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quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Retratos da modernidade no cotidiano carioca pelo olhar de Lima Barreto


O hotel Avenida, ao fundo, à direita, destaque na recém-inaugurada Avenida Central: o Rio do prefeito Pereira Passos se espelhava em Paris (Crédito: Divulgação)

 

Angelita Silva Neto*  

 

 

Quanto a modernidade do Rio de Janeiro, Lima Barreto sempre se colocou como voz solitária em posição radicalmente contra a forma como se processava.[1]

 

 

Personagem que testemunhou o processo de modernização que a cidade do Rio de Janeiro passou no final do século XIX e início do século XX, Lima Barreto registou em suas crônicas vários elementos que evidenciam as rápidas transformações ocorridas principalmente no campo social. Uma vez que, através do cotidiano- matéria prima do cronista- retratou as conseqüências, dessa súbita modernização, sofridas pelas camadas populares.

As crônicas aqui estudadas fazem parte de duas obras de Lima Barreto: Vida Urbana(1961) e Marginália(2002). Nestas podemos perceber através do olhar do autor, quais eram suas preocupações e descontentamentos com a nova perspectiva de sociedade que se formava.   

Com a implantação do regime republicano no Brasil, a Capital Federal- Rio de Janeiro- começou a passar por uma série de transformações que envolviam o campo econômico, político e social.

Dessa forma, “a nova filosofia financeira nascida com a República reclamava  a remodelação dos hábitos sociais e dos cuidados pessoais”.[2] Rapidamente percebeu-se que as velhas estruturas do Rio de Janeiro já não eram adequadas a esse novo ritmo. Além disso, era necessário acabar com a imagem que se tinha de uma cidade insalubre e insegura.

A cidade do Rio de Janeiro começava a passar por um processo de metamorfose. Para acompanhar o “progresso” deveriam possuir uma cidade moderna. Segundo Sevcenko[3], para a realização desse projeto alguns princípios foram adotados pelos governantes: os hábitos e costumes da sociedade tradicional eram condenados; os elementos da cultura popular deveriam ser negados para não nebular a imagem civilizada criada por uma minoria burguesa; o centro da cidade deveria ser ocupado pelas camadas aburguesadas e para isso as camadas pobres deveriam ser expulsas.

A “regeneração”[4] da cidade foi completamente excludente, fazendo com que as camadas pobres sofressem arduamente as conseqüências de sua implantação:

Carência de moradias e alojamentos, falta de condições sanitárias, moléstias (alto índice de mortalidade), carestia, fome, baixos salários, desemprego, miséria: eis os frutos mais acres desse crescimento fabuloso e que cabia à parte maior e mais humilde da população.[5]   

 

Diante desse quadro social que permeava a cidade do Rio de Janeiro, Lima Barreto observava, escrevia, e opinava sobre os vários aspectos que percebia diante de tal situação. Para isto utilizava principalmente da crônica, produzindo-a com uma linguagem muito próxima  do que vivemos no dia-a-dia, e sua matéria-prima trata-se exatamente desse cotidiano que é selecionado pelo cronista. Assim, não era produzida com a intenção de durar, uma vez que, era criada para o jornal, um meio efêmero. Segundo Candido[6], os escritores não tinham a pretensão de “ficar”, tinham uma perspectiva de que seriam esquecidos rapidamente, uma vez que estavam falando do dia-a-dia, com isso quase sem pretender tornou a literatura muito próxima da vida cotidiana.

A produção de Lima Barreto é um meio de fazer as denúncias do campo social, utilizando-a como uma militância. Diante disso, trás uma modificação para o romance, o conto, a crônica, que até o momento caracterizava-se pela linguagem erudita, acadêmica. Sua obra é marcada pelo informal, pela linguagem mais popular, o que veio a ser posteriormente um dos propósitos dos modernistas.

As crônicas de Lima Barreto, possuem uma descrição abrangente da cidade do Rio de Janeiro, sendo que poucos documentos da época possuem essas minúcia, além de possuir um caráter polêmico, militante e provocador, o que permite ao leitor um maior aprofundamento sobre os tema por ele mencionados. Assim, a crônica barretiana torna-se um importantíssimo documento para o historiador, possuindo uma carga elevada de informações sobre a sociedade que estava vivendo.

Encontramos nas crônicas do autor uma imagem da cidade partindo do que está compreendendo e interpretando, no momento em que ocorre a reordenação da cidade, o foco é principalmente o controle da organização social da população.

Assim com a modernização na cidade do Rio de Janeiro, uma das mudanças aconteceram na estrutura física da cidade, ou seja, aconteceu uma reurbanização de forma bem excludente. Isto tornou-se muito evidente na produção barretiana, pois encontramos signos que mostram a modernização carioca adotando sempre a concepção da burguesia. Diante disso, encontramos em uma de suas crônicas Carta de um pai de família ao doutor chefe de polícia como a política adota para modernizar a cidade atendia apenas as necessidades e perspectivas da classe dominante. Nesta crônica, o autor remete ao fato de que com a modernização da cidade as prostitutas foram retiradas dos bairros onde moravam as famílias burguesas, e foram transferidas para bairros pobres nos quais também moravam famílias, porém isto foi ignorado pelos governantes:

... de uns dias a esta parte vieram para a minha vizinhança umas “moças” que não são bem parecidas com as minhas filhas nem com as primas delas. Eu conheço mal essas cousas da vida do Rio (...) e andei indagando de que pessoas se tratava e soube que eram “meninas”, moradoras nas novas ruas, que a polícia estava tocando de lá, por causa das famílias.

