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domingo, 18 de novembro de 2012

Anita, a heroína de dois continentes

A saga da companheira de Giuseppe Garibaldi, uma mulher movida pela paixão e pela aventura

MILU LEITE

O primeiro encontro de Giuseppe e Anita /
Ilustração de Edoardo Matania

O ano de 2011 é dedicado a comemorações na Itália, e o nome da brasileira Anita Garibaldi tem sido mencionado em inúmeros eventos que, se não ocorrem diretamente em sua homenagem, não lhe furtam o merecido destaque na história do Risorgimento, movimento que culminou com a unificação daquele país 150 anos atrás. Anita é amada pelos italianos na mesma medida em que é venerado ali seu companheiro de lutas e aventuras, Giuseppe Garibaldi. O casal combateu ao longo de um ano aqueles que se opunham à ideia de uma Itália unida e forte, até o dia em que a morte derrubou definitivamente Anita, quando ela e o marido fugiam de Roma, em 4 de agosto de 1849. Antes de tornar-se heroína na Itália, porém, Anita já tinha lavrado seu nome na história do Brasil, ao participar ativamente da Guerra dos Farrapos, e da do Uruguai, onde viveu ao lado de Garibaldi por sete loucos anos.

Sendo, então, Anita e Giuseppe um casal intercontinental, nada mais apropriado que Brasil e Itália os lembrarem como símbolo das boas relações entre as duas nações durante o evento intitulado Momento Itália-Brasil, que ocorre de outubro deste ano a junho de 2012, em diversas cidades brasileiras. A declaração de apoio à iniciativa, assinada pelos presidentes dos dois países em 2010, destaca os objetivos de aprimorar as relações econômico-comerciais, tecnológicas, científicas, culturais e educacionais entre os dois povos. A programação é extensa e, como não poderia deixar de ser, inclui um espetáculo teatral sobre a heroína: Anita dei Due Mondi, trazido pela produtora Dell’Arte.

A vida de Anita Garibaldi, nascida Ana Maria de Jesus Ribeiro, é um prato cheio para os escritores, já que pode não só ser narrada com dados reais como ser romanceada com doses de imaginação que vão de uma sutil pitadinha de pimenta a um sacolão de temperos. Por exemplo, determinar a data e o local de seu nascimento já demandou de todo biógrafo que vasculhou sua vida pesquisas em montanhas de papéis com declarações, suposições e deduções. Chegou-se a um consenso (não falemos em unanimidade), apesar de não haver documento de registro que comprove os seguintes dados: Anita nasceu no dia 30 de agosto de 1821, em algum ponto da extensa faixa que abarcava então a região de Laguna (apenas parte dela corresponde agora a esse município), no estado de Santa Catarina. Alguns acreditam que veio ao mundo mesmo em Laguna, outros, em Morrinhos, hoje bairro de Tubarão. Mas, como bem explica o cartunista José Custódio Rosa Filho, autor da história em quadrinhos Anita Garibaldi, o Nascimento de uma Heroína, “na época, tudo era Laguna. Menos Lages, que foi de São Paulo. Do ponto de vista atual, creio que, mesmo que tivesse nascido em Lages, ela seria, claro, catarinense”. Desnecessário dizer que tanto uma cidade quanto outra disputam o título de berço de Anita, dedicando a ela homenagens e monumentos com igual júbilo.

Contudo, se por um lado a falta de documentação a respeito do que fazia Anita (era analfabeta, portanto as poucas cartas que escreveu não foram de próprio punho) antes de conhecer Garibaldi se interpõe como dificuldade para os biógrafos, por outro o próprio Garibaldi os presenteia, em sua autobiografia, com centenas de linhas a respeito de sua companheira, e como bom romancista prepara o clima antes de introduzir os fatos. É ele quem nos conta, por exemplo, do sentimento que o devorava quando navegava, ainda só, pelas águas do sul do Brasil, em obediência aos planos de Bento Gonçalves, um dos principais articuladores da Revolução Farroupilha: “Era pois uma mulher que se me tornava necessária; só uma mulher me podia curar, uma mulher, quer dizer, o único refúgio, um anjo consolador, a estrela da tempestade. A mulher é uma divindade que nunca se implora em vão, especialmente quando se é desgraçado. Era com este incessante pensamento que, do meu camarote, a bordo do Itaparica, voltava sem cessar o meu olhar para a terra”, escreve Giuseppe nas Memórias.

