urbes.

A CENTRAL DO BRASIL E A CONSTRUÇÃO DA CAPITAL MINEIRA

A primeira estação da capital mineira recebeu o nome de Estação de Minas e foi demolida em 1920, para dar lugar à atual, inaugurada em 1922, e que hoje abriga o Museu de Artes e Ofícios

A primeira Constituição republicana de Minas Gerais, de 1891, determinou a construção de uma nova capital para o Estado. Escolhido o local, o Arraial Belo Horizonte, a Comissão Construtora tratou de viabilizar a chegada dos materiais necessários aos canteiros de obra. Para isso, construiu o ramal Belo Horizonte (BH), ligado à Central do Brasil. O ramal tinha 14 quilômetros e ligava General Carneiro, em Sabará, ao local das obras.
Todo o material importado chegava ao porto do Rio de Janeiro e embarcava na Central do Brasil, seguindo na bitola larga até Conselheiro Lafaiete. Nessa estação, fazia-se a baldeação da carga para os trens de bitola métrica, sob a fi scalização do Estado, que mantinha uma alfândega no local.
O ramal BH foi inaugurado no dia 7 de setembro de 1895, antes de estarem concluídas as belas estações de General Carneiro e da Cidade de Minas, que fi cavam nas suas extremidades. Antes mesmo da inauguração da capital, em 12 de dezembro de 1897, foi criado o transporte de passageiros no ramal.
Durante os trabalhos de construção, houve muitas queixas da comissão sobre os atrasos no transporte do material pela Central, mas o chefe da Comissão Construtora, Aarão Reis - que já ocupara uma diretoria na ferrovia e, de 1906 a 1910, seria o seu presidente -, ao deixar o cargo, antes de inaugurar a Cidade de Minas, declarou que, sem a colaboração da estrada de ferro, não seria possível realizar a grande incumbência que recebera.
Em 1898, o Estado de Minas Gerais vendeu o ramal BH para a União, que o incorporou, a partir de 1.º de janeiro de 1900, à Central do Brasil. Com o passar do tempo, a urbanização "engoliu" o ramal, criando muitos problemas para o pesado tráfego ferroviário de passageiros e de cargas, principalmente oriundas da mineração e da siderurgia. Esse ramal, há décadas, é o grande "gargalo" da malha ferroviária de Minas.

TRENS FAMOSOS DA CENTRAL DO BRASIL
Muitos trens da Central do Brasil fi zeram história e ainda circulam na memória dos passageiros que deles se serviam. Dos luxuosos, os mais importantes foram os noturnos Santa Cruz (Rio de Janeiro-São Paulo) e Vera Cruz (Belo Horizonte-Rio de Janeiro). Com carros de aço inox, esses trens ofereciam muito conforto aos passageiros: carros com cabines, carros com poltronas, carro-restaurante, carro-sala de estar e as famosas ferromoças.
Outro trem inesquecível foi o Trem do Sertão. A partir de 1950, milhares de migrantes nordestinos e mineiros passaram a utilizar esse trem em busca de uma vida melhor nos grandes centros urbanos, principalmente, em São Paulo. Muitos desses migrantes também usavam o trem na viagem de volta para a sua terrinha. Alguns voltavam com dinheiro no bolso, conseguido com o árduo trabalho na lavoura ou na construção civil; muitos, porém, regressavam decepcionados com a vida na cidade grande e tão miseráveis como haviam partido. Do Nordeste a São Paulo, a viagem demorava dias, com baldeações em diferentes trens. O que levava o nome de Trem do Sertão era o que fazia o percurso BH-Monte Azul.
Os trens de subúrbio contribuíram para a formação das regiões metropolitanas. Até as décadas de 1960/1970 eles eram usados por toda a população; depois, fi caram restritos às classes populares, que não podiam arcar com os preços dos ônibus. Os mais conhecidos foram os fl uminenses, que já existiam em 1861 e que foram eletrifi cados em 1937. Precariamente, ainda circulam. Os trens de subúrbio de BH surgiram junto com a capital e foram gradativamente desativados, a partir dos anos de 1980. Na Grande BH, de 1977 a 1979, nas linhas da antiga Rede Mineira de Viação, circularam subúrbios exclusivos para funcionários de uma empresa do Grupo FIAT (BH-Betim).

