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segunda-feira, 20 de março de 2017

Crianças no Egito de Cleópatra morriam por desnutrição


É o que revela um estudo de 20 anos na Necrópole de Saqqara


 A rainha em sua indiferença, em quadro do século 19 | Crédito: Alexandre Cabanel 
Cleópatra VII, a última faraó do Egito, é famosa pelo luxo, tomando banhos de leite e, em certa ocasião, dissolvendo a maior pérola do mundo em vinagre para beber, numa aposta com seu amante, o general Marco Antônio. Ainda que a última história seja provavelmente invenção, numa coisa, nenhum historiador vai discordar: pobre, ela não era.


Como isso se traduzia para o povo? Muito mal, segundo uma pesquisa de duas décadas conduzida pelo egiptologista polonês Karol Myśliwiec, da Universidade de Varsóvia. Sua equipe analisou os restos encontrados de 29 crianças encontradas na Necrópole de Saqqara, na antiga capital Mênfis. A pesquisa completa passou por 500 tumbas, desde o Antigo Reino, há quase 5 mil anos. Mas essas crianças, com idades entre meses até 12 anos, foram enterradas entre os séculos 4 a.C. e 1 d.C., durante o período ptolomaico - a dinastia de Cleópatra - e início do domínio romano.

Segundo a equipe, a maioria dessas crianças morreu de infecções ou parasitoses relacionadas à perda de imunidade ao fim do aleitamento materno. Mas isso não vem sozinho: elas sofriam de cáries, anemia, deficiência de vitamina B e má nutrição em geral. Também sinusite crônica causada pelo ambiente do deserto.

Uma das crianças, cujos dentes indicavam ter 4 anos de idade, tinha o tamanho de um bebê de um ano. "Isso significa um retardamento ou inibição temporária no crescimento da criança ocorreu, provavelmente causado por uma dieta pobre em nutrientes essenciais para o desenvolvimento", afirma a bioarqueóloga Iwona Kozieradzka-Ogunmakin, da Universidade de Manchester.

                                

                       Dra. Iwona trabalhando / Polish Centre of Mediterranean Archaeology UW

Curiosamente, um dos indícios do estado precário de saúde dessas crianças é que a maioria delas não tem marcas diretas das doenças que as levaram. O que, ao contrário do que possa parecer, não significa que eram saudáveis, mas que "sucumbiram às doenças rapidamente por seu sistema imunológico fraco", segundo Dra. Iwona. Quem tem sinais de doenças é porque sobreviveu o suficiente para eles aparecerem - assim, estava num estado menos ruim que os outros.

Outra ausência significativa: o próprio número de tumbas infantis é considerado baixo. Segundo os cientistas, é possível que pais enterrassem crianças nas próprias casas, como já foi visto em outras partes do Egito, ou que os corpos, enterrados em covas rasas perto da areia, tenham sido levados por animais.

O Egito de Cleópatra está longe de ser o país exótico e atrasado que os filmes costumam mostrar. Ela foi a última governante da Dinastia Ptolomaica, gregos descendentes da conquista do país por Alexandre o Grande, em 336 a.C. Com a decadência das cidades-estado gregas, como Atenas, a capital do Egito, Alexandria, havia se tornado o novo centro cultural do mundo grego - prova disso era a Grande Biblioteca, um centro científico de onde vieram coisas como portas automáticas, máquinas de venda e o motor a vapor (que eles só usaram como um brinquedo). Com a conquista romana, o Egito seria também o celeiro do mundo.

A miséria vista no cemitério provavelmente foi azar. Segundo os arqueólogos, secas no rio Nilo provavelmente causavam períodos de escassez, que levam à desnutrição generalizada. As crianças pequenas sofriam mais que todos.
Revista Aventuras na História

terça-feira, 14 de junho de 2016

Gregos e egípcios ainda acreditam nos deuses de sua mitologia?

Tiago Cordeiro |


Os egípcios não, e os gregos... mais ou menos. No caso do Egito, a religião politeísta estava no centro da vida social desde 3200 a.C. até o século 4, quando os romanos, que já dominavam aquelas terras fazia 400 anos, decidiram que todas as suas colônias deveriam ser cristãs. Posteriormente, o país aderiu ao islamismo - hoje, 90% da população é muçulmana e o restante é quase todo cristão copta. Já os gregos passaram por um processo bem parecido: dominados pelos romanos, puderam manter seus deuses até o século 4, quando aderiram ao cristianismo. Atualmente, o país tem 98% de cristãos ortodoxos e só permite a expressão religiosa do judaísmo e do islamismo. Mas um grupo começou, na década de 1990, a tentar resgatar as antigas tradições. Eles se reúnem nos antigos templos para homenagear Zeus, Ísis e Apolo. No dia 21 de junho, por exemplo, realizam um festival em homenagem a Prometeu. Chegam até a realizar batizados e casamentos (sem reconhecimento oficial). Apesar de se levarem muito a sério, são perseguidos pelo governo.

PERGUNTA Suzana Vidorette Zanchetta, Araras, SP

FONTES Sites www.ysee.gr e www.friends-classics.demon.co.uk

CONSULTORIA Robert Parker, historiador e professor de história antiga da Universidade de Oxford
Revista Mundo Estranho

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Notícias História Viva

Missão espanhola faz descoberta que pode rever cronologia faraônica
Estudo escavou restos de um muro e colunas de mausoléu na região de Al Asasif

EFE

Uma missão de arqueólogos espanhóis e egípcios fez uma descoberta em uma tumba no sul do Egito que abre portas à reinterpretação da cronologia faraônica, pois poderia demonstrar que Amenhotep III e seu filho Amenhotep IV, conhecido como Akenaton, reinaram juntos.
EFE/ Ministério de Antiguidades do Egito
Amuletos e estátuas foram expostos junto a três esqueletos humanos e um sarcófago

A missão, liderada pelo arqueólogo espanhol Francisco Martín Valentín, escavou os restos de um muro e as colunas do mausoléu de um ministro da XVIII dinastia faraônica (1569-1315 a.C.) na região de Al Asasif, na província meridional de Luxor.

O grande diferencial da descoberta, explicou Valentín à Agência Efe, é que na escavação foram encontradas gravuras com os nomes de Amenhotep III e Amenhotep IV juntos.

Isto, segundo o especialista, "pode confirmar que os dois reis governaram juntos entre nove e dez anos dos 39 de Amenhotep III, já que os textos das colunas explicam que eram soberanos do Alto e do Baixo Egito". "Não há nada semelhante na história faraônica", afirmou taxativamente Martín Valentín.

O chefe do departamento de Egiptologia do Ministério de Antiguidades egípcio, Ali Asfar, destacou a importância dos nomes destes dois faraós aparecerem juntos. Asfar reconheceu que é muito complicado estabelecer as datas exatas dos reinados faraônicos, mas admite que este caso poderia obrigar a uma revisão das cronologias já estabelecidas, pois "confirmaria que ambos reinaram juntos".

Os reinados de Amenhotep III, também conhecido como Amenofis III, e de Amenhotep IV, que entrou para a história sob o nome de Akenaton, estão entre os mais relevantes do Egito Antigo por razões diferentes. O pai governou um país que conheceu um dos maiores períodos de prosperidade e estabilidade interna de sua história, com um longo mandato de quase quatro décadas.


Até agora, os especialistas pensavam que o filho havia se rebelado contra a forma do pai de conduzir o reinado e que, após sucedê-lo no trono após sua morte, adquiriu o nome de Akenaton e instaurou pela primeira vez o monoteísmo, com Aton como deus oficial.

No entanto a descoberta, explicou Martín Valentín, dá a entender que pai e filho estavam de acordo nessa autêntica revolução, já que compartilharam o reinado por uma década. A missão escolheu a tumba do ministro real, identificado como Amenhotep Huy, com a convicção que nela poderiam ser encontrados documentos que confirmassem o reinado conjunto.

"Desde 2009 trabalhamos neste lugar, onde escavamos cerca de 400 metros quadrados, e esperamos novas descobertas nos 600 metros quadrados que ainda faltam", disse o arqueólogo, antes de acrescentar que ninguém tinha escavado antes esse mausoléu inacabado.

Segundo o espanhol, Amenhotep III governou entre 1397 e 1340 antes de Cristo, por cerca de 38 anos, enquanto Amenhotep IV esteve à frente do país entre 1360 e 1348 a. C, ou seja, por 17 anos. A descoberta indicou que foram nesses dez anos de reinado conjunto que teria explodido a chamada "revolução atoniana". "Acho que tanto o pai como o filho, ou toda a família real, promoveram essa revolução, que deslocou o deus Amon, que era venerado em Tebas, capital faraônica de então", comentou Martín Valentín. 
Jornal O Estado de  S. Paulo

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Notícias História Viva

Faraó Ramsés 3º morreu com golpe na garganta, afirma pesquisa

REINALDO JOSÉ LOPES

Um crime que prescreveu há mais de 3.000 anos finalmente foi elucidado: o faraó Ramsés 3º foi mandado para o Outro Mundo por meio de uma facada na garganta, afirmam pesquisadores.

A conclusão vem de uma detalhada análise forense da múmia do monarca egípcio, despachado para o reino dos mortos no ano 1155 a.C., provavelmente. O estudo, que incluiu tomografias computadorizadas e análises de DNA, está na revista médica "BMJ".
France Presse 
Múmia do faraó Ramsés 3º

A partir da leitura de um antigo texto egípcio, o chamado Papiro Judicial de Turim, já se sabia que Ramsés 3º tinha sofrido um atentado em seu harém. Os responsáveis parecem ter sido uma das esposas dele, a rainha Tiy, e o filho do casal, Pentawere.

O papiro, porém, dava a entender que o faraó havia conduzido o julgamento dos traidores -o que a tomografia indica ter sido impossível.

É que o golpe de faca cortou a traqueia, o esôfago e uma série de vasos sanguíneos grandes, chegando até a raspar uma das vértebras do pescoço. A morte do rei deve ter sido instantânea.

A análise de DNA do estudo comparou, além disso, o cromossomo Y (a marca genética da masculinidade) do faraó com a múmia de um homem misterioso, achada no mesmo complexo real onde Ramsés 3º foi enterrado.

Resultado: o mesmo cromossomo. Juntando isso ao fato de que o homem não identificado morreu por volta dos 20 anos de idade, os cientistas especulam que se trate de Pentawere, o príncipe traidor de seu pai.