A essa altura, ele não imaginava que em terra a jovem Ana, então com 18 anos e casada há quatro com o sapateiro Manuel Duarte de Aguiar, seria essa mulher, embora ela já cavalgasse como uma amazona, chamando para si a atenção de muitos homens da região não apenas por sua habilidade na montaria como também, e talvez principalmente, por sua maneira de lidar com eles. De acordo com os biógrafos de Anita, ela já tinha demonstrado ser dura na queda ao menos em duas ocasiões: quando interferiu numa briga de terras de pessoas de seu povoado e quando açoitou o rosto de um rapaz que se metera com ela, com intenção de, talvez, violá-la. Por causa desse último episódio, sua família teria se mudado de casa, temendo represálias.

Tesouro valioso

O encontro entre Anita e Giuseppe é mais um terreno fértil para discordâncias e invenções. Uma vez que depoimentos e declarações foram colhidos somente muitos anos depois, as versões variam em gênero, número e grau. Em sua obra De Sonhos e Utopias... Giuseppe e Anita Garibaldi, a autora Yvonne Capuano seleciona algumas delas. Virgílio Várzea narra um encontro entre a doce e dedicada Ana que acompanhava o marido (um soldado monarquista voluntário), quando ele estava ferido num hospital para os republicanos em Laguna. Teriam ido para lá graças à interferência de Garibaldi. Alguns encontros e... a paixão entre ambos nascera de maneira arrebatadora. De acordo com essa versão, Anita teria implorado a Garibaldi que a levasse consigo quando embarcasse, e ele, depois de tentar demovê-la da ideia, teria cedido aos apelos de seu coração, àquela altura completamente tomado de amor pela jovem.

Outras versões falam de um encontro na igreja matriz, protagonizado por uma Anita impetuosa e atrevida. Todas elas, no entanto, sucumbem diante do relato de Garibaldi, que diz em suas memórias ter avistado com a luneta Anita, ainda quando estava no tombadilho do Itaparica. Ao desembarcar, conta ele, aceitou o convite para um café na casa de um homem que tinha acabado de conhecer. Ao chegar ali, defrontou-se com Anita e, apresentando-se, disse: “Tu devi essere mia”. O homem em questão, segundo alguns, era o marido de Anita. Anos mais tarde, Garibaldi diria: “Havia encontrado um tesouro proibido, mas um tesouro valioso”.

As diferentes versões a respeito do encontro se devem a muitas razões, mas talvez a mais importante esteja vinculada a um fator pouco comentado. Em um breve estudo para o Memorial do Ministério Público do Rio Grande do Sul, a historiadora Cíntia Vieira Souto fala da necessidade de se dar à heroína um caráter virtuoso, recorrendo-se muitas vezes ao embelezamento de suas atitudes. “Anita Garibaldi é uma das poucas mulheres brasileiras que, antes do século 20, participaram, de forma ativa, de episódios políticos e militares da história do Brasil. Ao lado do companheiro, o italiano Giuseppe Garibaldi, atuou em algumas das batalhas decisivas da Revolução Farroupilha em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Foi a primeira mulher brasileira a ganhar um monumento público, o monumento a Garibaldi e Anita em Porto Alegre, em 1913”, ressalta Cíntia. Para gozar de tamanha honra, porém, Anita não poderia ser apenas a mulher corajosa e audaciosa que foi. Não bastaria ser apenas Anita, pois ela, apesar de lutar bravamente por seus ideais, quebrara tabus. Anita deixou o marido para fugir com Giuseppe. Não deu bola para a família, nem para a cidade toda. Simplesmente fez o que lhe deu na telha... e poucas mulheres faziam o que lhes dava na telha no século 19. E, afinal, o que era o Brasil em meados do século 19?

A Revolução Farroupilha eclodiu em 1835 na província do Rio Grande do Sul, em resposta a mais uma elevação de taxas, que penalizava os criadores de gado e os produtores de charque, obrigados a concorrer com os produtores do Uruguai e da Argentina, beneficiados por impostos mais baixos.

Os ideais republicanos já cativavam havia algum tempo parte da população da província e se propagaram ainda mais depois das medidas aplicadas pelo Império. Sendo assim, em 20 de setembro de 1835, os estancieiros dominaram a capital, Porto Alegre, sob a liderança do coronel Bento Gonçalves. Pouco a pouco, o movimento ganhou força, e as tropas imperiais foram perdendo o controle da situação. Um ano depois, foi proclamada a República Rio-Grandense e, em 1839, os revoltosos tomaram Santa Catarina e fundaram a República Juliana.

