sexta-feira, 15 de junho de 2018
Um País Enganador
sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Decadência cultural na Idade Média
MARCELO COELHO
AUTOR Stephen Greenblatt
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Caetano Waldrigues Galindo (304 págs.)
Folha de S. Paulo
terça-feira, 3 de julho de 2012
João Goulart - A cultura engajada
FGV-CPDOC
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Música - Sociedade e cultura
Rádio - Sociedade e cultura
Durante toda a década de 1950 as dramatizações eram componentes-chaves da programação das principais emissoras do país. Do cast da Rádio Nacional faziam parte os artistas mais famosos, campeoníssimos dos concursos de "Melhores do Rádio", realizados periodicamente pelas revistas especializadas, como a Revista do Rádio e a Radiolândia. A Rádio Mayrink Veiga contava com um elenco de radioteatro de 26 pessoas, além de quatro estúdios, um auditório, uma orquestra com 41 músicos e um conjunto regional.
O radiojornalismo não se limitava, porém, às campanhas políticas nacionais. Na segunda metade da década, a mesma Farroupilha destacou-se na cobertura internacional de crises como a do canal de Suez, durante o conflito entre Egito e Israel, com transmissões ao vivo e troca de mensagens entre os pracinhas do contingente de paz brasileiro e seus familiares no Brasil.quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
A PRIMEIRA ESCOLA DE SAMBA DO BRASIL

Ricardo Barros Sayeg*
“Ê, FAVELA!
DA BATUCADA, DO MEU GRANDE AMOR
EU SOU MALANDRO E FAÇO HISTÓRIA
NA ZONA DO MANGUE ONDE TUDO COMEÇOU
NASCIA EM FORMA DE ORAÇÃO
NAS MESAS DO CAFÉ, UMA CANÇÃO
BAMBAS QUE O BERÇO DO SAMBA UM DIA EMBALOU
VERSOS DE ISMAEL, "SE VOCÊ JURAR"
TE DOU EM POESIA, A "DONA DO LUGAR"
VAI MINHA INSPIRAÇÃO... DEIXA FALAR”
Do samba enredo: “Deixa Falar, a Estácio é isso aí.
Eu visto esse manto e vou por aí”, 2010
A primeira escola de samba brasileira foi a Deixa Falar, fundada em 18 de agosto de 1928, no bairro do Estácio, no Rio de Janeiro, por Nilton Bastos, Ismael Silva, Silvio Fernandes, Oswaldo Vasques, entre outros. Seus componentes ensinavam e difundiam o samba, por isso ela foi considerada a primeira escola dedicada ao samba.
Na verdade, a Deixa Falar durou pouco tempo. Desfilou nos carnavais da Praça Onze nos anos de 1929, 1930 e 1931. Em 1932, quando foi organizado o primeiro concurso de escolas de samba pelo jornal Mundo Sportivo, a escola não desfilou. Naquele ano, a agremiação resolveu mudar sua categoria para rancho. Ela já havia desfilado em 1931 nessa nova categoria com o enredo “O Paraíso de Dante” e teve boa avaliação na mídia da época.
Em 1932, decidiu concorrer nos desfiles de ranchos com um novo enredo “A Primavera e a Revolução de Outubro”, mas não conseguiu sequer classificação. De acordo com a comissão julgadora daquele concurso, a Deixa Falar teria se apresentado “simples e sem maiores pretensões”. Nesse mesmo ano, a escola viria a acabar devido a conflitos entre os fundadores, sobre a subvenção oferecida pela prefeitura para aquele desfile.
O termo escola teria sido cunhado por Ismael Silva, um dos grandes compositores do samba carioca, pois próximo à Deixa Falar havia uma escola normal. Ele então teria dado o nome de escola de samba, pois sua escola formaria sambistas e não professores. Alguns historiadores, entretanto, discordam dessa explicação, pois teriam dito que o termo escola já teria sido utilizado antes de 1928.