Chegada de autoridades na estação de Caeté (EFCB), inaugurada em 1909, para assistir à inauguração do serviço de luz elétrica na cidade, em 1915

Na década de 1970, os trens de subúrbio das classes populares tinham carros de aço carbono como o do subúrbio BH-Rio Acima, aqui mostrado na estação de Belo Horizonte. Esses carros eram verdadeiras "latas de sardinha", nos quais a maioria dos passageiros viajava em pé; os poucos que conseguiam se sentar, iam de costas para a paisagem

A praça Rui Barbosa, já foi conhecida como a Praça da Estação pela população mineira

Muitas "pontas de trilho" da Central, cidades que fi cavam nos pontos extremos das linhas e ramais, que antes eram meros povoados sem expressão, com a chegada dos trens acabaram por se tornar referências na sua região. Progrediram como pólos canalizadores da distribuição das riquezas regionais, chegando, muitas vezes, a superar antigas vilas e cidades próximas.

Todavia, a Central também criou povoados e cidades, pois a sua construção, feita por trechos, cortou vários territórios desprovidos de núcleos urbanos. Muitos locais que sediaram as turmas de operários acabaram por se transformar em povoados e cidades.

Muitas cidades nos pontos extremos das linhas e ramais, meros povoados sem expressão, acabaram por se tornar referências regionais
Alguns topônimos criados pelas ferrovias são dignos de nota, como o bairro de Cascadura, no Rio de Janeiro, que foi assim nomeado graças às difi culdades encontradas para o trabalho das picaretas na construção dos primeiros quilômetros da EFDPII. Aliás, com as reviravoltas que dá o mundo, à capital, então republicana, com intenção de redimir ato passado orientado pelas contingências políticas, outra homenagem: em 1925, a estação principal da Central do Brasil era batizada de D. Pedro II, referendando o caráter ilustrado do Segundo Império, tão profícuo em linhas férreas.
Houve também homenagens efêmeras que se perderam face às orientações políticas dos administradores públicos ou aos prestígios e méritos políticos, então em voga. Fica-nos a lembrança da Praça da Estação de Belo Horizonte, que em 1914 era denominada Praça Christiano Otoni, em homenagem ao primeiro presidente da EFDPII, mas que, em 1923, teve seu nome mudado para Praça Rui Barbosa. Hoje, apesar do nome ofi cial, é como Praça da Estação que é conhecida pela população mineira.
Numerosos são os exemplos de contribuição que os engenheiros ferroviários deram às localidades onde trabalharam ou residiram. Em Diamantina, Corinto, Cordisburgo, Pedro Leopoldo e Santos Dumont, por exemplo, há igreja, capela, escolas e até ruas inteiras que foram projetadas e/ ou construídas por ferroviários. Para a melhoria da estrutura urbana, as intervenções promovidas em pátios ferroviários, como muros de arrimo e balaustradas, também foram signifi cativas.

AMOR E REJEIÇÃO
A relação ferrovia-urbanização sempre foi de mão dupla. Inicialmente, só amores e louvores, quando a estrada de ferro e a cidade se cortejavam mutuamente. A ferrovia incrementava a urbanização e a economia municipal, e esses crescimentos geravam novas demandas de transportes de cargas e de passageiros. São muitos os casos em que a relevância da ferrovia se sobrepôs, por longo tempo, à da cidade. Belo Horizonte, por exemplo, precedida pela ferrovia, não escapou dessa lógica.
Com o passar do tempo, diversifi cando suas atividades econômicas e aderindo ao rodoviarismo, as cidades passavam a "desdenhar" da ferrovia, chegando mesmo a considerá-la indesejável. A rejeição, então, tornava-se mútua. Evidente na segunda metade do século XX, essa intolerância encontrava explicação no próprio processo de urbanização e, em alguns casos, de metropolização (geralmente orientados pela ferrovia), que impunham a crescente necessidade de transposição das vias férreas. Daí, proliferarem as passagens de nível, os acidentes, os processos judiciais por indenização e as querelas para defi nir qual entidade deveria arcar com os custos de manutenção e sinalização de passagens de nível e da construção de viadutos, passarelas e passagens inferiores.
Muitas foram as cidades que chegaram a conhecer movimentos sociais organizados que lutaram pela retirada das linhas de centros urbanos. Esse problema, a Central do Brasil enfrentou, dentre outras cidades, em Juiz de Fora e em Belo Horizonte. No caso da capital mineira, bem ou mal, é graças às perdas desse movimento que ela conta hoje com seu tímido metrô de superfície, pois sua construção aproveitou a faixa de domínio da RFFSA, herdeira da EFCB e da Rede Mineira de Viação. Caso contrário, os custos com desapropriações teriam difi cultado ainda mais a implantação do metrô de superfície, o mais racional e democrático meio de transporte para áreas de densa ocupação urbana.

