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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Arábia, o refúgio dos deuses gregos

Antes da ascensão do islamismo, credos politeístas encontraram na Península Arábica um local para continuar existindo, preservadas das grandes religiões que acreditavam em um deus único, como o cristianismo triunfante

Álvaro Oppermann | Ilustração Daniel Rosini


Por volta do século 5, os habitantes da região do Mediterrâneo tinham se convertido ao cristianismo. O panteão de deuses da Grécia e de Roma era só lembrança do passado. E, pelo jeito, os velhos deuses estavam mesmo na hora de se aposentar. O historiador Plutarco, sacerdote do templo de Delfos, lamentava-se, no século 2, que Apolo se calara: não respondia mais às consultas oraculares feitas por ele. Até os cultos de deuses "importados", como o da egípcia Ísis e do persa Mitra, estavam em baixa. Em 394, um pequeno grupo de devotos de Ísis fez a última procissão em homenagem à deusa pelas ruas de Roma.


As religiões pagãs tinham sido varridas do mapa? Não. No século V, na Península Arábica, os deuses greco-romanos sobreviviam. Em Failaka (no atual Kuwait), festivais populares eram organizados em devoção ao deus Poseidon (o Netuno dos romanos) e à deusa Artemis (Diana). A deusa Minerva (Al-Lat) tinha adoradores na Arábia, na Síria e na Palestina. "Até o século 4, quase todos os habitantes da Arábia eram politeístas", diz o professor de Oxford Robert G. Hoyland, autor de Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam ("Arábia e os Árabes - Da Era do Bronze à Vinda do Islã"). "Al-`Uzza (Afrodite) era cultuada no Sinai e na Arábia", diz James E. Montgomery, professor de História Árabe da Universidade de Cambridge, autor de Arabic Theology, Arabic Philosophy: From the Many to the One ("Teologia Árabe, Filosofia Árabe: do Múltiplo ao Uno").

Como aconteceu essa assimilação? Bem, não foi só da Grécia e de Roma que os árabes pegaram deuses emprestados. "Hoje se acredita que as divindades árabes eram formas locais, adaptadas, das divindades do mundo antigo do Mediterrâneo", registrou Timothy Winter, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, no ciclo de palestras A Crash Course in Islamic History (Breve Curso de História Islâmica). Os árabes assimilaram os deuses dos povos vizinhos, adaptando-os à sua religião. A deusa Al-Lat, como vimos, era Minerva (nome romano da grega Atena) sob disfarce, mas nem tão disfarçada assim: em Cartago, a mesma deusa usava o nome de Allatu. "Muitas das divindades da Antiguidade ocidental poderiam ser facilmente intercambiáveis", diz a historiadora Mary Beard, autora de Religions of Rome ("Religiões de Roma"). No século 5 a.C., isso já tinha despertado a atenção de Heródoto. Em seu périplo por terras árabes, o historiador observou um pacto entre dois chefes tribais feito em nome de Dionísio (o Baco romano). "Os árabes chamam Dionísio de Orotal", escreveu Heródoto nas Histórias (430 a.C.).

Um caso ilustrativo é fornecido pelas observações do general romano Aelius Gallus. Em 26 a.C. ele foi enviado ao sul da Arábia para costurar acordos comerciais com os reinos da região (chamada de Arabia Felix, "feliz"). Os romanos cobiçavam o incenso e as especiarias. Gallus, em seu diário, não deixou de notar a semelhança entre os deuses locais e o panteão romano. "O nosso Júpiter aqui é Dhu'Shara", espantou-se.

