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segunda-feira, 18 de março de 2013

Hieróglifos bagunçam história da escrita na América

Encontradas inscrições com 2250 anos de idade em templo maia na Guatemala

Júlio Molica


O desenho reproduz os dez símbolos presentes no hieróglifo achado na Guatemala (arte: D.Stuart / Science ).
Em uma sala subterrânea de um templo maia na América Central, pesquisadores coordenados pelo antropólogo Willian Saturno, da Universidade de New Hampshire (EUA), acharam dez dos mais antigos hieróglifos da América, datados de 250 a.C. Os símbolos descobertos sugerem que a escrita pode ter surgido simultaneamente em dois locais no continente, ao contrário do que se pensava anteriormente.

Até então, a região de Oaxaca, no México, era considerada o berço da escrita na América. Nessa localidade, que foi habitada por povos da cultura olmeca, foram encontradas evidências de formas primitivas de escrita datadas de 300 a.C., mas há vestígios que sugerem uma origem até três séculos antes.


Bloco em que foram encontrados os hieróglifos em templo maia na Guatemala – clique na foto para ampliá-la 
(foto: B. Beltrán / Science )

Os hieróglifos encontrados na cidade de San Bartolo, na Guatemala, foram gravados em uma pedra com tinta preta aplicada sobre uma base branca. A rocha estava em uma sala nas profundezas do templo, construído entre 300 e 200 a.C. Os dez símbolos foram desenhados em forma de coluna e, segundo os pesquisadores, a seqüência parece ser o final de uma série de símbolos.

“O primeiro hieróglifo está incompleto, ao menos sua outra metade está faltando, mas é possível que um número considerável de símbolos tenha precedido o fragmento de texto que temos”, disse Saturno, em entrevista à CH On-line .

Em estudo publicado na revista Science de 6 de janeiro, os cientistas traduziram completamente um dos hieróglifos – o sétimo da seqüência reproduzida no desenho acima . Trata-se de uma versão primitiva de um símbolo maia que significa ‘Deus nobre’ ou ‘soberano’. Os pesquisadores destacam também as características pictóricas de alguns símbolos, tais como o segundo da série, que se assemelha a uma mão segurando um pincel.

Os hieróglifos são talvez o tipo organizado de escrita mais antigo do mundo. As primeiras inscrições encontradas são de 3000 a.C. e foram descobertas na ilha de Philae, no Egito. O termo, de origem grega, significa escrita ( glyphós ) sagrada( hierós ). Apenas os egípcios criaram cerca de 6900 diferentes símbolos, um dos fatores que tornou impraticável o uso dos hieróglifos.
De acordo com Saturno, a descoberta pode ajudar nos estudos sobre a evolução da escrita nas Américas. “O achado tem uma enorme importância, pois restringe a época histórica na qual a escrita se originou no território maia, o que permite direcionar os estudos”, explica o coordenador da pesquisa que, no mês passado, descobriu no mesmo templo maia diversas pinturas sobre as paredes. Os murais contavam a história da criação e continham explicações sobre os motivos do poder e do direito de um rei.

Júlio Molica 
Revista Ciência Hoje

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Notícias História Viva

Descoberta no Egito tumba que conserva cores vivas após 4.200 anos

DA EFE, NO CAIRO

EPA
Tumba de 4.200 anos descoberta no Egito; supreendentemente, cores na parede ainda preservam cores vivas

Como se tivessem sido pintados ontem, assim podem ser descritas as cores da tumba construída há 4.200 anos no sítio arqueológico de Saqara, 25 quilômetros ao sul do Cairo e apresentado pelo chefe do Conselho Supremo de Antiguidades egípcio, Zahi Hawas.

"São as cores mais incríveis jamais encontradas em uma tumba", disse Hawas aos jornalistas, que sob o forte sol de julho tentavam tomar nota das antiguidades encontradas e das explicações do egiptólogo mais famoso do país.

Para chegar a tumba, que na realidade são duas, é preciso percorrer vários quilômetros por uma inóspita pista de areia, de onde é possível ver a pirâmide escalonada do faraó Zoser.

Na cripta descansam os restos de dois altos funcionários da 5ª dinastia faraônica (2.500-2.350 a.C): Sin Dua, sepultado na sala principal do túmulo, e seu filho Jonso, cujos restos foram depositados em uma sala adjacente à de seu pai.

Ambos ostentam os cargos de "supervisor de funcionários", títulos dos quais não se tinha conhecimento até agora, e de "chefe dos escribas", entre outros.

No entanto, o que chama mais atenção na descoberta são as cores luminosas com as quais a "porta falsa" da tumba de Jonso está pintada, porta pela qual, como acreditavam os egípcios, a alma do morto devia entrar no mundo dos mortos.

Sobre um fundo branco, nítidos tons de marrom, rosa, amarelo, azul e preto mostram quem foi o chefe dos escribas, junto a hieróglifos que indicam seus diferentes cargos e seu nome.

"O túmulo do filho, Jonso, é único e incrível" explicou o especialista, que acrescentou que na "porta falsa" há "um altar de sacrifícios" e pode se ver Jonso "em diferentes posições que mostram a beleza" das cores. "Uma beleza que possivelmente nunca foi encontrada em outra tumba", disse Hawas.

Na sala reservada a Sin Dua, com dimensões maiores e, assim como a de Jonso, enterrada a quatro metros de profundidade, também se destacam as cores nítidas da "porta falsa", na qual Sin Dua aparece sentado em frente a uma mesa de oferendas.

"Como estas cores, na minha opinião as mais incríveis descobertas em uma tumba, puderam se manter durante 4.200 anos?", questiona Hawas, que ressaltou que os trabalhos de catalogação e conservação começaram no momento da descoberta.

Perante a "porta falsa" da tumba de Sin Dua foi encontrado também um poço, agora coberto, de 16 metros de profundidade, no qual foram encontrados os restos do caixão do morto, afetado pela umidade.

Além disso, os arqueólogos desenterraram diversos artefatos e objetos utilizados nos ritos fúnebres do antigo Egito que, aparentemente, se mantiveram a salvo dos saqueadores de túmulos graças à profundidade na qual foram depositados.

Entre eles, vários recipientes de pedra em formato de pato que continham ossos destas aves, uma cabeça de madeira e um pequeno obelisco de 30 centímetros.

Segundo Hawas, postado em uma plataforma de madeira situada sobre o poço, os egípcios da 5ª e 6ª dinastias costumavam colocar em suas tumbas obeliscos como símbolo de sua crença no deus sol Ra.

Estes sepulcros "fazem parte de um enorme cemitério descoberto recentemente na área de Saqara por uma missão arqueológica egípcia que trabalha na região desde 1988", explicou Hawas.

Esta necrópole, da qual não se tinha notícia, como comentou Hawas, se encontra dentro do complexo arqueológico de Saqara, em uma área conhecida como "Yiser al Mudir" e na qual o arqueólogo egípcio espera realizar muitas descobertas.

Antes de abandonar a tumba subindo por uma escada de madeira rudimentar e junto com seu inseparável chapéu, Hawas fez questão de lembrar aos jornalistas: "Você nunca sabe os segredos que as areias do Egito podem esconder".
Folha de São Paulo

Notícias História Viva

Arqueólogos descobrem estela da época do faraó Apries
DA EFE

CSA/Efe
A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries

Uma equipe de arqueólogos egípcios descobriu uma estela (bloco de pedra) que data da época do faraó Apries, da 26ª Dinastia (589-570 a.C.), na província de Ismailiya, a leste do Cairo, informou nesta terça-feira o Conselho Supremo de Antiguidades.

A peça consta de duas partes de pedra arenosa que têm esculpidos em hieróglifos o nome do faraó Apries, quinto monarca da 26ª Dinastia, detalhou o secretário-geral da instituição, Mohammed Abdel Maqsud.

Em comunicado, o pesquisador afirmou que a descoberta da estela, que tem várias inscrições em hieróglifos, aconteceu em uma jazida arqueológica situada no lado oeste do Canal de Suez.

