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segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão

Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão
(Revolução Francesa)
França, 26 de agosto de 1789

Os representantes do povo francês, reunidos em Assembléia Nacional, tendo em vista que a ignorância, o esquecimento ou o desprezo dos direitos do homem são as únicas causas dos males públicos e da corrupção dos Governos, resolveram declarar solenemente os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem, a fim de que esta declaração, sempre presente em todos os membros do corpo social, lhes lembre permanentemente seus direitos e seus deveres; a fim de que os atos do Poder Legislativo e do Poder Executivo, podendo ser a qualquer momento comparados com a finalidade de toda a instituição política, sejam por isso mais respeitados; a fim de que as reivindicações dos cidadãos, doravante fundadas em princípios simples e incontestáveis, se dirijam sempre à conservação da Constituição e à felicidade geral.
Em razão disto, a Assembléia Nacional reconhece e declara, na presença e sob a égide do Ser Supremo, os seguintes direitos do homem e do cidadão:
Art.1.º Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 2.º A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a prosperidade, a segurança e a resistência à opressão.
Art. 3.º O princípio de toda a soberania reside, essencialmente, na nação. Nenhuma operação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que dela não emane expressamente.
Art. 4.º A liberdade consiste em poder fazer tudo que não prejudique o próximo: assim, o exercício dos direitos naturais de cada homem não tem por limites senão aqueles que asseguram aos outros membros da sociedade o gozo dos mesmos direitos. Estes limites apenas podem ser determinados pela lei.
Art. 5.º A lei não proíbe senão as ações nocivas à sociedade. Tudo que não é vedado pela lei não pode ser obstado e ninguém pode ser constrangido a fazer o que ela não ordene.
Art. 6.º A lei é a expressão da vontade geral. Todos os cidadãos têm o direito de concorrer, pessoalmente ou através de mandatários, para a sua formação. Ela deve ser a mesma para todos, seja para proteger, seja para punir. Todos os cidadãos são iguais a seus olhos e igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo a sua capacidade e sem outra distinção que não seja a das suas virtudes e dos seus talentos.
Art. 7.º Ninguém pode ser acusado, preso ou detido senão nos casos determinados pela lei e de acordo com as formas por esta prescritas. Os que solicitam, expedem, executam ou mandam executar ordens arbitrárias devem ser punidos; mas qualquer cidadão convocado ou detido em virtude da lei deve obedecer imediatamente, caso contrário torna-se culpado de resistência.
Art. 8.º A lei apenas deve estabelecer penas estrita e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão por força de uma lei estabelecida e promulgada antes do delito e legalmente aplicada.
Art. 9.º Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei.
Art. 10.º Ninguém pode ser molestado por suas opiniões , incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.
Art. 11.º A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta liberdade nos termos previstos na lei.
Art. 12.º A garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita de uma força pública; esta força é, pois, instituída para fruição por todos, e não para utilidade particular daqueles a quem é confiada.
Art. 13.º Para a manutenção da força pública e para as despesas de administração é indispensável uma contribuição comum que deve ser dividida entre os cidadãos de acordo com suas possibilidades.
Art. 14.º Todos os cidadãos têm direito de verificar, por si ou pelos seus representantes, da necessidade da contribuição pública, de consenti-la livremente, de observar o seu emprego e de lhe fixar a repartição, a coleta, a cobrança e a duração.
Art. 15.º A sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público pela sua administração.
Art. 16.º A sociedade em que não esteja assegurada a garantia dos direitos nem estabelecida a separação dos poderes não tem Constituição.
Art. 17.º Como a propriedade é um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado, a não ser quando a necessidade pública legalmente comprovada o exigir e sob condição de justa e prévia indenização.
In Textos Básicos sobre Derechos Humanos. Madrid: Universidad Complutense, 1973. Traduzido do espanhol por Marcus Cláudio Acqua Viva apud FERREIRA Filho, Manoel G. et. alli. Liberdades Públicas. São Paulo: Ed. Saraiva, 1978.

Núcleo de Estudos Contemporâneos - UFF

Graco Babeuf: um ponto de vista sobre a revolução francesa

Felipe dos Santos
Sirlane Marques


A historiografia clássica considera a Revolução Francesa o marco da passagem da Idade Moderna para a Contemporânea. Mas por que essa revolução é considerada tão importante? Os pensamentos políticos do nosso tempo estão intimamente ligados aos pensamentos que geraram e foram gerados pela Revolução Francesa. Traços iluministas, como a crença na ciência, estão presentes na mentalidade das sociedades capitalistas ocidentais ainda hoje.
A revolução, ligada às idéias liberais (que tem como principais formuladores os ingleses John Locke e Adam Smith) tende a ser mais valorizada pelos historiadores liberais. Mas há quem defenda que, ainda que ela tenha o seu valor, não foi suficiente para atender às necessidades de toda a população. Entre outros, houve um homem que foi contemporâneo à revolução que pensava assim, esse homem é François Noël Babeuf, sobre quem pretendemos falar nesse texto.
Ele é mais lembrado pela participação na Conjuração dos Iguais, motivo pelo qual, foi condenado à morte pelo Diretório (fase conservadora do governo francês durante a revolução, que ele considerava não tão revolucionária assim). Mas, antes da conjuração, ele já atuava de modo significativo com o objetivo de estender as reivindicações revolucionárias aos mais miseráveis.
É comum que as diversas doutrinas políticas tentem se legitimar através da afirmação de uma tradição, muitos socialistas atribuíram a Babeuf um lugar especial na árvore genealógica do socialismo moderno. De acordo com Marx, um dos principais nomes do comunismo moderno e que deu origem a corrente marxista que obteve e continua obtendo muitos seguidores, Babeuf foi o “primeiro comunista ativista” e a Conjuração dos Iguais, o “primeiro partido comunista”.
Apesar de ser possível analisar sua participação na revolução em vários outros momentos, o momento histórico escolhido para essa análise é a interessante ida de Babeuf a Paris em julho de 1789. Começaremos, então, com um breve relato da vida de Babeuf.

O caminho trilhado por Babeuf

François Noël Babeuf, de autor desconhecido.

François Noël Babeuf, nasceu em novembro de 1760 em Saint-Quentin, uma pequena cidade da Picardia, região ao norte de Paris. A situação econômica de sua família era complicada, aos treze anos já ajudava os pais trabalhando na construção de um canal em sua cidade.
Aos dezessete anos, trabalhava como aprendiz de feudiste, uma espécie de técnico que calculava quanto de imposto cada camponês deveria pagar ao seu senhor. Aprendeu com um amigo o ofício de arpenteur-géomètre, que se dedicava a medir, utilizando instrumentos de relativa precisão, o tamanho de lotes de terra. Essa nova habilidade complementava a antiga, pois o cálculo do imposto pago pelos camponeses era feito de acordo com o tamanho da terra que exploravam.
Com vinte e dois anos, em 1782, se casou com Marie-Anne Victorine Lenglet, ex-dama de quarto da esposa de um nobre para qual Babeuf já havia trabalhado. Posteriormente, através de textos produzidos por ele, defendia um tratamento igualitário para homens e mulheres, onde podemos observar um adiantamento em relação ao pensamento da sua época.
Depois de casar, mudaram-se para Roye, também no norte da França, onde Babeuf abriu um escritório de arpenteur-géomètre. Nesse período, conseguiu um número de clientes que lhe garantiu relativa tranqüilidade financeira.
Em 1785, ele começou a trocar cartas com um nobre, secretário-geral da Academia de Arras, um tipo de associação cultural ligada pelas idéias iluministas, onde se discutiam sobre diversos assuntos. Essas cartas são exemplos de rastros deixados pelo passado e que possibilita que nós, hoje, nos debrucemos sobre uma época com características e valores muito distintos dos nossos.
Nesse caso, as cartas nos ajudam a entender o pensamento de Babeuf. Através delas, ele defende que o homem deve ter como objetivo alcançar a “felicidade geral”, um direito natural do homem, e para isso dizia ser necessário o fim da propriedade privada. O desejo de acabar com a propriedade privada nos indica uma de suas principais influências, o pensador iluminista Jean-Jacques Rousseau.
Em uma das cartas, Babeuf levanta a questão: será que um jeito de se alcançar essa tão desejada “felicidade geral” não é vivendo numa sociedade onde predominasse a “mais perfeita igualdade”? Seu correspondente, fazendo jus a seu título de nobre, não deu muita atenção a essa idéia.
Em uma outra carta, Babeuf fala sobre um autor, diz que gosta de suas idéias, mas lamenta ele não especificar o caminho para se atingir seus objetivos. Esse é um aspecto de grande importância na estratégia revolucionária de Babeuf, sua preocupação em não apenas idealizar sociedades diferentes da existente, mas também criar os meios para atingir tal sociedade.
Aos poucos as cartas vão se tornando menos freqüentes até que não são mais enviadas. Talvez Babeuf tenha percebido que sua intenção de modificar a sociedade de uma maneira mais radical, não tenha soado bem aos ouvidos de seu correspondente. Mas, essas correspondências podem ter servido como uma oportunidade para que as suas idéias fossem organizadas e desenvolvidas. Confrontar suas idéias com alguém que pensava tão diferente pode ter as deixado ainda mais consistentes.
Se houve uma época em que Babeuf desfrutava de uma boa situação financeira, chegou um momento em que essa situação piorou muito. Desde 1786, mais ou menos, os nobres, para quem prestava serviços, deixaram de pagar pelos serviços e ele precisou deixar a casa onde morava e se mudar para uma outra bem menor em um bairro pobre de Roye. Ele estava sentindo na pele a indiferença dos nobres em relação aos menos privilegiados e esse contato deve ter contribuído para aumentar o seu desejo de transformar o modo como a sociedade funcionava.
Babeuf havia escrito um projeto chamado Cadastro Perpétuo, o objetivo era criar um cadastro de todas as terras da França. Isso iria facilitar na cobrança de impostos, uma vez que os proprietários não conseguiriam ocultar com tanta facilidade o tamanho de suas terras para pagar menos impostos. E foi o desejo de publicar esse projeto que fez com que os dois principais objetos do texto, Babeuf e a revolução, se encontrassem.

O caminho trilhado pela Revolução

A Liberdade Guiando o Povo, por Eugène Delacroix, 1890, Museu do Louvre, Paris.

Ao final da década de 1770 a França, que ainda num regime feudal e sob o reinado de Luis XVI, havia sido atingida por uma forte crise econômica. Houve um aumento no preço dos alimentos e uma queda do poder aquisitivo da população, o resultado foi uma crise produtiva e fome para a maioria da população. A coroa precisava arrecadar mais e não podia aumentar os tributos sobre o povo, sua única saída era tributar a nobreza e o clero.
A reforma fiscal seria discutida com a convocação dos Estados Gerais, que era a reunião dos três estamentos: a nobreza, o clero e o povo ou primeiro, segundo e terceiro estado, que contavam com, respectivamente, 300, 300 e 600 representantes aproximadamente. Mesmo possuindo um número maior de representantes, o povo estava em desvantagem, porque os votos eram calculados por estado e os dois primeiros estamentos votavam juntos.
O povo reivindicou por uma votação por cabeça, pelo número de representantes e não por estado, o que julgavam ser mais justo, uma vez que a população francesa era formada em sua maioria por integrantes do terceiro estado (96%). Como essa proposta não foi aceita, o terceiro estado se nomeou Assembléia Nacional, com o objetivo de representar toda a população. Não encontrando alternativa, Luis XVI ordenou que o clero e a nobreza se unissem à Assembléia, que se tornou Constituinte.
Considerada uma das datas mais importantes da revolução pelos historiadores, no dia 14 de julho de 1789 ocorreu a famosa Queda da Bastilha. Nesse episódio o povo de Paris invadiu a Bastilha que havia sido uma prisão, mas que na ocasião da invasão, já não funcionava tanto como tal. O ataque do povo ficou famoso não tanto por uma conquista concreta, mas pela representação da união do povo se insurgindo contra esse símbolo do Antigo Regime.