A equipe do estudo foi liderada por Zahi Hawass, ex-czar de antiguidades do Egito, e pelo paleopatologista Albert Zink, da Academia Europeia em Bolzano, Itália.
Jornal Folha de S. Paulo

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Notícias História Viva

Túmulo de cantora do deus Amon-Rá é descoberto no Egito
Achado comprova que no vale dos Reis há também sepulturas de personalidades da época, além dos sarcófagos dos faraós
EFE



Foto: AFP


Túmulo de cantora de Amon-Rá foi descoberto a 600 quilômetros do Cairo, no Egito


Uma equipe de arqueólogos suíços descobriu o túmulo de uma cantora do deus Amon-Rá, da 22ª dinastia (712-945 a.C.), no vale dos Reis na cidade de Luxor, a 600 quilômetros do Cairo.

O Ministério de Estado para as Antiguidades do Egito anunciou neste domingo que os arqueólogos encontraram o sarcófago durante os trabalhos de limpeza de um corredor que leva ao túmulo de um faraó Tutmósis III (1490-1436 a.C.).

Nesse corredor, os especialistas encontram um poço que dá acesso a uma sala de sepultamento, onde a equipe suíça achou o sarcófago da cantora, conforme comunicado divulgado pelo Ministério.

O túmulo, de madeira e pintado de preto, tem escrituras em hieróglifo, que incluem o nome da artista "Ni Hems Bastet".

Os arqueólogos acharam ainda perto do túmulo do faraó um muro onde o nome da cantora também aparece inscrito.

A importância dessa descoberta, de acordo com as autoridades egípcias, é provar que no vale dos Reis, na margem ocidental do Nilo, que há sepulturas de outras personalidades da época da 22ª dinastia, além dos faraós.
http://ultimosegundo.ig.com.br

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Descoberta no Egito tumba que conserva cores vivas após 4.200 anos

DA EFE, NO CAIRO

EPA
Tumba de 4.200 anos descoberta no Egito; supreendentemente, cores na parede ainda preservam cores vivas

Como se tivessem sido pintados ontem, assim podem ser descritas as cores da tumba construída há 4.200 anos no sítio arqueológico de Saqara, 25 quilômetros ao sul do Cairo e apresentado pelo chefe do Conselho Supremo de Antiguidades egípcio, Zahi Hawas.

"São as cores mais incríveis jamais encontradas em uma tumba", disse Hawas aos jornalistas, que sob o forte sol de julho tentavam tomar nota das antiguidades encontradas e das explicações do egiptólogo mais famoso do país.

Para chegar a tumba, que na realidade são duas, é preciso percorrer vários quilômetros por uma inóspita pista de areia, de onde é possível ver a pirâmide escalonada do faraó Zoser.

Na cripta descansam os restos de dois altos funcionários da 5ª dinastia faraônica (2.500-2.350 a.C): Sin Dua, sepultado na sala principal do túmulo, e seu filho Jonso, cujos restos foram depositados em uma sala adjacente à de seu pai.

Ambos ostentam os cargos de "supervisor de funcionários", títulos dos quais não se tinha conhecimento até agora, e de "chefe dos escribas", entre outros.

No entanto, o que chama mais atenção na descoberta são as cores luminosas com as quais a "porta falsa" da tumba de Jonso está pintada, porta pela qual, como acreditavam os egípcios, a alma do morto devia entrar no mundo dos mortos.

Sobre um fundo branco, nítidos tons de marrom, rosa, amarelo, azul e preto mostram quem foi o chefe dos escribas, junto a hieróglifos que indicam seus diferentes cargos e seu nome.

"O túmulo do filho, Jonso, é único e incrível" explicou o especialista, que acrescentou que na "porta falsa" há "um altar de sacrifícios" e pode se ver Jonso "em diferentes posições que mostram a beleza" das cores. "Uma beleza que possivelmente nunca foi encontrada em outra tumba", disse Hawas.

Na sala reservada a Sin Dua, com dimensões maiores e, assim como a de Jonso, enterrada a quatro metros de profundidade, também se destacam as cores nítidas da "porta falsa", na qual Sin Dua aparece sentado em frente a uma mesa de oferendas.

"Como estas cores, na minha opinião as mais incríveis descobertas em uma tumba, puderam se manter durante 4.200 anos?", questiona Hawas, que ressaltou que os trabalhos de catalogação e conservação começaram no momento da descoberta.

Perante a "porta falsa" da tumba de Sin Dua foi encontrado também um poço, agora coberto, de 16 metros de profundidade, no qual foram encontrados os restos do caixão do morto, afetado pela umidade.

Além disso, os arqueólogos desenterraram diversos artefatos e objetos utilizados nos ritos fúnebres do antigo Egito que, aparentemente, se mantiveram a salvo dos saqueadores de túmulos graças à profundidade na qual foram depositados.

Entre eles, vários recipientes de pedra em formato de pato que continham ossos destas aves, uma cabeça de madeira e um pequeno obelisco de 30 centímetros.

Segundo Hawas, postado em uma plataforma de madeira situada sobre o poço, os egípcios da 5ª e 6ª dinastias costumavam colocar em suas tumbas obeliscos como símbolo de sua crença no deus sol Ra.

Estes sepulcros "fazem parte de um enorme cemitério descoberto recentemente na área de Saqara por uma missão arqueológica egípcia que trabalha na região desde 1988", explicou Hawas.

Esta necrópole, da qual não se tinha notícia, como comentou Hawas, se encontra dentro do complexo arqueológico de Saqara, em uma área conhecida como "Yiser al Mudir" e na qual o arqueólogo egípcio espera realizar muitas descobertas.

Antes de abandonar a tumba subindo por uma escada de madeira rudimentar e junto com seu inseparável chapéu, Hawas fez questão de lembrar aos jornalistas: "Você nunca sabe os segredos que as areias do Egito podem esconder".
Folha de São Paulo

Notícias História Viva

Arqueólogos descobrem estela da época do faraó Apries
DA EFE

CSA/Efe
A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries

Uma equipe de arqueólogos egípcios descobriu uma estela (bloco de pedra) que data da época do faraó Apries, da 26ª Dinastia (589-570 a.C.), na província de Ismailiya, a leste do Cairo, informou nesta terça-feira o Conselho Supremo de Antiguidades.

A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries, quinto monarca da 26ª Dinastia, detalhou o secretário-geral da instituição, Mohammed Abdel Maqsud.

Em comunicado, o pesquisador afirmou que a descoberta da estela, que tem várias inscrições em hieróglifos, aconteceu em uma jazida arqueológica situada no lado oeste do Canal de Suez.

A equipe do Conselho Supremo de Antiguidades iniciou há três anos as escavações nessa jazida e já chegou a várias descobertas históricas.

O chefe do conselho lembrou que as descobertas arqueológicas comprovam que o local não era só uma antiga fortaleza militar de mercenários gregos, mas um assentamento egípcio construído pelo faraó Psamético 1º, segundo rei da dinastia.

Ele explicou que há dois anos foi descoberto um grande conjunto de armazéns na região, além de olaria de fabricação local e importada das ilhas do leste da Grécia, o que revela os prósperos laços comerciais que os egípcios mantiveram com os gregos.
Folha de São Paulo

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A vingança dos faraós negros


Durante séculos, os reis do Egito escravizaram os negros da civilização cush. Mas um dia eles revidaram. Tomaram o poder e viraram faraós. Agora, seu reinado acaba de ser reconstituído pela arqueologia. E pela informática.
Escravos que viraram senhores
No ano de 715 a.C., o rei negro Shabaka, do povo cush do sul do Nilo, invadiu o Egito, derrotou os inimigos e corou-se faraó (como eram chamados os soberanos egípcios) na capital, Tebas. Começava ali a 25ª dinastia dos faraós — a dinastia cushita —, que iria durar 52 anos. Nada mau para quem foi escravo durante dois milênios.
Os gregos chamavam os cush de ethiope, que quer dizer "rosto tisnado". Eles eram negros africanos que absorveram a cultura egípcia, misturaram com a sua e retomaram, com estilo próprio, a construção de pirâmides, mil anos depois de elas terem sido abandonadas pelos egípcios. Napata, a capital cush no pé da montanha sagrada de Gebel Barkal, chegou a ter 94 pirâmides.
Os faraós negros governaram o Egito da cidade de Tebas, até o ano 663 a.C. Mas a cidade de Meroe, no sul do Nilo, o centro econômico do império cush, durou 900 anos. Foi tão influente que deu origem à cultura meroíta (de Meroe), como prolongamento da civilização cush. Só foi destruída no século III da nossa era, pelos vizinhos da Núbia. Os cush viraram núbios. No século III, os romanos incorporaram e cristianizaram todos os povos da região. Depois, no século XIV, os núbios foram convertidos ao islamismo.
Sabe-se pouquíssimo sobre essa cultura ancestral, que evoluiu paralelamente à egípcia. O inglês F. L. Griffith descobriu os hieróglifos cush em 1911. E as ruínas de Gebel Barkal só foram encontradas em 1923, pelo arqueólogo inglês G.A. Reisner. Mas há dois anos, pesquisadores espanhóis da Fundação Jordi Clos, de Barcelona, começaram a escavar no local e desenterraram vestígios sensacionais.

Novas descobertas
"Procuramos túmulos em toda a área perto da montanha", diz a arqueóloga Francesca Berenger, "e não apenas nas pirâmides." Em 1996, a equipe localizou o túmulo, magnificamente decorado, de um faraó desconhecido, Semesu Uhemu. Em janeiro passado, achou o de uma rainha. "É cedo para especular", diz Francesca, "mas a área no pé da montanha tem dúzias de túmulos não descobertos que vão revelar muita coisa."
Os computadores têm ajudado os arqueólogos na reconstrução das ruínas. Baseados em gravuras e desenhos antigos, ou cópias de estátuas, os pesquisadores produziram perfeitas "fotos do passado" em estúdios de computação gráfica. Os desenhos das pirâmides de Gebel Barkal, feitos pelo francês Fréderic Caillaud no século XIX, orientaram a reconstrução integral dos monumentos (veja a página 63). Os computadores também ajudam a decifrar os hieróglifos cush comparando-os com as escrituras de outros mausoléus.