Ídolos na caaba

O panteão árabe era bem pobre em termos de causos mitológicos. A origem da religião, ou religiões, da Arábia pré-islâmica está envolta em um manto de obscuridade. "Nós praticamente não possuímos informações sobre os mitos e narrativas que decodificariam a religião da Arábia pré-islâmica", diz Hoyland. "Muitos autores greco-romanos escreveram tratados sobre a Arábia e as coisas dos árabes, mas infelizmente eles foram perdidos, ou deles só sobraram fragmentos." Os dados completos disponíveis são provenientes da historiografia islâmica, posterior. Tal como os primeiros autores cristãos (Eusébio de Cesareia, Santo Agostinho, Tertuliano), os muçulmanos viram o passado pagão - romano ou árabe - sob o prisma da religião nascente. Reza a lenda (exposta no Livro do Gênesis, na Bíblia), que os árabes descenderiam de Ismael, o filho de Abraão com a concubina Hagar, a serva egípcia de sua esposa, Sara. Quando Sara deu à luz Isaac, obrigou o marido a expulsar a serva e o primogênito. Hagar e o menino erraram pelo deserto, até chegarem ao árido vale de Meca, onde se estabeleceram.

A religião original da Arábia seria estritamente monoteísta, baseada na crença no Deus Uno, ensinada por Abraão a Ismael. Segundo a história islâmica, a Caaba - "A Casa de Deus", prédio de forma cúbica no coração de Meca - teria sido construída por Abraão e Ismael. Na obra O Livro dos Ídolos, do século 9, que trata do politeísmo árabe, é dito que o primeiro descendente de Ismael a adulterar a religião de Abraão foi um certo Al-Harith, guardião da Caaba. Ele retornou a Meca com um ídolo de pedra e pediu sua intercessão junto a Deus. Com o tempo, a presença de Deus tornou-se tênue no imaginário local, e os ídolos, que antes serviam de ponte entre os homens e Deus, usurparam a posição divina. Viraram deuses, no plural. No século 3, segundo Al-Azraqi, autor das Crônicas da Meca Gloriosa, 400 ídolos de pedra haviam sido erigidos ao redor da Caaba, homenagem aos mais diversos deuses da Arábia e dos povos vizinhos. Essa é a versão dos historiadores muçulmanos, que enfatizaram, em suas narrativas, um monoteísmo mítico em Meca. Os vestígios arqueológicos, no resto da Arábia, apontam à anterioridade das religiões politeístas na região.

Ascensão do Islã


Graças à Caaba, Meca teve, antes do Islã, importância na vida religiosa árabe. Era uma espécie de Aparecida, que atraía romeiros à cidade. Os líderes de Meca davam boas-vindas a todas as divindades e religiões. A cidade funcionava como uma espécie de ONU multicultural do paganismo antigo. Cada tribo tinha o seu próprio santuário ali. Ao contrário da imponente estatuária romana, os ídolos árabes eram bem modestos. A estátua de Al-Lat em seu templo oficial, em Ta'if, era fruto da reforma de uma panela de pedra, utilizada por um judeu para cozinhar mingau. "Muitas vezes, os ídolos eram somente uma pedra polida", diz Ibn Al-Kalbi.

A vida religiosa não estava restrita a Meca. Cada cidade tinha seu deus. Em Hegra, no norte, os habitantes diziam-se "filhos de Manat", que os gregos chamavam de Tyché - a Fortuna dos romanos. Em Mleiha, nos atuais Emirados Árabes, o deus popular era Kahl. Em Palmira, na Síria, o culto era à deusa Bel. Os templos religiosos pré-islâmicos não diferiam, em sua arquitetura simples, da casa de um árabe afluente da época, em cuja sala de estar erigia-se um pequeno altar dedicado ao deus, ou deuses, da predileção do proprietário. Leite, vinho, cereais, carne de camelo e de ovelha eram depositados diante do altar. Junto à Caaba, em Meca, costumava-se sacrificar camelos. "Os árabes possuíam deidades auxiliares, chamadas mundhat, que cuidavam da proteção dos vilarejos, das casas e até das pessoas individualmente", diz Hoyland. Esses entes sobrenaturais não seriam muito diferentes do que hoje se chamam "anjos".

