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segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Monteiro Lobato – Jeca Tatuzinho

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Lançado em 1924, Jeca Tatuzinho veio ensinar noções de higiene e saneamento às crianças, por meio do personagem-símbolo criado por Monteiro Lobato. Adaptado no ano seguinte e, ao que consta, oferecido a seu amigo Cândido Fontoura para promoção dos produtos do laboratório Fontoura Serpe & Cia, em especial do Biotônico, chegaria a 100 milhões de exemplares no centenário do escritor.

Considerada a peça publicitária de maior sucesso na história da propaganda brasileira, inspiraria, naquele ano de 1982, a criação do Prêmio Jeca Tatu. Instituído pela agência CBBA – Castelo Branco e Associados, representou uma homenagem “à obra-prima da comunicação persuasiva de caráter educativo, plenamente enquadrada na missão social agregada ao marketing e à propaganda”.

O folheto do Biotônico Fontoura, cujo texto aqui reproduzimos, foi ilustrado em suas primeiras edições por Belmonte e, em seguida, por J. U. Campos.

I

Jeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes.
Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarrões de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Ia ao mato caçar, tirar palmitos, cortar cachos de brejaúva, mas não tinha idéia de plantar um pé de couve atrás da casa. Perto corria um ribeirão, onde ele pescava de vez em quando uns lambaris e um ou outro bagre. E assim ia vivendo.
Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis, nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho de três pernas, umas peneiras furadas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária, e só.
Todos que passavam por ali, murmuravam:
- Que grandessíssimo preguiçoso!

II
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Jeca Tatu era tão fraco que, quando ia lenhar, vinha com um feixinho que parecia brincadeira. E vinha arcado, como se estivesse carregando um enorme peso.
- Por que não traz de uma vez um feixe grande? perguntaram-lhe um dia.
Jeca Tatu cortou a barbicha rala e respondeu:
- Não paga a pena.
Tudo para ele não pagava a pena. Não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar árvores de fruta, nem remendar a roupa.
Só pagava a pena beber pinga.
- Por que você bebe, Jeca? diziam-lhe.
- Bebo para esquecer.
- Esquecer do quê?
- Esquecer as desgraças da vida.
E os passantes murmuravam:
- Além de vadio, bêbado …

III

Jeca possuía muitos alqueires de terra, mas não sabia aproveitá-la. Plantava todos os anos uma rocinha de milho, outra de feijão, uns pés de abóbora e mais nada. Criava em redor da casa um ou outro porquinho e meia dúzia de galinhas. Mas o porco e as aves que cavassem a vida, porque Jeca não lhes dava o que comer. Por esse motivo o porquinho nunca engordava, e as galinhas punham poucos ovos.
Jeca possuía ainda um cachorro, o Brinquinho, magro e sarnento, mas bom companheiro e leal amigo.
Brinquinho vivia cheio de bernes no lombo e muito sofria com isso. Pois apesar dos ganidos do cachorro, Jeca não se lembrava de lhe tirar os bernes. Por que? Desânimo, preguiça…
As pessoas que viam aquilo, franziam o nariz.
- Que criatura imprestável! Não serve nem para tirar berne de cachorro…

IV

Jeca só queria beber pinga e espichar-se ao sol, no terreiro. Ali ficava horas, com o cachorrinho rente, cochilando. A vida que rodasse, o mato que crescesse na roça, a casa que caísse. Jeca não queria saber de nada. Trabalhar não era com ele.
Perto morava um italiano já bastante arranjado, mas que ainda assim trabalhava o dia inteiro. Por que Jeca não fazia o mesmo?
Quando lhe perguntavam isso, ele dizia:
- Não paga a pena plantar. A formiga come tudo.
- Mas como é que seu vizinho italiano não tem formiga no sítio?
- É que ele mata.
E por que você não faz o mesmo?
Jeca coçava a cabeça, cuspia por entre os dentes e vinha sempre com a mesma história:
- Quá! Não paga a pena …
- Além de preguiçoso, bêbado; e além de bêbado, idiota, era o que todos diziam.

V

Um dia um doutor portou lá por causa da chuva e espantou-se de tanta miséria. Vendo o caboclo tão amarelo e magro, resolveu examiná-lo.
- Amigo Jeca, o que você tem é doença.
- Pode ser. Sinto uma canseira sem fim, e dor de cabeça, e uma pontada aqui no peito, que responde na cacunda.
- Isso mesmo. Você sofre de ancilostomíase.
- Anci… o que?
- Sofre de amarelão, entende? Uma doença que muitos confundem com a maleita.
- Essa tal maleita não é sezão?
- Isso mesmo. Maleita, sezão, febre palustre ou febre intermitente: tudo a mesma coisa.
A sezão também produz anemia, moleza e esse desânimo do amarelão; mas é diferente. Conhece-se a maleita pelo arrepio ou calafrio que dá, pois é uma febre que vem sempre em horas certas e com muito suor. Quem sofre de sezão sara com o MALEITOSAN FONTOURA. Quem sofre de amarelão sara com a ANKILOSTOMINA FONTOURA. Eu vou curar você.