Uma outra arquitetura de pirâmides
Durante a dinastia cushita, os faraós reinaram em Mênfis e Tebas, mas construíram seus túmulos em Napata, a capital de origem. A cidade ganhou um Templo de Amon, além de monumentos e estátuas.
As pirâmides cush tinham, em média, 12 metros de largura por 15 de altura. Eram bem menores que as egípcias: Quéops, a maior de todas, tem 230 metros de largura por 147 de altura. Os mausoléus cushitas eram mais pontudos, com 68 graus de inclinacão (contra 51 graus de Quéops). Além disso, tinham uma capela, anexa, com porta de entrada.
Os cush cultuavam deuses egípcios e africanos, como Apedemek, o deus-leão. Napata foi sempre a capital religiosa, mas Meroe prosperou como pólo econômico. Eles eram fazendeiros, comerciantes e tinham uma avançada metalurgia alimentada a lenha.
No começo da era cristã, rainhas poderosas marcaram a cultura meroíta — as kandake. Em afrescos, elas são retratadas como mulheres grandes e agressivas, que arrastavam inimigos pelos cabelos. No ano 23 d.C., o prefeito romano no Egito invadiu Napata e recebeu uma delegação meroíta chefiada por uma kandake. Contou que ela tinha "seios maiores que bebês gordos".
Muita coisa se desconhece. A começar pelos hieróglifos. "Pusemos mil inscrições no computador", diz o lingüista Jean Leclant. "São nomes de reis e seus familiares. Mas não sabemos o que dizem. Para entender o alfabeto, precisaríamos comparar dois textos idênticos, um em egípcio e outro em meroíta". Restam ainda muitos capítulos inéditos da história dos faraós negros.

Para saber mais

À Procura dos Mundos Perdidos. Henri-Paul Eydoux. São Paulo, Melhoramentos, 1967.
As Primeiras Civilizações. Os Impérios de Bronze. Pierre Lèvêque. São Paulo, Edições 70, 1990.
Em 4 000 anos de história egípcia, de 4500 a.C. a 332 a.C, 31 dinastias se sucederam. Desde a primeira, os faraós já escravizavam os povos negros do sul. Os cushitas carregaram muita pedra para as pirâmides.
Em 1915 a.C., o faraó Sesostris dominou toda a região ao sul da segunda catarata do Nilo (veja mapa na página 62). Houve várias rebeliões. Em 1514 a.C., Amenhotep, de Tebas, sufocou os últimos revoltosos. A região virou uma colônia até que, com as guerras civis egípcias, em 1075 a.C, os cushitas reconquistaram a independência.
No ano 800 a.C., um poderoso reino cush começou a florescer. A partir de 730 a.C, os reis Kashta e, depois, Piankhi invadiram e conquistaram o Egito. Em 715 a.C., Shabaka completou a conquista e fundou a 25ª- dinastia.
Devotos do deus Amon, os cushitas identificavam-se com a opulência de Tebas e consideravam os egípcios do norte como degenerados. Uma invasão síria, em 663 a.C, acabou com o império dos faraós negros.
Revista Superinteressante

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cleópatra, a alegria dos homens



Com seus encantos, a rainha seduziu os poderosos de Roma, mas não evitou o último suspiro dos faraós

Cleópatra Thea Filopator nasceu em Alexandria entre dezembro de 70 a.C. e janeiro de 69 a.C. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. Seu nome é grego e significa “a deusa Cleópatra, amada de seu pai”. A dinastia ptolomaica assumiu o poder em 305 a.C. depois que Alexandre, o Grande, incorporou o Egito à Grécia – o primeiro Ptolomeu era general de Alexandre. Apesar da origem grega da família, Cleópatra foi a única do clã a dominar a língua egípcia. Acredita-se que era uma mulher muito culta – além do grego e do egípcio, falava aramaico e latim, entre outras línguas.
Sabe-se pouco sobre sua infância e adolescência. A imagem de Cleópatra que perdura até hoje é a de uma mulher bonita e sexualmente ousada. Fontes antigas enfatizam sua inteligência e diplomacia – dizem até que ela escreveu livros sobre pesos e medidas, magia e cosméticos. Há quem diga que ela foi uma das inventoras da maquiagem. Estudos recentes afirmam, no entanto, que de bonita ela só tinha a pele – banhada freqüentemente com leite de cabra e perfumada com óleos exóticos.
Ptolomeu XII, seu pai, não era nada popular em Alexandria. Ficou no poder graças ao apoio de Roma, pelo qual teve que pagar grandes quantias de dinheiro, arrancando o couro do povo com pesados impostos. Recebeu o apelido de “Auleta”, que significa “tocador de flauta”, porque preferia levar a vida na flauta, tocando e ouvindo música, a pegar no batente. Em 58 a.C., com o clima mais pesado que nunca para ele, refugiou-se em Roma. Sua filha Berenice IV tornou-se a nova soberana com apoio da população alexandrina. Em 55 a.C., Auleta voltou e mandou matar a própria filha. Nomeu seus filhos Cleópatra e Ptolomeu XIII para o trono do Egito e morreu em 51 a.C. Seguindo o costume da dinastia, Cleópatra casou-se com o irmão – que tinha cerca de 15 anos de idade e passou a ser cercado de puxa-sacos, oportunistas e conspiradores de plantão.
Ambiciosa e malandra, Cleópatra sabia que Roma era a nova potência mundial. Se quisesse ficar no poder, teria que ter boas relações com ela. É aí que entra...
JÚLIO CÉSAR
Filho de família tradicional e com uma certa grana, Caio Júlio César (100-44 a.C.) era um advogado que virou político e que depois decidiu seguir a carreira militar. Em pouco tempo no posto de general, fez importantes conquistas e ampliou os domínios do Império Romano. Mas meteu-se numa guerra civil contra a facção conservadora do Senado romano, comandada pelo respeitado general Pompeu. Eles temiam que César estivesse tramando um golpe para virar ditador.
Em uma batalha travada no dia 9 de agosto de 48 a.C., César conseguiu uma vitória surpreendente contra o favorito Pompeu, que fugiu para o Egito. César regressou a Roma e foi nomeado ditador romano (que não é o mesmo que ser ditador no sentido habitual; era um cargo político cheio de regras). Para ajudá-lo nas campanhas militares, nomeou Marco Antônio.
César decidiu ir ao Egito atrás de Pompeu para oferecer seu perdão. Soube então que ele tinha sido decapitado por ordem de Ptolomeu XIII, que pensou estar fazendo um favor a Roma. Enganou-se. César ficou furioso com a barbárie. Usou seu poder para substituir o rapaz pela irmã, Cleópatra. Foi a chance que ela queria para se aproximar do novo “rei do pedaço”
Conta o filósofo e escritor Plutarco (que viveu no século 1) que Cleópatra mandou um grande tapete a César – fazia frio no Egito naqueles dias. Quando desenrolou o presente, o visitante encontrou nada menos que a própria Cleópatra dentro dele. Na maior cara-de-pau, ela disse que tinha ficado encantada com as histórias amorosas do já cinqüentão César (que era chamado de “o calvo adúltero” por seus soldados). E disse que queria conhecê-lo de perto. Conheceu. Aos 21 anos de idade, tornou-se sua amante e consolidou seu poder.
Enciumados, o mano Ptolomeu XIII e uma irmã, chamada Arsínoe, tentaram virar o jogo, com o apoio do Exército egípcio. César botou todo mundo para correr. Arsínoe foi presa e Ptolomeu XIII afogou-se no rio Nilo quando tentava escapar.
Em junho de 47 a.C., Cleópatra deu à luz Ptolomeu XV César – ou Cesarion (“pequeno César”). César reconheceu a paternidade do menino, mas voltou a Roma deixando no Egito três legiões romanas e uma orientação para a namorada: ela devia se casar com Ptolomeu XIV, também seu irmão.
Tudo parecia tranqüilo. Com todo o mundo romano sob seu domínio, César iniciou uma série de mudanças administrativas. Mudou até o calendário – o mês quintilis foi rebatizado de julius (julho). Até que, no dia 15 de março de 44 a.C., numa reunião do Senado, César foi apunhalado até a morte por um grupo de senadores, entre eles seu protegido Marcus Junius Brutus.
Cleópatra não se apertou. Voltou suas armas de conquista na direção de...
MARCO ANTÔNIO
Em 42 a.C., Marco Antônio fazia parte do triunvirato que governava Roma desde a morte de César, dois anos antes. Ele era o comandante da parte oriental do Império e intimou a rainha do Egito para um encontro político. Cleópatra, conhecendo a fama de mulherengo e beberrão do sujeito, chegou arrasando, com todo o luxo a que tinha direito. Ofereceu até um banquete regado a vinho. Desse encontro político (e de outros que se seguiram no inverno seguinte) nasceram os gêmeos Cleópatra Selene e Alexandre Hélios.
Cada um foi para o seu lado, até que, quatro anos depois, reataram o romance. Cleópatra teve então outro filho, Ptolomeu Filadelfo.
No fim de 34 a.C., Marco promoveu um verdadeiro trem da alegria com as chamadas “Doações de Alexandria”. Distribuiu cargos e terras (países inteiros) a Cleópatra e seus filhos – o equivalente a um terço do território romano. Divorciou-se da esposa Otávia e declarou que o filho de Cleópatra com César era o herdeiro legítimo do poder em Roma. Foi um escândalo.
Ultrajado, o general Otaviano – irmão de Otávia, sobrinho de Júlio César e comandante da Roma Ocidental – discursou no Senado, dizendo que a doação de terras conquistadas pelos romanos a uma mulher era uma “afronta imperdoável”.
Os senadores destituíram Marco de suas atribuições e acabaram com a imagem do Egito e de Cleópatra – chamaram-na de feiticeira para baixo. A guerra civil era inevitável. E ela veio com tudo.
O conflito – conhecido como Batalha de Ácio – arrastou-se por meses. Importantes aliados de Marco Antônio mudaram de lado em protesto pelos palpites de Cleópatra. Um dia, sem mais nem menos, ela içou velas e partiu com 60 navios rumo ao Egito. Seu apaixonado marido, sem entender nada, pegou um barco menor e foi atrás dela, deixando os soldados na mão. Até hoje não se sabe ao certo por que ela fez isso. Resultado: desastre. Marco perdeu 5 mil soldados e 300 navios. E caiu numa depressão que teria conseqüências trágicas.
Cleópatra tentou levar sua fortuna para a Índia e lá fundar um novo reino, mas foi atacada no meio do caminho por tribos inimigas de sua dinastia e teve que voltar para trás. Em Alexandria, ficou sabendo que Otaviano estava a caminho para capturá-la. Despachou o filho Cesarion para a cidade de Coptos. A cavalaria de seu marido estava resistindo bravamente aos ataques de Otaviano. Mas Marco, acreditando nos boatos que diziam que sua musa estava morta, suicidou-se com um golpe de espada. A notícia chegou a Cleópatra por volta do dia 30 de agosto de 30 a.C. Para não se submeter à humilhação de ser exibida acorrentada pelas ruas de Roma, deixou-se picar por uma serpente – que alguém tinha trazido para ela num cesto de figos. Era o fim de uma história de amor – e de 3 mil anos de reinado dos faraós no Egito. Aquele que tinha sido o maior império sobre a Terra era agora apenas mais uma província romana.