Na época do surgimento do Islã, no século 7, há indícios de declínio econômico na Península Arábica. O comércio de incenso, vindo do Iêmen, sofreu um baque com a concorrência marítima dos romanos, pelo Mar Vermelho, estabelecida após a missão do general Gallus (que foi na verdade uma rasteira nos mercadores árabes). Um segundo golpe, ainda mais duro, foi sentido com a ascensão do cristianismo, que praticamente aboliu, no Mediterrâneo, o uso religioso do produto, associado ao paganismo. Na época de Mao-mé, o sul da Arábia era uma pálida imagem do passado. Meca tinha uma economia pequena.

O advento do Islã representou o fim do paganismo. Na história do apostolado de Maomé (por volta de 609 a 632 d.C.), os senhores políticos de Meca tentaram dissuadi-lo de sua missão religiosa. Em 622, em reunião na Câmara do Conselho da cidade, chefes de diversos clãs decidiram assassiná-lo. Para sacramentar a decisão, fizeram um banquete, sacrificando animais num altar a Al-`Uzza. O atentado falhou, motivando a Hégira, o êxodo de Maomé a Medina, que marca o início do calendário islâmico.

Em 630, o exército comandado pelo Profeta conquistou Meca. Os ídolos em volta da Caaba foram queimados. Maomé enviou missões militares para demolir os principais templos da península, como o de Al-`Uzza em Nakhla. Lá, o general Khalid bin Walid, um brilhante estrategista militar, conhecido como a "Espada do Islã", não se contentou em destruir o templo. Segundo Waqidi, cronista das campanhas militares dos primórdios do Islã, Khalid viu surgir dos escombros uma mulher nua. Os fios da sua cabeleira, de tão longos, iam quase até o chão. Ela fitou o general, impávida, imóvel, majestosa. Khalid diz ter sentido um calafrio à sua visão. Era a sacerdotisa de Al-`Uzza. "Nós negamos a ti, e não à veneração!", gritou ele. A cavalo, avançou em disparada contra ela, sacou a espada e a decapitou. Era o fim dramático da última representante de Afrodite na Arábia. Nem os deuses duram para sempre.

Divino trio


Na história da Arábia pré-islâmica, três deusas estiveram no centro da devoção popular: Manat, Al-Lat e Al-`Uzza. Segundo o antigo historiador Ibn Al-Kalbi, elas seriam as divindades mais antigas da região. Manat representava a sábia anciã, e seria uma adaptação da deusa grega Tyché (Fortuna para os romanos). Al-Lat, figura materna, uma versão local de Atena (Minerva em Roma). E Al-`Uzza, a adolescente, um sincretismo com a deusa Afrodite (Vênus).

Depois da Caaba, os templos de Al-`Uzza, no Vale de Nakhla (um dia de viagem de camelo ao sul de Meca), e de Al-Lat, em Ta'if, eram os mais visitados. Ta'if, cercada por muralhas, era localizada numa região verdejante e de clima ameno do Hijaz, região centro-oeste da Arábia, próxima ao Mar Vermelho. A cidade era conhecida como "Jardim do Hijaz", e a deusa, a "Dama de Ta'if". (Os árabes gostavam de uma alcunha; esta, aliás, uma palavra de origem árabe: Al-qunya).

Os pastores e camponeses da Arábia faziam preces a Al-Lat para aumentar a fertilidade dos rebanhos. Manat era a deusa da morte e do destino. Isso pode soar funesto, mas tinha um lado positivo: quando uma mudança surpreendente acontecia na vida de um árabe - o paciente desenganado que se recuperava de uma doença grave, ou o pobre que ficava rico por um golpe de sorte -, fazia-se uma oferenda a Manat, a senhora da roda da fortuna. Na Nabateia, os fraudadores de escrituras de tumbas funerárias (comércio escuso que, pelos registros, devia ser bem ativo) tinham de pagar multa - mil moedas de prata - ao templo de Manat em Petra, ao serem descobertos. O culto árabe mais fervoroso era o dedicado a Al-`Uzza, segundo testemunho de autores cristãos que pregaram na região. "Os sarracenos adoram a deusa Vênus e a associam à estrela da manhã", escreveu Santo Hilário, no século 4. ("Sarraceno", de acordo com uma etimologia, seria "aquele expulso por Sara": os árabes eram tidos como descendentes de Ismael, filho de Abraão com a serva egípcia Hagar). Em Meca, a poderosa tribo dos Quraish, principais oponentes de Maomé e do Islã, dizia-se "filha de Hubal e Al-`Uzza".