VI

O doutor receitou um vidro de ANKILOSTOMINA FONTOURA, para tomar assim: seis comprimidos hoje pela manhã e outros seis amanhã de manhã.
- Faça isto duas vezes, com o espaço de uma semana. E de cada vez tome também um purgante de sal amargo, se duas horas depois de ter ingerido a ANKILOSTOMINA não tiver evacuado. E trate de comprar um par de botinas e alguns vidros de BIOTÔNICO e nunca mais me ande descalço e nem beba pinga, ouviu?
-Ouvi, sim, senhor!
- Pois é isso, rematou o doutor, tomando o chapéu. A chuva já passou e vou-me embora. Faça o que mandei, que ficará forte, rijo e rico como o italiano. Na semana que vem estarei aqui de volta.
- Até por lá, sêo doutor!
Jeca ficou cismando. Não acreditava muito nas palavras da Ciência, mas por fim resolveu comprar os remédios, e também um par de botinas ringideiras.
Nos primeiros dias foi um horror. Ele andava pisando em ovos. Mas acostumou-se, afinal…

VII

Quando o doutor voltou, Jeca estava bem melhor, graças à ANKILOSTOMINA e ao BIOTÔNICO. O doutor mostrou-lhe com uma lente o que tinha saído das suas tripas:
- Veja, sêo Jeca, que bicharia tremenda estava você a criar na barriga! São os tais ancilóstomos, uns bichinhos dos lugares úmidos, que entram pelos pés, vão varando pela carne adentro até alcançarem os intestinos. Chegando lá, grudam-se nas tripas e escangalham com o freguês.
Tomando a ANKILOSTOMINA, você bota fora todos os ancilóstomos que tem no corpo. E andando sempre calçado, não deixa que entrem os que estão na terra. Fazendo isso e fortalecendo-se com alguns vidros de BIOTÔNICO, ovos e leite, você fica livre da doença para sempre.
Jeca abriu a boca, maravilhado.
- Os anjos digam amém, sêo doutor!

VIII

Mas Jeca não podia acreditar numa coisa: que os bichinhos entrassem pelo pé. Ele era “positivo” e dos tais que “só vendo”. O doutor resolveu abrir-lhe os olhos: Levou-o a um lugar úmido, atrás de casa, e disse:
- Tire a botina e ande um pouco por aí.
Jeca obedeceu.
- Agora venha cá. Sente-se. Bote o pé em cima do joelho. Assim. Agora examine a pele com essa lente.
Jeca tomou a lente, olhou e percebeu vários vermes pequeninos que já estavam penetrando na sua pele, através dos poros. O pobre homem arregalou os olhos, assombrado.
- E não é que é mesmo? Quem “haverá” de dizer!…
- Pois é isso, sêo Jeca, e daqui por diante não duvide mais do que disser a Ciência.
- Nunca mais! Daqui por diante dona Ciência está dizendo, Jeca está jurando em cima! T’esconjuro! E pinga, então, nem para remédio…

IX

Tudo o que o doutor disse aconteceu direitinho! Três meses depois ninguém mais conhecia o Jeca. A ANKILOSTOMINA curou-o do Amarelão. O BIOTÔNICO deixou-o bonito, corado, forte como um touro.
A preguiça desapareceu. Quando ele agarrava no machado, as árvores tremiam de pavor.
Era pã, pã, pã… horas seguidas, e os maiores paus não tinham remédio senão cair.
E Jeca, cheio de coragem, botou abaixo o capoeirão, para fazer uma roça de três alqueires. E plantou eucaliptos nas terras que não se prestavam para cultura. E consertou todos os buracos da casa. E fez um chiqueiro para os porcos. E um galinheiro para as aves. O homem não parava, vivia a trabalhar com fúria que espantou até o seu vizinho italiano.
- Descanse um pouco, homem! Assim você arrebenta… diziam os passantes.
- Quero ganhar o tempo perdido, respondia ele, sem largar do machado. Quero tirar a prosa do “italiano”.

X

Jeca, que era um medroso, virou valente. Não tinha mais medo de nada, nem de onça! Uma vez, ao entrar no mato, ouviu um miado estranho.
- Onça! Exclamou ele. É onça e eu aqui sem uma faca!…
Mas não perdeu a coragem. Esperou a onça, de pé firme. Quando a fera o atacou, ele ferrou-lhe tamanho murro na cara que a bicha rolou no chão, tonta. Jeca avançou de novo, agarrou-a pelo pescoço e estrangulou-a.
- Conheceu, papuda? Você pensa que está lidando com algum pinguço opilado? Fique sabendo que tomei ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO e uso botina ringideira!…
A companheira da onça, ao ouvir essas palavras, não quis saber de histórias – azulou! Dizem que até hoje está correndo…

XI

Ele, que antigamente, quando lenhava, só trazia três pausinhos, carregava agora cada feixe que metia medo. E carregava-os sorrindo, como se o enorme peso não passasse de brincadeira.
- Amigo Jeca, você arrebenta! diziam-lhe. Onde se viu carregar tanto pau de uma vez?
- Já não sou aquele de dantes! Isto para mim agora é canja… respondia o caboclo, sorrindo.
Quando teve de aumentar a casa, foi a mesma coisa. Derrubou no mato grossas perobas, atorou-as, lavrou-as e trouxe no muque para o terreiro as toras todas. Sozinho!
- Quero mostrar a essa paulama quanto vale um homem que tomou ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO, que usa botina cantadeira e que não bebe nem um só martelinho de cachaça!
O italiano via aquilo e coçava a cabeça.
- Se eu não tropicar direito, este diabo me passa na frente. Per Bacco!

XII

Dava gosto ver suas roças. Comprou arados e bois, e não plantava nada sem primeiro afofar a terra. O resultado foi que os milhos vinham lindos e o feijão era uma beleza.
O italiano abria a boca, admirado, e confessava nunca ter visto roças assim.
E Jeca já não plantava rocinhas, como antigamente. Só queria saber de roças grandes, cada vez maiores, que fizessem inveja no bairro.
E se alguém lhe perguntava:
- Mas para que tanta roça, homem? ele respondia:
- É que agora quero ficar rico. Não me contento com trabalhar para viver. Quero cultivar todas as minhas terras, e depois formar aqui duas enormes fazendas – a Fazenda Ankilostomina e Fazenda Biotônico. E hei de ser até coronel…
E ninguém duvidava mais. O italiano dizia:
- E forma mesmo! E vira mesmo coronel! Per la Madonna!