Os caminhos se cruzam
Babeuf, quando foi para Paris, tinha como objetivo publicar o seu projeto do Cadastro Perpétuo, portanto, cabe ressaltar as principais idéias para termos uma noção de como ele via a sociedade, e que transformações gostaria que ocorressem.
Seu conteúdo não tratava exclusivamente do projeto. Além disso, propunha outras mudanças de caráter social e político baseadas em meios de se alcançar uma sociedade mais igualitária. Com isso, Babeuf pretendia dar voz aos “infelizes”, aos miseráveis. Exemplos disso são: a proposta de criação de uma caixa nacional para garantir a subsistência dos pobres, de pagamento do salário dos médicos pelo governo, para que a saúde pudesse ser para todos e gratuita, e também educação e justiça gratuitas, entre outras.
Babeuf chega em Paris no dia 17 de julho de 1789, apenas três dias após a Queda da Bastilha.

Tomada da Bastilha, Prise de la Bastille, Pintura de Jean-Pierre Louis Laurent Houel -1735-1813.

No dia 23 de julho, Babeuf manda uma carta para a esposa, descrevendo o que estava presenciando e mandando um pouco de dinheiro que havia ganho fazendo pequenos serviços. Essa carta, assim como as cartas trocadas com o nobre já citadas e o Cadastro Perpétuo, por exemplo, são rastros deixados por Babeuf que nos ajudam, hoje, a tentar entender como ele pensava. Ainda que muitos desses rastros tenham se perdido e ainda existam muitas informações a que não podemos ter acesso, assim o historiador entra em contato com o passado.
Na carta, a primeira coisa dita é que é impossível estar em Paris e ter as idéias claras, porque as coisas estão mudando de uma maneira muito rápida e radical. Ele cita uma tentativa de golpe planejado por nobres e que se não tivessem sido descobertos a tempo, colocaria a revolução em risco.
Ele critica o excesso de violência dos revolucionários, como a tortura, a guilhotina etc. Ele diz que a justiça deveria ser feita sem violência. Entretanto, ele compreende que essa violência aconteça, por causa dos maus tratos sofridos nas mãos dos nobres, que agora haviam se convertido em alvo dos maus tratos. Ele diz que se o povo está agindo como bárbaros, é porque os que os dominavam, os verdadeiros bárbaros, os deixaram assim.
Um impacto da revolução mais direto sobre a vida Babeuf, constatado na carta por ele, é que a sua ocupação de feudiste estava com os dias contados. Com o fim das práticas feudais, ele não iria mais prestar os mesmos serviços para os nobres. Ele diz: “os egoístas me tacharão de louco” por ainda assim estar feliz com a revolução, abrindo mão do seu interesse individual, em nome do interesse geral, da felicidade geral, que era o seu objetivo maior.
Com o abandono de sua antiga ocupação, Babeuf descobre uma maneira de conciliar seus anseios por transformações revolucionárias e sua necessidade de trabalhar e começa a escrever para jornais. É através da imprensa que Babeuf age de modo mais intenso na revolução, sempre tentando dar voz aos que não tem a chance de se pronunciar.

Le Tribun du Peuple (A Tribuna do Povo), jornal de autoria de Babeuf, que teve mais de quarenta números e teve o nome baseado no jornal do famoso Marat chamado “O amigo do povo”.

Em outubro de 1789, volta para Roye. Apesar de ter se afastado do centro de ebulição revolucionário, Paris, Babeuf não deixa de lutar pelos direitos da população, mas agora agindo mais localmente. Com esse apoio local aos interesses populares, consegue certo reconhecimento, o que faz com que seja reprimido pela Assembléia Constitucional.
Aconteceram, em vários momentos, choques entre Babeuf e as muitas formas de governo revolucionário. Ainda que o governo tenha variado, essa variação ia da alta até a pequena burguesia, e era justamente isso que gerava o descontentamento de Babeuf, que lutava por um governo menos burguês e que, de fato, desse ouvidos à parte mais pobre do povo francês.
Seu desejo era que o povo atuasse de maneira mais autônoma, sem depender da coordenação burguesa. Ele estimulava uma insurreição popular e reclamava do fato do povo se mostrar muito passivo na revolução
Uma razão para essa passividade seria a falta de educação, pois a educação os libertaria, garantiria a emancipação social do povo, seria uma arma contra a opressão e a educação deveria ser para todos, pois não sendo assim, ela se tornaria um fator de desigualdade social.
Por defender que uma insurreição popular era a única maneira de tornar a revolução realmente igualitária, foi oprimido e preso diversas vezes pelos governos ditos revolucionários. Inclusive foi na prisão que ele conheceu alguns dos que iriam se juntar a ele posteriormente na Conspiração dos Iguais.
Babeuf atribui o fracasso dos sans-culottes e dos jacobinos à falta de uma organização e de um programa, o que ele tentou fazer com a Conspiração. Mas o Diretório, marcado pela presença da alta burguesia conservadora no poder, informado por um participante da Conspiração, caçou e puniu os responsáveis.
No dia 10 de maio de 1796 ele é preso e no dia 27 do mesmo mês é executado. Depois de preso e antes de morrer, escreve cartas para a família e para amigos, onde diz ter morrido pela tão sonhada felicidade geral, se despede da família, pede a amigos que cuidem da sua esposa e dos filhos e se despede do mundo pelo qual lutou e morreu.

CRONOLOGIA

1788

AGOSTO:
• 08- Convocação dos Estados Gerais para 1789, por Luís XVI.

DEZEMBRO:
• 27-Resultado do conselho sobre a reunião dos Estados Gerais.
O Terceiro Estado terá tantos deputados quantos forem os membros
dos outros dois somados.

1789

JANEIRO:
• Defendendo o sufrágio universal com eleições diretas, além de instrução gratuita e obrigatória Robespierre é eleito, pelo Terceiro Estado, deputado para os Estados Gerais em Paris.

JUNHO:
• 17- O Terceiro Estado, considerando a representação de 98% da população, se auto proclama Assembléia Nacional.

JULHO:
• 12- Rebeliões em Paris.

• 14-Tomada da Bastilha, formação de uma municipalidade e de uma
guarda burguesa em Paris. Sublevação de camponeses, ataque a castelos e queima de documentos feudais. Considerada o inicio da revolução.

1790

MARÇO:
• 15- Abolição dos direitos senhoriais. Autorização da venda das propriedades nacionais em leilões públicos. As terras seriam dividas em pequenas partes que poderiam ser pagas em até 12 anos.

1791

DEZEMBRO:
• 12-18- Intervenções de Robespierre contra a guerra.

1793

JANEIRO
• 21- Luís XVI é guilhotinado.

1794

JULHO:
• 28- Execução de Robespierre, Saint-Just, Couthon e outros 19 do
grupo. Chega ao fim o terror. A convenção retoma o os poderes e é promulgada uma nova Constituição (do ano III) que suprime o sufrágio universal, entre outras medidas.

Bibliografia:
Hobsbawn, E. A era das revoluções. Paz e Terra, RJ, 1972.

Molon, A. L. Graco Babeuf: o pioneiro do socialismo moderno. EdUERJ, RJ, 2002.

Arnaut, L. Textos e Documentos. Disponível em: http://www.fafich.ufmg.br/~luarnaut/cont1.html Acessado em: 29/10/2009 às 03:03

Gracchus Babeuf, Paris le 23 juillet 1789. Disponível em: http://membres.lycos.fr/cabinethistoire/dhist.htm Acessado em :29/10/2009 às 03:03

Ozouf, Mona, Furet, François, Dicionário crítico da Revolução Francesa. Nova Fronteira, RJ, 1989.

Núcleo de Estudos Contemporâneos - UFF

A Revolução Francesa e a Religião Católica

André Filgueiras, Daniel Tomazine, e Ingrid Casazza
A Revolução Francesa marcou para Igreja Católica um dos períodos mais difíceis de sua história. Isto porque a Revolução não só propagou os ideais iluministas que incluíam um sentimento anticlerical e anti-religioso, como também exerceu na prática esses ideais, muitas vezes de forma violenta.

A França sempre teve uma posição de destaque na cristandade, desde os séculos medievais, da conversão dos francos ao catolicismo até a época em que a cidade francesa de Avignon abrigou a sede do papado. Foi também a França um dos maiores pontos de conflito entre católicos e protestantes. Tais fatos levaram a França a ser considerada por muitos papas como a “filha predileta da Igreja”. Às vésperas da Revolução, o país mostrava um quadro onde o catolicismo vivia o seu auge: a população participava dos ritos religiosos e o clero paroquial cuidava da vida religiosa da sociedade. Exercia grande influencia na vida política, pois o poder absoluto do rei era garantido pelo direito divino, e o próprio clero possuía status de Estado. A religião católica influenciava também o tempo, com o calendário gregoriano que possuía festas e feriados cristãos. Por fim, era papel do clero presidir as atividades civis como os casamentos e os registros de nascimento e óbito. Era esse quadro que a revolução viria a mudar radicalmente.

A Revolução Francesa, em sua tentativa de acabar com as estruturas feudais ainda vigentes, colocou a Igreja Católica em uma difícil situação. Desde os primeiros passos da Assembléia Constituinte até a Constituição Civil do Clero, foram tomadas medidas capazes de levantar suspeitas de que a revolução era hostil ao clero. Uma das primeiras medidas dos revolucionários foi a supressão do dizimo e o confisco dos bens do clero, para saldar o déficit nacional. Essas medidas, a principio, não causaram um conflito direto entre a Igreja e a Revolução.

O conflito só viria com a Constituição Civil do Clero e o juramento dos padres. Tal medida dividiu o clero francês: o clero constitucional, fiel à constituição, e o clero refratário, fiel ao papa. Este repudiava cada medida dos revolucionários, pois, além de perder o controle sobre o clero francês também perdeu suas possessões territoriais francesas na cidade de Avignon.

É possível afirmar que a Constituição Civil do Clero foi o divisor de águas nas relações entre a Religião Católica e o Estado revolucionário francês. Foi o juramento dos padres que estimulou a contra-revolução na Vendéia e a guerrilha camponesa dos Chouans – a Chouannerie, da qual participaram o clero refratário e a aristocracia. Foi também a questão do juramento que desencadeou um movimento violento de ataques aos padres e aos templos. Além disso, subordinava o clero ao Estado rompendo os seus vínculos com o papa.