Deuses e monstros

Os deuses e criaturas sobrenaturais do panteão árabe

Dhu'Shara, o leão alado

Categoria: divindade


Também chamado de Dusares, foi cultuado na Arábia e na Nabateia (atual Síria). Era o "Senhor de Petra", uma grande cidade de estilo romano, com ágora, banhos públicos e avenidas em colunata. Era identificado com Júpiter. Mas, ao que se saiba, não lançava raios. Seu poder mágico era o de se transformar em leão alado. Dhu'Shara era casado com Al-`Uzza (Vênus), virgem adolescente na mitologia árabe.


Nakruh, o senhor da destruição

Categoria: divindade


"Deus da Morte", "Deus do Ódio", "Senhor da Destruição", "Vingador Implacável". Não, não são filmes antigos com Clint Eastwood, e sim algumas das alcunhas do deus árabe. Ele foi muitas vezes associado ao Saturno romano (e ao Cronos grego). Enfezado, tentou assassinar o próprio irmão, Wadd. Mas Nakruh tinha um lado bom e justo. Era o protetor das mulheres grávidas.


Ghila, a maligna

Categoria: animal fantástico


A criatura teria surgido por causa de uma maldição de Dhu'Shara. Certa vez, um grupo de demônios femininos foi à mansão celeste para bisbilhotar. Como punição, foram arremessadas para a Terra. Algumas caíram nos rios, e viraram a fêmea do crocodilo. Outras, cuja parada foi o deserto, viraram ghilas.


Hubal, o deus da Lua

Categoria: divindade


Deus da Lua, na religião de Moab, na atual Síria, foi adotado na Arábia, tornando-se uma de suas principais divindades. O seu primeiro vestígio na região - descoberto nos anos 1990 - é o de um altar e incensórios em Muweilah, nos Emirados Árabes, cuja data aproximada é de 800 a 700 a.C. Não há correspondência entre ele e os deuses greco-romanos. Segundo uma etimologia possível, seria uma corruptela de "Baal", deus semita.


Al-Qaum, o deus da guerra e das caravanas

Categoria: divindade


Quando os mercadores árabes voltavam sãos e salvos de uma longa viagem, faziam oferendas ao deus. Conhecido como divindade da guerra, Al-Qaum era igualmente o protetor das caravanas. Também foi chamado de "Deus da Noite": os nabateus, que, assim como os árabes, o adoraram, transportavam cargas valiosas à noite, para não serem roubados. Faziam então uma reza ao deus.


Serpentes aladas

Categoria: animal fantástico


A melhor descrição sobre estas criaturinhas peçonhentas voadoras foi de Heródoto, que ficou conhecendo sobre elas em suas andanças pela Arábia, no século V a.C. Estes ofídios com asas gostavam de fazer voos migratórios sazonais ao Egito. Mas lá eram repelidos pela íbis, ave que lembra a cegonha.


Orotal, o boa-praça

Categoria: divindade


O Baco da Arábia. Assim como o deus romano, era chegado a um vinho. Aliás, na Arábia pré-islâmica, o costume de beber era arraigado. "O vinho era tido como um dos melhores presentes que a fortuna poderia agraciar ao árabe da era pré-islâmica", diz Toshihiko Izutsu, professor da Universidade de Keio, no Japão. Orotal foi popular na parte norte da Arábia. Não há referência arqueológica a ele no sul da península.