O que é que a egípcia tem?
Romanos se perguntavam: “o que Júlio César e Marco Antônio viram nessa nariguda?” em 1963, Hollywood levantou a bola de Cleópatra, mas descobertas recentes mostram uma bruxa
A beleza de Cleópatra já era motivo de controvérsia mesmo quando ela ainda estava viva. Os romanos fofocavam sobre os misteriosos encantos da mulher que conquistara, na seqüência, Júlio César e Marco Antônio, os mais poderosos generais da época. Seria o poder mágico de seus perfumes inebriantes? A julgar pelas imagens que chegaram até nossos dias, Marco Antônio era o cão chupando manga, mas Júlio César tinha seu charme – e fama de garanhão. Cleópatra era careca, como quase todo mundo, para evitar piolhos. Durante séculos falou-se sobre o tamanho de seu nariz. O falatório só diminuiu a partir dos anos 60, depois que a atriz Elizabeth Taylor, no auge da beleza, estrelou um filme sobre a rainha do Egito - uma das produções mais caras da história de Hollywood. Ela consolidou a imagem que o mundo moderno tem de Cleópatra – uma deusa com nariz delicado, cintura fina, pele clara e olhos azuis. Mas o sossego da verdadeira Cléo durou pouco, e a polêmica sobre sua beleza acaba de ser reacesa. Uma exposição no Museu Britânico, em Londres, mostrou ao mundo dez estatuetas, a maioria retirada do Porto de Alexandria. Junto com uma moeda de prata de 2 mil anos, as peças retratam a rainha como uma mulher baixinha, roliça, queixuda, de lábios finos e dentes feios. E confirmam o famoso narigão.

Entrevista Com Gente Morta
A volta da rainha da sedução
Cleópatra representou a inteligência, o charme, a força e aginga da mulher egípcia
Texto Soraia Gama
A última rainha do Egito – e talvez a mais famosa entre todas as rainhas de todos os tempos – interrompe dois milênios de silêncio e fala da dor e da delícia de ser o mais antigo símbolo sexual da humanidade. Dá dicas de beleza e sedução e conta que, como toda celebridade, foi alvo de fofocas – a pior delas diz que ela transou com um exército inteiro. Recentemente, teve sua legendária beleza questionada por estudiosos. Veja a seguir o que ela tem a dizer.
HISTÓRIA – Dizem que sua beleza é um mito. Como seduziu homens tão poderosos?
CLEÓPATRA – Não posso forçar ninguém a me achar linda, mas negar que sou muito interessante ninguém pode. Interessante e inteligente. Por mais bela que seja, a mulher não segura um homem por muito tempo sem cultura. Sempre opinei nas ações de César. Ficaria entediada se tivesse a vida das esposas de Roma.

Mas você não era esposa dele. Ser amante não a incomodava?
No começo, eu nem ligava. Tratava-se de interesse político. Eu não poderia deixar o Egito nas mãos do meu irmão mais novo e planejei seduzir César para conseguir o trono. Depois me envolvi, tive medo, insegurança. Eu era muito jovem.

Como aprendeu tão bem a arte da sedução?
A pessoa mais próxima a mim era meu conselheiro. Mas não poderia perguntar a um eunuco como seduzir um homem como o grande general. Então ordenei que me trouxessem uma hetaíra, uma cortesã. Ela me deu boas demonstrações, que pus em prática no primeiro momento com César. No começo, me senti pequena demais diante daquele homem. Com o tempo, fui ficando mais segura. Consegui me soltar, tomar a iniciativa e dominar a situação na cama. Os homens adoram isso.

Você era muito vaidosa?
Como toda mulher é ou deveria ser.

Algum segredo?
Os óleos deixam a pele macia e muito atraente. Com o sol forte do Egito, era preciso um cuidado especial. Eu recebia massagens com diversos óleos diariamente e tomava banhos de leite de cabra.

Você sabe que a maquiagem se originou do kohl negro, que você usava para pintar os olhos?
Sim. Às vezes, eu usava o pó de malaquita, um kohl verde. Essa pintura deixava os olhos lindos e os protegia do excesso de claridade. Hoje, vocês têm facilidades que a gente não tinha naquela época, além da enorme variedade de produtos.
Você tinha alguém que cuidava do seu guarda-roupa?
Quando governei, não existia o conceito de moda. Era tudo muito parecido, não era possível ter exclusividade. O que diferenciava as mulheres nobres eram os tecidos, de muito mais qualidade.

Eram importados?
Imagina! O linho e o algodão são típicos de locais quentes. O Egito produz os melhores, até hoje.

E para os cabelos, havia algum segredo?
Que cabelo? O piolho foi uma praga do Deus hebreu e tivemos de depilar todo o corpo para não propagar a desgraça. Chegamos a usar cera de abelha no alto da cabeça para espantar as moscas, outra praga divina. Eu era careca.

Mas sua franjinha foi eternizada por Elizabeth Taylor no filme Cleópatra...
Mas era filme. Ouvi dizer que essa atriz só usou o que quis durante as filmagens. Foi tratada como se fosse mesmo uma rainha.

Os comentários de que você teve relações sexuais com um exército inteiro de Roma duram até hoje. O que você tem a dizer a respeito?
[Séria] Demorou para você tocar nesse assunto. Só tenho a dizer que fui casada de verdade com dois homens: Júlio César e Marco Antônio. Amei e estive ao lado dos dois até o último suspiro. E não falo mais nada sobre minha vida pessoal.

Julio César era muito mais velho que você. Isso não atrapalhou o relacionamento?
Júlio foi meu primeiro homem e pai de Cesarion. Isso é mais importante em uma relação do que a diferença de idade. Marco Antônio também era uns dez anos mais velho.

Então você sempre gostou de homens mais velhos?
Homens interessantes, com garra e determinação. A idade não importa.

Talvez o assunto não lhe agrade, mas com essa pergunta encerramos a entrevista. Você sentiu medo ao ver a cobra saindo do cesto de frutos na noite em que foi picada e morta?
[Pensativa] Não. Sei que o poder tem seu preço. Um preço alto.

Para saber mais
Quando Éramos Deuses, Colin Falconer, Record, 2004 - Um romance sobre a vida amorosa e política de Cleópatra.
Revista Aventuras na História

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Banquete dos faraós

Egiptólogo reconstitui receitas usadas nas cozinhas palacianas do antigo Egito. Para ter uma refeição de faraó, basta descolar os ingredientes e muito espaço no estômago

Oferenda
Gravura localizada na Necrópole de Mussawaka, oásis de Dakhla
Muita variedade, fartura e principalmente exagero são as palavras-chaves para descrever a alimentação dos antigos egípcios. Evidentemente, estamos falando da corte dos faraós, já que o cardápio das camadas mais populares, que constituíam 90% da população do país, era bem mais restrito. As informações sobre os hábitos alimentares no antigo Egito foram coletadas pelo egiptólogo francês Pierre Tallet, a partir de papiros, pinturas feitas em túmulos, restos de comida e utensílios encontrados em sarcófagos.

O material foi reunido no livro "História da Cozinha Faraônica - A Alimentação no Antigo Egito", que a partir desses fragmentos nos dá uma pista de quais eram os ingredientes utilizados nos banquetes preparados nas cozinhas palacianas. Um papiro reproduzido no livro dá uma idéia da orgia alimentar promovida em um banquete preparado para comemorar a chegada do faraó em determinada cidade. Entre os milhares de produtos - isso mesmo, milhares - estão mais de 18 mil pães, 300 peças de carne seca, 100 tipos de molhos, 50 gansos, 70 carneiros, além de dezenas de peixes, codornas, frutas e bebidas

Revista Galileu

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Múmias, uma arte em busca da eternidade

Culturas antigas ansiaram pela imortalidade; hoje ajudam os cientistas

Carin Petti Homonnay
Especial de Londres


Da morte, ninguém escapa. Da decomposição, porém, alguns conseguem fugir, graças à obra dos embalsamadores. É o caso de Tutancâmon, Lênin, Evita Peron ou de Oetzi, o homem de 5.300 anos encontrado congelado na fronteira da Áustria com a Itália. Difícil mesmo é não se sentir fascinado pelas múmias, assunto que este ano ganhou um livro de destaque - The Mummy Congress (O Congresso das Múmias, em português), da escritora e jornalista canadense especializada em arqueologia Heather Pringle. Quem lê, fica sabendo, entre outras coisas, que as múmias egípcias, apesar de serem as mais famosas, não são as mais antigas. Cerca de 2.500 anos antes do processo ser adotado pelos egípcios, a mumificação já era prática entre os chinchorros, povo que vivia entre o atual norte do Chile e o sul do Peru. As múmias mais antigas (7,8 mil anos) eram de crianças que, quando mortas, tinham a carne substituída por junco, gravetos e barro pintado. O resultado lembra uma estátua, mantida em casa pelos chinchorros, para matar a saudade do filho perdido, como explica Heather. Milênios depois, o processo ganhou uma versão mais bizarra no Japão. Monges do século 18 tentavam mumificar-se ainda vivos, com ajuda de uma dieta à base de resinas de árvores. Se deu certo, ou se os corpos foram preservados depois, não se sabe.

