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terça-feira, 14 de abril de 2009

Cuba de quintal à ameaça aos Estados Unidos

A ilha localizada no mar do Caribe viu sua população nativa ser dizimada, enfrentou a dominação espanhola e a intervenção norte-americana até aderir ao sistema socialista, após a Revolução Cubana de 1959

POR MARIA TERESA TORÍBIO B. LEMOS

Na página ao lado: Fidel Castro discursa em Washington, em 15 de abril de 1959 (à esquerda); Raúl Castro e Che Guevera, em Cuba, 1958 (à direita) POLÍTICA FUNDO: SHUTTER STOCK / FOTOS:



Pintura da ilha de Cuba feita pelo cartógrafo holandês Johannes Vingboons (1616-1670)

O arquipélago cubano, situado entre o Golfo do México, o Mar das Antilhas (Caribe) e o Oceano Atlântico, distante apenas 180 quilômetros do Estado norte-americano da Flórida, abrange as ilhas de Cuba, Pinos e cerca de 1.600 ilhotas. Cuba é a maior das ilhas, com uma superfície de 110.992 km². A capital, San Cristóbal de la Habana, foi fundada em 25 de julho de 1515 por Diego Velázquez (1599-1660), primeiro governador da ilha.

Desde o século XVI, Cuba vem desempenhando relevante papel na história americana - antes pela sua posição estratégica, como núcleo irradiador da conquista espanhola, e, a partir da Revolução Cubana (1959), pelas posições adotadas em relação aos Estados Unidos. Descoberta por Cristóvão Colombo (1437-1506) em sua primeira viagem, em 27 de outubro de 1492, a ilha de Cuba recebeu primeiramente o nome de Juana, em homenagem a Juan de Castilla, herdeiro do trono espanhol que morrera em 1487. A partir daquela data, o território teve várias outras denominações, prevalecendo a de Colba, nome nativo, e registrado como Cuba, por Colombo, em seu Diário de Navegação. A procedência desse nome indica os topônimos indígenas coabaí ou cubanacan.

Naquela viagem, Cristóvão Colombo explorou parcialmente o litoral norte da ilha. Na segunda viagem, dirigiu-se para o sul em uma expedição de reconhecimento do litoral, quando encontrou a ilha de Pinos, que recebeu o nome de San Juan Evangelista. Ao atingir a ilha de Cuba, Colombo imaginou ter descoberto um continente. Para configurar a descoberta de terra firme, redigiu uma ata que foi assinada pela tripulação de sua nau, confirmando ter chegado à Ásia. Esse engano foi desfeito com a viagem de circunavegação realizada em 1508, por Nicolas de Ovando (1460-1518).

EXPLORAÇÃO E EXTERMÍNIO DA POPULAÇÃO NATIVA

Em 1512, Diego Colombo (1480-1526), filho primogênito de Colombo, encarregou o comandante Diego Velázquez da conquista e exploração da ilha. Velázquez encontrou forte resistência indígena liderada pelo cacique Hatuey, que já se confrontara anteriormente com os espanhóis no Haiti. Após sangrenta batalha, Hatuey foi derrotado e queimado vivo por ordem de Velázquez.

A produção de tabaco e a economia açucareira assumiram papel de destaque na reserva cubana

A colonização foi brutal, seguindo os mesmos mecanismos da conquista. Os grupos indígenas tainos e os siboneyes, que se encontravam em Cuba, originários da Flórida, foram submetidos a trabalhos compulsórios e escravizados até a extinção.

Após a etapa da conquista, a ilha de Cuba, centro irradiador da conquista, além de base e escala para as frotas que faziam o comércio entre a Espanha e o Novo Mundo, foi beneficiada por algumas décadas do apogeu produzido pela exploração do ouro de lavagem. No final do século XVI, a maior ilha das Antilhas foi perdendo a sua expressão econômica. Tornou-se local de piratas, bucaneiros e flibusteiros (piratas do mar das Antilhas), entre outros aventureiros que vinham para o Novo Mundo.