A equipe do Conselho Supremo de Antiguidades iniciou há três anos as escavações nessa jazida e já chegou a várias descobertas históricas.

O chefe do conselho lembrou que as descobertas arqueológicas comprovam que o local não era só uma antiga fortaleza militar de mercenários gregos, mas um assentamento egípcio construído pelo faraó Psamético 1º, segundo rei da dinastia.

Ele explicou que há dois anos foi descoberto um grande conjunto de armazéns na região, além de olaria de fabricação local e importada das ilhas do leste da Grécia, o que revela os prósperos laços comerciais que os egípcios mantiveram com os gregos.
Folha de São Paulo

quinta-feira, 17 de março de 2011

A chave do passado

Pedra de Roseta - encontrada na cidade de Roseta, no Egito, esta pedra contém a chave para a decifração dos hieróglifos (escritos sagrados). No final do século XIX, o francês Champollion, considerado o pai da Egiptologia, decifrou seu conteúdo a partir da comparação do copta com o demótico e grego antigo (idiomas encontrados na inscrição). A Roseta traz a mensagem de sacerdotes que elogiam a honradez e a probidade de uma faraó. Abaixo da mensagem, há uma instrução: a informação da pedra deve ser disseminada pelo mundo. Daí, advém a tradução em grego e demótico, para a sorte do francês Champollion.
http://movimentoculturalgaia.wordpress.com/page/2/

Como um bloco de pedra encontrado por acaso, em Rosetta, ofereceu a peça que faltava para desvendar os hieróglifos e mais de 3 mil anos de história egípcia
por Eduardo Szklarz
No meio do caminho tinha uma pedra: um bloco de quase 760 quilos na rota dos soldados franceses que ocupavam o Egito em julho de 1799, numa expedição liderada pelo temido general Napoleão Bonaparte. O tablete cinzento de 114 x 72 cm apareceu quando eles cavavam trincheiras a leste de Alexandria, perto da cidade de El-Rashid, chamada de Rosetta pelos ocidentais. A pedra estava caída no chão, como uma lápide semi-enterrada. Uma versão menos aceita entre os historiadores dá conta de que ela estava incrustada num muro que os militares demoliam. Seja como for, a Pedra de Rosetta chamou atenção de imediato porque tinha gravadas três escritas diferentes. Coordenador das obras, o capitão Pierre-François Bouchard sabia que uma das grafias era o grego. Embora não identificasse bem quais eram as outras - o hieróglifo e o demótico -, ele suspeitou da importância do artefato e o enviou para o Cairo, onde cientistas franceses estavam reunidos. Os sábios confirmaram o palpite: pela primeira vez, um texto em grego aparecia junto com hieróglifos. Assim, a pedra poderia ser a chave para entender a escrita sagrada dos faraós.

Esses sinais tinham marcado a paisagem urbana do Egito por mais de 3 mil anos, até desaparecerem no século 4. Diversos pesquisadores já haviam tentado decifrá-los, sem sucesso. Inúmeras perguntas sobre a civilização egípcia permaneciam sem resposta. Quais eram os faraós que ergueram aqueles templos gigantescos? Para que construíam suas tumbas? Por que preservavam os mortos?

A seguir você verá como um pedaço de basalto encontrado por acaso nas areias do deserto ajudou a elucidar esses mistérios.

Em 1798, o general francês Napoleão Bonaparte era a sensação de seu país. Derrotara o exército austríaco na Itália e tinha tudo para segurar as rédeas da Revolução Francesa. Aos 28 anos, sua fama era comparável à de um pop star moderno.

O povo aplaudiu quando ele anunciou uma milionária expedição ao Egito para bloquear as rotas inglesas de comércio com o Oriente e conquistar uma preciosa colônia para a França. A missão tinha valor estratégico duvidoso, mas foi patrocionada pelo Diretório, o governo imposto pela alta burguesia. Afinal, era uma forma de manter o general longe da política parisiense enquanto eram definidos os rumos da revolução.

"A expedição foi motivada pela competição colonial europeia, mas também por uma fantasia pessoal de Napoleão. Ele sonhava em ser o novo Alexandre, o Grande", diz Nina Burleigh, autora de Miragem - Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito. Para imitar os passos do conquistador macedônio, o general destacou quase 50 mil soldados e marinheiros.

Na cola dos militares, marchava uma unidade especial formada por cerca de 150 sábios, os savants. Eram cientistas, matemáticos, botânicos, astrônomos, químicos, engenheiros, poetas e até um musicólogo. Napoleão imitava outra faceta do ídolo: Alexandre viajara com uma trupe de filósofos ao conquistar a Pérsia, no século 4 a.C. Para o general, a campanha tinha caráter civilizatório. Levaria as luzes de Paris aos "bárbaros" mamelucos que dominavam o Egito. Antigos guerreiros da Ásia Central convertidos ao Islã, os mamelucos tinham sido escravos dos árabes por séculos e acabaram fundando seu próprio império.

Para os savants, era uma viagem de sonho. Poucos ocidentais haviam se aventurado no Oriente Médio desde que o sultão Saladino derrotara os cruzados, no século 12. Na visão da Europa, o Egito era um mundo desconhecido, de gente extravagante e clima inóspito. "Pouco se sabia sobre a civilização das pirâmides. Aquela era a chance de se debruçar sobre os monumentos do Egito", afirma Nina.


A descoberta

As tropas francesas aportaram em Alexandria e em três semanas acabaram com 700 anos de domínio mameluco na região. Na Batalha das Pirâmides, em julho de 1798, a estratégia e as armas dos franceses foram decisivas para superar o maior número de soldados das forças locais. Mas a Inglaterra não se acomodou. Apenas três semanas depois, o almirante Horatio Nelson afundou quase toda a frota francesa na Batalha do Nilo. Sem o apoio marítimo, o exército de Napoleão perdeu a iniciativa. Foi alvo da crescente revolta da população nativa e, para piorar, um surto de peste bubônica arrasou suas fileiras.

Apesar das dificuldades, o general criou no Cairo o Instituto do Egito, onde os sábios colecionavam as relíquias e divulgavam suas pesquisas. O instituto ocupava o palácio de Hassan Al Kachef, um burocrata mameluco. O quarto de imersão do seu harém virou a sede das assembleias onde se discutiam das espécies de insetos do deserto à produção de cerveja com uma planta nativa.

E veio a surpresa. Numa dessas reuniões, o conselho de savants soube da Pedra de Rosetta. "Quando a viram, os sábios logo perceberam sua importância", diz Nina. Cópias das inscrições foram enviadas de imediato a Paris e intelectuais começaram a trabalhar na decifração.

Não satisfeito em bancar o Indiana Jones, Napoleão marchou com suas forças para a Síria e a Palestina, dominadas pelo Império Turco-Otomano. A manobra, porém, custou caro: os turcos repeliram a ofensiva e o general voltou ao Egito com um exército em frangalhos. Prevendo o fracasso da expedição, e preocupado com a instabilidade política na França, ele retornou a Paris em agosto de 1799 com um grupo de savants. Quem ficou no Egito vivia na corda bamba, já que a ocupação francesa lutava em três frentes: a revolta árabe, os ataques ingleses e o crescente avanço dos turcos sobre o Cairo, com o apoio da Inglaterra. Enfraquecido pela peste, o exército francês capitulou em 1801, encerrando três anos de expedição.

Com a vitória na guerra, os ingleses se apoderaram de várias relíquias que os savants haviam pilhado. Entre elas a Pedra de Rosetta, que foi parar no Museu Britânico.


Duelo de titãs

Era o início de outro combate entre a França e a Inglaterra, agora para decifrar as inscrições enigmáticas no artefato. O duelo reuniu duas mentes brilhantes, obcecadas por entender os hieróglifos: o cientista inglês Thomas Young e o jovem linguista francês Jean-François Champollion.Era uma briga desigual. Young era um catedrático nobre e famoso, que tinha o apoio da coroa e trabalhava diretamente sobre a pedra. Já Champollion era um garoto-prodígio humilde, cujos estudos eram bancados a duras penas pelo irmão mais velho, e que precisou descolar cópias dos textos da relíquia sem ter certeza se eram bem feitas. A partir do grego, os dois gênios souberam que a Rosetta continha um decreto emitido por um conselho de sacerdotes egípcios em 196 a.C. (veja na pág. 34). "Assumindo que os textos das outras duas escritas eram idênticos, então a pedra poderia ser usada para decifrar os hieróglifos", diz o cientista Simon Singh em artigo para a BBC.

