Mostrando postagens com marcador Greve. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Greve. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Barricadas de 1917

Morte de um sapateiro anarquista provoca a primeira greve geral do país

CECÍLIA PRADA


Os primeiros dias do mês de julho têm sido marcados, na história pátria, e principalmente na paulista, como dias guerreiros e sanguinolentos – o mais conhecido e celebrado é certamente o 9 de julho de 1932, com a eclosão da Revolução Constitucionalista, concluída três meses mais tarde com uma derrota ambígua, tida como "vitória" até hoje pelos paulistas, pois teria obrigado Getúlio Vargas a instituir uma Constituinte, dois anos mais tarde. Mas, se mergulharmos no passado remontando aos tempos da fundação da cidade, vamos encontrar outro 9 de julho que não deve ser esquecido: o de 1562, quando os moradores de Piratininga, juntando-se aos padres jesuítas, defenderam o povoado contra a invasão de índios inimigos, permitindo a sobrevivência do núcleo que seria mais tarde a cidade de São Paulo. De julho ainda, do dia 5, data a Revolução Tenentista de 1924, a segunda do gênero, que lembrava a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, ocorrida dois anos antes, na mesma data.

Mas há ainda outro dia do mesmo mês que perdura na memória da cidade: 10 de julho de 1917 (segundo alguns historiadores seria mesmo o dia 9), marcado pelo assassinato pelas tropas do governo de um sapateiro anarquista de 21 anos, Antonio Martinez (ou José Martinez, de acordo com outros). Ao tombar baleado mortalmente no pátio de uma fábrica durante uma manifestação popular de protesto, ele se tornou o estopim que deflagrou o primeiro grande movimento da história sindical brasileira – uma greve geral que paralisou a cidade de São Paulo, estendendo-se depois ao Rio de Janeiro e a todos os principais centros industriais do país.

O enterro de Martinez, no dia 11 de julho, transformou-se em uma das mais impressionantes demonstrações populares até então registradas. O cortejo fúnebre reuniu cerca de 10 mil pessoas que, partindo da Rua Caetano Pinto, no Brás, caminharam a pé até o Cemitério do Araçá, passando pelo centro de São Paulo em total silêncio, mas com uma energia capaz de debelar o feroz cerco que tentava opor a polícia, armando barreiras – como nos contam numerosas testemunhas da época. À beira da sepultura revezaram-se os oradores, expressando a indignação geral. No regresso, a multidão dividiu-se, indo uma parte para a Praça da Sé e outra para a casa do operário morto, e comícios simultâneos foram organizados nos dois lugares. Fora de controle, elementos da turba aproveitaram para realizar em vários pontos da cidade assaltos e pilhagens a mercearias, armazéns, depósitos, enquanto as fábricas e oficinas se esvaziavam. O terror espalhava-se entre a população e recrudescia a ação policial.

O movimento, que fora iniciado ainda em junho por greves locais nas fábricas têxteis nos bairros da Mooca e do Ipiranga, reivindicava significativo aumento salarial, melhores condições laborais e a regulamentação do trabalho de mulheres e menores, além de apresentar uma exigência específica: a supressão de uma obrigatória contribuição "pró-pátria" imposta pela burguesia imigrante de São Paulo em favor da Itália, descontada até mesmo dos salários dos trabalhadores, como acontecia no Cotonifício Crespi.

Nos dias que seguiram, São Paulo inteira parecia estar transformada em praça de guerra – sabemos que durante a República Velha os problemas sociais foram sempre vistos como "uma questão de pata de cavalo". Segundo relatos da época, na cidade deserta a população em pânico mantinha-se trancada em casa, porque havia ordem expressa de atirar em quem ficasse parado na rua. As cargas de cavalaria sucediam-se, rumorosas e implacáveis, enquanto nos bairros fabris ecoavam seguidos tiroteios, com vítimas fatais. O operário e historiador Everardo Dias deixou um contundente testemunho daqueles dias, no qual retrata o quadro beligerante armado pelos dois lados. Diz: "...Os jornais saem cheios de notícias sem comentários quase, mas o que se sabe é sumamente grave, prenunciando dramáticos acontecimentos", pois "...em certas ruas já começaram a fazer barricadas com pedras, madeiras velhas, carroças viradas, e a polícia não se atreve a passar por lá, porque dos telhados e cantos partem tiros certeiros".

Estendida ao interior em poucos dias, e depois a outros estados – no Rio Grande do Sul assumiu grandes proporções –, a Greve Geral de 1917 transformou-se em verdadeira insurreição trabalhista, resultado dos esforços constantes de líderes anarquistas italianos entre o operariado. E suas conseqüências se fizeram sentir nos anos posteriores, na organização sindical e na formação dos partidos esquerdistas.