Mistério: múmia caucasiana achada na China confunde historiadores

A inglesa Joyce Filer já levou 15 múmias para sessões de tomografia computadorizada no hospital nos últimos quatro anos. "Os exames fornecem informações importantes sobre a saúde do Egito Antigo", justifica Joyce, egiptóloga do Museu Britânico, de Londres, com especialização em patologia. Graças às imagens, sabe-se, por exemplo, que artrite e osteoporose eram males comuns entre os egípcios. Mais corriqueira ainda era a dor de dente - resultado das doses generosas de mel e da mistura inevitável da areia do deserto com a comida, acredita o curador do museu, John Taylor.

Análises realizadas nos tecidos mumificados revelam também muitos casos de malária, tuberculose e esquistossomose adquirida em banhos no Rio Nilo. Com tantos problemas, não é à toa que a expectativa de vida na época fosse de 35 a 40 anos. "O dia-a-dia naqueles tempos era bem mais difícil do que sugerem as figuras alegres, jovens e saudáveis que vemos pintadas nas tumbas", afirma Taylor.

Estudar a saúde dos antigos egípcios não serve, porém, só para satisfazer a curiosidade dos historiadores. "Quando se acompanha a evolução de uma doença durante séculos, é possível entender melhor o seu comportamento e encontrar eventuais formas de cura", diz Joyce. É o que pretendem provar pesquisadores do Museu de Manchester, na Grã-Bretanha, coordenados pela egiptóloga Rosalie David.


As cabeças de Napoleão

Está com dor de cabeça? Nada melhor que pó de múmia. Quebrou a perna? O remédio também serve. Na Renascença era assim: recomendava-se múmia para cura de quase tudo. Uma pequena dose, dizia-se, acabava com enxaquecas, incontinência urinária, paralisia e vertigens. A história vem do livro The Mummy Congress, de Heather Pringle. Entre os consumidores fiéis estavam o rei francês Francisco I, um dos mecenas de Leonardo da Vinci, e sua nora, Catarina de Medici, sobrinha do papa Clemente VII.

No tempo de Napoleão Bonaparte, a admiração por múmias e pela cultura egípcia persistiu (ilustração) . Em 1799, ele voltou da campanha no Egito com duas cabeças mumificadas na bagagem. Ficou com uma e deu a outra de presente a sua mulher, Josefina.

Vestígios de DNA

Além do Egito
Os chinchorros, no Chile, já mumificavam seus mortos há 7 mil anos (foto). À esquerda, múmia européia com um dente

Com a análise de amostras de tecidos de múmias doadas por museus e colecionadores, a equipe britânica busca desenvolver um tratamento eficaz para a esquistossomose. O mal, identificado em múmias egípcias de 5 mil anos, atinge 200 milhões de pessoas no planeta. Os cientistas de Manchester desenvolveram uma técnica de detecção de reações do sistema imunológico ao parasita da doença nos tecidos mumificados. Outros pesquisadores buscam informações sobre a doença de Chagas nas múmias chilenas. "Com a análise de pequenas amostras, é possível identificar o DNA do Tripanossoma cruzi, o parasita causador da doença", afirma Heather.

Com tomografia computadorizada, Joyce descobriu uma grave lesão não cicatrizada na cabeça de Artemidoris, jovem egípcio de 2.100 anos, descoberto em 1888 a cerca de 60 km do Cairo. "Pancadas desse tipo são geralmente resultado de agressões físicas", diz, após analisar as imagens da múmia feitas pelo hospital da University College London. O ferimento, que teria sido grave o suficiente para ter matado Artemidoris, pode ter sido apenas obra de um embalsamador desajeitado. "A lesão pode ter ocorrido no processo de mumificação", afirma a pesquisadora. "Nesse caso, o acidente teria ocorrido antes do enfaixamento do corpo, pois as faixas não trazem marcas", diz, com autoridade de quem foi escolhida pelo governo inglês para examinar, logo que o Egito permitir, a múmia de Tutancâmon.

Hoje se sabe que o jovem Artemidoris era bem mais feio do que mostra sua imagem no sarcófago. A reconstrução computadorizada do seu rosto, a primeira do gênero, foi possível graças a um software criado pelo brasileiro João Campos e dois colegas do hospital da University College London. "Nós reconstruímos no computador o rosto em três dimensões com base nas imagens da tomografia e do sarcófago", diz Campos, engenheiro eletrônico que trocou o estudo de sinais magnéticos cardíacos no Instituto do Coração, de São Paulo, pelo hospital londrino. O resultado é uma face mediterrânea quadrada, menos delicada que o estilo oval romano então na moda, pintado no sarcófago.

Um mito embalsamado

A múmia mais famosa do mundo moderno está guardada em um mausoléu na Praça Vermelha, em Moscou. O corpo do líder comunista Vladimir Lênin, morto em 1924, foi preservado por uma equipe de embalsamadores que trabalharam durante cinco meses para criar a ilusão de que ele estava apenas dormindo. Seu rosto e mãos ainda estão à mostra, mas o resto do corpo está coberto por uma roupa preta, que impede a visão da decomposição. Ocasionalmente, o corpo mumificado é lavado com um líquido especial para manter a aparência impressionante.

Encarregados de preservar o corpo e, portanto, de manter o culto a Lênin, os embalsamadores selaram as cicatrizes da cabeça do líder após o cérebro ser removido para estudos. O objetivo era descobrir o segredo do gênio que o regime soviético atribuía a Lênin. O cérebro ainda está guardado em um laboratório de Moscou, assim como o de outro líder comunista, o ditador Joseph Stálin, cujo corpo também estava no mausoléu da Praça Vermelha, até ser enterrado, em 1961, nas paredes do Kremlin.



Beleza egípcia
Máscara dourada protege tumba

No século 19, a análise dos corpos preservados do Egito Antigo visavam muitas vezes provar a suposta superioridade dos brancos e justificar a escravidão dos negros. Segundo Heather Pringle, o americano Samuel Morton mediu centenas de caveiras e 20 cabeças mumificadas para concluir que os egípcios que lhe pareciam brancos tinham cérebro maior que os dos negros. Teorias racistas também inspiraram os dirigentes nazistas, que mandaram uma expedição a Xinjiang, na China, atrás das múmias de origem caucasiana, de 4 mil anos. A intenção era provar que Gengis Khan (1162-1227), o líder mongol admirado por Adolf Hitler (1889-1945), tinha a mesma origem que os alemães. Voltaram de mãos vazias.


Anote

Para navegar
www.mummytombs.com

Para ler

  • O Mundo Egípcio, Coleção Grandes Impérios e Civilizações. Edições del Prado. 1996
  • The Mummy Congress, Heather Pringle. Fourth State. Londres. 2001
  • Fotos: múmia caucasiana, Jeffery Newbury/Discover Magazine/Cortesia; Napoleão, Chester Higgins/Cortesia; máscara, Peter Bennett/Cortesia; múmia européia, Drents Museum/Cortesia; múmia chilena, David Lüttschwager/Susan Middleton/Discover Magazine/Cortesia

    Revista Galileu

    domingo, 20 de março de 2011

    Egito: Ritos Funerários

    Abertura da Boca: um dos rituais funerários do Antigo Egito.

    Os antigos Egípcios tomavam todas as precauções para sobreviverem à morte, alcançando o Além e gozando aí um estado de existência correto. Contudo, até nós chegaram somente os vestígios funerários dos ricos e poderosos, não se conservando elementos da grande maioria da população, pelo que sabemos pouco sobre a atitude do povo face à morte e preparação para esse acontecimento.
    O pensamento egípcio estabelecia que a continuação da vida extraterrena dependia da sobrevivência do nome da pessoa, da conservação do seu corpo, do aprovisionamento regular de alimentos e da possibilidade de superar os perigos e provas que poderiam dificultar e impedir o avanço deste para o outro mundo. Neste sentido estabeleceram um conjunto de procedimentos. O ideal era possuir um túmulo que pudesse servir de morada ao ka (espécie de alter-ego que na morte assumia a personalidade do morto) e de lugar de descanso para o corpo. Nas paredes da tumba e nos papiros aí colocados, havia textos que deviam garantir a aceitação por parte dos deuses. A sepultura devia ser escavada ou construída muito antes e quanto mais ambicioso fosse o projeto, mais tempo era requerido para a levar a cabo.
    No quadro desta religiosidade, apesar do estatuto particular e eclético, encontra-se a tradição egípcia da mumificação. O processo iniciou-se durante a vigência do Império Novo. O método consistia, em primeiro lugar, em retirar o cérebro e demais vísceras do corpo, aquele pelo nariz e as restantes através de uma incisão realizada no lombar esquerdo. O coração não era retirado, pois, segundo a tradição, retinha o entendimento. O corpo era tratado com natrão, provavelmente em estado sólido, contribuindo para a desidratação, mantendo a flexibilidade da pele. Seguidamente cobria-se corpo e crânio com linho e resina, inserindo-se ocasionalmente olhos artificiais e tapando-se nariz e ouvidos. O corpo era vendado, sendo introduzido entre as ligaduras amuletos protetores, principalmente o escaravelho. Na dinastia 21.ª, foi introduzida a prática de envolvimento e colocação das vísceras no interior do corpo. Curiosamente, algumas múmias apareceram com folhas de tabaco no seu interior, o que veio lançar um enigma na história egípcia, pois pensa-se que o tabaco é originário da América e só é do conhecimento do Ocidente no século XVI, com as primeiras navegações para o "outro lado" do Atlântico.