Só que havia um problema. "O grego revelava o que os hieróglifos significavam, mas ninguém havia falado a antiga língua egípcia por vários séculos. Assim, era impossível determinar o som das palavras egípcias", afirma Singh. "A menos que os pesquisadores soubessem pronunciá-las, eles não poderiam deduzir a fonética dos hieróglifos." E tampouco entender a escrita de forma a traduzir qualquer inscrição. O demótico presente na pedra, uma forma cursiva e simplificada de escrita egípcia, já conhecida no Ocidente, dava elementos para a comparação, mas não a engrenagem que faltava.

Pesquisadores já haviam tentado quebrar o código, mas derraparam numa hipótese falsa: a de que os hieróglifos eram desenhos impronunciáveis. Achavam que se tratava de uma grafia simbólica, não fonética, e que, portanto não podia ser lida como este texto.

Young sabia dos avanços de Champollion, e vice-versa. Nessa corrida, eles usaram outros documentos além do bloco de basalto, como as inscrições do templo de Abu Simbel e do zodíaco do Templo de Dendera. Os dois gênios, porém, seguiram técnicas distintas. Young usou um método matemático: se havia 30 estruturas iguais no texto grego, ele checava se essas 30 estruturas se repetiam nos hieróglifos - e assim foi formando um alfabeto rudimentar, por aproximação. Até publicou seus primeiros achados, mas não foi muito longe. "Parece que ele não conseguiu superar a ideia reinante de que os hieróglifos eram só desenho. Não estava preparado para quebrar esse paradigma", diz Singh.

Já Champollion conhecia diversas línguas, e isso fez toda a diferença. Ele percebeu que havia uma escrita por trás daqueles desenhos. Começou associando nomes gregos como "Ptolomeu" aos hieróglifos correspondentes. E, com a ajuda do irmão, foi a Paris para estudar e tentar provar sua teoria. Logo viu que seria difícil. Até seu professor defendia a tese dos desenhos mudos. Champollion recusava a ideia, mas como seria possível descobrir o som daqueles símbolos estranhos?

A solução do jovem foi aplicar o copta, o idioma dos primeiros cristãos do Egito que ainda era falado em algumas igrejas de Paris. Ele percebeu que a sonoridade do copta se relacionava com a da antiga língua. Se pudesse coincidir os sons do copta com os dos hieróglifos, poderia "fazer falar" os faraós. Assim matou a charada. "Enquanto o idioma grego ajudou a entender o hieróglifo, o copta ajudou a sonorizá-lo", diz o historiador Júlio Gralha, especialista em Egito antigo, professor da UERJ. Ao ver um círculo com um ponto no meio, por exemplo, Champollion conseguia associá-lo ao deus egípcio Sol. Mas não sabia o nome que ele tinha, pois faltava sonorizá-lo. Foi aí que o copta entrou na jogada: ao unir seus sons com as imagens dos hieróglifos, Champollion conseguiu ler "Ramsés" e outras palavras (veja na pág. 33). "Os pesquisadores da época sabiam que havia um faraó chamado Ramsés, mas não sabiam como escrever seu nome. E Champollion triunfou. Young não teve essa perspicácia", afirma o egiptólogo.

As investigações do francês incomodaram a Igreja. Temia-se que a compreensão dos hieróglifos ameaçasse a noção do Dilúvio Universal, que teria ocorrido em cerca de 2300 a.C. Se a escrita demonstrasse que os egípcios existiam antes do episódio e não foram afetados por ele, os bispos teriam um abacaxi para descascar.

Mas Champollion deu de ombros. Desde criança queria calcular a idade do mundo, e achava que os hieróglifos lhe dariam a resposta. Mais de duas décadas após a descoberta da Pedra de Rosetta, no outono de 1822, ele finalmente conseguiu decifrar a língua sagrada. Em 1828, realizou outro sonho: foi ao Egito. Só não teve tempo de somar a idade do mundo. Morreu em 1832, aos 41 anos, em Paris, vítima de um acidente vascular cerebral.

A fantasia de Napoleão despertou o Egito de um sono milenar. Sem a pedra, os hieróglifos provavelmente só seriam decifrados muito mais tarde. Se fossem. E, sem eles, seria quase impossível compreender a civilização do Vale do Nilo. "A partir da leitura dos hieróglifos começamos a entender por que os egípcios faziam tumbas e sua crença na vida eterna, por exemplo", diz Júlio Gralha. "Identificamos os faraós que haviam erguido diferentes templos, entre muitas outras descobertas." Sem o domínio da escrita sagrada, não saberíamos da existência de faraós hereges, como Akenaton, que destronou as divindades da nação e elegeu Aton como o deus supremo no século 14 a.C. A atitude custou-lhe a vida e as marcas de seu reinado. Mas há registros da restauração dos templos que ele havia destruído, assim como foram reveladas mentiras contadas pelos faraós, como uma vitória inexistente de Ramsés II.

A pedra serviu ainda para entender a dinastia ptolomaica, que governava o país quando ela foi gravada (leia à esq.). Estimulou a egiptologia e - para desgosto da Igreja - os cultos maçônicos na Europa, já que a civilização era admirada e sua simbologia, amplamente usada pela irmandade.

Hoje, a Pedra de Rosetta é uma das atrações mais visitadas do Museu Britânico. Está lá desde 1802 e só saiu de Londres por algumas semanas para ser exposta no Museu do Louvre, em 1972, no aniversário de 150 anos da decifração dos hieróglifos. Há anos o Egito tenta negociar a devolução.

E Champollion, quem diria, nunca pôde ver esse pedaço de rocha que tanto admirava. Uma das muitas ironias da história.


A saga dos hieróglifos

Como se perdeu a escrita do Egito antigo


Para alguns pesquisadores, os hieróglifos foram a primeira forma de escrita da humanidade. Outros (a maioria, é fato) dizem que a arte de registrar palavras foi inventada antes pelos sumérios, por volta de 3800 a.C., ou até mesmo pela Civilização do Vale do Indo, na Índia antiga. Certo é que os hieróglifos foram os únicos sinais que conservaram sua forma durante os mais de 3 mil anos de civilização egípcia. Eles eram usados por escribas e sacerdotes em documentos políticos, biografias e monumentos. Mas sua principal força eram as práticas mágicas e religiosas. Tanto que hieróglifo, em grego, significa "escrita sagrada".

"A escrita hieroglífica é heterogênea: alguns sinais funcionavam como pictogramas (desenhos figurativos); outros eram símbolos fonéticos. Às vezes um falcão representava um som, outras era simplesmente um falcão", diz Susan Wise Bauer, professora de literatura da Universidade de Virgínia, EUA. "Depois os egípcios inventaram os determinantes, ou seja, sinais que indicavam se o pictograma era um símbolo fonético ou só um desenho." Com o tempo, outras escritas mais simples foram surgindo para uso cotidiano: o hierático (usado nos negócios e na administração, em geral sobre papiro) e o demótico (que reproduzia a linguagem popular). "E de repente, no fim do século 4 a.C., a antiga escrita egípcia desapareceu. Não levou mais que uma geração", afirma o pesquisador inglês Simon Singh. "Os últimos exemplos foram encontrados na ilha de Philae, no rio Nilo: uma inscrição hieroglífica gravada num templo em 394 a.C. e um pedaço de grafite demótico datado de 450 a.C." Segundo ele, os hieróglifos foram extintos por causa da ascensão do cristianismo. "Seu uso foi proibido para erradicar qualquer ligação com o passado pagão do Egito", diz. "Assim, os escritos antigos foram substituídos pelo copta, um idioma formado de letras do alfabeto grego e do demótico. A língua egípcia continuou a ser falada e evoluiu para a linguagem copta."