Contra o Estado e a Igreja

Hoje como ontem

"... sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Quem duvida disso não conhece a natureza humana."

Mikhail Bakunin

O pensamento anarquista, elaborado pelo russo Mikhail Bakunin (1814-1876), esteve presente durante a segunda metade do século 19 e nas primeiras décadas do século 20 nos movimentos sociais de origem européia. Filho de um rico proprietário de terras, Bakunin estudou filosofia na Universidade de Berlim e optou pela ação política. Viajou pela Europa de 1843 a 1848 e conheceu em Paris Karl Marx e Proudhon. Participou da Revolução de 1848 na França e da Comuna de Paris, em 1871. Com o fracasso desta, resolveu dedicar-se totalmente ao desenvolvimento e à aplicação de suas idéias sociais. Rompeu com o comunismo em 1872. O seu era um socialismo libertário, que visava à destruição do Estado autoritário e centralizador, das "coisas", e não das pessoas, ao passo que o comunismo desembocava no autoritarismo do Estado, na centralização do poder, na perda dos direitos e liberdades individuais. A influência de Bakunin está presente ainda hoje em várias ações esquerdistas, em grupos ambientalistas, cooperativistas e de reforma urbana.

A primeira experiência anarquista na história do Brasil foi a Colônia Cecília, uma comunidade agrícola estabelecida no alvor da República, mas em uma área que fora doada pelo imperador dom Pedro II, na cidade de Palmeira, no sudeste do Paraná, de 1890 a 1894. Fundada por um pequeno grupo de italianos dirigido pelo filósofo e cientista Giovanni Rossi, é considerada até hoje o mais importante experimento anarquista da história do país e serviu de tema a várias obras de pesquisa e aos livros de memórias de Zélia Gattai, Anarquistas, Graças a Deus e Cittá di Roma, nos quais a escritora descreve a participação de seus pais na colônia.

Com a extinção da escravidão e as sucessivas levas de imigrantes europeus, principalmente italianos, que aqui chegaram na segunda metade do século 19 para trabalhar nas fazendas de café e nas indústrias de São Paulo, o pensamento anarquista foi-se espalhando na classe trabalhadora, ancorando sua ação na divulgação cultural e doutrinária estabelecida por meio de numerosos pequenos jornais, publicados quer em italiano quer em português. Nas primeiras décadas do século 20, os principais órgãos anarquistas de São Paulo foram "La Battaglia", fundado e dirigido por Oreste Ristori, e "A Lanterna", do brasileiro Edgard Leuenroth – que se tornaram ponta-de-lança em encarniçadas campanhas contra o sistema estabelecido e contra a Igreja Católica. No Brasil, esta era extremamente conservadora e reproduzia o discurso das elites, servindo como instrumento de submissão dos trabalhadores ao capitalismo selvagem que se estabelecia.

Como os estrangeiros não tinham direito a freqüentar escolas públicas, nem acesso a instituições públicas de saúde, foram incentivadas pelos anarquistas todas as iniciativas que representavam a transposição da educação e da cultura européia para o nosso solo. Vários centros sociais, teatros, associações de socorro mútuo e assistenciais reuniam as famílias dos imigrantes e compensavam o descaso do Estado. São Paulo era, na época, uma cidade onde se ouvia mais o italiano, em seus vários dialetos pitorescos, do que o português. Essa influência do idioma e da cultura peninsular atingia todos os segmentos da vida paulistana – ao ascender socialmente, o imigrante tornava-se elemento ativo dessa cultura. No teatro paulistano, ficaram famosos os filodrammatici, sociedades teatrais que se espalharam pela cidade de 1898 em diante. Enquanto a produção autóctone limitava-se a um repertório provinciano, "caipira", recheado de chanchadas que apenas pretendiam fazer rir, o teatro amador italiano coexistente – além de tudo enriquecido pela eventual participação de grandes artistas europeus que nos visitaram no período – fazia circular idéias avançadas e estimulava o debate de várias questões sociais, com um repertório dramático que incluía os maiores autores da época. A influência desses círculos durou até a década de 1950 e desembocou, na opinião de historiadores do teatro como Miroel Silveira e Sábato Magaldi, na criação do Teatro Brasileiro de Comédia – um "divisor de águas" no cenário nacional, apesar do caráter elitista de que se revestiu.

