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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Quem tem medo da radioatividade?

Como herança da destruição causada pela explosão das bombas atômicas ao fim daSegunda Guerra, a energia nuclear ganhou uma reputação difícil de mudar. Um novo livro desmistifica a radioatividade e aponta as vantagens e desvantagens de seu uso.

Bruna Ventura


Embora a radioatividade esteja associada a bombas atômicas e acidentes nucleares no imaginário de muitos, ela está por trás de inúmeras aplicações benéficas, como a radioterapia (foto: Dina-Roberts Wakulczyk / CC 2.0 BY).


Foram mais de cem mil mortos imediatamente após a explosão das bombas nucleares em Hiroshima e Nagasaki em agosto de 1945. Noventa por cento deles eram civis. Era o fim da Segunda Guerra Mundial, mas o sofrimento de milhares de pessoas não terminaria em 1945. Gerações depois, as sequelas da radioatividade ainda eram sentidas, como mostram os altos índices de câncer de mama nas meninas nascidas em Hiroshima no pós-guerra.

De uma hora para outra, toda indústria bélica ficou obsoleta, já que a tecnologia de apenas uma bomba poderia destruir uma cidade inteira em minutos.

Ironicamente, as mesmas propriedades do átomo capazes de causar tamanha destruição também podiam salvar vidas se empregadas no tratamento de câncer. A radioterapia, o exame de raios-X e o marca-passo artificial são exemplos de aplicações pacíficas da radioatividade. Para muitos, no entanto, a função da energia nuclear se resume a dizimar vidas.


O temor suscitado pelos cogumelos atômicos se espalhou pelo mundo e ecoa até hoje devido à falta de informações precisas sobre o tema. Para desmistificar essa imagem reducionista e ameaçadora, dois professores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) acabam de lançar o livro Perdendo omedo da radioatividade.

No livro, o físico Felipe Damásio e a química Aline Tavares resgatam a história de como o homem explorou o interior do átomo a partir do final do século 19, quando foram descobertos os raios-X, pelo alemão Wilhelm Röntgen, e a radioatividade, pelo francês Antoine Henri Becquerel e pelo casal Pierre e Marie Curie (esta última de origem polonesa).

A obra é fruto de um debate sobre os benefícios e perigos da tecnologia nuclear durante as aulas dadas por eles no Instituto de Física da UFRGS. Durante esses debates, os autores perceberam que muito se falava, mas pouco se sabia sobre o tema e resolveram aprofundá-lo. 


Vilã ou heroína?

A partir dos trabalhos pioneiros do fim do século 19, o livro mostra a evolução do conhecimento científico sobre o interior do átomo, passando pelos trabalhos de Albert Einstein, duas guerras mundiais e a corrida armamentista da Guerra Fria na década de 1960.
O risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear são tratados de forma esclarecedora

Ao destacar as aplicações da tecnologia nuclear na medicina molecular, na agricultura, na indústria e na datação de artefatos na arqueologia, os autores mostram que rotulá-la como vilã ou heroína da história depende do ponto de vista a partir do qual se quer enxergá-la.

A obra também aborda a polêmica que aindaenvolve a geração de energia nas usinas nucleares como alternativa à queima de combustíveis fósseis das usinas termelétricas de gás e carvão e ao impacto socioambiental das hidrelétricas. Os fantasmas associados às usinas nucleares – o risco de acidentes e a destinação do lixo nuclear – são tratados de forma esclarecedora pelos autores.

O vocabulário do livro é simples, o que faz com que o texto possa ser apreciado mesmo por quem não está familiarizado com o tema. Vale destacar também que as fórmulas matemáticas foram deixadas de lado, para que pessoas sem formação específica em física ou matemática possam formar uma opinião crítica e criteriosa sobre a energia nuclear.

Perdendo o medo da radioatividade
Felipe Damasio e Aline Tavares (ilustrações: Lor)
Campinas, 2010, Autores Associados
148 páginas
Bruna Ventura

Revista Ciência Hoje

terça-feira, 9 de outubro de 2012

ADOLF HITLER ESTAVA MESMO PRÓXIMO DE DESENVOLVER UMA BOMBA ATÔMICA?


Historiador alemão informa em "A Bomba de Hitler" que os nazistas realizaram três testes nucleares entre 1944 e 1945. Por outro lado, o pesquisador não tem prova alguma para embasar suas teorias

Os Estados Unidos precisaram de 125 mil pessoas, entre as quais seis futuros contemplados com um Prêmio Nobel, para desenvolver as bombas atômicas que explodiram sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945.

A central de enriquecimento do urânio sozinha, incluída a sua área de segurança, tinha o tamanho da cidade alemã de Frankfurt. Chamada de Projeto Manhattan, a pesquisa acabou somando um custo total equivalente, em valores atualizados, a cerca de US$ 30 bilhões (R$ 82,86 bilhões).

Em seu novo livro, "A Bomba de Hitler", o historiador berlinense Rainer Karlsch garante que a Alemanha nazista quase obteve resultados similares, graças à colaboração de alguns poucos físicos pesquisadores apenas, e contando com uma fração deste orçamento.
O autor escreve que esses cientistas alemães, na companhia de membros do exército, conduziram três experiências com armas nucleares pouco antes do final da Segunda Guerra Mundial, uma na ilha alemã de Ruegen, no outono de 1944, e duas na Alemanha Oriental, no Estado de Turíngia, em março de 1945. Os testes, acrescenta Karlsch, mataram mais de setecentos.

Se esta teoria estiver certa, seria preciso reescrever a história.

Desde o dia em que os Aliados ocuparam os laboratórios do Terceiro Reich e interrogaram os cientistas mais importantes em atividade na Alemanha, que trabalhavam em projetos sob a supervisão do engenheiro nuclear em chefe Werner Heisenberg e do seu colega Carl Friedrich von Weizsäcker, é tido como certo que os cientistas de Hitler ainda estavam muito longe de conseguir construir uma arma nuclear completa.
A editora de Rainer Karlsch, a alemã Verlags-Anstalt, já está divulgando anúncios inflamados, garantindo que o livro traz "descobertas sensacionais das mais recentes pesquisas históricas [sobre a Alemanha nazista]".

O Terceiro Reich, afirma a editora, estava "prestes a chegar primeiro na corrida para adquirir a primeira arma nuclear operacional". Até mesmo antes de o livro ser publicado, esta editora, que geralmente costuma mostrar-se mais reservada, enviou kits de imprensa para os meios de comunicação, nos quais ela sustenta que o autor havia desvendado "um dos maiores mistérios do Terceiro Reich".
O livro foi apresentado na última segunda-feira (14/03) por ocasião de uma coletiva de imprensa minuciosamente organizada. Karlsch, um acadêmico não-afiliado, planeja realizar uma extensa turnê para divulgar o seu livro.

O único problema com todo esse estardalhaço é que o historiador não tem prova real alguma para embasar a sua teoria espetacular.

Os depoimentos que ele colheu ora carecem de credibilidade, ora são desprovidos de qualquer conhecimento imediato dos eventos descritos no livro. Os documentos que, conforme Karlsch insiste em afirmar, constituem peças-chave para sustentar a sua tese, podem, na verdade, ser interpretados de diversas formas, algumas das quais contradizem a sua teoria.

E finalmente, as análises de amostragens do solo que foram colhidas até este momento nos locais onde essas bombas teriam sido detonadas não fornecem "nenhuma indicação de que houve a explosão de uma bomba atômica", segundo informações que foram fornecidas por Gerald Kirchner, da agência federal alemã de proteção contra radiações.