Batalha de Santo Domingo na versão do pintor polonês January Suchodolski (1797-1875)

ECONOMIA E MÃO-DE-OBRA NEGRA

Em meados do século XVI, com o esgotamento dos metais preciosos, a produção do tabaco e a economia açucareira assumiram papel de destaque na reserva cubana, prosseguindo até o século XVIII. Desenvolvido desde 1610, o comércio do tabaco assumiu grandes proporções a partir do século XVIII. Posteriormente, com a produção açucareira, a ilha readquiriu sua importância econômica.

O lucro produzido pelas vegas (terras plantadas com tabaco) alertou a Espanha para a riqueza da produção. E, em 1716, a metrópole decretou a Lei do Estanco, monopólio sobre a produção do tabaco. Com aquelas medidas restritivas originadas pelo estanco sobre o comércio do tabaco, os vergueiros (proprietários de tabaco) ficaram impedidos de vender livremente sua produção. Revoltados, iniciaram movimentos de rebelião que levaram seus líderes à forca, em 1723, enquanto outros pequenos produtores se transferiram para o Oriente da Ilha e Pinar del Rio, longe da fiscalização, para fugir do monopólio real.

Os nativos da ilha foram submetidos a trabalhos compulsórios e escravizados até a extinção


O comércio realizado pelas companhias espanholas, especialmente a Compañia de Habana, trouxe grande riqueza e poder aos proprietários de terra da ilha, principalmente aos comerciantes de tabaco e açúcar, além do tráfico de escravos africanos, importados para as plantations do Novo Mundo.

No século XVIII, Cuba se beneficiou da revolução negra no Haiti, que paralisou a produção de açúcar e destruiu os engenhos. Além de ocupar a posição desfrutada anteriormente pelo Haiti, Cuba incorporou a experiência técnica dos refugiados haitianos que entraram em seu território, beneficiando, dessa forma, os produtores e comerciantes locais. Graças à mão-de-obra negra, a economia açucareira tornou-se a principal riqueza do país.

Os escravos negros da África chegaram ao Novo Mundo junto com a expedição de Colombo. A nau de Pedro Alonso Niño (14681505), em 1502, trazia negros escravos para a exploração das novas terras. Na medida em que a colonização avançava e a resistência indígena atravancava a exploração de metais preciosos, o recurso era a mão-de-obra negra, barata e abundante. Com a eliminação dos indígenas, o tráfico se intensificou. Além de atender aos proprietários, Cuba também atuava como mercado revendedor de escravos para as demais colônias da América.

AS LUTAS PELA EMANCIPAÇÃO

Cuba durou cerca de quatro séculos. As ondas revolucionárias que assolaram as colônias espanholas na América também atingiram Cuba. A história das lutas de independência da ilha é marcada pela violência, intrigas internacionais e intervenções dos EUA. Sob a influência dos movimentos revolucionários das colônias espanholas, um grupo de criollos cubanos e espanhóis de tendência liberal iniciou um movimento conspiratório contra o domínio colonial, que foi sufocado e seus líderes condenados à morte.

Entre 1834 e 1838, diversas conspirações foram duramente rechaçadas pelas tropas comandadas pelo general Miguel Tacón y Rosique (1777-1855). De 1838 até 1868, os movimentos revolucionários se tornaram menos freqüentes, cedendo lugar às idéias anexionistas. Apoiados por espanhóis liberais e mesmo militares e políticos venezuelanos radicados em Cuba, os criollos enriquecidos passaram a defender a anexação de Cuba aos Estados Unidos.

Retrato do espanhol Diego Velázquez de Cuéllar (1465-1524), conquistador de Cuba

Vários líderes favoráveis à anexação de Cuba aos Estados Unidos, como Narciso López (1797-1851), militar e político venezuelano residente em Cuba, Joaquín de Agüero (1816-1851), de Porto Príncipe, e Isidoro Armenteros, de Trinidad, foram derrotados. Os dois últimos foram fuzilados e Narciso López, condenado ao suplício do garrote. Outros revolucionários foram supliciados e garroteados.


