Bruna Ventura
Perdendo o medo da radioatividade
Felipe Damasio e Aline Tavares (ilustrações: Lor)
Campinas, 2010, Autores Associados
148 páginas
Bruna Ventura
Revista Ciência Hoje

Dois democratas, um ditador: Churchill e Truman com Stalin na Conferência de Potsdam
Se, por um lado, a rendição incondicional do Japão colocou um celebrado ponto final aos 6 anos de guerra que açoitaram o globo, por outro trouxe numerosas interrogações a respeito do futuro que aguarda as dezenas de nações envolvidas nos combates. E as maiores incógnitas orbitam sobre a União Soviética. A irrepreensível ofensiva do Exército Vermelho na Europa oriental, que posicionou a Mãe Rússia no Velho Continente, causa agora arrepios nas potências ocidentais, pelo temor de que o importuno Josef Stalin coopte Estados do Leste europeu para o comunismo. Como se não bastasse, o mandachuva do Kremlin também mete seu taludo bigode na China, terra estratégica para os interesses dos americanos no Pacífico. Esses dois cenários afunilam-se em uma mesma questão: tentará Stalin estender seu poderio na esteira da recém-finada refrega?
Não é segredo para ninguém que o "Homem de Aço" dos bolcheviques pretende arrebanhar mais adeptos para a causa vermelha. Entretanto, analistas internacionais acreditam que, ao menos no front europeu, o líder soviético não agirá de imediato. De acordo com fontes russas, Stalin deve esperar o retorno das tropas americanas para casa - o finado presidente Franklin Roosevelt indicara que essa retirada se estenderia por dois anos - para somente então colocar suas mangas de fora.
Já na Ásia, a tensão entre soviéticos e americanos é latente, em especial na China - que, com a queda nipônica, assume a posição de potência continental. Os russos apóiam o comunista Mao Tsé-Tung contra o nacionalista Chiang Kai-Shek, aliado de primeira hora dos ianques. O poder da China tende a aumentar na medida em que os Aliados pretendem neutralizar por completo o Japão, ocupando-o, desarmando-o e tratando-o como um inimigo potencialmente perigoso. A operação é importante porque os vitoriosos querem evitar que, a exemplo do que ocorreu com os alemães após a Grande Guerra, a derrota gere um renascimento do militarismo, incorporado na figura de Adolf Hitler. Na Coréia, onde apenas União Soviética e Japão têm tropas disponíveis para desarmar os rendidos nipônicos, a separação está clara: os vermelhos ocuparão o Norte e os americanos, o Sul.
Voltando para casa - Mas não é só no âmbito político que a paz está gerando tantas indefinições. Sem comida, sem moradia e sem pátria, milhões de refugiados estão ziguezagueando pela Europa. Alemães estão sendo expulsos da Silésia e da Polônia, enquanto os tedescos que fugiram dos bombardeios em suas cidades estão voltando para recuperar seus pertences em meio ao que sobrou de suas residências. Com medo da dominação comunista, habitantes de países do Leste europeu estão fugindo do Exército Vermelho. Judeus que heroicamente sobreviveram ao campos de concentração estão procurando portos a fim de embarcar para a Palestina.
Cinco milhões de prisioneiros de guerra russos e trabalhadores forçados também estão voltando para a casa, sem saber o que os espera. No total, estima-se que 20 milhões de pessoas estejam em trânsito no Velho Mundo. Estas são auxiliadas pela Administração das Nações Unidas para Assistência e Reabilitação (UNRRA, na sigla em inglês). Fundada em 1943 para acudir refugiados de nações perseguidas pelo Eixo e financiada primariamente pelos Estados Unidos, a agência tenta colocar ordem no caos deixado pela guerra. Terá, é certo, muito trabalho pela frente.
VEJA, Agosto de 1945
Revista Veja na História
Queda inesperada: com a esposa, Clementine, Churchill se prepara para deixar o governo
Nos últimos seis anos, período em que a Europa se viu engajada no conflito mais devastador de sua história, Winston Churchill ofereceu aos ingleses seu sangue, suor, labuta e lágrimas. Primeiro como Lorde do Almirantado e depois como primeiro-ministro, o rotundo britânico foi o alicerce sobre o qual empilharam-se as esperanças de toda a nação. No mês passado, porém, os súditos da Casa de Windsor retribuíram de forma pouco gratulatória toda essa devoção durante as eleições gerais na Grã-Bretanha. Sem pestanejar, defenestraram Churchill de Downing Street, enxotando assim o homem que venceu o duelo contra Adolf Hitler - a partir de agora, o notável estadista só poderá despachar com Nelson, seu gato persa de estimação, presença permanente em seu escritório.
