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sábado, 17 de março de 2012

Qual é a verdadeira história do rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda?

Tudo indica que ela não passa de uma lenda. Não existe nenhum registro histórico desse personagem, que teria vivido entre o final do século V e o início do século VI, no País de Gales ou no norte da Grã-Bretanha - com a exceção de dois compêndios de relatos militares, pouco confiáveis e bem posteriores (séculos IX e X), sugerindo que Artur teria liderado o povo celta - habitantes originais da ilha, a essa altura da história convertidos ao Cristianismo - em duas batalhas vitoriosas contra os invasores saxões vindos do continente. Verdadeira ou falsa, essa história começou a se popularizar na Europa do século XII com o livro História dos Reis da Bretanha, do inglês Geoffrey de Monmouth, que narrava várias aventuras protagonizadas por Artur e seus cavaleiros. A partir daí, o mito foi adotado e expandido por diversos dos chamados romances de cavalaria.

"Foi esse gênero literário tipicamente medieval que consagrou essas figuras míticas", afirma a historiadora Teresa de Queiroz, da USP. Já a Távola Redonda teria sido inventada pelo escritor francês Chrétien de Troyes, no final do século XII - o mesmo autor que acrescentou às peripécias dos cavaleiros a busca do Santo Graal, o cálice que teria sido usado por Jesus na última ceia.
Revista Mundo Estranho

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Lobisomem



Lenda brasileira
No Brasil existem muitas versões dessa lenda, variando de acordo com a região. Uma versão diz que a sétima criança em uma sequência de filhos do mesmo sexo tornar-se-á um lobisomem. Outra versão diz o mesmo de um menino nascido após uma sucessão de sete mulheres. Outra, ainda, diz que o oitavo filho se tornará a fera.
Em algumas regiões, o Lobisomem se transforma à meia noite de sexta-feira, em uma encruzilhada. Como o nome diz, é metade lobo, metade homem. Depois de transformado, sai à noite procurando sangue, matando ferozmente tudo que se move. Antes do amanhecer, ele procura a mesma encruzilhada para voltar a ser homem.
Em algumas localidades diz-se que eles têm preferência por bebês não batizados. O que faz com que as famílias batizem suas crianças o mais rápido possível. Já em outras diz-se que ele se transforma se espojando onde um jumento se espojou e dizendo algumas palavras do livro de São Cipriano e assim podendo sair transformado comendo porcarias até que quase se amanheça retornando ao local em que se transformou para voltar a ser homem novamente. No interior do estado de Rondônia, o lobisomem após se transformar, tem de atravessar correndo sete cemitérios até o amanhecer para voltar a ser humano. Caso contrário ficará em forma de besta até a morte. O escritor brasileiro João Simões Lopes Neto escreveu assim sobre o lobisomem: "Diziam que eram homens que havendo tido relações impuras com as suas comadres, emagreciam; todas as sextas-feiras, alta noite, saíam de suas casas transformados em cachorro ou em porco, e mordiam as pessoas que a tais desoras encontravam; estas, por sua vez, ficavam sujeitas a transformarem-se em Lobisomens…" [1]
Há também quem diga que um oitavo filho que tem sete irmãs mais velhas se torna lobisomem ao completar treze anos. Também dizem que o sétimo filho de um sétimo filho se tornará um lobisomem.
A lenda do lobisomem é muito conhecida no folclore brasileiro, e assim como em todo o mundo, os lobisomens são temidos por quem acredita em sua lenda. Algumas pessoas dizem que além da prata o fogo também mata um lobisomem. Outras acreditam que eles se transformam totalmente em lobos e não metade lobo metade homem.

