Mostrando postagens com marcador Movimentos Migratórios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Movimentos Migratórios. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

eterno “outro”


Brasil tem histórico de acolhida e legislação tida como generosa, mas refugiados ainda enfrentam preconceito e marginalização

André Zuzarte e Monique Sochaczewski



Representantes de 12 países assinam em Genebra (1951) a Convenção sobre os Refugiados, cuja contribuição principal foi definir claramente aquela condição. (Foto: UN PHOTO)Popole Musenga e Yolande Mabika são judocas congoleses, e foram selecionados para compor uma equipe inédita: o “Time de Atletas Olímpicos Refugiados”, que competirá nos Jogos do Rio 2016. A iniciativa é uma homenagem às dezenas de milhões de pessoas atualmente obrigadas a abandonar seus lares e a buscar abrigo em outros países.

Há três anos vivendo no Rio de Janeiro, Popole e Yolande fazem parte de um contingente de 8.863 refugiados reconhecidos no Brasil, representantes de 79 nacionalidades. A maioria é do Congo como eles, seguidos em número por refugiados de Síria, Angola, Colômbia e Palestina.

Suas vidas se somam a um longo histórico do refúgio no Brasil. Mesmo antes da nossa independência, as Guerras Napoleônicas resultaram na chegada de levas de franceses. Ainda no século XIX vieram os primeiros armênios fugindo de massacres em terras otomanas, assim como judeus que escapavam de pogroms no Império russo. Na Segunda Guerra Mundial, recebemos europeus em busca de proteção. Nos dias atuais, quando o mundo testemunha a pior crise humanitária desde então – sobretudo em função da guerra na Síria – o Brasil volta a ser destino para centenas de refugiados.

As migrações causadas pela Segunda Guerra Mundial provocaram deslocamentos forçados de proporções inéditas: somente na Europa foram cerca de 40 milhões de refugiados logo após o conflito. A urgente necessidade de resposta coordenada entre os países levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a criar a Agência das Nações Unidas para Auxílio e Restabelecimento (ANUAR), responsável por fornecer assistência aos indivíduos até sua repatriação. Inicialmente bem-sucedida, a operação logo teve que enfrentar dilemas complexos, como quando começaram a circular notícias de que muitos dos retornados à União Soviética foram recebidos como traidores, sendo presos ou executados.

Em 1947, a ANUAR foi substituída pela Organização Internacional dos Refugiados (OIR). Sua missão era repatriar refugiados remanescentes nos campos europeus, desde que isso fosse feito de forma voluntária. Caso o estrangeiro não quisesse voltar à terra natal, estimulava-se seu reassentamento em outros países. O acirramento das tensões entre os blocos comunista e capitalista, porém, limitou a atuação da OIR: os comunistas se recusaram a apoiar qualquer ação que não fosse a repatriação, o que tornou a organização por demais dependente dos recursos dos Estados Unidos. A OIR foi extinta em 1951, mas em seu curto período de vida foi responsável por reassentar mais de 1 milhão de pessoas. Criado em 1950, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) deu continuidade aos trabalhos. A criação da nova organização foi seguida pela instituição da Convenção de 1951, principal instrumento legal internacional a regular sobre a questão do refúgio. Ambos representam os pilares do regime internacional de refugiados que vigora até hoje A principal contribuição da Convenção foi definir claramente o que é um refugiado: qualquer pessoa que se encontre fora de seu país de origem e que não possa (ou não deseje) regressar por “fundados temores de perseguição devido à sua raça, religião, nacionalidade, associação a determinado grupo social ou opinião política”. Tal definição, porém, nascia limitada no tempo e no espaço: sua aplicação se restringia a europeus deslocados por eventos anteriores a 1º de janeiro de 1951. Somente a partir da década de 1960, diante do crescimento do número de refugiados de países subdesenvolvidos, é que este ponto foi revisto. Com o Protocolo de 1967, o conceito de refugiado tornou-se de fato universal, ampliando o alcance de atuação do ACNUR. O Brasil teve ativa participação na implementação da OIR. Enquanto o órgão não alcançava o montante necessário para sua efetivação – que deveria ser depositado pelos países-membros – uma Comissão Preparatória iniciava os trabalhos de assistência e proteção aos refugiados. O diplomata Hélio Lobo era vice-presidente da comissão e ali desempenhou um importante papel, propondo planos de ação entre os países e buscando estimular a opinião pública brasileira a favor do acolhimento. Porém, diante da crescente resistência interna em depositar os recursos exigidos, o Brasil foi rebaixado à condição de ouvinte quando a OIR entrou em vigor: embora continuasse a receber refugiados em conjunto com a organização, não podia mais participar de suas decisões. Mesmo assim, de 1947 até 1950 mais de 20 mil indivíduos foram reassentados no país.

A diplomacia brasileira se recuperaria do rebaixamento na OIR. O país foi o primeiro do Cone Sul a ratificar a Convenção de 1951, e posteriormente aderiu ao Protocolo de 1967. Na década de 1980, diante do crescente número de refugiados no continente por conta do acirramento do conflito na Colômbia entre o governo e as FARC e da eclosão de guerras civis em Nicarágua, El Salvador e Guatemala, foi preciso elaborar uma resposta regional à questão. Com a Declaração de Cartagena (1984), a definição de refugiado foi ampliada: refugiado é todo aquele que tenha saído de seu país devido à grave e generalizada violação de direitos humanos. Embora de difícil aplicação, esta definição seria incorporada à lei de refúgio brasileira em julho de 1997, o que a faz ser considerada uma das mais avançadas e generosas do mundo.



Construção de reassentamento de refugiados após a Segunda Guerra, em vilarejo da Grécia, promovida pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). (Foto: UNN PHOTO)Na prática, quem ajuda os refugiados no país – em parceria com o ACNUR e o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) – são organizações da sociedade civil. As Cáritas Arquidiocesanas do Rio de Janeiro e de São Paulo, por exemplo, trabalham com acolhimento, assistência social, jurídica e psicológica de refugiados e solicitantes de refúgio. Trata-se de organismos criados pelo Conselho Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos anos 1970, no contexto de ditaduras do Cone Sul, em que perseguidos políticos necessitavam de auxílio.

Nos últimos anos vêm surgindo iniciativas complementares. Em 2010 foi criado em São Paulo o Adus – Instituto de Reintegração do Refugiado, que busca conscientizar a população sobre o drama dessas pessoas, numa tentativa de amenizar preconceitos e inseri-los no mercado de trabalho.

Em julho de 2015, a partir da plataforma social “Atados”, teve início o projeto “Abraço Cultural”, também em São Paulo. A proposta é que os refugiados recebam treinamento e se tornem professores de suas línguas maternas ou de idiomas nos quais tenham fluência. Além de gerar renda, o projeto promove a troca de vivências e a quebra de barreiras culturais com os alunos. Deu certo e se estendeu ao Rio de Janeiro. “Nunca havia pensado em dar aulas de árabe, mas agora adoro. Percebi que não só consigo ensinar, como gosto de falar sobre minha língua e cultura. Fico feliz também em perceber que os alunos são interessados e acabam se tornando meus amigos”, relata o sírio Adel Bakkour, que chegou ao Brasil em setembro de 2012.

A despeito dessas experiências bem-sucedidas, persistem velhas formas de exclusão que são empecilhos para que os refugiados reconstruam suas vidas de forma digna. O racismo, a dificuldade de lidar com culturas vistas como exóticas e o temor de que o estrangeiro concorra por vagas no mercado de trabalho são alguns obstáculos que os relegam à marginalização. Muitos vivem marcados como o eterno “outro”, aquele que, apesar de acolhido, não pode gozar dos mesmos benefícios dos cidadãos que nasceram aqui.

Iniciativas como o Abraço Cultural são fundamentais para se romperem esses espaços de exclusão. Elas permitem que os refugiados reassumam o controle sobre suas vidas, buscando alternativas e negociando diretamente os termos de sua integração. Só assim podem deixar para trás o papel de vítimas e objetos de assistência humanitária, aqueles a quem as opções são sempre impostas, nunca negociadas.