Nos Estados Unidos, os Estados do norte, contrários à escravidão, eram desfavoráveis à idéia da anexação de Cuba, pois acreditavam que o apoio a Cuba reforçaria a posição dos Estados escravistas do Sul. Os nortistas estavam mais preocupados com os conflitos internos de seus Estados às vésperas da Guerra de Secessão (1861-1865), que envolvia a escravidão como problema crucial.

As rebeliões na ilha recrudesceram após 1868, quando Carlos Manuel de Céspedes y Borja (1819-1874), proprietário de engenho de açúcar da região oriental de Cuba, iniciou a rebelião conhecida como A Guerra dos Dez Anos. Foi uma revolução sangrenta, na qual o número de mortos foi muito grande. O movimento contou com o apoio dos laborantes da região ocidental da ilha, controlada pelos espanhóis em Havana.

Em 10 de abril de 1869, em Guaimáro, reunidos em assembléia nacional, os revoltosos reconheceram a república em armas, ocasião em que indicaram Manuel Céspedes como presidente dos revolucionários. Os rebeldes receberam apoio informal do México, da opinião pública norteamericana e especialmente do governo do General Ulysses Grant (1822-1885), comandante-emchefe das tropas nortistas durante a Guerra de Secessão e 18º presidente dos Estados Unidos, entre 1868 e 1876.

A reação espanhola foi imediata. Tropas foram enviadas à ilha e, em 1873, Manuel Céspedes foi deposto. Os rebeldes ainda resistiram por mais alguns anos, mas a Espanha retomou o controle da ilha, em 1878.O período posterior, entre 1878 e 1895, conhecido como trégua profunda, caracterizou-se pelo predomínio do Partido Autonomista, que divergia substancialmente dos rebeldes separatistas. O Partido acreditava alcançar maior autonomia para o país de forma pacífica. Mas devido às dificuldades de interlocução com a Espanha, aquelas idéias pacifistas não vingaram.


No topo, imagem sobre a independência de Cuba, publicada na revista satírica espanhola La Flanca, em 1873; acima, a Rough Riders, cavalaria voluntária dos Estados Unidos, ataca em San Juan, em Cuba



O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA

Apesar dos sucessivos fracassos, as idéias revolucionárias continuavam a dominar os insurgentes. Em 1887, José Martí (1853-1895) tornou-se o principal representante dos independentistas cubanos exilados nos Estados Unidos. Em 1891, Martí organizou o Partido Revolucionário Cubano e aliou-se ao líder revolucionário Máximo Gómez (1836-1905), refugiado em Santo Domingo, atualmente capital da República Dominicana, e conseguiu que ele aceitasse chefiar a invasão a Cuba. A cidade de Nova York tornouse o centro das conspirações. Lá, reuniam-se os cubanos emigrados para planejar a invasão. Martí também angariou junto aos companheiros recursos para o movimento.

A rebelião começou em Cuba, com o Grito de Baire, e a seguir com o Manifesto de Monticristi, firmado por Martí e Gómez, ainda em Santo Domingo. Na ilha, juntaram-se aos revolucionários comandados por José Maceo (18491896) e seu irmão, que voltou da Costa Rica para a revolução. Em Dos Rios, logo após o início da rebelião, José Martí foi ferido mortalmente em uma das batalhas.

A morte daquele líder e a violenta repressão espanhola, que causou mais de 50 mil vítimas, enfraqueceram os revoltosos. Diante da gravidade da situação, o governo espanhol concedeu, em 1897, autonomia a Cuba e Porto Rico. Os revolucionários recusaram essa concessão e os conflitos recrudesceram. Cuba só se tornou independente da Espanha em 1898.

Imagem de 1960, das bandeiras de Cuba e dos Estados Unidos, simboliza o exílio cubano. Depois da revolução de 1959, muitos habitantes da ilha foram para o território norte-americano em busca de outras alternativas políticas

A INTERVENÇÃO NORTE-AMERICANA

Os comerciantes e os proprietários das fazendas de açúcar norte-americanos, residentes em Cuba, ficaram temerosos com os prejuízos causados pelos incêndios e devastações nas plantações de cana-de açúcar. Apoiados pela opinião pública norte-americana, aceitaram as medidas de intervenção dos Estados Unidos na ilha.

