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quarta-feira, 16 de março de 2011

O mundo antigo segundo Asterix e Obelix

Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Divulgação

A aldeia de Asterix, sempre apresentada na abertura das histórias do personagem

"Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos... Toda ? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor." Essa é a introdução que aparece antes de cada aventura de Asterix, o gaulês, famoso herói das histórias em quadrinhosfrancesas. Nas aventuras de Asterix, os legionários romanos quase sempre aparecem apanhando dos gauleses, especialmente de Obelix, o melhor amigo de Asterix.

Mas será que os antigos romanos eram parecidos com os mostrados nessas histórias? E os outros povos da Antigüidade que também aparecem nessas histórias (gauleses, bretões, gregos,egípcios....)? Será que alguma tribo de gauleses conseguiu mesmo resistir aos romanos? Para responder essas e outras perguntas, precisamos separar o que é real do que é imaginário. Isso porque, como veremos com mais detalhes, nas histórias de Asterix, enquanto alguns elementos têm base em fatos históricos, outros são pura fantasia.

Metáfora da ocupação nazista na França

As histórias de Asterix foram criadas com o propósito de divertir e não com a pretensão de "ensinar História". Por isso, elas se valem do mesmo recurso usado para fazer humor nos desenhos animados dos Flintstones, a famosa família da Idade da Pedra: retratar o passado com as características do modo de vida dos dias de hoje. Na verdade, as histórias de Asterix refletem muito mais a época em que foram criadas do que propriamente a época em que elas se passam.

Asterix foi criado pela dupla de franceses René Goscinny (escritor, já falecido) e Albert Uderzo (desenhista, que continuou a criar as histórias após a morte de Goscinny em 1977). O personagem apareceu pela primeira vez na revista francesa Pilote em 1959. Segundo vários críticos, o fato dessas histórias tratarem de um povo (os gauleses) resistindo à dominação de outro (os romanos) pode ter sido inspirado na resistência francesa à ocupação nazistadurante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) ou uma crítica à hegemonia dos Estados Unidos após a Segunda Guerra.

Seja como for, ao ler Asterix podemos aprender mais a respeito do mundo contemporâneo do que a respeito do mundo antigo. Neste artigo, responderemos algumas perguntas e falaremos um pouco de como diferentes povos foram mostrados nessa famosa série de quadrinhos.

Em qual período da história de Roma se passam as histórias de Asterix?

As aventuras de Asterix se passam no período da República (509 a 27 a.C.). Trata-se do período em que Roma foi governada pelo Senado. Os outros períodos da história de Roma são o da Monarquia (753 a 509 a.C.), quando a cidade foi governada por reis, e o do Império (27 a.C. a 476 d.C.), em que o Senado perdeu parte da força que tinha antes e o poder passou a se concentrar nas mãos dos imperadores. Portanto, Júlio César, o general romano que liderou a conquista da Gália, e que é figura recorrente nas aventuras de Asterix, jamais foi imperador como muita gente costuma imaginar.

O título de "imperador" (que significa "supremo") só surgiu depois da morte desse general e foi utilizado pela primeira vez por Otávio, sobrinho e filho adotivo de César, que passou a se chamar Augusto (nome que significa "divino"). Apesar de jamais ter recebido o título de imperador, Júlio César foi o principal responsável por várias conquistas militares que tornaram possível o Império Romano. Por isso, em sua homenagem, todos os imperadores romanos eram também chamados de Césares.


reprodução
Júlio César, no traço de Uderzo


O verdadeiro Júlio César era mesmo parecido com o Júlio César mostrado nos quadrinhos?

O Júlio César mostrado nos quadrinhos de Asterix guarda semelhanças físicas com as estátuas e bustos feitos em homenagem ao verdadeiro César. No entanto, vale destacar uma curiosidade: essas estátuas e bustos geralmente mostram Júlio César com todos os cabelos, mas quando foram feitas, o modelo já era calvo. Trata-se de um fato comum na História: os poderosos são retratados da forma como eles gostariam de ser lembrados e não como realmente eram. No que se refere à personalidade, o César dos quadrinhos também lembra o que existiu em alguns aspectos, tais como espírito de liderança e habilidade política.

E Cleópatra, a rainha do Egito? Há semelhanças entre a verdadeira e a mostrada em Asterix?

A Cleópatra mostrada nos quadrinhos (e também no filme Asterix e Cleópatra) é inspirada na imagem popular difundida nos filmes de Hollywood, a de uma rainha sedutora e de beleza exótica que encantava inúmeros homens. Ao que tudo indica, a verdadeira Cleópatra era bem diferente: descendente dos reis ptolomaicos, dinastia fundada por um dos generais de Alexandre, o Grande, ela tinha muito mais em comum com os gregos do que com os egípcios (Alexandre, que veio da Macedônia, difundiu a cultura grega no Ocidente).

Segundo Plutarco, filósofo e historiador grego que viveu na Antigüidade, Cleópatra não tinha uma beleza extraordinária, mas era muito atraente, com uma voz capaz de encantar os homens em qualquer língua. Tal como mostrado no álbum O filho de Asterix, ela teve realmente um filho com Júlio César. No entanto, na vida real, César recusou-se a tornar esse filho seu herdeiro, honra que coube a Otávio. O filho de César e Cleópatra, que se tornou o faraó Ptolomeu 15, também conhecido como Cesarion ("Pequeno César"), teve um final trágico: morreu assassinado aos dezessete anos por ordem de Otávio.