A Igreja ainda viria a perder suas áreas de influência na vida política e social. O rei Luís XVI, antes de ser decapitado, é obrigado a renunciar o seu “poder divino”, tornando-se um cidadão como outro qualquer. O clero deixa de presidir as atividades da vida civil como o casamento e os registros de certidões de nascimento e de óbito. É importante ressaltar que na tentativa de enterrar de vez a influência católica, o governo aboliu o calendário gregoriano acabando com os dias da semana, e conseqüentemente, eliminando as festas e feriados religiosos, inclusive o domingo, conhecido como “Dia do Senhor”. Para substituí-lo criou um novo calendário, conhecido como Calendário Republicano Francês, que marcaria o inicio da nova era da Republica Francesa dando uma nova nomenclatura aos meses e semanas de acordo com as estações do ano.

O período do Terror marca o inicio do movimento violento que se deu contra a Igreja Católica. Igrejas são apedrejadas, padres são forçados a abdicar, imagens religiosas são destruídas e o culto religioso passa a ser proibido. Podemos ainda citar as tentativas de substituir o culto religioso por um culto revolucionário, como o culto à razão e ao Ser Supremo. Esses cultos exaltavam a vitória da razão e da consciência sobre a dominação da Igreja. Sobre o culto ao Ser Supremo, Robespierre aparece como pontífice da religião do Estado na tentativa promover a união entre o sentimento revolucionário e o sentimento religioso.

Passado o período violento do Terror, com a queda de Robespierre, seguiu-se uma fase confusa para a religião. Os homens que o derrubaram eram anticlericais que participaram dessas perseguições. Contudo, a política da Convenção Termidoriana seguia a lógica do retorno da liberdade que o período do Terror havia negligenciado. A essa lógica de liberdade estava ligada à questão da liberdade de culto. No período que vai de 1795 a 1799, as Assembléias do Diretório agiam ora permitindo o retorno ao culto, ora regressando a uma política de perseguição.

Esse quadro só seria resolvido com Napoleão Bonaparte. No período do Consulado, Napoleão e o Papa Pio VI assinam uma Concordata que redefine as relações entre a Igreja e o Estado. Por essa Concordata a Igreja Católica era reconhecida na sua unidade e estatuto, a liberdade de culto era garantida e o catolicismo era aceito como a religião da maioria dos franceses. Contudo a Igreja ficava subordinada ao Estado, uma vez que a nomeação de bispos era feita pelo Consulado. Os territórios da Igreja, como Avignon, e seus bens também não são restituídos.

O ultimo pilar do movimento de ataque a religião católica, o Calendário Republicano, foi extinto por Napoleão no Império, em 1805.

Cronologia:

04/08/1789 – Abolição dos direitos feudais e supressão do dizimo.
02/11/1789 – Confisco dos bens do clero para saldar déficit nacional.
12/07/1790 – Aprovada a Constituição Civil do Clero.
26/11/1790 – Decreto fixando o prazo de dois meses para o juramento dos padres em exercício à Constituição.
03/1793 à 03/1796 – Revolta da Vendéia e guerrilha camponesa dos Chouans
07/11/1793 (17 de Brumário do ano II) – Abjuração do bispo de Paris, marca o inicio da descristianização.
21/11/1793 (1 de Frimário do ano II) – Intervenção de Robespierre, refreando a descristianização violenta.
24/11/1793 (4 de Frimário do ano II) – Convenção Nacional adota o Calendário Republicano, determinando a data de 22/09/1792 como inicio do ano I da Republica.
07/05/1794 (18 de Floreal do ano II) – Relatório da Convenção que define as relações entre Estado e Igreja.
27/07/1794 (09 de Termidor do ano II) – Queda de Robespierre , sucedido por anticlericais que haviam participado da descristianização violenta.
18/08/1797 à 17/09/1797 (Frutidor do ano V) – Inicio da política de perseguição religiosa.
07/1801 – Concordata assinada entre Napoleão e o Papa Pio VI.
31/12/1805 – Abolição do Calendário Republicano por Napoleão.
Textos de época:

“A lei considera o casamento como sendo um contrato civil”. (Artigo 7 do Titulo II da Constituição Francesa de 1791).

“A lei não reconhece os votos religiosos, nem qualquer outro compromisso que seja contrário aos direitos naturais, ou à Constituição”. (Constituição Francesa de 1791).

“O novo calendário assim como suas instruções serão enviadas aos corpos administrativos, as municipalidades, aos tribunais, aos juizes de paz e a todos os oficiais públicos, aos mestres de todas as instituições e as sociedades populares. O conselho executivo provisório fará passar aos ministros, cônsules e outros agentes da França nos países estrangeiros”. (Artigo 13 do Decreto da Convenção Nacional sobre a instituição do Calendário Republicano).

Ilustrações:

O Terror e os ataques à religião católica: na figura dois homens da Igreja aparecem enforcados.

Símbolos dos patriotas: insígnias como essas eram portadas pelos soldados que lutaram na Vendéia e contra as Chouanneires.


Nas figuras de Robespierre e Napoleão, a religião católica conheceu dois momentos: com o primeiro, a tentativa de sua superação, através de cultos revolucionários; com o segundo, a restituição do seu estatuto e unidade, embora subordinada ao Estado.

Referências Bibliográficas:

Ø Burke, Edmund. Reflexões sobre a Revolução Francesa, UNB, Brasília, 1969.
Ø Furet, François. Pensando a Revolução Francesa, Paz e Terra, São Paulo, 1989 (2. ª edição).
Ø Furet, François e Ozuf, Mona (orgs.). Dicionário Crítico da Revolução Francesa, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989.
Ø Hobsbawn, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa, Companhia das Letras, São Paulo, 1996.
Ø Lefebvre, Georges. 1789, O Surgimento da Revolução Francesa, Paz e Terra, São Paulo, 1989.
Ø Michelet, Jules. História da Revolução Francesa, São Paulo, Companhia das Letras, 1989.
Ø Soboul, Albert. A Revolução Francesa, Difel, Rio de Janeiro, 2003 (8. ª edição).
Ø Vovelle, Michel. A revolução francesa contra a Igreja: da razão ao ser supremo,
Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1989.

Filmes:

Danton – O Processo da Revolução (1982), dirigido por Andrzej Wajda.

Sinopse: Na primavera de 1794, Danton (Gérard Depardieu) retorna a Paris e constata que o Comitê de Segurança, sob a incitação de Robespierre (Wojciech Pszoniak), inicia várias execuções em massa. O povo, que já passava fome, agora vive um medo constante, pois qualquer coisa que desagrade o poder é considerado um ato contra-revolucionário. Nem mesmo Danton, um dos líderes da Revolução Francesa, deixa de ser acusado. Os mesmos revolucionários que promulgaram a Declaração de Direitos do Homem implantaram agora um regime onde o terror impera. Confiando no apoio popular, Danton entra em choque com Robespierre, seu antigo aliado, que detém o poder. O resultado deste confronto é que Danton acaba sendo levado a julgamento, onde a liberdade, a igualdade e a fraternidade foram facilmente esquecidas.

Casanova e a Revolução (La Nuit de Varennes) (1982), dirigido por Ettore Scola.

Sinopse: No início de outubro o rei Luís XVI é obrigado a viver em Paris. Os líderes da revolução julgam que no Palácio de Paris o rei estará sob maior vigilância; temem as ações contra-revolucionárias. Depois de mais de um ano de reclusão, em junho de 1791, a família real foge de Paris em direção da Áustria, com a intenção de apoiar e fortalecer as ações austríacas contra a Revolução. O rei seria desculpado pela Assembléia Constituinte no mês seguinte e condenado somente um ano e meio depois, em janeiro de 1793.

Núcleo de Estudos Contemporâneos - UFF

A Comuna de Paris e o Simbolismo do Primeiro de Maio

Simone da Costa B. Sousa, José Rogério Costa Ribeiro, e Flávia Maria Trajano Andrade


Herdeira das tradições revolucionárias francesas, a Comuna de Paris foi um governo popular organizado pelas massas parisienses em 18 de março de 1871, sendo fortemente marcado por diversas tendências ideológicas, populares e operárias. Tornou-se posteriormente, uma referência na história dos movimentos populares e revolucionários.

De acordo com o escritor Prosper-Olivier Lissagaray, um communard que se tornou historiador da Comuna, esta teria sido "uma revolução feita por homens comuns e que deu aos trabalhadores a consciência de sua força, sem que esses pudessem desenvolver suas idéias". que, em suma, visavam melhorar as condições de vida dos indivíduos que compunham aquela sociedade, tão marcada por conflitos políticos, econômicos e sociais.

Embora a Comuna não deva ser pensada como uma revolução socialista, é importante frisarmos que suas propostas traziam em si preocupações de caráter social. Priorizando, pois, tais preocupações, procuraremos em um segundo momento desta abordagem compreender o exemplo das propostas dos communards para educação, considerando-as como parte importante de um programa que visava, entre outras coisas, garantir a gratuidade de todos os serviços públicos para a população e sem nenhuma distinção.

A experiência da Comuna, todavia, duraria pouco tempo (72 dias). Sob as ordens de Adolphe Thiers as tropas militares entraram em Paris e sufocariam a Comuna com feroz violência. Cerca de 20 mil pessoas foram mortas em uma única semana – a Semana Sangrenta. Era, portanto, o fim da Comuna.

últimos combates da Comuna de Paris

Sua lembrança, no entanto, ficará na memória. Um comovente texto escrito por Marx em 30 de maio de 1871, expressava o significado da Comuna: "Os trabalhadores de Paris, com sua comuna serão sempre considerados como gloriosos precursores de uma nova sociedade. A memória de seus mártires será cuidadosamente conservada no grande coração da classe trabalhadora. Ahistóriajá prendeu seus exterminadores nesse eterno pelourinho, de onde não conseguirão arrancá-los todas as orações de seus sacerdotes".

OS COMMUNARDS E A EDUCAÇÃO

A proposta de superação do Antigo Regime manifesta pela Revolução Francesa assentaria as bases para o desenvolvimento de uma educação pública e nacional. Com ela se estabeleceriam princípios que dariam a educação um caráter popular, convertendo-a em um direito a todos os homens e garantido pelo Estado.

Segundo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão redigida em maio de 1793, "a instrução é necessidade de todos os homens e a sociedade a deve igualmente a todos os seus membros". Ao longo de sua história, porém, a França revolucionária tornar-se-ia cada vez mais moderada em relação a esses princípios que, na prática, não se estenderiam igualmente a todos os membros da sua sociedade.

Seria na expectativa de construir uma sociedade que atendesse as necessidades dos setores populares que a compunham, que a Comuna de Paris assentaria as bases de suas propostas. O resgate da antiga proposta revolucionária de um ensino público, gratuito, laico e obrigatório seria, portanto, devidamente retomado como uma das dimensões que atendessem as necessidades desses indivíduos.

A proposta dos communards para educação visava assim, modificar uma realidade que lhes era limitada, quando não excludente, a exemplo da educação feminina. Nesse sentido, a Comuna tomou um conjunto decisões e medidas que procuraram redefinir os objetivos educacionais e da escola, a saber: abertura de todas as instituições de ensino gratuitamente ao povo e emancipado da interferência da Igreja e do Estado; organização do ensino primário e profissional; busca pela integração entre educação e trabalho; administração gratuita pelos profissionais dos instrumentos de trabalho escolar; instrução para as mulheres.