Em 1899, a ilha de Cuba foi ocupada pelos norte-americanos, que nela permaneceram até 1902. Em 1901, foi redigida a primeira constituição cubana, na qual os EUA incorporaram a Emenda Platt, que facultava aos Estados Unidos a intervenção na ilha para a preservação de sua independência.

Do início do século XX até o primeiro governo de Fulgencio Batista (1901-1973), entre 1940 e 1944, sucederam-se, no governo cubano, vários presidentes apoiados pelos Estados Unidos. Na qualidade de nação dependente e periférica, Cuba foi considerada o quintal dos EUA, cidade de jogos, cassinos e prostituição.

Apesar daquela situação, o primeiro governo de Batista foi considerado bom, devido às obras públicas, equilíbrio das finanças, rigor e ordem social. A economia açucareira registrou índices favoráveis no mercado internacional. Já os governos seguintes, de Grau San Martin (1887-1969), entre 1933 e 1934, e, novamente, entre 1944 e 1948, e de Prío Socarrás (1903-1977), de 1948 a 1952, decepcionaram os cubanos pela ausência de um programa político.

Quartel Moncada, onde Fidel e mais 165 homens tentaram derrubar Fulgencio Batista do poder, em julho de 1953


FIDEL ENTRA EM CENA

Fulgencio Batista foi reeleito em 1952, com o apoio do capital norte-americano e dos ricos proprietários cubanos. Ao contrário de sua primeira gestão, seu governo apoiado por forças poderosas evoluiu para uma ditadura cruel e corrupta. Insatisfeita com a corrupção, a juventude universitária tentou derrubar o governo de Batista. Chefiados por Fidel Castro, em 1953, os estudantes tentaram tomar o quartel de Moncada. No confronto, morreram 165 estudantes. Fidel Castro e seu irmão Raúl, presidente do Conselho de Estado da República de Cuba desde fevereiro de 2008, entregaram-se e foram presos. Condenados a 15 anos de prisão, os dois irmãos foram colocados em liberdade graças à pressão popular.

Em 1956, acompanhado por 82 homens, Fidel Castro, então refugiado no México, invadiu a ilha de Cuba. Mas a maior parte dos combatentes foi morta por um destacamento militar da ditadura de Batista. Fidel e seus companheiros, entre eles o argentino Che Guevara (1928-1967), refugiaramse em Sierra Maestra. Lá, iniciaram um movimento de guerrilha que resultou na Revolução Cubana, em 1959.


A REVOLUÇÃO CUBANA

Antes de derrubar o presidente Fulgencio Batista e chegar ao poder, em 1959, Fidel Castro enfrentou violenta repressão por parte do governo e chegou até a ser dado como morto

Fidel Castro liderou o movimento popular que tirou o presidente Fulgencio Batista do poder e deu início a um novo governo, em 1959. Em 1952, Fulgencio Batista instalou uma das mais terríveis ditaduras que Cuba conhecera. O pretexto político para o golpe militar foi libertar o país do governo do então presidente Carlos Prío Socarrás, acusado de corrupção, além do medo de que a oposição o impedisse de assumir o poder.

A juventude universitária, apoiada por amplos setores sociais, rebelouse contra a corrupção acobertada pela ditadura, além das torturas aos presos políticos. A tentativa chefiada por Fidel Castro de tomar o quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953, foi o estopim da revolução.

O confronto foi sangrento, marcado pelo massacre de 165 estudantes. Após o fracasso do ataque, Fidel Castro e Raúl, seu irmão, entregaram-se às autoridades e foram presos. Após serem condenados a 15 anos de prisão, Batista colocou-os em liberdade por pressão popular.

Acima, Fulgencio Batista; ao lado, Fidel Castro

A QUEDA DE BATISTA

Refugiado no México, Fidel Castro retornou a Cuba, em 1956, com uma expedição composta por 82 rebeldes para invadir a ilha e depor Batista. A invasão, realizada em 2 de dezembro daquele mesmo ano, foi desastrosa, tendo provocado violenta reação por parte das tropas do governo. O exército cercou os invasores e os metralhou, além de bombardear por terra e ar a comunidade de Alegría de Pío, no Oriente (província de Cuba até 1976). A maioria dos combatentes foi dizimada. Nessa ocasião, jornais cubanos chegaram a noticiar que Fidel Castro havia morrido em combate.