Al-Khutby, o sábio

Categoria: divindade


O deus mais afeito ao conhecimento era Al-Khutby. Foi o deus da sabedoria, protetor dos estudiosos e escribas. Sua representação iconográfica era bem simples, um mero pilar. Na Arábia, sofreu sincretismo com o deus romano Mercúrio (Hermes na Grécia). Tinha asas nos pés, com o poder de percorrer grandes distâncias em pouco tempo. Nas tempestades, "surfava" pelas nuvens, conduzido pelos relâmpagos.


Gênios do bem e do mal

Categoria: ser sutil


Os djinns (traduzidos por "gênios" em línguas ocidentais) eram criaturas feitas de ar, fumaça e fogo. "Um tipo particular de gênio era o qarîn, o 'djinn acompanhante'." Quando uma pessoa nascia, um qarîn nascia ao mesmo tempo. Os dois viveriam juntos e morreriam no mesmo dia. O gênio seria uma alma gêmea do ser humano.


Linha do tempo
2 500 a.C. a 1 750 a.C.

Escavações dão indícios de que, na fronteira da Arábia com a Mesopotâmia, vivia-se um período de prosperidade.

715 a.C.

Primeira referência pictórica à religião do Reino de Sabá: uma inscrição no templo do deus Almaqah. Os sabeus cultuavam essa divindade central.

430 a.C.

Relato de Heródoto sobre os árabes, na obra Histórias. Faz referência aos deuses árabes Orotal e Al-Lat.

50

Em Petra, cidade cosmopolita no norte da Arábia, há registros do culto à deusa Bel e à deusa egípcia Ísis.

219

O autor Al-Azraqi escreve a obra Crônicas da Meca Gloriosa. Retrato do culto politeísta em Meca. Na cidade, 400 estátuas de divindades foram erigidas em volta da Caaba.

609

Início da história do Islã, com a revelação dos primeiros versículos do Alcorão ao profeta Maomé.

622

Perseguição e tentativa de assassinato a Maomé leva à fuga do Profeta para Medina, a Hégira.

624

A Batalha de Badr marca o primeiro conflito armado entre os clãs politeístas de Meca e os adeptos do Islã.

630

Conquista de Meca pelo exército de Maomé. Destruição dos ídolos das divindades da religião politeísta árabe.

632

Morte de Maomé.

632 - 634

Repressão à idolatria pelo primeiro califa, Abu Bakr. Com a morte do Profeta, a região do Najd, no centro da Arábia, abandonou as práticas islâmicas e voltou à antiga religião.

Saiba mais

Livro

Arabia and the Arabs - From the Bronze Age to the Coming of Islam, Robert G. Hoyland, Routledge, 2001
Internet

O Livro dos Ídolos, de Ibn Al-Kalbi (em inglês)

Revista Aventuras na História

domingo, 8 de novembro de 2009

Na montanha dos deuses


Na montanha dos deuses

Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.
Os gregos antigos instalaram suas divindades no pico do Olimpo, a mais alta montanha que conheciam. Ali, os deuses levavam a vida que os homens gostariam de pedir para si.

Por Renato Pompeu

Uma montanha de exatamente 2917 metros de altura, perdida nos confins do nordeste da Grécia, entre as regiões da Tessália e da Macedônia, influencia desde há perto de 3 mil anos toda a cultura ocidental. E as histórias que se contam dessa montanha são importantes até hoje no cotidiano, no pensamento, nos hábitos e costumes - até na ciência. É o monte Olimpo, que de acordo com a religião dos gregos antigos - seguida do século IX a.C. ao IV d.C., até ser substituída pelo cristianismo - era a morada de seus deuses. Hoje, o Olimpo é a sede de um parque nacional, preservado pelo governo grego. Mas, pelo menos mil anos antes de Cristo, com suas escarpas abruptas, seus altos eternamente cobertos de neves e geralmente encobertos pelas nuvens, o Olimpo, a montanha mais alta conhecida pelos gregos - ou melhor, seu pico então inacessível -, foi conhecido como a casa dos deuses, mais ou menos como os devotos de outras religiões concebem o céu.