A esmagadora vitória do Partido Trabalhista contra os Conservador e seus aliados (393 cadeiras contra 213), que tirou do poder o "Devorador de Alemães" - conforme o epíteto cunhado pelo próprio líder germânico -, foi uma surpresa. Durante a campanha, Winnie era ovacionado por onde passava, e seus pares mantiveram a certeza do triunfo até a data da divulgação do resultado oficial, em 26 de julho, três semanas após o sufrágio. No mesmo dia, Churchill entregou sua renúncia ao rei George. No dia seguinte, desocupou a residência oficial de Downing Street ao lado da mulher, Clementine, e da filha, Mary.
Analistas políticos afirmam que o resultado está longe de significar uma derrota pessoal de Churchill - seria, na verdade, a forma encontrada pela população para punir a miséria econômica dos tempos do pré-guerra, fomentada pelos conservadores. De acordo com os especialistas, os britânicos optaram por votar em um partido dedicado à reforma social. De qualquer forma, não adianta explicar isso a Churchill. Acostumado aos galardões, ficou visivelmente atarantado com o revés. O veterano só não deixou de lado a tradicional elegância em relação aos conterrâneos: "Agradeço ao povo britânico pela gentileza". Preocupada com a carga de trabalho extenuante do marido durante os anos de guerra, Clementine ainda tentou animar o inconsolável Churchill, apelando às possíveis vantagens da derrota. "Winston, isso pode ser uma bênção disfarçada", disse, lembrando que o esposo terá tempo livre para voltar a escrever e pintar. "Querida, então ela está muito bem disfarçada", respondeu ele, para quem bênção mesmo é estar no poder....
De charuto a cachimbo - O novo inquilino do número 10 de Downing Street é Clement Attlee, convocado pelo rei George para formar o novo governo - pelo atual sistema eleitoral britânico, a população escolhe só o partido, enquanto o monarca define seu representante máximo. Aos 62 anos, o socialista carequinha é visto por seus colegas como um homem calmo e taciturno, que, ao contrário de Churchill, não deverá se dedicar a longos sermões para os membros de seu estafe. Attlee já afirmou que pretende conduzir o governo como um moderno diretor de empresa, valorizando o diálogo e acatando sugestões de subordinados. Sua primeira missão oficial foi comparecer à conferência de Potsdam, ao lado do presidente dos EUA, Harry Truman, e do líder soviético Josef Stalin.
O novo primeiro-ministro participou do gabinete de guerra do governo de coalizão, desempenhando funções importantes na organização britânica no período dos combates. Mesmo tendo mantido um relacionamento cordial e harmônico durante todo esse tempo, os dois líderes têm suas diferenças - e elas não são pequenas. Além de Churchill fascinar-se pelos charutos e Attlee pelos cachimbos (como, aliás, denunciam seus dentes rotos), o primeiro tem ojeriza ao socialismo, enquanto o segundo repele o estilo centralizador e para alguns ditatorial do predecessor. Churchill não comenta as críticas, mas dá o troco numa alfinetada de mestre: "Attlee é um homem modesto", diz, com sorriso maroto. "E tem muito do que ser modesto mesmo". Touché. O velho Winnie pode até perder nas urnas - mas nas palavras, jamais.
VEJA, Agosto de 1945
Revista Veja na História
Cogumelo incandescente: Hiroxima em 6 de agosto, o primeiro ataque nuclear da História
Quando a notícia de que a primeira bomba atômica fora testada com sucesso chegou a Potsdam, onde as lideranças aliadas reuniam-se em conferência, o americano Henry Stimson, secretário da guerra do governo Truman, exultou. Na noite de 16 de julho, escreveu em seu diário: "Agora, com nossa nova arma, não precisaremos da assistência dos russos para conquistar o Japão." Estava certo. Com somente dois desses fatais artefatos nucleares - os mais poderosos armamentos já vistos no mundo -, os nipônicos baixaram as armas, rendendo-se quase de imediato, sem a necessidade da intervenção do Exército Vemelho de Josef Stalin. Mas de onde veio essa arma que abreviou a resistência nipônica e deixou os americanos em posição tão segura no jogo militar-diplomático?