“Mas, doutor, eu não tenho família também? Por que é que só as famílias daquelas ruas não podem ter semelhante vizinhança e eu posso?”[7]

 

Percebemos assim, que este era um dos motivos que causavam indignação em Lima Barreto ao escrever. Isto era realmente, para ele, um absurdo, fazer um replanejamento completamente voltado para a classe dominante, aumentando a diferenciação de classes. E destacamos ainda que, através desses fatos que se passam no cotidiano torna-se possível notar tamanha perspectiva de modernização que acontecia.

Na crônica Hotel 7 de Setembro o autor destaca uma obra beneficente do governo para crianças carentes. Porém, não vê vantagem nenhuma nessa doação, uma vez que, foi gasto uma quantia muito grande na construção de um hotel luxuoso, enquanto poderia ser construído abrigo para crianças pobres. É dessa maneira, que encontramos a indignação de Lima Barreto diante de alguns aspectos da política de implantação da modernidade, na qual  a construção de um hotel luxuoso deixa bem exposta essa preocupação. Na citação abaixo podemos perceber a contestação do autor:

... é uma injúria e uma ofensa, feita a essas mesmas crianças, num edifício em que o governo da cidade gastou, segundo ele próprio confessa, oito mil contos de réis.

Pois é justo que a municipalidade do Rio de Janeiro gaste tão vultosa quantia para abrigar forasteiros ricos e deixe sem abrigo milhares de crianças pobres ao léu da vida?[8]

 

E perante essas considerações que faz sobre este fato, comenta ainda que o governo deveria ter se preocupado com as pessoas mais carentes em primeiro lugar, para depois construir obras luxuosas.

O seu primeiro dever era dar assistência aos necessitados, toda a espécie de assistência.

Agora, depois de gastar tão fabulosa quantia, dar um bródio para minorar o sofrimento da infância desvalida, só uma coisa resta à edilidade: passem bem![9]

 

Dessa maneira, o comportamento das pessoas também vai se modificando, vão se tornando cada vez mais semelhantes aos modelos europeus e americanos, como destaca Sevcenko “...hábito inovador de caminhar pelas ruas sozinho e às pressas era chamado de ‘andar à americana’... sobretudo a atitude de total desprendimento por tudo e por todos que estão ao redor”.[10] Através desses elementos, foi se constituindo uma caracterização para o homem moderno, que passa a ser seguida pela sociedade em geral.

Encontramos em crônicas do autor como a questão do modismo na maioria das vezes tornava-se indevida:

... quem se apresenta no trem com um guarda-pó [uma capa de pano que cobria a roupa da poeira], por mais caro que seja, mesmo que seja de sêda, como uma vestimenta chinesa ou japonesa, se não levar vaia, pelo menos é tomado como roceiro ou coisa parecida.

A moda que não se os use e exige até que se viaje com roupas caras e finas.

Entretanto, achei absurdo semelhante moda- deusa, aliás, que é fértil em absurdos. O pó das estradas de ferro continuam a existir, mesmo à noite- por que então suprimir o capote de brim que resguardava as nossas roupas dele? Por que tornar chique viajar com roupas impróprias que muito mal se defendem da poeira?[11]

  

Um fator que sempre chama muito a atenção do autor, como também a nossa, são as mudanças de comportamentos dos sujeitos históricos. Em várias passagens das crônicas de Lima Barreto nos deparamos com esta problemática.

Podemos perceber como algumas características do mundo moderno estava incomodando, e além disso e talvez o que mais provocasse o inconformismo no escritor é o fato do brasileiro estar copiando de outros países fatores que o autor julga ser negativo.

Nem tudo que se constrói em nome da modernidade é aplicado e aplaudido pela população como um todo. Como no caso de Lima Barreto que faz um apelo:

Imploremos aos senhores capitalistas para que abandonem essas imensas construções, que irão, multiplicadas, impedir de vermos os nosso purpurinos crespúsculos do verão e os nossos profundos céus negros do inverno. As modas dos “americanos” que lá fiquem com êles; fiquemos nos com as nossas que matam menos e não ofendem à beleza e à natureza.[12]

 

Encontramos assim, em uma outra crônica uma expressividade muito grande neste aspecto de mudança de comportamento, que o próprio nome já nos dá vários significados Ex-Homem. O autor comenta o fato de alguns homens estarem mudando  muito rapidamente de posicionamento. Assim, pelo contexto da crônica podemos entender  este acontecimento como uma caracterização do processo de modernização, uma vez que, alguns comportamentos e atitudes dos homens eram considerados honrosos e de caráter e que posteriormente começavam a não serem mais tão significativas. Diante disso, encontramos ainda estranhamento por estarem em fase de transformação, não era visto como algo “normal”, observe uma passagem dessa crônica que expõe muito bem este aspecto:

Acontece, pois, que certos desses homens dessa forma assim tratados, de uma hora para outra mudam de orientação, avacalham-se, como se diz vulgarmente, e passam de um extremo a outro, sem nenhuma explicação.[13]

 

Ontem e Hoje uma crônica na qual podemos encontrar com muita nitidez, que com a modernidade novos elementos vão surgindo e a partir deles e também por novos comportamentos que sujeitos sociais vão ocupando, acaba fortalecendo a diferenciação de classes que se torna cada vez maior. Isto pode ser  observado dentro dessa crônica, quando um deputado que era muito querido por toda a população, era considerado “nosso homem”, a partir do momento que ele compra um automóvel – elemento que representa a modernização- ele não é considerado mais “nosso homem” pela população, uma vez que, se sente muito superior a esta população.

