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quinta-feira, 25 de março de 2010

SOCIEDADE PATRIARCAL - 3ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 3ª parte

Publicado na Folha da Manhã, sexta-feira, 23 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

Em artigo anterior tentei sugerir como as noções de "forma" e de "conteudo" ou "substancia", que aparecem com certa frequencia nos ultimos estudos historico-sociologos do sr. Gilberto Freire, podem reduntar e redundam muitas vezes em uma visão acentuadamente particularista de nosso passado e de nosso presente.
Aquelas noções, provindas, em ultima analise, da filosofia social de Simmel, retiram toda a sua força da propria indefinição. É verdade que em Simmel elas não passam, ao menos teoricamente, de simples metaforas. Na versão, porem, que lhes dá o autor de "Sobrados e Mucambos" tende a dissipar-se mesmo em teoria, esse nominalismo deliberado. De instrumentos de exposição, distinção, confronto, analise, convertem-se em realidades mais ou menos empiricas, servindo de base a julgamentos de valor que mal se disfarçam.
Assim é que, nos seus escritos, as "formas" sociais se mudam com facilidade, ora em entidades reais, à maneira dos organismos biologicos - e então se confundem praticamente com os "processos" sociais, capazes de crescimento, maturação e morte -, ora em "idéias" de nitido sabor hegeliano - idéias de onde hão de emanar misteriosamente os proprios "objetos materiais".
Neste ultimo sentido ocorrem pelo menos uma vez: quando, em revide a uma critica do sr. Afonso Arinos de Melo Franco, o autor escreve, à pagina 817: "em nossos estudos, acentuando a importancia, dos objetos materiais, simbolos, insignias, mitos, não o fazemos por materialismo ou por desprezo aos valores invisivel ou requintadamente intelectuais e espirituais, mas por considerar os chamados objetos materiais - inclusive moveis, trajos, alimentos - reflexos das chamadas realidades imateriais, nunca ausentes dos mesmos objetos".
É possivel dizer que aquelas formas soberanas e imateriais se realizam de certo modo, em nosso mundo efemero - e neste ponto é que se inserem os juizos de valor - através de processos que conduzem à maturidade, à plenitude, e, em certo sentido, à perfeição: "amadurecendo numas areas mais cedo do que noutras, declinando no Norte ou no Nordeste, antes por motivos ecologicos que pura ou principalmente economicos -, quando apenas se arredondava por iguais motivos, em formas adultas no Brasil meridional" (pag. 41).
É bastante significativo que, apesar do seu insistente empenho de emancipar a "forma" social da "substancia" ou do "conteudo", o sr. Gilberto Freire raramente consegue desunir estes elementos quando se trate de distinguir, entre esta e aquela area de povoamento e ocupação do solo, as que lhe parecem expressões mais adultas ou completas. E, embora professando, em certos casos, dar escasso valor sociologico aos "objetos materiais" ou às tecnicas peculiares a cada região distinta, não há duvida que, em outros, chega a introduzir, entre os proprios objetos, uma especie de escala hierarquica, manifesta na medida em que eles parecem acomodar-se melhor à "forma" ideal e soberana.
Assim, por exemplo, a "grande casa estavel de pedra e cal", propria sobretudo dos engenhos de açucar do Nordeste, e tambem os sobrados de residencia construidos "mais nobremente" (pag 404) da mesma pedra ou então de tijolos e cal de mariscos, comparam-se com grande vantagem, em muitas das suas paginas, às antigas casas de São Paulo, feitas "quase todas de taipa". Como explicar então, que justamente em São Paulo, a area das casas de taipa correspondesse, na era colonial, às terras mais prosperas - mais nobres? - de serra acima, em contraste com as da orla maritima, onde domina decididamente a construção feita, como nos engenhos do Norte, de pedra das pedreiras e cal das ostreiras litoraneas?
Alem da presença de certos fatores materiais de algum modo privilegiados, é certo que entre os distintivos da maturidade social parecem inscrever-se, para ele, motivos "imateriais" nada irrelevantes. Assim, se a casa grande corpulenta e solida tem direito a melhor tratamento é que lhe parecem espelhar admiravelmente certas virtudes senhoriais, estabilizadoras e conservadoras, favoraveis talvez ao maior requinte ou à maior cultura do espirito. Virtudes que ele tem na mais alta conta, assim como haverá quem prefira, em contraposição, outras, não menos senhoriais, posto que mais dinamicas e ativas.