Algumas lendas também dizem que se um ser humano for mordido por um lobisomem, e não o encontrar a cura até a 12ª badalada desse mesmo dia, ficará lobisomem para toda a eternidade. No interior do estado de São Paulo, divisa com Minas Gerais, está localizada a cidade de Joanópolis, capital mundial do Lobisomem, com o maior número de avistamentos da fera registrados em uma só cidade até hoje e quando se questionava acerca da razão da existência de tal coisa, as respostas eram algo unânimes: "As palavras dos batizados eram outras..." e mencionava-se as razões já ditas na lenda brasileira. Por vezes, quando as pessoas vinham de uma festa ou convívio, ou simplesmente vinham da horta, a pé ou de carroça, e estamos a falar há 30 ou 40 anos atrás (ou mais), não raras vezes era ouvido um som repetitivo, como um trovão constantemente a tronar, de longe e associava-se isso aos lobisomens.
Desde há alguns anos para cá que não se ouve falar de um caso desses, mas ainda perduram na memória as histórias que nos contavam em pequenos, como a do homem que conversava com os seus amigos no café, e deixa escapar: "Como me custa subir a serra da Ladeira de noite, com pés de porco…".
Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no Rifão de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):
Sois danado lobishomem,
Primo d’Isac nafú;
Sois por quem disse Jesus
Preza-me ter feito homem.
(Garcia de Resende, Excertos, por António Feliciano de Castilho, Livraria Garnier, Rio de Janeiro, 1865, p. 24).
É também mencionado no Vocabulario Portuguez e Latino de Rafael Bluteau (tomo V, p. 195) e nos sonetos de Bocage:
Profanador do Aónio santuário,
Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,
Até findar no Inferno o teu fadário!
(Bocage, Obras Escolhidas, primeiro volume, p.122).
http://pt.wikipedia.org/

terça-feira, 27 de setembro de 2011

SERES SOBRENATURAIS: TUTU


Entidade com que se mete medo às crianças quando choram. É roncador. A forma em que o idealizam na Bahia é a de um catitu ou porco do mato. Deste primeiro nome talvez se originasse o termo Tutu, que é popular em todo o Brasil. Ouvi porém dizer que é voz africana e que era usada pelas amas negras. Na Bahia também Tutu-cambê: Olhe o Tutu!... E vem ele! Quando os meninos choram o Tutu vem comer eles... não chore não!

O Tutu-Cambê é um bicho muito feio e só come os meninos bonitos... Aé vem o Tutu!...

Às vezes o Tutu-Cambê, fazendo a devida roncaria, aparece. Para isso cobre-se uma pessoa com um pano andando devagar e roncando.

O Tutu com facilidade se enxota: basta bater-se com o pé no chão e dizer-se: Xô!... Tutu, vai-te embora que o menino não chora mais.

No sul da província de Minas Gerais o Tutu anda oculto atrás das portas e a sua voz é de trovão. Aí é frase popular: "Oia Tutu qui vem comê minino... não como meu fio não, não leva meu fio não, Tutu!...

O Tutu do povo brasileiro é idêntico ao Papão e à Coca de Portugal.

Nas cantigas com que as amas costumam acalentar às crianças quase sempre entra o Tutu. São elas as mais das vezes cantadas de improviso e por isso em muitas nota-se-lhes os defeitos da rima. A seguinte é popular na Bahia; dou-o como documento, porque se refere principalmente ao Tutu-Zambê ou Cambê:

Tutu Zambê

Vem papá sinhazinha;
Tutu vá s’imbora
Sinhazinha ‘stá dormindo.

Tutu Zambê
Vem papá iaiazinha,
Bébe, aí, boi,
Iaiazinha ‘stá dormindo,
Tutu vá ‘s’embora.

Evem o Tutu
Por detrás do murungu,
Pra comer sinhazinha
C’um pedacinho de angu.

Cala a boca, Iaiazinha,
Que seu pai já vem já,
Foi buscar timão de seda,
Forrado de tafetá.

No interior da província do Rio de Janeiro cantam monotonamente as pretas, umas quadrinhas para fazerem as crianças dormir. Uma delas diz assim:

Tutu vá s’embora
Pra cima do telhado,
Deixa o nhonhô
Dormir sossegado.

O senhor doutor Sílvio Romero nos seus Cantos populares do Brasil, v. 1, sob nº 181, coligiu no Rio de Janeiro uma canção que termina com a seguinte estrofe:

Tu-tu-ru-tu-tu
Lá detrás do murundu...
Teu pai e tua mãe
Que te comam com angu.

Também a ouvi cantar no Rio de Janeiro desgarrada da estrofe que a antecede na coleção do senhor doutor Sílvio Romero apenas com variante no segundo verso, que diz:

- Por detrás do murundu...

Na província do Rio de Janeiro igualmente coligi a canção do Tutu, que é muito popular entre as amas negras para acalentar as crianças e que apenas se reduz a estes versos:

Tu-ru-tu-tu
Do velho murundu,
Agarra este menino
Comei-o com angu.