XIII

Por esse tempo, o doutor passou por lá e ficou admiradíssimo com a transformação de seu doente.
Esperara que ele sarasse, mas não contara com tal mudança.
Jeca o recebeu de braços abertos e apresentou-o à mulher e aos filhos.
Os meninos cresciam viçosos, e viviam brincando, contentes como os passarinhos.
E toda gente ali andava calçada. O caboclo ficara com tanta fé no calçado, que metera botinas até nos animais caseiros!
Galinhas, patos, porcos, tudo de sapatinho nos pés! O galo, esse andava de bota e espora!
- Isso também é demais, sêo Jeca, disse o doutor. Isso é contra a natureza!
- Bem sei. Mas quero dar um exemplo a esta caipirada bronca. Eles vêm aqui, vêem isso e não se esquecem mais da história.

XIV

Em pouco tempo os resultados foram maravilhosos. A porcada aumentou de tal modo, que vinha gente de longe admirar aquilo. Jeca adquiriu um caminhão, e em vez de conduzir os porcos ao mercado pelo sistema antigo, levava-os de auto, num instantinho, buzinando pela estrada afora, fon-fon! Fon-fon! …
As estradas eram péssimas; mas ele consertou-as à sua custa. Jeca parecia um doido. Só pensava em melhoramentos, progressos, coisas americanas. Aprendeu logo a ler, encheu a casa de livros e por fim tomou um professor de inglês.
- Quero falar a língua dos bifes para ir aos Estados Unidos ver como é lá a coisa.
O seu professor dizia:
- O Jeca só fala inglês agora. Não diz porco; é pig. Não diz galinha; é hen… Mas de álcool, nada. Antes quer ver o demônio, que um copinho da “branca”…

XV

Jeca só fumava charutos fabricados especialmente para ele, e só corria as roças montado em cavalos árabes de puro sangue.
- Quem o viu e quem o vê! Nem parece o mesmo. Está um “estranja” legítimo, até na fala.
Na “Fazenda Biotônico” havia de tudo. Campos de alfafa. Pomares belíssimos com quanta fruta há no mundo. Até criação do bicho-da-seda; Jeca formou um amoreiral que não tinha fim.
- Quero que tudo aqui ande na seda, mas seda fabricada em casa. Até os sacos aqui da fazenda tem que ser de seda, para moer os invejosos…
E ninguém duvidava de nada.
- O homem é mágico, diziam os vizinhos. Quando assenta de fazer uma coisa, faz mesmo, nem que seja um despropósito…

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XVI

A “Fazenda Biotônico” tornou-se famosa no país inteiro. Tudo ali era por meio do rádio e da eletricidade. Jeca, de dentro do seu escritório, tocava num botão e o cocho do chiqueiro se enchia automaticamente de rações muito bem dosadas. Tocava outro botão e um repuxo de milho atraía todo o galinhame!…
Suas roças eram ligadas por telefones. Da cadeira de balanço na varanda, ele dava ordens aos feitores, lá longe.
Chegou a mandar buscar nos Estados Unidos um aparelho de televisão.
- Quero aqui desta varanda ver tudo o que se passa em minha fazenda.
E tanto fez, que viu. Jeca instalou os aparelhos, e assim pôde, da sua varanda, com o charutão na boca, não só falar por meio do rádio para qualquer ponto da fazenda, como ainda ver, por meio da televisão, o que os camaradas estavam fazendo.

XVII

Ficou rico e estimado, como era natural; mas não parou aí. Resolveu ensinar o caminho da saúde aos caipiras das redondezas. Para isso montou na fazenda e vilas próximas vários POSTOS DE MALEITOSAN, onde tratava os enfermos de sezões; e também POSTOS DE ANKILOSTOMINA, onde curava os doentes de amarelão e outras verminoses.
E quando algum empregado sentia alguma dor de cabeça, se estava resfriado, Jeca arrumava-lhe uns dois ou três comprimidos de Fontol, e imediatamente o homem estava bom, e pronto para o serviço.
O seu entusiasmo era enorme. “Hei de empregar tôda minha fortuna nesta obra de saúde geral, dizia. Meu patriotismo é este. Minha divisa: Curar gente. Abaixo a bicharia! Viva o Biotônico! Viva ANKILOSTOMINA! Viva o Maleitosan! Viva o Fontol!”
A estes vivas o coronel Jeca aumentou mais um. Foi quando apareceu o grande “liquida-insetos” chamado DETEFON e ele o experimentou na miuçalha da fazenda: pulgas, percevejos, piolhos, baratas, pernilongos e moscas. Deixou aquilo lá sem um só bichinho para remédio.
Não contente com isso, Jeca tomou o hábito de nunca sair a cavalo ou de automóvel sem levar a tiracolo a bomba de pulverizar o DETEFON. Entrava nos casebres de beira de caminho e antes do “Bom dia!” punha-se fon, fon, fon, detefon, a pulverizar tudo, coisas e gentes. Quando acaba, dizia:
- Ninguém faz a conta dos males que estes bichinhos causam à humanidade, como transmissores de moléstias… e dava mais umas bombadas de lambuja.
E a curar gente da roça passou Jeca toda a sua vida. Quando morreu, aos 89 anos, não teve estátua ou grandes elogios nos jornais. Mas ninguém ainda morreu de consciência mais tranqüila. Havia cumprido o seu dever até o fim.

XVIII

Meninos: nunca se esqueçam desta história; e, quando crescerem, tratem de imitar o Jeca. Se forem fazendeiros, procurem curar os camaradas. Além de ser para eles um grande benefício, é para você um alto negócio. Você verá o trabalho dessa gente produzir três vezes mais.
Uma país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente.
Ora, ter mais saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. E o grande remédio que combate o amarelão, esse mal terrível que tantos braços preciosos rouba ao trabalho, é a ANKILOSTOMINA. Assim como o grande conservador da saúde, que produz energia, força e vigor, chama-se BIOTÔNICO FONTOURA.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A figura do negro em Monteiro Lobato


Marisa Lajolo é Professora Titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp, coordena o GT de História da Literatura da Anpoll ( http://www.unicamp.br/iel/histlist) e o projeto Memória de Leitura ( http://www.unicamp.br/iel/memoria) . Entre suas publicações destacam-se A formação da leitura no Brasil ( com Regina Zilberman, premio Açoreanos 97) Do mundo da leitura para a leitura do mundo ( prêmio Jabuti 94) e O que é literatura.