Somente em 1842 é que a revolução começou a ser debelada, graças à eficaz ação das tropas monarquistas comandadas por Luís Alves de Lima e Silva, que viria a se tornar o duque de Caxias. Dez anos depois de sua eclosão, com o movimento já bastante fraco, o então imperador dom Pedro II propôs um acordo de paz, oferecendo algumas vantagens aos revoltosos, e pôs fim ao levante.

Anita teria assistido ao desfile dos farroupilhas quando estes chegaram vitoriosos a Laguna, em 1939. Simpática aos ideais republicanos (posição contrária à do marido, defensor da monarquia), compareceu à missa em homenagem a Garibaldi e seus companheiros. A fama de Garibaldi, a essa altura com 32 anos, já corria de boca em boca. O marinheiro italiano chegara ao Brasil fugido da Itália, depois de ter decretada sua pena de morte por participação no movimento pela unificação do país. Suas proezas em mar e terra, sua astúcia e valentia já o haviam alçado à categoria de exímio combatente nos anos em que vivera como marinheiro mercante no Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que se enfronhava mais e mais nas reuniões dos republicanos. No mais, sua atuação no sul também já havia lhe rendido louros, principalmente depois de ter ele levado por terra os dois lanchões necessários para a tomada de Laguna, fazendo uso de um inteligente estratagema para enganar as forças imperiais.

Construção de um mito

Era esse o Giuseppe com quem Ana Maria de Jesus Ribeiro compartilhou um café no casual encontro que mudaria radicalmente os rumos de sua vida. Em agosto de 1939, ela embarcou no Seival ao lado de Garibaldi e de dezenas de homens e não tardou a exibir seu poder de combate. Exposta a balas na proa, disparava tiros já no primeiro ataque sofrido pelos rebeldes, sobrevivendo em meio a uma dezena de mortos.

O mito Anita se construía aos poucos, com ações, é verdade, mas sobretudo sob o olhar do homem que a amava e escreveria anos depois sobre ela os poucos relatos acerca de sua bravura. Ao colher dados para redigir seu livro Anita Garibaldi – Uma Heroína Brasileira, o jornalista Paulo Markun explica que encontrou algumas dificuldades, mas que a maior “foi separar o joio do trigo. Como Anita foi adotada por Mussolini como a mãe da pátria, surgiram muitas versões fantasiosas de sua trajetória, que já é impressionante, mesmo se circunscrita ao que parece fato”.

Outros episódios de coragem são relatados pelo jornalista em seu livro, mas o mais marcante deles é o que conta a fuga de Anita de um acampamento de prisioneiros em Curitibanos para ir ao encalço de Garibaldi em Lages, 80 quilômetros adiante, primeiro a pé, depois montada num cavalo branco, enfrentando encostas perigosíssimas e as águas do furioso rio Canoas, usando uma espécie de poncho, também branco, que conseguiu pelo caminho. “Assim vestida e com seus cabelos negros despenteados pelo vento, acabou por espantar os que buscavam fugitivos, que a confundiram com uma aparição”, narra Markun em seu livro.

A República Juliana, como se sabe, não vingou. Anita e Garibaldi deixaram o exército republicano e partiram para o Uruguai. Depois de mais de 50 dias de viagem, o casal se estabeleceu em Montevidéu, agora em situação diferente: Anita como dona de casa, Garibaldi como comandante do exército e da esquadra oriental. Casaram-se no dia 26 de março de 1842, graças a uma omissão de Anita, que não revelou seu estado civil. Por essa época, já carregava nos braços o primogênito Menotti e estava grávida de Rosita, que morreria dois anos depois vítima de uma infecção.

Mas, apesar da vida mais tranquila, o casal não se afastou do debate político. Ao contrário, a residência de Anita e Garibaldi era frequentada por dissidentes estrangeiros e, principalmente, por carbonários que viviam no Uruguai mas não haviam abandonado o sonho de unificar a Itália. Garibaldi sentia renascer a vontade de realizar por seu país o que fora impedido de fazer anos antes.