Com o processo de modernização notamos, como já foi mencionado, a mudança de comportamento dos suburbanos, que apesar de não participarem diretamente de todos os empreendimentos da modernidade, sentiam e passavam por várias de suas conseqüências. Lima Barreto, faz uma crônica intitulada Bailes e Divertimentos suburbanos, na qual trás esses aspectos de mudanças e mesmo da exclusão que esse processo provoca. Menciona primeiramente como eram as festas do subúrbio, havia “...a matança de leitões, as entradas das caixas de doces, a ida dos assados para a padaria, etc”.[14]Além disso, comenta ainda sobre as músicas que eram tocadas nestas festas e destaca que “... nos dias presentes não se dançavam mais valsas, mazurcas, quadrilhas ou quadras”.[15]

No decorrer da crônica vai dispondo de vários aspectos que sofreram transformações, uma delas é o tamanho das residências. Primeiro elas eram grandes  e conseguiam acomodar várias pessoas, agora “...nas salas de visitas dos atuais mal cabem o piano (...), adquirida a prestações. Meia dúzia de pessoas, numa delas, estão ameaçadas de morrer asfixiadas com janelas abertas”.[16] Evidenciando que não era mais possível fazer os famosos bailes. Com isso, muda-se o local de realização da festa, passando então para os clubes:

 

Por isso entre a gente média os bailes estão quase desaparecendo dos seus hábitos; e, na gente pobre, eles ficaram reduzidos ao mínimo de um conserto de violão ou a um recibo de sócio de um clube dançante na vizinhança, onde as moças vigiadas pelas mães possam perutear em salão vasto.[17]

 

Porém, apesar de acontecerem mudanças, muitos elementos permanecem, notando  que o que ocorre trata-se realmente de um processo. Notamos isto, nesta última parte da citação acima, na qual as mães continuam vigiando as filhas nos bailes.

Logo em seguida o autor problematiza a concepção de que essas mudanças que aconteceram era para civilizar o subúrbio, assim como acontece no restante da sociedade carioca

Passando para os pés dos civilizados, elas [as danças] são deturpadas, acentuadas na direção de um apelo claro à atividade sexual, perdem o que significavam primitivamente e se tornam intencionalmente lascivas, provocantes e imorais.

Isto, porém, não nos interessa, porque não interessa tanto ao subúrbio como ao set carioca, que dançam one-step e o tango argentino, e nessas bárbaras danças se nivelam. O subúrbio civiliza-se, diria o saudoso Figueiredo Pimentel, que era também suburbano, mas de que forma, santo Deus?[18]

 

Nesta passagem encontramos a diferenciação de classes, ao mesmo tempo que demonstramos completo desprezo por parte dos marginalizados  pelos hábitos que a classe dominante possuía.  Assim, não consegue perceber os aspectos que se dizem civilizatórios do subúrbio, que era o lugar onde morava e passou quase toda a sua vida.

Ao final da crônica é como se fizesse um próprio desabafo, além de encontramos a perspectiva de que os suburbanos vão procurando meios para mascararem a dura realidade que estavam vivendo:

Ele não mais se diverte inocentemente; o subúrbio se atordoa e se embriaga não só com álcool, com a lascívia das danças novas que o esnobismo foi buscar no arsenal da hipocrisia norte-americana. Para as dificuldades materiais de sua precária existência, criou esse seu paraíso artificial, em cujas delícias transitórias mergulha, inebria-se minutos, para esperar, durante horas, dias e meses, um aumentozinho de vencimentos...[19]

 

Encontramos ainda uma passagem que trás uma crítica muito contundente com relação a vontade de reproduzir um modelo de cidade que não se adequa ao Rio de Janeiro:

A grande cidade do Prata tem um milhão de habitantes; a capital argentina tem longas ruas retas; a capital argentina não tem pretos; portanto meus senhores, o Rio de Janeiro, cortado de montanhas, deve ter largas ruas retas; o Rio de Janeiro, capital de um país que recebeu durante quase três séculos milhões de pretos, não deve ter pretos.[20]

 

Dessa maneira, encontramos claramente a revolta do autor com a questão, da implantação de modelos exteriores indevidamente e consequentemente a exclusão dos negros do espaço urbano, fato que não seria possível diante da realidade brasileira.

Acabamos encontrando em vários momentos esses aspectos excludentes da modernidade. Em País Rico existe a constatação de muitos elementos modernos que a sociedade carioca desfrutava, mas devemos destacar que nem todos os membros dessa sociedade poderiam conviver com esses elementos. Notamos assim, que Lima Barreto se contraria principalmente com este aspecto, pois mesmo não podendo partilhar de todos elementos ditos modernos, acabam sofrendo várias conseqüências dos mesmos.

Destacamos que Lima Barreto faz uma reflexão sobre este aspecto em sua obra, mostrando a pobreza das pessoas no Rio de Janeiro que viviam amontoadas em pequenos locais.

 Tendo em vista, esta proposta da política de excluir as pessoas de acordo com a ordem burguesa, acaba provocando situações diversas, como a atração de várias classes sociais de outros Estados para o Rio de Janeiro. Percebemos, ainda a mudança da população rural para a cidade. Tendo a perspectiva de que ... O campo é a estagnação; a cidade é a evolução.[21]

Lima Barreto em E o tal Balázio? comenta sobre a criação de um marco para comemorar o aniversário da fundação da cidade do Rio de Janeiro, criticando o fato de criarem um monumento moderno como símbolo e não algo que realmente representa o que aconteceu. Ressalta ainda, que não são apenas as grandes realizações que trazem aspectos representativos. Este fato é assim narrado pelo autor:

Deixou de ter a singeleza que era de esperar tivesse, para ser uma coisa cerebrina de uma agulha de granito ponteada com uma bala de canhão moderno, simbolizando assim as lutas que se travaram na fundação da cidade.