Na verdade, não há necessidade alguma de se trazer a política para o âmbito da teoria literária: como acontece com o esporte sul-africano, elas estão juntas há muito tempo. Por "político" entendo apenas a maneira como organizamos conjuntamente nossa vida social e as relações de poder que isso implica.[2]
Discutir a representação do negro na obra de Monteiro Lobato, além de contribuir para um conhecimento maior deste grande escritor brasileiro, pode renovar os olhares com que se olham os sempre delicados laços que enlaçam literatura e sociedade, história e literatura, literatura e política e similares binômios que tentam dar conta do que, na página literária, fica entre seu aquém e seu além.
Além do texto, aquém da vida.
Tia Nastácia, negra de estimação que carregou Lúcia em pequena [3] ganha as primeiras atenções: ela desfruta da afetividade da matriarcal família branca para a qual trabalha e, ao mesmo tempo, apesar de suas breves mas muito significativas incursões pela sala e varanda, encontra no espaço da cozinha emblema de seu confinamento e de sua desqualificação social .Ao longo da obra infantil lobatiana, a exceção ao carinho brincalhão que a cerca vem sempre pela boca da Emília que em momentos de discussão e desentendimento desrespeita a velha cozinheira, como sucede em algumas passagens de Histórias de Tia Nastácia :
Pois cá comigo - disse Emília- só aturo estas histórias como estudos da ignorância e burrice do povo. Prazer não sinto nenhum. Não são engraçadas, não têm humorismo. Parecem-me muito grosseiras e até bárbaras - coisa mesmo de negra beiçuda, como Tia Nastácia. Não gosto, não gosto, e não gosto ! [4]
- Bem se vê que é preta e beiçuda ! Não tem a menor filosofia, esta diaba. Sina é o seu nariz, sabe ? Todos os viventes têm o mesmo direito à vida, e para mim matar um carneirinho é crime ainda maior do que matar um homem. Facínora !- Emília, Emília ! - ralhou Dona Benta.A boneca botou-lhe a língua (p.132)Similares má-criações têm servido de munição para leituras que tomam o xingamento como manifestação explícita do racismo de Lobato, questão incômoda, de que os estudiosos do escrito têm de dar conta :
(...) é fora de dúvida que Lobato subscreve preconceitos etnocêntricos e mesmo racistas (...) [5]
"Tia Nastácia, por exemplo, é um poder que representa a presença da cultura e saber populares, um saber mágico, empírico, fruto do conhecimento da vida pelo seu exercício real.
(...) Após cada história contada pela cozinheira, há comentário dos personagens. A maior parte destes comentários falam da pobreza e da ingenuidade da imaginação popular . Todos criticam as histórias de tia Nastácia, principalmente Emília, que as considera bobagens de negra velha. (...) apesar de todo este descontentamento com as histórias folclóricas, em A chave do tamanho, Emília consegue salvar sua vida ameaçada pelos insetos, lembrando-se de uma das histórias da cozinheira (p/139-140) [6]Francamente eugenista, a trama urdida por Lobato em O choque, onde a inteligência dos brancos acabava vencendo, vem destacar posições ambíguas do escritor. Mas, se neste livro ele abraça idéias acerca da superioridade racial, em outros momentos resgata o elemento de origem africana e reconhece seu papel na cultura brasileira - como na caracterização de Tia Nastácia e Tio Barnabé - personagens do Sítio do Picapau Amarelo representantes do saber popular. E tampouco se esquiva em denunciar as crueldades do escravismo, conforme se pode constatar no conto "Negrinha". [7]Efetivamente, a representação do negro, em Lobato, não tem soluções muito diferentes do encaminhamento que a questão encontra na produção de boa parte da intelectualidade brasileira, e não só da contemporânea de Lobato, como vêm ensinando os estudos de Heloísa Toller [8] . Longe de desqualificar a questão, esta ambigüidade torna-a ainda mais relevante. Mas os melhores ângulos para discuti-la não se esgotam na denúncia bem intencionada dos xingamentos de Emília, absolutamente verossímeis e, portanto, esteticamente necessários numa obra cuja qualidade literária tem lastro forte na verossimilhança das situações e na coloquialidade da linguagem.Caminho mais sugestivo do que este parece ser discutir como se coloca a questão da representação do negro no livro Histórias de Tia Nastácia, onde ela comparece a partir do título. Publicada em 1937, a obra é uma antologia de contos populares contados em uma moldura narrativa familiar à obra de Lobato: tia Nastácia desfia histórias para os demais moradores do sítio que, na posição de ouvintes, comentam as histórias que ouvem. À medida que o livro prossegue, as relações entre Tia Nastácia e seus ouvintes vão se tornando mais tensas quanto mais cresce a insatisfação da platéia com as histórias narradas, às quais ninguém poupa críticas:
Eu (...) acho muito ingênua esta história de rei e princesa e botas encantadas, disse Narizinho. Depois que li Peter Pan, fiquei exigente . Estou de acordo com a Emília (p.13)
A crítica a histórias da carochinha não é de modo algum inovação deste livro, já que em outras passagens da obra de Lobato diferentes personagens exprimem insatisfação com histórias tradicionais [9], histórias estas provenientes da mesma matriz de onde vem o repertório de tia Nastácia.Ao lado da recorrência, na obra infantil lobatiana, de críticas severas a histórias tradicionais, também é recorrente em sua obra a narrativa "em encaixe" isto é, a narrativa dentro da narrativa como ocorre nas Histórias de tia Nastácia e que também ocorre em Peter Pan (1930) e em D.Quixote das crianças (1936). Quem nestes dois livros ocupa a posição de contador de histórias é Dona Benta. Nos dois casos ela conta as histórias que lê em livros estrangeiros, e enquanto adulta e reconhecidamente mais experiente, narra de um espaço hegemônico em relação aos seus ouvintes.Já quando Tia Nastácia assume a posição de contadora de histórias, a relação de forças entre ela e sua audiência (a mesma das histórias de Dona Benta) é completamente outra [10]. Tia Nastácia transfere para o lugar de contadora de histórias a inferioridade sócio cultural da posição (de doméstica) que ocupa no grupo e além disso (ou, por causa disso...), por contar histórias que vêm da tradição oral não desempenha função de mediadora da cultura escrita, ficando sua posição subalterna à de seus ouvintes, consumidores exigentes da cultura escrita, como explicitou Narizinho na citação acima.A assimetria de posição entre narrador/ouvinte que ocorre em Histórias de Tia Nastácia, no entanto, ocorre também em outras obras da época, e que são, igualmente, recolha emoldurada de contos folclóricos: Histórias do Pai João (Oswaldo Orico, 1933), Histórias da velha Totonha (José Lins do Rego, 1936), Histórias da Lagoa Grande (Lúcio Cardoso, 1939), O boi aruá (Luís Jardim, 1940) elencam contos desfiados por contadores negros. A originalidade vem um pouco depois pelas mãos de mestre Graciliano, com suas Histórias de Alexandre de 1944.