As origens da bomba atômica remontam a antes mesmo do início dos combates. Cientistas de diversos países já perseguiam o conceito de energia nuclear em meados da década passada. A Alemanha ganhou um trunfo quando invadiu a Noruega, em 1940, e apoderou-se da única planta para a fabricação da água pesada, fundamental para o processo nuclear. Alguns cientistas germânicos, porém, fugindo da perseguição nazista, estabeleceram-se na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. Os britânicos, por sua vez, possuíam estoques de água pesada, mas viram que não contavam com materiais suficientes para criar uma bomba. Assim, concordaram em dividir sua experiência com os EUA. Desta forma, em 1942, instalou-se o ultra-secreto Projeto Manhattan, também com a colaboração do Canadá, destinado a criar a "arma vencedora".
Esta causaria um impacto gigantesco apenas por dividir a menor das partículas da matéria: o átomo. Quando atingido por um nêutron, o núcleo do átomo de urânio-235 - como foi o caso da bomba Fat Man - se parte e libera um fluxo de energia de enormes proporções, além de mais nêutrons. Por sua vez, estes bombardeiam outros núcleos atômicos, dando origem a uma reação em cadeia que gera tamanha quantidade de energia em tão pouco tempo que acaba por provocar uma colossal explosão. Uma quantidade específica de urânio-235, conhecida como "massa crítica", é necessária para engatilhar a reação; dentro da bomba, o urânio é mantido separado em duas partes, reunidas apenas no momento da detonação para formar a "massa crítica" e gerar a explosão....
Uso desnecessário - De acordo com o coronel Leslie Groves, chefe do Projeto Manhattan em Washington, a empreitada custou mais de 2 bilhões de dólares e envolveu uma força de trabalho de cerca de 600.000 pessoas. A título de comparação, a Grande Pirâmide, segundo o relato de Heródoto, requereu 100.000 homens trabalhando durante 20 anos, enquanto a construção da Muralha da China teria envolvido cerca de um milhão de trabalhadores. Foi emblemático que essa monumental operação tenha culminado no revide ao ataque que arrastou os EUA para a guerra: Pearl Harbor, no fim de 1941. Desde então, os japoneses tornaram-se alvo do mais profundo ódio dos americanos - com a ajuda, como foi comum na guerra inteira, de uma raivosa campanha de propaganda. A construção da imagem malévola dos nipônicos funcionou tão bem que os EUA tiveram de prender os imigrantes daquele país em campos de detenção, uma medida que constrangeu o governo mas foi amplamente aceita entre a população.
Assim que a primeira bomba explodiu em Hiroxima, o coronel telefonou para o doutor Robert Oppenheimer, chefe do laboratório de Los Alamos, no Novo México, onde a bomba fora desenvolvida e construída, para congratular os responsáveis pelo momento histórico. "Estou muito orgulhoso de você e de toda sua equipe", afirmou. Nem todos concordam com Groves, porém. Nos bastidores, o almirante William Leary, Comandante da Marinha dos Estados Unidos, argumentou que o uso da devastadora arma no Japão foi moralmente equivocado e militarmente desnecessário, uma vez que o bombardeio convencional já minava as forças japonesas, ainda mais combalidas pela falta de petróleo no país. Outros, contudo, como o general George Marshall, Comandante do Exército, apoiaram Truman em sua decisão. Para ele, o lançamento da bomba atômica faz o Japão render-se rapidamente e evitou a morte de milhares de soldados americanos, baixas que seriam inevitáveis em caso de invasão.
Talvez ainda mais importante, de acordo com fontes em Washington: a capitulação rápida do Império impediu os soviéticos de alcançar Tóquio, permitindo assim que os Estados Unidos fossem a única força a ocupar o Japão, região estratégica para seus interesses no Pacífico - esta sim, talvez a verdadeira (e também pouco justificável) razão para a devastação de Hiroxima e Nagasaki. De qualquer forma, os americanos não carregam só o peso de ter dizimado duas cidades inteiras – a partir de agora, levam nas costas também a responsabilidade pela detenção da tecnologia mais letal já imaginada pelo homem. Cientistas afirmam que o poder de destruição da bomba atômica é tão monstruoso que seria potencialmente capaz de simplesmente destruir a Terra, reduzindo a pó o planeta e varrendo a humanidade do Universo – bastaria produzir artefatos em número suficiente para isso. O pesadelo da guerra pode ter acabado, mas os tempos de paz prometem ser cheios de incerteza e tensão.VEJA, Agosto de 1945
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