As cores da Deixa Falar eram o vermelho e o branco, em homenagem ao América Futebol Clube, que ficava próximo à escola, e também ao bloco A União faz a Força, que havia deixado de existir em 1927, com a morte de Mano Rubem, um de seus fundadores, admirado pelos integrantes da Deixa Falar.
A escola de samba Estácio de Sá, em 1980, desfilou com o enredo “Deixa Falar”, em homenagem à escola pioneira da década de 1910, e em 2010, a mesma Estácio desfilou com o enredo: “Deixa Falar, a Estácio é isso aí. Eu visto esse manto e vou por aí” em homenagem àquela que foi a primeira agremiação do samba brasileiro.
domingo, 30 de outubro de 2011
Anos 20 - Modernidade Carioca

quinta-feira, 8 de setembro de 2011
A (mu)dança das línguas

Subordinação social é acompanhada por subordinação linguística. Empréstimos e incorporação de termos refletem economia e política
Em 1492, ano da chegada de Cristóvão Colombo às Américas, o estudioso Elio Antonio de Nebrija organizou a primeira gramática de uma língua moderna, a Gramática Castelhana. Ele apontava a importância da popularização da língua dos conquistadores na construção do império espanhol. Por meio dela, seria possível estabelecer unidade e manter o controle sobre os povos conquistados. Luiz Paulo da Moita Lopes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, afirma que era essa a inspiração que guiava Nebrija ao presentear a rainha Isabel de Castela com a gramática. “As línguas sempre foram companheiras de impérios”. Línguas francas sempre foram necessárias nas atividades de comércio e na gerência política dos povos. Segundo ele, foi assim também com a língua nahuatl, falada pela tribo mais poderosa do império asteca e que funcionava como língua franca, reinando acima das 80 línguas diferentes. “Esses processos que, em alguns casos, já têm mais de dois mil anos, guardam semelhanças com o papel desempenhado pelo inglês hoje”, acredita Lopes.
Inglês: novo esperanto?
O inglês estaria hoje, para nós, como o latim esteve, no passado, para os povos periféricos à Roma. Prevalecem, nesse domínio, interesses econômicos e políticos. Para Carlos Vogt, da Unicamp, essa é a lógica do processo de globalização da economia e uma de suas consequências culturais: à necessidade de homogeneizar mercados e estabilizar moedas, para a livre circulação do capital financeiro, associa-se a harmonização de comportamentos e padrões culturais de conduta social. “Isso cria as condições objetivas para que as resistências nacionalistas ligadas ao sentimento forte de nacionalidade dêem lugar a um sentimento crescente de fidelidade empresarial sem fronteiras”, analisa o linguista.
“A língua não é neutra e nem está acima das lutas sociais, mas, ao contrário, é perpassada por estas lutas, é expressão delas e toma parte nelas”, diz o sociólogo Nildo Viana, da Universidade Estadual de Goiás (UFG), em artigo publicado na revista Humanidades em Foco (ano 2, n.4). Isso explicaria porque tentativas anteriores de estabelecer línguas internacionais de comunicação falharam. No final do século XIX, por exemplo, um ideal de universalidade lingüística inspirou a criação de algumas línguas artificiais, sendo o esperanto possivelmente a mais conhecida. Essas línguas são chamadas de artificiais porque não são um produto coletivo de determindada sociedade, mas de certos indivíduos. Na época, alegava-se em favor dessas línguas o fato de serem de fácil aprendizado e de obedecerem regras regulares e lógicas (o esperanto possui apenas 16 regras gramaticais, sem excessões). Além disso, não sendo de domínio de nenhuma cultura ou nação, não haveria interesses hegemônicos, econômicos ou comerciais envolvidos. Segundo Moita Lopes, os interesses do império britânico do século XIX e do início do século XX, combinados com o desenvolvimento industrial da Grã-Bretanha, assim como os interesses do império norte-americano no século XX, acoplados à globalização econômica do final do século XX e início do século XXI, solaparam o sonho de uma língua universal independente de objetivos imperialistas. No começo do século XX, vários países ensaiaram introduzir o ensino no esperanto nas escolas, inclusive o Brasil, porém nenhum levou a idéia adiante.