Multiplicar canais de diálogo entre brasileiros e refugiados pode contribuir para a redução dos estigmas aqui, e servir de exemplo para muitos países onde ainda há resistência em acolher e oferecer reais oportunidades de uma vida nova e autônoma para essas pessoas.

André Zuzarte é doutorando em Relações Internacionais na PUC-Rio e autor da dissertação “O milhão restante, o Brasil e a evolução da proteção internacional a refugiados (1946-1952)”, (FGV, 2014). Monique Sochaczewski é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e autora da tese "O Brasil, o Império Otomano e a Sociedade Internacional: Contrastes e Conexões (1850-1919)”, (FGV, 2012).

Saiba Mais

CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Cidadão do Mundo. São Paulo: Editora Perspectiva, 2010.
KOIFMAN, Fábio. Imigrante Ideal: o Ministério da Justiça e a entrada de estrangeiros no Brasil (1941-1945). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
LESSER, Jeffrey. A negociação da identidade nacional. Imigrantes, minorias e a luta pela etnicidade no Brasil. São Paulo: Unesp, 2001.
NETO, Helion Póvoa; SANTOS, Miriam de Oliveira; FERREIRA, Ademir Pacelli & VAINER, Carlos Bernardo (orgs.). A experiência migrante: entre deslocamentos e reconstruções. 1. ed. Rio de Janeiro: Garamond/ Faperj, 2010.
Revista de História da Biblioteca Nacional

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os indesejáveis

Política imigratória do Estado Novo escondia projeto de branqueamento

CARLOS HAAG

"Navio de emigrantes", de Lasar Segall (1939/41), pintura a óleo com areia sobre tela, 230 x 275 cm

Quando, em 1995, o Arquivo Histórico do Itamaraty foi aberto ao público, parte da documentação revelou que a instituição havia participado da política racista e discriminatória de estrangeiros do Estado Novo, colocando o passado do Ministério das Relações Exteriores na incômoda posição de “porteiro do Brasil”. Uma nova pesquisa, Imigrante ideal (Civilização Brasileira), do historiador Fábio Koifman, da Universidade Federal Rural Fluminense (UFRF), isenta o Itamaraty de toda a responsabilidade por essa política restritiva. “É um equívoco historiográfico, já que se ignora que, entre 1941 e 1945, o Serviço de Visto estava alocado no Ministério da Justiça, o real responsável pela palavra final da aceitação ou não de estrangeiros”, diz Koifman. Esse foi o único momento na história da República que a atribuição não esteve no âmbito do Itamaraty.

O pesquisador afirma que é a primeira vez que se analisa o papel central do Ministério da Justiça, de seu titular, o jurista Francisco Campos (1891-1968), e de Ernani Reis (1905-1954), parecerista do ministério, burocrata que, através de sua interpretação, dizia, baseado na legislação, quem entrava ou não no país. Suas sugestões quase sempre eram aceitas pelo ministro e se baseavam na seleção dos imigrantes “desejáveis”, que se encaixassem no projeto de “branqueamento” da população brasileira da ditadura Vargas. Negros, japoneses e judeus, assim como idosos e deficientes, não estavam nos padrões estabelecidos e eram recusados como “indesejáveis”.

A pesquisa de Koifman começou quando ele encontrou o decreto-lei 3.175, de 1941, que passava o poder de decisão de concessão dos vistos do Ministério das Relações Exteriores para o Ministério da Justiça. Mas o Serviço de Visto em si não foi criado por decreto, embora existisse com papel timbrado e tudo. Não foi, porém, instituído formalmente e sua verba vinha de outros órgãos. “Ele foi criado para isolar seus técnicos e tomar as decisões de forma puramente técnica e fria. Eles achavam mais fácil negar o visto do que ter de decidir no porto”, conta o historiador. “Todo o processo não chegou a conhecimento público e é nele que o Francisco Campos explica para Vargas por que o Brasil deveria restringir a imigração”, fala.

Funcionários do Itamaraty eram obrigados a informar o ministério com detalhes sobre a pessoa que pedia o visto e aguardar o parecer do ministro para concedê-lo ou não. A desobediência de diplomatas às diretrizes do ministério provocava ação direta de Vargas, que poderia determinar a instauração de inquérito administrativo ou até a demissão sumária do infrator. “Esse controle aumentou quando a situação europeia se agravou com a guerra e a escalada do antissemitismo na Alemanha. Judeus e perseguidos políticos começam a sair da Europa, gerando um aumento da demanda nos consulados. Nesse momento, a política imigratória brasileira se voltou contra eles.”

“No início do Estado Novo cabia ao Itamaraty gerir a política de vistos, mas isso mudou a partir de 1941. Essa troca refletia o debate na elite brasileira sobre qual era o imigrante ‘desejável’ para o ‘aprimoramento’ do povo brasileiro”, fala Koif-man. Vargas era simpatizante aberto do ideário eugênico. Em 1930, num discurso de campanha à Presidência, avisou: “Durante anos pensamos a imigração apenas em seus aspectos econômicos. É oportuno obedecer agora ao critério étnico”. Em 1934, durante a Constituinte, o lobby eugenista, bem organizado, conseguiu a aprovação de artigos baseados nas teorias racistas. O alvo, então, era o japonês. De forma silenciosa foi institucionalizado um sistema de cotas para cada nacionalidade que foi manipulado para restringir a entrada de orientais no país.

“O Brasil não foi o único a adotar medidas restritivas contra imigrantes e até ‘demorou’ a implantá-las. Democracias como os EUA e o Canadá já o faziam nos primeiros anos da década de 1920”, lembra o autor. Mas, uma vez iniciado o processo, foram rápidos. Não satisfeitos com as leis de 1934, setores da elite e intelectuais exigiram uma maior intervenção do Estado e uma seleção mais rigorosa na política imigratória. O resultado foi o decreto-lei 3.010, de 1938: exigia-se do solicitante de vistos que se apresentasse pessoalmente ao cônsul para que o diplomata visse o candidato e relatasse se era branco, negro, ou se tinha alguma deficiência física. “Segmentos letrados da sociedade brasileira e muitos homens do governo, incluindo Vargas, acreditavam que o problema do desenvolvimento brasileiro estava relacionado à má formação étnica do povo. Achavam que trazendo ‘bons’ imigrantes, ou seja, brancos que se integrassem à população não branca, o Brasil em 50 anos se transformaria em uma sociedade mais desenvolvida”, conta o pesquisador.

O estrangeiro ideal era branco, católico e apolítico. A preferência pessoal de Vargas era pelos portugueses. “A maioria dos imigrantes vindos de Portugal era de origem modesta e instrução limitada, acostumados à ditadura salazarista”, diz Koifman. Europeus, mas sem “ideias dissolventes”, ao contrário dos grupos intelectualizados originários da Alemanha, França, Áustria, entre outros países, que produziam reflexões em jornais e livros sobre as mazelas nacionais. O ministro da Justiça detestava particularmente os intelectuais estrangeiros e chegou a propor o fechamento total do Brasil à imigração enquanto durasse a guerra na Europa, medida que o pragmatismo de Vargas rejeitou.

“O Brasil, que não contribuiu para que se criassem na Europa as perseguições e as dificuldades de vida, não pode se converter numa fácil hospedaria da massa de refugiados. Não nos serve esse white trash, rebotalho branco que todos os países civilizados refugam”, argumentava Campos, também conhecido como “Chico Ciência”. “Um dos inspiradores intelectuais do Estado Novo foi influenciado pelos fascismos português e italiano, defendendo uma legislação imigratória calcada nas teorias eugênicas americanas.” Para Campos, na contramão do entusiasmo pela imigração em voga no país desde o século XIX, estrangeiros só atrasavam o desenvolvimento do país, “parasitas” que nada contribuíam para o progresso nacional. “Os judeus, por exemplo, só se dedicavam a atividades urbanas, ao pequeno comércio. O problema é que Campos e Reis logo perceberam que essas eram as mesmas atividades às quais os portugueses se dedicavam, apontando a Vargas essa contradição, para ira do ditador, que queria imigrantes de Portugal”, fala Koifman.