Seria assim criada pelo delegado do Ensino, o communard Edward Vaillant, em 23 de abril de 1871, uma comissão com a finalidade de ajudar a Delegação de Ensino a organizar o ensino primário e profissional de um modo uniforme, além de transformar o ensino religioso em leigo. Não tardou muito para que em 6 de maio a primeira escola profissional fosse aberta no local anteriormente ocupado pelos jesuítas. A 24 de maio, uma comissão feminina foi instituída com a responsabilidade de organizar e cuidar do ensino destinado às mulheres.

A Delegação de Ensino ainda solicitaria em 17 de maio, informações às municipalidades distritais acerca dos locais e estabelecimentos adequados à pronta instituição de escolas profissionais. Estas deveriam instruir os alunos não só profissionalmente, mas também lhes oferecer uma instrução científica e literária.

O fim prematuro da comuna impediu que essas propostas fossem levadas a cabo. No entanto, o resgate de uma proposta preocupada em garantir a instrução como um direito de todos naquela sociedade é só um exemplo que a história nos mostra acerca da importância de repensarmos as falhas produzidas por uma sociedade ao longo de sua construção. A eficácia da proposta de uma educação igualitária a todos os homens é, até nossos dias, um problema a ser resolvido e um desafio a ser conquistado por muitas sociedades.

CRONOLOGIA DA COMUNA DE PARIS

Noite de 17 para 18 de março: O general Leconte tenta apoderar-se dos canhões da guarda nacional. Ele ordena abrir fogo sobre quem resista. É feito prisioneiro
18 de março – as tropas e a população em armas se confraternizam. Os insurretos fuzilam os generais Lecomte e Clement Thomas.
19 de março – Thiers e o General Vinoy se refugiam em Versalhes, onde se reúne a Assembléia Nacional.
19 de março a 02 de abril – o Governo de Versalhes negocia com o comando Alemão a autorização para elevar de 40.000 para 80.000 e depois 100.000, o efetivo das tropas, destinadas a operar contra paris revoltada.
26 de março – Eleições para a Comuna de Paris.
31 de março – A Comuna "considerando que a sua bandeira é a da república universal, decide admitir estrangeiros em seu seio.
02 de Abril – Combates de Coubevoie e da avenida de Neully. Um decreto da Comuna decide a separação entre a igreja e o Estado.
07 de abril – A Comuna substitui a bandeira tricolor pela bandeira vermelha.
17 de abril – Decreto sobre a expropriação, em proveito das sociedades operárias, das oficinas abandonadas. Eleições complementares dos membros da Comuna.
18 de abril – Lei sobre os vencimentos. Três anos de moratória são concedidos aos devedores a fim de regular seus débitos.
01 de maio – formação do Comitê de Salvação Pública
06 de maio – decreto sobre a restituição gratuita dos objetos penhorados à caixa de penhores por 20 francos ou menos
10 de maio – Decreto sobre o seqüestro dos bens de Thiers e sobre a demolição de sua casa.
17 de maio Explosão da cartucheira da Avenida Rapp. Atribuída a agentes de Versalhes Mais de 100 vítimas.
21 de maio – Os versalheses entram pela porta de Saint Cloud.
23 de maio Tomada de Montmartre pelos versalheses; primeiros massacres dos federados.
24 de maio – Incêndios do palácio da Legião de Honra, do Tribunal de Contas, do Conselho de Estado, do Panteão e do Luxemburgo. Os federados respondem ao massacre sistemático dos seus, fuzilando 10 reféns.
o 25 de maio – Tomada do forte de Montrouge.
o 26 de maio – Tomada da Bastilha. Os federados fuzilam 34 reféns.
o 28 de maio – o massacre continua. É o fim da comuna

Bibliografia

LISSAGARAY, Hippolyte Prosper-Olivier. História da Comuna de 1871. São Paulo. Ensaio. 1991.
MARTINHO, F.C.P. Resistências ao capitalismo: plebeus operários e mulheres. In: Reis, Daniel; Ferreira, J. e Zenha Celeste (orgs). História do século XX. RJ: Record, 2003. 2ª ed., Vol.1.
BOITO, Armando Jr. (org.) A Comuna de Paris na História. SP: Xamâ. 2001.
COGGIOLA, Osvaldo. A Comuna de Paris, a escola e o ensino. IN,ORSO, P. J.; LERNER, F. ; BARSOTH,P. (orgs.), A Comuna de Paris de 1871: história e atualidade. Ed. Ícone, SP. 2002 – parte I I
DUNOIS, A. (et al). Textos, Documentos e uma análise sobre as repercussoes no Brasil. IN: A Comuna de Paris. Rio de Janeiro, Laemmert S.A, 1968 tradutor Octávio de Aguiar Abreu

O SIMBOLISMO DO 1º DE MAIO

Qual o significado do 1º de Maio nos dias atuais? Com certeza poucas pessoas têm consciência do significado histórico e simbólico desta data, encarando-a apenas como uma homenagem do Estado e da classe patronal aos trabalhadores de todo o mundo. Talvez esta visão esteja ligada ao fato de que hoje o trabalho se encontre regulamentado em leis ou tradições, que os trabalhadores atuais não tomaram parte e, portanto, não vivenciaram as lutas pela construção desses direitos encarando-os como algo natural. No entanto, esta é uma visão extremamente distorcida e propagada no imaginário do trabalhador como algo "dado", o que reflete total desconhecimento do rito histórico que deu origem ao simbolismo do 1º de Maio do qual trataremos a seguir.

A escolha do 1º de Maio como data fixa e simbólica para a realização de uma grande manifestação operária internacional, aconteceu no primeiro congresso realizado pela Associação dos Trabalhadores da Segunda Internacional em 1889 na cidade de Paris, onde ficou determinado que no ano seguinte (1890) se organizariam manifestações em prol da conquista da jornada de trabalho de oito horas diárias.

Este congresso contou com a participação dos membros de partidos e organizações socialistas, em sua maioria europeus. Entre as várias tendências que dele participaram, a mais influente era sem dúvida, a de orientação marxista.

A idéia para tal manifestação teve razões e precedentes: a realidade a que estavam submetidos os trabalhadores europeus, sujeitos a jornadas de 12 horas durante sete dias por semana, vivendo com baixos salários e em péssimas condições de saúde e habitação e a experiência do operariado nos EUA, com a qual o movimento operário se declarara amplamente solidário, haja vista ao incidente ocorrido na cidade de Chicago em maio de 1886, onde a reivindicação da jornada de oito horas, principal luta das lideranças americanas, resultaria num confronto com a polícia que deixaria o saldo de inúmeros trabalhadores mortos e a condenação à morte de sete lideranças do movimento.

Conflitos entre policiais e operários em Chicago, 1886. Os trabalhadores reivindicavam redução da jornada de trabalho

Mas a idéia de criação do 1º de Maio não se ateve somente a isso. Segundo a historiadora Michelle Perrot, o 1° de Maio adquiriria um caráter de rito – um rito operário, pois através da simultaneidade da manifestação que ocorreria no mesmo dia em diferentes lugares e sob reivindicações comuns, os socialistas procurariam dar vida a uma unidade política e cultural por meio daquilo que Perrot chama de "pedagogia da Festa". Logo, a manifestação implicava, de certa forma, em oferecer à classe operária a consciência de si mesma, chamando ao mesmo tempo a atenção do Estado e suas instâncias à aplicação das reformas sociais reivindicadas por ela.

Visto como uma "criação de cima" e, em particular da corrente marxista, o 1º de Maio de 1890 geraria polêmicas. Anarquistas, partidários de uma revolução social, viam-no como uma manifestação oriunda de uma decisão política de pessoas interessadas em tomar o poder e desfrutá-lo. No entanto, embora não fossem partidários da jornada de oito horas, menos prática do que uma revolução, os anarquistas acabariam por incorporar o 1° de Maio à sua maneira.

Às vésperas deste 1° de Maio, a elite encontrou-se apreensiva. Patrões temiam ameaças e pressões para o fechamento das fábricas e os administradores preocupavam-se com a manutenção da ordem pública.

Tais preocupações são compreensíveis segundo Michelle Perrot que, após analisar os diferentes mecanismos de comunicação que anunciavam o "grande dia" para os trabalhadores, observa que certos episódios se converteriam em rumores assustadores para patrões e autoridades. Um informante da polícia de Lyon escreveria: "Realmente tremo com o que vai acontecer no primeiro de maio".

Apesar da inquietude que provocou o 1° de Maio de 1890 – o primeiro de todos –, ele não foi uma revolução. A experiência proporcionada aos trabalhadores a partir de então, permitiria a construção de uma espécie de rito operário, praticado a cada ano como parte integrante da história de uma classe que ao longo de suas lutas colheria seus direitos, os quais em muitos países ganhariam códigos de trabalho e espaço garantido em Constituições.

Todavia, direitos podem avançar ou recuar com o passar do tempo e com as pressões de grupos sociais organizados, fator este que suscita a necessidade de manter viva uma memória social. O dia do trabalhador (e não do trabalho!) é um bom exemplo disso.

No Brasil, e em boa parte do mundo, vivemos hoje um retrocesso acentuado das conquistas dos trabalhadores do passado. As políticas de Arrocho Salarial, que vem sendo implementadas por vários governos, tornam a vida da classe trabalhadora difícil e restrita. Através de um discurso neoliberal, empresários e governos em nome da competitividade do mundo globalizado tentam de todos os meios à supressão de direitos trabalhista conquistados ao longo da história propondo uma flexibilização da legislação trabalhistas que, segundo eles, garantiria mais emprego.

É, pois, em virtude dessa realidade, que coloca o trabalhador diante de organizações sindicais enfraquecidas e do perigo do desemprego, que se faz necessário a reflexão dessa classe em torno de suas causas, seus direitos e sua história. Repensar o simbolismo do 1°de Maio em sua essência é estar atento a uma dura trajetória de conquista de direitos, bem como à ampliação de novas demandas.

BIBLIOGRAFIA

PERROT, Michelle. O Primeiro Primeiro de Maio na França(1890): Nascimento de um rito operário. In. Os excluídos da História: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988 – 2º edição.
ROIO, José Luis Del. Cem anos de Luta (1886-1986). Ed. Global/Obore, São Paulo, 1986.
RUDE, George. A Multidão na História. Estudos dos movimentos populares na França e na Inglaterra. Rio de Janeiro, Campus, 1991.
MARTINHO, F.C.P. Resistências ao capitalismo: plebeus, operários e mulheres. In: REIS, Daniel; FERREIRA, J. e Zenha Celeste (orgs) História do Século XX. RJ: Record, 2003 (2ª edição), volume 1.
PAMPLONA, Marco. A era da máquina e o advento da cultura de massa. In: Revendo o Sonho Americano: 1890-1972. SP: Atual (Discutindo a História). 1995.
Núcleo de Estudos Contemporâneos - UFF

Revolução Francesa – o Terror

Pablo Santana, Krístian Amazonas, e Felipe Garcia Gomes
1. A Revolução Francesa e o Terror

De uma forma genérica, a Revolução Francesa se enquadra no perfil das Revoluções burguesas, criticando o absolutismo, o mercantilismo e os privilégios da nobreza e do clero. Estes eram os pilares do Antigo Regime e a Revolução Francesa, por tê-los colocado em xeque de forma mais contundente, é tida, por muitos historiadores, como o marco inicial da Idade Contemporânea. A Revolução é um movimento político muito heterogêneo, com muitas fases e que normalmente tem por limites a tomada da Bastilha em 1789 e a chegada de Napoleão ao poder com o golpe do 18 Brumário em 1799. Aqui vamos tratar do período mais polêmico desta Revolução Francesa, conhecido como o Terror (setembro 1793 a julho de 1794).