OS TRILHOS DAS MUDANÇAS
A ferrovia foi o grande símbolo de modernidade do século XIX - ou início do XX, conforme o caso - precedendo, em décadas, a eletricidade e o telefone. Na maior parte das vezes, junto com a estrada de ferro chegava o telégrafo, pois ele era um equipamento indispensável para o controle do tráfego ferroviário. Em cada estação havia um telegrafi sta que, além cuidar dos serviços da empresa ferroviária, encarregava-se de atender à população. Em localidades onde havia o telégrafo nacional, era comum o ferroviário ser o mais usado, pois a administração da estrada de ferro mantinha-o sempre em boas condições.

A primeira grande siderúrgica brasileira foi a Belgo- Mineira, de 1921. Ela contava com a Estação Siderúrgica da EFCB, no Ramal de Nova Era, para atendê-la

Uma mudança fundamental provocada pelo trem no modo de viver da população geralmente é atribuída ao ineditismo de sua velocidade

Uma mudança fundamental provocada pelo trem no modo de viver da população geralmente é atribuída ao ineditismo de sua velocidade. Mais rápido do que qualquer modalidade de transporte existente até então, o trem encurtou as distâncias. Contudo, o trem também operou signifi cativa transformação na percepção do tempo. Se antes, viajava-se exclusivamente de dia, em tropas ou carros de boi, passou-se então aos deslocamentos noturnos, pois os trens corriam durante as vinte e quatro horas do dia. Havia mesmo os "noturnos" de passageiros que, assim como muitos trens de carga, circulavam prioritariamente durante a noite.
A percepção do tempo também mudou em função da rigidez de horários das ferrovias, que fez com que o cotidiano fosse marcado pela passagem dos trens: "Lá vai o expresso das dez!"; "O subúrbio das seis ainda não veio"; "O cargueiro de tal lugar já passou?" Não era à toa que o relógio da estação, muitas vezes o único público da cidade, dominava a paisagem, convergindo olhares de todos os cantos. E aquele fi gurão local que sempre chegava atrasado, deixando todos à sua espera? Na era da ferrovia, lá estava ele, de pé na estação, como mero mortal (e bom mineiro!), pois o trem não esperava por ninguém.
Líquido ou sólido, vivo ou inanimado, são ou enfermo, inofensivo ou perigoso, frágil, repugnante... tudo e todos iam de trem, para qualquer lugar - desde que servido pelos trilhos. Os passageiros tinham à sua disposição trens de várias categorias: expressos, noturnos, rápidos, diretos, subúrbios e mistos. Para os mais abastados, a 1.a classe. Para os remediados, a 2.ª. E, nos tempos da EFDPII, para os descalços, a 3.ª classe.

CULTURA E FERROVIA
Cultura e e ferrovia: eis uma via que no passado foi dupla e de bitola larga. A ferrovia desempenhou um papel de destaque na circulação de informações e de produtos culturais e na disseminação de práticas culturais. Graças à regularidade de seu transporte e à abrangência de suas linhas, desde cedo, coube à ferrovia os serviços de correios. Nos trens havia um carro especialmente dedicado ao correio. Parte do malote dos correios era composta por livros, jornais e revistas ilustradas que, produzidos em diferentes locais, eram distribuídos em todo o país. Além desse serviço, a equipagem dos trens ou os próprios passageiros sempre atendiam às solicitações de conhecidos, levando encomendas, notícias e cartas. No caso da Central do Brasil, ela fez mais do que contribuir para a formação de hábitos de leitura, pois manteve escolas ferroviárias que ofereciam, além da educação técnica, a formal para milhares de estudantes.
Mas a ferrovia também favoreceu outras práticas culturais. Sendo o meio de transporte por excelência, pelos trens seguiam estudantes em excursões, romeiros, artistas em tournés, pesquisadores, cientistas, sckathcs de futebol, atletas de diferentes modalidades esportivas, bandas etc. E, de um novo modelo de vestido, chegado de navio de Paris, a teares para de fábricas de tecido, toda mercadoria chegava ao seu destino de trem.
Por outro lado, a produção cultural sempre contemplou a ferrovia. Na literatura, na música, no teatro, na dança, no cinema, nas artes plásticas, no jornalismo, resenhar produções e artistas e autores que elegeram o trem como protagonista ou apenas o incluíram de passagem em suas obras é tarefa praticamente impossível. Ficam, porém, duas referências de peso sobre a Central: a música "Trem das Onze", do sambista Adoniran Barbosa, e o fi lme "Central do Brasil", do cineasta Walter Salles.