Se essa simbolização fôsse necessária, creio eu que melhor seriam arcos, flechas, tacapes, mosquetes, arcabuzes, balas esféricas dos velhos canhões de retrocarga, que êsse balázio cilindrocônico que é quase de anteontem.[22]

 

            Se voltarmos um pouco na questão da desigualdade social, e mais especificamente na população pobre que foi obrigada a morar nos morros, devido aos projetos de reurbanização como já foi mencionado, encontramos a chamada “política sanitária”. Esta era uma forma, segundo os governantes do momento, de seguir o processo de modernização, uma vez que esta classe social correspondia às “fezes sociais” não devendo assim compor o quadro social da cidade que era considerada como modelo.

Existe assim, uma ligação direta entre modernidade e a elite, ou seja, mudanças que visam os interesses da burguesia. E uma das principais preocupações era de manter o poder que possuíam dentro do Estado. Diante dessa perspectiva, Lima Barreto confecciona suas críticas:

 

É muito justo que vocês queiram ganhar dinheiro; é muito justa essa torpe ânsia burguesa de ajuntar níqueis; mas o que não é justo, é que nós, todo o povo do Brasil, de prestígio a você, ministro e secretário de Estado, para nos matar de fome.[23]

Portanto, muitos elementos da modernidade foram modificando todo o cenário de uma sociedade, aqui em específico a sociedade carioca no final do século XIX e começo do século XX, notamos como o impacto da turbulência das transformações foi significativo para as pessoas que por ela passaram.

 Chamamos a atenção para o fato de Lima Barreto ser um sujeito completamente envolvido em meio a este processo. Assim, freqüentemente tece  críticas revoltosas com relação a maneira que a modernidade ia acontecendo, deixando muito evidente todas as desigualdades que existem dentro da sociedade. Encontramos sutilmente em algumas crônicas, em outras de maneira bem mais expressante, como existem contrastes entre os elementos modernos ditos tecnologicamente avançados e pertencentes ao mundo europeizado com a realidade dos suburbanos cariocas.

O mundo moderno sendo encarado como um mundo cheio de turbulência, complicado:

Nesse  atropelo que vivemos, neste fantástico turbilhão de preocupações subalternas poucos têm visto de que modo nós nos vamos afastando da medida, do relativo, do equilíbrio, para nos atirarmos ao monstruoso, ao brutal.[24]

 

Podemos encontrar ainda um sentimento de estranhamento e de mesmo de revolta, quando menciona a reforma feita na cidade do Rio de Janeiro, para que ele se modernizasse. Esta reforma implicaria na mudança da aparência física da cidade principalmente, para isto muitos moradores foram retirados do centro da cidade para que largas avenidas fossem implantadas. Algumas obras que foram realizadas para demonstrar um grau de modernização muito elevado, nunca foram utilizadas. A mudança no Rio de Janeiro, não aconteceu apenas nas estruturas, como também no comportamento das pessoas. Podemos observar na crônica A derrubada, um protesto de Lima Barreto contra a forma que se realizaram essas mudanças:

 

Mas, uma coisa que ninguém vê e nota é a contínua derrubada de árvores velhas, vestutas, fruteiras, plantadas há meio século, que a aridez, a ganância e a imbecilidade vão pondo abaixo com uma inconsciência lamentável.

Nós subúrbios, as velhas chácaras, cheias de anosas mangueiras piedosos tamarineiros, vão sendo ceifadas pelo machado impiedoso do construtor de avenidas.[25]

 

Nas crônicas de Lima Barreto esboça-se muito bem a forma banal que a modernidade foi sendo implantada no Rio de Janeiro. Um dos temas encontrados para começar as críticas foram às enchentes. Desde esta época as enchentes faziam estragos no Rio de Janeiro, com isso comenta sobre a “nova engenharia”:

 

De há muito que a nova engenharia municipal se deveria ter compenetrado do dever de evitar tais acidentes urbanos.

O Rio de Janeiro, da avenida, dos squares, dos freios elétricos, não pode estar a mercê de chuvaradas, mais ou menos violentas, para viver a sua vida integral.

Infelizmente, porém, nos preocupamos muito com aspectos externos, com as fachadas, e não com o que há de essencial nos problemas da nossa vida urbana, econômica, financeira e social.[26]

 

A crônica permite-nos, como já mencionamos anteriormente, problematizarmos o cotidiano. Com isso, a cada uma delas encontramos elementos que simbolizam os acontecimentos do dia a dia carioca. Assim, o historiador através da representação identifica na crônica um documento muito significativo. Ou seja, ao trabalharmos com a literatura, percebemos como esta comporta as representações do social. O autor a todo momento busca um referencial, onde está vivendo, para produzir suas reflexões. Notamos portanto, que “as representações do mundo social não são o reflexo do real nem a ele se opõe de forma antitética, numa contraposição vulgar entre imaginário e realidade concreta.”[27]  

           


 

* Mestranda em História pela Universidade Federal do Paraná

[1] BARBOSA, Francisco de Assis. Prefácio. In: SEVCENKO, Nicolau. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo: Brasiliense, 1989. p.15

[2] SEVCENKO, Nicolau. A Inserção Compulsória do Brasil na Belle Époque. In: Literatura como Missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República. São Paulo.: Brasiliense, 1989. p.28

[3] Ibid., p.30

[4] Termo utilizado pelos governantes da época  justificando as transformações que a cidade passava.

[5] Ibid., p.52

[6] CANDIDO, Antônio (et al.). A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da UNICAMP; Rio de Janeiro: Fundação Casa Rui Barbosa, 1992.