O que abalou Campos, cuja ideologia não era isenta de interesses pessoais. Chico Ciência disputava as atenções de Vargas com Oswaldo Aranha, então à frente do Itamaraty. Para atacar o rival, martelava a tecla de que, apesar das restrições, estrangeiros continuavam a entrar no Brasil, prova da incompetência do Itamaraty na gestão da questão imigratória. Bem-sucedido, convenceu o ditador da validade de suas ideias e ganhou o poder de seleção de “desejáveis” e “indesejáveis” para o seu Setor de Vistos. Não conseguiu, porém, impor o ideário eugênico que admirava, sendo obrigado a “tropicalizá-lo”. “As raças admiradas pelos americanos eram minoria num país composto majoritariamente por grupos considerados ‘inferiores’”, lembra o historiador. Isso levou Campos a se concentrar no combate aos imigrantes “infusíveis” que, supostamente, tinham um grau de miscigenação baixo e, logo, não serviam ao projeto de “branqueamento” por miscigenação, entre esses, os judeus.
Passaporte cancelado pelos nazistas, mas aceito pelas autoridades brasileiras

“Mas as restrições à entrada de judeus, tema recorrente nos estudos sobre a política imigratória do Estado Novo, devem ser vistas num contexto maior, em que vários outros grupos foram igualmente classificados como “indesejáveis”. Se a condição de judeu dificultava a emissão de um visto, a comprovação da ausência dessa condição tampouco era garantia de um visto”, avisa Koifman. Para o pesquisador, o antissemitismo de um fascista como Campos não era análogo ao racismo dos nazistas. “Após a Intentona Comunista de 1935 o Estado adotou uma visão genérica dos judeus que os associava ao comunismo, um antissemitismo de fundo político compartilhado por Vargas”, observa o pesquisador. Nas palavras de Campos: “Os judeus se tem aproveitado do descuido das autoridades brasileiras. Embora o Brasil não seja fascista ou nacional-socialista, o certo é que esses elementos comunizantes, socialistas, esquerdistas ou liberais leem por uma cartilha que está longe de nos convir”.

Sem negar o antissemitismo de membros individuais do governo e da sociedade brasileira, Koifman acredita que o critério adotado mais importante, ao lado da “ameaça vermelha”, era a capacidade, ou não, da suposta capacidade de “fusão” dos imigrantes. “A preocupação estava no potencial de união de europeus brancos com descendentes de africanos e indígenas, condição necessária para conseguir o ‘aprimoramento’ das gerações futuras”, fala. “O Estado Novo não queria reproduzir o racismo, então muito em voga nos EUA e na Europa. A segregação deveria ser evitada a qualquer custo, pois dificultaria a miscigenação, força-motriz do ‘branqueamento’”, diz. Vargas não tolerava racismos contra grupos étnicos dentro do Brasil.

Esse cuidado também se devia à manutenção de uma boa imagem internacional, para agradar, em especial, os EUA, cuja política racial para os outros não refletia a sua realidade interna. “Ser acusado de racista ativo, nas décadas de 1930 e 1940, colocava qualquer nação, diplomata ou intelectual, em posição constrangedora de alinhamento com a política de exclusão da Alemanha nazista”, explica a historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Universidade de São Paulo (USP) e autora do estudo referencial Antissemitismo na era Vargas (1987). “Ainda assim o Estado Novo, por meio do Ministério da Justiça e de uma política nacionalista, não admitia fissuras, combatendo grupos migrantes, vistos como elementos de ‘erosão’. O ideal do regime era a homogeneidade em detrimento da diversidade”, continua.

Ambiguidades
Para o brasilianista Jeffrey Lesser, da Emory University e autor de A questão judaica no Brasil (1995), é preciso cuidado ao retratar as políticas de imigração da época apenas com base em documentos oficiais, do Itamaraty ou do Ministério da Justiça. “Os escritos dão conta das ambiguidades que regiam essa política. Como explicar, por exemplo, a entrada expressiva de judeus logo após os decretos restritivos e a absorção expressiva desses grupos ao lado de árabes e japoneses na sociedade brasileira em fins dos anos 1930”, questiona. Para ele, houve muita incongruência entre discurso e prática, gerando curiosos paradoxos. “Os imigrantes viraram o discurso eugênico de brancura, que os discriminava, em favor de seus interesses e conseguiram conquistar um espaço na sociedade. Perceberem que ser branco no Brasil era melhor do que ser negro e também adotaram a retórica eugênica.”

“Há uma série de boletins policiais sobre brigas entre estrangeiros e negros. Imigrantes pobres não queriam ser vistos como os novos escravos e afirmavam sua superioridade atacando os negros”, conta Lesser. Se os documentos contam uma história, no cotidiana do Estado Novo o movimento xenófobo não funcionou como pretendido. O brasilianista não nega o discurso contra a imigração e o antissemitismo das elites brasileiras, mas, ao estudar casos reais, viu que a ação do governo era mais flexível do que letra “dura” dos papéis timbrados. “Um bom exemplo é que, antes de colocar em vigor, em 1934, as leis que restringiam a entrada de japoneses, o governo brasileiro avisou o ministro das Relações Exteriores do Japão. Um diplomata brasileiro contou ao ministro japonês o que estava para acontecer e o acalmou prometendo que os orientais continuariam a entrar no Brasil, utilizando cotas de países como a Finlândia, que praticamente não eram usadas”, conta. Lesser reuniu outros casos do “jeitinho brasileiro” de tratar os entraves da legislação.

Para o americano, a história mais rocambolesca dessa flexibilidade que não se lê nos arquivos oficiais é a cooptação secreta pelo Itamaraty de funcionários do consulado alemão, para que eles falsificassem a assinatura do cônsul, liberando imigrantes para entrar no Brasil. “Numa palestra chamei o cônsul de nazista e pessoas da plateia ficaram indignadas, mostrando vistos assinados pelo cônsul, a quem chamavam de herói, sem imaginar que eram falsificações”, conta.

Koifman respeita a hipótese de Lesser sobre uma “negociação” das leis, mas afirma que os documentos do Serviço de Visto não sustentam essa visão. “A lei foi, sim, aplicada, e a maleabilidade estava condicionada à origem do imigrante. Basta ver a questão pouco conhecida dos suecos: eles tinham colônia representativa no país e tampouco se interessavam em imigrar para o Brasil, mas o Serviço de Visto estava particularmente interessado na vinda deles” observa.

Como revela o caso de um sueco que passou mal numa viagem, desembarcou para se tratar e, quando percebeu, já estavam tratando do seu visto. Ele não queria ficar no país. “Ao mesmo tempo, muitas pessoas com todas as condições de emigrar, que tinham os documentos necessários, enfrentavam medidas protelatórias e pareceres que dificultavam sua entrada, se não fosse o ‘imigrante ideal’. Isso mostra como os critérios se baseavam na bandeira da eugenia”, explica. Para Koifman, isso desmascara o discurso nacionalista e a flexibilidade com as leis, reduzidos à sua real dimensão: a utopia de aprimoramento étnico. 
 Revista FAPESP

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Refugiados de ontem e de hoje

Keila Grinberg compara a situação das pessoas que fogem atualmente dos conflitos na Tunísia, na Líbia e no Egito com a dos judeus na época do Holocausto.

Keila Grinberg


Refugiado da Líbia em acampamento da Organização das Nações Unidas na Tunísia. Milhares de líbios estão fugindo da guerra civil que se instalou no país após manifestações contra o atual governo. (foto: Spencer Platt/ Getty Images – CC BY 2.0)
Impossível não lembrar do comissário Salvo Montalbano, criação do escritor italiano Andrea Camilleri (1925-), ao ler no noticiário as últimas sobre os milhares de refugiados da Tunísia e da Líbia recentemente chegados a Lampedusa, pequena ilha italiana localizada entre a Tunísia e a Sicília.