Em Campos, ainda na província do Rio de Janeiro, são populares estas duas estrofes:

Tu-tu-ru-tu
Senhor Capitão,
Pegai este menino
Comei com feijão.

Tu-tu-ru-tu
Por detrás do murundu,
Pegai este menino
Comei com angu.

Ora, como se vê na Bahia diz-se murungu que rima perfeitamente nas canções com "angu", voz africana, e no Rio de Janeiro, murundu, que dão como significação de um pequeno monte, por detrás do qual se acha o Tutu.

Murungu é palavra guarani ou tupi e nome de árvore natural do país, da família das leguminosas (Erythrina corallodendron, Linn). Na Bahia é este o nome que lhe dão; mas no Rio de Janeiro, Maranhão, Pernambuco e Alagoas - o de mulungu. Como o tijim ou jequiriti, a semente desta árvore é muito popular entre as crianças pela beleza de sua cor vermelha. Ainda na farmácia brasileira o murungu é empregado. Trata-se pois de uma árvore cujo nome é constantemente pronunciado com a maior clareza.

Entre os brasileiros é freqüente, como lapso de língua, ouvir-se a transformação do l em r e vice-versa. Se porém a palavra murungu da canção da Bahia é brasileira ou corrupção de murundu das do Rio de Janeiro e esta mulundia africana (mbunda ou angolense), que significa exatamente monte, segundo Cannecattin no Dicionário da língua bunda ou angolense, é o que não posso resolver.

Entretanto se na Bahia é realmente palavra Zambê que aduzem ao Tutu e não Cambê (que pode também ser voz africana ou tupi ou ainda corrupção de "comer" português) e se o murungu da canção é a voz mbunda mulundu alterada, é provável o Tutu brasileiro, mas herdado da raça africana.

Zambê será corrupção de Zambi, palavra angolense que significa Deus? ou de Zumbi, voz também angolense que quer dizer alma do outro mundo? Cambé pode talvez ser corrupção do Tambi, que segundo Batista Caetano significa pêlo erguido; e como na Bahia dão ao Tutu a forma de porco do mato, é natural que o seu cabelo seja erguido, eriçado, como o tem o catitu quando está zangado. Em umas notas que possuo tomadas pelo doutor Batista Caetano do velho caboclo Pedro João Vieira, na antiga aldeia de São José dos Campos, acham-se as palavras Cambê (kamby, ort. de Bat. Caet.) significando leite, e Cambu, mamar. No Vocabulário impresso de Batista Caetano encontra-se além de cambi, leite e cambu, mamar, o verbo cambi, que significa magoar, ofender, machucar, etc. Não se deve ainda esquecer dizer que Camba, voz angolense, significa amigo.

De parte a parte, das raças indígenas e africana, apareciam objetos, trajes, costumes e crenças novas que não tinham equivalente na linguagem dos invasores. A língua dos indígenas de todo o litoral era o tupi, mas a dos negros compreendia diversos grupos formados por idiomas particulares. Daí era grande a confusão de línguas africanas para poder entrar com mais facilidade maior número de palavras, na formação da linguagem brasileira. É costume nosso dizermos de qualquer palavra dos negros da Africa – É voz africana, sem contudo procurarmos designar ou indagar a que língua ou idioma pertence ela. É o mesmo que se dizer - É voz americana, referindo-se a algum termo dos povos indígenas da América, expressão vaga e que não se aplica senão ao continente a que ela se filia. Assim nos primeiros tempos da introdução dos negros as diversas línguas africanas andavam muito em voga, juntamente com o tupi, de modo que a linguagem falada era quase sempre mesclada de vozes que só os naturais e habitantes da terra compreendiam. Muitos desses vocábulos, como se sabe, ainda hoje permanecem; outros porém desapareceram de todo e de alguns que vão aparecendo nos documentos manuscritos até se desconhece o sentido. Não havia dicionaristas da língua portuguesa que o fosse coligindo, só mais tarde o brasileiro Morais e Silva foi que recolheu alguns para o seu dicionário. Aí estão por exemplo as produções do poeta Gregório de Matos, em parte publicadas ultimamente, em que se deparam dezenas de vocábulos por ele empregados, que hoje não se sabe qual a sua origem e o seu verdadeiro sentido. Apesar disso o poeta baiano como lingüista presta auxilio poderoso à linguagem brasileira. É o escritor que nos dá a idéia mais exata do modo de falar e escrever no Brasil no XVII século. O seu vocabulário é riquíssimo, principalmente em locuções e termos populares da Bahia e de Pernambuco, sem excetuar, já os de origem guarani, já os derivados das línguas africanas, e é o único documento daquele século que possuímos neste gênero de estudos.