    Como referenciar este artigo:
    Egito: Ritos Funerários. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-03-20].
    http://www.infopedia.pt

    quinta-feira, 17 de março de 2011

    A chave do passado

    Pedra de Roseta - encontrada na cidade de Roseta, no Egito, esta pedra contém a chave para a decifração dos hieróglifos (escritos sagrados). No final do século XIX, o francês Champollion, considerado o pai da Egiptologia, decifrou seu conteúdo a partir da comparação do copta com o demótico e grego antigo (idiomas encontrados na inscrição). A Roseta traz a mensagem de sacerdotes que elogiam a honradez e a probidade de uma faraó. Abaixo da mensagem, há uma instrução: a informação da pedra deve ser disseminada pelo mundo. Daí, advém a tradução em grego e demótico, para a sorte do francês Champollion.
    http://movimentoculturalgaia.wordpress.com/page/2/

    Como um bloco de pedra encontrado por acaso, em Rosetta, ofereceu a peça que faltava para desvendar os hieróglifos e mais de 3 mil anos de história egípcia
    por Eduardo Szklarz
    No meio do caminho tinha uma pedra: um bloco de quase 760 quilos na rota dos soldados franceses que ocupavam o Egito em julho de 1799, numa expedição liderada pelo temido general Napoleão Bonaparte. O tablete cinzento de 114 x 72 cm apareceu quando eles cavavam trincheiras a leste de Alexandria, perto da cidade de El-Rashid, chamada de Rosetta pelos ocidentais. A pedra estava caída no chão, como uma lápide semi-enterrada. Uma versão menos aceita entre os historiadores dá conta de que ela estava incrustada num muro que os militares demoliam. Seja como for, a Pedra de Rosetta chamou atenção de imediato porque tinha gravadas três escritas diferentes. Coordenador das obras, o capitão Pierre-François Bouchard sabia que uma das grafias era o grego. Embora não identificasse bem quais eram as outras - o hieróglifo e o demótico -, ele suspeitou da importância do artefato e o enviou para o Cairo, onde cientistas franceses estavam reunidos. Os sábios confirmaram o palpite: pela primeira vez, um texto em grego aparecia junto com hieróglifos. Assim, a pedra poderia ser a chave para entender a escrita sagrada dos faraós.

    Esses sinais tinham marcado a paisagem urbana do Egito por mais de 3 mil anos, até desaparecerem no século 4. Diversos pesquisadores já haviam tentado decifrá-los, sem sucesso. Inúmeras perguntas sobre a civilização egípcia permaneciam sem resposta. Quais eram os faraós que ergueram aqueles templos gigantescos? Para que construíam suas tumbas? Por que preservavam os mortos?

    A seguir você verá como um pedaço de basalto encontrado por acaso nas areias do deserto ajudou a elucidar esses mistérios.

    Em 1798, o general francês Napoleão Bonaparte era a sensação de seu país. Derrotara o exército austríaco na Itália e tinha tudo para segurar as rédeas da Revolução Francesa. Aos 28 anos, sua fama era comparável à de um pop star moderno.

    O povo aplaudiu quando ele anunciou uma milionária expedição ao Egito para bloquear as rotas inglesas de comércio com o Oriente e conquistar uma preciosa colônia para a França. A missão tinha valor estratégico duvidoso, mas foi patrocionada pelo Diretório, o governo imposto pela alta burguesia. Afinal, era uma forma de manter o general longe da política parisiense enquanto eram definidos os rumos da revolução.

    "A expedição foi motivada pela competição colonial europeia, mas também por uma fantasia pessoal de Napoleão. Ele sonhava em ser o novo Alexandre, o Grande", diz Nina Burleigh, autora de Miragem - Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito. Para imitar os passos do conquistador macedônio, o general destacou quase 50 mil soldados e marinheiros.

    Na cola dos militares, marchava uma unidade especial formada por cerca de 150 sábios, os savants. Eram cientistas, matemáticos, botânicos, astrônomos, químicos, engenheiros, poetas e até um musicólogo. Napoleão imitava outra faceta do ídolo: Alexandre viajara com uma trupe de filósofos ao conquistar a Pérsia, no século 4 a.C. Para o general, a campanha tinha caráter civilizatório. Levaria as luzes de Paris aos "bárbaros" mamelucos que dominavam o Egito. Antigos guerreiros da Ásia Central convertidos ao Islã, os mamelucos tinham sido escravos dos árabes por séculos e acabaram fundando seu próprio império.

    Para os savants, era uma viagem de sonho. Poucos ocidentais haviam se aventurado no Oriente Médio desde que o sultão Saladino derrotara os cruzados, no século 12. Na visão da Europa, o Egito era um mundo desconhecido, de gente extravagante e clima inóspito. "Pouco se sabia sobre a civilização das pirâmides. Aquela era a chance de se debruçar sobre os monumentos do Egito", afirma Nina.


    A descoberta

    As tropas francesas aportaram em Alexandria e em três semanas acabaram com 700 anos de domínio mameluco na região. Na Batalha das Pirâmides, em julho de 1798, a estratégia e as armas dos franceses foram decisivas para superar o maior número de soldados das forças locais. Mas a Inglaterra não se acomodou. Apenas três semanas depois, o almirante Horatio Nelson afundou quase toda a frota francesa na Batalha do Nilo. Sem o apoio marítimo, o exército de Napoleão perdeu a iniciativa. Foi alvo da crescente revolta da população nativa e, para piorar, um surto de peste bubônica arrasou suas fileiras.

    Apesar das dificuldades, o general criou no Cairo o Instituto do Egito, onde os sábios colecionavam as relíquias e divulgavam suas pesquisas. O instituto ocupava o palácio de Hassan Al Kachef, um burocrata mameluco. O quarto de imersão do seu harém virou a sede das assembleias onde se discutiam das espécies de insetos do deserto à produção de cerveja com uma planta nativa.

    E veio a surpresa. Numa dessas reuniões, o conselho de savants soube da Pedra de Rosetta. "Quando a viram, os sábios logo perceberam sua importância", diz Nina. Cópias das inscrições foram enviadas de imediato a Paris e intelectuais começaram a trabalhar na decifração.

    Não satisfeito em bancar o Indiana Jones, Napoleão marchou com suas forças para a Síria e a Palestina, dominadas pelo Império Turco-Otomano. A manobra, porém, custou caro: os turcos repeliram a ofensiva e o general voltou ao Egito com um exército em frangalhos. Prevendo o fracasso da expedição, e preocupado com a instabilidade política na França, ele retornou a Paris em agosto de 1799 com um grupo de savants. Quem ficou no Egito vivia na corda bamba, já que a ocupação francesa lutava em três frentes: a revolta árabe, os ataques ingleses e o crescente avanço dos turcos sobre o Cairo, com o apoio da Inglaterra. Enfraquecido pela peste, o exército francês capitulou em 1801, encerrando três anos de expedição.

    Com a vitória na guerra, os ingleses se apoderaram de várias relíquias que os savants haviam pilhado. Entre elas a Pedra de Rosetta, que foi parar no Museu Britânico.


    Duelo de titãs

    Era o início de outro combate entre a França e a Inglaterra, agora para decifrar as inscrições enigmáticas no artefato. O duelo reuniu duas mentes brilhantes, obcecadas por entender os hieróglifos: o cientista inglês Thomas Young e o jovem linguista francês Jean-François Champollion.Era uma briga desigual. Young era um catedrático nobre e famoso, que tinha o apoio da coroa e trabalhava diretamente sobre a pedra. Já Champollion era um garoto-prodígio humilde, cujos estudos eram bancados a duras penas pelo irmão mais velho, e que precisou descolar cópias dos textos da relíquia sem ter certeza se eram bem feitas. A partir do grego, os dois gênios souberam que a Rosetta continha um decreto emitido por um conselho de sacerdotes egípcios em 196 a.C. (veja na pág. 34). "Assumindo que os textos das outras duas escritas eram idênticos, então a pedra poderia ser usada para decifrar os hieróglifos", diz o cientista Simon Singh em artigo para a BBC.

    Só que havia um problema. "O grego revelava o que os hieróglifos significavam, mas ninguém havia falado a antiga língua egípcia por vários séculos. Assim, era impossível determinar o som das palavras egípcias", afirma Singh. "A menos que os pesquisadores soubessem pronunciá-las, eles não poderiam deduzir a fonética dos hieróglifos." E tampouco entender a escrita de forma a traduzir qualquer inscrição. O demótico presente na pedra, uma forma cursiva e simplificada de escrita egípcia, já conhecida no Ocidente, dava elementos para a comparação, mas não a engrenagem que faltava.

    Pesquisadores já haviam tentado quebrar o código, mas derraparam numa hipótese falsa: a de que os hieróglifos eram desenhos impronunciáveis. Achavam que se tratava de uma grafia simbólica, não fonética, e que, portanto não podia ser lida como este texto.

    Young sabia dos avanços de Champollion, e vice-versa. Nessa corrida, eles usaram outros documentos além do bloco de basalto, como as inscrições do templo de Abu Simbel e do zodíaco do Templo de Dendera. Os dois gênios, porém, seguiram técnicas distintas. Young usou um método matemático: se havia 30 estruturas iguais no texto grego, ele checava se essas 30 estruturas se repetiam nos hieróglifos - e assim foi formando um alfabeto rudimentar, por aproximação. Até publicou seus primeiros achados, mas não foi muito longe. "Parece que ele não conseguiu superar a ideia reinante de que os hieróglifos eram só desenho. Não estava preparado para quebrar esse paradigma", diz Singh.

    Já Champollion conhecia diversas línguas, e isso fez toda a diferença. Ele percebeu que havia uma escrita por trás daqueles desenhos. Começou associando nomes gregos como "Ptolomeu" aos hieróglifos correspondentes. E, com a ajuda do irmão, foi a Paris para estudar e tentar provar sua teoria. Logo viu que seria difícil. Até seu professor defendia a tese dos desenhos mudos. Champollion recusava a ideia, mas como seria possível descobrir o som daqueles símbolos estranhos?

    A solução do jovem foi aplicar o copta, o idioma dos primeiros cristãos do Egito que ainda era falado em algumas igrejas de Paris. Ele percebeu que a sonoridade do copta se relacionava com a da antiga língua. Se pudesse coincidir os sons do copta com os dos hieróglifos, poderia "fazer falar" os faraós. Assim matou a charada. "Enquanto o idioma grego ajudou a entender o hieróglifo, o copta ajudou a sonorizá-lo", diz o historiador Júlio Gralha, especialista em Egito antigo, professor da UERJ. Ao ver um círculo com um ponto no meio, por exemplo, Champollion conseguia associá-lo ao deus egípcio Sol. Mas não sabia o nome que ele tinha, pois faltava sonorizá-lo. Foi aí que o copta entrou na jogada: ao unir seus sons com as imagens dos hieróglifos, Champollion conseguiu ler "Ramsés" e outras palavras (veja na pág. 33). "Os pesquisadores da época sabiam que havia um faraó chamado Ramsés, mas não sabiam como escrever seu nome. E Champollion triunfou. Young não teve essa perspicácia", afirma o egiptólogo.