O comissário, geralmente sisudo e meio mal-humorado, assistia a um desembarque de tunisianos na cidade imaginária de Vigata, na Itália, quando viu um menininho saltar do barco de mãos levantadas, em sinal de rendição.

“Afinal, de que buraco do inferno vinha aquele garoto”, perguntou-se Montalbano, “se já com tão pouca idade havia aprendido aquele terrível gesto de mãos ao alto, que certamente não tinha visto nem no cinema nem na televisão?”

A imagem é famosa: tirada no gueto de Varsóvia, mostra um menino de casaco e boné com um soldado nazista apontando a arma por trás“A resposta veio rápida: de repente, dentro de sua cabeça, houve uma espécie de relâmpago, um verdadeiro flash. E, dentro desse relâmpago de curta duração, o caixote, o beco, o porto, a própria Vigata, tudo desapareceu e depois ressurgiu reconstituído no granulado preto-e-branco de uma velha fotografia, vista muitos anos antes mas batida havia mais tempo ainda, durante a guerra, antes que ele nascesse, e que mostrava um menininho judeu, ou polonês, com as mãos para o alto, os mesmos olhos arregalados, a mesma vontade de não começar a chorar, enquanto um soldado apontava o fuzil contra ele.” (Guinada na vida, Record, p. 46)

A imagem é famosa demais para merecer descrição minuciosa: tirada no gueto de Varsóvia (Polônia), ela mostra em primeiro plano um menino de casaco e boné com um soldado nazista apontando a arma por trás.


Foto tirada em 1943, quando os soldados nazistas capturaram os últimos habitantes do gueto de Varsóvia (Polônia), onde centenas de milhares de judeus foram confinados em condições sub-humanas durante o Holocausto. (foto do relatório de Jürgen Stroop para Heinrich Himmler)Hoje considerada uma das imagens mais fortes e emblemáticas do Holocausto, ela foi objeto, recentemente, de investigação do professor Dan Porat, da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel), que sobre ela escreveu o livro The boy: a Holocaust story (Hill and Wang, 2010). Porat queria saber quem era o tal menino, se ele tinha sobrevivido à guerra.

Não foi o primeiro: em A child at gunpoint: a case study in the life of a photo (Aarhus University Press, 2004‏), o pesquisador Richard Raskin se fez a mesma pergunta. E sugeriu que o impacto causado pela foto está no fato de ela propiciar, como poucas, a identificação entre o observador e o menino.

Hoje ninguém tem dúvidas de que lado está quando vê aquela foto – embora naquela época alguns não tivessem essa certeza. Da mesma forma, Montalbano não hesitou, na história de Camilleri, em tentar ajudar o pequeno refugiado, que o acabou enredando em uma trama que só lendo (e vale muito a pena ler!).

Imigrantes rejeitados
As revoltas que resultaram na deposição dos presidentes da Tunísia e do Egito, bem como na guerra civil que cerca o governo de Muammar Kadhafi na Líbia, produziram, como em qualquer conflito de grandes proporções, um grande número de refugiados.


Manifestantes protestam em uma cidade a 50 km da capital da Líbia contra o regime de Muammar Kadhafi. (foto: Flickr/ Reuters/ Ahmed Jadallah – CC BY 2.0)Só que, enquanto os Estados Unidos e a Europa celebram os movimentos como sinal de modernização e valorização da democracia, nem querem ouvir falar de mais imigrantes em seus territórios.

Há alguns meses, o governo francês emitiu um comunicando declarando que não aceitará nenhum imigrante tunisiano que não seja portador de visto válido. E o ministro da Alemanha rejeitou em fevereiro passado a proposta da Itália de redistribuir os refugiados por vários países.

Pouca gente vem se sensibilizando com os cerca de 30 mil refugiados da Tunísia, da Líbia e do EgitoSem contar o comissário Montalbano e a agência que cuida da questão dos refugiados na Organização das Nações Unidas (ONU), além de algumas outras organizações não-governamentais, parece que pouca gente vem se sensibilizando com os cerca de 30 mil refugiados da Tunísia, da Líbia e do Egito, que desde o início dos protestos em janeiro deste ano vêm tentando chegar à Europa, geralmente por mar.

Destes, estima-se que 800 tenham morrido nos últimos quatro meses em naufrágios. O episódio mais drástico talvez tenha sido o do barco que saiu da Líbia em março, segundo o jornal britânico The Guardian, com 72 passageiros. À deriva no Mediterrâneo por falta de combustível, 61 pessoas acabaram morrendo de fome e de sede, enquanto esperavam o socorro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que não chegou.

Pode parecer meio piegas acabar esta coluna lembrando que refugiado é refugiado, independente de época, lugar, cor e religião. Mas, assim como aqueles que assistiram àquela cena do gueto de Varsóvia provavelmente não sentiram a menor identificação com o garoto, talvez por ele ser judeu, estamos deixando passar algo ao não darmos a devida atenção ao que está se passando agora, neste momento, no Mediterrâneo, talvez por estarmos tratando de refugiados muçulmanos.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Revista Ciência Hoje

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Chávez Ravine: uma história americana


photos from Chavez Ravine: 1949: A Los Angeles Story

Chávez Ravine: uma história americana
Durante a década de 1950, a comunidade mexicana em Los Angeles resistiu à polícia e ao preconceito. Mas acabou expulsa da terra que ocupara durante mais de um século

por Yuri Vasconcelos

A manhã quente e poeirenta de 8 de maio de 1959 marcou a vida de Manuel Arechiga e sua família. Naquele dia, eles foram arrastados de suas casas por policiais e expulsos do local onde viveram por mais de 30 anos. Aos berros, agarrando-se em móveis e tudo o mais que encontrasse pela frente, Abrana, a matriarca, exigia que a deixassem ficar. Aurora, a filha mais velha, foi presa. A brutal cena foi registrada por fotógrafos e emissoras de televisão que cobriam a expulsão da última família de Chávez Ravine, uma comunidade pobre da periferia de Los Angeles, na Califórnia. Menos de uma hora depois, tratores colocavam abaixo o lar dos Arechiga.

Os fatos ocorridos em Chávez Ravine são a síntese de uma história marcada por injustiça, intolerância e especulação imobiliária. Para entender por que os Arechiga e tantos outros foram privados de seu lar, é preciso recuar no tempo. Uma década antes da expulsão, 300 famílias viviam em Chávez Ravine. Lá, imigrantes mexicanos se misturavam a descendentes das pessoas que ocuparam a região desde quando ela ainda nem ficava nos Estados Unidos.

A comunidade ficava encravada num vale ao norte de Los Angeles, cercada por um extenso bosque chamado Parque Elysian. No passado, Chávez Ravine já havia abrigado uma aldeia de índios, uma fazenda de gado e um cemitério judeu. Seu nome homenageava Julian Chavez, um dos primeiros líderes da região, que comprara aquelas terras em 1840 – quando a Califórnia ainda era do México. Em cem anos, os três pequenos povoados (La Loma, Palo Verde e Bishop) que compunham o bairro de 1,3 quilômetro quadrado criaram um estilo de vida auto-suficiente. Plantavam, criavam animais e educavam as crianças numa escola local, isolados da metrópole que se agigantava. Era uma xangrilá dos despossuídos.

O destino de Chávez Ravine começou a mudar em 24 de julho de 1950, quando lá chegou um ofício emitido pela Autoridade de Habitação de Los Angeles. Em 26 linhas, ele informava que o local havia sido escolhido para um projeto de reurbanização e que todos deveriam abandonar suas casas. Elas dariam espaço para 24 edifícios de 13 andares e 163 residências de dois pavimentos, que formariam um empreendimento batizado de Colinas do Parque Elysian. Os cerca de 1100 moradores do local, prometia a carta, teriam prioridade na ocupação das novas moradias. A notícia caiu como uma bomba na comunidade, que não havia sido consultada sobre qualquer insatisfação com o lugar onde morava.