No século 11, porém, houve nova reviravolta. A língua e a escrita coptas caíram para escanteio com a expansão árabe no Oriente Médio. Assim, o conhecimento necessário para entender a história dos faraós foi perdido definitivamente... até que Champollion desvendasse a Pedra de Rosetta.


Fonte: Júlio Gralha e Simon Singh


Quebrando os códigos

No século 19, os intelectuais pensavam que os hieróglifos eram uma representação muda de ideias. O francês Jean-François Champollion conseguiu provar que eles eram uma língua falada

1. Através do grego gravado na Pedra de Rosetta, ele reconheceu o que estava escrito nos hieróglifos. Assim, associou palavras como "Ptolomeus" aos signos correspondentes. Sabia, então, qual deles representava a letra S. Mas não imaginava como pronunciá-los.

2. Champollion se concentrou no cartucho ao lado (encontrado em Abu Simbel) e identificou dois S. Aí recorreu ao copta, idioma antigo cuja sonoridade é próxima à do hieróglifo, e obteve alguns sons dos signos, já que o hieróglifo não tem todas as vogais, tal como outras línguas semíticas.

3. Em seguida, ele deduziu, a partir do formato do signo, que o primeiro hieróglifo era o Sol, e então presumiu que seu som correspondia ao da palavra copta para Sol: "Ra". Assim, obteve a sequência (Ra-?-s-s).

4. Logo concluiu que se tratava do cartucho correspondente ao faraó Ramsés, que em copta significa "filho do Sol" (Ra = sol + Mes = nascido de). E assim ele quebrou o código da escrita egípcia.


A última dinastia

Os ptolomeus e a decadência da civilização egípcia

A importância da Pedra de Rosetta vai além da decifração dos hieróglifos. Ela registra um momento fundamental da história egípcia: a dinastia ptolomaica. Sabe a Cleópatra dos filmes e da literatura? Ela foi a sétima do reinado ptolomaico (305 a 30 a.C.). "Existiram sete Cleópatras e 15 Ptolomeus", diz o historiador Júlio Gralha. "O texto da Rosetta é a transcrição de um decreto editado pelo conselho de sacerdotes, reunido em 196 a.C. em Mênfis, capital do norte do Egito. O decreto foi feito durante o reinado de Ptolomeu V Epiphanes (210-180 a.C.)."

Naquela época, a glória dos primeiros faraós era coisa do passado. O país fora conquistado em 332 a.C. pelo macedônio Alexandre, o Grande, que se autoproclamou soberano. Com a morte dele, a administração do Egito coube a um de seus generais, Ptolomeu, que instituiu uma nova linha de sucessão. "Como a dinastia dos ptolomeus era de cultura grega (helenizada), ela precisaria adotar fortemente a cultura faraônica se quisesse reinar", afirma o historiador. É que as práticas mágico-religiosas egípcias continuavam muito fortes entre o povo. E, se os ptolomeus não se identificassem com esses rituais nem assumissem a monarquia faraônica - estranha aos gregos -, não conseguiria se manter no poder. Os primeiros ptolomeus não adotaram completamente a cultura local, o que explica a resistência que sofreram. Para a população, eles ainda eram estrangeiros. Segundo Gralha, foi somente no governo de Ptolomeu V que a dinastia adotou plenamente a religião egípcia.

A prova disso é a Pedra de Rosetta. O decreto que ela contém marca o momento em que os sacerdotes exaltam as virtudes de Ptolomeu V e se dirigem a ele com títulos antigos - tal como os faraós. Com esse carimbo de aprovação, o monarca enfim ganhou legitimidade para governar. O documento feito de basalto cita algumas de suas benfeitorias, como doar trigo para os templos, perdoar dívidas e reduzir impostos para candidatos ao sacerdócio. A Pedra de Rosetta foi gravada em três idiomas para que sacerdotes, funcionários do governo e a aristocracia pudessem entender o que dizia. O hieróglifo era a língua religiosa, o demótico reproduzia a linguagem popular e o grego era o idioma dos ptolomeus. Mas o artefato não foi o único do gênero. Pesquisadores acreditam que outras pedras idênticas foram espalhadas pelo Egito, como uma campanha de marketing. Uma delas foi achada no fim do século 19.

Mas por que espalhar aqueles blocos se a maioria da população não sabia ler? O efeito era semelhante ao das estátuas: o líder se fazia presente sem estar lá. Ao que tudo indica, as pedras também foram um recado aos rebeldes que dominaram o sul da nação por 20 anos. "A revolta foi derrotada e, a partir daí, a dinastia percebeu que era hora de adotar as práticas faraônicas", diz Gralha. "O país foi então pacificado." A dinastia só durou 300 anos, em boa parte por causa das disputas após a morte de Ptolomeu V, em 180 a.C. Vários Ptolomeus e Cleópatras se engalfinharam na corrida pelo trono. Um deles foi Ptolomeu VIII, que matou o filho e entregou à mulher, Cleópatra II.

"Ptolomeu XV e Cleópatra VII (esposa de Julio César e Marco Antônio) foram o último casal governante do Egito. Com a morte dela, o país deixou de existir como potência internacional, mas seu legado perdurou durante séculos", afirma o egiptólogo.


Saiba mais

LIVROS

Miragem - Os Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito, Nina Burleigh, Landscape, 2008

Um relato sobre a expedição francesa na terra dos faraós.


Historia del Mundo Antíguo, Susan Wise Bauer, Paidós, 2007

Excelente análise sobre a evolução da escrita.


DVD

Egito - Redescobrindo um Mundo Perdido, BBC, 2005

Um dos episódios do volume 2 narra a descoberta da pedra.

Revista Aventuras na História

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A chave do passado


A chave do passado
Como um bloco de pedra encontrado por acaso, em Rosetta, ofereceu a peça que faltava para desvendar os hieróglifos e mais de 3 mil anos de história egípcia
por Eduardo Szklarz
No meio do caminho tinha uma pedra: um bloco de quase 760 quilos na rota dos soldados franceses que ocupavam o Egito em julho de 1799, numa expedição liderada pelo temido general Napoleão Bonaparte. O tablete cinzento de 114 x 72 cm apareceu quando eles cavavam trincheiras a leste de Alexandria, perto da cidade de El-Rashid, chamada de Rosetta pelos ocidentais. A pedra estava caída no chão, como uma lápide semi-enterrada. Uma versão menos aceita entre os historiadores dá conta de que ela estava incrustada num muro que os militares demoliam. Seja como for, a Pedra de Rosetta chamou atenção de imediato porque tinha gravadas três escritas diferentes. Coordenador das obras, o capitão Pierre-François Bouchard sabia que uma das grafias era o grego. Embora não identificasse bem quais eram as outras - o hieróglifo e o demótico -, ele suspeitou da importância do artefato e o enviou para o Cairo, onde cientistas franceses estavam reunidos. Os sábios confirmaram o palpite: pela primeira vez, um texto em grego aparecia junto com hieróglifos. Assim, a pedra poderia ser a chave para entender a escrita sagrada dos faraós.

Esses sinais tinham marcado a paisagem urbana do Egito por mais de 3 mil anos, até desaparecerem no século 4. Diversos pesquisadores já haviam tentado decifrá-los, sem sucesso. Inúmeras perguntas sobre a civilização egípcia permaneciam sem resposta. Quais eram os faraós que ergueram aqueles templos gigantescos? Para que construíam suas tumbas? Por que preservavam os mortos?

A seguir você verá como um pedaço de basalto encontrado por acaso nas areias do deserto ajudou a elucidar esses mistérios.

Em 1798, o general francês Napoleão Bonaparte era a sensação de seu país. Derrotara o exército austríaco na Itália e tinha tudo para segurar as rédeas da Revolução Francesa. Aos 28 anos, sua fama era comparável à de um pop star moderno.