Realizaram também os anarquistas uma experiência de muito sucesso no campo da educação: o estabelecimento, no período de 1902 a 1918, de escolas de caráter "libertário" ou "racionalista" em que, desvinculadas de qualquer dogma filosófico ou religioso, conviviam (o que era proibido em outras escolas) crianças de ambos os sexos, filhas de operários, obtendo um ensino gratuito de excelente nível e a instrução necessária para melhorar seu nível de vida. Várias dessas escolas, que eram sustentadas por contribuições mínimas dos pais e pela ajuda generosa de "homens de boa vontade", mantiveram-se durante certo tempo na capital e no interior. Após a grande agitação social dos anos 1917 e 1918, entretanto, foram fechadas à força pelo governo. Seus princípios, porém, filtrados através dos anos, foram revividos no tempo da Escola Nova dos anos 1930/40 e de certa forma persistem ainda hoje.

O gentleman e o terrorista

Entre os vários líderes que no início do século passado batalharam pela ideologia anarquista, merecem destaque especial dois homens: o brasileiro Edgard Leuenroth (1881-1968), jornalista e líder militante, e Oreste Ristori (1874-1943), italiano natural da Toscana, que viveu em São Paulo de 1904 a 1917 e de 1925 a 1936. Defendendo a mesma causa, apresentavam, porém, grandes diferenças de personalidade, educação e sobretudo modos de agir – contrastava a ação contínua, equilibrada, ética e pacífica de Leuenroth com a agitação febricitante de Ristori, agressiva, exacerbada, disposta a usar todos os meios para obter seus fins.

Edgard Leuenroth foi considerado um gentleman anarquista, um sonhador, e mereceu o respeito e a consideração geral – só foi agredido e difamado pelos comunistas, com Astrojildo Pereira à frente, devido às divergências históricas entre os dois partidos. Forçado a abandonar os estudos aos 10 anos de idade para ajudar a família, foi caixeiro, office boy e tipógrafo. Mas aos 16 anos já estreava como jornalista, fundando um jornal crítico e literário quinzenal, "O Boi". Dali por diante foi sempre jornalista, colaborando em numerosos órgãos paulistas e do Rio de Janeiro até 1909, ano em que assumiu a direção do jornal anticlerical e liberal "A Lanterna", que liderou a campanha de denúncia de um crime sexual que teria sido cometido por padres do Orfanato Cristóvão Colombo, do bairro do Ipiranga, contra uma menina de 7 anos – o rumoroso e nunca suficientemente esclarecido "caso Idalina", que abalou São Paulo.

"A Lanterna" durou até 1915. Em 1917, Leuenroth já fundara outro jornal, "A Plebe". Durante o Estado Novo, esse líder viu sua ação reprimida e concentrou-se no sindicalismo. Teve uma participação importante na fundação da Associação Paulista de Imprensa, em 1933. Até o final de sua longa vida manteve-se ativo na imprensa e na ação política, falecendo em 1968, aos 87 anos de idade. Foi um grande pesquisador de documentos relativos aos movimentos sociais operários e legou à Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) um precioso arquivo, que leva seu nome.

Oreste Ristori, considerado "o maior agitador jamais surgido em terras brasileiras", teve uma vida aventurosa e dramática, em consonância com seu radicalismo – chegou à América do Sul em 1901, fugido da Itália, onde já empreendera várias ações de rebelião. Esteve primeiro na Argentina e no Uruguai, mas em 1904 veio para o Brasil, por ter divergido dos companheiros do rio da Prata, indispondo-se com eles. Era um líder carismático, capaz de convencer multidões com sua oratória, com o desenvolvimento seguro de idéias, na luta contra a opressão religiosa e estatal, ou na abordagem de problemas tópicos, como o do alcoolismo entre os operários. O escritor Eduardo Maffei, falecido em 2003, que o conheceu, dizia, em 1987: "Seus patrícios o admiravam, e a quantidade de gente velha, de ascendência italiana, que hoje ostenta o nome Oreste, dado em sua homenagem, é muito grande". Curiosa foi a reação de Ristori à desorganização do Estado brasileiro – ele, anarquista, sentia-se perplexo diante de tanta desordem, como relata seu biógrafo, Carlo Romani (Oreste Ristori: Uma Aventura Anarquista, Annablume, 2002): "Como realizar então o discurso anarquista de negação do Estado em um território onde o Estado é ausente e o desgoverno comanda a baderna gananciosa de quem é mais esperto e violento?"

A primeira tarefa de que se desincumbiu foi a de desencorajar seus patrícios à emigração, seguida de muitas outras que dirigiu com uma energia ilimitada. Após 12 anos de militância em São Paulo, tendo sido expedido um mandado para sua prisão, fugiu novamente para a Argentina, no início de 1917. Em 1925 já estava de volta no Brasil, onde aderiu ao Partido Comunista e inseriu-se no meio intelectual, tendo sido amigo de Oswald de Andrade, entre outros. Preso em 1935 e expulso do território nacional em 1936, foi repatriado e acabou sendo fuzilado pelos nazifascistas em Florença, em 1943.