A palavra Terror corresponde a dois conceitos diferentes. O primeiro sentido seria, de acordo com François Furet, o de uma reivindicação popular pelo uso da violência contra os inimigos da Revolução. Desta forma, a Comuna Insurrecional de Paris ou os massacres de Setembro de 1792 que mataram 1100 pessoas em cinco dias estariam dentro desse conceito mais abrangente de Terror. O segundo conceito de Terror, ainda para Furet, significa a organização sistemática e a institucionalização de um conjunto de instituições repressivas – lei dos suspeitos, Tribunal Revolucionário entre outras – sob a ditadura do Comitê de Salvação Pública – órgão executivo que controlava as decisões governamentais – e do Comitê de Segurança Geral – órgão que controlava a polícia. Já Albert Soboul acredita que esta institucionalização do Terror deve também abranger a economia dirigida com o racionamento e a lei do máximo Geral, ou seja, a fixação de um teto máximo para os produtos de primeira necessidade.

O Terror foi efetivamente colocado em prática em setembro de 1793 e legitimado pelo temor e perigo causados tanto pela coalizão externa que declara guerra à França quanto pela contra-revolução interna, liderada pelos padres refratários e pelos monarquistas. Diante de tantas adversidades, para concentrar o esforço de guerra, os jacobinos – que tinham tomado o poder aos girondinos desde junho de 1793 – acreditavam que a única forma de salvar a Revolução era suspender a Constituição do ano II, conceder maior poder ao Comitê de Salvação Pública e impor o Terror.

No entanto, nem todos concordavam com as medidas tomadas a partir de setembro de 1793 pelo Comitê de Salvação Pública, mesmo se as divergências eram muito diferentes. A verdade é que nesta época, a França e, principalmente, Paris viviam uma efervescência política muito grande. Os enragés (enraveicidos), por exemplo, vivendo em Paris, numa cidade que sofria os males da crise econômica, propunham a taxação (chamada maximum) e a suspensão da especulação monetária, tinham e muito prestígio perante os sans-cullotes. Em setembro de 1793 foram para a guilhotina. Além deles, havia mais dois outros grupos que descordavam das medidas adotadas pelo Comitê de Salvação Pública: os indulgentes e os hebertistas. Se por um lado os indulgentes, liderados por Danton, achavam as medidas enérgicas e autoritárias demais, por outro, os hebertistas, liderados por Hébert, consideravam que elas ficavam aquém do necessário para salvar a Revolução. Robespierre acreditava que as divergências enfraqueciam a Revolução. Como muitos antes e depois, estas duas facções também acabaram sendo guilhotinadas: os Hebertistas em janeiro e os Indulgentes em março de 1794.

Esta foi a lógica adotada pelo Comitê de Salvação Pública e seus dois principais líderes: Saint-Just e Robespierre. Maximilien de Robespierre nasceu no seio de uma família da nobreza, se formou advogado em 1781 e foi fortemente influenciado pela literatura de Rousseau. Em 1789 foi eleito deputado pelo Terceiro Estado, teve uma importante participação na execução do "cidadão Luís Capeto" – Luís XVI – com papel de destaque na acusação do antigo rei. A importância de Robespierre foi tamanha que o historiador Patrice Gueniffey chega a dizer que "A morte de Robespierre foi também a morte da Revolução". Ele era o principal líder do governo revolucionário e uma das figuras mais populares entre os sans-cullotes devido a suas posições radicais em relação às questões de ordem política, moral, religiosa e, principalmente, em relação às questões acerca do direito da subsistência do povo. Já Louis Antoine de Saint-Just também foi um dos maiores nomes do Terror, o líder mais novo (26 anos) e um dos mais radicais. Saint-Just nasceu em uma família camponesa e foi fortemente marcado pela injustiça social que sofria a massa rural. Influenciado por um sentimento de indignação, iniciou-se na política, chegando a ser deputado à Convenção. Escolhido para o Comitê de Salvação Pública, propôs algumas das medidas mais violentas contra os inimigos da Revolução. Uma delas foi, em 10 de junho de 1794, o alargamento do conceito de suspeito que suprimiu a defesa e o interrogatório prévio dos acusados e gerou o Grande Terror – 1376 pessoas guilhotinadas em 6 semanas.

Com a liquidação das facções inimigas, que segundo as palavras de Robespierre só serviam para agitar a Revolução, a ditadura do governo revolucionário não foi mais contestada. No entanto, de acordo com Soboul, esta liquidação gerou um grande medo que paralisou a vida política seccionária – as seções eram organizações políticas dos sans culottes que apoiavam os jacobinos – e fez com que a base social da revolução se dissolvesse. Para este historiador, contudo, o Terror foi um instrumento de defesa nacional e revolucionária. Restaurou a autoridade do Estado e, ao impor a economia dirigida, permitiu alimentar os exércitos da República, sendo um fator fundamental para a vitória contra a coligação externa e a contra-revolução interna. Já François Furet acredita que neste tipo de análise há uma transparência entre a vontade dos atores e a explicação historiográfica. Assim como os revolucionários acreditavam que o Terror era a única solução para aquelas circunstâncias dadas os historiadores acabam achando o mesmo. Furet atribui isso, em grande parte, à identificação política dos historiadores com o tema da Revolução Francesa, algo que impossibilitaria a distância intelectual necessária para o ofício do historiador. Para Jules Michelet, responsável pela introdução de uma idéia republicana de história, o povo anônimo, aquele que o próprio Robespierre mobilizou, agia como força motriz e impessoal das transformações, pouco importando o radicalismo que elas circunstancialmente continham.

O Terror teve fim em 28 de julho de 1794 (10 Termidor) quando Robespierre foi guilhotinado junto com Saint-Just e outros correligionários.

2. Bibliografia

ROBESPIERRE, Maximilien de. Discursos e relatórios na Convenção. Trad: Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro, UERJ: Contraponto, 1999.
BLUCHE, Frédéric, RIALS, Stéphane e TULARD, Jean. A Revolução Francesa. Tradução: Lucy Magalhães. Rio de janeiro, Jorge Zahar Editor, 1989.
FURET, François."O Terror"; GUENIFFEY, Patrice."Robespierre"; RICHET, Denis."Enragés" In: Dicionário crítico da Revolução Francesa. FURET, François e OZOUF, Mona (org). Trad: Henrique Mesquita. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1989.
FURET, François. Pensando a Revolução. São Paulo: Paz e Terra, 1989.
SAINT-JUST, Louis Antoine de. O Espírito da Revolução e da constituição na França. Trad: Lídia Fachin e Maria Letícia G. Alcoforado. São Paulo: Editora Universidade Estadual Paulista, 1989.
SOBOUL, Albert. História da Revolução Francesa. Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1974.
HOBSBAWN, Eric. Ecos da Marselhesa: dois séculos revêem a Revolução Francesa, São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
3. Cronologia

14/07/1789 – Tomada da Bastilha.
21, 22/9/1792 – Assembléia Legislativa é substituída pela Convenção Nacional e a República é proclamada.
março/1793 – Instituído o Tribunal Revolucionário, encarregado do julgamento dos contra-revolucionários.
2/06/1793 – Os deputados girondinos são presos e os jacobinos assumem a liderança da revolução.
24/06/1793 – É promulgada a Constituição de 1793.
10/07/1793 – Robespierre passa a dirigir o Comitê de Salvação Pública, substituindo Danton.
setembro/1793 – Inicia-se o período do Terror.
10/06/1794 (22 prairial) – Começo do grande Terror que vai matar 1376 pessoas em 6 semanas
27 e 28/07/1794 – O golpe do 9 Termidor, Robespierre é declarado "fora da lei" pela Convenção e é preso. No 10 Termidor, Robespierre, Saint-Just e outros dos seus correligionários são guilhotinados. É o fim do Terror.
4. Textos de época

CITAÇÕES DE DISCURSOS DE MAXIMILIEN ROBESPIERRE

"... Não é necessário que eu possa comprar brilhantes tecidos, mas é preciso que eu seja suficientemente rico para comprar o pão, para mim e para meus filhos. O negociante pode bem guardar em seus entrepostos as mercadorias que o luxo e a vaidade cobiçam, até encontrar o momento de vendê-las ao mais alto preço possível; mas nenhum homem tem o direito de acumular montes de trigo ao lado de seu semelhante que morre de fome." (Sobre a subsistência - 02 de dezembro de 1792)

"Os alimentos necessários ao homem são tão sagrados quanto a própria vida. Tudo o que é indispensável para conservá-la é uma propriedade comum à sociedade inteira. Só o excedente pode ser uma propriedade individual, e pode ser abandonado à indústria dos comerciantes. Toda especulação mercantil que faço a expensas da vida de meu semelhante não é um tráfico, é uma pilhagem e um fratricídio." (Sobre a subsistência - 02 de dezembro de 1792)

"A dupla tarefa dos moderados e dos falsos revolucionários é a de nos agitar perpetuamente entre esses dois escolhos." (Sobre os princípios de moral política que devem guiar a Convenção Nacional na administração interna da República - 05 de fevereiro de 1794)

"O governo revolucionário merece toda a vossa atenção; se ele for destruído hoje, amanhã a liberdade não mais existirá..." (Último discurso - 26 de junho de 1794 - 8 TERMIDOR)

5. Ilustrações

O guilhotinamento de Luís XVI – 21/01/1793

Maximilien Robespierre, 1758-1794

http://www.historyguide.org/intellect/robespierre.html

A Queda da Bastilha

http://www.historyguide.org/intellect/robespierre.html

Eugène Delacroix

"La Liberté guidant le Peuple" - 1830

Huile surt toile 260 x 325 cm

Musée du Louvre Paris

6. Filmes

- Danton, O processo da Revolução (1982), dirigido por Andrzej Wajda.

- Casanova e a Revolução (1982), dirigido por Ettore Scola.
Núcleo de Estudos Contemporâneos - UFF

...Palácio de Versalhes


...Palácio de Versalhes
por Barbara Soalheiro
Um mundo à parte: assim é Versalhes no final do século I8. Além do enorme palácio real, o local é composto por prédios anexos que abrigam toda a corte e servem de sede do governo. A 23 quilômetros de Paris e alheios à vida miserável da maioria dos franceses, os nobres vivem uma rotina de futilidades financiada pelos impostos cobrados da população. As 10 mil pessoas instaladas aqui (quase 3 mil membros da nobreza e, de resto, empregados e funcionários) gastam 6% de toda a arrecadação francesa. Quase todo o resto é consumido por dívidas militares e sobra muito pouco para os outros 19 milhões de franceses espalhados pelo país. Desinteressado de seu papel de governante, Luís XVI se mantém distante das atividades políticas.