Além de Júlio César e Cleópatra, outras figuras históricas já apareceram nos quadrinhos de Asterix?

Sim. Dentre os quais podemos destacar, Vercingetórix, chefe gaulês que tentou resistir à conquista romana, e Brutus, enteado de Júlio César, que se tornaria um dos responsáveis pelo assassinato de César (daí a famosa frase que César teria proferido pouco antes de morrer: "Até tu, Brutus?!").

Alguma tribo gaulesa conseguiu mesmo resistir à ocupação romana?

Inicialmente, os gauleses conseguiram oferecer resistência, mas acabaram sendo conquistados pelo exército de César. Em 52 aC. o chefe gaulês Vercingetórix conseguiu unir as tribos do centro e do leste da Gália contra os romanos. Tudo o que sabemos desse chefe é aquilo que o próprio Júlio César escreveu em sua obra "Das guerras na Gália". No início, esse chefe conquistou algumas vitórias usando a prática da "terra queimada", que consistia em abandonar as terras mas deixando-as de maneira que o inimigo não conseguisse se reabastecer (sem comida). No entanto, após uma derrota numa batalha, Vercingetórix se rendeu para poupar seu povo. Foi levado como prisioneiro para Roma e jogado em uma cela. Há indícios de que tenha morrido estrangulado na prisão em 46 a.C. Como se vê, apenas nas aventuras de Asterix é que os gauleses vencem os romanos no final.


reprodução

Vercingetórix depõe as armas aos pés de César



Todos os povos mencionados nas histórias de Asterix existiram mesmo?

Sim. No entanto, como já afirmou certa vez numa entrevista, o próprio desenhista Albert Uderzo, esses povos devem ter sido bem diferentes na vida real, principalmente no que se refere aos costumes. Nos quadrinhos de Asterix, os povos antigos são mostrados com as características atribuídas aos povos que vivem hoje nas regiões onde se passam as histórias. Daí, os gauleses parecerem com a imagem que os franceses fazem de si mesmos (que é bastante diferente da que o resto do mundo faz dos franceses) ou os bretões parecerem com os ingleses dos dias de hoje.

Túlio Vilela, formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Jim das Selvas, a concorrência de Tarzan



Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Os quadrinhos de Jim das Selvas deixariam horrorizados os ambientalistas de hoje: numa das primeiras aventuras, o herói mata vários animais selvagens, dentre os quais um tigre, contribuindo para a extinção de várias espécies da fauna local. Além de animais selvagens, Jim das Selvas costumava enfrentar contrabandistas, piratas, mercadores de escravos e, durante a guerra, soldados japoneses.

Naquele momento, o herói lutava contra o imperialismo japonês (responsável por uma série de atrocidades no Oriente, comparáveis às cometidas pela Alemanha nazista na Europa), mas ideologicamente era defensor da continuidade dos imperialismos britânico e norte-americano na Ásia e no Pacífico.

Para competir com os quadrinhos de Tarzan, o King Features Syndicate, agência distribuidora de tiras para jornais, encomendou a criação de uma nova série de aventuras ambientadas na selva. Um concurso interno foi realizado para escolher o desenhista que seria responsável pela arte da série que seria publicada nos jornais aos domingos.

O vencedor foi Alex Raymond (1909-1956), considerado pela beleza de seu traço um dos melhores desenhistas da época. A série criada para concorrer com Tarzan era Jim das Selvas (no original, Jungle Jim), que estreou nos jornais em 1934, junto com outra série também desenhada por Raymond: Flash Gordon, herói cujas aventuras se passam em outros planetas.

Apesar de a assinatura de Raymond ser a única a aparecer nas tiras, as aventuras eram escritas por outro profissional, o roteirista Don Moore, que jamais foi recebeu crédito pelo seu trabalho, permanecendo no anonimato. Moore era também o responsável pelos roteiros de Flash Gordon. Alex Raymond era um desenhista excepcional, que inspirou legiões de imitadores, mas Don Moore estava longe de ser um roteirista acima da média.

Os textos de Moore pareciam mais apropriados para legendas de filmes do cinema mudo que para histórias em quadrinhos. Mesmo assim, graças principalmente aos desenhos de Raymond e de vários assistentes não creditados, Jim das Selvas foi um sucesso. Tanto sucesso que até gerou um seriado de televisão que estreou nos Estados Unidos em 1954.

Johnny Weismuller

No seriado de televisão, que durou vinte e seis episódios, Jim das Selvas foi interpretado por Johnny Weismuller, o mesmo ator (e ex-nadador olímpico) que ficou famoso no papel de Tarzan numa série de filmes feitos para o cinema durante a década de 1940. Weismuller foi escolhido para o papel de Jim das Selvas justamente por causa de sua experiência no papel de Tarzan. Interessante ironia: a adaptação para tv de um herói dos quadrinhos criado para competir com Tarzan teve como astro o mesmo ator que havia interpretado o “homem-macaco”.