O grande confronto

O ano de 1917, que passaria à história como o ano da Revolução Comunista russa, foi marcado, em todo o mundo, por uma grande agitação social. Na Europa, a 1ª Guerra Mundial ia chegando ao fim e contabilizavam-se os milhões de mortos e feridos, os grandes prejuízos materiais, a destruição de cidades, a migração obrigatória de grandes segmentos populacionais. No Brasil, era crescente o descontentamento do operariado com as condições abusivas do trabalho nas fábricas, semelhantes às do início da Revolução Industrial na Inglaterra: jornadas de 14 horas, sem férias, sem descanso semanal remunerado, sendo as refeições feitas ao lado das máquinas; salários insuficientes e pagamento irregular; nenhuma assistência social ou de saúde; proibição de reuniões e de organização dos operários; ausência absoluta de direitos trabalhistas e de indenização por acidentes de trabalho.

As mulheres e os menores não somente enfrentavam as mesmas condições impostas aos homens, mas constituíam uma grande força de trabalho, obrigada a agüentar abusos e maus-tratos. Os jornais da época nos informam que, em 1912, 67% dos trabalhadores têxteis eram mulheres. Em 1918, mais de 50% do operariado fabril era constituído de menores. Contingentes de crianças entravam em uma fábrica às sete horas da noite para só sair às seis da manhã, e muitas delas se queixavam de ser espancadas pelo mestre de fiação, apresentando até ferimentos causados por manivelas.

Com o crescente aumento do custo de vida e a escassez de alimentos, pois toda a nossa produção era vendida para a Europa em guerra, o descontentamento popular explodia em greves localizadas, que muitas vezes terminavam em correria, tiroteio e prisões. O movimento operário já começara a organizar-se nos primeiros anos do século. Em abril de 1906 foi realizado, no Rio de Janeiro, o I Congresso Operário Brasileiro, do qual resultou a criação da Confederação Operária Brasileira (COB), que optava pela luta direta e de caráter econômico, em oposição à efetuada pelos partidos, de caráter eleitoreiro. Como métodos de ação foram aprovados a greve, a sabotagem, o boicote, manifestações públicas – o que, naturalmente, fez recrudescer a repressão policial, manipulada pela sociedade "bem-pensante" para assegurar a mão-de-obra fabril. Com a Lei de Expulsão dos Estrangeiros – denominada Lei Adolfo Gordo –, promulgada em janeiro de 1907, o governo conseguiu expulsar mais de uma centena de operários imigrantes, na sua maioria líderes sindicais.

O movimento grevista de 1917 foi, portanto, a condensação do descontentamento popular, o confronto aberto de classes. O momento em que as "duas cidades" que os viajantes de 1900 já distinguiam em São Paulo (a metrópole "oficial" que se embelezava para rivalizar com as capitais européias e a cidade fabril, de chaminés enfumaçadas e imigrantes abrigados em cortiços) se confrontaram. Os grevistas tomaram conta das ruas por 30 dias, o comércio fechou, os transportes pararam, gêneros essenciais como leite e carne só eram distribuídos a hospitais, e assim mesmo com autorização do movimento operário. Em muitos lugares erguiam-se barricadas, principalmente nos bairros do Brás e da Mooca. O governo via-se impotente para dominar a situação.

O auge do movimento ocorreu entre os dias 12 e 15 de julho, quando o número de grevistas passou de 25 mil para 45 mil trabalhadores. Enquanto em São Paulo as assembléias gerais chegavam a reunir até 80 mil pessoas, a imprensa veiculava a paralisação de operários do Distrito Federal, de Curitiba, de Porto Alegre.

O desfecho

Em extenso depoimento sobre a Greve Geral, feito no final de sua vida, Edgard Leuenroth fazia questão de dizer que ela não podia ser equiparada sob nenhum aspecto a quaisquer outros movimentos que posteriormente se verificaram como manifestações do operariado. Porque, dizia, "foi um movimento espontâneo do proletariado, sem a interferência, direta ou indireta, de quem quer que fosse. Foi uma manifestação explosiva, conseqüentemente [sic] de um longo período da vida tormentosa que então levava a classe trabalhadora".

Poucos dias após sua eclosão, porém, o movimento organizava-se e crescia, firme em suas reivindicações. Um Comitê de Defesa Proletária foi formado para entabular negociações com o governo – mediadas por uma comissão de jornalistas que garantia a liberdade dos líderes operários, por sugestão do diretor do jornal "O Combate", Nereu Rangel Pestana. As reuniões se realizaram na redação de "O Estado de S. Paulo".