Esses deuses, que tinham forma humana, mas eram maiores, mais belos e mais leves que os humanos (sendo capazes até de voar e, acima de tudo, imortais), viviam uma vida cheia de peripécias e aventuras, marcada por intrigas entre eles próprios e entre eles e os seres humanos a que influenciavam. À descrição das vidas dos deuses se dá o nome de mitologia. A palavra mito é grega e quer dizer “palavra final”, pois a mitologia era usada como explicação definitiva dos fenômenos da natureza e da sociedade.

A mitologia grega, adotada depois pelos romanos, que deram outros nomes aos mesmos deuses, foi codificada no século IX a.C. pelo poeta grego Homero, em suas epopéias Ilíada e Odisséia, e um século depois pelo poeta Hesíodo, em sua Genealogia dos deuses. A religião não era hierarquizada nem dogmática. Ou seja, não havia um grupo de sacerdotes encarregado de manter a pureza das verdades doutrinárias. E aquelas codificações variavam enormemente de época para época e de região para região. De qualquer modo, em todas as variantes, os deuses eram comandados por um ser supremo, Zeus (Júpiter para os romanos). Zeus é outra forma da palavra do antigo indo-europeu que deu em português as palavras Deus e justiça. Júpiter é a junção das palavras latinas jus e pater. Jus é o “fazer jus”, que deu justo e justiça, e pater quer dizer pai. Ou seja, pai da justiça.

Zeus originariamente era o deus do clima dos antigos gregos. Tratava-se de nômades guerreiros que, chegando do centro da Europa em ondas sucessivas onde hoje é a Grécia, ali encontraram uma civilização agrícola avançada - baseada na metalurgia do bronze e no cultivo de uva, oliva, trigo e cevada - que tinha seus próprios deuses. Ou melhor, deusas, pois os homens primitivos, ao se fixarem à terra, costumavam cultuar divindades femininas que pudessem assegurar aos seus campos a fertilidade, associada às mulheres. Já os povos guerreiros, como os gregos eram inicialmente, adotavam em geral divindades masculinas, por exemplo, Zeus, o deus das tempestades, que enviava raios à Terra.

Sendo guerreiros, os gregos dominaram os pacíficos povos agrícolas que ocupavam o que hoje é a Grécia. Essa dominação foi se dando de 2000 a.C. até por volta de 1000 a.C. , tempo mais que suficiente para o idioma grego se impor aos povos vencidos e para haver uma fusão das culturas entre dominantes e dominados. Assim, quando a religião grega foi codificada por Homero e Hesíodo, Zeus aparece casado com Hera (Juno para os romanos), originalmente uma deusa dos povos anteriores aos gregos - antigos cretenses e micenianos - associada à fertilidade. No Olimpo grego, Hera passou a ser a deusa da maternidade e da vida doméstica, e assim, de deusa rural, ela se tornou urbana.

A mitodologia diz que Zeus teve casos e filhos com várias outras deusas e ainda com mulheres comuns. Contra elas, Hera vivia armando ciumentas intrigas. Mas quem era Zeus? No princípio, segundo Hesíodo, havia o Caos, que em grego quer dizer vazio. Caos, porém, teve dois filhos, Urano, o céu, e Géia, a Terra. Urano e Géia tiveram vários filhos, entre eles Cronos, o tempo, e Réia. Cronos e Réia casaram e tiveram vários filhos. Mas Cronos, que atacou o próprio pai Urano, também devorou cada um dos seus filhos, até que Réia deu à luz Zeus e escondeu o bebê, substituindo-o nas fraldas por uma pedra. Por engano, na ânsia de devorar seus filhos, Cronos engoliu a pedra.