O português vai desaparecer?
Em vários países existe uma apreensão diante do crescimento do inglês e da diminuição do uso das línguas nacionais. Na França, por exemplo, é obrigatório que as palavras em inglês sejam traduzidas nos anúncios. No Brasil, há alguns anos, o tema gerou um projeto de lei (1676/99), de autoria de Aldo Rebelo. Ele queria coibir o uso de estrangeirismos “que deformam a língua e truncam a comunicação do povo”, nas palavras do deputado.
Em muitas situações o uso de termos estrangeiros se torna um problema concreto. Em janeiro deste ano a questão foi parar nos tribunais. Numa ação movida pelo Ministério Público (MP), o juiz determinou que a União fiscalize e faça cumprir o artigo 31 do Código de Defesa do Consumidor que prevê, entre outras medidas, que, no momento da oferta, haja clareza de informação. O autor da ação, o procurador da república Matheus Baraldi Magnani, disse que o MP recebeu diversas reclamações sobre o uso das palavras sale e off, no lugar de liquidação e desconto. Entrevistas com 280 pessoas em centros comercias detectaram que 90% das pessoas não entendiam o significado dos anúncios em inglês.
Mário Perini, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), considera exagerada a invasão de termos ingleses na língua portuguesa. “O Brasil é um país subalterno e a língua expressa isso. É como se me dissessem o tempo todo que minha cultura, não minha língua, é inferior”, aponta. É mais fácil entender isso se pensarmos, como Viana, que a linguagem é um fenômeno social ligado ao processo de dominação. A subordinação social é acompanhada por uma subordinação linguística. No Brasil, o sistema colonial e depois o capitalismo reproduzem a diferença no poder.
Mário Perini não acredita, entretanto, que os empréstimos estrangeiros sejam uma ameaça à língua portuguesa. Segundo ele, muitos estrangerismos desaparecem com o tempo e, os que ficam, são assimilados ou aportuguesados. “Os falantes tem um bom senso inato que os impede de utilizar termos estrangeiros além de um certo limite. Por isso, as palavras emprestadas são muito efêmeras”, acredita. Embora concorde que a influência norte-americana é incontestável cultural e economicamente, ele não vê consequências drásticas no campo linguístico.
A hibridização é um processo que acompanha o desenvolvimento das línguas. A língua muda para acompanhar as transformações sociais e culturais, os avanços tecnológicos, os movimentos artísticos. O fenômeno de empréstimo de palavras, como sales, parking, ou o aportuguesamento de palavras em inglês no português contemporâneo, que acontece em salvar e deletar, também ocorrem em outras línguas, inclusive no próprio inglês (grande número de palavras inglesas tem origem no francês: beef, liberty, page, etc). A língua portuguesa também emprestou palavras para outros idiomas. Não foram muitas pois, como dito, para que uma língua influencie outras é necessário alguma relação de domínio político ou cultural. No Oriente, os portugueses foram o primeiro povo conquistador europeu deixando, com isso, algumas marcas no híndi: mês é mesa, camiz é camisa. Em japonês, liburo signfica livro.
Isso acontece o tempo todo com as línguas e, antes de ser uma ameaça, é um sinal de que estão vivas e que se adaptam para continuar a existir. “O ser humano tem muito apego à sua língua porque ela os distingue, como povo, do resto do mundo”, defende Perini. Na Suécia, a grande maioria das pessoas fala inglês fluentemente. Mesmo assim conservam o sueco como sua língua materna. Enquanto no Brasil a presença da cultura norte-americana ganha força a partir dos anos 60, na Irlanda a influência inglesa existe desde a Idade Média sem que o irlandês tenha desaparecido. “A língua é o aspecto mais entranhado e menos mutável da cultura de um povo”, completa o pesquisador. Prova disso é que a segunda língua mais falada no Brasil não é o inglês ou o espanhol, mas o japonês, falado pela numeroso grupo de japoneses que vive no Brasil e que, provavelmente, se apega à sua língua materna como uma das formas de manter viva aqui a tradição nipônica.