É pois constante a dúvida de se saber ao certo a língua a que pertence esta ou aquela voz alterada que se encontra na escrita antiga ou mesmo muito popularizada na linguagem da família brasileira.

Hoje é que se discute a procedência das palavras mazombo, mameluco, emboaba, cafuz, cabo-verde, curiboca, carioca e outras muitas. O doutor Batista Caetano, o nosso saudoso Mestre, cuja perda será sempre lamentada por todos os que se interessam por estes assuntos, descobriu visos que a palavra carapuça era abañeênga ou guarani, procurando dar-lhe a etimologia; mas quando leu na carta de Vaz de Caminha que a tripulação da armada de Cabral, que descobriu o Brasil, distribuiu carapuças aos naturais da terra, antes que tivessem os portugueses qualquer contato com eles, viu que tinha caído em erro, erro que o Mestre muito se doía.

A que língua pois pertence a voz Tutu, se de origem africana ou tupi, ou se inteiramente brasileira, e o que não se sabe por ora.


(Vale Cabral. Alfredo do. "Achegas ao estudo do folclore". Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro)

A história dos santos irmãos - São Cosme e São Damião



A história dos santos irmãos

São Cosme e São Damião são dois santos orientais, provavelmente martirizados em Egéia, Cilícia, Ásia Menor, região da atual Turquia, a 27 de setembro de 287, durante a perseguição do imperador Diocleciano (284-305). Historicamente, pouco se sabe sobre a vida destes dois irmãos médicos e, segundo a tradição, gêmeos. Seus restos mortais foram levados para Roma, durante o pontificado de João Félix, e depositados na igreja que tem seus nomes.

Seu culto divulgou-se intensamente pela Europa, principalmente na Itália, Flandres, França, Espanha e Portugal, onde várias igrejas foram construídas sob seu patronato. Considerados protetores dos cirugiões, eram padroeiros de diversas confrarias, como por exemplo, a Confrérie et College de Saint Côme, fundada em Paris, em 1226, a mais famosa associação médica da Europa e que existiu até a Revolução Francesa. Nas primeiras décadas do século XIX, pagava-se na Universidade de Coimbra a quantia de 480 réis pelo registro do diploma de medicina e 100 réis pelo exame de boticário, valores devidos à Irmandade dos Santos Cosme e Damião.

Estão ligados aos cultos dos deuses da reprodução, fecundação, germinação e moléstias sexuais. No Brasil, estão mais dedicados à defender da fome, das doenças do sexo e dos partos de gêmeos. No sincretismo religioso, os jeje-nagôs os identificaram como os orixás gêmeos sudaneses Ibeiji, que são a divinização do parto duplo. No seu diaoblacional, recebem festas também no candomblé, com ofertas de alimentos e reunião de amigos para danças, comidas e bebidas. Em grego são chamados de anargiros, o que significa sem dinheiro, por nunca receberem dinheiro em troca de seus serviços. Curavam não somente pessoas, mas também animais.

Conta a tradição popular que um dia, São Damião aceitou uma pequena oferta de uma mulher chamada Paládia, a quem havia curado de uma doença. São Cosme recriminou-lhe o gesto, dizendo que não queria ser enterrado junto a ele. Quando os cristãos recolheram seus restos mortais para sepultá-los, um camelo começou a bradar com voz humana, dizendo que enterrassem os dois irmãos juntos, uma vez que Damião recebera a oferta apenas para não humilhar a pobre mulher.

O passeio da peste


Viriato Padilha
Estamos em uma aldeia de índios batizados, situada à margem do rio Tieté.

Administra-a o venerando jesuíta, padre Domingos Salazar, homem dos seus cinqüenta anos, e que há vinte se ocupa na árdua missão da catequese, segregado da sociedade civilizada e do convívio dos seus irmãos da Ordem.

O sol começa a afundar-se por detrás das serranias azuis que se empinam ao longe; chilram cigarras no arvoredo de folhagem amarelada pela canícula; e a caboclada, que já terminou nesse dia os trabalhos a que a obriga o severo jesuíta, estira-se nas redes de tucum, a bocejar, enlanquecida pelo fortíssimo calor do dia.