A rainha, Maria Antonieta, distrai a corte com boa música, jogos e festas caríssimas que arrastam o país ao extremo da irresponsabilidade administrativa. Um dia na história do Palácio de Versalhes é suficiente para entender os motivos da revolução que viria em 1789, levaria os reis à guilhotina e poria fim à monarquia absolutista.

Saiba mais
www.chateauversailles.fr

OUI MADAME, NON MONSIEUR

Os empregados da corte vêm de famílias pobres e têm, entre outras obrigações, que recolher penicos e escarradeiras e despejar o conteúdo nas fossas do lado de fora do palácio. Mas trabalhar no palácio tem suas vantagens: a comida é farta e é possível subir posições dependendo do talento ou de favores. Em dias de festas, sem a presença de lacaios, os nobres urinam atrás das cortinas dos salões

CABEÇAS COROADAS

Grandes festas acontecem pelo menos três vezes por semana. Algumas duram dias e têm óperas e jogos nos jardins. Há também recepções mais íntimas, organizadas no Petit Trianon, a residência particular da rainha. Para se ter uma idéia, só os gastos ali somam 1 milhão de libras por ano. O rei raramente participa desses embalos. Ele leva uma vida quase reclusa em seus aposentos, com amigos, amantes e gatos

PEGA LADRÃO

Apesar da numerosa guarda real, é comum haver larápios e batedores de carteira infiltrados nas festas. Relógios, moedas e objetos valiosos somem com freqüência, até dentro dos aposentos do rei. Também ficam cada vez mais constantes as visitas de indigentes ao palácio. É uma massa faminta e indignada com a boa vida da nobreza que, um dia, fará eclodir uma revolução

PARADA DE SUCESSO

As artes recebem grandes incentivos da corte. Mozart e Salieri se apresentam em concertos semanais. Peças de teatro são financiadas pela rainha (quase 1200 foram encenadas nos 19 anos de reinado) e mais de 20 mil obras entre pinturas, desenhos e esculturas estão expostas no palácio. Pensadores e intelectuais também são respeitados e se tornam assuntos nas rodinhas. Trata-se de gente como Diderot, Rousseau e Robespierre

DIETA JÁ

Comer é uma festa. Aqui, um almocinho simples envolve dezenas de empregados, cerca de 40 bocas para alimentar. São pelo menos sete opções de pratos para cada um dos serviços: entradas, sopas, carnes, assados, vegetais e legumes, sobremesas, cafés, licores. Os pratos impressionam o paladar e os olhos. Num único dia, são consumidos 60 gansos, além de dezenas de peixes e outras aves em quantidade ainda superior

VERDE PARA POUCOS

Passear pelos canteiros dispostos em formas geométricas é uma das atividades mais comuns e prazerosas por aqui. O próprio rei Luís XVI costuma caminhar de 4 a 8 quilômetros entre os 132 quilômetros de ruelas ladeadas por árvores frutíferas. Para manter esse verde todo, além dos canais, lagos e fontes são necessários 3600 metros cúbicos de água por hora. Enquanto isso, apenas algumas dezenas de casas têm água em Paris

CUSTO DE VIDA

Manter-se em Versalhes é caríssimo: é preciso vestir-se de maneira luxuosa, ter dinheiro para os jogos de cartas, para as carruagens e os cabeleireiros. Enquanto uma família burguesa de vida mediana gasta 15 mil libras por ano, uma duquesa gasta a mesma quantia em um único vestido, bordado a ouro. Os burgueses – que negociam os tais tecidos – estão enriquecendo à custa dos caros hábitos da nobreza

CONSPIRAÇÃO

A pouca afinidade do rei Luís XVI com a política abre espaço a facções políticas afeitas a todo tipo de corrupção e intriga, as chamadas coteries. A convivência tão próxima de grupos divergentes cria um clima cínico nos salões, onde as conspirações são comuns e gestos e olhares estão sempre carregados de segundas intenções

Revista Aventuras na História

Literatura engajada

Louis-Ferdinand Céline
Literatura engajada
Grandes escritores sempre lutaram por justiça, igualdade e liberdade, certo? Nem todos. Alguns dos maiores nomes da literatura do século 20 abraçaram a causa errada e escolheram o lado escuro da força
por Leandro Sarmatz
O francês Louis-Ferdinand Céline, um dos maiores mestres do romance contemporâneo, era nazista. O americano Ezra Pound, modernista que redefiniu o conceito de poesia, era fascista. Jorge Luis Borges, o primeiro latino-americano a influenciar europeus e americanos, apoiou ditaduras militares em seu país, a Argentina, e no Chile do general Pinochet. Jorge Amado, durante décadas o principal nome da literatura brasileira, louvou o sanguinário líder soviético Josef Stálin (e antes disso foi redator do jornal nazista Meio-Dia).

Estranho? Para a maioria das pessoas, escritores são caras com mentes privilegiadas e cadeira cativa na Liga da Justiça. Em seus livros defendem minorias, invocam os princípios democráticos e lutam – com unhas, dentes e estilo – pela liberdade de expressão. Mas no turbulento século 20, em que as idéias estavam em ebulição, muitos deles foram colocados à prova. Alguns passaram no teste com galhardia, seguindo o exemplo do francês Émile Zola, que tomou o partido do capitão Dreyfuss em meio a uma conspiração anti-semita na França no século 19. Gente como o dramaturgo irlandês Samuel Beckett, que conjurou contra a ocupação nazista em Paris durante a Segunda Guerra. Ou o filósofo Jean-Paul Sartre, que pregou o fim do colonialismo europeu na África, nos anos 60. Causas justíssimas das quais ninguém teria coragem (ou cara-de-pau) de subtrair uma vírgula.

Mas há outros cujas escolhas políticas e ideológicas parecem contradizer a noção do escritor como “campeão da justiça”. E abraçaram causas equivocadas e infames. Deram apoio a duvidosos líderes políticos. Justificaram regimes genocidas e ajudaram a sustentar estados autoritários. Foram, sob certo ponto de vista, escroques consumados.

Como artistas cuja sensibilidade e percepção da vida alcançaram níveis estratosféricos em suas obras conseguiram mergulhar tão baixo no lodaçal do racismo, da opressão, da injustiça e da legitimação do assassinato estatal? Por que eles ao menos não ficaram quietinhos em suas escrivaninhas, produzindo as obras-primas que o mundo esperava deles? Não há resposta. Até porque, pelo menos nas obras desses autores, não há evidências dessas escolhas temerárias.

Às vésperas da Segunda Guerra (1939-1945) e do plano nazista da “Solução Final” – que condenou à morte judeus, ciganos, homossexuais e deficientes físicos e mentais –, o francês Louis-Ferdinand Céline (1894-1961) exalava a pestilência do racismo em seus escritos. Autor de Viagem ao Fim da Noite, um dos romances mais influentes da história das letras, Céline publicou Bagatelas por um Massacre (1937) e Os Belos Trapos (1938), dois panfletos que estão entre os textos mais odiosos da história. Sem cerimônia, o escritor chama os judeus de “esterco” e “lixo a ser varrido do chão da história”. Em 1943, no auge do genocídio na Europa, Céline reeditou o primeiro texto acrescido de fotografias. Era sua declaração de apoio ao holocausto.

Médico de formação (e bom médico, que tratava com zelo a população pobre de sua vizinhança), Céline apoiou o trabalho sujo dos invasores nazistas e fez parte do grupo de franceses que aplaudiu Hitler e os campos de concentração. Preso na Dinamarca, após a guerra, só pôde voltar à França em 1951, onde morreria esquecido dez anos depois.

Ezra Pound (1885-1972) não conheceu um único dia de sossego em vida. Celebrado como um dos poetas mais importantes do modernismo em língua inglesa, fez parte da “geração perdida” – aquele grupo de artistas americanos que ajudou a sacudir a Europa depois da Primeira Guerra –, trocando figurinhas com Ernest Hemingway e com o irlandês James Joyce.

Ele estava em Roma quando subiu ao poder o ditador fascista Benito Mussolini e ficou fascinado pelos ideais de ordem e autoridade do fascismo. Pound colaborou, no início da Segunda Guerra, com revistas anti-semitas da Itália e do Japão. Fez mais. Entre janeiro de 1941 e julho de 1943, fez um bico como locutor radiofônico para o governo de Mussolini. Durante os sete minutos de transmissão (pelos quais recebia 17 dólares), Pound amaldiçoava os judeus e louvava Il Duce e o Führer. Dizia coisas pavorosas, alimentando o ódio racial e conclamando os italianos à destruição das raízes judaicas da Europa.

No pós-guerra, Pound comeria a pizza que o diabo amassou. No final de abril de 1945, foi preso em casa por dois soldados da resistência italiana e encaminhado para Gênova, onde seria interrogado pelas autoridades americanas, que o haviam indiciado por traição em 1943. Firme em suas convicções, comparou Hitler à mártir francesa Joana D’Arc. Após os interrogatórios, foi encaminhado ao campo de prisioneiros de Pisa. Encarcerado numa jaula de 3 metros quadrados, sob o sol e ao relento, Pound virou um fiapo de gente e teve que ser encaminhado para um sanatório, depois para um hospital nos Estados Unidos. Libertado no final dos anos 50, nunca mais faria grandes livros.

Com antepassados entre oficiais que ajudaram a tornar a Argentina independente, Jorge Luis Borges (1899-1986) acreditava ter motivos sólidos para apoiar os militares quando estes tomaram o poder em 1976. Além do amor livresco pelos relatos de grandes batalhas nos clássicos gregos, nas sagas escandinavas e até mesmo em Os Sertões, de Euclides da Cunha (de quem era fã), Borges odiava os líderes populistas como Juan Domingo Perón, que rebaixou o então funcionário da biblioteca pública Miguel Cané a mero fiscal de coelhos e galináceos do mercado municipal de Buenos Aires nos anos 40. Humilhação que calou fundo no coração do escritor.

Mas foi durante a década de 70 que Borges – já reconhecido mundialmente por livros como Ficções e O Aleph e saudado como um dos mestres do conto moderno – despertou o ódio da esquerda e provocou estupor em seus leitores quando, além de elogiar a quartelada em seu país, foi ao Chile receber, das mãos do sanguinário general Augusto Pinochet, um prêmio por sua contribuição à literatura. Perto de outros autores que flertaram com o Mal, porém, Borges é um amador. Grande parte de seus admiradores perdoou-lhe ainda em vida a adesão à caserna, por se tratar mais de reação à humilhação do passado que convicção política.

“Convicção” e “política”, aliás, eram palavras corriqueiras no vocabulário do baiano Jorge Amado (1912-2001). Comunista convicto e, mais que isso, stalinista, o criador de Dona Flor e seus Dois Maridos e de outros retratos apimentados da vida na Bahia tinha verdadeiro fascínio pela figura do ditador soviético Josef Stálin (1879-1953) – um tirano feroz que condenou à morte milhões de pessoas e aprisionou, torturou e fez desaparecer centenas de escritores e artistas de seu país. Num de seus livros, Jorge Amado chamou Stálin de “sábio dirigente dos povos do mundo na luta pela felicidade do homem sobre a Terra”. Uau!