Rainer Karlsch passou vários anos em arquivos pesquisando o seu assunto, no decorrer dos quais ele descobriu muitos documentos desconhecidos sobre a história da ciência durante o Terceiro Reich.

Entre eles está um manuscrito de um dos discursos de Heisenberg (Werner Heisenberg, físico, 1901-1973) que os historiadores até então davam como perdido. Por si só, este manuscrito teria constituído uma descoberta significativa, mas isso não era o bastante para satisfazer Karlsch nem para embasar plenamente a sua teoria fora do comum.

Em conseqüência disso, para dar asas à sua teoria, ele foi obrigado a arriscar alguns saltos especulativos.

O efeito bazuca

Por um lado, Karlsch se concentra na pessoa de Erich Schumann, um cientista que serviu o exército alemão como diretor de pesquisas da divisão de armas até 1944.

Em meio ao conjunto de bens que pertenceram a Schumann, Karlsch descobriu anotações e relatórios redigidos no período do pós-guerra. Schumann, que era um antigo professor de física, escreveu que em 1944 ele descobrira um método para gerar as altas temperaturas (vários milhões de graus Celsius) e a pressão extrema necessárias para desencadear a fusão nuclear, utilizando para isso explosivos convencionais. A bomba de hidrogênio baseia-se neste princípio.

Durante a Segunda Guerra Mundial, especialistas em explosivos realizaram experiências com cargas ocas --formadas essencialmente por dispositivos explosivos cavados na sua parte interna-- que possuem uma força de impacto e de penetração extremamente elevada.
O sucesso da bazuca é baseado neste efeito e Schumann acreditava que ele poderia aplicá-lo a uma arma nuclear. Ele tomava por certo que uma quantidade suficiente de energia para a fusão nuclear seria liberada se duas cargas ocas fossem percutidas uma contra a outra.
Esta é uma teoria que merece ser considerada seriamente. No entanto, Schumann nunca reivindicou ter testado a sua teoria na prática. Mesmo assim, Karlsch acredita que ele realizou esta experiência. Ele garante que Schumann expôs as suas idéias numa conferência que ocorreu no outono de 1944.

O autor então especula que, sob as ordens de oficiais da SS (força paramilitar nazista), uma equipe de físicos pesquisadores dirigida por Kurt Diebner, um rival de Heisenberg, pôs a descoberta para funcionar.

Karlsch baseia a sua teoria em parte em declarações feitas por Gerhard Rundnagel, um encanador que trabalhava a serviço da força de segurança da Alemanha Oriental, a Stasi. Nos anos 60, a Stasi tomou conhecimento de rumores que estavam circulando no antigo Estado alemão de Turíngia segundo os quais teria ocorrido uma detonação nuclear na região em 1945. 

Rundnagel contou aos serviços de inteligência que ele tivera contatos com a equipe de pesquisas dirigida por Kurt Diebner. Ele acrescentou que um dos engenheiros do grupo lhe dissera que havia "duas bombas atômicas dentro de um silo blindado".

Mais tarde, Rundnagel chegou a afirmar que as duas bombas haviam sido lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. A despeito desta inconsistência, Karlsch acredita que o homem deveria ser levado a sério.

Uma argumentação repleta de buracos

O maior buraco na argumentação de Karlsch provém da sua incapacidade de comprovar de que maneira o grupo de Diebner conseguiu pôr em prática as idéias de Schumann.

Segundo Karlsch, Diebner e seus colegas utilizaram um dispositivo especial que combinou a fissão e a fusão nucleares juntas para iniciar uma reação em cadeia. Contando com a ajuda de engenheiros, Karlsch produziu um desenho para representar tal arma, que ele apresenta no seu livro. Joachim Schulze, um especialista em armas nucleares do Instituto Fraunhofer, na Alemanha, examinou o modelo de Karlsch e disse que ele "não poderia funcionar, de maneira alguma".

Uma outra teoria que Karlsch apresenta no seu livro --a de que a marinha alemã havia realizado um teste com uma arma nuclear na ilha de Ruegen, no Mar Báltico-- não é menos que fantástica.
A sua testemunha-chave é Luigi Romersa, um antigo repórter de guerra do jornal milanês "Corriere della Sera". Por anos a fio, Romersa, um romano que hoje tem 87 anos, andou contando a história de como ele visitou Hitler em outubro de 1944 e foi então enviado de avião para uma ilha no Mar Báltico.

Romersa conta que ele foi levado para um abrigo onde foi testemunha de uma explosão que produziu uma luz brilhante, e que os homens que trajavam roupas de proteção o levaram então do local, dizendo-lhe que ele acabara de testemunhar a explosão de uma "bomba de fissão".
Infelizmente, Romersa não se lembra do nome da ilha que ele diz ter visitado, nem de quem era responsável pela realização deste evento estranho.

Karlsch acredita que era Ruegen. Ele simplesmente descarta o fato de que uma análise do solo não mostrou nenhum indício de que teria havido uma explosão nuclear, concentrando a pesquisa nos níveis de erosão.

Um testemunho mais confiável é aquele de uma moradora da Turíngia, que faleceu recentemente, Clare Werner. Em 4 de março de 1945, Clare, que estava caminhando numa encosta nas proximidades, testemunhou uma explosão que ocorreu numa área de treinamento militar, perto da cidade de Ohrdruf.

"Aconteceu por volta das 21h30; de repente eu vi alguma coisa ... era algo tão brilhante quanto centenas de relâmpagos, era vermelho na parte interna e amarelo na parte externa, tão brilhante que era possível ler o jornal. Tudo aconteceu tão rápido, e então nós não vimos mais nada. Apenas pudemos constatar que havia um vento muito forte..."

A mulher disse que passou a sofrer então de "sangramentos no nariz, dores de cabeça e pressão nos ouvidos".
No dia seguinte, Heinz Wachsmut, um operário que trabalhava para uma companhia local de escavação, recebeu a ordem de ajudar os SS a construir plataformas de madeira sobre as quais os cadáveres dos prisioneiros eram cremados.

Segundo Wachsmut, os corpos estavam cobertos por horríveis ferimentos provocados por queimaduras. Assim como Clare Werner, Wachsmut relata que muitos habitantes da região se queixaram de dores de cabeça, e que muitos deles cuspiam sangue.

Segundo o relato de Wachsmut, vários oficiais SS de alta patente contaram às pessoas que uma experiência havia sido realizada com alguma coisa nova, uma coisa a respeito da qual o mundo inteiro logo estaria falando. É claro, não houve qualquer referência a armas nucleares.

Será que Stalin ouviu relatórios sobre a arma?

E o que dizer das 700 vítimas, supostamente prisioneiras do campo de concentração, que, segundo Karlsch, teriam morrido durante os testes? 
Essa estatística impressionante nada mais é que uma estimativa baseada na quantidade de locais onde se procedia à cremação dos corpos, até onde Wachsmut consegue se lembrar.

Contudo, na data da suposta detonação da bomba, no campo de concentração de Ohrdruf, que era parte do complexo mais amplo de Buchenwald, foram registrados não mais que 35 mortos.
Um outro elemento de prova que Karlsch menciona é um relatório dos serviços de espionagem do exército soviético que foi redigido em março de 1945.

Segundo este documento, que cita uma "fonte confiável", os alemães "provocaram duas importantes explosões em Turíngia". E o espião soviético acrescentou: presume-se que as bombas continham urânio 235, um material utilizado na fabricação de armas nucleares, e que elas produziram um "efeito fortemente radioativo".