    As investigações do francês incomodaram a Igreja. Temia-se que a compreensão dos hieróglifos ameaçasse a noção do Dilúvio Universal, que teria ocorrido em cerca de 2300 a.C. Se a escrita demonstrasse que os egípcios existiam antes do episódio e não foram afetados por ele, os bispos teriam um abacaxi para descascar.

    Mas Champollion deu de ombros. Desde criança queria calcular a idade do mundo, e achava que os hieróglifos lhe dariam a resposta. Mais de duas décadas após a descoberta da Pedra de Rosetta, no outono de 1822, ele finalmente conseguiu decifrar a língua sagrada. Em 1828, realizou outro sonho: foi ao Egito. Só não teve tempo de somar a idade do mundo. Morreu em 1832, aos 41 anos, em Paris, vítima de um acidente vascular cerebral.

    A fantasia de Napoleão despertou o Egito de um sono milenar. Sem a pedra, os hieróglifos provavelmente só seriam decifrados muito mais tarde. Se fossem. E, sem eles, seria quase impossível compreender a civilização do Vale do Nilo. "A partir da leitura dos hieróglifos começamos a entender por que os egípcios faziam tumbas e sua crença na vida eterna, por exemplo", diz Júlio Gralha. "Identificamos os faraós que haviam erguido diferentes templos, entre muitas outras descobertas." Sem o domínio da escrita sagrada, não saberíamos da existência de faraós hereges, como Akenaton, que destronou as divindades da nação e elegeu Aton como o deus supremo no século 14 a.C. A atitude custou-lhe a vida e as marcas de seu reinado. Mas há registros da restauração dos templos que ele havia destruído, assim como foram reveladas mentiras contadas pelos faraós, como uma vitória inexistente de Ramsés II.

    A pedra serviu ainda para entender a dinastia ptolomaica, que governava o país quando ela foi gravada (leia à esq.). Estimulou a egiptologia e - para desgosto da Igreja - os cultos maçônicos na Europa, já que a civilização era admirada e sua simbologia, amplamente usada pela irmandade.

    Hoje, a Pedra de Rosetta é uma das atrações mais visitadas do Museu Britânico. Está lá desde 1802 e só saiu de Londres por algumas semanas para ser exposta no Museu do Louvre, em 1972, no aniversário de 150 anos da decifração dos hieróglifos. Há anos o Egito tenta negociar a devolução.

    E Champollion, quem diria, nunca pôde ver esse pedaço de rocha que tanto admirava. Uma das muitas ironias da história.


    A saga dos hieróglifos

    Como se perdeu a escrita do Egito antigo


    Para alguns pesquisadores, os hieróglifos foram a primeira forma de escrita da humanidade. Outros (a maioria, é fato) dizem que a arte de registrar palavras foi inventada antes pelos sumérios, por volta de 3800 a.C., ou até mesmo pela Civilização do Vale do Indo, na Índia antiga. Certo é que os hieróglifos foram os únicos sinais que conservaram sua forma durante os mais de 3 mil anos de civilização egípcia. Eles eram usados por escribas e sacerdotes em documentos políticos, biografias e monumentos. Mas sua principal força eram as práticas mágicas e religiosas. Tanto que hieróglifo, em grego, significa "escrita sagrada".

    "A escrita hieroglífica é heterogênea: alguns sinais funcionavam como pictogramas (desenhos figurativos); outros eram símbolos fonéticos. Às vezes um falcão representava um som, outras era simplesmente um falcão", diz Susan Wise Bauer, professora de literatura da Universidade de Virgínia, EUA. "Depois os egípcios inventaram os determinantes, ou seja, sinais que indicavam se o pictograma era um símbolo fonético ou só um desenho." Com o tempo, outras escritas mais simples foram surgindo para uso cotidiano: o hierático (usado nos negócios e na administração, em geral sobre papiro) e o demótico (que reproduzia a linguagem popular). "E de repente, no fim do século 4 a.C., a antiga escrita egípcia desapareceu. Não levou mais que uma geração", afirma o pesquisador inglês Simon Singh. "Os últimos exemplos foram encontrados na ilha de Philae, no rio Nilo: uma inscrição hieroglífica gravada num templo em 394 a.C. e um pedaço de grafite demótico datado de 450 a.C." Segundo ele, os hieróglifos foram extintos por causa da ascensão do cristianismo. "Seu uso foi proibido para erradicar qualquer ligação com o passado pagão do Egito", diz. "Assim, os escritos antigos foram substituídos pelo copta, um idioma formado de letras do alfabeto grego e do demótico. A língua egípcia continuou a ser falada e evoluiu para a linguagem copta."

    No século 11, porém, houve nova reviravolta. A língua e a escrita coptas caíram para escanteio com a expansão árabe no Oriente Médio. Assim, o conhecimento necessário para entender a história dos faraós foi perdido definitivamente... até que Champollion desvendasse a Pedra de Rosetta.


    Fonte: Júlio Gralha e Simon Singh


    Quebrando os códigos

    No século 19, os intelectuais pensavam que os hieróglifos eram uma representação muda de ideias. O francês Jean-François Champollion conseguiu provar que eles eram uma língua falada

    1. Através do grego gravado na Pedra de Rosetta, ele reconheceu o que estava escrito nos hieróglifos. Assim, associou palavras como "Ptolomeus" aos signos correspondentes. Sabia, então, qual deles representava a letra S. Mas não imaginava como pronunciá-los.

    2. Champollion se concentrou no cartucho ao lado (encontrado em Abu Simbel) e identificou dois S. Aí recorreu ao copta, idioma antigo cuja sonoridade é próxima à do hieróglifo, e obteve alguns sons dos signos, já que o hieróglifo não tem todas as vogais, tal como outras línguas semíticas.

    3. Em seguida, ele deduziu, a partir do formato do signo, que o primeiro hieróglifo era o Sol, e então presumiu que seu som correspondia ao da palavra copta para Sol: "Ra". Assim, obteve a sequência (Ra-?-s-s).

    4. Logo concluiu que se tratava do cartucho correspondente ao faraó Ramsés, que em copta significa "filho do Sol" (Ra = sol + Mes = nascido de). E assim ele quebrou o código da escrita egípcia.


    A última dinastia

    Os ptolomeus e a decadência da civilização egípcia

    A importância da Pedra de Rosetta vai além da decifração dos hieróglifos. Ela registra um momento fundamental da história egípcia: a dinastia ptolomaica. Sabe a Cleópatra dos filmes e da literatura? Ela foi a sétima do reinado ptolomaico (305 a 30 a.C.). "Existiram sete Cleópatras e 15 Ptolomeus", diz o historiador Júlio Gralha. "O texto da Rosetta é a transcrição de um decreto editado pelo conselho de sacerdotes, reunido em 196 a.C. em Mênfis, capital do norte do Egito. O decreto foi feito durante o reinado de Ptolomeu V Epiphanes (210-180 a.C.)."

    Naquela época, a glória dos primeiros faraós era coisa do passado. O país fora conquistado em 332 a.C. pelo macedônio Alexandre, o Grande, que se autoproclamou soberano. Com a morte dele, a administração do Egito coube a um de seus generais, Ptolomeu, que instituiu uma nova linha de sucessão. "Como a dinastia dos ptolomeus era de cultura grega (helenizada), ela precisaria adotar fortemente a cultura faraônica se quisesse reinar", afirma o historiador. É que as práticas mágico-religiosas egípcias continuavam muito fortes entre o povo. E, se os ptolomeus não se identificassem com esses rituais nem assumissem a monarquia faraônica - estranha aos gregos -, não conseguiria se manter no poder. Os primeiros ptolomeus não adotaram completamente a cultura local, o que explica a resistência que sofreram. Para a população, eles ainda eram estrangeiros. Segundo Gralha, foi somente no governo de Ptolomeu V que a dinastia adotou plenamente a religião egípcia.

    A prova disso é a Pedra de Rosetta. O decreto que ela contém marca o momento em que os sacerdotes exaltam as virtudes de Ptolomeu V e se dirigem a ele com títulos antigos - tal como os faraós. Com esse carimbo de aprovação, o monarca enfim ganhou legitimidade para governar. O documento feito de basalto cita algumas de suas benfeitorias, como doar trigo para os templos, perdoar dívidas e reduzir impostos para candidatos ao sacerdócio. A Pedra de Rosetta foi gravada em três idiomas para que sacerdotes, funcionários do governo e a aristocracia pudessem entender o que dizia. O hieróglifo era a língua religiosa, o demótico reproduzia a linguagem popular e o grego era o idioma dos ptolomeus. Mas o artefato não foi o único do gênero. Pesquisadores acreditam que outras pedras idênticas foram espalhadas pelo Egito, como uma campanha de marketing. Uma delas foi achada no fim do século 19.

    Mas por que espalhar aqueles blocos se a maioria da população não sabia ler? O efeito era semelhante ao das estátuas: o líder se fazia presente sem estar lá. Ao que tudo indica, as pedras também foram um recado aos rebeldes que dominaram o sul da nação por 20 anos. "A revolta foi derrotada e, a partir daí, a dinastia percebeu que era hora de adotar as práticas faraônicas", diz Gralha. "O país foi então pacificado." A dinastia só durou 300 anos, em boa parte por causa das disputas após a morte de Ptolomeu V, em 180 a.C. Vários Ptolomeus e Cleópatras se engalfinharam na corrida pelo trono. Um deles foi Ptolomeu VIII, que matou o filho e entregou à mulher, Cleópatra II.

    "Ptolomeu XV e Cleópatra VII (esposa de Julio César e Marco Antônio) foram o último casal governante do Egito. Com a morte dela, o país deixou de existir como potência internacional, mas seu legado perdurou durante séculos", afirma o egiptólogo.


    Saiba mais

    LIVROS

    Miragem - Os Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito, Nina Burleigh, Landscape, 2008

    Um relato sobre a expedição francesa na terra dos faraós.


    Historia del Mundo Antíguo, Susan Wise Bauer, Paidós, 2007

    Excelente análise sobre a evolução da escrita.


    DVD

    Egito - Redescobrindo um Mundo Perdido, BBC, 2005

    Um dos episódios do volume 2 narra a descoberta da pedra.