Embora criado para competir com Tarzan, Jim das Selvas estava longe de ser um plágio do “rei das selvas”. Outra inegável fonte de inspiração para o filme foi um documentário lançado em 1932 sobre os feitos do caçador Frank Buck na Malásia. Diferentemente de Tarzan, cujas aventuras são ambientadas na África, as aventuras de Jim das Selvas ocorrem em sua maioria na Ásia e na Oceania, em lugares como Sumatra, Malásia, Bornéu e em diversas ilhas do oceano Pacífico.

Jim das Selvas é o apelido de Jim Bradley, um famoso caçador, especialista em armadilhas. Ele também tinha um ajudante que era a representação estereotipada do “outro”, no caso de um asiático: seu nome era Kolu e usava um turbante. Também havia Lilli deVrille, uma criminosa que se regenerou e se tornou a principal namorada de Jim e também “uma das melhores agentes secretas na China”. Constantemente, Jim das Selvas salvava as mocinhas dos perigos, mas quem costumava salvar o próprio Jim era Kolu.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os quadrinhos de Jim das Selvas mostraram o herói se alistando no exército norte-americano e enfrentando os japoneses. Na mesma época, o desenhista de Jim das Selvas, Alex Raymond, também lutou na guerra: alistou-se nos fuzileiros navais dos Estados Unidos. Desde então a tira passou a ser desenhada por outros artistas até ser cancelada em meados da década de 1950.

Após voltar da guerra, Raymond não retornou a nenhuma das tiras em que trabalhava e passou a se dedicar a uma nova tira, Nick Holmes, que ele desenhou até morrer em um acidente de carro (Raymond adorava dirigir carros esportivos).

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

Heróis e super-heróis na África e na Ásia


Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
As histórias em quadrinhos ajudaram a popularizar uma visão estereotipada e fantasiosa da África e da Ásia. Entre essas histórias, merecem destaque as aventuras dos heróis Tarzan, Mandrake, Fantasma, Jim das Selvas e Pantera Negra. Os três primeiros foram criados quando a Grã-Bretanha ainda possuía um império colonial, o último quando vários países africanos e asiáticos já haviam se declarado independentes.

Tais histórias em quadrinhos refletiriam qual visão: a dos colonizadores e exploradores europeus e norte-americanos ou a dos povos nativos da África e da Ásia? Podemos dizer que Tarzan seria um agente a serviço do neocolonialismo? Haveria ainda nesses quadrinhos mensagens racistas? Antes de responder a essas perguntas, vale a pena revisar o conceito de neocolonialismo.

Neocolonialismo

Em fins do século XIX, as potências europeias começaram a reivindicar e conquistar terras na África e na Ásia. Neocolonialismo foi o nome dado ao conjunto de políticas expansionistas e imperialistas praticadas pelas potências européias nos continentes africano e asiático a partir da década de 1880. O prefixo “neo” que significa “novo” é para distinguir essas políticas do “velho colonialismo”, aquele iniciado no século XVI, como consequência das Grandes Navegações, das quais Portugal e Espanha foram as potências pioneiras.

Para justificar a dominação europeia na África e na Ásia, os europeus recorriam a argumentos científicos. O problema é que o discurso dominante na ciência do século XIX estava contaminado pelo racismo, dois exemplos disso são o “darwinismo social”, uma interpretação equivocada e distorcida da teoria formulada pelo naturalista inglês Charles Darwin. Assim, segundo a visão racista da época, brancos europeus eram “superiores” ou “mais evoluídos” que os “negros” africanos. Ainda dentro dessa visão racista, a “raça amarela”, da qual fariam parte chineses, japoneses, coreanos e outros povos asiáticos seria também “superior” aos negros, mas ainda “inferior” aos brancos.

O Neocolonialismo teve início numa época em que muitos achavam que a “era dos impérios” havia terminado, pois com os processos de independência política dos países americanos, as potências colonialistas européias acabaram perdendo colônias que possuíam neste continente. Ledo engano, os avanços tecnológicos trazidos pelas duas primeiras revoluções industriais (das quais a Grã-Bretanha foi pioneira, o que permitiu que o Império Britânico se tornasse o maior de sua época) e a busca por mercados e matérias-primas para os produtos industrializados ampliaram a presença europeia nos continentes africano e asiático.

Exemplo disso é que nas primeiras décadas do século XIX, a presença europeia na África limitava-se a algumas possessões nas áreas costeiras, mas no fim do mesmo século, quase todo o continente africano estava sob domínio de nações europeias. A disputa por possessões no continente africano chegou a tal ponto que, em 1885, foi realizada a Conferência de Berlim, na Alemanha, durante a qual foi realizada a partilha da África, ou seja, foram demarcadas fronteiras para decidir quais “pedaços” da África teria por “direito” cada potência europeia.

Alemanha e Estados Unidos

Vale lembrar que Grã-Bretanha e França, as duas maiores potências coloniais, ganharam um concorrente de peso em fins do século XIX: a Alemanha, cuja unificação foi completada em 1871, após uma guerra contra a rival França. A Alemanha entrou tardiamente na corrida colonial, mas logo passou a ter o segundo maior parque industrial da Europa, perdendo apenas para o da Grã-Betanha. A rivalidade entre as potências colonialistas transformaria a Europa num “barril de pólvora”, cujo “pavio” seria aceso em 1914, quando teve início a Primeira Guerra Mundial.