E neste ponto interfere, ainda uma vez, a preeminencia atribuida aqui à "forma social", independente de fatores economicos ou de outra natureza e sobreposta a eles. A sociedade constituida em volta da grande propriedade monocultora e escravocrata se teria revelado apesar das suas flagrantes falhas a mais criadora, entre todas as do Brasil, de valores politicos, esteticos e intelectuais.
É o que está dito nas palavras finais de seu livro "Nordeste". No mesmo livro, à pagina 288, afiança-se ainda: "Mas foi justamente essa civilização nordestina do açucar - talvez a mais patologica, socialmente falando, de quantas floresceram no Brasil - que enriqueceu de elementos mais caracteristicos a cultura brasileira". E não custa ao autor levantar os olhos, em dado momento, dos canaviais do Nordeste patriarcal para os olivais de certa terra classica do meio-dia da Europa. Pois tambem a civilização helenica, escreve ele, "foi uma civilização morbida segundo os padrões de saude social em vigor entre os modernos. Civilização escravocrata. Civilização pagã. Civilização monossexual. E entretanto estranhamente criadora de valores, pelo menos politicos, intelectuais e esteticos. Muito mais criadora desses valores do que as civilizações mais saudaveis que ainda se utilizam da cultura grega".
Palavras estas, que extraidas, embora, de um livro confessadamente impressionista, ajudam, por isso mesmo, a desvelar o que vai, nas suas interpretações, de intenso calor afetivo, de amoroso e nostalgico enlevo pelo passado de sua região natal e ancestral, envolvendo, não raro, as noções puramente teoricas que parecem querer introduzir-se em obras declaradamente mais sobrias. Entre essas noções, tentei destacar, nestes artigos, a de uma forma social separavel de quaisquer elementos materiais, isto é, de todo "conteudo" ou "substancia", para usar suas mesmas palavras.
Não importa discutir aqui se os valores politicos, intelectuais, esteticos representados a seu modo - "criados" diria o sr. Gilberto Freire - pela "civilização do açucar" terão sido os mais significativos ou os mais insignes entre nós, comparados aos que se encarnavam em outras "civilizações" regionais brasileiras, conforme pretende o sociologo pernambucano. Seria entrar no terreno movediço das preferencias, dos interesses, dos sentimentos pessoais. Dizer que por simples ato de presença e independente de condições materiais a que se acha inextricavelmente ligado, o patriarcalismo nordestino pôde suscitar aqueles valores, é apegar-se a concepções um tanto misticas, que em todo caso desafiam um escrutinio plausivel.
Não é preciso certamente uma adesão às formas mais crassas do materialismo historico para admitir-se que a pujança economica pode favorecer certos recursos materiais e certos habitos de ociosidade em nada desfavoraveis ao tipo de cultura intelectual e trato politico tão enaltecidos pelo autor. Assim ocorreu, sem duvida, no Nordeste açucareiro, como ocorreu em outras areas do Brasil colonial e imperial favorecidas pela fortuna. Quem percorra a lista de estudantes brasileiros formados em Coimbra verificará, sem esforço, até que ponto isto é verdadeiro. O fato de Minas Gerais, na idade do ouro e dos diamantes, ter fornecido um numero maior de estudantes do que o de todas as demais capitanias brasileiras (mesmo nos três ultimos decenios do seculo XVIII esse numero é de 132, para 120 do Rio de Janeiro, 108 da Bahia, 68 de Pernambuco e 30 de São Paulo) não pode ser indiferente a quem deseje estudar movimentos tais como o da Escola Mineira ou o da Inconfidencia. A rapida e efemera ascensão economica do Maranhão coincidirá, por sua vez, com um aumento notavel no numero de estudantes daquela capitania e provincia nortista, que chegará a ultrapassar largamente, no meio seculo imediato, os proprios totais de Minas e os de Pernambuco. E não foi certamente por um milagre que tivemos a famosa "Atenas brasileira". Nem foi por acaso que a Bahia, beneficiada nesse periodo, e ainda em maior grau, pelas mesmas condições economicas favoraveis, se tornaria grande forja de estadistas do Imperio.
As explicações que não têm em conta semelhantes fatores levam a pensar um pouco nas de monsenhor Pizarro, se não estou esquecido, quando escreveu do açucar que serve, não só para temperar os manjares como os costumes, fazendo aqueles mais doces e estes mais corteses e politicos. É muito provavel que sem uma especie de visão lirica, responsavel, em parte, por esse tipo de explicações, e admiravel esforço de compreensão e elucidação de nosso passado, empreendido pelo sr. Gilberto Freire teria sido menos eficaz em outros aspectos. Ela constituiu, por assim dizer, e para empregar uma das suas comparações, o lado patologico, inevitavel, talvez, em uma obra realmente criadora, e que deveria abrir novos rumos para a boa inteligencia da vida brasileira.