    Revista Aventuras na História

    domingo, 21 de novembro de 2010

    Magia e Medicina nos papiros gregos do Egito

    Formando uma categoria específica dentro dos textos mágicos, papiros iatromagiques (ou médico-mágico) transportam-nos para o cruzamento entre magia e medicina, lembrando-nos que a fronteira entre essas duas disciplinas é às vezes mais turva do que anteriormente entendido .
    Estes documentos escritos em grego do Egito e é datado de 1º século aC ao 7º século AD. Eles ocorrem principalmente na forma de formulários (catálogos de fórmulas) e amuletos para ser usado pelo paciente. O objetivo principal de uma fórmula a ser iatromagique quer tratar, ou proteger o paciente de uma doença, para combater os males são especificamente mencionados. A maioria são documentados febres, especialmente as febres da malária. Notamos também a presença de epilepsia, dor de cabeça, oftalmia, respiratórios diferentes, dermatológicas e ginecológicas.

    A prática da magia começou no Egito na época faraônica1, mas estas são as testemunhas da greco-romana e bizantina interesse aqui. Se o trabalho pode identificar as principais características do " mágico "como o que vivem os egípcios, gregos e romanos incluídos no Egito, não há nada ainda que a definição seria unanimidade na comunidade científica. Os egípcios não se sentia a necessidade de definir o conceito. Para eles, o ato mágico era legal, desde que não faz mal, porque na sua cultura, não houve verdadeira dicotomia entre o natural eo sobrenatural. Então aqui é suficiente para descrever como " o homem tentou influenciar a ordem natural das coisas, ou a sanar seus distúrbios naturais, envolvendo uma componente sobrenatural . Evite contrastar a prática da magia à religião, por um lado, ea ciência, por outro lado, porque, naquela época, a fronteira entre essas áreas é muitas vezes extremamente fina, especialmente quando você deixar o campo magia agressiva.

    fig1

    O ato mágico inclui dois componentes principais. A primeira é a palavra ou logos em grego. É a fórmula mágica que lhe serão impostas e, possivelmente, por escrito. O segundo é um ritual, ou práxis, se apresentou ao lado do elenco. Paradoxalmente, é o primeiro que temos mais vestígios. De fato, as fórmulas foram transcritas em papiro ou em compilações de comprimento (formas) ou em peças isoladas, que foram destinados a ser usados como amuletos. O elenco inclui a identificação básica do alvo (para combater os males), a invocação de um assistente sobrenatural (um deus grego, egípcio ou um personagem da tradição bíblica), desenhos e símbolos mágicos (charaktères2, ver Fig. 1.) acompanhado voces magicae3, a identificação do destinatário (amuletos) e uma indicação de um ritual (em formulários).

    Fig. 1 - Snake charaktères Ourobore e extrair o Greater London Magical Papyrus, p. Lond. 1121 (MP ³ 6006, 4º-5º século dC. JC)

    Em tempos de juros, as formas que registro por escrito ou praticando magia, são provenientes de grupos culturalmente diferenciados - especialmente egípcia, grega, romana e hebraica - e todas as sensibilidades religiosas foram capazes de conhecer e influenciar cada uns aos outros no território egípcio. Assim, não é incomum, mesmo em uma compilação de encantos ou a mesma fórmula, uma referência às divindades de diferentes origens, como é o caso do grande mágico do papiro de Londres (P. Lond . 1121, 4º-5º século dC. JC) onde o deus grego Zeus ao lado dos nomes divinos hebraico Iao, Saboth e Adona4.

    fig2

    Para tratar ou eliminar os males, iatromagiques papiros propor três métodos complementares:

    1. usando um amuleto muitas vezes decoradas e personalizadas em geral, o destinatário ea condição de ser claramente identificados,
    2. realização de receitas com ingredientes de, vegetal, animal ou mineral
    3. prática de um ritual que acompanha uma fórmulapronunciada em voz alta.

    Fig. 2 - réplica do amuleto P. Colon. inv. 2861 (MP ³ 6052, 4º-5º século dC. JC), conduzido pelo Sr. Sanchez de Haro em papiro moderno, como deve ser suportado pelo paciente, juntamente com uma pena de junco


    1 Veja Plantas Medicinais no Egito faraônico: Do Mito à Medicina)
    2 Estes são símbolos que se repetem nos papiros mágicos, cuja interpretação ainda é problemático.
    3 Esta expressão, nós tomamos as ladainhas e caligramas compostos vogais αεηιουω e "nomes bárbaros", constituído por consoantes e vogais que formam palavras incompreensíveis que poderia levar a sua origem em outras línguas como o grego, o egípcio e hebraico.
    4 O catálogo papiros iatromagiques, acompanhada de uma bibliografia, está disponível online no site da CEDOPAL www.cedopal.ulg.ac.be Este papiro, portanto, não é ³ MP 6006, veja as linhas 202-221.

    iatromagiques Amuletos consistem em uma única fórmula copiado um pequeno pedaço de papiro (ver fig. 2-5) ou uma fita de ouro ou prata 5. Eles foram dobrados, amarrado com uma seqüência (Fig. 2) ou enrolado (Fig. 4) e inserido em um caso pequeno para ser usado ao pescoço ou parte do corpo doente. Não só as formas conservaram muitas disposições de amuletos, mas 61 iatromagiques amuletos gregos foram descobertos durante escavações arqueológicas. Os do fundo judaico-cristã estão particularmente bem representados (50 de 61). Por exemplo, aqui está o texto de um amuleto cristão mantido na Universidade de Copenhague (5º século dC. J.-Ch .). Destina-se a curar uma febre alguns Kale (" Belle ", em grego) (ver Fig. 4-5.)

    " Cristo nasceu, amém. Cristo foi crucificado, amém. Cristo foi sepultado, amém. Cristo ressuscitou, amém. Ele acordou para julgar os vivos e os mortos. Fly, você também, febre arrepios, Kale, o portador deste amuleto. Estela e poderoso santo charaktères, a emoção da caça febre Kale, o portador do amuleto, já, já, já, pressa, pressa, pressa. "(P. Haun .3.51)

    fig3
    Figura - 3. Desdobrou réplica do amuleto P. Colon. inv. 2861 para o tratamento de THAES de uma doença não identificada, conduzido pelo Sr. Sanchez de Haro em papiro moderno. Para comparar com a série original http://www.uni-koeln.de/phil-fak/ifa/NRWakademie/papyrologie/Magie/bilder/2861r.jpg
    fig4
    fig5
    Figura - 4. Réplica do amuleto P. Haun. 3.51 (MP ³ 6036, 5º século dC. JC), conduzido pelo Sr. Sanchez Haro moderna de papiro, enrolado como para ser inserido em uma caixa e acompanhado por uma palheta
    Fig. - 5. Desdobrou réplica do amuleto P. Haun. 3,51, feita pelo Sr. Sanchez de Haro em papiro moderno, juntamente com uma pena de junco


    Os formulários também possuem receitas de poções, para pulverizar, pomadas e banhos, como colírio feito de açafrão, aloés eo astrágalo, copiada de um papiro de Antinoe datado de 5º século AD, que encontra paralelos em dois médicos gregos da 6ª séculoapós J.-Ch., Amida Aécio e Tralles Alexander5 :

    " pó para fazer a visão própria : 4 drachms de açafrão, 2 drachms de aloés, 8 dracmas do astrágalo, esmaga e usa. "(P. Ant 4-6. 2,66, r I)

    Um formulário pode ser iatromagique, como acima, e contêm apenas exigências de receitas e amuletos para fins terapêuticos ou ser misturados e conter outros tipos de amuletos para dar sorte, a vitória, paixão ou amor, por exemplo. Isto é onde a mágica grande papiro Oslo, datado de 4º século AD. J-Ch contracepção., Que contém, entre os muitos encantos da atração da vitória, e soletrar-presidiários, uma forma de :

    " anticoncepcional, a única no mundo : Toma-se como bastardos muitas lentes que você deseja para o número de anos que deseja permanecer estéril e mergulhá-los em regras de uma mulher menstruada. Ela embebido em seu próprio sexo. Você também deve ter um sapo vivo e jogue os bastardos lentes em sua boca, pois ela engole-os, então libera o sapo vivo para o lugar onde você tirou. Leve também uma semente de meimendro, temperando-lo a partir do leite de égua, em seguida, tomar o lodo de uma carne com cevada e jogá-lo na pele de um jovem corça, e fora, que se liga ao mula pele, em seguida, usar este amuleto em durante a fase decrescente da lua em um signo feminino do zodíaco, o dia de Cronos ou Hermes. Mas também a mistura de cevada da mula de cera. "(P. Oslo 1, 321-332)

    Pode-se duvidar da eficácia das fórmulas iatromagiques ... Na verdade, nos tempos antigos, a escolha de um ingrediente não se justifica apenas pela sua eficácia ou percebida como uma substância, mas também pelo seu valor simbólico. Na velha mentalidade, certas " leis "que regem a relação entre o mineral, vegetal e animal. Eles estavam particularmente usada em magia, mas também, em certa medida na medicina. Muito bem representado na iatromagiques fórmulas, " a lei da simpatia "(sumpatheia) queria que todos os seres e fenômenos estão ligados para formar um todo. Mais realista, a fórmula pode, em vez apelar a muitos casais hoje. Pode ser encontrada em um fragmento de rolo de papiro, em Berlim, datado de 1ª av. - 1ª AD. J.-Ch. seguintes duas colunas contendo feitiços de amor. Aqui está uma " simpática resposta "a todos" Hoje não, querido (e), eu tenho uma dor de cabeça ... " ! :

    " Para a dor de cabeça: Osiris tem dor de cabeça, dor de templos de Amon da cabeça, um Hesenephtys ferida na cabeça. Osiris terá constantemente uma dor de cabeça, Amon não deixará de sentir dor nas têmporas da cabeça, Hesenephtys constantemente têm uma circunferência da cabeça ferida, a partir das doe Primeira continuamente [...] (BKT 9147, 26-30).

    Magali Sanchez de Haro
    Fevereiro 2010

    crayon

    Magali Sanchez de Haro é um pesquisador da Universidade de Liège. Ela está interessada em história da medicina antiga e especialmente a grega iatromagiques papiros.


    4 como um exemplo veja http://www.uni-koeln.de/phil-fak/ifa/NRWakademie/papyrologie/PKoeln/T33.jpg
    5 Instaladora., VII, 100, 103-105, Alex.Tral., terapêuticos do tumor, ΙΙ 17.
    http://culture.ulg.ac.be