O padre Domingos Salazar, com as mãos cruzadas sobre o peito magro, de fisionomia carrancuda, a remoer no cérebro um pensamento que, pelas rugas fundas da fronte, parece aflitivo, passeia vagarosamente na frente do seu ranchinho, um pouco afastado dos da tribo, e de vez em quando levanta os olhos para o céu onde leves nuvens se esgarçam, varridas por brisas altíssimas.

Já há um mês que não chove: o milho plantado pelos bugres está torcendo as folhas e secando o pendão, antes que o pólen se tenha derramado sobre a boneca e gerado o fruto; vão escasseando as águas correntes e as dos charcos começam a apodrecer, exalando emanações pestilenciais.

O padre Domingos Salazar sente-se incomodado com a prolongação da seca; o calor tornou-se insuportável; a colheita do milho e da mandioca está irremediavelmente perdida, e, o que é mais grave, anuncia-se a invasão de uma epidemia qualquer no aldeamento.

Já dois meninos, que andavam no brejo a pescar traíras, caíram com febres de mau caráter; já vagam bugres pelo mato, colhendo a casca do pau-pereira para rebater as malignas.

Indubitavelmente as coisas iam mal, e o padre Domingos Salazar sentia-se embaraçado sobre o modo de resolver a crise com que se achava a braços.

A aldeia distava cerca de trinta léguas do primeiro povoado colonial. Não havia remédios para debelar o mal, se irrompesse, e, além disso, a caboclada era refratária, por índole e natureza, a qualquer prescrição higiênica.

– João tá com febe, – disse de repente uma cabocla que surgira no oitão da cerca, agravando assim, com anúncio tão desagradável, o desassossego do jesuíta.

A cabocla trazia ao colo um menino de quatro para cinco anos, que tinha os olhos quebrados e a pele afogueada por intensa febre.

– Com certeza deixaste que se metesse com os outros pelos brejos. Agora aí o tens com uma maligna, talvez, – observou o padre Domingos Salazar em tom aborrecido e tomando o pulso ao doentinho. "Está ardendo em febre... É isso, não fazeis caso do que digo!... "

Diversos caboclos aproximaram-se para ver a criança enferma, e o padre Salazar, entrando no seu ranchinho, de lá trouxe um cobertor de lã.

– Agasalha o menino com este cobertor e.deita-o na rede. Ao mesmo tempo faze coser estas ervas em pouca água e logo que estiverem fervendo, tira a panela do fogo e vem dizer-me.

E voltando-se para os seus administrados que o rodeavam nesse momento, exclamou em tom imperativo:

– Previnam às mulheres que enquanto não chover não consintam que a criançada se meta pelos brejais. Há muitos dias que não chove, têm morrido peixes e caranguejos em grande quantidade, e com esta soalheira apodrecem e desprendem vapores que envenenam as criaturas.

Os caboclos ouviram em silêncio, habituados como se achavam a obedecer em tudo ao austero discípulo de Loiola. Um deles, porém, já velho e que era o cacique do bando aldeia do, abanou a cabeça, como que duvidando que a causa da enfermidade que começava a declarar-se entre os seus fossem as emanações pútridas dos charcos, e disse:

– Peste vem do brejo?! Hum! Pode ser, mas não tenho fé. – E voltando-se para os caboclos: – Não se lembram daquele tupinambá que passou por aqui na lua-nova?

– Que tem o tupinambá com as febres? – interrompeu o padre Salazar contrariado.

– Desconfio que ele andava passeando a peste. Não te lembras, padre, como ele caminhava tão vergado para o chão, sendo no entanto ainda moço? E parecia tão triste, tão cansado! Andava com certeza passeando a peste. Infelizes de nós!

Todos os caboclos aprovaram o que dissera o maioral, e o padre Salazar, que percebeu naquelas palavras a revelação de uma lenda religiosa ou de um mito, mordido pela curiosidade, abancou-se em um toro de madeira que havia no terreiro, e pediu ao índio velho que lhe contasse por que forma a peste passeava.