Revista do IPHAN - UNICAMP
quinta-feira, 14 de julho de 2011
África: cultura material, filosofia e religião - parte 3

Marta Heloísa Leuba Salum (Lisy)
3ª. Parte - África: cultura material, filosofia e religião




África: cultura material e arte africana - parte 2
2ª. Parte - África: cultura material e arte africanaMarta Heloísa Leuba Salum (Lisy)


quarta-feira, 30 de março de 2011
Anos 20 - Modernidade Carioca

sexta-feira, 18 de março de 2011
O intelectual do século

Existem poucas situações mais risíveis do que as infindáveis discussões entre dois pretensiosos donos da verdade. Podem ser muito divertidas, render diálogos dos mais irônicos, dignos de Woddy Allen. Lembro-me que há alguns anos meu amigo Alencar Arrais, dileto historiador, e eu discutimos durante dias quem teria sido o mais importante intelectual do século XX. Meu interlocutor defendia, concordando com um cânone publicado, creio eu, pela “Folha de São Paulo”, o nome do sociólogo alemão Max Weber. Eu não tinha dúvidas: o intelectual do século XX tinha sido o francês Jean-Paul Sartre. Sei muito bem que a produção de Weber é mais consistente, mas, ainda assim meus argumentos eram, em meu entender, indiscutíveis: além de sua vasta obra filosófica e artística, Sartre tinha a seu favor sua polêmica atuação política, a admirável petulância de recusar o Prêmio Nobel de Literatura e, talvez acima de tudo, o fato de ter sido um inexplicável símbolo sexual. O homem foi a práxis existencialista encarnada em carne, osso, óculos e cachimbo. Contudo, obviamente as discussões entre donos da verdade tradicionalmente não tem fim, como esta não teve. Foi apenas deixada de lado, vencida pela exaustão. Mas vai voltar. O lançamento do livro “O Século de Sartre – inquérito filosófico”, do filósofo francês Bernard-Henri Lévy, dá-me farta munição para reabrir a nossa insignificante polêmica pessoal.
“O Século de Sartre” não é uma mera biografia crítica sobre seu personagem título, vai muito além disso. É, sim, um verdadeiro inquérito filosófico sobre o impacto que o pensamento sartriano teve no século XX. É também uma proposta de redescoberta de seu pensamento. Apesar de Sartre nunca ter sido esquecido, tendo lugar cativo entre os gênios de todos os tempos, a decadência das utopias de esquerda que coincidentemente se seguiram a sua morte, ocorrida em 1980, relegou sua filosofia a desconfortável condição de peça de museu: fundamental como instrumento de análise de uma época, mas datada, ingênua e equivocada, quando fora de seu contexto histórico. Sartre que em vida foi uma longa coqueluche intelectual, uma moda que durou quarenta anos, depois de morto, ao contrário de alguns de seus contemporâneos, como Foucault e Camus, nunca entrou em moda. De certo modo, sua morte foi um alivio. Sartre fez barulho demais, incomodou demais, foi camaleônico demais ao longo de sua carreira para ser plenamente inteligível. O melhor seria mesmo deixá-lo no limbo de Dante, pensaram os sobreviventes.