O povo aplaudiu quando ele anunciou uma milionária expedição ao Egito para bloquear as rotas inglesas de comércio com o Oriente e conquistar uma preciosa colônia para a França. A missão tinha valor estratégico duvidoso, mas foi patrocionada pelo Diretório, o governo imposto pela alta burguesia. Afinal, era uma forma de manter o general longe da política parisiense enquanto eram definidos os rumos da revolução.

"A expedição foi motivada pela competição colonial europeia, mas também por uma fantasia pessoal de Napoleão. Ele sonhava em ser o novo Alexandre, o Grande", diz Nina Burleigh, autora de Miragem - Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito. Para imitar os passos do conquistador macedônio, o general destacou quase 50 mil soldados e marinheiros.

Na cola dos militares, marchava uma unidade especial formada por cerca de 150 sábios, os savants. Eram cientistas, matemáticos, botânicos, astrônomos, químicos, engenheiros, poetas e até um musicólogo. Napoleão imitava outra faceta do ídolo: Alexandre viajara com uma trupe de filósofos ao conquistar a Pérsia, no século 4 a.C. Para o general, a campanha tinha caráter civilizatório. Levaria as luzes de Paris aos "bárbaros" mamelucos que dominavam o Egito. Antigos guerreiros da Ásia Central convertidos ao Islã, os mamelucos tinham sido escravos dos árabes por séculos e acabaram fundando seu próprio império.

Para os savants, era uma viagem de sonho. Poucos ocidentais haviam se aventurado no Oriente Médio desde que o sultão Saladino derrotara os cruzados, no século 12. Na visão da Europa, o Egito era um mundo desconhecido, de gente extravagante e clima inóspito. "Pouco se sabia sobre a civilização das pirâmides. Aquela era a chance de se debruçar sobre os monumentos do Egito", afirma Nina.

A descoberta

As tropas francesas aportaram em Alexandria e em três semanas acabaram com 700 anos de domínio mameluco na região. Na Batalha das Pirâmides, em julho de 1798, a estratégia e as armas dos franceses foram decisivas para superar o maior número de soldados das forças locais. Mas a Inglaterra não se acomodou. Apenas três semanas depois, o almirante Horatio Nelson afundou quase toda a frota francesa na Batalha do Nilo. Sem o apoio marítimo, o exército de Napoleão perdeu a iniciativa. Foi alvo da crescente revolta da população nativa e, para piorar, um surto de peste bubônica arrasou suas fileiras.

Apesar das dificuldades, o general criou no Cairo o Instituto do Egito, onde os sábios colecionavam as relíquias e divulgavam suas pesquisas. O instituto ocupava o palácio de Hassan Al Kachef, um burocrata mameluco. O quarto de imersão do seu harém virou a sede das assembleias onde se discutiam das espécies de insetos do deserto à produção de cerveja com uma planta nativa.

E veio a surpresa. Numa dessas reuniões, o conselho de savants soube da Pedra de Rosetta. "Quando a viram, os sábios logo perceberam sua importância", diz Nina. Cópias das inscrições foram enviadas de imediato a Paris e intelectuais começaram a trabalhar na decifração.

Não satisfeito em bancar o Indiana Jones, Napoleão marchou com suas forças para a Síria e a Palestina, dominadas pelo Império Turco-Otomano. A manobra, porém, custou caro: os turcos repeliram a ofensiva e o general voltou ao Egito com um exército em frangalhos. Prevendo o fracasso da expedição, e preocupado com a instabilidade política na França, ele retornou a Paris em agosto de 1799 com um grupo de savants. Quem ficou no Egito vivia na corda bamba, já que a ocupação francesa lutava em três frentes: a revolta árabe, os ataques ingleses e o crescente avanço dos turcos sobre o Cairo, com o apoio da Inglaterra. Enfraquecido pela peste, o exército francês capitulou em 1801, encerrando três anos de expedição.

Com a vitória na guerra, os ingleses se apoderaram de várias relíquias que os savants haviam pilhado. Entre elas a Pedra de Rosetta, que foi parar no Museu Britânico.

Duelo de titãs

Era o início de outro combate entre a França e a Inglaterra, agora para decifrar as inscrições enigmáticas no artefato. O duelo reuniu duas mentes brilhantes, obcecadas por entender os hieróglifos: o cientista inglês Thomas Young e o jovem linguista francês Jean-François Champollion.Era uma briga desigual. Young era um catedrático nobre e famoso, que tinha o apoio da coroa e trabalhava diretamente sobre a pedra. Já Champollion era um garoto-prodígio humilde, cujos estudos eram bancados a duras penas pelo irmão mais velho, e que precisou descolar cópias dos textos da relíquia sem ter certeza se eram bem feitas. A partir do grego, os dois gênios souberam que a Rosetta continha um decreto emitido por um conselho de sacerdotes egípcios em 196 a.C. (veja na pág. 34). "Assumindo que os textos das outras duas escritas eram idênticos, então a pedra poderia ser usada para decifrar os hieróglifos", diz o cientista Simon Singh em artigo para a BBC.

Só que havia um problema. "O grego revelava o que os hieróglifos significavam, mas ninguém havia falado a antiga língua egípcia por vários séculos. Assim, era impossível determinar o som das palavras egípcias", afirma Singh. "A menos que os pesquisadores soubessem pronunciá-las, eles não poderiam deduzir a fonética dos hieróglifos." E tampouco entender a escrita de forma a traduzir qualquer inscrição. O demótico presente na pedra, uma forma cursiva e simplificada de escrita egípcia, já conhecida no Ocidente, dava elementos para a comparação, mas não a engrenagem que faltava.

Pesquisadores já haviam tentado quebrar o código, mas derraparam numa hipótese falsa: a de que os hieróglifos eram desenhos impronunciáveis. Achavam que se tratava de uma grafia simbólica, não fonética, e que, portanto não podia ser lida como este texto.

Young sabia dos avanços de Champollion, e vice-versa. Nessa corrida, eles usaram outros documentos além do bloco de basalto, como as inscrições do templo de Abu Simbel e do zodíaco do Templo de Dendera. Os dois gênios, porém, seguiram técnicas distintas. Young usou um método matemático: se havia 30 estruturas iguais no texto grego, ele checava se essas 30 estruturas se repetiam nos hieróglifos - e assim foi formando um alfabeto rudimentar, por aproximação. Até publicou seus primeiros achados, mas não foi muito longe. "Parece que ele não conseguiu superar a ideia reinante de que os hieróglifos eram só desenho. Não estava preparado para quebrar esse paradigma", diz Singh.

Já Champollion conhecia diversas línguas, e isso fez toda a diferença. Ele percebeu que havia uma escrita por trás daqueles desenhos. Começou associando nomes gregos como "Ptolomeu" aos hieróglifos correspondentes. E, com a ajuda do irmão, foi a Paris para estudar e tentar provar sua teoria. Logo viu que seria difícil. Até seu professor defendia a tese dos desenhos mudos. Champollion recusava a ideia, mas como seria possível descobrir o som daqueles símbolos estranhos?

A solução do jovem foi aplicar o copta, o idioma dos primeiros cristãos do Egito que ainda era falado em algumas igrejas de Paris. Ele percebeu que a sonoridade do copta se relacionava com a da antiga língua. Se pudesse coincidir os sons do copta com os dos hieróglifos, poderia "fazer falar" os faraós. Assim matou a charada. "Enquanto o idioma grego ajudou a entender o hieróglifo, o copta ajudou a sonorizá-lo", diz o historiador Júlio Gralha, especialista em Egito antigo, professor da UERJ. Ao ver um círculo com um ponto no meio, por exemplo, Champollion conseguia associá-lo ao deus egípcio Sol. Mas não sabia o nome que ele tinha, pois faltava sonorizá-lo. Foi aí que o copta entrou na jogada: ao unir seus sons com as imagens dos hieróglifos, Champollion conseguiu ler "Ramsés" e outras palavras (veja na pág. 33). "Os pesquisadores da época sabiam que havia um faraó chamado Ramsés, mas não sabiam como escrever seu nome. E Champollion triunfou. Young não teve essa perspicácia", afirma o egiptólogo.