Oculto do pai, Zeus cresceu e desenvolveu-se como um jovem vigoroso, que acabou derrotando Cronos numa luta e o obrigou a vomitar todos os filhos que engolira. Assim, Zeus libertou, entre outros, dois irmãos com os quais partilhou o mundo conhecido dos gregos: Zeus ficou com o céu, Posêidon (Netuno para os romanos) com os oceanos e os rios, e Hades (Plutão) com o mundo subterrâneo, ou inferno. Como morada, Zeus ficou com o Olimpo, não só porque era a montanha mais alta e, portanto, mais próxima do céu como também porque seu pico sobressai entre as nuvens. De modo que se criou a noção de que na morada dos deuses, acima das nuvens, jamais poderia haver tempestades.

Outros irmãos de Zeus foram também vomitados por Cronos, como Hera, com a qual ele se casou, e Deméter, que os romanos conheciam como Ceres, nome de que derivou a palavra cereal. Ela era cultuada como a deusa da agricultura. Por isso não morava no Olimpo e sim no reino vegetal. Deméter teve uma filha com Zeus, Perséfone, raptada por Hades para viver com ele no submundo. Deméter então queixou-se a Zeus e este decidiu que Perséfone passaria um terço de cada ano com Hades e dois terços com a mãe, no reino vegetal. E aqui está uma das funções do mito, a de explicar a natureza: o terço do ano que Perséfone vivia no inferno era identificado com o seco verão grego, no qual a vegetação sobrevivia precariamente. Mas renascia quando Perséfone voltava para a casa da mãe.

Além de Hera, a mulher oficial, Zeus aprontava das suas. Disfarçando-se de cisne, seduziu Leda, mulher do rei de Esparta, e com ela teve os filhos Helena e Dóscuros (os gêmeos protetores da navegação). Com Europa, filha do rei da Fenícia, a quem seduziu disfarçado de touro, Zeus teve os filhos Minos, rei de Creta, e Radamanto, rei das ilhas Cíclades.

Ambos se tornaram juízes dos mortos no submundo. O rapto de Helena, casada com Menelau, rei de Esparta, acabou, segundo Homero, desencadeando a guerra entre gregos e troianos. Páris, o raptor, era da família real de Tróia.

Essa novela poderia se estender indefinidamente, pois a mitologia tem centenas e centenas de histórias com uma multidão de deuses, heróis (filhos de um deus ou deusa com um simples mortal) e seres humanos. Não faltam também guerras e catástrofes, além de episódios de criação das artes e das ciências como o de Prometeu, o deus que, por ter roubado o fogo dos deuses e o entregado aos humanos, foi condenado por Zeus a ficar eternamente acorrentado a um rochedo e a ter seu fígado repetidamente devorado por uma águia. Entre os deuses mais importantes pode-se citar ainda Afrodite (Vênus), a deusa da beleza.

Ela nasceu junto à ilha de Chipre, na espuma criada no mar pelos órgãos genitais de Urano, que haviam sido cortados e lançados ao mar por Cronos. Afrodite casou-se com Hefaistos (Vulcano), o deus das forjas e dos vulcões, ferreiro dos deuses. Hefaistos, que nasceu coxo, era filho de Zeus e Hera. Deusa da beleza e do sexo, Afrodite teve vários casos extraconjugais. O mais célebre foi com Ares (Marte), deus da guerra e também filho de Zeus e Hera. Apolo , filho de Zeus e Leto, era o mais cultuado, pois enviava presságios aos humanos.

Importante também era Atena (Minerva ). A deusa da sabedoria não tinha mãe, pois nascera da cabeça de Zeus. Tornou-se a protetora da cidade de Atenas.