A política neocolonialista não era exclusiva dos paises europeus. Dois países não-europeus também adotariam práticas expansionistas: os Estados Unidos e o Japão. Se no início os Estados Unidos eram banhados apenas pelo Atlântico, após a expansão em direção ao oeste, com a anexação de territórios que antes pertenciam aos indígenas e ao México, também passariam a serem banhados pelo Pacífico, o que levaria à busca por territórios e mercados nesse oceano e à ampliação tanto da marinha de guerra quanto da marinha mercante.

Dentro do contexto do neocolonialismo, expedições de cunho científico (mas atendendo aos interesses políticos das potências colonialistas) foram realizadas na África e na Ásia, com a participação de estudiosos de diferentes áreas como arqueologia, etnologia, antropologia, geologia, zoologia e botânica entre outras. A África e a Ásia despertavam a curiosidade de europeus e norte-americanos e também serviam de inspiração para a imaginação de escritores de ficção, não apenas de contos e romances, mas também de uma nova mídia surgida com a massificação da imprensa em fins do século XIX e nas primeiras décadas do século XX: as histórias em quadrinhos.

Tarzan, o “homem-macaco”

Tarzan foi criado pela imaginação do escritor norte-americano Edgar Rice Burroughs. Antes de tentar a sorte como escritor, Burroughs tentou ganhar a vida numa série de ocupações, entre as quais, policial, mas fracassou em todas elas. Aos trinta e cinco anos de idade, tinha uma família para sustentar e estava praticamente falido. Assim, tentou a carreira de escritor.

Ele conseguiu vender suas histórias para serem publicadas em revistas de literatura barata então muito populares nos Estados Unidos nas primeiras décadas do século XX. Assim, a primeira história de Tarzan foi publicada em outubro de 1912, numa revista chamada All-Story. Foi um sucesso imediato e Burroughs escreveu vinte e quatro romances sobre o herói das selvas. O escritor enriqueceu, pois detinha os direitos autorais sobre sua criação. Por outro lado, alguns dos artistas que desenharam os quadrinhos para jornais (tiras diárias e páginas para suplementos dominicais) reclamavam que ganhavam pouco, pois a maior parte do lucro ia para Burroughs, e após sua morte em 1950, para seus herdeiros.

Burroughs nunca havia posto os pés na África. O escritor também não se preocupou em pesquisar seriamente sobre o continente africano para escrever as aventuras de Tarzan. Para criar as aventuras de Tarzan, usou apenas sua fértil imaginação e buscou inspiração nos livros de aventura de escritores como Rudyard Kipling, autor de O livro da selva (também conhecido como O livro da Jângal, numa tradução de Monteiro Lobato) e H. Rider Haggard, autor de As minas do rei Salomão.

Na obra de Kipling, ambientada na Índia, o personagem principal era Mogli, o menino-lobo, uma criança órfã adotada por lobos. Para se diferenciar da obra de Kipling e não ser acusado de plágio, Burroughs fez três alterações significativas: mudou a ambientação da Índia para a África, enquanto Mogli foi adotado por lobos, Tarzan foi adotado por macacos, e enquanto Mogli era uma criança indiana, Tarzan era filho de uma família de aristocratas ingleses. Em comum com os livros de Haggard, a obra de Burroughs tinha a ambientação na África e elementos como cidades e tesouros perdidos.

Depressão e entretenimento

Tarzan se tornou um personagem ainda mais conhecido quando foi adaptado para outras mídias como filmes e histórias em quadrinhos. A primeira adaptação de Tarzan para os quadrinhos estreou nos jornais norte-americanos em sete de janeiro de 1929. Antes da década de 1930, os quadrinhos publicados em jornais eram, em sua grande maioria, de teor cômico ou humorístico (daí os quadrinhos em inglês serem chamados de comics). A adaptação de Tarzan para tiras de jornal foi uma das primeiras séries de quadrinhos de aventura a se tornar popular entre leitores de jornais do mundo inteiro. A depressão econômica que se seguiu à quebra da bolsa de Nova York em 1929 não impediu que as tiras de Tarzan continuassem fazendo sucesso.

Origem inverossímil e mensagem neocolonialista

Nos quadrinhos, a origem de Tarzan foi recontada de maneira bastante fiel ao primeiro romance de Burroughs: John Clayton, também conhecido como Lorde Greystoke, viaja com sua esposa da Inglaterra para uma colônia britânica na África; durante a viagem, os marinheiros realizam um motim e o casal é abandonado numa selva africana, onde constroem uma casa na árvore; a esposa enlouquece, adoece e morre; Lorde Greystoke é morto pelo macaco Kershak, o bebê de um ano do casal inglês é encontrado e adotado por uma macaca chamada Kala.

A origem de Tarzan é totalmente inverossímil, mas é justamente em algumas de suas inverossimilhanças é que percebemos uma mensagem de teor neocolonialista, sem falar numa pitada de racismo: Tarzan é filho de ingleses, mas mesmo órfão e privado do contato com outros seres humanos, consegue provar a suposta “superioridade” do homem branco ao superar os grandes macacos em inteligência, a ponto de se tornar o líder deles (após matar Kershak numa luta), e os igualar em força física (o que o torna mais forte que qualquer ser humano, inclusive os negros das tribos próximas ao seu lar).