As investigações do francês incomodaram a Igreja. Temia-se que a compreensão dos hieróglifos ameaçasse a noção do Dilúvio Universal, que teria ocorrido em cerca de 2300 a.C. Se a escrita demonstrasse que os egípcios existiam antes do episódio e não foram afetados por ele, os bispos teriam um abacaxi para descascar.

Mas Champollion deu de ombros. Desde criança queria calcular a idade do mundo, e achava que os hieróglifos lhe dariam a resposta. Mais de duas décadas após a descoberta da Pedra de Rosetta, no outono de 1822, ele finalmente conseguiu decifrar a língua sagrada. Em 1828, realizou outro sonho: foi ao Egito. Só não teve tempo de somar a idade do mundo. Morreu em 1832, aos 41 anos, em Paris, vítima de um acidente vascular cerebral.

A fantasia de Napoleão despertou o Egito de um sono milenar. Sem a pedra, os hieróglifos provavelmente só seriam decifrados muito mais tarde. Se fossem. E, sem eles, seria quase impossível compreender a civilização do Vale do Nilo. "A partir da leitura dos hieróglifos começamos a entender por que os egípcios faziam tumbas e sua crença na vida eterna, por exemplo", diz Júlio Gralha. "Identificamos os faraós que haviam erguido diferentes templos, entre muitas outras descobertas." Sem o domínio da escrita sagrada, não saberíamos da existência de faraós hereges, como Akenaton, que destronou as divindades da nação e elegeu Aton como o deus supremo no século 14 a.C. A atitude custou-lhe a vida e as marcas de seu reinado. Mas há registros da restauração dos templos que ele havia destruído, assim como foram reveladas mentiras contadas pelos faraós, como uma vitória inexistente de Ramsés II.

A pedra serviu ainda para entender a dinastia ptolomaica, que governava o país quando ela foi gravada (leia à esq.). Estimulou a egiptologia e - para desgosto da Igreja - os cultos maçônicos na Europa, já que a civilização era admirada e sua simbologia, amplamente usada pela irmandade.

Hoje, a Pedra de Rosetta é uma das atrações mais visitadas do Museu Britânico. Está lá desde 1802 e só saiu de Londres por algumas semanas para ser exposta no Museu do Louvre, em 1972, no aniversário de 150 anos da decifração dos hieróglifos. Há anos o Egito tenta negociar a devolução.

E Champollion, quem diria, nunca pôde ver esse pedaço de rocha que tanto admirava. Uma das muitas ironias da história.

A saga dos hieróglifos

Como se perdeu a escrita do Egito antigo



Para alguns pesquisadores, os hieróglifos foram a primeira forma de escrita da humanidade. Outros (a maioria, é fato) dizem que a arte de registrar palavras foi inventada antes pelos sumérios, por volta de 3800 a.C., ou até mesmo pela Civilização do Vale do Indo, na Índia antiga. Certo é que os hieróglifos foram os únicos sinais que conservaram sua forma durante os mais de 3 mil anos de civilização egípcia. Eles eram usados por escribas e sacerdotes em documentos políticos, biografias e monumentos. Mas sua principal força eram as práticas mágicas e religiosas. Tanto que hieróglifo, em grego, significa "escrita sagrada".

"A escrita hieroglífica é heterogênea: alguns sinais funcionavam como pictogramas (desenhos figurativos); outros eram símbolos fonéticos. Às vezes um falcão representava um som, outras era simplesmente um falcão", diz Susan Wise Bauer, professora de literatura da Universidade de Virgínia, EUA. "Depois os egípcios inventaram os determinantes, ou seja, sinais que indicavam se o pictograma era um símbolo fonético ou só um desenho." Com o tempo, outras escritas mais simples foram surgindo para uso cotidiano: o hierático (usado nos negócios e na administração, em geral sobre papiro) e o demótico (que reproduzia a linguagem popular). "E de repente, no fim do século 4 a.C., a antiga escrita egípcia desapareceu. Não levou mais que uma geração", afirma o pesquisador inglês Simon Singh. "Os últimos exemplos foram encontrados na ilha de Philae, no rio Nilo: uma inscrição hieroglífica gravada num templo em 394 a.C. e um pedaço de grafite demótico datado de 450 a.C." Segundo ele, os hieróglifos foram extintos por causa da ascensão do cristianismo. "Seu uso foi proibido para erradicar qualquer ligação com o passado pagão do Egito", diz. "Assim, os escritos antigos foram substituídos pelo copta, um idioma formado de letras do alfabeto grego e do demótico. A língua egípcia continuou a ser falada e evoluiu para a linguagem copta."

No século 11, porém, houve nova reviravolta. A língua e a escrita coptas caíram para escanteio com a expansão árabe no Oriente Médio. Assim, o conhecimento necessário para entender a história dos faraós foi perdido definitivamente... até que Champollion desvendasse a Pedra de Rosetta.
Fonte: Júlio Gralha e Simon Singh

Quebrando os códigos

No século 19, os intelectuais pensavam que os hieróglifos eram uma representação muda de ideias. O francês Jean-François Champollion conseguiu provar que eles eram uma língua falada

1. Através do grego gravado na Pedra de Rosetta, ele reconheceu o que estava escrito nos hieróglifos. Assim, associou palavras como "Ptolomeus" aos signos correspondentes. Sabia, então, qual deles representava a letra S. Mas não imaginava como pronunciá-los.

2. Champollion se concentrou no cartucho ao lado (encontrado em Abu Simbel) e identificou dois S. Aí recorreu ao copta, idioma antigo cuja sonoridade é próxima à do hieróglifo, e obteve alguns sons dos signos, já que o hieróglifo não tem todas as vogais, tal como outras línguas semíticas.

3. Em seguida, ele deduziu, a partir do formato do signo, que o primeiro hieróglifo era o Sol, e então presumiu que seu som correspondia ao da palavra copta para Sol: "Ra". Assim, obteve a sequência (Ra-?-s-s).

4. Logo concluiu que se tratava do cartucho correspondente ao faraó Ramsés, que em copta significa "filho do Sol" (Ra = sol + Mes = nascido de). E assim ele quebrou o código da escrita egípcia.

A última dinastia

Os ptolomeus e a decadência da civilização egípcia


A importância da Pedra de Rosetta vai além da decifração dos hieróglifos. Ela registra um momento fundamental da história egípcia: a dinastia ptolomaica. Sabe a Cleópatra dos filmes e da literatura? Ela foi a sétima do reinado ptolomaico (305 a 30 a.C.). "Existiram sete Cleópatras e 15 Ptolomeus", diz o historiador Júlio Gralha. "O texto da Rosetta é a transcrição de um decreto editado pelo conselho de sacerdotes, reunido em 196 a.C. em Mênfis, capital do norte do Egito. O decreto foi feito durante o reinado de Ptolomeu V Epiphanes (210-180 a.C.)."

Naquela época, a glória dos primeiros faraós era coisa do passado. O país fora conquistado em 332 a.C. pelo macedônio Alexandre, o Grande, que se autoproclamou soberano. Com a morte dele, a administração do Egito coube a um de seus generais, Ptolomeu, que instituiu uma nova linha de sucessão. "Como a dinastia dos ptolomeus era de cultura grega (helenizada), ela precisaria adotar fortemente a cultura faraônica se quisesse reinar", afirma o historiador. É que as práticas mágico-religiosas egípcias continuavam muito fortes entre o povo. E, se os ptolomeus não se identificassem com esses rituais nem assumissem a monarquia faraônica - estranha aos gregos -, não conseguiria se manter no poder. Os primeiros ptolomeus não adotaram completamente a cultura local, o que explica a resistência que sofreram. Para a população, eles ainda eram estrangeiros. Segundo Gralha, foi somente no governo de Ptolomeu V que a dinastia adotou plenamente a religião egípcia.