Então, o índio, sentando-se ao lado do padre, ao passo que os outros, interessados na audição da lenda, se acocoravam no chão, contou em tom pausado e grave a seguinte história:

* * *

Era no tempo dos cajus maduros, e todo o povo dos guaianases andava na colheita dos frutos, para com eles preparar o cajuí, a excelente bebida com a qual se embriagaria no poracé, a grande festa sagrada da nação.

Isto deu-se antes que os portugueses chegassem aqui pela primeira vez, e muitas gerações já se passaram depois que tal aconteceu.

Um homem daquele povo (Irerê-una se chamava ele), saiu uma manhã para colher caju, e tendo já enchido um grande panacu, como o sol estava muito quente, e ele se sentia um tanto cansado, deitou-se à sombra da árvore e adormeceu profundamente.

Todos se recolheram às suas casas, e Irerê-una lá ficou, dormindo a sono solto debaixo do cajueiro.

Quando despertou já o sol se ia sumindo atrás das serras e Irerê-una admirou-se de ter dormido tanto.

Logo levantou-se, e preparava-se para lançar o panacu às costas, quando uma visão estranha o fez pasmar, e por tal forma o assustou que lhe tirou os movimentos.

É que lá ao longe, por entre os últimos cajueiros da praia, assomava uma mulher muito alta e de singular aspecto e feições, envolta em longo sudário branco, que, com o andar e com a aragem vinda do mar, se agitava brandamente. Os cabelos em alvoroço lhe escapavam por baixo do sudário. A fisionomia era esquálida e severa. Os braços longos e ressequidos tinha-os ela cruzados sobre o seio no qual não se viam as eminências dos peitos. A pele de seu rosto era avermelhada, sanguínea e pintalgada de manchas negras e roxas, de um roxo de gangrena. Os olhos eram fundos, sumidos nas profundidades do rosto e despediam um lampejo constante, fino como a lâmina de uma faca.

A mulher ia cada vez se aproximando mais, e já estava perto... Irerê-una teve medo, muito mêdo, e voltando as costas ao medonho fantasma, tentou fugir...

Não o pôde, no entanto: a mulher-fantasma estendeu um braço muito longo, sem fim, e pousou a mão sobre o seu ombro, fazendo o infeliz deter-se.

Irerê-una soltou um grito de pavor, e caiu de joelhos, a tremer-lhe o corpo todo. O contato da mão da mulher estranha causara-lhe o efeito de uma cobra que se lhe enroscasse ao pescoço.

– Sabes quem sou? – perguntou a medonha aparição.

– Bem te conheço, és a peste! – respondeu Irerê-una, quase a sucumbir de medo e horror. – Poupa-me, deixa-me viver!

– Sim, sou a peste! – confirmou o fantasma.

– Andava à procura de um homem! Tu me apareceste, tanto melhor! Chegou o tempo de dar o meu passeio por entre os vivos, e assim desci do céu num raio de lua cheia. Escolhi-te; vais servir-me de montaria; desde já trepo em teus ombros, e tu me conduzirás a todas as nações desta terra, a todas as tabas, a todas as ocas. Vou fazer a minha colheita de vidas. Anda, homem, caminha... caminha!... Em paga de teu serviço, não te matarei: sobreviverás a todos os homens!

E dizendo isto, a peste saltou no cangote de Irerê-una, e, aí agarrando-se, começou o pobre índio a caminhar.

Irerê-una não sentia peso algum nas costas, porém todas as vezes que levantava a cabeça dava de rosto com a medonha mulher de rosto avermelhado, pintalgado de um roxo de gangrena.

* * *

E começaram a caminhar – o homem sempre carregando a assombrosa mulher.

Irerê-una levava a peste a toda a parte.

Tudo eram alegrias e festas pelas tabas, antes da sua passagem.

Bebia-se o cajuí, dançava-se o poracé e o yeroqui, tocava-se o boré e a inubia; o maracá chocalhava. Os homens contavam uns aos outros as suas façanhas de guerra e de caça; as mulheres cantavam; as crianças folgavam, cambalhotando na areia dos regatos, ou balançando-se nas cipoadas; as velha torravam a formiga vermelha para extraírem o veneno com que se ervam as setas.

Tudo era festas: defumava-se a carne dos animais mortos pelo matos; secava-se o peixe colhido nas piracemas; 1impavam-se os caminhos para a visita solene dos pajés.