No final de 1847, animado com as notícias de anistia aos rebeldes em sua terra, Garibaldi convenceu Anita a partir com os três filhos para a Itália, não sem antes prometer-lhe levar os restos da pequena Rosita consigo. Dois meses depois, Anita desembarcava com Teresita, Menotti e Ricciotti em Gênova, onde foi recebida com simpatia e deferência. Só em meados do ano seguinte conseguiu reencontrar Garibaldi, que vinha de uma viagem longa até chegar a Nice, na época pertencente ao reino da Sardenha, onde viviam sua mãe e amigos. Iniciaria então o período de batalhas e fugas pela Itália, lutando pela unificação ao lado do marido. Sobre o episódio, escreveu Garibaldi: “A minha boa Anita, apesar de meus argumentos para tentar convencê-la a permanecer, decidiu acompanhar-me. A observação de que eu teria de enfrentar uma tremenda vida de dificuldades, privações e perigos, cercado de tantos inimigos, serviu muito mais de estímulo à corajosa mulher; em vão lembrei-lhe o fato de estar grávida. Chegando à primeira casa, solicitou a uma senhora que lhe cortasse o cabelo, vestiu-se de homem e montou a cavalo”.

Anita adoeceu e morreu meses depois. O próprio Garibaldi relata os fatos em suas memórias. Conta que ela chegou deitada na carroça conduzida por ele até Mandriole e que imediatamente suplicou que trouxessem um médico. Este, ao transportá-la para a cama, dissera: “Chamaram-me apenas para atestar uma morte”. Garibaldi tomou então o pulso de sua mulher: “Já não batia. Tinha diante de mim a mãe de meus filhos, que eu tanto amava, morta!”

Não se sabe até hoje qual foi a doença que a matou. “Aparentemente, uma febre tifoide ou algo assim. As circunstâncias da morte e da autópsia, feita vários dias depois numa pequena cidadezinha italiana, dificultam uma conclusão mais precisa. Seguramente, não foi enforcada por Garibaldi, como chegaram a difundir na época”, explica Markun.

Mulher de seu tempo

A tragédia de Anita é um dos episódios mais tristes da história dos dois países. À luz dos nossos dias, parece impensável que uma mulher grávida empunhasse armas e saísse para lutar montada num cavalo. De que tempo seria alguém assim? “Talvez ela tenha sido uma mulher do tempo dela, e nós é que acabamos adotando uma ideia falsa da mulher brasileira da época colonial que só podia ser a sinhazinha romântica, sempre às voltas com aulas de piano e bordado, ou a escrava negra, ama de leite, cobiçada pelo patrão. Uma pesquisa da historiadora Mary Del Priore mostra que havia mais do que isso no Brasil colonial: mulheres que mantinham suas casas, enquanto os maridos ganhavam a vida nas minas ou no comércio de animais”, escreve o jornalista.

O cartunista Custódio faz uma avaliação a partir de dois enfoques. “Em uma primeira conclusão, certamente ela estaria à frente de seu tempo”, diz. “Anita abandonou um casamento, provavelmente infeliz, não teve filhos enquanto estava com o primeiro marido, depois se juntou (seduzida ou não, não importa) a um homem sem parada, um aventureiro, e o seguiu obstinadamente.” Segundo Custódio, nesse aspecto ela se mostra uma mulher quase moderna, cujas escolhas são feitas à luz da própria vontade. “É a mulher que quer ser senhora do próprio destino”, resume. “Mas, por outro lado”, prossegue o cartunista, “ela poderia ser também a clássica mulher que se atira em busca do seu homem, a qualquer preço, e se contenta com qualquer migalha que o destino lhe dê em troca de estar com seu amado. Quase a Amélia da música, que ‘passava fome ao meu lado e achava bonito não ter o que comer’. Minha tendência é ficar com a primeira imagem, mas é evidente que é uma interpretação fácil para torná-la mais heroína ainda, o que é desnecessário, pois mesmo que ela fizesse tudo apenas por paixão, ainda assim teria os mesmos méritos que tem como heroína de guerra”.
Revista Problemas Brasileiros

quarta-feira, 4 de abril de 2012

O que foi a Revolução Farroupilha?


Renata Costa

A Revolução Farroupilha passou para a história como uma das revoltas por liberdade no Brasil da época do Império, no século 19. Segundo os livros tradicionais, o movimento começou em protesto aos impostos altos cobrados no charque, no sal e em outros produtos da região Sul, e queria a independência em relação ao governo central.