Os que sobreviveram, comandados por Fidel Castro, entre eles Che Guevara, refugiaram-se em Sierra Maestra, região cubana localizada na província de Oriente. Sierra é formada por uma cadeia de montanhas, sem estradas ou caminhos que facilitassem a comunicação. Os revolucionários se embrenharam em suas matas para organizar a resistência por meio de um movimento de guerrilha.

Em 1957, o movimento rebelde recebeu grande número de simpatizantes em diversas partes do país. No ano seguinte, a guerrilha ampliou sua ação. Em 1º de janeiro de 1959, Batista e sua família abandonaram Cuba e refugiaram-se na República Dominicana. Foi a vitória da Revolução Cubana.

Che Guevara em Santa Clara, Cuba, em 1959


O COMANDO DE FIDEL
Fidel Castro prometeu um governo civil para substituir a ditadura de Batista e também promover eleições no prazo de um ano. Em seus discursos, Fidel pregava a união de todos os cubanos, afirmando os princípios democráticos da revolução.

O nacionalismo marcou o período de 1959 e 1960, além do surgimento de um forte sentimento antiamericanista entre os revolucionários. O governo cubano firmou uma série de convênios com os países do Leste Europeu e acusou os Estados Unidos de dar asilo aos contra-revolucionários e de incentivar sabotagens contra Cuba.

As relações com os Estados Unidos se acirraram. Em 1960, Fidel Castro iniciou a política de nacionalização das empresas estrangeiras.

Foi o começo da fase socialista da Revolução. Em abril de 1961, teve início o ataque norte-americano à ilha, na praia de Giron, localizada na Baía dos Porcos.

A invasão fazia parte da Operação Magusto, e contou com a participação de mais de 1.200 exilados cubanos nos Estados Unidos, treinados e financiados pelo serviço secreto norte-americano. Os invasores foram derrotados pelas forças de Fidel Castro.



A APROXIMAÇÃO COM OS SOVIÉTICOS

Apesar da vitória contra os invasores, Cuba vivia aterrorizada pelas ameaças norte-americanas. Para evitar novos ataques, Fidel Castro se aproximou da União Soviética, contribuindo para radicalizar ainda mais as relações com os Estados Unidos. O clima da Guerra Fria se intensificou com a presença de navios soviéticos, em outubro de 1962, deslocandose para o Caribe. O temor de uma guerra nuclear dominou o mundo.

A malograda invasão à Baía dos Porcos consolidou o poder de Fidel. A reação dos Estados Unidos foi imediata. Em 1962, em Punta del Este, o presidente John F. Kennedy (1917-1963) decretou o isolamento diplomático de Cuba e pressionou a Argentina, México, Brasil, Equador, Chile, Bolívia e Uruguai a romperem relações com os cubanos.

Fidel, já como presidente de Cuba, em encontro da ONU, em setembro de 1960



Durante a Guerra Fria, a URSS tentou instalar mísseis em Cuba, mas os EUA efetuaram bloqueio naval na ilha e impediram que isso acontecesse

A VITÓRIA DA REVOLUÇÃO CUBANA

Apesar daquela iniciativa do governo norte-americano e do isolamento diplomático, a Revolução Cubana foi vitoriosa. Às vésperas das comemorações dos 50 anos da Revolução, Cuba ainda persiste no imaginário das nações em luta pela autonomia, como uma ilha que defendeu sua dignidade, revelando persistência, força e abnegação de um povo, sobretudo ao enfrentar por longos e duros anos o bloqueio econômico dos Estados Unidos e seus aliados.

A revolução transformou Cuba no símbolo de defesa dos ideais de liberdade contra o imperialismo e o sistema capitalista, representados pelos Estados Unidos. Desde o início de sua revolução até os dias atuais, a ilha sofre com as medidas restritivas norte-americanas, que do isolamento inicial continuou com um desumano e cruel bloqueio econômico.