Os prisioneiros de guerra que se encontravam à proximidade do local da explosão foram mortos, "e, em muitos casos, os seus corpos foram completamente desintegrados".

Os espiões do Exército Vermelho manifestaram a preocupação de que o exército alemão pudesse "tornar a nossa ofensiva mais lenta" com a descoberta desta nova arma.

O fato de o ditador Josef Stalin ter recebido apenas uma das quatro cópias deste relatório mostra que o Kremlin não levou essas notícias tão a sério assim.

Infelizmente, o documento que Karlsch apresenta é de uma qualidade tão questionável que não permite determinar claramente se o relatório que descreve as explosões foi redigido antes ou depois da detonação que Clare Werner diz ter testemunhado.

O que é mais importante, contudo, é que aquilo que Clare Werner garante ter visto não poderia ser uma detonação de uma bomba do tipo daquela que o informante alemão descreveu para o serviço de espionagem do Exército Vermelho.

Aquele tipo de artefato teria exigido vários quilogramas de urânio fortemente enriquecido, que os alemães não possuíam, conforme acreditam todos os especialistas, inclusive Karlsch.

Existe um único especialista que, conforme esperam o autor e o seu editor fanfarrão, pode dar sustentação às teorias de Karlsch. Uwe Keyser, um engenheiro de física nuclear que trabalha no Instituto Federal de Física e de Tecnologia de Braunschweig, na Alemanha, está analisando atualmente amostragens do solo da área do campo de concentração de Ohrdruf.

Keyser acredita que os níveis de radioatividade das substâncias que ele conseguiu detectar até agora são suficientemente atípicos para que a explosão de um dispositivo nuclear simples não seja descartada.

É claro, a radioatividade que Keyser diz ter detectado poderia também ter sido causada por processos que ocorrem normalmente na natureza, ou por algum material que foi abandonado pelas forças soviéticas que estiveram estacionadas em Ohrdruf até 1994, ou ainda por partículas radioativas que foram geradas pelo desastre de Chernobyl, em 1986, ou mesmo por testes com armas nucleares que teriam sido realizados por uma das superpotências.

Keyser afirma que ele precisa de "cerca de um ano" para desenvolver uma análise mais precisa. Ele também precisa de alguém que "assine embaixo" suas teorias, e que continue a pagar as suas contas.

Klaus Wiegrefe,

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Hiroshima - relato de um sobrevivente


Quando a bomba veio vi um clarão amarelo e fiquei rodeada pela escuridão. Um edifício de madeira com dois andares que era a minha casa com oito quartos ficou feito em pedaços e cobriu-me.
Quando vim a mim estava tudo negro como breu à minha volta. Tentei levantar-me mas tinha uma perna partida. Tentei falar mas vi que tinha partido seis dentes. Quando reparei que tinha a cara e as costas queimadas, que tinha um corte que ia do ombro até à cintura, rastejei até à margem do rio e quando lá cheguei vi centenas de corpos a boiar. Foi aí que percebi, chocada, que tinham atingido toda a cidade de Hiroshima.
Encontrei uma fila infindável de refugiados todos sem qualquer peça de roupa no corpo e a pele da cara, dos braços e do peito fora arrancada e estava pendurada e, contudo, eles não tinham qualquer expressão. Fugiam em silêncio profundo. Achei que era uma procissão de fantasmas.
Relatos de sobreviventes
Paul Tibbets
Hiroshima, 6 de agosto de 1945 - 08:15
http://obviousmag.org
Leia mais: http://obviousmag.org/archives/2005/08/hiroshima_6_de.html#ixzz1S0lektV8

domingo, 25 de abril de 2010

E agora, Josef?

Com o fim da guerra, União Soviética estende tentáculos vermelhos no mundo e preocupa líderes ocidentais - Stalin deve esperar retirada das tropas dos EUA na Europa antes de agir - Milhões de refugiados sofrem com indefinições

Dois democratas, um ditador: Churchill e Truman com Stalin na Conferência de Potsdam

Se, por um lado, a rendição incondicional do Japão colocou um celebrado ponto final aos 6 anos de guerra que açoitaram o globo, por outro trouxe numerosas interrogações a respeito do futuro que aguarda as dezenas de nações envolvidas nos combates. E as maiores incógnitas orbitam sobre a União Soviética. A irrepreensível ofensiva do Exército Vermelho na Europa oriental, que posicionou a Mãe Rússia no Velho Continente, causa agora arrepios nas potências ocidentais, pelo temor de que o importuno Josef Stalin coopte Estados do Leste europeu para o comunismo. Como se não bastasse, o mandachuva do Kremlin também mete seu taludo bigode na China, terra estratégica para os interesses dos americanos no Pacífico. Esses dois cenários afunilam-se em uma mesma questão: tentará Stalin estender seu poderio na esteira da recém-finada refrega?

Não é segredo para ninguém que o "Homem de Aço" dos bolcheviques pretende arrebanhar mais adeptos para a causa vermelha. Entretanto, analistas internacionais acreditam que, ao menos no front europeu, o líder soviético não agirá de imediato. De acordo com fontes russas, Stalin deve esperar o retorno das tropas americanas para casa - o finado presidente Franklin Roosevelt indicara que essa retirada se estenderia por dois anos - para somente então colocar suas mangas de fora.

Já na Ásia, a tensão entre soviéticos e americanos é latente, em especial na China - que, com a queda nipônica, assume a posição de potência continental. Os russos apóiam o comunista Mao Tsé-Tung contra o nacionalista Chiang Kai-Shek, aliado de primeira hora dos ianques. O poder da China tende a aumentar na medida em que os Aliados pretendem neutralizar por completo o Japão, ocupando-o, desarmando-o e tratando-o como um inimigo potencialmente perigoso. A operação é importante porque os vitoriosos querem evitar que, a exemplo do que ocorreu com os alemães após a Grande Guerra, a derrota gere um renascimento do militarismo, incorporado na figura de Adolf Hitler. Na Coréia, onde apenas União Soviética e Japão têm tropas disponíveis para desarmar os rendidos nipônicos, a separação está clara: os vermelhos ocuparão o Norte e os americanos, o Sul.

Voltando para casa - Mas não é só no âmbito político que a paz está gerando tantas indefinições. Sem comida, sem moradia e sem pátria, milhões de refugiados estão ziguezagueando pela Europa. Alemães estão sendo expulsos da Silésia e da Polônia, enquanto os tedescos que fugiram dos bombardeios em suas cidades estão voltando para recuperar seus pertences em meio ao que sobrou de suas residências. Com medo da dominação comunista, habitantes de países do Leste europeu estão fugindo do Exército Vermelho. Judeus que heroicamente sobreviveram ao campos de concentração estão procurando portos a fim de embarcar para a Palestina.

Cinco milhões de prisioneiros de guerra russos e trabalhadores forçados também estão voltando para a casa, sem saber o que os espera. No total, estima-se que 20 milhões de pessoas estejam em trânsito no Velho Mundo. Estas são auxiliadas pela Administração das Nações Unidas para Assistência e Reabilitação (UNRRA, na sigla em inglês). Fundada em 1943 para acudir refugiados de nações perseguidas pelo Eixo e financiada primariamente pelos Estados Unidos, a agência tenta colocar ordem no caos deixado pela guerra. Terá, é certo, muito trabalho pela frente.