Os industriais tiveram de assumir um compromisso que incluía vários itens, como o aumento de 20% sobre os salários, pontualidade no pagamento e a declaração de que nenhum grevista seria dispensado e de que os patrões acompanhariam com a máxima boa vontade as iniciativas tomadas para melhoria das condições morais, materiais e econômicas dos trabalhadores. Simultaneamente, o governo comprometeu-se a libertar todos os operários que haviam sido presos, reconhecer o direito de reunião, interessar-se para que fossem estudadas e votadas leis relativas ao trabalho dos menores de 13 anos e das mulheres, no período noturno.

Além disso, resoluções de caráter mais geral foram tomadas, caracterizadas evidentemente pelo mesmo recheio demagógico imposto pela precária situação de encurralamento em que governo e indústria se viram colhidos: o poder público estudaria medidas viáveis para minorar o custo de vida e exerceria oficiosamente sua autoridade sobre o grande comércio atacadista para garantir preços razoáveis para os produtos de primeira necessidade. Segundo Everardo Dias, em História das Lutas Sociais no Brasil, finalizava esse belo documento a afirmação de que "o poder público, aliás no desempenho de um dever que lhe é muito grato exercer, porá em execução medidas conducentes a impedir a adulteração e falsificação dos gêneros alimentícios".

Como sói acontecer, as promessas extraídas no fervor da greve não foram mantidas por muito tempo pelos patrões. As causas do relativo fracasso do movimento são atribuídas por alguns historiadores à fragilidade do movimento "espontâneo", que em sua grande maioria era composto por operários de pequenas oficinas e artesãos, sapateiros, eletricitários, trabalhadores de companhias de gás, mecânicos. O movimento refletia apenas o ideário anarquista, recusando-se seus líderes a organizar os operários de forma mais centralizada e negando a formação partidária, que segundo os comunistas – eternos inimigos dos anarquistas – seria a única maneira de travar de forma eficiente a luta política contra a burguesia e o seu Estado.