O historiador Moacyr Flores, autor de diversos livros sobre a Revolta, frutos de suas pesquisas de mestrado e doutorado, contesta essa versão. Ele considera a Revolução Farroupilha como uma guerra civil, já que colocou os rio-grandenses uns contra os outros. "Foi uma guerra iniciada pelos grandes proprietários rurais, chamados estancieiros. O Império, que já cobrava impostos das propriedades urbanas, decidiu cobrar impostos sobre as propriedades da zona rural", explica.

Segundo o professor, a população de Porto Alegre foi a favor da cobrança na zona rural, pois pequenos proprietários da capital eram taxados. "Por que não os grandes estancieiros?", questiona o pesquisador.

Por esse motivo, os farroupilhas, liderados por Bento Gonçalves, tomaram o poder em Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, expulsando de lá o presidente da província e empossando o vice. Para o historiador, aí começa um período inédito nas revoltas brasileiras, já que pela primeira vez os "rebeldes" conseguem implantar uma República. O governo apoiado por Bento Gonçalves teve seis ministérios, serviço de correio, tratados com outros países (o Uruguai foi um deles) e uma polícia própria. "Não houve, no entanto, aplicação de ideias liberais, ou tentativa de qualquer mudança social. Esse governo se caracterizou como uma ditadura, reprimindo duramente qualquer opinião contrária", diz.

Outro engano, segundo ele, é achar que os negros lutaram pelos farroupilhas em favor da conquista de sua liberdade. "Não houve negros do lado dos estancieiros, pois estes não colocaram seus escravos para batalhar, sempre os mantiveram em trabalho nas fazendas. Os negros que participaram estavam do lado do Império e eram da chamada Infantaria Negra", afirma. Mesmo o nome "farroupilha", não seria derivado de "farrapos", referente ao estado desgastado dos revolucionários. "Farroupilha é o nome do partido dos liberais exaltados, fundado em 1832", esclarece.

A Revolta terminou em 1845 por um tratado de paz estabelecido entre os revolucionários e Duque de Caxias. Parte do "fracasso" da república farroupilha deveu-se à sua não aceitação por parte da população do Rio Grande do Sul. "Porto Alegre já era uma cidade comercial, então é claro que ninguém apoiava uma guerra, pois sempre há pilhagens e muito prejuízo para todos", explica o professor.

A visão romântica da história dos farrapos foi estabelecida, segundo o pesquisador, em 1947, com a criação dos Centros de Tradição Gaúcha (CTG). Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se no Rio Grande do Sul um movimento de valorização da terra e origens que culminou com a abertura desses locais. "Houve então uma apropriação do gauchismo como símbolo de identidade, modificando a interpretação de toda essa história, colocando os revoltosos como heróis", conta. É, conforme diz o professor, "a invenção das tradições", citando o título do livro do historiador Eric Hobsbawn.
Revista Nova Escola

O que foi a Revolução Farroupilha?


Renata Costa

A Revolução Farroupilha passou para a história como uma das revoltas por liberdade no Brasil da época do Império, no século 19. Segundo os livros tradicionais, o movimento começou em protesto aos impostos altos cobrados no charque, no sal e em outros produtos da região Sul, e queria a independência em relação ao governo central.

O historiador Moacyr Flores, autor de diversos livros sobre a Revolta, frutos de suas pesquisas de mestrado e doutorado, contesta essa versão. Ele considera a Revolução Farroupilha como uma guerra civil, já que colocou os rio-grandenses uns contra os outros. "Foi uma guerra iniciada pelos grandes proprietários rurais, chamados estancieiros. O Império, que já cobrava impostos das propriedades urbanas, decidiu cobrar impostos sobre as propriedades da zona rural", explica.

Segundo o professor, a população de Porto Alegre foi a favor da cobrança na zona rural, pois pequenos proprietários da capital eram taxados. "Por que não os grandes estancieiros?", questiona o pesquisador.

Por esse motivo, os farroupilhas, liderados por Bento Gonçalves, tomaram o poder em Porto Alegre, no dia 20 de setembro de 1835, expulsando de lá o presidente da província e empossando o vice. Para o historiador, aí começa um período inédito nas revoltas brasileiras, já que pela primeira vez os "rebeldes" conseguem implantar uma República. O governo apoiado por Bento Gonçalves teve seis ministérios, serviço de correio, tratados com outros países (o Uruguai foi um deles) e uma polícia própria. "Não houve, no entanto, aplicação de ideias liberais, ou tentativa de qualquer mudança social. Esse governo se caracterizou como uma ditadura, reprimindo duramente qualquer opinião contrária", diz.