É como exceção que o livro de Lobato, ao lado do de Graciliano, destaca-se do conjunto de antologias.Embora Histórias de Alexandre mantenha parentesco estrutural com todas as obras acima citadas, o parentesco se enfraquece ao romper-se a situação narrativa comum a todas elas, onde a figura de um(a) negr(o)(a) conta histórias para uma platéia constituída por crianças quase sempre brancas. Alexandre narra histórias para uma audiência adulta como ele e, como ele, sertaneja, dissolvendo-se, assim, a assimetria pretos e brancos, cultura da oralidade e cultura da escrita, adulto e criança, tão marcada nas obras de Lins do Rego, Lúcio Cardoso e Luiz Jardim.Alexandre conta histórias para seus pares e as histórias que conta - e agora também à dessemelhança das histórias de Tia Nastácia- são, quase sempre, aventuras que ele diz ter testemunhado ou protagonizado. Como as crianças do sítio, a assistência de Alexandre é muitas vezes desconfiada do que ouve .Mas a incredulidade dos ouvintes de Alexandre não chega a comprometer o equilíbrio das forças que se medem no ato de contar histórias: a tensão se dissolve quando Cesária, mulher do narrador, solicitada pelo marido, avaliza as histórias. Estas, tendo sua veracidade assegurada, passam a ser aceitas pela platéia .Já no livro de Lobato, o antagonismo platéia/ Tia Nastácia não se resolve, uma vez que a Tia Nastácia não tem aliados. Parecendo mais sofisticados, seus ouvintes reclamam, não da veracidade das histórias, mas da verossimilhança delas e da precariedade da estrutura narrativa:
-Esta história - ainda está mais boba que a outra. Tudo sem pé nem cabeça. Sabe o que me parece ? Parece um história que era de um jeito e foi se alterando de um contador para outro, cada vez mais atrapalhada, isto é, foi perdendo pelo caminho o pé e a cabeça. (p.21)
Histórias de Tia Nastácia, contudo, ainda se diferencia dos demais livros de organização semelhante pelo fato de que as histórias nele contadas - e a situação de contá-las - decorrem de uma espécie de projeto explicitamente enunciado por Pedrinho, que, a partir de um artigo de jornal começa a interessar-se por folclore:
- As negras velhas - disse Pedrinho - são sempre muito sabidas. Mamãe conta de uma que era um verdadeiro dicionário de histórias folclóricas, uma de nome Esméria, que foi uma escrava de meu avô. Todas as noites ela sentava-se na varanda e desfiava histórias e mais histórias (p. 3) [11]
Tia Nastácia é o povo. Tudo o que o povo sabe e vai contando de um para outro, ela deve saber. Estou com o plano de espremer Tia Nastácia para tirar o leite de folclore que há nela (p.3) Assim, na moldura da situação na qual as histórias de Tia Nastácia são contadas (o projeto iluminista de Pedrinho), temos já explícita e inevitável a assimetria que rege a situação. Sem idealizações e sem meias palavras, os leitores das Histórias de Tia Nastácia são voyeurs de uma situação nas qual os ouvintes das mesmas histórias, sem complacência e sem papas na língua desqualificam as matrizes populares de onde vêm as histórias que ouvem .
- Essas histórias folclóricas são bastante bobas (...) Por isso é que não sou "democrática"! Acho o povo muito idiota ... (p.13)
Delineia-se então, aqui, outra especificidade do livro de Lobato: a violência com que a platéia critica as histórias contadas, declarando-as insatisfatórias e sublinhando o que considera seus defeitos. Rompe, assim, Lobato, com a complacência, geralmente meio saudosista, que dá o tom dos livros similares : a obra de Lins do Rego, sobretudo, é repassada de ternura nostálgica pela contadora de histórias, ao passo que na de Lobato a narradora é uma cobaia a ser espremida para que os ouvintes se apropriem do que chamam suco folclórico, numa metáfora que tanto lembra a vontade positivista de dar concretude às coisas do mundo da cultura, quanto a antropofagia, quanto ainda - aos nossos pós-modernos ouvidos cinematográficos - a metáfora econômica que inspira o filme de João Baptista de Andrade, O homem que virou suco .Histórias de Tia Nastácia representa, pois, um projeto literário radicalmente distinto da atitude que oculta - na naturalidade atribuída à situação de contar histórias no serão - a latente incompatibilidade entre esta situação e os rumos que, por volta dos anos 30, ia assumindo a cultura brasileira, definitivamente embarcada numa viagem de modernização que Lobato, ainda que discordando de seu varejo, aplaudia no atacado.Que lugar podia haver, nesse mundo moderno, para tias nastácias e as culturas que elas representavam ?Já se apontou que a oralidade se manifesta estruturalmente também em outras obras de Lobato, nas quais o escritor recorre à moldura da narração oral, como D.Quixote das crianças [12] e Peter Pan . Nestes livros, porém, o recurso à oralidade constitui estratégia adotada por Dona Benta (talvez aqui alter ego de Lobato?) para facilitar o ingresso das crianças - ouvintes no mundo da leitura. Ou seja, em D. Quixote das crianças e em Peter Pan, se a enunciação mimetiza o mundo da oralidade, o enunciado vem do moderno mundo da escrita, ao qual se subordina o da oralidade, mero instrumento de passagem deste para aquele [13].Mas como Tia Nastácia não é dona Benta, a situação de oralidade que ela protagoniza não aponta para além de si mesma e, sobretudo, não contribui para elevação cultural de seus ouvintes, já que nem os familiariza com a moderna literatura infantil como Peter Pan e tampouco os aproxima de clássicos como D.Quixote ; muito pelo contrário, constitui um rebaixamento cultural, já que é arcaico o mundo que se faz presente em suas histórias.Num certo sentido, esta opção formal de Lobato torna problemática a tese que proclama fontes populares como uma das matrizes onde foram buscar inspiração certas vertentes do modernismo : a apreensão e representação da incompatibilidade entre a cultura popular e a cultura das elites brasileiras, não deixa de prestar o serviço político de inscrever, na estrutura da obra, a fratura da sociedade na qual ela ocorre.Se a França foi buscar em suas colônias africanas