A mitologia grega sobrevive nas palavras que se usam hoje, como Deus, justiça, cereal etc., nos nomes dos planetas, na palavra geografia, a ciência de Géia. Assim, essa distante montanha, que emprestou o nome à cidade de Olimpo, no Sul da Grécia, onde no Século VIII a.C. começaram a ser disputadas as Olimpíadas, é uma presença permanente no cotidiano das pessoas. O teatro, por exemplo, tem origem nos coros entoados pelas sacerdotisas embriagadas por Dioniso, deus do vinho e das orgias, que os romanos chamavam Baco. Daí originou-se a palavra bacanal. Enquanto as artes plásticas descendem das pinturas e das estátuas com imagens dos deuses gregos, a arquitetura ainda usa colunas, pórticos e naves dos antigos templos da Grécia.

E a vida continua povoada de mitos, pois até hoje a ciência se baseia em dois axiomas que - do ponto de vista estritamente lógico - são tão impossíveis de provar como os antigos mitos gregos: o de que o mundo existe fora da mente humana e o de que ele pode ser conhecido pela mente. Isso sem contar os mitos que geraram grandes descobertas científicas, como o da atração secreta entre as coisas, que levou Newton a descobrir a gravitação universal; ou o de que o movimento dos planetas influencia o sangue, graças ao qual o inglês Willian Harvey (1578-1657) descobriu a circulação sanguínea. E, enfim, o mito de que o movimento das marés, que teria ajudado o naturalista também inglês Charles Darwin a se interessar pela anatomia das espécies. Assim, os mitos criados pelos antigos gregos transformaram-se em eternos companheiros do homens.

Um dia no Olimpo

Como era o cotidiano dos deuses no Olimpo? Invejável, sem dúvida. O único trabalhador era Hefaistos, o ferreiro, que produzia os artefatos - ferraduras para o cavalo alado Pégaso, armas para Ares e para os demais. Os outros viviam em festas e banquetes, presididos por Zeus, de onde só saíam para intervir nos destinos humanos e no dos animais, plantas e elementos. Zeus podia abrir o banquete ordenando que a copeira Hebe, sua filha com Hera, servisse a ambrosia, o alimento dos deuses, semelhante ao mel de abelhas, que deu o nome ao famoso doce. Mas a bebida, o néctar, derivado do mel (uma das primeira bebidas alcoólicas usadas pelos seres humanos foi o mel fermentado, ou hidromel), que deu o nome à substância das flores a partir da qual as abelhas produzem o mel, era servida por Ganimedes. Este, um mortal chamado ao Olimpo, filho de Laomedonte, rei de Tróia. Por sua beleza, esse garçon do Olimpo despertava paixões, não entre as deusas, mas entre os deuses, já que os gregos consideravam o homossexualismo normal.

Durante o banquete Ártemis (Diana para os romanos, deusa da caça) podia comunicar quantas mulheres morreriam naquele dia na Terra, pois era ela quem causava a morte das mulheres, enquanto os homens destinados a morrer seriam indicados ou por Apolo, em caso de morte natural, ou por Ares, em caso de morte violenta. Éris, a deusa da discórdia, não tendo sido convidada para um desses banquetes, armou uma intriga: mandou pôr ao centro da mesa um pomo (maçã dourada) com a dedicatória: “À mais bela das presentes”.

Hera, Afrodite e Atena disputaram a preciosa fruta, que deu origem à expressão “o ponto da discórdia”, e pediram a arbitragem de Zeus, que atribuiu o julgamento a Páris. Este acabou indicando Helena como a mais bela, iniciando com ela um relacionamento que levaria à guerra de Tróia. Ao fim de um desses banquetes, Zeus anunciou que o herói Héracles (Hércules para os romanos), seu filho com a humana Alcmena, seria imortalizado - para o quê, bastaria ele comer ambrosia e beber néctar - a fim de poder casar com Hebe, a copeira. Mesmo imortalizado, Hércules não poderia morar no Olimpo, por não ser deus: iria para os Campos Elísios (“campos dos abençoados”), o paraíso dos heróis, cujo nome foi dado aos palácios do governo da França e do Estado de São Paulo, embora esses palácios raramente sejam habitados por heróis.

Revista Superinteressante