A primeira grande siderúrgica brasileira foi a Belgo- Mineira, de 1921. Ela contava com a Estação Siderúrgica da EFCB, no Ramal de Nova Era, para atendê-la

Em 1994, a Estação encontrava-se fechada, funcionando apenas como pé-de-estribo (plataforma de embarque/desembarque de passageiros) para usuários dos trens de subúrbio

MONOPÓLIO DO TREM DE CARGA
Enquanto a ferrovia teve o monopólio dos transportes, não havia restrições para a carga. A agricultura, a pecuária, o extrativismo mineral e vegetal, o comércio, a indústria, todos os setores da economia dependiam da estrada de ferro que mantinha uma enorme estrutura de armazéns e de serviços de entrega para atendê-los.
Alguns produtos, contudo, marcaram a história da Central, determinando-lhe mesmo o destino. Além do café, a Central do Brasil celebrizou-se pelo transporte especializado de gado bovino, que durante décadas abasteceu os frigorífi cos cariocas, até que a indústria frigorífi ca se devolvesse nas proximidades das áreas produtoras, principalmente, de Minas Gerais. Contudo, o mais duradouro e volumoso transporte que determinou o perfi l da Central do Brasil foi o minério de ferro. Sem dúvida, é ele o xodó e o vilão da ferrovia brasileira.
A história da exploração das jazidas minerais do Quadrilátero Ferrífero, em Minas, e do parque siderúrgico nacional foi costurada pelas linhas férreas. O Vale do Aço, berço da Vale, sempre contou com a Estrada de Ferro Vitória a Minas para o seu atendimento. Essa ferrovia, exportando o minério de ferro, sempre se destacou das demais por não ser apenas uma estrada de ferro prestadora de serviços de transporte, já que servia aos interesses maiores da Companhia Vale do Rio Doce, uma empresa mineradora. Daí seus altos índices de produtividade e de lucratividade. Essa mesma sorte, porém, não tiveram as antigas linhas da Central do Brasil, que, para se transformarem em "minerodutos", precisaram expulsar os passageiros.
A política de eliminação de trens de passageiros implantada pela RFFSA só se radicalizou com a privatização do setor ferroviário, que licenciou apenas o transporte de cargas. Aos passageiros, hoje, só restam os poucos trens de longo percurso da Vale (Vitória-Minas e Carajás) e os insignifi cantes trenzinhos turísticos, circulando em linhas não operacionais para a carga. Esses, a população local só vê de longe, repletos de turistas, pois os valores cobrados para uma "viagem ao passado", de poucos quilômetros, não cabem no seu orçamento.
Para as poucas comunidades que implementaram ações preservacionistas - negligenciadas pelo poder público e pelas concessionárias - fi ca o consolo das antigas estações transformadas em centros culturais. Pobres "lugares de memória"! Sem uma bilheteria ativa e a plataforma apinhada de passageiros, são como estátuas de cera inanimadas. Ou como um triste cenário para comunidades formadas por "cidadãos de papel" que têm seus direitos culturais dissociados dos econômicos e dos sociais.

HELENA GUIMARÃES CAMPOS é Graduada e especialista em História, Mestre em Ciências Sociais, Autora de dissertação sobre os trens de subúrbio da Grande BH, Co-autora de "História de Minas Gerais" (Editora Lê) e Coordenadora do Núcleo Ferroviário da ONGTrem www. ongtrem.org.br

Revista Leituras da Historia