Outro engano, segundo ele, é achar que os negros lutaram pelos farroupilhas em favor da conquista de sua liberdade. "Não houve negros do lado dos estancieiros, pois estes não colocaram seus escravos para batalhar, sempre os mantiveram em trabalho nas fazendas. Os negros que participaram estavam do lado do Império e eram da chamada Infantaria Negra", afirma. Mesmo o nome "farroupilha", não seria derivado de "farrapos", referente ao estado desgastado dos revolucionários. "Farroupilha é o nome do partido dos liberais exaltados, fundado em 1832", esclarece.

A Revolta terminou em 1845 por um tratado de paz estabelecido entre os revolucionários e Duque de Caxias. Parte do "fracasso" da república farroupilha deveu-se à sua não aceitação por parte da população do Rio Grande do Sul. "Porto Alegre já era uma cidade comercial, então é claro que ninguém apoiava uma guerra, pois sempre há pilhagens e muito prejuízo para todos", explica o professor.

A visão romântica da história dos farrapos foi estabelecida, segundo o pesquisador, em 1947, com a criação dos Centros de Tradição Gaúcha (CTG). Após a Segunda Guerra Mundial, iniciou-se no Rio Grande do Sul um movimento de valorização da terra e origens que culminou com a abertura desses locais. "Houve então uma apropriação do gauchismo como símbolo de identidade, modificando a interpretação de toda essa história, colocando os revoltosos como heróis", conta. É, conforme diz o professor, "a invenção das tradições", citando o título do livro do historiador Eric Hobsbawn.
Revista Nova Escola

sábado, 21 de março de 2009

O mito de Garibaldi na América do Sul

No século XIX, o herói da unificação italiana participou ativamente das lutas republicanas no sul do Brasil e no Uruguai, tornando-se um “herói de dois mundos”
por Pietro Rinaldo Fanesi
Garibaldi na revolução – Anita Garibaldi, óleo sobre tela, Johann Moritz Rugendas, século XIX

Anita, a grande paixão da vida de Garibaldi, contribuiu para que o mito do aventureiro italiano assumisse um caráter popular no Brasil

Em 1836, o líder da Revolução Farroupilha, Bento Gonçalves, então preso no Rio de Janeiro, recebeu a visita de um imigrante que havia chegado há pouco da Itália e começava a circular pelos círculos da maçonaria brasileira. Seu nome era Giuseppe Garibaldi, e assim começava a trajetória política do revolucionário italiano pela América do Sul, que lhe renderia o título de “herói de dois mundos”.

Ao aportar no Brasil no final de 1835, Garibaldi havia imediatamente se dirigido à comunidade de italianos que adotaram o Rio de Janeiro como lar depois de expulsos de seu país por lutarem pela unificação italiana. Seu primeiro contato político foi Giuseppe Stefano Grondona, imigrante oriundo da Ligúria que chegara ao Rio em 1815, admirador do pensamento político do republicano italiano Giuseppe Mazzini. Grondona mantinha relações com os círculos democráticos de Marselha, porto de onde Garibaldi havia embarcado para a América, e aparentemente o recebeu bem na capital brasileira, introduziu-o nos meios da maçonaria local.

O recém-chegado estreitou relações com outros dois exilados italianos, Luigi Rossetti, instalado no Brasil desde 1827, e Giovanni Battista Cuneo, que era ao mesmo tempo o principal divulgador das idéias de Mazzini entre os italianos residentes no Brasil, por meio da revista Giovine Italia, e um grande captador de recursos para uma futura insurreição em sua terra natal. Foi por meio desses exilados e do também italiano Livio Zambeccari que Garibaldi entrou em contato com o gaúcho Bento Gonçalves, que se tornara também um simpatizante de Mazzini por meio da influência dos maçons italianos e representava um elo dos republicanos com a elite brasileira e, em particular, a do Rio Grande do Sul.