 

[7] LIMA BARRETO, Afonsos H. Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.96

[8] LIMA BARRETO, Afonsos H. Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.5

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[9] Ibid., p. 6

[10] SEVCENKO, Nicolau. A Capital irradiante: técnicas, ritmos e ritos do Rio. In: História da vida privada no Brasil. vol. 3. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. p.551

 

[11] Ibid., p.13

[12] Ibid., p.122

[13] Ibid., p.108

[14] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.18

[15] Ibid., p.18

[16] Ibid., p.18

[17] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.18

[18] Ibid., p.19

[19] Ibid., p.21

[20] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.83

[21] IDEM, Marginália. Disponível em: <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>.  Acesso em dezembro de 2002. p.55

[22] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p78/79

[23] Ibid., p.119

[24] IDEM, Vida Urbana. São Paulo: Brasiliense, 1961. p.121

[25] Ibid., p.29

[26] Ibid., p.77

[27] PESAVENTO, Sandra Jatahy. Contribuição da história e da literatura para a construção do cidadão: a abordagem da identidade nacional. In: Discurso histórico e narrativa literária. Campinas, SP. Ed. da UNICAMP, 1998.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

O ROMANCE: UMA LONGA HISTÓRIA

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O romance é o gênero literário mais produzido e mais consumido no Ocidente, pelo menos desde o século 19. Para isso contribuiu o desenvolvimento da imprensa periódica, em que muitas obras foram pela primeira vez publicadas, na forma de folhetins, ou seja, em capítulos semanais ou mensais, como no caso de obras primas de Dostoievski (1821-1881) e de Machado de Assis (1839-1908). O próprio incremento na circulação de jornais e revistas, a partir de então, testemunha uma ampliação do público leitor, o qual se pode dizer, sem perigo de exagero, foi formado por meio justamente da leitura de romances. Seguir um romance em folhetim equivalia ao que muita gente faz hoje consumindo novelas na televisão, considerando que mesmo quem não soubesse ler poderia ouvir as histórias lidas por outros.
Seguir um romance em folhetim equivalia ao que muita gente faz hoje consumindo novelas na televisão

Foi a partir dessa experiência, que historicamente constituiu nossos hábitos de leitura, que se criou a sensação de que o romance é um gênero moderno, relacionado com a própria formação de um público leitor urbano e burguês. Assim, o escritor brasileiro Donaldo Schüler, em Teoria do romance, afirma que ele é a “epopeia da modernidade”, ou, nos termos do filósofo húngaro Georg Lukács (1885-1971), em livro com o mesmo título, “a forma da virilidade madura, por oposição à infantilidade da epopeia” clássica.

Para o filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), em ensaio sobre O narrador, ainda que os “primórdios do romance” remontem à Antiguidade, ele necessitou de “centenas de anos para encontrar na burguesia ascendente os elementos favoráveis a seu florescimento”. Ora, como toda generalização, isso tem algo de verdadeiro, mas tem também um tanto de inexatidão.
O reconhecimento

Para o reconhecimento do romance como gênero temos uma data exata – 1670 – e um texto preciso: o prefácio do bispo francês Pierre-Daniel Huet (1630-1721) ao romance intitulado Zaíde, uma história espanhola, assinado por Jean Regnault, Senhor de Segrais (1624-1701), mas que se acredita tenha sido de fato escrito por uma mulher, Madame de La Fayette (1634-1693).

Nesse prefácio, que logo começou a ser publicado autonomamente com o título Tratado da origem dos romances, Huet elabora uma tipologia do gênero, ao mesmo tempo em que traça sua história. Segundo ele, os romances, esse “agradável divertimento dos preguiçosos honestos”, têm como característica serem “ficções de aventuras amorosas, escritas em prosa, com arte, para o prazer e a instrução dos leitores”.
Quando o gênero começa a receber uma denominação, portanto, realçam-se dois traços nele: a prosa e o fato de que se escreve nas línguas modernas, especificamente nas línguas latinas ou românicas

Um problema para o reconhecimento do romance enquanto gênero decorre de sua própria designação. Nas línguas europeias modernas, concorrem dois termos que têm origem nas palavras latinas novella e romanice. A primeira forneceu, por exemplo, a denominação do inglês novel e a do espanhol novela; já a segunda, por influência do francês roman, produziu a palavra romance, em português, romanzo, em italiano, roman, em russo, romaani, em finlandês, para citar só poucos exemplos.

Registre-se que, na Idade Média, novella designava um gênero narrativo em prosa considerado então novo (o termo sendo derivado exatamente de novus), por oposição aos gêneros tradicionais, em geral em verso – os contos narrados por Boccaccio (1313-1375) no Decamerão podem assim ser classificados. Já romanice é um advérbio que significa ‘em língua românica’, por oposição a latine, ou seja, ‘em latim’, a língua culta na qual então em geral se escrevia. Quando o gênero começa a receber uma denominação, portanto, realçam-se dois traços nele: a prosa e o fato de que se escreve nas línguas modernas, especificamente nas línguas latinas ou românicas.

É nesse sentido que o tratado de Huet é importante: retrocedendo à Antiguidade grega e romana, defende ele o reconhecimento de um gênero – o das narrativas de ficção em prosa – por retrospectiva. Assim, os primeiros exemplares seriam os romances gregos que ele acreditava terem sido escritos antes da era cristã, mas que hoje sabemos serem em geral do segundo século depois de Cristo. De fato, trata-se de um conjunto de textos em prosa que narram histórias de amor e de aventuras, dos quais o representante mais significativo são as Etiópicas, de Heliodoro (século 3). O modelo geral envolve dois jovens que se apaixonam perdidamente, são separados, vagam em inúmeras aventuras por vários países ao redor do Mediterrâneo, mantendo-se todavia fiéis um ao outro, até o encontro final.