No primeiro romance escrito por Burrroughs, Tarzan consegue até aprender a ler e escrever sozinho: ao encontrar a cabana onde os pais biológicos viviam, descobre alguns livros no antigo escritório do pai e começa a tentar decifrar os textos e pratica exercícios de caligrafia. Ou seja, a história de Tarzan reflete uma visão de mundo marcada pelo determinismo biológico (o que está intimamente ligado ao darwinismo social): seriam os genes,a ascendência, é que determinariam o sucesso e não o meio social.

A África segundo os quadrinhos de Tarzan

Nos quadrinhos, Tarzan passou pelas mãos de uma série de desenhistas, a maior parte bastante competente do ponto de vista técnico, pois sabiam tornar convincentes as tramas mais inverossímeis. O primeiro artista a desenhar uma versão em quadrinhos de Tarzan foi o canadense Harold Foster (1892-1982), que ficou famoso anos mais tarde por criar seu próprio personagem: o Príncipe Valente.

Entre os artistas que desenharam as aventuras de Tarzan no decorrer das décadas podemos destacar Rex Maxon, Burne Hogarth, Jesse Marsh, Bob Lubbers, Russ Manning, Gil Kane, Gray Morrow, Joe Kubert e John Buscema entre outros. Alguns deles desenharam apenas as tiras diárias e as páginas dos suplementos dominicais, outros desenharam histórias que foram publicadas exclusivamente em gibis mensais. Quanto aos roteiristas que escreveram as histórias (boa parte delas, adaptações dos livros de Burroughs), a maioria permaneceu anônima, entre as exceções estão Archie Goodwin, Roy Thomas e o já citado Kubert, que além de desenhar também escrevia.

Tarzan questiona os valores da chamada “civilização”. Ao criar Tarzan, Burroughs pode ter sido influenciado pela idéia ingênua do “bom selvagem” (“o homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe”) criada pelo filósofo iluminista Rousseau. A idéia do “bom selvagem” influenciou também na criação da figura romântica e idealizada do índio em obras literárias como O Guarani do escritor José Alencar, ele Tarzan prefere viver com simplicidade e em harmonia com a natureza a viver numa grande metrópole. Tarzan é um produto da indústria cultural e já foi licenciado para vender mercadorias tão diversas quanto camisetas e brinquedos, mas em suas aventuras, o rei da selva não demonstra interesse nos supostos confortos ou atrativos da sociedade de consumo.

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).
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terça-feira, 8 de março de 2011

Gibis retratam o conflito entre EUA e URSS

Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
Reprodução

O Quarteto Fantástico enfrenta o Doutor Destino

A Guerra Fria foi uma disputa travada durante quase cinco décadas pelas duas superpotências vencedoras da Segunda Guerra Mundial: os Estados Unidos e a União Soviética. Foi um período marcado por muita espionagem e propaganda política, tanto do lado norte-americano quanto do soviético. Não bastasse tudo isso,armas atômicas seriam usadas caso as duas superpotências partissem para o conflito militar direto.

Foi durante a Guerra Fria que uma nova onda desuper-heróis surgiu nos gibis norte-americanos, especialmente nos da Marvel Comics (hoje a maior editora de quadrinhos do mundo). Você certamente já ouviu falar dessas personagens, pois várias foram adaptadas para o cinema nos últimos anos, com grande sucesso de bilheteria. Dentre essas personagens, podemos destacar o Homem-Aranha, os X-Men, o Hulk e o Quarteto Fantástico.

Aqui, falaremos da relação delas com a Guerra Fria. Afinal, embora sejam fictícias e tenham sido criadas apenas para entretenimento, seus criadores se inspiraram na época que viviam. Começaremos pelo Quarteto Fantástico, o primeiro gibi da Marvel em que o escritor-editor Stan Lee fez parceria com o desenhista Jack Kirby.

O Quarteto Fantástico

O primeiro gibi do Quarteto Fantástico foi publicado em novembro de 1961 -ou seja, poucos meses depois de o cosmonauta soviético Yuri Gagarin ter-se tornado o primeiro ser humano a viajar para o espaço, realizando um vôo orbital (12 de abril de 1961), e quase uma década antes de o astronauta norte-americano Neil Armstrong ter sido o primeiro homem a pisar na Lua (20 de julho de 1969). Assim, o Quarteto Fantástico foi lançado na mesma época em que os EUA e a URSS disputavam a corrida espacial.

O próprio surgimento desse grupo de heróis faz alusão à Guerra Fria: no início da história, pouco antes de os quatro futuros heróis viajarem para o espaço, a narração menciona que os EUA estão numa "corrida espacial" com "uma potência estrangeira". Claro que a tal "potência estrangeira" era a URSS, mas, diferentemente do que tinha acontecido durante a Segunda Guerra Mundial, os autores dos gibis da Guerra Fria preferiam não dar nome aos bois quando se referiam aos "inimigos da América".

No gibi, o Quarteto Fantástico tem origem um pouquinho diferente daquela contada no filme de 2005: quatro amigos - o cientista Reed Richards; sua noiva, Sue Storm; o irmão adolescente dela, Johnny Storm; e o piloto de foguetes Ben Grimm - embarcam num foguete experimental, voam para o espaço e são bombardeados por raios cósmicos. Ao voltarem para a Terra, descobrem que os raios cósmicos os afetaram, dando-lhes superpoderes.