VEJA, Agosto de 1945

Revista Veja na História

A derrota do vencedor

Grande artífice do triunfo militar na Europa, Winston Churchill perde eleição na Grã-Bretanha - 'Devorador de Alemães' deixa o cargo de primeiro-ministro - Downing Street agora é ocupada pelo trabalhista Clement Attlee

Queda inesperada: com a esposa, Clementine, Churchill se prepara para deixar o governo

Nos últimos seis anos, período em que a Europa se viu engajada no conflito mais devastador de sua história, Winston Churchill ofereceu aos ingleses seu sangue, suor, labuta e lágrimas. Primeiro como Lorde do Almirantado e depois como primeiro-ministro, o rotundo britânico foi o alicerce sobre o qual empilharam-se as esperanças de toda a nação. No mês passado, porém, os súditos da Casa de Windsor retribuíram de forma pouco gratulatória toda essa devoção durante as eleições gerais na Grã-Bretanha. Sem pestanejar, defenestraram Churchill de Downing Street, enxotando assim o homem que venceu o duelo contra Adolf Hitler - a partir de agora, o notável estadista só poderá despachar com Nelson, seu gato persa de estimação, presença permanente em seu escritório.

A esmagadora vitória do Partido Trabalhista contra os Conservador e seus aliados (393 cadeiras contra 213), que tirou do poder o "Devorador de Alemães" - conforme o epíteto cunhado pelo próprio líder germânico -, foi uma surpresa. Durante a campanha, Winnie era ovacionado por onde passava, e seus pares mantiveram a certeza do triunfo até a data da divulgação do resultado oficial, em 26 de julho, três semanas após o sufrágio. No mesmo dia, Churchill entregou sua renúncia ao rei George. No dia seguinte, desocupou a residência oficial de Downing Street ao lado da mulher, Clementine, e da filha, Mary.

Analistas políticos afirmam que o resultado está longe de significar uma derrota pessoal de Churchill - seria, na verdade, a forma encontrada pela população para punir a miséria econômica dos tempos do pré-guerra, fomentada pelos conservadores. De acordo com os especialistas, os britânicos optaram por votar em um partido dedicado à reforma social. De qualquer forma, não adianta explicar isso a Churchill. Acostumado aos galardões, ficou visivelmente atarantado com o revés. O veterano só não deixou de lado a tradicional elegância em relação aos conterrâneos: "Agradeço ao povo britânico pela gentileza". Preocupada com a carga de trabalho extenuante do marido durante os anos de guerra, Clementine ainda tentou animar o inconsolável Churchill, apelando às possíveis vantagens da derrota. "Winston, isso pode ser uma bênção disfarçada", disse, lembrando que o esposo terá tempo livre para voltar a escrever e pintar. "Querida, então ela está muito bem disfarçada", respondeu ele, para quem bênção mesmo é estar no poder....
De charuto a cachimbo - O novo inquilino do número 10 de Downing Street é Clement Attlee, convocado pelo rei George para formar o novo governo - pelo atual sistema eleitoral britânico, a população escolhe só o partido, enquanto o monarca define seu representante máximo. Aos 62 anos, o socialista carequinha é visto por seus colegas como um homem calmo e taciturno, que, ao contrário de Churchill, não deverá se dedicar a longos sermões para os membros de seu estafe. Attlee já afirmou que pretende conduzir o governo como um moderno diretor de empresa, valorizando o diálogo e acatando sugestões de subordinados. Sua primeira missão oficial foi comparecer à conferência de Potsdam, ao lado do presidente dos EUA, Harry Truman, e do líder soviético Josef Stalin.

O novo primeiro-ministro participou do gabinete de guerra do governo de coalizão, desempenhando funções importantes na organização britânica no período dos combates. Mesmo tendo mantido um relacionamento cordial e harmônico durante todo esse tempo, os dois líderes têm suas diferenças - e elas não são pequenas. Além de Churchill fascinar-se pelos charutos e Attlee pelos cachimbos (como, aliás, denunciam seus dentes rotos), o primeiro tem ojeriza ao socialismo, enquanto o segundo repele o estilo centralizador e para alguns ditatorial do predecessor. Churchill não comenta as críticas, mas dá o troco numa alfinetada de mestre: "Attlee é um homem modesto", diz, com sorriso maroto. "E tem muito do que ser modesto mesmo". Touché. O velho Winnie pode até perder nas urnas - mas nas palavras, jamais.

VEJA, Agosto de 1945

Revista Veja na História

Já podemos destruir a Terra

Bombas atômicas são trágicas estrelas cintilantes
do final da guerra - Corrida pela energia nuclear é anterior aos combates - Uso do artefato em Hiroxima
e Nagasaki divide opiniões de militares americanos

Cogumelo incandescente: Hiroxima em 6 de agosto, o primeiro ataque nuclear da História

Quando a notícia de que a primeira bomba atômica fora testada com sucesso chegou a Potsdam, onde as lideranças aliadas reuniam-se em conferência, o americano Henry Stimson, secretário da guerra do governo Truman, exultou. Na noite de 16 de julho, escreveu em seu diário: "Agora, com nossa nova arma, não precisaremos da assistência dos russos para conquistar o Japão." Estava certo. Com somente dois desses fatais artefatos nucleares - os mais poderosos armamentos já vistos no mundo -, os nipônicos baixaram as armas, rendendo-se quase de imediato, sem a necessidade da intervenção do Exército Vemelho de Josef Stalin. Mas de onde veio essa arma que abreviou a resistência nipônica e deixou os americanos em posição tão segura no jogo militar-diplomático?

As origens da bomba atômica remontam a antes mesmo do início dos combates. Cientistas de diversos países já perseguiam o conceito de energia nuclear em meados da década passada. A Alemanha ganhou um trunfo quando invadiu a Noruega, em 1940, e apoderou-se da única planta para a fabricação da água pesada, fundamental para o processo nuclear. Alguns cientistas germânicos, porém, fugindo da perseguição nazista, estabeleceram-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Os britânicos, por sua vez, possuíam estoques de água pesada, mas viram que não contavam com materiais suficientes para criar uma bomba. Assim, concordaram em dividir sua experiência com os EUA. Desta forma, em 1942, instalou-se o ultra-secreto Projeto Manhattan, também com a colaboração do Canadá, destinado a criar a "arma vencedora".

Esta causaria um impacto gigantesco apenas por dividir a menor das partículas da matéria: o átomo. Quando atingido por um nêutron, o núcleo do átomo de urânio-235 - como foi o caso da bomba Fat Man - se parte e libera um fluxo de energia de enormes proporções, além de mais nêutrons. Por sua vez, estes bombardeiam outros núcleos atômicos, dando origem a uma reação em cadeia que gera tamanha quantidade de energia em tão pouco tempo que acaba por provocar uma colossal explosão. Uma quantidade específica de urânio-235, conhecida como "massa crítica", é necessária para engatilhar a reação; dentro da bomba, o urânio é mantido separado em duas partes, reunidas apenas no momento da detonação para formar a "massa crítica" e gerar a explosão....
Uso desnecessário - De acordo com o coronel Leslie Groves, chefe do Projeto Manhattan em Washington, a empreitada custou mais de 2 bilhões de dólares e envolveu uma força de trabalho de cerca de 600.000 pessoas. A título de comparação, a Grande Pirâmide, segundo o relato de Heródoto, requereu 100.000 homens trabalhando durante 20 anos, enquanto a construção da Muralha da China teria envolvido cerca de um milhão de trabalhadores. Foi emblemático que essa monumental operação tenha culminado no revide ao ataque que arrastou os EUA para a guerra: Pearl Harbor, no fim de 1941. Desde então, os japoneses tornaram-se alvo do mais profundo ódio dos americanos - com a ajuda, como foi comum na guerra inteira, de uma raivosa campanha de propaganda. A construção da imagem malévola dos nipônicos funcionou tão bem que os EUA tiveram de prender os imigrantes daquele país em campos de detenção, uma medida que constrangeu o governo mas foi amplamente aceita entre a população.