Sabe-se pouco sobre estas relações travadas no interior da maçonaria, motivadas por comuns ideais humanitários, internacionalistas e republicanos, mas elas podem ajudar a entender o mito que se criou no Brasil em torno da figura de Garibaldi que, após a libertação de Bento Gonçalves, lutou ao lado dos riograndenses na tomada de Laguna, em Santa Catarina, onde foi fundada a breve República Juliana em 1839. Foi ali que o “herói de dois mundos” conheceu a mulher que viria a ser a grande paixão de sua vida: Ana Maria de Jesus Ribeiro, ou simplesmente Anita Garibaldi. Por meio dessa relação o mito construído em torno de Garibaldi no Brasil assumiria uma forte ligação com a cultura popular local, permanecendo vivo até os nossos dias. Entre a população do sul do país tornou-se consenso ver no aventureiro italiano a figura de um herói popular, a não ser em áreas de grande imigração italiana procedente do Vêneto, com forte matriz católica e conservadora, como no caso da região de Caxias do Sul. Nessa região, a figura de Garibaldi foi objeto de uma confrontação política e cultural que teve conseqüências até épocas mais recentes.



Batalha dos Farrapos, óleo sobre tela, José Washington Rodrigues/ Prefeitura Municipal de São Paulo

Garibaldi lutou ao lado dos republicanos riograndeses na Revolução Farroupilha, o que fez dele um herói no sul do Brasil

Após a derrota da Revolução Farroupilha em 1840, Garibaldi estabeleceu-se no Uruguai e novamente lutaria ao lado dos republicanos e independentistas na guerra civil uruguaia ao participar da defesa de Montevidéu junto com os unionistas para libertar a cidade do cerco imposto pelas tropas do ditador argentino Manuel de Rosas e do líder conservador uruguaio Manuel Oribe. Ao contrário do Brasil, no entanto, no Uruguai as façanhas de Garibaldi não tiveram o mesmo reconhecimento unânime por parte da população local.

Na sociedade uruguaia a figura de Garibaldi sempre esteve no centro do debate entre as duas principais formações políticas do país: os colorados e os blancos. Os primeiros, representantes do liberalismo local, viam no revolucionário o chefe da Legião Italiana, herói da defesa de Montevidéu e da batalha de Santo Antonio del Salto, símbolo de uma visão laica e republicana da sociedade. Os outros, que representavam setores clericais e conservadores, viam nele apenas um mercenário intrometido numa guerra alheia.

A ligação de Garibaldi com o Uruguai foi tão forte que nas décadas posteriores ao seu retorno à Europa, várias ondas de exilados italianos aportaram em Montevidéu. Depois que os voluntários comandados por Garibaldi que marchavam para tomar Roma foram derrotados em Mentana, em 1867, mais de 1700 camisas vermelhas chegaram à capital uruguaia, muitos deles acompanhados pelas famílias, reforçando uma relação que nunca havia esvanecido. Esta imigração de tipo peculiar contribuiu com certeza para dar nova seiva, entre outras coisas, aos ideais garibaldinos que desde o primeiro momento tiveram fácil inserção na região do Rio da Prata dentro dos grupos inspirados pelos primeiros pensadores socialistas, como Saint-Simon, e depois por liberais ligados à maçonaria.

Por fim, também na Argentina foi construído um mito em torno de Garibaldi. Apesar do “herói de dois mundos” nunca ter de fato atuado nesse país, sua figura foi associada ao ativismo político ligado às idéias republicanas e, mais tarde, socialistas e anarquistas, pelo trabalho de Giovani Battista Cuneo e outros seguidores de Giuseppe Mazzini que atuavam na república platina. A presença dos exilados italianos na Argentina, e em Buenos Aires em particular, passou a ser marcante a partir de 1820, quando ativistas começaram a chegar ao Rio da Prata após serem expulsos de sua terra natal por participarem dos primeiros levantes republicanos na Itália.


Regresso de Garibaldi depois da Batalha de Santo Antonio, óleo sobre tela, Johann Moritz Rugendas, século XIX, Museu histórico de Montevidéu/ Museu Histórico de Montevidéu-Cabildo, Uruguai

No Uruguai, Garibaldi lutou pela causa republicana e tornou-se a grande figura na defesa de Montevidéu contra o cerco imposto pelos conservadores locais

Muitos marinheiros e mercantes instalaram-se na região e com certeza contribuíram para alimentar os ideais do Risorgimento entre os primeiros núcleos de imigrantes italianos e na própria sociedade portenha. Na Argentina, graças ao trabalho de Giovani Battista Cuneo, o pensamento de Mazzini influenciou fortemente os intelectuais liberais da chamada “Geração dos Proscritos”, e da Joven Generación Argentina, também conhecida como Asociación de Mayo, ponto de reunião, desde 1837, de figuras como Esteban Echeverria, Juan Battista Allberdi, Bartolomé Mitre e Miguel Irigoyen, que formavam a flor da elite rioplatense nos anos da grande imigração. Cuneo foi, muitas vezes, o respaldo intelectual da ação de Garibaldi na América Latina, e sua relevância foi tal que foi escrito que “a história da difusão do pensamento de Mazzini na América Latina foi em grande parte a história deste grande italiano imigrante”.