Richards consegue esticar partes de seu corpo e assume o codinome Senhor Fantástico (qualquer semelhança com outro super-herói, o Homem-Borracha, não é mera coincidência); Sue se torna a Garota Invisível (anos depois, mudará o nome para Mulher Invisível, pois em nossos tempos "politicamente corretos" é considerado machismo chamar de "garota" uma mulher adulta); Johnny vira o Tocha Humana; e Ben, o monstruoso Coisa. Os raios cósmicos existem mesmo, mas na vida real eles matam, como seu professor ou professora de ciências poderá lhe explicar.

A corrida espacial não é a única alusão à Guerra Fria que encontramos nos primeiros gibis do Quarteto Fantástico. O principal inimigo do Quarteto era o Doutor Destino, que governava literalmente com mãos de ferro um pequeno país do Leste Europeu, bem na região onde se concentravam os países do bloco socialista.

Na tradução feita no Brasil, o nome dado ao país do Doutor Destino era "Latvéria", o que poderia levar a concluir que se tratava de uma terra imaginária. Mas, no original, o nome era "Latvia" - cuja tradução correta para o português é Letônia, na época uma das repúblicas que compunham a URSS. O próprio visual do vilão, com sua armadura de ferro, pode ser referência à "Cortina de Ferro", a expressão popularizada pelo ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill para se referir aos países da Europa oriental que ficaram sob influência da URSS após a Segunda Guerra Mundial.

O Incrível Hulk

O Incrível Hulk, segunda criação da parceria Stan Lee-Jack Kirby, também refletia o contexto da Guerra Fria. No primeiro número do gibi, lançado em maio de 1962, ficamos sabendo como o cientista Bruce Banner se tornou o Hulk: ele tenta salvar um adolescente que invadiu o local onde se testará pela primeira vez a "bomba gama" (projetada pelo próprio Banner) e fica exposto aos raios gama quando a bomba é detonada propositalmente por seu assistente, um espião iugoslavo disfarçado.

Banner, em vez de morrer de leucemia ou queimaduras radiativas (que é o que aconteceria na vida real), descobre que os raios gama alteraram a química de seu corpo. Agora, sempre que se enfurece, é humilhado ou entra em pânico, ele se transforma no Hulk, um brutamontes capaz de levantar toneladas. Curiosamente, o Hulk era para ser cinzento, mas falhas de impressão no primeiro número do gibi fizeram que ele aparecesse esverdeado em alguns quadrinhos. Assim, o verde se tornou sua cor definitiva.


reprodução
Capa do n. 1 de O Incrível Hulk


Até o fato de Banner ser físico nuclear tinha relação com a Guerra Fria. Desde o Projeto Manhattan (o qual desenvolveu as bombas atômicas que foram lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki), os físicos nucleares tinham "importância estratégica" para o governo dos EUA. Vale recordar que, segundo alguns historiadores, as bombas atômicas usadas contra o Japão marcaram não apenas o fim da Segunda Guerra Mundial, mas o começo da Guerra Fria.

Segundo tal interpretação, o ataque a Hiroshima e Nagasaki teria sido a forma que os EUA encontraram de mandar o seguinte recado à URSS: "Cuidado conosco! Nós temos a bomba!" Depois disso, a procura por carreiras científicas, sobretudo em física nuclear, aumentou consideravelmente nas universidades norte-americanas. Bruce Banner, assim como os físicos do Projeto Manhattan, trabalha para os militares; e a "bomba gama" explode no deserto do Novo México, região dos EUA onde foram mesmo realizados os primeiros testes atômicos.

Outro elemento da Guerra Fria presente na saga do Hulk é o espião iugoslavo. Naquela época, histórias de espionagem eram comuns tanto na ficção quanto na realidade. Além disso, a Iugoslávia era um dos países do Leste Europeu onde os comunistas haviam chegado ao poder. (No entanto, os iugoslavos eram um caso à parte: o então governante do país, o marechal Tito, principal líder da resistência contra os invasores alemães durante a Segunda Guerra Mundial, não seguia todos os ditames da União Soviética; por isso, o modelo socialista adotado na Iugoslávia era um pouco diferente daquele que predominava nos outros países do Leste.)

Em suas primeiras aventuras, o Hulk enfrentou vários vilões comunistas, mas havia igualmente críticas aos EUA. Em primeiro lugar, porque o principal inimigo do Hulk era o general Ross, também pai da namorada de Banner. Ou seja, em muitas histórias do Hulk, o inimigo era o próprio Exército norte-americano, sempre perseguindo o gigante verde. E não se deve esquecer que o Hulk era um monstro criado pelo horror atômico. Ao conceberem a história, Stan Lee e Jack Kirby pretenderam transmitir uma lição de moral: Banner é vítima de uma arma que ele mesmo projetou, e o cientista sente remorsos por isso.
Túlio Vilela, formado em história pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de "Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula" (Editora Contexto).

domingo, 6 de março de 2011

O Fantasma: primeiro herói mascarado dos quadrinhos


Túlio Vilela*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação
A tira diária do Fantasma estreou nos jornais norte-americanos em 17 de fevereiro de 1936. Tratava-se de mais uma criação do roteirista Lee Falk, o criador de Mandrake. Caso raro na história dos quadrinhos: Falk conseguiu criar dois personagens de grande sucesso, sendo que sua segunda criação, o Fantasma, conseguiu superar em popularidade sue personagem anterior, Mandrake.