Alguns recusaram-se a sair, mas muitos, atraídos pelo valor da desapropriação – quase sempre injusto –, deixaram para trás suas casas, seus amigos e suas memórias. Entre eles a família do jovem Albert Elias, nascido em Palo Verde, em 1931. “Certa noite, nós estávamos jantando e meu pai disse: ‘Vendi a casa. Eles me ofereceram 9 600 dólares. Achei que estava bom’”, recorda-se Elias, em depoimento ao fotógrafo Don Normark, autor do livro Chávez Ravine, 1949: A Los Angeles Story (“Chávez Ravine, 1949: Uma história de Los Angeles”, inédito no Brasil). Segundo Normark, que no final da década de 1940 registrou o dia-a-dia da comunidade em centenas de fotos (como as desta reportagem), o projeto tinha boas intenções. “Perto do centro da cidade, com apenas 40% de sua área ocupada, Chávez Ravine parecia oferecer aos planejadores e arquitetos uma oportunidade ideal para melhorar a vida daqueles moradores de baixa renda”, disse. Mas a iniciativa não traria benefício algum para os que lá viviam.

Naqueles tempos de pós-guerra, os Estados Unidos viviam uma histeria anticomunista. Qualquer pessoa suspeita de simpatia com o regime soviético era convocada a se explicar. A chamada “caça às bruxas” destruiu reputações e condenou centenas de inocentes à prisão. E o que isso tem a ver com Chávez Ravine? Simples: os críticos do programa de reurbanização se valeram da paranóia e taxaram seus autores de socialistas, uma vez que o projeto tinha como finalidade distribuir casas aos mais necessitados. Um dos maiores defensores do projeto, Frank Wilkinson, diretor da Autoridade de Habitação de Los Angeles, foi chamado para depor, em agosto de 1952, no Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado. Ficou calado e foi acusado de ser um agente comunista. Perdeu o emprego e passou um ano na cadeia.

No ano seguinte, o projeto Colinas do Parque Elysian foi abandonado e a área foi vendida para a prefeitura de Los Angeles. Chávez Ravine foi, aos poucos, se transformado em uma cidade-fantasma. Água e luz foram cortadas, não havia coleta de lixo. A maioria das casas havia sido demolida e outras eram usadas para treinamento do Corpo de Bombeiros. Poucas famílias, como os Arechiga, ainda viviam clandestinamente no local.

É aí que entra o último grande personagem dessa história: Walter O’Malley, dono de um time de beisebol, os Dodgers. Ele queria tirar a equipe de Nova York, onde não conseguira lugar para construir um estádio. Sonhava levá-la para um outro grande mercado, a Califórnia (nos Estados Unidos, os times de beisebol têm donos, que podem levá-los para onde quiserem. Seria como o Flamengo deixar o Rio de Janeiro para se instalar em Fortaleza). No início de 1957, o prefeito de Los Angeles, Norris Poulson, percebeu a grande oportunidade: de um lado, um terreno ocioso, do outro, um empresário querendo construir um estádio que geraria novos negócios. Não teve dúvidas: cedeu a área, praticamente de graça, para O’Malley erguer a arena dos agora Los Angeles Dodgers. “Gastamos milhares de dólares e os Dodgers ficaram com tudo por apenas uma pequena fração do valor. Foi uma tragédia para o povo e uma das coisas mais hipócritas que poderia acontecer à cidade”, disse Frank Wilkinson no documentário Chávez Ravine: A Los Angeles Story, dirigido por Jordan Mechner e musicado por Ry Cooder (veja quadro na pág. 58).

A negociata, no entanto, gerou controvérsia, já que o vale deveria ser destinado a um bem público. O prefeito Poulson foi acusado de ter feito um acordo espúrio com o dono dos Dodgers. Os apoiadores da venda, entre eles o ator Ronald Reagan (que se tornaria, nos anos 1980, presidente dos Estados Unidos), acusavam os oponentes de ser “inimigos do beisebol”. Na época, uma campanha liderada pelo jornal Los Angeles Times difamou os moradores de Chávez Ravine. Com requintes de racismo contra descendentes de mexicanos, a comunidade foi acusada de abrigar plantações de maconha e esconderijos de bandidos. A celeuma só foi resolvida com um plebiscito, em dezembro de 1958. Por uma margem inferior a 2%, a população de Los Angeles deu a vitória aos Dodgers.

Em 1959, a polícia de Los Angeles foi terminar o serviço. E então voltamos à manhã onde começamos este texto. Depois que os policiais o tiraram de sua casa e os tratores demoliram seu lar, Manuel Arechiga ainda acampou, durante cinco dias, sobre os destroços. Em vão. Quatro meses depois, começaram as obras do estádio, que foi inaugurado em 10 de abril de 1962. Com capacidade para 56 mil pessoas, é, até hoje, a “casa dos Dodgers”, como dizem os americanos. Pouca gente, no entanto, conhece a história por trás da construção do estádio, que maculou a tão propalada democracia americana. “A lição fundamental é que líderes civis e burocratas com grandes projetos precisam respeitar a face humana de uma cidade tal qual a encontraram”, afirmou, ao jornal Los Angeles Times, o historiador Ronald Lopez, especialista em estudos sobre comunidades mexicanas nos Estados Unidos.

Atualmente, os antigos moradores de Chávez Ravine formam um grupo chamado Los Desterrados e encontram-se anualmente no Parque Elysian, local que era o playground de sua infância. Com o estádio dos Dodgers ao fundo, fazem piquenique com suas famílias e contam velhas histórias de uma comunidade que vivia em paz e harmonia e acabou sendo destruída pelo crescimento da grande metrópole.


Lado B
Ry Cooder lançouum disco sobre o fimda comunidade


Mais conhecido como produtor da banda Buena Vista Social Club, que redescobriu o trabalho de geniais músicos cubanos, o guitarrista e compositor americano Ry Cooder sabia muito pouco sobre Chávez Ravine quando foi convidado, há quatro anos, pelo fotógrafo Don Normark para fazer a trilha sonora do documentário Chávez Ravine: A Los Angeles Story. Apaixonou-se pelo projeto e convidou personagens e músicos com origem na própria comunidade para participar da produção da trilha. O resultado foi o álbum Chávez Ravine, um libelo político-social com 15 músicas que contam, por meio da rumba, da polca, do jazz, do R&B e de outros ritmos, um pedaço vergonhoso da história americana. No site www.nonesuch.com/Hi_Band/rycooder, você pode ouvir quatro das faixas do disco, inclusive “Poor Man Shangri-la”, que é um verdadeiro retrato cantado da vida no antigo bairro de Chávez Ravine.
Saiba mais

Livro
Chávez Ravine: A Los Angeles Story, Don Normark, Chronicle Books
Revista Aventuras na História

domingo, 17 de janeiro de 2010

HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS, MAL DOCUMENTADAS E OCULTAS DA MIGRAÇÃO


Alistair Thomson
Centro de Educação Continuada da Universidade de Sussex
Tradução de Magda França Lopes

HISTÓRIAS NÃO REGISTRADAS, MAL DOCUMENTADAS E OCULTAS DA MIGRAÇÃO

O historiador francês Phillipe Joutard escreve que "as migrações modernas ... dificilmente poderiam ser estudadas hoje em dia sem os relatos de primeira mão dos emigrantes"3. Um apelo fundamental e permanente dos profissionais que trabalham com a história oral da migração tem sido que a própria história do migrante pode ser registrada ou mal documentada, e que a evidência oral proporciona um registro essencial da história oculta da migração. Por exemplo, esta foi a motivação de um projeto de história oral iniciado no início da década de 1980 pela Comissão de Assuntos Étnicos de New South Wales, como uma contribuição para a história do bicentenário da Austrália.

(...) as experiências de um grande número de migrantes que vieram para a Austrália não foram registradas e preservadas e, por isso, não estariam refletidas nos escritos e no entendimento da Austrália moderna ... parecia improvável que muitos destes imigrantes fossem capazes de escrever, publicar ou divulgar suas experiências, pois careciam de tempo e de recursos e freqüentemente tinham problemas com a língua inglesa escrita4.