Não deixa de ser curioso e irônico o fato de que o porta-voz do novo sartrismo, seja Bernard-Henri Lévy, um dos principais nomes dos chamados “novos filósofos” franceses. Geração que fez fama, dentre outras coisas, criticando copiosamente Sartre e suas relações com os maoístas, stalinistas e outras sanguinárias ditaduras de esquerda. A relação entre Sartre e Lévy era tão azeda que o veterano chegou a acusar o novato abusado de ser um agente da CIA disfarçado. Como confessou em uma entrevista ao jornal “El Mundo”, Lévy, antes de se aprofundar em sua obra, considerava Sartre “um escritor chato, um filósofo insignificante e um intelectual que se equivocava sempre”. Porém, sua magnética figura o atormentava a ponto de fazê-lo planejar um livro para que pudesse exorcizá-lo. Foi durante a pesquisa que passou a vê-lo, forçado pela gritante qualidade de suas linhas, como “um escritor de uma modernidade formidável, como um intelectual que nem sempre se equivocou e como um filósofo de grande qualidade. Teve a coragem de tentar recomeçar a aventura filosófica”. Acima de tudo percebeu que, agigantando-se erros que de fato cometeu, transformaram-no em bode expiatório de todos os males do século. A certa altura Sartre não era mais Sartre, e sim o que falavam dele. Em suma, neste livro seu autor faz uma mea culpa e presta homenagem a quem considera o intelectual do século, o último intelectual total, o último filósofo à antiga, o “homem-século”.
Talvez quem melhor tenha expressado a real importância de Sartre tenha sido um de seus maiores desafetos, o general De Gaulle. O líder da França livre da Segunda Guerra Mundial sempre foi duramente criticado pelo filósofo. Quando seus conselheiros sugeriram que mandasse prender o arruaceiro, De Gaulle replicou “não se aprisiona Voltaire”. A partir desta frase, que se converteu em clássico, tornou-se lugar comum dizer que Sartre teve em seu tempo o mesmo papel que Voltaire ocupava no século XVIII e Victor Hugo no século XIX. Lévy vai mais além, defende que “nunca, mesmo no século de Voltaire ou no de Hugo, um escritor ocupou lugar semelhante no imaginário de sua época”. Sartre foi muito além do que se esperava de um intelectual crítico, tornou-se uma potência política. E isto só foi possível graças a De Gaulle. A França do pós-guerra possibilitou o surgimento de um grande contra-poder espiritual para se contrapor a um grande poder temporal.
Este papel só foi assumido por Sartre por ser ele o último intelectual total. Como uma espécie de Da Vinci, homem de mil talentos, foi filósofo, político, escritor, jornalista, dramaturgo, crítico, roteirista de cinema etc. Claro que os “judeus-de-sartre”, o nome que o autor dá a seus adversários, em referencia aos judeus que perseguiam Jesus de Nazaré, sempre poderiam argumentar que ele nunca foi o melhor em nenhum dos gêneros. Camus era melhor escritor, Merleau-Ponty um filósofo mais consistente, a verdadeira mola mestra da lendária revista “Les Tempes Modernes”, o mesmo se pode dizer de Raymond Aron. Mas, se me permitem uma comparação grotesca, Pelé também não: Garrincha driblava mais, Cruyff foi insuperável como gênio tático, Maradona foi mais habilidoso, Puskas tinha o chute muito mais poderoso. Contudo, Pelé foi o Rei por realizar igualmente bem todos os fundamentos de sua arte / esporte. Semelhantemente, o extraordinário em Sartre estava em sua polivalência. Seu desejo de “escrever em tantas línguas que uma se mistura com a outra”. De fato, apenas para citar um exemplo, ao escrever “A Náusea”, ele inventou um gênero literário em que é impossível separar a filosofia da literatura.