Mas para logo mudavam-se as coisas, desde que por ali passava Irerê-una com o terrível fantasma que o cavalgava. Danças, restas, cantos de moças, prosas de guerra e de caça, folguedos de crianças, trabalhos divertidos – tudo desaparecia, para dar lugar ao pranto, aos gemidos, às dores cruciantes, às longas agonias e à morte.

Por onde Irerê-una passava, ficava um longo rastro de cadáveres, pela maior parte insepultos, a apodrecerem ao sol e servindo de pasto aos corvos.

Crianças, mulheres, guerreiros valentes, pajés venerandos, tudo a peste matava. As aldeias transformavam-se em tristonhas taperas, as canoas vogavam pelo rio abaixo abandonadas pelos remadores, às vezes transportando um cadáver colhido pela peste e por ela fulminado em meio da corrente.

* * *

Irerê-una levou primeiro a peste às aldeias de seus inimigos: aos caetés do sul, aos tupinambás da margem do mar, e depois, não havendo mais taba, nem oca, nem tujupar que não visitasse, foi obrigado a levar o flagelo à sua própria nação, àqueles bons boianases, dos quais ele se orgulhava de ser membro.

Pobre Irerê-una! Quanto lhe doía na alma ver cair um por um todos os guerreiros que ao seu lado outrora combatiam com galhardia, os melhores caçadores da tribo, e as donzelas, as casadas, as velhas, os pajés reverenciados e a criançada alegre! Quanto se amargurava o seu pobre coração em ver todo aquele povo, que era o seu, fulminado pelo fantasma horrendo, e a apodrecer pelos caminhos, sem ter mais quem se ocupasse em sepultar os cadáveres!

Mas que fazer? Todas as vezes que Irerê-una estacava, o fantasma esporeava-o, obrigava-o a caminhar, e a levar por toda a parte a devastação.

* * *

Tendo final Irerê-una chegado à margem de caudalosa torrente que bramia no fundo de um medonho abismo, disse à peste:

– Deixa-me agora Peste; já mataste todos os da minha nação e os das nações vizinhas; destruíste todos os homens, todas as mulheres, todas as crianças, e não ficou taba habitada; deixa-me, pois, terrível peste, nada mais tens a fazer aqui!...

– E aquele tujupar que se vê ali, na encosta do morro, quase a desaparecer por entre as pacoveiras? – disse a peste apontando para uma pequena choupana sumida entre a folhagem. – Ali há gente, homem; leva-me lá.

– Mas aquele tujupar é o meu, peste; Ali vivem minha mulher e filhos.

– Que me importa?! Leva-me ao tujupar da encosta do morro.

– Não, peste, não posso! Como poderei ver atirados à lama do tibicoe, entes que me são tão caros?! Minha mulher é a minha ventura, minha alegria, minha melhor companheira! Meus filhos, serão os perpetuadores do meu nome, os que se encarregarão de dizer aos vindouros as minhas bravuras e as minhas virtudes!

– Leva-me ao teu tujupar, – ordenou novamente a peste.

– Não, não posso; por tal preço seria a vida para mim pesada em extremo, não poderia sobreviver ao aniquilamento de minha mulher e de meus filhos, que tanto prezo.

E dizendo isso, Irerê-una, o malfadado, lançou-se de cabeça para baixo do abismo, e despedaçou-se nas pedras do fundo. A água tingiu-se com o seu sangue e os seus membros foram arrastados pela torrente.

A peste, assim que o infeliz despenhou, deixou-o, mas, como não possuía mais montaria, não pôde transportar-se ao ranchinho da encosta do morro, e despedindo-se da Terra voltou ao céu, subindo por um raio da Lua. Sacrificara-se Irerê-una para salvar sua família. Foi ela o tronco da nova nação goianaz.

* * *

O padre Salazar, com o queixo magro, sumido entre as mãos compridas, tinha ouvido atentamente toda a exposição desta lenda selvagem que para aqui transportamos, apenas alterando a linguagem do narrador. Logo que o velho cacique terminou, dirigiu-lhe a palavra:

– E assim, João Batista, desconfias daquele pobre Tupinambá que por aqui passou na lua-nova?

– De certo. Não vias, padre, como ele caminhava de cabeça tão baixa, que parecia vergado debaixo de um peso tão grande? Pode muito bem ser que o infeliz andasse a passear a peste pelo mundo.

(Padilha, Viriato. O livro dos fantasmas. Rio de Janeiro, Spiker, 1956, p.161-169)