A prova disso é a Pedra de Rosetta. O decreto que ela contém marca o momento em que os sacerdotes exaltam as virtudes de Ptolomeu V e se dirigem a ele com títulos antigos - tal como os faraós. Com esse carimbo de aprovação, o monarca enfim ganhou legitimidade para governar. O documento feito de basalto cita algumas de suas benfeitorias, como doar trigo para os templos, perdoar dívidas e reduzir impostos para candidatos ao sacerdócio. A Pedra de Rosetta foi gravada em três idiomas para que sacerdotes, funcionários do governo e a aristocracia pudessem entender o que dizia. O hieróglifo era a língua religiosa, o demótico reproduzia a linguagem popular e o grego era o idioma dos ptolomeus. Mas o artefato não foi o único do gênero. Pesquisadores acreditam que outras pedras idênticas foram espalhadas pelo Egito, como uma campanha de marketing. Uma delas foi achada no fim do século 19.

Mas por que espalhar aqueles blocos se a maioria da população não sabia ler? O efeito era semelhante ao das estátuas: o líder se fazia presente sem estar lá. Ao que tudo indica, as pedras também foram um recado aos rebeldes que dominaram o sul da nação por 20 anos. "A revolta foi derrotada e, a partir daí, a dinastia percebeu que era hora de adotar as práticas faraônicas", diz Gralha. "O país foi então pacificado." A dinastia só durou 300 anos, em boa parte por causa das disputas após a morte de Ptolomeu V, em 180 a.C. Vários Ptolomeus e Cleópatras se engalfinharam na corrida pelo trono. Um deles foi Ptolomeu VIII, que matou o filho e entregou à mulher, Cleópatra II.

"Ptolomeu XV e Cleópatra VII (esposa de Julio César e Marco Antônio) foram o último casal governante do Egito. Com a morte dela, o país deixou de existir como potência internacional, mas seu legado perdurou durante séculos", afirma o egiptólogo.

Saiba mais

LIVROS


Miragem - Os Cientistas de Napoleão e suas Descobertas no Egito, Nina Burleigh, Landscape, 2008

Um relato sobre a expedição francesa na terra dos faraós.


Historia del Mundo Antíguo, Susan Wise Bauer, Paidós, 2007

Excelente análise sobre a evolução da escrita.

DVD

Egito - Redescobrindo um Mundo Perdido, BBC, 2005

Um dos episódios do volume 2 narra a descoberta da pedra.

Revista Aventuras na História

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Escrevendo em Hieróglifos

Interpretar os símbolos sagrados dos faraós requer algumas regras básicas que até os não acadêmicos podem ser seguidas com certa facilidade. Confira no artigo a seguir algumas dicas e prepare-se para arriscar algumas palavras nessa fascinante linguagem

Por Moacir Elias Santos
Há muitos anos, quando ainda na infância, lembro-me de ter assistindo a um filme produzido em 1980, originalmente chamado The Awakening (O Despertar), mas traduzido aqui no Brasil como Reencarnação. Neste, havia uma cena curiosa, que mostrava o instante em que o egiptólogo Matthew Corbeck (interpretado por Charlton Heston) e sua assistente Jane Turner (Susannah York) encontravam uma grande inscrição hieroglífica, que mencionava uma rainha cujo nome havia sido apagado por seus atos malévolos. A leitura dos hieróglifos feita por ela parecia perfeita aos olhos de um leigo, mas grande foi minha surpresa, ao assistir o filme novamente duas décadas depois. As inscrições estavam corretas, mas ela estava lendo o texto de trás para frente! Acredito que os consultores do filme acabaram por esquecer este pequeno detalhe, que seria a primeira regra da interpretação dos hieróglifos: a direção da escrita.

A língua egípcia é formada por um grande número de sinais que no estágio conhecido como Médio Egípcio inclui aproximadamente setecentos hieróglifos. As imagens podem ser agrupadas dentro de diversas categorias, que apresentam figuras humanas, diversas classes de animais, plantas, edificações, objetos inanimados, entre muitas outras. Mas como seria possível, dentre tantos sinais, saber onde começa uma frase?
A resposta é algo bem fácil: basta olhar para onde qualquer uma das figuras animadas está direcionada, seja ela uma mulher sentada ou um pato em pé. Assim, se as figuras estão todas voltadas para o lado esquerdo do espectador, lê-se da esquerda para a direita, se apontarem para a direita, lê-se da direita para a esquerda. A mesma situação ocorre para as figuras que se encontram em colunas: basta observar a direção das mesmas. Esta regra possibilitou aos egípcios escreverem em quatro sentidos diferentes na horizontal e na vertical.

O leitor já deve ter observado que, por vezes, os sinais hieroglíficos estão perfeitamente organizados dentro dos espaços das linhas, colunas ou mesmo ao lado das figuras que compõe uma cena. O senso estético dos antigos egípcios era muito apurado e podemos perceber, pelos detalhes das inscrições, que achavam muito estranho a colocação de um símbolo estreito e alto ao lado de um longo e baixo. Para eles a simetria deveria ser quase que perfeita e esta foi conseguida a partir da inserção dos símbolos dentro de retângulos imaginários. Esta harmonia resultou no agrupamento, sobreposição dos sinais e, até mesmo, inversão da ordem dos hieróglifos que compunham uma determinada palavra. Neste último caso é como se pudéssemos, na língua portuguesa, inverter a ordem das letras do substantivo "cabelo", somente para que as consoantes "b" e "l" ficassem juntas, resultando nesta forma: "cableo".

A forma dos sinais hieroglíficos, em geral, pode ser reconhecida sem muitas dificuldades, o que possibilita o seu rápido entendimento se a compararmos com outros sistemas de escrita, cujos símbolos são mais abstratos. Antes da decifração dos hieróglifos por Jean-François Champollion, em 1822, acreditava-se que a escrita egípcia era composta exclusivamente por um único tipo de sinal, o pictográfico. Na realidade, o sábio francês concluiu que os hieróglifos poderiam ser classificados também como ideográficos, fonéticos e determinativos, cada um com um valor gramatical diferente. Vejamos o que significa cada um destes sinais.


Em busca do sentido

Esta imagem de uma arquitrave do templo de Medinet Hhabu apresenta o disco solar alado com uma inscrição, contendo os dois nomes do faraó Rramsés III. A leitura se faz do centro para as extremidades, conforme indicado pelas setas.


A organização dos sinais hieroglíficos é feita dentro de retângulos imaginários. Note como os sinais são agrupados e sobrepostos. A inscrição é de uma parede do templo do deus-crocodilo Sobek, em Kom Ombo

Os pictográficos podem representar um objeto, um ser ou mesmo uma idéia. Podemos afirmar que um desenho pictográfico é um signo-objeto.
Vamos observar como isto ocorre na prática, com dois exemplos referentes aos sinais de "casa" e "braço". Para escrever a palavra "casa", os escribas egípcios desenhavam a imagem da planta baixa de uma residência com um só cômodo e colocavam ao lado desta, ou abaixo, um pequeno traço vertical, que denominamos "traço determinativo", para confirmar que o sinal representa realmente uma casa. Já a palavra "braço" se escreve com o sinal de um antebraço e, tal como no caso anterior, é necessária a colocação do traço determinativo para confirmar o sentido do sinal, mostrando que se trata realmente de um braço.


Pronúncia

Antes de prosseguirmos com os tipos de sinais são necessárias algumas explicações sobre a pronúncia das palavras e a transliteração. Como o egípcio antigo que era falado em tempos faraônicos é uma língua morta, e pelo fato de que as vogais não eram utilizadas na escrita, tal como ocorre na língua árabe, os estudos sobre a fonética egípcia são um campo difícil. Quem assistiu aos filmes hollywoodianos Stargate, A Múmia e O Retorno da Múmia deve ter ouvido algumas palavras que soariam como se escutássemos vindas dos antigos egípcios. Mas na realidade, o único eco que ainda podemos ouvir está presente na língua Copta, que se conservou graças à liturgia da Igreja Copta no Egito, sobre a qual veremos mais neste texto.
Mas como pronunciar o egípcio se não existem vogais, apenas consoantes e semivogais?