BARACK OBAMA E EXPECTATIVA DE MUDANÇAS

A eleição de Barack Obama para a presidência dos Estados Unidos, em novembro de 2008, acena com expectativas de mudanças. Uma vitória que coincide com os 50 anos da Revolução Cubana. Obama reflete a esperança de mudanças profundas em relação à política externa dos Estados Unidos. Cuba e a América vivem atualmente essa expectativa.

A Revolução Cubana triunfou. O novo governo dos Estados Unidos vai se defrontar com uma nação em processo de mudanças. Fidel Castro se retirou do poder. Cuba não é mais a Cuba de Fidel, embora ele ainda viva. Fidel abandonou a cena política para entrar para a história como um mito. Mito da liberdade, que representa a realidade da luta de um povo contra a opressão.

Como líder latino-americano, Fidel encontrou adeptos e inimigos, mas, como mito, tornou-se invulnerável. Um mito não se desconstrói com facilidade, mesmo que seja uma representação.

A vitória de Barack Obama representa expectativas de mudanças entre as relações dos EUA com Cuba

REFERÊNCIAS

AYERBE, Luis Fernando. A Revolução Cubana. São Paulo : Editora da UNESP, 2004. PIERRE-Charles,Gerard - Genesis de la Revolución Cubana.Mexico, Siglo Veintiuno editores, 1996 CASTRO, Fidel. A história me absolverá. São Paulo, Alfa-Omega, 1992 EMIRO VALENCIA,Luis - Realidad y Perspectivas de la Révolución Cubana.Havana,casa de las América, 1961 ESCOSTEGUY, JorgeCuba Hoje. 20 Anos de Revolução.S.Paulo, Alfa-Omega, 1978 FERNANDES, Florestan. Da guerrilha ao socialismo. A revolução cubana. São Paulo, T.A. Queirós Ed.,1979 GUEVARA, Ernesto. A guerra de guerrilhas. São Paulo, Edições Populares, 3a ed.,1992 . 1982. Sierra Maestra: da guerrilha ao poder; passagens da guerra revolucionária. São Paulo, Edições Populares. EMIRO VALENCIA,Luis - Realidad y Perspectivas de la Révolución Cubana.Havana,casa de las América, 1961 BANDEIRA, Luis Alberto Moniz. De Martí a Fidel: a Revolução Cubana e a América Latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Maria Teresa Toríbio Brittes Lemos é Pós-Doutora em História da América Latina pela Universidade de Varsóvia (Polônia), procientista da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), coordenadora-geral do Programa de Pós-Graduação em História da UERJ, coordenadora do Núcleo de Estudos das Américas NUCLEAS, autora de diversos livros sobre América Latina, como O Corpo Calado (2002), América Latina em Construção (2006), Religião, Violência e Exclusão (2006 ) e América Latina Identidade em Construção (2008).

Revista Leituras da Historia

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A POLÍTICA DO PORRETE - A estratégia de Roosevelt para dominar a América Latina


Quando Roosevelt chegou à presidência, já sabia o que queria: mostrar que quem mandava na América Latina eram os Estados Unidos