“O Século de Sartre” mostra um personagem título múltiplo. Bernard-Henri Lévy fala de vários sartres que coexistiram, nem sempre de forma harmônica. Em um extremo esta o jovem dinâmico que clamava pela liberdade incondicional do ser humano. No outro o idoso enfraquecido simpático ao totalitarismo vermelho. No cerne desse debate interno está a figura espectral de Hegel. Para Lévy toda a carreira de Sartre foi concebida sob os auspícios do hegelianismo. Primeiramente um duelo. Sartre foi um radical “judeu-de-hegel”. O francês desejou mostrar que o modelo filosófico do alemão não era definitivo como se pensava, que a verdade absoluta ainda não havia sido revelada, que “Fenomenologia do Espírito” não é o evangelho que anuncia a vinda do messias do conhecimento humano. Escreveu o gigantesco e genial “O Ser e o Nada” para isso. Afirma que o existencialismo é contrario a história, sempre progressiva, devido à “individualidade irredutível da pessoa”. Retoma as questões fundamentais da vida, da morte, do tempo, da mentira e da verdade etc, deixadas de lado por Hegel e seu comentador Kosèje, e de resto por toda tradição filosófica posterior. Volta ao “Homem”, reabre o caminho da filosofia. Sartre está mesmo convencido de que “O Ser e o Nada” não apenas é superior a “Fenomenologia do Espírito”, como também é sua continuação. Essa saudável petulância fez de Sartre grande.
Depois, entrega as armas. Com o passar dos anos Sartre nega sua obra, segundo Lévy, talvez assustado pela grandiosidade do que realizou. Desafiar à altura o mito invencível de Hegel. Chegou a afirmar que “O Ser e o Nada” é uma obra “absurda”, “escandalosa”. A negação total e absoluta de seu passado glorioso está em “Crítica da Razão Dialética”, livro esmagador, barroco, mal escrito, onde sua conversão ao marxismo grita que “se existe uma História e a de Hegel”. Declara suas idéias mortas. De “judeu-de-hegel” converte-se em “apostolo-de-hegel”. Aceita seu fracasso, ou por outra, fomenta seu fracasso. Inexplicável. O que resta é o Sartre idoso que urina nas causas em “Cerimônia de Adeus”, como foi descrito por sua companheira de vida Simone de Beauvoir. O homenzinho patético desprezado pelo imponente homenzarrão Fidel Castro, em sua visita a Havana. Um velho quase sem voz, cego e “curado de si mesmo”. Um homem célebre começando a ser esquecido por aqueles que o amavam e, ainda pior, ignorado por aqueles que amavam odiá-lo.
“O Século de Sartre” não é uma obra para leigos. De modo geral seu texto é divertido, até leve em certas partes, mas entremeado entre os episódios pitorescos existem discussões filosóficas pesadas, densas. Convêm conhecer o mínimo sobre seu personagem título, as lendas que giram em torno de seu nome, para não se perder no meio do caminho. Esse aconselhável conhecimento prévio tornara a leitura muito mais prazerosa e, certamente, proveitosa. Porém, não o isenta de certas irritações. Existem alguns senões. Os mais evidentes são certos capítulos em que o autor faz intermináveis e labirínticos malabarismos retóricos para, inutilmente, tentar convencer o leitor de que Sartre, algumas vezes, não estava realmente querendo dizer o que disse. O descartável capitulo intitulado “O Existencialismo é um Anti-humanismo”, resposta a famosa palestra “O Existencialismo é um Humanismo”, que Sartre proferiu em 1946, talvez seja o exemplo mais gritante; ao lado do fragmento “O que diz, Realmente, As Palavras”, onde Lévy lê as entrelinhas da autobiografia de Sartre. De resto se deve destacar negativamente alguns trechos escritos com uma irritante linguagem floreada, que Sartre certamente não aprovaria. Escorregões perdoáveis diante da excelência do todo.
“O Século de Sartre” é um livro fascinante. Demonstra com segurança sua tese e é, realmente, visceral. Percebe-se em cada linha o prazer com que Bernard-Henri Lévy escreveu. A satisfação que sentiu ao perceber que estava errado, que encontrou em Sartre o seu Hegel. Dessa vez com tempo para remediar e capitalizar a descoberta. Enfim, temos agora nas livrarias brasileiras um ótimo argumento que pode, talvez, finalmente fechar o debate sobre quem teria sido o intelectual síntese do século XX. Portanto, caríssimo Alencar Arrais, xeque. É melhor fugir com seu rei.
Revista Bula