Assim que a primeira bomba explodiu em Hiroxima, o coronel telefonou para o doutor Robert Oppenheimer, chefe do laboratório de Los Alamos, no Novo México, onde a bomba fora desenvolvida e construída, para congratular os responsáveis pelo momento histórico. "Estou muito orgulhoso de você e de toda sua equipe", afirmou. Nem todos concordam com Groves, porém. Nos bastidores, o almirante William Leary, Comandante da Marinha dos Estados Unidos, argumentou que o uso da devastadora arma no Japão foi moralmente equivocado e militarmente desnecessário, uma vez que o bombardeio convencional já minava as forças japonesas, ainda mais combalidas pela falta de petróleo no país. Outros, contudo, como o general George Marshall, Comandante do Exército, apoiaram Truman em sua decisão. Para ele, o lançamento da bomba atômica faz o Japão render-se rapidamente e evitou a morte de milhares de soldados americanos, baixas que seriam inevitáveis em caso de invasão.

Talvez ainda mais importante, de acordo com fontes em Washington: a capitulação rápida do Império impediu os soviéticos de alcançar Tóquio, permitindo assim que os Estados Unidos fossem a única força a ocupar o Japão, região estratégica para seus interesses no Pacífico - esta sim, talvez a verdadeira (e também pouco justificável) razão para a devastação de Hiroxima e Nagasaki. De qualquer forma, os americanos não carregam só o peso de ter dizimado duas cidades inteiras – a partir de agora, levam nas costas também a responsabilidade pela detenção da tecnologia mais letal já imaginada pelo homem. Cientistas afirmam que o poder de destruição da bomba atômica é tão monstruoso que seria potencialmente capaz de simplesmente destruir a Terra, reduzindo a pó o planeta e varrendo a humanidade do Universo – bastaria produzir artefatos em número suficiente para isso. O pesadelo da guerra pode ter acabado, mas os tempos de paz prometem ser cheios de incerteza e tensão.VEJA, Agosto de 1945

Veja na História

domingo, 7 de março de 2010

Albert Einstein - A Estrada da Paz


Agosto de 1945

Quando bombas atômicas arrasaram Hiroxima e Nagasaki, o físico Albert Einstein foi chamado de responsável indireto pelas tragédias. Neste artigo, ele nega esse papel, sugere a criação de uma nova organização global e se diz alarmado com a hipótese de uma nova guerra: ela aniquilaria a Terra.

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma carta ao presidente Franklin Roosevelt. Eu sabia ser necessária e urgente a organização de experiências de grande envergadura para o estudo e a realização da bomba atômica. Foi o que disse a ele. Conhecia também o risco universal causado pela descoberta da bomba. Mas os sábios alemães se encarniçavam sobre o mesmo problema e tinham todas as chances para resolvê-lo. Assumi, portanto, minhas responsabilidades. Sou, no entanto, um pacifista apaixonado, e minha maneira de ver as coisas não é diferente diante da mortandade em tempo de guerra e diante de um crime em tempo de paz.

Já que as nações não resolvem suprimir a guerra por uma ação conjunta, já que não superam os conflitos por uma arbitragem pacifica e não baseiam seu direito sobre a lei, elas se vêem inexoravelmente obrigadas a preparar a guerra. O horror nesta escalada consiste em sua aparente inevitabilidade. Cada progresso parece a conseqüência inevitável do progresso precedente. Participando da corrida geral dos armamentos e não querendo perder, as nações concebem e executam os planos mais detestáveis. Precipitam-se para a guerra. Mas hoje, a guerra se chama o aniquilamento da humanidade.

"O perigo está em
que cada um, sem
fazer nada, espere
que ajam em seu
favor. Cada um de
nós tem culpa."


Os gênios mais notáveis das antigas civilizações sempre preconizaram a paz entre as nações. Compreendiam sua importância. Agora, esta posição moral é rechaçada pelos progressos técnicos. E nossa humanidade civilizada conhece o novo sentido da palavra paz: significa sobrevivência. A descoberta das reações atômicas em cadeia não constitui para a humanidade perigo maior do que a invenção dos fósforos. Mas temos de empregar tudo para suprimir o seu mau uso. Quando tivermos reconhecido isto, encontraremos então a força de realizar os sacrificios necessários para a salvaguarda do gênero humano. Cada um de nós seria o culpado se o objetivo não fosse atingido a tempo. O perigo está em que cada um, sem fazer nada, espere que ajam em seu favor.

A indústria dos armamentos representa concretamente o mais terrível perigo para a humanidade hoje. Em todos os países do mundo, grupos poderosos fabricam amas ou participam de sua fabricação; em todos os paises do mundo, eles se opõem à resolução pacifica do menor litígio internacional. Contra eles, porém, os governos atingirão este objetivo essencial da paz quando a maioria dos eleitores os apoiar energicamente. Porque vivemos em regimes democráticos e nosso destino e o de nossos povos dependem inteiramente de nós. A vontade coletiva se inspirará nesta intima convicção pessoal. Só a supressão definitiva do risco universal da guerra dá sentido e oportunidade à sobrevivência do mundo. Daqui em diante, eis nosso labor cotidiano e nossa inabalável decisão: lutar contra a raiz do mal e não contra os efeitos. O homem aceita lucidamente esta exigência. Que importa que seja acusado de anti-social ou de utópico? ...
Autoridade internacional - Os progressos da técnica militar tornam possível o extermínio de toda a vida humana, a menos que os homens descubram, e bem depressa, os meios de se protegerem contra a guerra. Este ideal é capital e os esforços até hoje empregados para atingi-lo são ainda ridiculamente insuficientes. Procura-se atenuar o perigo pela diminuição dos armamentos e por regras limitativas no exercício do direito à guerra. Mas a guerra não é um jogo de sociedade onde os parceiros respeitam escrupulosamente as negras. Quando se trata de ser ou de não ser, regras e compromissos não valem nada. somente a rejeição incondicional da guerra pede salvar-nos.

"Não é possível o
desarmamento por
etapas, só de uma
vez por todas. E a
solução é clara -
é tudo ou nada."


Enquanto a possibilidade da guerra não for radicalmente extinta, as nações não consentirão em se despojar do direito de se equipar militarmente do melhor modo prossivel para esmagar o inimigo de uma futura guerra. Não se poderá evitar que a juventude seja educada com os tradições guerreiras, nem que o ridículo orgulho nacional seja exaltado paralelamente com a mitologia heróica do guerreiro, enquanto for necessário fazer vibrar nos cidadãos esta ideologia para a resolução armada dos conflitos. Armar-se significa exatamente isto: não aprovar e nem organizar a paz, mas dizer sim à guerra e prepará-la. Sendo assim, não se pode desarmar por etapas, mas de uma vez por todas ou nunca. A solução é clara: tudo ou nada. Até este momento, os esforços empregados para conseguir a paz fracassaram, porque ambicionavam somente resultados parciais insuficientes.