Os primeiros romances foram um conjunto de textos gregos escritos em prosa no início da era cristã que narram histórias de amor e de aventuras. (ilustração: Luiz Baltar)

As aventuras podem ter menos importância, pondo-se toda a ênfase no amor, como acontece em Dáfnis e Cloé, de Longo (século 2), em que o enredo se concentra na descoberta do amor por dois adolescentes. Encontramos ainda romances paródicos, em que o amor se traduz em sexo e toda a luz se joga nas aventuras, como Lúcio ou o asno, escrito em grego pelo sírio Luciano (século 2), e o Asno de ouro, escrito em latim pelo africano Apuleio (século 2), uma história fantástica narrada pelo próprio protagonista, de nome Lúcio, que, transformado por artes mágicas em asno, se mete numa sucessão de embrulhadas até recuperar a forma humana.

Essa forma narrativa teve prosseguimento tanto no mundo bizantino, quanto na Europa ocidental. As novelas de cavalaria, como as do ciclo do Graal, que têm como personagens o Rei Artur e os cavaleiros da távola redonda, são legítimos continuadores do romance antigo de amor e aventuras, o mesmo se podendo dizer de Tristão e Isolda, bem como de outras obras escritas em várias línguas europeias e para muitas outras também traduzidas. Não é contudo só a temática que aproxima esses textos de seus antecedentes pagãos, mas também o fato de que são narrativas de ficção em prosa. É legítimo, portanto, como pretende Huet, que se trace uma história do romance de longa duração.
Constante mutação

Nessa história um marco indubitavelmente se destaca, o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), não só pela alta qualidade de suas obras, como também pela forma dupla como ele, conscientemente, se inseriu na tradição do romance. De um lado, seu livro mais conhecido, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, retoma num viés paródico as novelas de cavalaria medievais, numa técnica narrativa em que o mais relevante é como se expõem os próprios mecanismos narrativos do romance, posto que seu herói, Dom Quixote, é um especialista nesse tipo de literatura, um louco genial enlouquecido justamente por ter lido muitas histórias de amor e aventuras.

Mas Cervantes escreveu ainda outro romance, Os trabalhos de Persiles e Sigismunda, em que, conforme suas próprias palavras, pretendia “competir com Heliodoro”, ou seja, trata-se de um texto que disputa com o mais famoso dos romances gregos antigos, procurando ultrapassá-lo.
Aquilo que mais caracteriza o romance, em qualquer das modalidades que assumiu em sua longa história, é justamente esse viés referencial – ou seja, que remete a outros textos – e experimentalista

Pode-se dizer que aquilo que mais caracteriza o romance, em qualquer das modalidades que assumiu em sua longa história, é justamente esse viés referencial – ou seja, que remete a outros textos – e experimentalista.

Segundo o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975), em Questões de literatura e estética: a teoria do romance, trata-se de um gênero em constante mutação diante de nossos olhos, traço que a filósofa búlgaro-francesa Julia Kristeva, em O texto do romance, definiu como seu caráter “transformacional”.

Sem dúvida, é esse experimentalismo que tem marcado o romance também nos períodos mais próximos de nós, tornando-o capaz de exercer um fascínio sempre renovado no público leitor. Da narrativa de viés mais tradicional, com um narrador externo e onisciente, às experiências mais ousadas, em que o narrador retira a máscara para se dirigir ao leitor ou se apresenta sob as condições mais surpreendentes – como o asno dos experimentos antigos ou o defunto autor das Memórias póstumas de Brás Cubas, de nosso Machado de Assis –, é como se o gênero buscasse sempre e sempre de novo surpreender o leitor.

Se, de um lado, o romance é de todos os gêneros literários o que mais aparenta se reduzir à linguagem comum, já que simples prosa, por outro, com toda sua sofisticação formal – mesmo quando adota a forma despojada do discurso mais simples – vem a ser o mais mimético dos gêneros, justamente por representar essa função básica da linguagem que é contar histórias.

Jacyntho Lins Brandão
Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais
Autor de A invenção do romance (Brasília: Editora UnB, 2005)
Revista Ciência Hoje

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

A força perene de 'Macunaíma'


Noventa anos após sua publicação, o romance segue provocador e atual em relação à forma como lida com questões brasileiras



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Narrativa foi adaptada para o cinema pelo diretor Joaquim Pedro de Andrade em 1969
PUBLICADO EM 18/02/18 - 03h00
No segundo prefácio de “Macunaíma, o Herói Sem Nenhum Caráter”, Mário de Andrade (1893-1945) destaca que o romance, considerado uma de suas obras-primas, é fruto de “pura brincadeira”. O escritor, poeta, crítico de arte e literatura, musicólogo e folclorista também revela no texto que concebeu a ficção durante suas férias, “em seis dias ininterruptos de rede”. Dessa forma, o título soa como um trabalho, sobretudo, despretensioso.

Inclusive, em outro trecho, Andrade enfatiza: “Não quero que imaginem que pretendi fazer deste livro uma expressão de cultura nacional brasileira. Deus me livre. É agora, depois dele feito, que me parece descobrir nele um sintoma de cultura nossa”.

Publicado em 1928, “Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter”, que completa 90 anos, ganhou, portanto, vida própria, e, desde então, segue desenhando uma trajetória peculiar, talvez até maior do que a imaginada pelo paulistano reverenciado como um dos principais nomes do Modernismo brasileiro.

A escritora, professora e crítica literária Noemi Jaffe observa que a amplitude da obra – constantemente ressaltada como uma das que mais reflete as nuances das bases constitutivas do Brasil –, era inevitável, tendo em vista o imenso repertório de Andrade. “Com toda a erudição, a inteligência e a criatividade que ele tinha na cabeça, não tinha como sair algo que fosse menos significativo. E, quando se escreve um texto de caráter lendário, é natural que acabe saindo nesse processo outras coisas que estão no inconsciente mesmo. Talvez, só depois, Mário de Andrade tenha descoberto que havia mais elementos no livro do que ele tinha pensado em escrever”, diz Noemi.