A maior parte das histórias da migração anterior australiana concentrou-se nas políticas de migração e nas atitudes australianas diante da migração, e "os próprios migrantes, suas experiências e seu impacto na sociedade australiana foram relegados a tabelas estatísticas e relatos laboriosos de quem veio quando..."5. Escrevendo no final da década de 1970, Paul Thompson concordou que a história dos grupos de imigrantes foi "principalmente documentada apenas de fora, como um problema social", e que uma "abordagem de dentro... com certeza vai se tornar mais importante na Grã-Bretanha"6. Neste aspecto, a história oral da migração exemplifica o interesse de muitos historiadores nas histórias não documentadas de grupos sociais marginalizados ou oprimidos.

Tal evidência documental sobre a experiência do migrante, como ela existe, pode ser parcial e até enganosa. Por exemplo, em um estudo escrito em 1978 sobre a migração de famílias mineiras para as jazidas de carvão de Kent entre as duas guerras, Gina Harkell comentou sobre a inadequação dos registros escritos preservados nos arquivos do Ministério do Trabalho, que responsabilizavam os elevados índices de rotatividade na força de trabalho pelas condições terríveis das minas. Na verdade, a evidência oral de velhos mineiros sugeria que eles teriam suportado as más condições porque precisavam do emprego, mas o testemunho de suas esposas mostrava que as principais razões por que as famílias dos mineiros deixaram as jazidas de carvão de Kent foram a hostilidade local e a ausência de redes de apoio familiar para as esposas dos mineiros7.

Mesmo quando existem fontes documentais produzidas e preservadas por membros de comunidades migrantes, a evidência oral pode atuar como "um corretivo poderoso", como declarou Bill Williams em seu estudo dos imigrantes judeus em Manchester. A evidência documental que restou era quase inteiramente produto da sociedade inglesa ou de uma elite anglo-judaica, com um assumido interesse pela rápida assimilação e projeção de estereótipos defensivos de uma comunidade judaica coesa e harmoniosa. Dessa forma, "uma história comunal extraída de fontes documentais tende a ser uma reinterpretação do mito comunitário, pois a maior parte dos documentos encontrados foi formulada por aqueles mais interessados em manter os mitos vivos"8. Em contraste, a evidência oral coletada por Williams evocava uma "comunidade" judaica com rígidas distinções internas e interconexões complexas com a sociedade mancuniana9 mais ampla, e demonstrava, por exemplo, que as escolhas ocupacionais dos migrantes judeus mais provavelmente se deviam a redes residenciais do que a estereótipos históricos sobre o caráter e o "espírito empresarial" dos judeus.

Sem querer desviar do assunto, pode ser sugestivo o fato de alguns estudos que enfatizam a importância das evidências da história oral para o estudo da migração no século XX10 fazerem pouco uso de outras formas de testemunho pessoal. As histórias de migrações anteriores — como o assentamento de europeus na Austrália no século XIX — fazem uso extensivo de cartas, diários e memórias de migrantes11. Para alguns casos da migração no século XX tais fontes podem estar indisponíveis; por exemplo, Carolyn Adams explica que isso aconteceu em praticamente toda parte no que se refere aos marinheiros de Silhet que se estabeleceram no distrito oriental de Londres12. Mas fico me perguntando se a oportunidade prontamente apresentada pela história oral para registrar as histórias aparentemente ocultas dos migrantes não substituiu os esforços dos historiadores para descobrir outras formas de testemunho pessoal. É revelador que um subproduto significativo e inicialmente inesperado do projeto de história oral da Comissão de Assuntos Étnicos de New South Wales tenha sido os arquivos pessoais e familiares compostos de cartas, diários, memórias e, acima de tudo, fotografias. É também digno de nota que, nas últimas décadas, escritos comunitários e projetos publicados, como Centerprise e Eastside Writers em Londres ou Gatehouse e Commonword em Manchester, tenham produzido muitos volumes de autobiografias e escritos pessoais e ofereçam um recurso rico e complementar para a história vivida da migração e das comunidades étnicas13. Muitos dos argumentos usados neste artigo sobre história oral poderiam ser aplicados ao uso de outras formas de testemunho pessoal — visual, escrito e oral — como fontes para a história da migração.

Matéria completa com o título - Histórias (co) movedoras: História Oral e estudos de migração
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-01882002000200005&lng=en&nrm=iso&tlng=pt

Revista Brasileira de História

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Êxodo: a longa odisséia humana


Êxodo: a longa odisséia humana
Atrás de comida, terra ou trabalho, a humanidade se move. Desde os caçadores da Pré-História até as hordas de refugiados da atualidade, o homem sempre esteve em busca de um lugar para viver melhor
por Celso Miranda
Nomadismo, fugas em massa, invasões militares, expedições comerciais e colonizações construíram o mundo como nós conhecemos. A primeira dessas viagens tirou da África nossos ancestrais e os espalhou pelo mundo. Há 1,7 milhão de anos, o clima do planeta deu um refresco, o que ocasionou o aumento da população e, conseqüentemente, da fome. E o Homo ergaster pôs o pé na estrada. Depois dele, sucessivas levas de hominídeos – cada vez mais evoluídos – seguiram avançando em busca de melhores condições de vida, até alcançar a Europa, onde, segundo o paleontólogo Richard Leakey, autor de A Origem da Espécie Humana, a presença do homem data de 700 mil anos atrás.

Já em tempos de homem moderno (Homo sapiens sapiens), ocorreu o povoamento do continente americano, um dos episódios mais polêmicos dessa longa história. A tese mais aceita entre os especialistas diz que os primeiros americanos eram caçadores, que há uns 15 mil anos deixaram a Ásia e atravessaram o estreito de Bering, no extremo norte do continente americano. Segundo a antropóloga Sheila Mendonça, da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro, esses homens já conheciam o fogo e produziam ferramentas. Cobertos de peles, deslocavam-se atrás de mamutes, bisões e cavalos em pequenos grupos de 30 a 40 indivíduos. Desconheciam a agricultura e o pastoreio e viviam da coleta de frutos, da caça e da pesca.

Outras teorias sobre a chegada do homem na América têm ganhado força, nos últimos anos, como a da travessia do Pacífico por polinésios. É o que acredita o paleoparasitólogo Adauto Araújo, também da Fiocruz. “Ovos de parasitas comuns entre asiáticos foram encontrados em sítios arqueológicos americanos, mostrando que deve ter havido uma outra rota de penetração no continente, já que sob as baixas temperaturas do norte esses parasitas não teriam sobrevivido”, diz Adauto.

A pé ou navegando o Pacífico, os homens venceram uma aventura e tanto. A natureza exploradora dos “sapiens” e sua capacidade migratória foi um dos fatores de seu sucesso como espécie.

Terra para plantar

Por volta de 8000 a.C., durante o período neolítico, ocorreu a chamada Revolução Agrícola. Com o recuo das geleiras e a melhor definição do clima, os animais (e, com eles, nós mesmos) não tinham mais que andar tanto para conseguir alimentos e passaram a se concentrar em determinadas regiões. O homem começou a conviver mais com os animais e surgiram as primeiras criações de porcos, carneiros e bois. A agricultura surgiu a seguir, quando os homens observaram que algumas sementes que usavam para se alimentar germinavam quando caíam em solo apropriado.

O domínio das técnicas de agricultura deu uma baita vantagem a esses grupos, que rapidamente cresceram e se espalharam. Em busca de terra, eles chegaram às planícies entre os rios Tigre e Eufrates (no atual Iraque), aos vales dos rios Nilo, no Egito, e Amarelo, na China. Ali, encontraram recursos necessários à sua sobrevivência e estabeleceram aldeias, depois cidades e, enfim, civilizações. Mas se engana quem pensa que as despensas repletas de alimentos puseram um ponto final nas andanças da humanidade. Se, quando deixamos de ser nômades, criamos civilizações como a egípcia, a babilônica e a chinesa, com o sedentarismo surgiram novas demandas. “A agricultura primitiva exigia grandes áreas e muita mão-de-obra. Assim, seja para plantar e colher, seja para construir barragens ou simplesmente para deixar o terreno livre, tribos inteiras foram aprisionadas ou expulsas de seus territórios”, diz Hilton da Silva, antropólogo da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Exemplos de diásporas não faltam entre os povos da Antiguidade, como os hebreus e babilônicos.