a inspiração para superar o esgotamento da arte racional e burguesa, os modernistas brasileiros de 22 não precisaram nem empreender a viagem transcontinental . Em um país pós colonial, os bolsões remanescentes de formas arcaicas de cultura estão sempre ao alcance da mão e da pena, coincidindo, geralmente com os bolsões de pobreza e marginalidade em que ficam confinados os segmentos da população atropelados pela modernidade. Esta começa por subtrair-lhes os instrumentos de trabalho e termina por confiscar suas formas culturais, maquiando-as, por exemplo, de primitivismo e transformando-as em mercadoria que circula por outros segmentos sociais.No Brasil, a partir do final do século passado, incluem-se entre estes fornecedores de matéria prima da chamada cultura popular, ex-escravos, negros libertos e seus descendentes que, à semelhança de tia Nastácia e tio Barnabé, como com justiça proclamava um out-door da celebração do centenário da Abolição não tiveram carteira de trabalho assinada pela Princesa que abolira a escravidão ...Assim, o apagamento da tensão entre o mundo da cultura de uma negra analfabeta e o da cultura das crianças brancas que escutam suas histórias pode ter um sentido alienante . Por não tematizarem a diferença e, ao contrário, por diluírem em afeto complacente o inevitável choque de cultura que tinha lugar nos serões, antologias como as de Lúcio Cardoso proporcionam ao leitor a experiência apaziguante de uma situação na qual fica apagada toda a violência do modo pelo qual se processava a modernização brasileira.Ao explicitar no capítulo de abertura das Histórias de tia Nastácia a racionalidade programática que patrocinou, através do velho recurso ao serão, o contacto entre duas formas de cultura, o livro de Lobato deixa caminho aberto para o afloramento de contradições inevitáveis num projeto - o da modernização brasileira - que põe face a face diferentes segmentos sociais. Como resultado do enfrentamento é inevitável a transformação de ambas as culturas; mas só leva a melhor a que dispõe da infra-estrutura material e simbólica essencial à produção, circulação e consumo de cultura no mundo moderno, que passa a devorar a outra.As contradições vão se acirrando ao logo do texto lobatiano, que, ao contrário de seus pares, não se limita a reproduzir, em forma de antologia asséptica, as histórias que Tia Nastácia conta. Lobato reproduz a história encenando a situação de narração e recepção, pondo, pois, em confronto o mundo da cultura negra do qual, no caso, Tia Nastácia é legítima porta-voz e o mundo da modernidade branca, à qual dão voz tanto as crianças como a própria Dona Benta, também ela ouvinte de Tia Nastácia e também ela insatisfeita com as histórias que ouve mas, ao contrário dos outros ouvintes, capaz de apontar, com objetividade, as razões da insatisfação:
- As histórias que correm entre nosso povo são reflexos da era mais barbaresca da Europa. Os colonizadores portugueses trouxeram estas histórias e soltaram-nas por aqui - e o povo as vai repetindo, sobretudo na roça. A mentalidade de nossa gente roceira está ainda muito próxima da dos primeiros colonizadores.- Por que, vovó ?-Por causa do analfabetismo. Como não sabem ler, só entra na cabeça dos homens do povo o que os outros contam - e os outros só contam o que ouviram. A coisa vem assim num rosário de pais a filhos. Só quem sabe ler e lê os bons livros, é que se põe de acordo com os progressos que as ciências trouxeram ao mundo (p.85)
Ao ir lendo a reação dos ouvintes às histórias que Tia Nastácia vai contando, o leitor de Lobato sente-se tentado a tomar partido. E só por estar lendo, são muito pequenas as chances de que sua solidariedade vá para a preta velha que desfia histórias por quem, na melhor das hipóteses e como os picapauzinhos, ele (leitor) nutre sentimentos de afeto mas que, nem por ser autênticos, deixam de ser uma das expressões que racismo assume na cultura brasileira [14]. O livro sublinha a inadequação das histórias a seu auditório na voz dos próprios ouvintes: são eles que estabelecem a diferença que afasta a tradição letrada e moderna que, erigindo-se em referente, confina à marginalidade a produção cultural que não venha deste mundo urbano e moderno. O contraponto de Tia Nastácia é Lewis Carroll, freqüentemente invocado como modelo das boas histórias .
-Essa, do Sargento Verde, por exemplo. É tão idiota que um sábio que quiser estudá-la acabará também idiota. Eu, francamente, passo tais histórias populares. Gosto mas é das de Andersen, das do autor de Peter Pan e das do tal Carrol, que escreveu Alice no país das maravilhas. Sendo coisas do povo, eu passo ... . (p.22)
Esta tendência à intolerância acaba por cassar a palavra de Tia Nastácia, passando o papel de contadora de histórias a ser exercido por Dona Benta. Mas o repertório de Dona Benta, neste caso, não vem - como tinha vindo no caso de D.Quixote e de Peter Pan - de um livro que ela tenha lido para, depois, contar aos netos. As histórias que Dona Benta conta quando assume a palavra em Histórias de Tia Nastácia originam-se em matrizes culturais tão populares quanto as das histórias da cozinheira, mas, curiosamente não despertam na platéia as reações de intolerância que o repertório de tia Nastácia tinha despertado.A diferença de recepções pode talvez ser atribuída ao fato de que as histórias que ambas contam tenham origem semelhante, a relação de cada uma destas narradoras com o material narrado, é diferente: Dona Benta não é usuária desta cultura, mas conhecedora dela: conhece-a de livro, e não de berço. Com isso, a relação que Dona Benta estabelece com a matéria que narra não está distante da relação que com matrizes de cultura rural e popular estabelecem os produtores da cultura urbana e culta, entre os quais o próprio Lobato [15]. É, pois, como se os serões nos quais Tia Nastácia conta suas histórias fossem um parêntesis na vida do Sítio, assim como o regionalismo é um parêntesis na literatura, segundo a visão que dele apresentam as histórias literárias canônicas.A hipótese é verossímil e ganha força em outras passagens da obra lobatiana como, por exemplo, no fato de o Tio Barnabé (versão masculina de Tia Nastácia ...) também ficar confinado, ao longo de toda a obra infantil lobatiana a papéis secundários. Mesmo em O sacy, obra que aparentemente desmente essa secundariedade, o papel dele é o de coadjuvante de Pedrinho, auxiliar ao qual o menino recorre em situação bastante próxima da que originou as Histórias de Tia Nastácia.