O Fantasma não foi o primeiro herói dos quadrinhos a ter a maior parte de suas aventuras ambientadas na selva, mas em termos de originalidade superava antecessores como Jim das Selvas. A tira do Fantasma podia não ser tão bem desenhada quanto a de Tarzan ou de Jim das Selvas, mas a qualidade dos roteiros de Falk superava de longe o trabalho de seus contemporâneos. As primeiras tiras do Fantasma foram desenhadas pelo próprio Falk, antes que ele se dedicasse exclusivamente aos roteiros e passasse logo a tarefa para o desenhista Ray Moore (1905-1984), o primeiro de uma série de artistas a desenhar o herói (sem contar os inúmeros assistentes que trabalharam anonimamente nas tiras).

Colonialista ou anticolonialista?

Do ponto de vista político, o Fantasma é um herói bastante ambíguo. As tiras do herói já foram acusadas por seus críticos de reproduzirem o discurso neocolonialista. Afinal, o Fantasma era um homem branco, descendente de britânicos e que reinava sobre uma tribo de pigmeus. Seus antepassados se empenharam para lutar contra piratas chineses, mas nenhuma nação lucrou mais com a pirataria no passado que a Grã-Bretanha. Por outro lado, algumas aventuras mostram o herói como um defensor da soberania dos povos africanos e asiáticos. O Fantasma é colonialista ou anti-colonialista? A julgar por várias de suas histórias, ele consegue ser ambos ao mesmo tempo. Talvez, essa ambiguidade seja um das características que tornam o Fantasma um personagem mais “humano”, pois com todo mero mortal, o herói também tem suas contradições.

Em parte, a ambigüidade política do Fantasma se deve ao fato do roteirista Lee Falk ter sido sensível às mudanças de opinião do público e às transformações políticas e sociais no decorrer das décadas. Inicialmente, nos primeiros anos da série, prevalecia o caráter neocolonialista e os estereótipos racistas em relação a africanos (quase sempre mostrados como selvagens, imaturos, ignorantes e supersticiosos) e asiáticos (mostrados quase sempre como sádicos e maquiavélicos, mesmo quando na forma de sensuais vilãs). Após o término da Segunda Guerra e com a desintegração dos impérios coloniais europeus na África e na Ásia, passou a prevalecer uma caracterização mais favorável dos povos africanos e asiáticos.

A origem do Fantasma

Apesar do nome, o Fantasma nada tem de sobrenatural. O que diferencia o Fantasma da maioria dos heróis dos quadrinhos é que, apesar de sua força e astúcia, ele nada tem de invulnerável. Embora seja conhecido como o “espírito que anda” ou o “homem que não morre”, ele nada tem de imortal: na verdade, trata-se de uma dinastia de justiceiros mascarados, quando um Fantasma morre, ele deve ser sucedido pelo seu filho.

Essa dinastia surgiu na época das Grandes Navegações, quando o sobrevivente de um ataque de piratas chineses a um navio inglês naufragou em Bengala e foi socorrido pela tribo dos pigmeus Bandar. Após encontrar na praia o corpo do pirata que assassinou seu pai, o náufrago britânico jura sobre a caveira do assassino do pai combater a “pirataria sob todas as formas”. Nesse mesmo juramento, o náufrago também diz que seus descendentes seguiriam seus passos.

O nome desse náufrago era Sir Christopher Standish, mas em versões posteriores da história, todos os Fantasmas passaram a ter o mesmo nome: Kit Walker. Essa história foi contada pelo 21º Fantasma à Diana Palmer, uma jovem da alta sociedade americana. Cada Fantasma deve revelar essa história à mulher com quem pretende se casar e como os Fantasmas jamais são rejeitados, Diana aceitou se tornar noiva do misterioso mascarado. Aliás, Diana, com quem o Fantasma de fato se casou numa história publicada em 1978 (o noivado foi longo, ainda bem que os heróis dos quadrinhos envelhecem devagar) era a mulher ideal para se casar com o herói: diferentemente das “mocinhas” de outros quadrinhos, Diana além de bonita era inteligente, corajosa, conhecia defesa pessoal e estava sempre envolvida em causas humanitárias.

O Fantasma vive na África ou na Ásia?

A localização geográfica do país onde o Fantasma vive sempre intrigou muitos de seus leitores. Afinal, o Fantasma vive num país da África ou da Ásia? Inicialmente, Falk ambientou as aventuras do Fantasma no golfo de Bengala, uma região da Índia, então sob domínio britânico. Na segunda aventura do Fantasma, Falk escreveu que o Fantasma vivia na “costa de Bengala” (Bengal no original em inglês), na Birmânia, então uma possessão britânica no sudeste asiático. Apesar da ambientação asiática, as aventuras apresentavam elementos que remetiam mais ao continente africano, tais como a tribo dos pigmeus Bandar, que protegem o esconderijo do Fantasma de quaisquer intrusos com suas zarabatanas envenenadas.