Na Europa, as levas de povos agricultores chegaram por volta de 3000 a.C.: no sul, eles ocuparam Creta, Chipre e a região Tessália e, mais tarde, deram origem ao mundo greco-latino, enquanto no centro e no oeste serviram de matriz para os povos celtas e germânicos.

Bárbaros e cruzados

O sedentarismo não convenceu a todos e os nômades continuaram a existir e prosperar. O encontro entre esses dois modos de vida nem sempre foi pacífico. Muito antes de o Império Romano estender seus domínios sobre grande parte do mundo, mudanças climáticas, crises demográficas ou a ânsia por novas terras levaram muitos povos a invadir o quintal alheio. As fronteiras simplesmente não existiam, e “país” era aquilo que se podia ou se conseguia defender.

No século 12 a.C., um desses deslocamentos forçados ocorreu quando as tribos dórias, atacadas por nômades vindos da Ásia, avançaram com suas modernas armas de ferro sobre o território grego. A próspera civilização micênica foi destruída e milhares de gregos deixaram a região rumo à Ásia Menor. Grandes cidades como Tirinto e Argos foram arrasadas e a escrita micênica extinta.

Quatro séculos depois, o leste europeu foi abalado por outro violento fluxo populacional. Entre os anos 800 e 400 a.C., tribos originárias das estepes asiáticas forçaram os povos germânicos em direção ao mar Báltico e os celtas, que ocupavam toda a Europa central, foram expulsos. Em 386 a.C., eles cruzaram os Alpes, invadiram a península Itálica e saquearam Roma. Em seguida címbrios e teutônios partiram da atual Dinamarca em direção a Roma. Os romanos sofreram, mas detiveram o avanço e, com o fortalecimento do Império, estabeleceram fronteiras ao longo dos rios Reno e Danúbio.

As linhas de defesa se mantiveram até o século 2, quando novas invasões as romperam definitivamente. Durante mais de dois séculos, tribos germânicas avançaram sobre o império em busca de terras férteis, alimento e abrigo. Foi o exemplo dos godos, talvez os mais avançados entre os povos bárbaros, que haviam partido da atual Suécia em 50 a.C. e no século 3 já ocupavam as atuais Polônia e Alemanha. Ali, onde passaram a ser chamados de visigodos (ou godos do oeste), conviviam numa boa com os romanos. No entanto, algo ocorreu em 376.

“Vagando pelas estepes asiáticas em direção ao oeste a partir de 370, os hunos obrigaram os germânicos a penetrar no Império Romano para se proteger”, diz a historiadora Vânia Fróes, da Universidade Federal Fluminense. Os primeiros foram os visigodos. Em 408, invadiram Roma. Em seguida, cerca de 300 mil suevos, vândalos e alanos cruzaram os Pirineus e entraram na península Ibérica, devastando as províncias romanas. Os anglo-saxões conquistaram o território da atual Inglaterra. Os burgúndios fixaram-se no sul da França e os francos ocuparam o norte.

“Esses deslocamentos populacionais tiveram enorme importância para a história. Não apenas destruíram o Império Romano do Ocidente, como deram origem aos estados nacionais europeus, a partir de um novo sistema político e econômico, o feudalismo”, diz Vânia.

Seiscentos anos depois, a violência novamente motivou um grande deslocamento de pessoas: as Cruzadas. Convocados pela Igreja de Roma, milhares se dispuseram a caminhar até a chamada Terra Santa, ou seja, os territórios da atual Síria e Israel, que estava ocupada por praticantes de outra fé: os muçulmanos. Segundo o historiador britânico Steve Runciman, autor de História das Cruzadas, no entanto, a religião não foi o único motivador da peregrinação. “A Europa vivia um grande crescimento econômico e populacional e as Cruzadas atenderam às pressões por terra e oportunidades”, escreve Runciman. Entre os séculos 11 e 12, durante as nove expedições, cerca de 250 mil europeus se estabeleceram na região.

Mas as Cruzadas tiveram outro impacto para a história da Europa e dos deslocamentos humanos. Elas reabriram o Mediterrâneo para a navegação e reativaram o comércio. Em breve, o homem estaria pronto para sua próxima viagem.

Velas ao mar

As navegações dos séculos 15 e 16 levaram os europeus para a África, a Ásia e, sobretudo, para a América. Dessa vez eram governos, instituições (incluindo as igrejas) e empresas mercantis que queriam colonizar novos territórios. Só no primeiro século de colonização 100 mil espanhóis, 60 mil portugueses, 50 mil ingleses, 20 mil holandeses e 10 mil franceses vieram para cá.

No entanto, foi com a emancipação dos Estados americanos que ocorreu o maior movimento de pessoas da história. Entre 1800 e 1940, 55 milhões de pessoas trocaram a Europa pela América. Nos Estados Unidos, entraram 1,2 milhão de estrangeiros ao ano, durante as duas primeiras décadas do século 20. Brasil e Argentina também abriram suas portas e receberam, nesse período, 12 milhões de pessoas, sobretudo italianos, espanhóis e portugueses. Muitos asiáticos também emigraram para a América, principalmente japoneses para o Brasil e chineses para os Estados Unidos. Todos atraídos pela demanda global por trabalhadores para as lavouras e, depois, para as cidades. “A penetração gradual dos migrantes deu início à formação do atual sistema mundial e à noção de ‘encolhimento’ do mundo. Pessoas e informações começaram a circular mais rápido pelo planeta”, diz o antropólogo Gustavo Lins Ribeiro, da Universidade de Brasília.

Refugiados

Os conflitos do século 20 também provocaram o deslocamento de milhões de pessoas. No período entre uma e outra guerra mundial, os ajustes fronteiriços nos desintegrados impérios Otomano e Austro-Húngaro exigiram migrações sem precedentes. Em 1923, 1 milhão de gregos deixaram a Ásia Menor, enquanto 300 mil turcos fizeram o caminho contrário. As mudanças de fronteiras e de regimes políticos trouxeram à tona um novo tipo de migrante: o refugiado.

Para a Convenção de Genebra, refugiados são pessoas obrigadas a emigrar para fugir de perseguições em virtude de raça, religião ou idéias políticas. E foi para escapar dos hindus que 16 milhões de muçulmanos saíram da Índia, em 1947, após a independência, que dividiu o país e criou o Paquistão. Na África, cerca de 14 milhões de pessoas deixaram suas casas por causa de guerras, fome ou perseguições étnicas, de acordo com o Comitê para Refugiados dos Estados Unidos. Atualmente, a maior população de refugiados é a de afegãos: 4,5 milhões de pessoas. Segundo a entidade, o número de refugiados no mundo após os atentados de 11 de setembro cresceu 2,7%, chegando aos 22 milhões.

Apesar de guerras e intolerância, hoje a maior motivação para as migrações é a procura por trabalho. A chamada migração laboral afeta mais de 135 milhões de pessoas. Em números totais, os Estados Unidos lideram com 35 milhões de imigrantes. Rússia, com 13 milhões, e Alemanha, com 7 milhões, vêm a seguir. Do ponto de vista percentual destacam-se o Kuwait, com 25% de seus postos de trabalho ocupados por estrangeiros, e Singapura, onde os 350 mil emigrantes somam quase 20% dos trabalhadores.

A Declaração dos Direitos Humanos diz que “todos têm direito a circular livremente e a escolher sua residência no território de um Estado”. Apesar disso, nos últimos anos o que se vê é a criação de restrições a esse trânsito. Em 1976, 6% dos países possuíam leis para reprimir a migração. Em 2001, antes do 11 de Setembro, 46% já tinham.