Revista Problemas Brasileiros

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Greve: A ferro e carvão


Greve: A ferro e carvão
A última grande greve da Inglaterra opôs a mão de ferro do governo Thatcher ao poderoso sindicato dos mineiros de carvão. E mudou para sempre a relação entre patrões e empregados
por Celso Miranda
A derrota fragorosa da greve das minas de carvão em 1985, na Inglaterra, representou uma virada histórica. Até aquele momento o poderoso sindicato dos mineiros impunha medo aos empresários e ao governo e tinha grande influência sobre os políticos e os partidos (um dos motivos era o papel histórico dos mineiros na conquista de uma legislação trabalhista que acabasse com as péssimas condições de trabalho no século 19). No entanto, agora eles tinham um, digo, uma opositora à altura: a primeira-ministra Margaret Thatcher, a Dama de Ferro do liberalismo. Ao fim de um ano de disputas, ela havia vencido os mineiros. E a esquerda estava arrasada. “Os historiadores e sociólogos terão, certamente, melhores explicações, mas o fim da greve dos mineiros na Inglaterra, para nós, pobres mortais, foi um sinal”, diz o jornalista britânico Seumas Milne, colunista político do jornal The Guardian e autor do livro The Enemy Within (“O Inimigo Interno”, ainda sem versão em português). “Sinal de um tempo em que a União Soviética ruía econômica e politicamente e que em mais alguns anos desapareceria. Sinal da vitória do capitalismo e da economia liberal. Sinal de uma nova ordem mundial gestada pela própria Thatcher, com o auxílio do então presidente americano Ronald Reagan e, no campo das idéias, do papa João Paulo II.”
As batalhas pelo coração e pelas mentes dos britânicos se desenrolaram nas ruas e nos bastidores da mídia e da política, com elementos de novela de espionagem. Ambos os lados saíram sujos e machucados, mas do lado esquerdo os ferimentos foram mortais. “A esquerda – e com ela o trabalhismo e o sindicalismo – dali para frente seria bem diferente. Mudanças que lhe dariam faces menos bravas e discursos mais brandos, como o do trabalhista Tony Blair, no próprio Reino Unido”, afirma Milne. “Isso repercutiria até no Brasil, que, em dezembro de 2001, elegeu um ex-metalúrgico, Luís Inácio Lula da Silva, agora mais calmo, com a barba aparada, como seu presidente.”
Não era só a política que estava em jogo naqueles dias. A economia britânica também estava em xeque. A greve começou apenas alguns meses depois da reeleição da primeira-ministra. Primeira mulher a ser eleita, em 1979, para chefiar um governo parlamentar na Europa, Thatcher vinha de um mandato conturbado, marcado por privatizações e pelo desemprego, mas readquirira popularidade após a vitória na Guerra das Malvinas contra a Argentina, em 1982. Antes mesmo de ela subir ao poder, Arthur Scargill, presidente do National Union of Mineworkers, o Sindicato Nacional dos Mineiros, dizia que não aceitaria um novo governo “Tory” (apelido do Partido Conservador Britânico).
E ele falava sério. E grosso. “Hoje pode parecer impossível aos mais jovens, mas os sindicatos eram fortes agentes políticos na Inglaterra dos anos 70”, diz o cientista político e jornalista David Williams, editor de política da BBC, de Londres. “O sindicato dos mineiros e seu líder já haviam conseguido desestabilizar o governo conservador Ted Heath, que acabou renunciando em 1974.” Primeiro é bom lembrar que a influência dos mineiros na política britânica é quase histórica. A extração de carvão na Inglaterra é vista quase que como a pedra fundamental da revolução industrial que tomou conta primeiro da Inglaterra, em meados do século 18, e depois do mundo todo. Mas, além da história, a importância econômica da atividade também era grande. Talvez ainda maior. Nos anos 80, cerca de 80% da energia elétrica da Inglaterra ainda era obtida por meio da queima do carvão mineral, do qual também dependiam indústrias pesadas, como a do aço. Além disso, o carvão era usado para o aquecimento interno das casas, coisa fundamental na Grã-Bretanha, principalmente no frio norte da ilha. Não é por acaso que naquela região, ao redor de cidades como York e Nottingham, se concentre grande parte do operariado das minas. Vinte anos depois, o aumento do uso de gás natural, vindo do mar do Norte, e da energia nuclear diminuiu bastante essa dependência.
Thatcher ansiava pelo conflito. A Dama de Ferro via o sindicato dos mineiros como uma das “trincheiras” da extrema esquerda inglesa, a quem ela acusava de preparar “a longa marcha rumo a uma utopia marxista”, conforme escreveu em seu livro de memórias The Downing Street Years (“Os Anos em Downing Street”, inédito no Brasil – Downing Street é o endereço da residência dos primeiros-ministros em Londres). O colunista Milne defende a tese de que mercado, concorrência e custos nunca foram as preocupações do governo com relação à indústria mineradora. A primeira-ministra pretenderia sobretudo enfraquecer o poder do sindicato. “Política e ideologia à parte, os sindicatos eram um empecilho para a estratégia de privatizações e redução da participação do Estado britânico na economia”, afirma Harry Cocks, doutor em história social da Universidade Birkbeck, de Londres.
Para Cocks, as políticas da primeira-ministra eram uma reação aos anos 70, quando os sindicatos tinham muito poder e eram capazes de proteger empregos e aumentar salários. “Thatcher considerava que a ação sindical, além de gerar inflação, desfavorecia a competitividade da indústria – pecados capitais na cartilha liberal que se escrevia ali”, afirma. A intenção de fechar e privatizar empresas estatais ameaçava diretamente as minas, pois muitas delas eram antigas e deficitárias. Com o alto desemprego, o setor era um barril de pólvora. O estopim veio em 5 de março de 1984: o governo anunciou o fechamento da mina de Cortonwood, em Yorkshire. No dia seguinte, Ian MacGregor, responsável nacional pelas políticas do carvão, deu o resto da má notícia: esse era só o início de um processo que acabaria com 20 minas e 20 mil empregos.