“O ‘Macunaíma’, pela sua força e pela figura do personagem, acabou se tornando um símbolo da índole e do destino fracassado do brasileiro”, acrescenta ela, que comenta a atualidade da obra. “O romance é perfeito para a época atual, ele nunca se desatualizou. Eu acabo concordando com a análise de Gilda de Mello e Souza, que diz que o Macunaíma é uma figura que resulta da mistura de três etnias: o branco, o negro e o índio. Ele quer sair do lugar, quer se desenraizar, quer ir para a cidade, quer ser mais esperto que as pessoas que já estão instaladas na cidade, os burgueses e os capitalistas, mas a esperteza dele, que vem da floresta, acaba sendo vencida por aquela dos donos do capital”, frisa Noemi.

Para ela, mesmo quando Macunaíma mostra-se vitorioso, o destino final dele é trágico. “Ele quer dar uma volta por cima, mas a volta por cima dele é morrer. Então, acho que isso representa a derrota do povo brasileiro, o que está acontecendo agora. A sociedade está sendo derrotada pelos acumuladores, e nós podemos até achar que somos espertos, como vimos o desfile da (escola de samba) Paraíso do Tuiuti, que é lindo e maravilhoso, mas duvido que isso vá raspar as estruturas de poder. Vai ser uma grande surpresa se o povo conseguir fazer algum protesto, algo que realmente mude o que já está instalado. Não acredito nisso, porque assim tem sido no Brasil há 500 anos”, afirma Noemi.

Eduardo Jardim, que é filósofo e autor da biografia de Mário de Andrade, “Eu Sou Trezentos”, também considera perene a relevância de “Macunaíma” para refletir outras questões, a exemplo da identidade nacional. “Toda vez que nos perguntarmos sobre a identidade do país, precisaremos voltar a ‘Macunaíma’. E toda vez que pretendermos pôr em questão essa busca de uma identidade, precisaremos também nos referir a ‘Macunaíma’. Digo isso porque se trata de um livro muito rico e complexo. Ele expressa o desejo de definir uma identidade, mas é também a confissão do fracasso dessa busca. ‘Macunaíma’ é um livro engraçado, poderoso e muito triste também. Afinal, nunca se alcança o que se buscava”, observa Jardim.

E o autor também chama atenção para o esforço de Andrade em contemplar a visão de uma unidade territorial no romance. “Ele recorre a dois procedimentos para defini-la: a desgeografização e a tradicionalização. Por meio da primeira, ele podia ir além da consideração das partes e das diferenças regionais e ver o todo. Tradicionalizando, ele podia dar conta de um tempo próprio da vida brasileira. O personagem Macunaíma viaja pelo país, desconsiderando todas as fronteiras, e viaja no tempo, desde a colônia até a atualidade de São Paulo. Mário de Andrade não busca conflitos, mas unidade, mesmo que se trate de uma unidade complexa e até díspar muitas vezes”, acrescenta ele.

Contexto. Mário de Andrade escreveu “Macunaíma” após uma viagem pela Amazônia em 1927. Ele encontra o nome do personagem, que batiza o romance, em um dos relatos do etnólogo alemão Theodor Koch-Grunberg (1872-1924), que registrou os mitos dos povos residentes na região do Alto Amazonas, desde Roraima até a Venezuela, no volume “De Roraima ao Orinoco”. Jardim localiza que o livro de Andrade faz parte de um segundo momento da trajetória do intelectual.

“Sua preocupação, desde o tempo inicial do modernismo, como na Semana de 22, foi com a modernização da produção cultural brasileira. Isso significava, para ele, incorporar nossa produção no concerto das nações cultas. O significado dessa incorporação foi revisto em 1924, não só por Mário de Andrade, mas pelos modernistas em geral. Todos passaram a defender que só era possível assegurar nossa participação no cenário moderno com uma produção com traços específicos nacionais, refletindo a vida e a cultura brasileira”, situa o especialista.

Noemi também identifica no gesto de Andrade, ao declarar uma ausência de rigor envolvida na criação de “Macunaíma”, o interesse de ele colocar em prática o projeto modernista. “‘Deseruditizar’, ‘desacademizar’, enfim, ‘desparsianizar’ a linguagem, apesar de Mário ser considerado muito erudito, era seu objetivo. ‘Macunaíma’ é uma sátira, e a linguagem do narrador é toda lúdica. A intenção dele era colocar a linguagem no nível que todos pudessem entender. Ele também insere alguns erros gramaticais propositalmente. Por exemplo, começar uma frase com pronome indireto: ‘me contaram’. Isso foi Mário que introduziu”, detalha a crítica literária.


Nova tradução para o inglês deve sair em 2019

FOTO: ACERVO PESSOAL
Katrina Dodson
Katrina Dodson afirma ter cuidado para manter os hibridismos da linguagem
Em breve, o romance de Mário de Andrade vai ganhar uma nova versão em inglês, por meio do trabalho da tradutora norte-americana Katrina Dodson, que deverá ser concluído neste ano e tem previsão de lançamento para 2019. Ela também já verteu para a língua inglesa contos de Clarice Lispector, o que lhe rendeu, em 2015, o PEN Translate Prize, um dos prêmios de tradução mais importantes dos Estados Unidos. Até o momento, “Macunaíma” havia sido traduzido apenas pelo norte-americano E.A. Goodland, há mais de três décadas. Porém, a qualidade dessa edição é questionada, principalmente, em razão da ruptura com o ritmo e o humor presentes na escrita de Andrade.