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Revista Brasil de Literatura

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

CIDADES MORTAS

CIDADES MORTAS
Monteiro Lobato
12/01/2007

Crônica escrita em 1906 e publicada pela primeira vez, em 1919, na Revista do Brasil, de propriedade do autor, com o subtítulo 'Contos e Impressões'. Republicada, em livro, na coletânea Cidades Mortas¹. Disponível online, em 8 de dezembro de 2006, no endereço www.ige.unicamp.br/~lrdg/exploracao/cidadesmortas. Reproduzido com a grafia original².

Monteiro Lobato (1882-1948).
Imagem:
www.lusofonas.pt

A quem em nossa terra percorre tais e tais zonas, vivas outróra, hoje mortas, ou em via disso, tolhidas de insanavel caqueixa, uma verdade, que é um desconsolo, ressurte de tantas ruinas: nosso progresso é nomade e sujeito a paralisias subitas. Radica-se mal. Conjugado a um grupo de fatores sempre os mesmos, reflue com eles duma região para outra. Não emite peão. Progresso de cigano, vive acampado. Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas.

Capa da primeira edição.
Imagem: Internet

A uberdade nativa do solo é o fator que o condiciona. Mal a uberdade se esvai, pela reiterada sucção de uma seiva não recomposta, como no velho mundo, pelo adubo, o desenvolvimento da zona esmorece, foge dela o capital – e com ele os homens fortes, aptos para o trabalho. E lentamente cai a tapera nas almas e nas coisas.

Em S. Paulo temos perfeito exemplo disso na depressão profunda que entorpece boa parte do chamado Norte.

Ali tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito.

Zé Brasil, por Percy Deane.
Imagem: lobato.globo.com

Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver decrepito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas de dantes.

Pelas ruas ermas, onde o transeunte é raro, não matracoleja sequer uma carroça; de ha muito, em materia de rodas se voltou aos rodizios desse rechinante simbolo do viver colonial – o carro de boi. Erguem-se por ali soberbos casarões apalaçados, de dois e três andares, solidos como fortalezas, tudo pedra, cal e cabiuna; casarões que lembram ossaturas de megateiros donde as carnes, o sangue, a vida, para sempre refugiram.

Vivem dentro, mesquinhamente, vergonteas mortiças de familias fidalgas, de boa prosapia entroncada na nobiliarquia lusitana. Pelos salões vazios, cujos frisos dourados se recobrem de patina dos anos e cujo estuque, lagarteado de fendas, esboroa à força de goteiras, paira o bafio da morte. Ha sobre os aparadores Luis XV bronzeos candelabros de dezoito velas, esverdecidos de azinhavre. Mas nem se acendem as velas, nem se guardam os nomes dos enquadrados – e por tudo se agruma o bolor rancido da velhice.

São os palacios mortos da cidade morta.

Sr. Joaquim dos Santos e família, últimos moradores de Corredeira-SP.
Expedição aos rios Feio e Aguapehy, 1905.
Imagem:
www.ige.unicamp.br

Avultam em numero, nas ruas centrais, casas sem janelas, só portas, tres e quatro: antigos armazens hoje fechados, porque o comércio desertou também. Em certa praça vazia, vestígios vagos de "monumento" de vulto: o antigo teatro – um teatro onde já ressoou a voz da Rosina Stolze, da Candiani...