Era o que o sindicato temia, mas esperava. Vindo do setor privado norte-americano, MacGregor era famoso pela agressividade na política administrativa de downsizing. Na língua dos homens de negócio, o termo geralmente vem acompanhado de “competitividade”, “eficiência” e “otimização”, mas quer dizer mesmo “demissão em massa”. Os mineiros então declararam greve. Era o que o governo temia, mas esperava.
Até o fim com os mineiros
Greve anunciada, o sindicato apresentou suas exigências: exigia que nenhuma mina fosse fechada se tivesse recursos a ser explorados. Isso soa razoável, mas na prática significava que nenhuma poderia ser fechada. Na semana inicial de paralisação, das 174 minas existentes, apenas 28 trabalharam. Ainda assim, Thatcher avaliou que o custo político seria mínimo, já que as áreas mais afetadas pela greve – norte da Inglaterra, Escócia e País de Gales – já eram dominadas pelo Partido Trabalhista.
Para o cidadão britânico médio, o desenrolar dos episódios foi um embate de cabeçudos. Londres, mais ao sul, quase não sentiu a crise. Mas nas áreas industriais, onde o desemprego era alto em vários setores, era comum encontrar cartazes e adesivos em carros que diziam “Dig Deep for the Miners”, algo como “até o fim com os mineiros”.
O governo não cedeu. “Como a intenção de Thatcher era mesmo fechar as minas, a opção dos mineiros em não trabalhar acabava sendo um argumento a mais para isso”, diz Williams, da BBC. Em abril, um mês depois do início da greve, MacGregor acusou os trabalhadores sindicalizados em geral de serem os principais responsáveis pela falta de competitividade das minas de carvão do Reino Unido, o que, em última análise, transferia para os mineiros a culpa pelo fechamento das minas. Era uma completa inversão nas habituais quedas de braço entre o governo-empregador e empregados. “Até então os trabalhadores eram vistos como o lado mais fraco da corrente, enfrentando o governo na defesa de seus direitos e melhores condições de vida”, diz Harry Cocks. “Depois disso, os sindicatos passaram a ser vistos como entidades corporativistas que só pensam em si mesmas e que não estão nem aí para o bem comum.”
A guerra pelos corações e mentes dos cidadãos teve como campo de batalha principal a imprensa, onde pipocavam acusações contra o sindicato (leia quadro na página 48). No início da greve, em março, cerca de 75% da população era a favor do movimento. Em agosto, esse número não passava de 30%. Essa virada na popularidade da greve também dividiu o movimento. Em julho, os representantes das diferentes zonas industriais da Grã-Bretanha já reagiam de forma diferente diante da intransigência do governo de Thatcher nas negociações. Em Yorkshire, onde ficava a maioria das minas ameaçadas de fechamento e viviam comunidades inteiras dependentes delas, o movimento continuava forte. Mas em regiões como Nottinghamshire, onde as minas eram mais novas e produtivas, surgiu um movimento contra o sindicato nacional e a favor de uma votação pela continuidade da greve. “A recusa do líder Arthur Scargill em seguir a tradição e promover uma votação nacional pela continuidade da greve reverteu dramaticamente a simpatia popular que o movimento havia alcançado”, relembra David Williams, que na época cobriu as manifestações pelo canal ITV. “Isso deu ao governo embasamento para acusar Scargill de inimigo das instituições democráticas.”
Scargill, por sua vez, se apoiava em uma votação de 1981 que aprovara por antecipação uma greve caso o governo tentasse fechar qualquer mina que não estivesse à beira da exaustão. O líder mantinha a paralisação à espera da chegada de um aliado infalível: o inverno. O fim de 1984 se aproximava e com ele as baixas temperaturas no hemisfério norte, época de aumento do consumo do carvão. Para os grevistas, isso causaria uma pressão insuportável nos preços do produto. Novembro chegou, e parecia que o clima conspirava contra os mineiros. Em 15 anos não houvera um inverno tão quente na Inglaterra.
Apesar disso, Thatcher estava decidida a não depender dos termômetros. Para deter o preço do carvão, aumentou as importações, sobretudo da Polônia (em alguns momentos, o produto ficou mais barato do que no início da greve). Os Estados Unidos também deram uma mãozinha, enviando doses extras de carvão e petróleo. O presidente Ronald Reagan acompanhava de perto o desenrolar dos acontecimentos, como mostra a correspondência pessoal do líder americano endereçada à primeira-ministra britânica: “Querida Margaret, nas últimas semanas tenho pensado muito em você, com grande solidariedade, enquanto acompanho as atividades dos sindicatos dos mineiros. (…) Estou confiante de que você e seu governo sairão bem dessa. Minhas afetuosas considerações, Ron”.
No fim do ano, o moral dos operários estava derrubado e a iminência da derrota já era percebida. Grande parte dos mineiros das regiões mais afetadas pela greve foi demitida ou já havia desistido – há um ano sem trabalhar, alguns passaram a viver de doações. “Nas famílias que tiveram mais sorte, as mulheres arranjaram empregos, organizaram cozinhas coletivas e coletas – e descobriram que eram capazes de fazer coisas que tinham permanecido nas mãos dos homens por muito tempo”, diz o historiador Hamish Fraser, da Universidade de Strathclyde, em Glasgow, na Escócia. Ao fim do inverno, o movimento estava esgotado. Um ano depois do início, em março de 1985, a greve foi oficialmente encerrada.
Sem ceder um centímetro, Thatcher venceu o sindicato e todo o trabalhismo na Grã-Bretanha. “O poder que obteve com a vitória acachapante foi suficiente para aprovar, ainda em 1985, a chamada legislação anti-sindicatos, que inspirou outras tantas mundo afora e que existe ainda hoje”, afirma Harry Cocks. “É por isso que houve pouquíssimas greves relevantes desde 1985.”