“Essa tradução também apagou inteiramente a natureza híbrida da linguagem, traduzindo toda a flora e a fauna para uma linguagem que impõe um sistema de classificação europeu em vez de indígena, e cobrindo os traços das palavras de origem bantu. Claro que muitas dessas palavras já são incorporadas no português do Brasil, o que Mário chamava de ‘brasileiro’. Porém, no livro, ele exagera a proporção das palavras de raízes não-portuguesas até que a linguagem em certos momentos fique quase incompreensível para muitos dos brasileiros. A minha tradução vai ser bem mais experimental do que a anterior, mas isso reflete o espírito vanguardista do original”, comenta Katrina.

Admiradora do romance, ela relata que “Macunaíma” é um de seus livros preferidos, e o processo de tradução a tem levado a novas descobertas. “Eu pensava que o tupi era a única língua indígena no livro, mas agora descobri que ali existem palavras de tribos como Caxinauá, Taurepang, Arekuna e Nhambiquara”, relata Katrina, que enveredou nesse projeto por iniciativa própria. A fim de compreender melhor o universo retratado por Mário de Andrade, ela, inclusive, realizou viagens pelo Brasil, após ser contemplada num programa de residência para tradutores estrangeiros viabilizado pela Biblioteca Nacional.

Um de seus maiores desafios é lidar com a complexidade linguística da obra, o que lhe exige estudos aprofundados. “E depois de toda a pesquisa, ainda tenho que fazer tudo funcionar como obra literária em inglês, que pede uma atenção cuidadosa à música e ao humor do romance, e também ao estilo e ao registro. Há tantas coisas para fazer que, cada vez que penso em tudo, fico paralisada e suspiro ‘ai, que preguiça…’”, brinca Katrina, citando uma das frases mais conhecidas do protagonista Macunaíma.

Ao comentar a possibilidade de a narrativa dialogar com leitores de outros países, ela ressalta que o contexto atual pode facilitar a compreensão da história, a seu ver, afinada com o mundo contemporâneo. “Embora ‘Macunaíma’ seja uma obra bem brasileira, ela retrata o hibridismo e as identidades contraditórias que caracterizam a condição pós-colonial de muitos países, isto é, de ter uma população que derive dos colonizadores, em termos da etnia, da linguagem e da cultura, mas que ao mesmo tempo abrange uma mistura de elementos indígenas e vindos de outros países, seja por causa da imigração ou da escravidão. Hoje estamos vivendo cada vez mais num mundo influenciado pela globalização, pela migração e pelo multiculturalismo. Acredito que os leitores atuais de ‘Macunaíma’ no exterior poderiam compreender seus temas muito melhor do que aqueles em décadas passadas, sobretudo nos Estados Unidos”, finaliza Katrina.


Obra no cinema, no teatro, nos quadrinhos e até na música

FOTO: PATRICIA BLACK/DIVULGAÇÃO
Iara Rennó
Iara Rennó lançou um disco em 2008 e estreou espetáculo dois anos depois
São diversas as criações baseadas em “Macunaíma”. Entre as adaptações mais celebradas figuram o filme homônimo de Joaquim Pedro de Andrade (1932- 1988), de 1969; e a montagem para o teatro de Antunes Filho, realizada em 1978. Mais recentemente, o romance de Mário de Andrade também passou a reverberar em outras linguagens, como os quadrinhos e até mesmo na música, com destaque para o disco “Macunaíma Ópera Tupi”, lançado pela cantora e compositora paulistana Iara Rennó, em 2008.

Ela frisa que esse foi um trabalho pioneiro ao explorar principalmente os recursos musicais encontrados no livro. “Ainda não havia uma proposta dedicada inteiramente à musicalidade dessa narrativa, o que para mim é algo que grita ali”, diz Iara. Ela conta que ficou quase dez anos envolvida na produção do CD e relata ter encontrado um documento no Instituto de Estudos Brasileiros, assinado por Mário de Andrade, que mostra o interesse dele em conceber uma montagem musical a partir de “Macunaíma”. “São duas páginas de um rascunho de um projeto que, de certa forma, eu me senti na incumbência de fazer, como se tivesse recebido um chamado dele”, diz a cantora, filha dos compositores Carlos Rennó e Alzira Espíndola.

Sua aproximação com a ficção se deu durante a faculdade de letras, em que aprofundou os estudos e compreendeu a importância do ritmo, das assonâncias, entre outros recursos, da prosa de Andrade. “Além disso, em vários momentos do romance, os personagens cantam, e vale lembrar que, quando o livro foi lançado, houve uma dificuldade de ele ser categorizado. Não se sabia se ele era um romance ou uma rapsódia, que segue o modelo das histórias cantadas, assim como a ‘Odisseia’ (atribuída a Homero)”, observa Iara.

Processo. Para gravar o álbum, Iara selecionou fragmentos de “Macunaíma” que foram musicados. Depois, em 2010, ela criou o espetáculo multimídia “Macunaíma no Oficina: Ópera Baile”, que estreou no Teatro Oficina Uzina Uzona. Atualmente, ela dedica-se a projetos que pretendem celebrar os dez anos do CD e os 90 do livro de Andrade e espera também vir a Belo Horizonte, apresentado-se numa versão solo ou com banda.

“Eu vou fazer o lançamento desse disco nas plataformas digitais e quero também lançar uma versão especial em vinil. Essa trabalho pode acontecer em vários formatos, desde uma aula-show à parcerias com trio ou banda e bailarinos, o que tem uma dimensão mais operística”, completa a paulistana, que ressalta a importância de “Macunaíma”.

“O livro aborda questões que nunca vão deixar de ser atuais, como aquelas ligadas a nossa cultura, que está sempre em transformação”.
Jornal O Tempo