Não se pode chegar a uma paz verdadeira se se determina sua política exclusivamente pela eventualidade de um futuro conflito, sobretudo quando se tornou evidente que semelhante conflito significaria a completa ruína. A linha diretriz de toda a política deveria ser: Que podemos nós fazer para incitar as nações a viverem em comum pacificamente e tão bem quanto for possível? A eliminação do medo e da defesa recíproca, eis o primeiro problema. A solene recusa de empregar a força, uns contra os outros, impõe-se absolutamente. Tal recusa somente será eficaz se se referir à criação de uma autoridade internacional judiciária e executiva, à qual se delegaria a resolução de qualquer problema concernente diretamente à segurança das nações. A declaração por parte das nações de participar lealmente da instalação de um governo mundial restrito já diminuiria singularmente o risco da guerra. A coexistência pacifica dos homens baseia-se em primeiro lugar na confiança mútua. ...
"Nós não podemos
nos desesperar dos
homens, pois nós
somos homens. A
solução, acredito,
está com o povo."


Uma nova etapa - As gerações anteriores talvez tenham julgado que os progressos intelectuais e sociais apenas representavam os frutos do trabalho de seus antepassados, que conseguiram uma vida mais fácil, mais bela. As cruéis provações de nosso tempo mostram que há aí uma ilusão. Compreendemos melhor agora que os esforços mais consideráveis devem ser empregados no sentido de que nossa herança se torne, para a humanidade, não uma catástrofe, mas uma uma oportunidade. Continuo inabalável neste ponto: a solução está no povo, somente no povo. Não podemos nos desesperar dos homens, pois nós mesmos somos homens. Se os povos quiserem escapar da escravidão abjeta do serviço militar, têm de se pronunciar categoricamente pelo desarmamento geral. Enquanto existirem exércitos, cada conflito delicado se arrisca a levar à guerra.

Que os povos compreendam. Que se manifeste sua consciência. Desta forma galgaríamos uma nova etapa no progresso dos povos entre si e nos recordaríamos do quanto a guerra foi a incompreensível loucura de nossos antepassados. O destino da humanidade repousa essencialmente e mais do que nunca sobre as forças morais do homem. Se quisermos uma vida livre e feliz, será absolutamente necessário haver renúncia e restrição. Desarmamento e segurança só se conquistam juntos. A segurança não será verdadeira a não ser que todas as nações tomem o compromisso de executar por completo as decisões internacionais. Estamos portanto na encruzilhada dos caminhos. Ou tomaremos a estrada da paz ou a estrada já freqüentada da força cega, indigna de nossa civilização. É esta nossa escolha e por ela seremos responsáveis. De um lado, liberdade dos indivíduos e segurança das comunidades nos esperam. Do outro, servidão dos indivíduos e aniquilamento da civilização nos ameaçam. Nosso destino será o que escolhermos.

Albert Einstein ,de 66 anos, é professor de Física na Universidade de Princeton, nos EUA. Alemão naturalizado americano, ele recebeu o Prêmio Nobel em 1921 e realizou dezenas de estudos científicos de espetacular impacto nas últimas décadas.

Revista Veja na História

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A história da bomba atômica e seu genocídio instantâneo




A história da bomba atômica e seu genocídio instantâneo
A história da bomba atômica desde a descoberta da energia nuclear até o massacre de Hiroshima, os colaboradores e inventores desta arma mortal.
por Marco Chiaretti, Flávio Dieguez
O monumento de granito marca o lugar da primeira explosão nuclear produzida pelo homem. Foi às 5h29min45s do dia 16 de julho de 1945, em Alamogordo, Estados Unidos. Ele representa um grande feito científico, mas também é o simbolo de uma vergonha: o uso do conhecimento para construir uma superarma que, menos de um mês depois, dizimou a população civil das cidades deHiroshima e Nagasaki, no Japão.

Por Marco Chiaretti e Flávio Dieguez

A primeira explosão nuclear da História aconteceu em silêncio, na madrugada chuvosa do dia 16 de julho de 1945, numa àrea de testes de bombardeios do exército americano, em Alamogordo, Novo México. Uma luz dura, vinte vezes mais brilhante que a do Sol, acendeu a noite e fez o céu, o deserto e as montanhas próximas ficarem brancos como papel. Apesar da hora, milhares de pessoas, em cinco Estados vizinhos, viram o flash sem ter idéia do que estava acontecendo. Não se ouviu o som.

Muito mais lento do que a luz, o som veio muitos segundos depois. Um estalo seco como um tiro, seguido de um trovão. E uma imensa bola de fogo, com 2 000 metros de diâmetro, levantou-se de repente. Mudando de amarelo para laranja e depois para vermelho, a bola em poucos minutos alcançou 15 quilômetros de altura.

Numa reação automática, manifestou-se o gênio do físico italiano Enrico Fermi (1901 - 1954). Ele calculou quase a olho a energia da detonação: deixando cair pequenos pedaços de papel, quando a onda de choque passou pela casamata em que estava escondido, mediu a distância a que os papéis foram lançados e estimou o poder da energia liberada em pelo menos 10 quilotons. O equivalente a 10 000 toneladas de dinamite. Uma conta excelente, naquelas circunstâncias: o número preciso, como se verificou mais tarde, era de 18 quilotons. De longe, a maior quantidade de energia já produzida de um só golpe pelo homem.

Foi um instânte de imenso urgulho e alegria. Os cientistas, técnicos, militares e políticos reunidos em Alamogordo pularam, gritaram e se abraçaram na lama que a chuva tinha deixado por toda parte. A montagem final da bomba, a partir do segundo semestre de 1944, e o teste em julho de 1945 tinham sido apenas as últimas etapas de uma longa corrida contra o tempo.

Nos três anos anteriores, centenas de milhares de americanos tiveram que ser mobilizados, de engenheiros a trabalhadores da construção civil. Acima de tudo, exigiu-se a colaboração disciplinada de dezenas de físicos, químicos e matemáticos. Um time de cérebros que contava com dez ganhadores do Prêmio Nobel. Sete já haviam sido premiados: o italiano Fermi, o dinamarquês Niels Bohr (1885 - 1962), o alemão Otto Hahn (1879 - 1968) e os americanos Arthur Compton (1901 - 1958) e Harold Urey (1893 - 1981). Três eram futuros escolhidos: o alemão Hans Bethe (1906 - ), o húngaro Eugene Wigner (1902 - 1995) e o americano Richard Feynman (1918 - 1988). Além deles, outros figuravam entre os melhores cientistas da época, como o húngaro John von Neumann (1903 - 1957), um dos maiores matemáticos do século, e o próprio chefe cientifíco do projeto, o americano Julius Robert Oppenheimer (1904 - 1967).

O time aceitou trabalhar voluntariamente, num regime de disciplina militar. Em Alamogordo, uma região seca e arenosa, habitat de escorpiões e cobras, quase deserta de gente, ficava apenas uma parte da equipe. Juntando cientistas, técnicos e soldados, a população chegava a 200. Vida duríssima e sigilo absoluto. Ninguém podia telefonar para fora sem autorização. Nem sair do alojamento, um punhado de barracos levantados às pressas pelo exército em 1944. Aí, durante 10 meses, os pesquisadores trabalharam alegremente, com toda boa vontade.

No final de 1938, o físico italiano Enrico Fermi aproveitou uma ocasião extraordinária para escapar da ameaça de perseguição que sentia em seu país, então sob o domínio fascista. Numa quebra de sigilo sem precedentes, mas justificável naquelas circunstâncias, ele havia sido informado de antemão que ganharia o Prêmio Nobel de Física daquele ano. Então, sabendo que conseguiria uma autorização para ir a Estocomo, na Suécia, receber a láurea, planejou secretamente não voltar mais para a Itália. Fugiu com toda a família para os Estados Unidos.