Inimigo interno
Durante a greve, o serviçosecreto britânico plantou acusaçõescontra sindicalistas na imprensa. Um inquérito provou que eram falsas
Quase dez anos depois da greve dos mineiros, Seumas Milne, editor de política do prestigiado jornal britânico The Guardian, publicou The Enemy Within (“O Inimigo Interno”, inédito no Brasil, relançado recentemente por ocasião dos 20 anos da greve). Baseado nos documentos e conclusões dos processos abertos contra alguns líderes da greve, particularmente Arthur Scargill, Milne escreveu uma obra polêmica. “Mais do que as questões políticas e econômicas envolvidas, a disputa entre o governo e os sindicalistas em 1985 foi um concurso de popularidade, e nisso a mídia teve um papel decisivo. Nem sempre a briga foi justa. Pelo contrário”, diz Milne. O lado obscuro dessa batalha revela uma história de espionagem orquestrada por Stella Rimington, chefe do MI5, o serviço secreto britânico. Segundo Milne, o serviço de inteligência chamava o sindicato dos mineiros e seus representantes de “inimigos internos” e os espionava ilegalmente havia anos – coletando fotos e documentos, escutando e gravando conversas. Quando a greve se tornou mais radical, o governo lançou mão de informações nem sempre comprovadas e até de mentiras para enfraquecer o movimento dos mineiros. Exemplo disso foi o chamado Relatório Cook, que ligava Scargill e seu sindicato a um esquema de propinas vindas de supostos terroristas e falsários da Líbia de Muamar Khadafi (uma espécie de Bin Laden dos anos 80). O dossiê rendeu uma série de reportagens publicadas no jornal londrino Daily Mirror e levadas ao ar em um programa de TV. O impacto sobre a opinião pública foi enorme. O jornal, tido como simpático à esquerda, não revelou onde tinha conseguido as informações, e os jornalistas responsáveis levaram o Prêmio “Repórter do Ano” da imprensa britânica. No entanto, durante investigações em 1991, ficou comprovado que o jornal tinha compactuado, ou, na melhor das hipóteses, sido iludido pelo MI5, que havia fornecido as tais provas de corrupção. Outro ponto da guerra suja travada nos bastidores da greve foi a presença de agentes duplos. Infiltrados no sindicato, eles provocaram discórdias e fomentaram o radicalismo de algumas ações durante a greve. “O serviço secreto chegou a ter 18 agentes inflitrados, pelo menos dois deles em posições de destaque na direção nacional da greve”, diz Milne. “Em julho de 1984, quando grevistas e policiais se enfrentaram em uma verdadeira batalha campal que envolveu quase 10 mil pessoas em Yorkshire, agentes policiais estavam entre os grevistas.” A atuação das forças de segurança do governo não se limitou à espionagem. Elas são acusadas de terem produzido documentos e fotografias forjados, usar milhares de libras sem origem legal para custear as ações policiais e, ainda pior, intimidar testemunhas. No fim de 1984, grande parte da imprensa britânica publicou reportagens sobre o suposto envolvimento do sindicato com o crime organizado. A principal testemunha de acusação, Mohammad Altaf Abasi, era um homem sabidamente envolvido em negócios escusos em diversos países, da Ásia à Europa, mas isso não foi dito na época. Os documentos que ele apresentou como pertencentes a Scargill foram dados como genuínos, mas, em 1991, comprovou-se que eram falsos. Sem nenhuma prova, o caso foi arquivado. Stella Rimington, cuja demissão havia sido recomendada por uma comissão de inquérito posterior, aposentou-se pouco depois e assumiu cargo executivo em uma grande corporação.
Saiba mais
Livros
The Enemy Within, de Seumas Milne, Verso Books, 2004
Com um meticuloso trabalho de reportagem, o colunista do jornal The Guardian investiga o ataque da mídia à greve e aos sindicatos.
The Downing Street Years, de Margaret Thatcher, Harper Collins Publishers, 1993
Autobiografia da Dama de Ferro sobre os anos em que esteve à frente da política britânica.
Filme
Billy Elliot, de Stephen Daldry, 2000
Em 1984, um garoto de 11 anos descobre a paixão pelo balé, enquanto seu pai e o irmão mais velho se envolvem no recrudescer da greve.
Site
news.bbc.co.uk/1/hi/in_depth/uk/2004/miners_strike/default.stm
Especial da BBC com retrospectiva e análises da greve e de seus 20 anos.

Revista Aventuras na Historia