Tem como piorar? Em 1940, quando Stálin surpreendeu meio mundo ao firmar com Hitler um pacto de não-agressão, deixando assim a Polônia nas mãos dos nazistas, o Partido Comunista Brasileiro designou Jorge Amado para a direção do jornal nazista Meio-Dia. Em pleno país tropical, com toda nossa mistura de raças, nosso dengo e nosso ziriguidum, o pai de Gabriela, Cravo e Canela tocava um jornal que estampava louvações ao líder nazista e propagandeava a vida sob os coturnos do III Reich. A seu favor, Jorge Amado abandonaria a militância no PCB em 1955, depois da morte de Stálin e quando começaram a transpirar as muitas evidências da sanha homicida e dos desmandos truculentos do líder da antiga União Soviética. Pulou do barco a tempo.

Tão paradoxal quanto Jorge Amado, o cronista e dramaturgo Nelson Rodrigues (1912-1980) era mesmo um oceano de contradições. Criador do teatro brasileiro moderno a partir de Vestido de Noiva (1943) e com várias peças censuradas por causa de seus personagens imersos numa espiral de desejo, culpa e vingança, Nelson pessoalmente era careta, moralista e conservador. Até aí, nada de mais: o artista não precisa ser uma cópia de sua obra. Mas a porca torceu o rabo a partir de 1964, quando ele começou a ridicularizar a esquerda e a louvar os presidentes militares (principalmente Médici, que gostava e entendia de futebol, assunto maioral na obra de Nelson) em crônicas que até hoje encantam pelo estilo fulgurante e pelo ponto de vista sempre original.

Nelson viveu um doce namoro com a turma verde-oliva de Brasília até 1979, quando descobriu que seu filho (também chamado Nelson), preso como milhares de outros jovens brasileiros, tinha sido torturado na prisão. Abalado com a evidência tão próxima e brutal de algo que sempre negara em suas crônicas, Nelson pai catou milho e datilografou, em junho de 1979, uma carta ao presidente João Baptista Figueiredo, o último general no Alvorada. Emocionada e franca, a carta (publicada no Jornal do Brasil) é um apelo à anistia, que viria no fim daquele mesmo ano e que ajudaria a começar a ruir as fundações do regime autoritário no Brasil. Nelson morreria um ano e meio depois, com sua obra teatral louvada por leitores de todas as colorações políticas.

Saiba mais
Livros

Os Intelectuais e as Massas, John Carey, Ars Poética, 1993 - Sobre os escritores britânicos que se recusaram a simpatizar com as multidões – reação que, em muitos casos, redundou em fascismo

Cahier de L’Herne: Céline, vários autores, Le Livre de Poche, 1972 - Textos variados sobre Céline (até de Leon Trotski – esquerdista e judeu, mas grande fã do autor)

Antiborges, vários autores, Javier Vergara Editor, 1999 - Reúne textos contra Jorge Luis Borges escritos por diversos intelectuais ao longo do século 20

Ezra Pound, Peter Ackroyd, Jorge Zahar, 1991 - A melhor introdução à vida e obra do poeta disponível no Brasil

Extraterritorial, George Steiner, Companhia das Letras, 1990 - Vã tentativa de entender as razões que levaram escritores franceses a apoiar os invasores nazistas

Na Fogueira, Joel Silveira, Mauad, 1998 - As memórias do jornalista brasileiro trazem muitas histórias sobre escritores brasileiros do século 20

Revista Aventuras na História

Louvre, em Paris


Louvre, em Paris
por Mariana Baboni
Eis um dos principais museus do mundo tanto em tamanho como em importância. Além de abrigar uma coleção de arte com cerca de 29 mil obras, o Louvre traduz 800 anos da história francesa. Foi construído no fim do século 12 como uma fortaleza medieval para proteger Paris, então liderada pelo rei Filipe Augusto (1165-1223). No século 16, o rei Francisco I (1494-1547) decidiu destruir a grande torre da fortaleza, ampliar o prédio e transformá-lo em um palácio, que serviu de moradia a reis e rainhas durante o Renascimento. Em 1678, o monarca Luís XIV mudou sua residência para Versalhes. À beira do rio Sena, o Louvre perdeu um pouco de seu prestígio.

A idéia de transformá-lo em museu foi de Luís XVI, mas, ironicamente, foi a Revolução Francesa que abriu suas portas à visitação, em 1793. Seu acervo vem principalmente de obras confiscadas dos nobres e reis franceses. Essa mudança das obras dos quartos dos reis para um museu, onde são vistas por todos, representa um marco dos ideais iluministas de igualdade do saber. Grande parte do butim das explorações arqueológicas da França colonialista também se encontra ali, como a coleção de antiguidades orientais e egípcias.

Em 1981, foi incluída uma imensa pirâmide de vidro no pátio central, que se tornou mais uma atração para os cerca de 5 milhões de visitantes por ano. Eles têm diante de si um acervo tão grande que, se cada um gastasse 30 segundos na frente de cada obra, levaria três meses para conhecer todas as peças.

Dos reis para o povo
Vinte atrações imperdíveis no museu do iluminismo
1. Retrato da Condessa Del Carpio – Goya

Pintor oficial do rei e membro da Real Academia de São Fernando de Madri, Goya é, a partir de 1780, o retratista da moda na corte espanhola. Em seus quadros, os modelos aparecem em poses convencionais mas muito elegantes, como “La Solana”, uma aristocrata letrada que escrevia peças de teatro

2. A Bela Jardineira – Rafael

Uma das mais célebres Madonas do período em que Rafael viveu em Florença, o quadro de 1507 é cheio de simbolismos religiosos: a camponesa é Maria, a criança, Jesus, e o terceiro personagem, São João Batista. A obra é parte da rica coleção italiana do Louvre, que reúne 800 telas de mestres como Giotto, Fra Angélico, Veronese e Ticiano

3. Mona Lisa – Leonardo da Vinci

Quadro mais famoso do mundo, a Mona Lisa, pintada entre 1503 e 1506, é protegida por um vidro e provoca filas e muitas cotoveladas no museu. Isso porque ninguém deixa o Louvre sem apreciar a pequena tela de 77 por 53 centímetros, mesmo que por poucos minutos. Conhecida como La Gioconda, era mulher do nobre florentino Francesco del Giocondo, que encomendou o quadro. Exemplo da arte renascentista, a tela já pertenceu a Napoleão Bonaparte

4. Touro Alado da Assíria

Famosos pelo talento guerreiro, os assírios também se destacaram pela habilidade na construção de grandes cidades no norte da Mesopotâmia. Os gigantescos Touros Alados enfeitaram os portões do palácio de Sargão II, em Khorsabad, no século 7 a.C. Foram esculpidos com cinco pernas, parecendo correr quando vistos de lado e parados quando observados de frente

5. Relíquias da Majestade

A ampla coleção de objetos de arte do Louvre inclui mais de 8 mil peças, entre móveis, tapeçarias, louças e jóias, da Idade Média ao século 19. Grande parte dos tesouros confiscados da nobreza durante a revolução de 1789 se encontra em suas galerias. Entre eles o ilustre vaso em forma de águia que pertenceu a Suger, abade de Saint Denis, e conselheiro dos reis Luís VI e Luís VII. Suger enriqueceu a Abadia de Saint Denis, onde os reis da França eram coroados, colecionando vasos preciosos adornados de ouro e prata

6. Cristo na Cruz – Greco

Muitas das obras-primas da coleção espanhola do Louvre são trágicas como esta, composta entre 1585 e 1590. As cenas religiosas com as célebres figuras alongadas e atormentadas de El Greco, objetos de muita polêmica, revelam a grande expressividade e o estilo espirituoso do pintor

7. Vênus de Milo

Esculpida em mármore pelos gregos 100 anos antes de Cristo, a Vênus de Milo é a estátua de mulher mais famosa da história antiga. Em 1820, foi encontrada na ilha de Milo, na Grécia, e levada para o Louvre. Mesmo sem os braços, transformou-se no símbolo da beleza e feminilidade na Europa

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www.louvre.fr

Arte e história
Cinco mil anos de símbolos no mesmo lugar
8. Túmulo de Phillipe Pot – Antoine Le Moiturier

Com seus oito carregadores encapuzados, o Túmulo de Phillipe Pot, um alto funcionário francês do século 15, é uma das peças mais curiosas da coleção de esculturas. Essa coleção inclui obras dos mais diversos estilos, temas e épocas, da Idade Média aos tempos modernos. O cortejo funerário e seu figurino evocam as grandiosas procissões medievais

9. Coleção Francesa

Conservatório da pintura francesa, o Louvre possui um acervo com cerca de 1500 obras, que vão do fim do século 13 até meados do século 19. Com formatos e gêneros muito diferentes – de pequenos quadros a telas monumentais –, a coleção revela o trabalho de mestres como David, Géricault, Gros e Delacroix. As melancólicas obras de Jean-Antonine Watteau também estão representadas, como o enigmático Gilles, pintado entre 1718 e 1719. Trata-se de um pierrô insólito e pensativo que se destaca num cenário arbóreo e teatral

10. O Livro dos Mortos

Grande parte da arte egípcia era produzida para os mortos, que levavam consigo tudo de que poderiam precisar na outra vida, incluindo tesouros e imagens da vida em família. No Livro dos Mortos do Escriba Nebqed, escrito entre 1391 e 1353 a.C. em rolos de papiro, com ilustrações, é possível acompanhar as etapas das cerimônias funerárias da época

11. Rendeira – Vermeer

Nesta pintura de 1665, Johanes Veermer expõe o cotidiano doméstico da Holanda do século 17. O formato reduzido da tela, seu enquadramento e o fundo neutro concentram a atenção do espectador sobre os gestos da rendeira. E representam uma obra típica do estilo simples e compassado do pintor holandês

12. Pedra do Código de Hamurábi

O primeiro código de leis de que se tem notícia foi esculpido cerca de 1800 a.C., por ordem de Hamurábi, rei da Babilônia. São 3,5 mil linhas de texto cuneiforme com sentenças para casos como rapto e adultério. As leis são curiosas: “Se uma casa cair e matar o proprietário, o pedreiro é morto. Se um filho do proprietário morrer, um filho do pedreiro será morto”

13. A Liberdade Conduzindo o Povo – Delacroix

Um dos principais representantes do romantismo, Delacroix pintou este quadro para celebrar a revolução de 1830, que derrubou o rei Carlos X, instaurando a monarquia parlamentar de Luís Filipe. Diz-se que a imagem foi inspirada numa mulher que matou com as próprias mãos vários soldados do governo

14. Sarcófago dos Esposos

Obra da coleção dos etruscos (povo que viveu na atual Itália até o século 5), este sarcófago, feito em terracota entre 520 e 510 apresenta a composição harmoniosa de um terno casal enlaçado em posição de banquete. A mulher recebe o mesmo destaque que o marido, e ambos têm o sorriso discreto e enigmático visto em muitas obras funerárias etruscas

15. Morte de Uma Virgem – Caravaggio

Perito tanto no pincel como na espada, Caravaggio foi um homem social e artisticamente rebelde. Seu comportamento anticristão não impediu que trabalhasse para a Igreja, renovando a pintura sacra. Esta tela, criada entre 1605 e 1606, foi recusada por introduzir um cotidiano humilde às figuras sagradas

16. Escravos Morrendo – Michelangelo

Produzidas entre 1513 e 1520, estes dois escravos são as mais visitadas esculturas do Louvre, apesar de inacabadas. As obras foram encomendadas para o grandioso túmulo do papa Júlio II (1443-1513), que nunca foi concluído. O pontífice pediu que o artista se ocupasse da decoração da Capela Sistina no mesmo período