A chegada de Fermi foi decisiva para que a tecnologia do átomo fosse dominada em apenas três anos __ um feito, na época, inimaginável para a ciência. Ninguém conhecia melhor do que ele a ação de partículas recém-descobertas no núcleo atômico, chamadas nêutrons, que teoricamente poderiam escapar de seu núcleo original e entrar em outro para quebrá-lo. Assim, liberariam a energia estocada lá dentro. Na prática, não era tão simples. O próprio Fermi sabia apenas que os nêutrons penetravam facilmente nos núcleos: não sabiam de que os núcleos se quebravam. A fissão nuclear, nome dado a esse fenômeno, foi comprovada em 1939, um ano depois da fuga para os Estados Unidos.

Mas Fermi tinha certeza, desde o ínicio do século, de que o núcleo representava a mais densa concentração de matéria já vista. E isso significava muita energia. Um único grama de matéria, seja do que for, representa 20 trilhões de calorias, o suficiente para fazer ferver 900 000 toneladas de água. É o que diz a fórmula descoberta por Albert Einstein em 1905, E=mc2. Energia (E) é igual à massa (m) multiplicada pela velocidade da luz ao quadrado (c2). Em 1939, a alemã Lise Mentner usou a fórmula de Einstein para calcular a força gerada durante a fissão do núcleo do urânio.Nem toda a mat´ria virava energia (a conversão não chega a 20%, ainda hoje), mas dava de sobra para projetar uma superarma.

Só faltava demonstrar que, quando um átomo de urânio se quebra, seus fragmentos provocam sucessivamente a quebra de outros núcleos. Ou seja, uma reação em cadeia, que foi demonstrada por Fermi em 1942. Daí em diante, a construção da bomba já não dependia tanto da ciência. Era um problema de tecnologia e de dinheiro, especialmente para produzir e transformsr o urânio comum em combustível (ele precisa ser enriquecido com variedades mais raras de urânio).

A própria guerra, então, daria o empurrão final para a conquista da energia nuclear. Em meados de 1942, os ditadores Adolf Hitler, da Alemanha, e Benito Mussolini, da Itália, haviam dominado toda a Europa continental, da França à Polônia. Diante de tamanha demonstração de força, o presidente dos Estados Unidos, Franklin Roosevelt, resolveu encomendar a arma atômica a uma unidade de engenharia do exército. A ordem foi dada em junho. Em agosto, nasceu o Projeto Manhattan, cuja função era coordenar o trabalho de todos os físicos, químicos, engenheiros, técnicos e operários necessários para execultar a ordem.

O gatilho da revolução atômica foi a ciência pura. Mas, depois de iniciada, teve de ser sustentada por uma mobilização monumental de recursos. Até cidades foram construídas. Algumas saíram do nada, em locais isolados, justamente para garantir o segredo. Existem até hoje. Outras, que também permanecem, foram refeitas. Hanford, então um povoado insignificante e perdido do mundo no estado de Washington, foi invadida, em 1943, por 25 000 trabalhadores. Em menos de um ano, construíram 250 quilômetros de ferrovias, 600 quilômetros de estradas, casas para 40 000 operários e suas famílias, e uma fábrica de plutônio, combustível nuclear como o urânio.

As cidades cresceram em diversos pontos do país, sempre com o mesmo fim: alimentar a superbomba. Das novas fábricas, saíam peças ou combustível. Dos laboratórios, números e medidas. Quantos quilos de urânio ou plutônio seriam necessários? Como detonar a explosão no momento exato? Até que ponto o urânio comum, extraído das minas, precisaria ser misturado com o urânio-235, mais radioativo? Em resumo, os cientistas já não faziam Física pura. Mas só eles eram capazes de manipular as equações descobertas na década anterior para desenvolver a técnologia que estava nascendo.

A direção geral do Projeto Manhattan, que coordenava toda a operação, foi entregue a um general do setor de engenharia do exército chamado Leslie Groves. Era administrador competente e autoritário, conhecido por ter levantado o prédio do Pentágono, a secretaria militar do governo americano. O general estava fora da luta, mas queria combater. Então, deram-lhe a função de "construir o armamento que acabaria com a guerra".

Groves teve o bom senso de escolher um cientista brilhante para comandar o time de gênios: o físico Robert Oppenheimer, que também revelou admirável capacidade gerencial. Voluntariamente, os pesquisadores se submeteram a uma disciplina militar. Confinados aos locais de trabalho, moravam longe de suas famílias. Foram divididos em equipes para que uns não soubessem o que os outros estavão criando. Usavam nomes falsos e escreviam tudo em código. Ficaram proibidos até de pronunciar palavras denunciadoras, como "físico". A vontade de vencer a Alemanha gerou um espírito de cooperação fora do comum.

Houve erros e contratempos. A divisão de tarefas por equipes que não se comunicavam não funcionou pois, entre cientistas, pensar significa trocar e debater idéias. O húngaro Leo Szilard simplesmente não obedeceu as restrições de segurança. E, apesar de ter sido o primeiro a propor a construção da bomba, foi ameaçado por Groves com a acusação de traidor. O americano Richard Feynman, outro rebelde incorrigível, se divertia quebrando códigos secretos e abrindo os mais complicados cofres com perícia de arrombador. Edward Teller, da Universidade da Califórnia, futuro idealizador da bomba de hidrogênio, muito mais poderosa que a atômica, brigou com Oppenheimer também por causa da disciplina. Queria mais autonomia.

Nada disso, porém, comprometeu a eficiência prodigiosa do projeto.

A euforia com o teste de Alamogordo, nos Estados Unidos, durou muito pouco. Foi uma emoção passageira. O estado de espírito dos cientistas era péssimo. Eles já sabiam que o governo americano planejava um ataque nuclear ao Japão, o último inimigo ainda de pé (alemães e italianos já estavam vencidos na Europa).

Numa carta à mãe, o físico Richard Feynman descreveu os sentimentos de quase todos: "Tudo estava perfeito, menos o objetivo". Oppenheimer, chefe da equipe científica, lembrou de um antigo texto hindu: "Eu me tornei morte/Destruidor de mundos". O moral da equipe de gênios caía vertiginosamente nos últimos dias do Projeto Manhattan.

O ânimo já vinha despencando desde a morte do presidente Franklin Roosevelt, em 12 de abril de 1945, com quem os cientistas haviam concordado em trabalhar. Eles não se entederam bem com o novo presidente, o vice de Roosevelt, Hary Truman. Em seguida, com a rendição dos alemães no dia 7 de maio de 1945, a tensão aumentou ainda mais. A derrota nazista, que o resto do mundo recebeu como uma boa notícia, virou fator de preocupação dentro do Projeto Manhattan. O que é fácil de explicar: foi contra Hitler que els tinham se unido e, com o ditador nazista fora do conflito, desapareciam as justificativas pAra a construção de uma arma tão arrasadora. E ainda faltava um mês para o teste de Alamogordo. Foi então que, para tornar tudo ainda mais torturante, às vésperas do teste, veio a informação de que o governo americano estudava a hipótese de empregar a nova arma contra o Japão.

Era o início do pesadelo. Até ali, os cientistas alimentavam a ilusão de que o poder nuclear jamais seria de fato empregado. Na pior das hipóteses, aceitariam lançá-lo contra os nazistas. Truman vacilou entre argumentos contra e a favor. Por fim, decidiu-se. Era o final de julho.

Dois anos antes, a máquina militar já começava a se mover. Desde 1943, a Força Aérea treinava o chamado Esquadrão 509, chefiado por um dos melhores pilotos de bombardeiro do país, o coronel Paul Tibbets. Na Boeing, em Seattle, ele escolheu pessoalmente seu avião, o gigantesco quadrimotor B-29. O que havia de melhor na indústria americana. O objetivo do 509 era lançar uma bomba de 4 000 quilos sobre Hiroshima, fazer uma curva de 180 graus, mergulhar, acelerar e dar o fora.