Theodore Roosevelt foi presidente dos Estados Unidos de 1901 a 1909. Em um safári que realizou na África, antes de assumir a presidência, aprendeu um provérbio africano que iria marcar tristemente as relações entre seu país e a América Latina: “Quando for visitar seu adversário, fale em voz baixa, mas leve um grande porrete nas mãos”. Uma vez no governo, foi fiel a essa máxima de respaldar as ações americanas pela ameaça do uso da força. As relações dos Estados Unidos com a América Latina passaram a ser guiadas pela “diplomacia do porrete”– em inglês, Big Stick –, marcando o apogeu das intervenções militares norte-americanas.Mas, muito antes disso, em 1823, a doutrina Monroe, com o lema “a América para os americanos”, já procurava afastar a influência européia sobre o continente americano. No contexto ainda das lutas de independência dos países hispanoamericanos, a declaração estadunidense chegou a ser vista como forte apoio contra as tentativas de recolonização da Espanha e da Santa Aliança. Naquele começo do século XIX, no entanto, a efetividade da doutrina Monroe era garantida mais pelo domínio inglês dos mares do que propriamente pelo poderio da nação estadunidense.Os Estados Unidos, de todo modo, fortaleciam-se e expandiam seu território, a partir das treze Colônias, até chegar ao Pacífico, incorporando grande parte das terras mexicanas nas décadas de 1830 e 1840. Realizaram, ainda, outras intervenções, diretas ou indiretas, na América Central e no Caribe, mas apenas após a Guerra da Secessão e com o fim da escravidão é que se firmaram como potência capitalista moderna.A segunda metade do século XIX foi marcada pelo auge das disputas imperialistas, com as nações européias – Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Bélgica – dividindo entre si a África e grande parte da Ásia. Por outro lado, Espanha e Portugal, especialmente a primeira, perderam grande parte das colônias que lhe restavam. Nas Américas, os Estados Unidos passaram a considerar o continente como sua área de influência exclusiva na repartição do mundo pelas potências imperialistas, que disputavam mercados para seus produtos e fontes de matérias-primas para suas indústrias.Crise cubanaNa virada do século XIX para o XX, a maior parte dos investimentos estrangeiros e das dívidas contraídas pelos governos latino-americanos estava nas mãos dos capitalistas europeus. Essa situação, no entanto, foi revertida.O primeiro marco da emergência dos Estados Unidos como potência imperialista dominante na América Latina foi a guerra contra a então decadente Espanha. Patriotas cubanos, liderados por Martí, lutavam pela independência da ilha, últimacolônia espanhola no continente americano. O magnata das comunicações, William Hearst, passou a liderar, nos Estados Unidos, uma intensa campanha contra o domínio espanhol sobre Cuba.A guerra foi declarada em 1898, quando um navio norte-americano, o Maine, explodiu no porto de Havana, em circunstâncias não esclarecidas. O conflito foi rápido e, pelo tratado de paz de Paris, a Espanha reconheceu a independência cubana e cedeu as ilhas de Porto Rico e Guam, além das Filipinas, ao inimigo.Cuba continuou ocupada por tropas americanas até 1903, quando se aprovou uma Constituição que incluiu a Emenda Platt, que garantia aos Estados Unidos o direito de intervir na ilha, se considerassem seus interesses ameaçados.Foi também assinado um tratado que cedeu, de forma perpétua (sim, vale até hoje), a base de Guantánamo, no norte da ilha, para uso das forças armadas americanas. Já em 1906, os fuzileiros navais americanos voltaram a Cuba em uma nova ocupação que se estendeu até 1909.
América para norte-americanosA guerra hispano-americana trouxe para o centro da cena política norte-americana o então deputado Theodore Roosevelt, que liderou um batalhão de cavalaria de voluntários no que ele chamou de “esplêndida guerrinha”.