17. Betsabé no Banho – Rembrandt

Esta tela de Rembrandt é um dos episódios mais retratados pelos pintores barrocos. De 1654, ela mostra o banho de Betsabá, que, segundo a Bíblia, encantou o rei Davi. Casada, ela seduziu o monarca e ficou conhecida como uma das primeiras adúlteras da história. A genialidade está na liberdade em relação à iconografia tradicional: Davi está presente apenas por meio da carta que Betsabá segura

18. Ruínas da Fortaleza

Encontradas sob as fundações do Louvre durante as escavações para a construção da pirâmide de vidro, as ruínas são os alicerces da imponente torre do castelo medieval que o rei Filipe Augusto, primeiro da dinastia dos Capetos, construiu no final do século 12, para proteger Paris. Os trabalhos arqueológicos permitem reconhecer as fases dos 800 anos de ocupação

19. A Apoteose de Henrique IV e a Proclamação da Regência de Maria de Médici – Rubens

Muitos quadros do Louvre ocupam paredes inteiras, como este, encomendado pela megalomaníaca italiana Maria de Médici, esposa do rei francês Henrique IV. Com mais de 7 metros de largura, a tela é uma das 24 imagens épicas em homenagem à rainha, que assumiu o trono em 1610, após o trágico assassinato do marido

20. Escriba Sentado

A coleção egípcia do Louvre é uma das mais completas do mundo. São aproximadamente 5 mil obras, datadas de 4000 a.C. até o início da era cristã. Uma delas é a estátua do Escriba Sentado, criada entre 2600 e 2350 a.C. e achada em Saqqara em condições excepcionais. É pena que grande parte das peças seja fruto dos saques contínuos sofridos pela civilização do Nilo

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Um por todos e todos por... D·Artagnan


Um por todos e todos por... D·Artagnan
Na ficção, ele foi único, símbolo da elegância e do poder dos que defendiam o absolutismo francês no século 17. Na realidade, foram dois os homens que inspiraram as aventuras do mais famoso dos mosqueteiros de sua majestade
por Haroldo Ceravolo Sereza
Charles Batz de Castelmore era um mosqueteiro. Nasceu em 1611 e morreu em combate na batalha de Maastricht, em 1673, depois de uma vida a serviço do rei de França. Além da fama de excelente espadachim e de uma brilhante carreira militar, ele deixou outro legado. Um livro de memórias publicado em 1700 por um escritor cuja importância foi apagada pelo tempo, mas que se tornou um documento para entender a centralização do poder na França no século 17, e que deu origem a um dos personagens mais conhecidos no mundo da ficção. O sobrenome Batz de Castelmore foi esquecido, mas o nome que Charles herdou da família da mãe foi alçado à condição de mito por outro escritor, este um dos mais populares da história da literatura: Batz de Castelmore tornou-se o conde D’Artagnan.

No romance Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas, D’Artagnan, um nobre empobrecido, chega a Paris, montado num cavalo amarelo, em busca de aventuras e fortuna. Lá, conhece Aramis, Porthos e Athos, mosqueteiros do rei Luís XIII, que o admitem no grupo. Os quatro envolvem-se na luta cotidiana contra os homens do cardeal Richelieu – o poderoso primeiro-ministro da França. O país vivia um clima de guerra civil e D’Artagnan se mete nas intrigas palacianas, luta pela honra da rainha, vence e cobre-se de glórias.

A história ultra-romântica de Dumas, escrita em 1843, 200 anos depois dos fatos relatados, portanto, eram para parecer verdadeiras. Mas, jamais, para serem tomadas como uma narrativa fiel de fatos históricos. Seu propósito era aquele próprio do folhetim: divertir. Por isso, muita gente pode surpreender-se ao saber que D’Artagnan existiu. Não como o herói romântico, mas como um guerreiro leal e dedicado ao trono francês. O livro foi fiel às memórias de D’Artagnan, só que elas eram inventadas. O autor, Gatien de Courtilz de Sandraz, pode até tê-lo conhecido, mas certamente não colheu o depoimento do mosqueteiro (o livro foi publicado em 1700, 27 anos depois da morte do suposto narrador).

Sobre o verdadeiro D’Artagnan sabe-se que foi realmente um mosqueteiro do rei, nome dado aos componentes da guarda de elite criada para proteger o rei Luís XIII, em 1622. Era um pequeno exército formado por cerca de 200 homens armados com o que havia de mais moderno na época. Para ser aceito na turma, além de ser um excelente soldado, capaz de combater a pé, a cavalo ou na infantaria, o sujeito precisava jurar fidelidade ao rei e estar disposto a morrer em seu nome. O que não era lá muito difícil na atribulada Paris daqueles dias. A criação da Companhia dos Mosqueteiros do Rei fazia parte da complexa política de Estado e, sobretudo, das perigosas relações entre a nobreza. Quando Luís XIII tornou-se rei, em 1614, a Europa passava por um período turbulento, conhecido como Reforma Religiosa. Protestantes e católicos brigavam pelas almas dos fiéis e pelo controle de reinos, entre eles o francês. Por isso, Luís XIII esforçava-se para conter a sede de poder dos nobres num país dividido pela fé. Mantendo o governo e a economia com rédeas firmes e ajudado pelo primeiro-ministro e líder católico, o cardeal Richelieu, Luís XIII transformou a França numa potência militar e econômica.

Os mosqueteiros eram uma das peças mais importantes do jogo de interesses da corte francesa naquela época. Recrutados entre os mais corajosos cavaleiros da pequena nobreza do país, formavam uma milícia particular do monarca, tornando-se um símbolo importante do seu poder absoluto. “Os mosqueteiros eram a companhia favorita do rei, que gostava de treiná-los pessoalmente em jogos de tiro e em caçadas”, diz o historiador francês Claude Dufresne, especialista na obra de Dumas. “Como a guarda era uma prerrogativa do rei, era natural que existisse uma hostilidade entre a nobreza e os mosqueteiros.”

Nessa época, o próprio Richelieu criou para si uma pequena tropa de elite. Não demorou muito para que as duas facções se estranhassem. No romance de Dumas, essa rivalidade é explorada ao máximo. D’Artagnan e seus amigos volta e meia topavam com os homens do cardeal e começavam uma briga. Como a popularidade do rei era cada vez maior que a de Richelieu, os fiéis defensores do cardeal são os vilões do livro. “Contudo, na realidade, as duas companhias de mosqueteiros serviram ao mesmo propósito – proteger os poderes do rei e de seu governo e muitas vezes agiram juntas”, afrima o pesquisador francês Théophile Monier, autor do verbete sobre os mosqueteiros no clássico L’Art de la Guerre.

O certo é que o verdadeiro D’Artagnan jamais duelou com os homens de Richelieu. Charles Batz, nascido em 1611, teria entrado para a companhia dos mosqueteiros apenas em 1644 e, portanto, não serviu a Luís XIII, como está no romance, mas a Luís XIV, que, depois da morte do antecessor e de Richelieu, uniu seus homens aos do cardeal – sinal de que as rivalidades entre eles não deviam ser tão radicais como no livro. Mas ele, de fato, se tornou homem de confiança do rei: em 1658, comandou o cerco aos revoltosos de Dunquerque, no norte da França. Em 1659, liderou a tropa que protegeu o comboio real durante o casamento de Luís XIV com a infanta da Espanha, Maria Teresa. Em 1661, com a morte do cardeal Mazarin (que, de certa forma, foi o Richelieu de Luís XIV), ficou ainda mais próximo do trono, até assumir, em 1667, o posto de capitão-tenente. Na guerra contra a Holanda, em 1673, D’Artagnan caiu em combate, à frente de suas tropas, durante o cerco a Maastricht.

Mas o mais surpreendente sobre a história do real D’Artagnan é que Charles de Batz não teria sido o único a inspirar Alexandre Dumas. “Ele misturou a vida de Charles Batz com a de outro D’Artagnan, Pierre de Montesquiou, que viveu entre 1645 e 1725, foi marechal do Exército francês e primo de Charles”, diz Dufresne. O segundo D’Artagnan também foi mosqueteiro e tomou parte nas mais importantes batalhas de seu tempo. E não foram poucas, já que Luís XIV não foi um rei famoso por sua diplomacia com os vizinhos. Pierre foi governador de Arras, que, na complexa geografia da França do século 17, manteve-se fiel à Coroa espanhola até 1640 e que veio a demonstrar com fervor sua adesão à França no século 18, sob o reinado de Luís XV. Um dado curioso é que suas tropas, em Arras, passaram a utilizar fuzis, e não mosquetes, num regimento que passou a ser chamado de D’Artagnan, em homenagem a ele.

Na história da França, os mosqueteiros foram extintos por Luís XVI em 1775, por razões financeiras. Uma péssima jogada. Pouco mais de 15 anos depois, durante a revolução de 1789, uma turba de franceses furiosos levaria a família real para a guilhotina. As tropas de elite que protegiam os reis da França fizeram falta, o que custou as cabeças coroadas de Luís XVI e sua mulher, Maria Antonieta.

Três mosqueteiros
As Memórias de D’Artagnan, que serviram de base para Dumas, contam histórias que são, em geral, sem fundamento real, mas nas quais aparecem personagens que existiram.

É o caso do mosqueteiro Isaac de Portau (que pode ter virado Porthos, na obra de Dumas), do ex-abade Henry D’Aramis (para Dumas, Aramis é mosqueteiro, mas seu desejo é se tornar religioso) e do nobre Sillègue Athos.

Para além do livro, pouco se sabe dessa turma. D’Aramis, por exemplo, casou-se em 1650 com uma mulher chamada Jeanne de Bonasse, cuja família foi, por longo período, dona de um castelo. Não há traços de sua vida de mosqueteiro e até o ano de sua morte é ignorado.

De Portau, quase não se tem notícias e, de Athos, sabe-se apenas que foi morto em 1643, vitimado por um golpe de espada. Mas há mais um mosqueteiro nessa história: o próprio Dumas. “Sob os quatro personagens, escondem-se características com as quais ele, filho de um general, gostava de ver em si”, diz Claude Dufresne.

O pai da criança
Em 1843, o escritor Alexandre Dumas passou uma temporada em Marselha, no sul da França. Durante as longas caminhadas pelo movimentado porto da cidade, Dumas aproveitava para visitar um velho amigo, Joseph Méry, bibliotecário do lugar. Um dia, dando uma olhada nos livros da biblioteca, o grande escritor francês topou com um volume que o deixou intrigado: Mémoires de Monsieur d·Artagnan, Capitaine Lieutenant de la Première Compagnie des Mousquetaires du Roi (Memórias do Senhor D’Artagnan, Capitão-Tenente da Primeira Companhia dos Mosqueteiros do Rei). O pequeno volume de capa, publicado em Colônia em 1700, havia sido escrito por um autor conhecido da época, Gatien de Courtilz de Sandras, que romanceou a vida do militar. Embriagado pelas aventuras narradas no livro, Dumas esqueceu-se de devolver (ou simplesmente surrupiou) o volume e levou-o para Paris.

Em pouco tempo, estava pronto o romance que o tornaria imortal. Alexandre Dumas tinha uma método pecul

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