Em todos os países sul-americanos onde atuou, Garibaldi tornou-se um mito que foi utilizado de forma ambígua como elemento de identificação das comunidades italianas, relacionado ao binômio patriotismo-italianidade: de um lado Garibaldi maçom, anticlerical, democrático, internacionalista; do outro, o “pai da Pátria” (em particular a partir dos primeiros anos do século XX), sacralizado em alguns casos não apenas pela parte laica da sociedade.

Na ocasião da morte do “herói dos dois mundos”, em junho de 1882, em muitos países americanos as comemorações e as homenagens fúnebres adquiririam feições não apenas rituais, mas com forte significado político. No Uruguai a notícia da morte de Garibaldi foi recebida com forte emoção, com comemorações que foram organizadas pela comunidade italiana e a maçonaria local, e honras militares que lembraram a memória do vencedor da batalha de Santo Antonio del Salto. Em Porto Alegre, no ano seguinte foi inaugurado o primeiro trecho da rua Garibaldi, enquanto em várias localidades do sul do Brasil e na Argentina numerosas associações de assistência social e hospitais fundados pelas comunidades italianas receberam o nome de Garibaldi.

Com a chegada do novo século, as comunidades italianas aproveitaram a data do 4 de julho de 1907, primeiro aniversário do nascimento de Garibaldi, para dar continuidade a projetos destinados a consolidar a memória do herói, inaugurando estátuas e monumentos e batizando novas ruas e praças em várias cidades. A história da construção de monumentos dedicados a Garibaldi, e também a Anita, mereceria uma reconstrução cuidadosa, mas aqui cabe ressaltar a relevância desta questão para o conjunto das relações políticas e culturais dentro das comunidades italianas e nos meios locais. Em Montevidéu, por exemplo, os “camisas vermelhas”, herdeiros da memória garibaldina, esforçaram-se para convencer o governo local da necessidade de tornar visível a presença do herói na capital da república oriental. Seus esforços foram premiados quando, em 1900, foi colocada a pedra fundamental de um monumento nacional em homenagem a Garibaldi, com um discurso inaugural de Pietro Gori, incansável animador do movimento anarquista entre os imigrantes italianos no Rio da Prata. No entanto, a obra projetada pelo escultor espanhol Augustin Querol, e financiada pelo governo com 100.000 pesos já em 1883, nunca chegou a ser realizada pela obstinada oposição do partido blanco, que pressionou o parlamento a impedir a finalização do monumento, provocando grande polêmica política.


Reprodução

Imigrantes italianis garibaldinos no Brasil comemoram o aniversário de morte do herói no início do século XX

Em Porto Alegre o monumento iniciado com uma subscrição pública em 1907, demoraria seis anos para ser inaugurado na nova praça dedicada ao herói, com grande participação da comunidade italiana. A escultura apresenta algumas peculiaridades interessantes: Garibaldi veste o poncho, representado o revolucionário da Farroupilha e ao seu lado já aparece Anita, a mulher guerreira.

Apesar da oposição de alguns setores políticos que não consideravam Garibaldi merecedor de um monumento de grande porte, por não ser um protagonista da história da Argentina, no bairro de Palermo, em Buenos Aires, foi erguida uma estátua eqüestre, obra do italiano Eugenio Maccagnani, inaugurada em 18 de junho de 1908, com a presença do presidente da república, Julio A. Roca.

O mito de Garibaldi, ainda bem depois da sua morte e da conclusão do processo de unificação nacional, teve uma excepcional e inédita capacidade de difusão e enraizamento popular não apenas na Itália, mas em todos os países onde o “herói de dois mundos” lutou, ou com presença de significativas comunidades italianas. Talvez porque Garibaldi, sendo neste sentido precursor de um moderno estilo de ação política, soube despertar o imaginário coletivo e popular por meio de seu extraordinário protagonismo.

Pietro Rinaldo Fanesi é professor do Departamento de História da Universidade de Camerino, Itália, e autor de Garibaldi, eroe moderno (Garibaldi, herói moderno – Editora Aracne, 2007)

Revista Historia Viva