Com o aumento da popularidade provocado pelo conflito, Roosevelt foi eleito governador do estado de Nova Iorque, em 1898, e dois anos depois foi incluído como vice-presidente na chapa do Partido Republicano,liderada por McKinley, que conseguiu sua reeleição. O presidente Mckinley foi assassinado em 1901 e Roosevelt, então com 42 anos, tornou-se o mais jovem presidente da história dos Estados Unidos. Logo no início de seu mandato, a crise venezuelana de 1902-1903 serviu para deixar claro que os Estados Unidos não admitiriam mais intervenções européias na América Latina. Para cobrar dívidas pendentes, em 1902, Alemanha, Inglaterra e Itália declararam o bloqueio militar aos portos venezuelanos. A disputa se agravou e as potências européias passaram a afundar navios e bombardear fortificações do país latino-americano.Os Estados Unidos reagiram e exigiram que os países europeus desistissem do bloqueio e que o caso fosse discutido na Corte de Haia. Para mostrar a seriedade de suas intenções, Roosevelt ordenou o deslocamento de uma poderosa frota para as costas da Venezuela. As ameaças americanas deram resultado e a questão da dívida venezuelana acabou sendo discutida na Corte Permanente de Arbitragem de Haia, em 1904. A Corte decidiu que a Alemanha, a Inglaterra e a Itália teriam a prioridade nos pagamentos da dívida venezuelana.De todo modo, a mensagem era clara: daquele momento em diante os Estados Unidos passaram a outorgar-se o direto exclusivo de intervenção na América Latina. A Doutrina Monroe foi reinterpretada por Roosevelt no que ficou conhecido como o corolário Roosevelt.Para ele “A má conduta crônica, ou uma inoperância que resulte no afrouxamento dos laços da sociedade civilizada, no continente americano como em qualquer outra parte, acaba fazendo exigir a intervenção de alguma nação civilizada. No hemisfério ocidental, a adesão dos Estados Unidos à Doutrina Monroe pode forçar os Estados Unidos, ainda que de modo relutante, nos casos de flagrante má conduta ou impotência, a exercer o poder internacional de polícia”.O canal do Panamá Mas, na verdade, os Estados Unidos passaram a exercer muito mais do que o autoproclamado poder de polícia. As intervenções americanas continuaram, cada vez mais abertas. A questão do Canal do Panamá é um grande exemplo.Os Estados Unidos e a Inglaterra tinham assinado, em 1850, um tratado pelo qual a construção de um canal entre os oceanos Atlântico e Pacífico, na América Central, só poderia ser feita com o consentimento mútuo. Tentativas de empresas francesas de construir o canal, porém, convenceram os Estados Unidos a não esperar, e o tratado com a Inglaterra foi rompido.Em janeiro de 1902, o Congresso americano autorizou a realização de negociações com a Nicarágua e com a Colômbia para decidir qual seria a melhor localização do canal. Até aquele momento, o Panamá não existia como país independente, era parte da Colômbia. Decidiu-se que o canal deveria passar pelo istmo do Panamá e, em 1903, foi assinado um tratado entre os governos dos Estados Unidos e da Colômbia para a construção do canal interoceânico. O acordo foi, no entanto, rejeitado pelo Congresso colombiano, que considerou que suas disposições violavam a soberania nacional, especialmente porque concediam aos Estados Unidos o controle perpétuo sobre a zona adjacente ao canal.

Em resposta, os Estados Unidos passaram a fomentar os sentimentos autonomistas preexistentes no Panamá e a promover sua separação da Colômbia.
Os fuzileiros navais americanos impediram a reação colombiana e, em 3 de novembro de 1903, o Panamá declarou sua independência.

Poucas semanas depois, o governo do Panamá assinou com os Estados Unidos o tratado que confirmou as concessões até então recusadas pela Colômbia. Foi dada aos Estados Unidos a soberania sobre uma zona de dez milhas de cada lado do canal, que cortava o novo país em duas metades. Roosevelt resumiu a situação com a frase: “eu tomei o Panamá”.O Corolário Roosevelt passou a ser aplicado também preventivamente, com o objetivo declarado de evitar a intervenção dos países europeus na América Latina.
Foi assim no caso da intervenção americana na República Dominicana em 1905.
Sob o aplauso dos credores britânicos, os Estados Unidos invadiram o país e passaram a administrar a alfândega, cobrando eles mesmos as taxas sobre as importações dominicanas e privilegiando o pagamento das dívidas com os banqueiros europeus. O que restava, após o pagamento aos banqueiros, era repassado para o governo da República Dominicana.No período de Roosevelt, com a “Política do Porrete”, os Estados Unidos controlavam, direta ou indiretamente, quase todos os países da América Central, do Caribe e, mesmo, os do norte da América do Sul.O mar caribenho tornou-se um grande “lago americano”. Ainda que a independência dos países latinoamericanos fosse nominalmente preservada, os Estados Unidos não hesitavam em mandar seus fuzileiros navais para garantir os interesses de suas empresas na América Central e no Caribe.
Luís Cláudio Villafañe G. Santos é diplomata, doutor em História pela Universidade de Brasília e autor de diversos livros, entre eles O Brasil entre a América e a Europa (São Paulo: Unesp, 2004).
Revista Desvendando a História