A resposta, novamente, é fácil. Os pioneiros da filologia egípcia criaram um sistema para permitir a vocalização das palavras, adicionando um "e" quando temos duas consoantes juntas. Assim, para a palavra "casa", que possui valor sonoro "pr", lê-se "per". No Brasil, todos os pesquisadores que aprenderam a língua egípcia com o Prof. Dr. Ciro Flamarion Cardoso, seguem a pronúncia dos egiptólogos franceses para as palavras. Por exemplo, quando aparece um "w" em alguma palavra, pronuncia-se "u". O "a" e o "i", que são semivogais, são lidos como tais. Esta pronúncia é um pouco diferente para os falantes de língua inglesa e alemã. Tais convenções são totalmente artificiais, portanto, para quebrar a monotonia. No caso de algumas palavras ou nomes de reis, optou-se por trocar o "i" pelo "a", além de inserir, às vezes, a vogal "o". Por exemplo, se sempre seguíssemos a convenção egiptológica pronunciaríamos o nome de um rei assim: "Imenhetep", mas na literatura pode aparecer Amenhotep ou mesmo Amonhotep. Isto, sem dúvida, cria certas confusões para os leigos, mas os pesquisadores já se acostumaram com a variedade destas pronuncias em particular, inclusive também pela existência de variantes provenientes da língua grega, como "Amenófis" para Amenhotep.

Outra convenção feita pelos egiptólogos está relacionada à transliteração das palavras egípcias. Esta é uma forma de transformar sinais hieroglíficos em letras para que possamos entender a pronuncia dos mesmos. O sinal hieroglífico para a palavra "casa", que mencionamos acima, é transliterado "pr". Neste processo apenas os sinais que possuem valor sonoro ou fonético aparecem. Outros, que veremos adiante, como os complementos fonéticos e determinativos, não são marcados na transliteração.

Ideograma

O segundo tipo de sinal é o ideograma, cujo significado está relacionado à apresentação de uma idéia. Contudo, diferentemente do pictograma, o ideograma não trata do próprio objeto, mas do conceito apresentado por ele. Vejamos um exemplo: a imagem de um homem com a mão na boca pode expressar diversas situações relacionadas ao gesto, tal como o ato de "falar" - mdw, de "ter sede" - ib, e mesmo, de "comer" - wnm. Embora façamos uma distinção entre sinais pictográficos e ideográficos, diversas gramáticas de Médio Egípcio não o fazem. Tratam os pictogramas e os ideogramas como se representassem o mesmo conceito, relacionado a uma idéia.
Na língua egípcia quase todos os sinais são fonéticos, isto é, são figuras que representam um som específico e que podem ser divididas em três grupos: uniconsonantais ou uniliterais, biconsonantais ou biliterais, e triconsonantais ou triliterais. A diferença entre os grupos é justamente o número de sons.

o grupo de uniconsonantais são os que representam uma única consoante. Na língua egípcia existem vinte e quatro sinais deste tipo, alguns com diferentes formas, que corresponderiam ao pseudo-alfabeto. Nas tabelas abaixo temos o sinal hieroglífico, sua transliteração e o respectivo valor sonoro:

o segundo grupo de sinais fonéticos é o dos biconsonantais, isto é, daqueles que representam duas consoantes. o número de sinais nesta categoria atinge aproximadamente uma centena. A tabela ao lado apresenta alguns dos mais comuns:



As palavras que são formadas por sinais biconsonantais ou triconsonantais podem ser seguidas por outros sinais fonéticos. estes são chamados "complementos fonéticos". embora estes hieróglifos tenham um valor sonoro, pois a maioria pertence ao pseudo- alfabeto, no contexto em que aparecem, não devem ser lidos. Sua função nas palavras era de facilitar o aprendizado da escrita e da leitura, além de enfatizar ou preencher espaços se houvesse necessidade. o último tipo de sinal é chamado de determinativo. diferentemente dos demais, ele não possui nenhum valor fonético, quando aparece ao final de uma palavra. Seu uso está restrito a identificar um sentido, ou o seu real significado. os determinativos também servem para localizar o final de uma palavra, já que na língua egípcia não há espaços para a separação entre elas. Na língua egípcia também encontramos algumas particularidades no que se refere à escrita. Algumas palavras relacionadas a nomes de divindades e pessoas importantes, como o rei, são colocadas à frente das demais em sinal de respeito. Esta alteração chama-se inversão respeitosa ou Transposição Honorífica.

Encontramos, igualmente, determinadas palavras que podem sofrer abreviação por falta e espaço no local onde se encontram, seja e uma estela ou em uma parede


Uma Gramática Inicial
Para a leitura de um pequeno texto são necessárias explicações sobre mais algumas regras gramaticais. embora elas representem o primeiro passo para o aprendizado da escrita hieroglífica, há muitas outras que omitiremos aqui por razões ligadas à complexidade e ao espaço

Gênero e Número
H á no egípcio dois gêneros: masculino e feminino. Substantivos masculinos não possuem nenhuma desinência, já os femininos contêm um t no final das palavras. Por exemplo:


Note que no exemplo abaixo, quando a palavra está no feminino, o determinativo também muda - a figura do homem sentado foi substituída pela da mulher sentada. os números são três: singular, dual e plural. o singular não possui nenhum sinal. As terminações no dual são wy para o masculino e y para o feminino
O plural é designado com w para o masculino e wt para o feminino. Os três traços também designam o plural. O plural arcaico era feito com a triplicação do símbolo.
Genitivo direto
O genitivo é formado pela união de dois substantivos, podendo ser expresso de duas maneiras, direta e indireta, isto é, com ou sem uma partícula de ligação. é comum em títulos e frases onde os substantivos estão estreitamente conectados. Podem ser traduzidos por: de, do, da, dos e das. No genitivo direto não há partícula de ligação. Exemplos:


Genitivo direto
Já o genitivo indireto possui uma partícula de ligação (adjetivo genitivo) da seguinte forma:


Na escrita egípcia os adjetivos seguem a forma do gênero e do número do substantivo que descrevem e aparecem depois do substantivo. Por exemplo:


Pronomes sufixos
Estes pronomes indicam a quem uma coisa pertence. Podem ser usados como sujeito depois de um verbo, como pronome possessivo depois de um substantivo, como pronome pessoal depois de uma preposição e como objeto depois de um infinitivo. Necessariamente eles devem ser acompanhados de um ponto na transliteração. Assim temos:


Preposições
Há muitas preposições na língua egípcia. Vejamos algumas:




Numerais Cardinais
Os numerais cardinais egípcios aparecem normalmente após o substantivo a que pertencem. Mas há exceções, em que os numerais podem aparecer antes. quando isso ocorre há uma preposição, tal como n ou m, entre o numeral e o substantivo. Nesse caso, o número "um" (wa) tem uma função de artigo indefinido.

Abaixo, como são escritas as unidades e as dezenas:




Fonte de informações
Parte do patrimônio mundial da Uunesco, o templo de Karnak (acima) era conhecido no Antigo Eegito como Iipet-Sut ou "o melhor de todos os lugares". No médio império era conhecido como "Iipt-Iiswt" (o eleito, no sentido de local, para os tronos divinos), conforme inscrição na parede da capela de Senusert Ii. Oos hieróglifos espalhados por todo o complexo foram de vital importância para aprimorar o conhecimento moderno da lingua dos faraós e continuam sendo alvo de extensas pesquisas até hoje.

Para saber

Até hoje não existe nenhuma obra publicada em língua portuguesa que abarque toda a gramática do Médio Egípcio. O Prof. Ciro Flamarion Cardoso escreveu duas versões que atualmente utiliza em suas aulas na Universidade Federal Fluminense, mas que ainda não foram publicadas. Recomendamos os seguintes livros que apresentam alguns passos iniciais:


BAKOS, M. M. O Que São Hieróglifos? São Paulo: Brasiliense, 1996. (Primeiros passos) DAVIES, W. V. "Os hieróglifos egípcios". In: Lendo o Passado: do Cuneiforme ao Alfabeto. A História da Escrita Antiga. São Paulo: Melhoramentos, 1996. p. 94-173. PARKINSON, R. O Guia dos hieróglifos egípcios: Como Ler e Escrever em Egípcio Antigo. São Paulo: Madras, 2006.

Revista Leituras da História