Hiroshima havia sido escolhida depois que o ministro da Guerra, Henry Stimson, descartou a opção por Kyoto, ex-capital e maior centro religiosodo Japão. Na madrugada de 6 de agosto de 1945, já a caminho do Japão, mas sem saber bem por quê, a tripulação recebeu a ordem de lançar a bomba. Ela partiu do avião às 8h16 da manhãe 43 segundos depois, explodiu.

A cidade ficou coalhada de incêndios. Perto do hipocentro, foco da detonação, gente virava cinza. Quase ninguém, a menos de 5 000 metros do hipocentro, sobreviveu. Em toda a cidade, 50 000 edifícios ruíram. Mais tarde, durante anos, a radiação continuou matando. Até hoje surgem novas vítimas fatais do pikadon, o "raio-trovão", neologismo criado para descrever o indescritível. Elas já são mais de 200 000.

"Os físicos conhecerão a vergonha". A maldição poderia ter vindo de uma das vítimas de Hiroshima ou de Nagasaki. Mas seu autor, paradoxalmente foi um dos arquitetos da bomba, o físico americano Robert Oppenheimer. Que nunca se arrependeu do que fez. Essa ambigüidade __ a mistura de desonra com falta de arrependimento __ foi uma marca que pairou sobre a ciência e dividiu a sua história em duas partes. Antes e ddepois da bomba.

A vergonha ficou porque não há como negar: os cientistas produziram a máquina do genocídio instantâneo conscientemente. Têm a seu favor o fato de que queriam construí-la antes de Adolf Hitler. Mas, então, por que não foram unânimes em condenar o seu lançamento contra Hiroshima e Nagasaki, quando Hitler já estava derrotado na Europa? Por que muitos se conformaram? Tudo leva a crer que quando terminaram a sua parte do trabalho, os cientistas, simplesmente, deixaram que ele fosse completado. Bombas são bombas. Existem para matar gente.

Há nuances, e muitas. O homem que mais lutou para ver a bomba construída foi depois o que mais fez força para impedir que ela fosse usada: o físico húngaro Leo Szilard. Desde 1933, antes de qualquer outro, ele intuiu no que daria a mistura das equações de Einstein com a radioatividade. Nos dez anos seguintes, gastou tempo batendo à porta dos governos inglês e americano para convencê-los de que suas idéias não eram absurdas. Em 1939, Szilard conseguiu que Einstein, um dos gênios de maior prestígio na época, escrevesse uma carta a Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, dizendo que a bomba era factível e que os alemães poderiam construí-la durante a guerra. Mas, depois, tentou evitar o bombardeio de Hiroshima a todo custo. Arrumou encrenca com quem foi preciso. Especialmente com o então poderosíssimo general Leslie Groves, coordenador do projeto. Derrotado, depois do ataque nuclear pediu a um padre para rezar uma missa para os mortos.

No final das contas, Szilard foi apenas ingênuo. Obcecado pelos crimes do nazismko, ele só se deu conta do demônio que havia criado quando já não havia mais como detê-lo. Porque a arma nuclear, mais do que qualquer outra obra humana, trouxe para dentro da ciência o poder do sistema de produção em escala. O projeto da bomba virou indústria: posta em movimento, começou a devorar os seus criadores.

Resumo: ela não acabou apenas com duas cidades japonesas. Ou com o ideal do cientista como benfeitor da humanidade. Ela acabou também com a noção de liberdade. A começar pela pesquisa científica. De 1945 em diante, o Estado passou a impor limites à manipulação de urânio ou de plutônio, que acarreta riscos imensos. Desconhecidos pela humanidade, até então. Os desastres potenciais são muitos, desde a possibilidade de um acidente causar contaminação ambiental por longo período, de até milhares de anos, até o perigo de atentados terroristas com material nuclear. Mas a liberdade também viveu outras limitações. A informação passou a ser a mais vigiada pelas razões de Estado. No mundo em que se seguiu a Segunda Guerra, até mesmo as convicções ideológicas dos cidadãos viraram matéria de segurança nacional. A sombra do cogumelo nuclear destruiu a inocência. Cientifica e política.

Depois do teste de Alamogordo, já não havia mais lugar para a ingenuidade como a de Szilard. Oppenheimer, mesmo sentindo vergonha, parece ter compreendido isso melhor do que seu colega húngaro. Daí porque também não mostrou remorso. não custa lembrar que, quando a história da bomba começou, os Estados Unidos estavam em uma guerra selvagem, na qual o número de atrocidades cometidas pelos vários exércitos superou o de qualquer conflito anterior.

Mesmo depois da rendição da Alemanha, havia argumentos militares muito fortes a favor de usar a bomba contra o Japão. Eles iam muito além da necessidade de derrotar o Japão. O governo dos Estados Unidos alegava que o recurso atômico quebraria o ânimo dos generais japoneses, aparentemente dispostos a prolongar a luta até o seu último soldado. Assim, a bomba poderia custar menos vidas do que a invasão do país com a ajuda de armas convencionais. Pode ser, mas a estratégia americana não era determinada apenas pelo que ia acontecer nos meses seguintes. Estava em jogo, principalmente, o equilíbrio do poder sobre o mundo do futuro. Depois da guerra, restariam duas potências: Os Estados Unidos e a então União Soviética. Isso estava bem claro e pesou decisivamente nos cálculos frios da política com relação ao Japão. Hiroshima e Nagashaki eram uma oportunidade para os americanos ostentarem a força de que despunham.

Há uma ironia na mudança dos tempos, desde a ascensão da ciência, na época do italiano Galileu Galileu (1564 - 1642), até a era nuclear. Galileu foi um dos pais da física moderna, a mesma que projetou a arma atômica. Galileu também é lembrado por sua luta contra o autoritarismo. É famosa a sua frase depois de ter sido obrigado a abandonar a idéia de que a Terra não estava parada e que girava em torno do Sol."No entanto, ela se move", comentou o sabio, apesar da humilhação a que fora submetido. Pode-se dizer, como uma metáfora, que ele enfrentou o imobilismo em defesa do prosseguimento da evolução do conhecimento. E da História. Em 1945, deu-se o oposto. A ciência fez o tempo parar. Restou em Hiroshima um símbolo do horror paralisante causado pelo genocídio instantâneo: um relógio parado, encontrado junto da ponte Aioi, perto do local da detonação. Deixando de marcar os minutos, ele parece dizer que, agora, a Terra já não se move.

O relógio de Hiroshima, num sentido muito real, é um herdeiro maldito de Galileu. Oppenheimer percebeu isso muito bem. Reconheceu que tinha as mãos manchadas de sangue. Não tinha dúvida de que tinha sido um dos personagens centrais de uma tragédia gigantesca. Mesmo assim, não queria voltar atrás. Em mais de uma oportunidade, perguntado, repondeu que faria tudo de novo. Sua trágica lucidez rompe com a ilusão de neutralidade da ciéncia e assume as contradições em que os mais destacados gênios podem sucumbir. A realidade em que vivemos hoje é um paradoxo fatal. Oppenheimer e seus colaboradores fabricaram o instrumento de um genocídiu inominável. Eles não tem perdão. Mas também não tem condenação. No mundo que surgiu depois de Hiroshima e Nagasaki não existe um tribunal com a isenção necessária para julgá-los. A humanidade ficou assim: de uma vez só, é vítima e cúmplice da invenção da bomba atômica.

Revista Superinteressante