Na clássica história O fantasma vai à guerra, publicada durante a Segunda Guerra Mundial, o herói lidera um movimento de resistência contra a invasão japonesa em “Bengali” (repare na mudança de grafia). Esse fato reforça a localização geográfica do país do Fantasma em algum lugar da Ásia ou mesmo da Oceania, pois o expansionismo japonês ocorreu em territórios desses dois continentes. Segundo alguns estudiosos, Falk sempre foi ambíguo em relação à localização geográfica do país do Fantasma, que estaria situado em alguma região imaginária entre a África e a Ásia. Isso ajuda a explicar certas incoerências como animais selvagens que vivem apenas em um ou outro continente vivendo na mesma região.

A partir da década de 1960, Falk decidiu alterar a localização geográfica do país do Fantasma que desde então passou a ser identificado como um país africano. Numa história publicada em 1964, o endereço para correspondência do Fantasma aparece como:

Senhor Walker

Caixa postal 7, Morristown, Bengali, África...

Mais tarde, o país do Fantasma foi rebatizado de “Bangalla” (nas histórias publicadas no Brasil, aparece grafado como ‘Bangala”, com um “l” a menos). Na mesma época, Falk criou também um país vizinho para Bengalla: Ivory-Lana, cujo nome foi certamente inspirado na Costa do Marfim pois ivory significa ‘marfim’ em inglês.

Outro detalhe importante da “africanização” das histórias do Fantasma foi o aumento do número de personagens negros relevantes, dentre os quais o próprio presidente de Bangala, o doutor Lamanda Luaga, ex-chefe de uma equipe médica da ONU, da qual Diana Palmer fazia parte. A Patrulha da Selva, fundada por um dos antepassados do atual Fantasma, nas primeiras histórias era mostrada como uma espécie de “polícia colonial” formada apenas por patrulheiros brancos.

Em histórias mais recentes, a Patrulha da Selva passou a ser formada em sua maioria por patrulheiros negros, que combatem contrabandistas e outros tipos de criminosos. Tais mudanças nas histórias do Fantasma refletem as mudanças no contexto geopolítico após os movimentos de independência dos paises africanos e asiáticos que ganharam força após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Crítica aos ditadores

Nas histórias do Fantasma, já apareceram vilões de todas as etnias e de ambos os sexos. A maioria é formada por estrangeiros brancos que pretendem explorar ou enganar as tribos locais. Entre os vilões asiáticos, os mais famosos foram os Singh, uma dinastia de piratas chineses. Entre os vilões negros, um dos mais recorrentes é o general Bababu, que apareceu pela primeira vez numa história publicada nos jornais em 1963. Nessa história Bababu, chega ao poder num golpe de Estado contra o governo democraticamente eleito de Luaga. É claro que o Fantasma consegue derrotar Bababu e devolver Luaga ao poder. Depois dessa história, o general Bababu retornnou várias vezes, sempre tentando tomar o poder em Bangala e em Ivory-Lana.

O general Babau é um personagem que reflete uma triste realidade de muitos paises africanos: a instabilidade política e econômica dos recém-independentes paises africanos favoreceu a eclosão de guerras civis e o surgimento de ditaduras. Daí, a semelhança em histórias publicadas nas décadas de 1970 e de 1980, entre o general Bababu e ditadores africanos da vida real como Idi Amin, que governou Uganda de 1971 a 1979, e Robert Mugabe, que governa o Zimbábue (antiga Rodésia) desde 1980. Em 1998, quando participava de um salão internacional de quadrinhos nas Astúrias, Falk, afirmou que uma das histórias em que aparecia o general Bababu foi censurada na Argentina durante a ditadura militar que vigorou nesse pais de 1976 a 1982. O motivo da censura foi a crítica que a história mencionada fazia aos regimes ditatoriais.

Em fins da década de 1970, as histórias do Fantasma passaram a abordar cada vez mais temas como ditaduras e desrespeito aos direitos humanos. A própria Diana havia se tornado uma funcionária da ONU e investigava governos acusados de praticar crimes contra os direitos humanos. Mais um exemplo de como Lee Falk era um roteirista "antenado" no que acontecia no momento: na mesma época, o presidente dos Estados Unidos era Jimmy Carter, do Partido Democrata, político conhecido pelo discurso em "defesa dos direitos humanos".

Para saber mais:

CONROY, Mike. 500 Great Comic Book Action Heroes. Hauppauge, NY: Barron’s Educational Series, 2003.

GOULART, Ron (ed.). The Encyclopedia of American Comics: From 1897 to the Present. Nova York: Facts on File, 1990.

LUCCHETI, Marco Aurélio & ROSA, Franco de (org.). Fantasma: A biografia oficial do primeiro herói fantasiado dos quadrinhos. São Paulo: Opera Graphica Editora, 2009.

ROVIN, Jeff. The Encyclopedia of Superheroes. Nova York: Facts on File, 1985.

SHEPHERD, Jim & STUBBERSFIELD, Barry. The Phantom Encyclopedia. Frew Publications: Austrália, 2008, 2a edição, 1a edição 2007.

* Túlio Vilela, formado em História pela USP, é professor da rede pública do Estado de São Paulo e um dos autores de Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto)

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