Os migrantes do século 21 são vistos com desconfiança. Se de um lado são necessários para fazer a economia funcionar em países de baixas taxas de natalidade ou nos quais ninguém quer fazer trabalhos braçais, de outro são encarados como aqueles que vão roubar o emprego ou os serviços sociais das populações locais. O migrante, hoje, representa o alienígena social, étnico ou religioso. O homem desse século se esqueceu de que ele também é um estrangeiro, num mundo que é o resultado de milênios de caminhadas de outros homens em busca da sobrevivência.



Diáspora negra
Tráfico de africanosocorreu por 300 anos
O número de seres humanos tirados à força de sua terra natal durante o chamado tráfico negreiro é difícil precisar. Calcula-se que cerca de 12 milhões de pessoas foram caçadas em suas aldeias e vendidas por mercadores muçulmanos e portugueses ou capturadas por outras tribos e trocadas por produtos exóticos. Companhias de comércio holandesas e inglesas fizeram disso um lucrativo negócio no século 17. “Foi quando milhões de escravos foram trazidos para a América”, diz o historiador Fábio Bertonha, do Centro de Estudos de Migrações Internacionais, de Campinas. Embarcados em navios cujas condições insalubres matavam de 40% a 60% das pessoas, os africanos eram levados a mercados espalhados pela América. No Brasil, o tráfico negreiro começou em 1550 e, até meados do século 17, 350 mil africanos foram introduzidos nas plantações de cana. No século 18, esse número chegou a 1,6 milhão. Na primeira metade do século 19, o volume dobrou com a lavoura cafeeira. Até 1850, cerca de 3,3 milhões de africanos foram trazidos à força para o país.

Vida cigana
Sua disposição para enfrentara estrada atravessou séculose chegou aos dias atuais
Em toda a história talvez nenhum povo tenha ficado tão conhecido por suas andanças quanto os ciganos. Na verdade, “ciganos” é um termo genérico para designar a população que migrou da Índia no século 11 em direção ao oeste. Na Pérsia, uma parte deles teria permanecido no Império Bizantino por três séculos e de lá se dividido em dois ramos migratórios: um atravessou o Egito e se instalou no norte da África. Outro seguiu para a Europa, através dos Bálcãs. Apesar de os lingüistas terem descoberto o local de partida desse povo por meio da comparação entre dialetos que compõem a língua cigana, chamada romanês, e antigas línguas indianas, pouco se pode afirmar sobre sua origem. Alguns especialistas sugerem que eles pertençam a um grupo de viajantes muito antigo que nunca parou de se deslocar. Outros supõem que eram povos sedentários forçados a deixar as terras indianas devido ao movimento de expansão de novos grupos. “Diferentemente de outros povos migrantes que se misturaram e deram origem a outros, por formarem um grupo relativamente fechado e estarem sempre em movimento, os ciganos preservaram sua identidade cultural, mesmo se espalhando pelo mundo”, diz a antropóloga Florência Ferrari, da Unicamp. Segundo ela, esse tipo de deslocamento está associado ao modo de ser cigano, à sua cultura, ao seu pensamento. “Os ciganos fazem da viagem um traço cultural distintivo em relação aos gadjé, ou não-ciganos, sabendo que estes vão ver no nomadismo uma diferença”, afirma Florência. O desapego em relação aos países por onde passam – muitas vezes às leis e costumes desses lugares – fez com que os ciganos sejam sempre vistos como estrageiros, não importa onde estejam. Durante a consolidação dos Estados nacionais na Europa, o nomadismo dos ciganos era visto com uma ameaça política. Governos e Igreja desencadearam violentos mecanismos de perseguição. Deportações, torturas e matanças foram praticadas entre os ciganos até data recente. Acredita-se que meio milhão de ciganos tenham sido executados pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial. Essas perseguições foram responsáveis por grandes ondas migratórias de ciganos, inclusive para o Brasil. Mas o nomadismo cigano é muito mais que uma reação às perseguições que enfrentaram. “Quando o povo cigano se vê obrigado a se deslocar, a viagem propriamente dita não é motivo de sofrimento. Não se encontra na cultura cigana nenhum apego ao território, nenhuma saudade de um lugar ancestral. O deslocamento é uma alternativa consciente”, diz Florência.

Saiba mais
Livros

A Origem da Espécia Humana, Richard Leakey, Rocco, 1997 - Sobre a raiz ancestral das migrações humanas

Genes, Povos e Línguas, Luigi Carvalli-Sforza, Companhia das Letras, 2003 - Mapeamento das principais movimentações de povos e civilizações

A Sociedade Feudal, Marc Bloch, Edições 70, 1997 - Para entender as invasões de bárbaros da Europa e as Cruzadas

Revista Aventuras na Historia

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Novos e velhos bárbaros

edição 51 - Janeiro 2008

por João Fábio Bertonha
PORTLAND INDEPENDENT MIDIA CENTER


Imigrantes latinos nos EUA reivindicam direitos no 1o de maio de 2006
O crescente número de imigrantes latinos nos Estados Unidos tem levado alguns setores conservadores a comparar a situação de seu país com a do Império Romano em sua fase final

Uma das maiores tentações para quem olha o passado é fazer analogias ou comparações, buscando, no já vivido, uma lógica ou padrão que permita a compreensão do momento presente. É o que acontece hoje nos debates entre americanos que discutem se o seu país é ou não um império. Nesses debates, o Império Romano é apresentado como o exemplo-chave a ser estudado para evitar que o destino de Roma seja seguido por Washington.

Assim, boa parte da direita americana olha para o cenário do seu país com preocupação ao identificar nele sinais de repetição do processo que levou ao fim do Império Romano, há mais de mil anos, em decorrência da invasão de povos estrangeiros.

É claro que cada setor ou pessoa dentro dessa direita olha para o passado e o avalia conforme suas próprias crenças ou interesses, mas todos vêem na situação atual uma possibilidade de repetição da história. A direita religiosa, por exemplo, tende a ver a queda do Império Romano como um efeito, acima de tudo, da decadência moral que estaria se repetindo na sociedade americana, prenunciando o colapso final.
Uma das analogias mais fortes, contudo, é a que compara os imigrantes estrangeiros atuais aos bárbaros do passado. Lá fora estariam as hordas violentas, miseráveis, numerosas e prontas a forçar sua entrada no interior do império, identificado com a civilização, a democracia, a riqueza e a prosperidade. Na Europa, esse “outro” bárbaro é o muçulmano. Nos EUA, em boa medida, são os latinos e, especialmente,os mexicanos.

Alguns autores chegam a difundir a idéia de que estes estariam querendo reconquistar os territórios perdidos em 1848 por meio da imigração maciça para o Texas, Califórnia e outras regiões próximas. Já outros, como Samuel Huntington, acreditam que o problema é a impossibilidade de assimilar os latinos, dado que sua cultura seria estranha e eles estariam chegando em número exagerado.

A analogia que se constrói é clara. Os romanos não teriam conseguido deter o influxo pacífico e, posteriormente, violento dos bárbaros, e acabaram destruídos. Caberia aos ocidentais, especialmente aos americanos, aprender com esse erro e evitar que o fenômeno se repita, mantendo a vigilância nas fronteiras.

Essa analogia não se sustenta, contudo, historicamente. A migração latina para os EUA está, com certeza, transformando o país, que, em 50 anos, poderá ter um quarto da sua população com origens hispânicas. Como aconteceu com tantos outros povos, porém, os imigrantes latino- americanos acabarão ao mesmo tempo sendo assimilados e transformando a cultura dominante. É quase caricatural associar os mexicanos que chegam em busca de trabalhos humildes com conquistadores bárbaros prontos a invadir o império. Analogias e comparações podem ser excelentes meios de compreender a história, mas respeitar os seus limites é tarefa fundamental.
João Fábio Bertonha é doutor em história pela Unicamp e professor da Universidade Estadual de Maringá. É autor de A imigração italiana no Brasil (Saraiva, 2004), entre outros livros
Revista História Viva