Não ha na cidade exangue em pedreiros, nem carapinas; fizeram-se estes remendões; aqueles, meros demolidores – tanto vai da ultima construção. A tarefa se lhes resume em esperar muros que deitam ventres, escorar paredes rachadas e remenda-las mal e mal. Um dia metem abaixo as telhas: sempre vale trinta mil réis o milheiro – e fica à inclemencia do tempo o encargo de aluir o resto.

Os ricos são dois ou tres forretas, coroneis da Briosa, com cem apolices a render no Rio; e os sinecuristas acarrapatados ao orçamento: juiz, coletor, delegado. O resto é a "mob": velhos mestiços de miseravel descendencia, roidos de opilação e alcool; familias decaidas, a viverem misteriosamente umas, outras à custa do parco auxilio enviado de fora por um filho mais audacioso que emigrou. "Bôa gente", que vive de aparas.

Jeca Tatuzinho, por Belmonte.
Imagem: lobato.globo.com

Da geração nova, os rapazes debandam cedo, quase meninos ainda; só ficam as moças – sempre fincadas de cotovelos à janela, negaceando um marido que é um mito em terra assim, donde os casadouros fogem. Pescam, às vezes, as mais jeitosas, o seu promotorzinho, o seu delegadozinho de carreira – e o caso vira prodigioso acontecimento historico, criador de lendas.

Toda a ligação com o mundo se resume no cordão umbilical do correio – magro estafeta bifurcado em ponteagudas eguas pisadas, em eterno ir e vir com duas malas postais à garupa, murchas como figos secos.

Até o ar é proprio; não vibram nele fonfons de auto, nem cornetas de bicicletas, nem campainhas de carroça, nem pregões de italianos, nem ten-tens de sorveteiros, nem plás-plás de mascates sirios. Só os velhos sons coloniais – o sino, o chilreio das andorinhas na torre da igreja, o rechino dos carros de boi, o cincerro de tropas raras, o taralhas das baitacas que em bando rumorosos cruzam e recruzam o céu.

Jeca Tatu, por Belmonte.
Imagem: lobato.globo.com

Isso, nas cidades. No campo não é menor a desolação. Leguas a fio se sucedem de morraria aspera, onde reinam soberanos a sauva e seus aliados, o sapé e a samambaia. Por ela passou o Café, como um Atila. Toda a seiva foi bebida e, sob forma de grão, ensacada e mandada para fóra. Mas do ouro que veiu em troca nem uma onça permaneceu ali, empregada em restaurar o torrão. Transfigurou-se para o Oeste, na avidez de novos assaltos à virgindade da terra nova; ou se transfez nos palacetes em ruina; ou reentrou na circulação europeia por mão de herdeiros dissipados.

Á mãe fecunda que o produziu nada coube; por isso, ressentida, vinga-se agora, enclausurando-se numa esterelidade feroz. E o deserto lentamente retoma as posições perdidas.

Raro é o casebre de palha que fumega e entremostra em redor o quartelzinho de cana, a rocinha de mandioca. Na mór parte os escassissimos existentes, descolmados pelas ventanias, esburaquentos, afestoam-se do melão de São Caetano – a hera rustica das nossas ruinas.

Jeca Tatu, por Kurt Wiese.
Imagem: lobato.globo.com

As fazendas são Escoriais de soberbo aspecto vistas de longe, entristecidas quando se lhes chega ao pé. Ladeando a Casa Grande, senzalas vazias e terreiros de pedra com viçosas guanxumas nos intersticios. O dono está ausente. Mora no Rio, em São Paulo, na Europa. Cafezais extintos. Agregados dispersos. Subsistem unicamente, como lagartixas na pedra, um pugilo de caboclos opilados, de esclerotica biliosa, inermes, incapazes de fecundar a terra, incapazes de abandonar a querencia, verdadeiros vegetais de carne que não florescem nem frutificam – a fauna cadaverica de ultima fase a roer os derradeiros capões de café escondidos nos gortões.

– Aqui foi o Breves. Colhia oitena mil arrobas !...

A gente olha assombrada na direção que o dedo cicerone aponta. Nada mais !... A mesma morraria nua, a mesma sauva, o mesmo sapé de sempre. De banda a banda, o deserto – o tremendo deserto que o Atila Café criou.

Outras vezes o viajante lobriga ao longe, rente ao caminha, uma ave branca pousada no topo dum espeque. Aproxima-se de vagar ao chouto ritmico do cavalo; a ave esquisita não dá sinais de vida; permanece imovel. Chega-se inda mais, franze a testa, apura a vista. Não é ave, é um objeto de louça... O progresso cigano, quando um dia levantou acampamento dali, rumo Oeste, esqueceu de levar consigo aquele isolador de fios telegráficos... E lá ficará ele, atestando mudamente uma grandeza morta, até que decorram os muitos decenios necessarios para que a ruina consuma o rijo posto de "candeia" ao qual o amarraram um dia – no tempo feliz em que Ribeirão Preto era ali...

Zé Brasil, por Portinari.
Imagem: lobato.globo.com

NOTAS DO EDITOR

1. Para uma análise do livro Cidades Mortas, ver o artigo "Um Diálogo com Monteiro Lobato", de Margareth Yayo Gimbo Melero e Maria Alice Oliva de Oliveira, disponível online no portal Imaginário: www.imaginario.com.br/artigo/a0031_a0060/a0058-03.

2. Para uma ligeira nota sobre a ortografia de Monteiro Lobato, ver www.ige.unicamp.br/~lrdg/exploracao/notaortografica, onde se lê: "Monteiro Lobato pensa em tudo por si próprio. Muito antes de oficializada a atual ortografia, já ele tinha reagido contra a etimológica – e agora reage contra os acentos. Em tudo quanto escreve, e nas traduções, não usa acentos, afora os antigos. Qual a razão dessa ojeriza ? Interpelamo-lo e a sua resposta merece menção. (...)"

Revista Vivercidades