Folha de São Paulo

SOCIEDADE PATRIARCAL - 2ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 2ª parte

Publicado na Folha da Manhã, terça-feira, 13 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

Já às primeiras paginas da introdução que escreveu para o texto refundido e ampliado de "Sobrados e Mucambos", o sr. Gilberto Freyre volta a um tema que desde 1933, pelo menos, vem acompanhando de perto seus estudos historicos e sociais: o da unidade da formação do Brasil em torno do regime da economia patriarcal. Essa unidade sobrepujaria todas as diferenças e os aparentes contrastes locais para submetê-los a um mesmo denominador comum.
De modo que, ao fixar o sistema patriarcal da colonização portuguesa, partindo das areas em que terá alcançado uma das suas expressões extremas e melhor definidas - as areas onde veio a imperar a monocultura latifundiaria amparada no braço escravo - ele pretende que suas interpretações sejam perfeitamente validas para o Brasil inteiro. E busca explicar as objeções opostas por aqueles que não logram distinguir o carater transregional de suas pesquisas, sugerindo que tais criticos se orientam obstinadamente para o conteudo e a substancia, não para a forma sociologica dos acontecimentos e dos fatos.
É esta forma o que serve, em suma, para conciliar entre si as mais asperas contradições, emprestando ao todo uma harmonia e mesmo uma "unicidade" (pag. 42) verdadeiramente soberanas. Nos seus livros é provavel que ela apareça muito manchada de massapé negro, muito lambuzada de mel de tanque para não transviar às vezes algum espirito desprevenido, mas tudo isso é de pouca monta quando se trata de dintinguir o essencial através das aparencias mais ou menos precarias.
Entretanto, esse principio formal, de significação tão decisiva, não se deixa claramente precisar para quem estude os multiplos escritos de um autor tão vivamente empolgado, ele proprio, pelos elementos materiais da existência e do convivio humanos. Ou seja - no seu proprio vocabulario - pelo "conteudo" ou "substancia" dos acontecimentos e dos fatos. Reduzindo à expressão mais simples e mais generica o verdadeiro principio organizador estaria em determinado tipo de organização patriarcal da vida e da familia: traço comum, em sua fase de desenvolvimento, a todas as manifestações regionais particulares. E é a esse único traço - "forma" independente dos "conteudos"? - que invariavelmente se reporta o sr. Gilberto Freyre quando algum critico tenta negar o carater transregional das suas interpretações, lembrando a ausencia, como força social e economica dominante, nesta ou naquela região brasileira com "passado historico" de alguns elementos à primeira vista inseparaveis do painel que ele nos pinta: ausencia, por exemplo, da casa grande (no sentido estritamente "material" da expressão); ausencia da senzala ou sequer do braço escravo; ausencia da propria lavoura, substituida pela mineração ou (no extremo norte) pela coleta florestal; ausencia da grande propriedade; ausencia da monocultura...
Neste ponto cabe, porem, uma pergunta: seria o patriarcalismo, tal como o descreve o sr. Gilberto Freyre, uma criação originaria e especifica das areas de colonização sobretudo lusitana nesta parte da America, criação surgida de preferencia à sombra da casa grande, e capaz, só por si, de difesençar nitidamente as nossas condições coloniais das metropolitanas na mesma epoca?
A verdade é que muitos dos traços mais caracteristicos desse patriarcalismo, no seu apogeu e no seu declinio, entre nós, mal se poderiam destacar dos modelos europeus e barrocos que se prolongam até estas bandas do oceano. Guardadas as proporções devidas, o senhor de engenho ou o antepassado do "coronel" do sertão, ao menos nos seculos XVII e XVIII, não se distinguiriam muito, social ou psicologicamente, dos nobres e fidalgos do Reino. Isso mesmo dissera-o Antonio, e quase com identicas palavras. Nem as nossas casas grandes diferiam, salvo, talvez, nas maiores dimensões - que em todo o caso não chegam a afetar sua estrutura e sua tecnica de construção - dos sobrados ou casas nobres da peninsula.
É bem certo que em nossos canaviais e em nossas vilas e cidades labutavam negros e cativos, muito mais do que nos campos e cidades de Portugal. Mas para o proprio autor, esses pormenores de "conteudo", não de essencia ou "forma", são irrelevantes "do ponto de vista sociologico". "Da denominação ou mesmo da condição especifica do escravo, em oposição ao senhor", escreve à pagina 66, "seria um erro fazer condição indispensavel à existencia de um sistema sociologicamente patriarcal-feudal, isto é em suas formas e seus processos principais de relações entre dominadores e dominados: a dominação, a subordinação, acomodação. O sistema pode existir ou funcionar sob aparencias mais suaves: simples coronel ou major, o senhor; "morador", o servo. É o que parece ter sucedido em grande parte do Piauí, do Ceará, da area do São Francisco e do Rio Grande Sul..." E poderia ajuntar, sem receio, em parte da Europa, da peninsula iberica principalmente.
Se os padres da Companhia puderam, no Brasil, contribuir para a precocidade dos meninos - a "vergonha de ser menino" - não foi, ou não foi apenas por quererem, fiéis à missão antipatriarcal que lhes atribui o sr. Gilberto Freire num dos seus mais admiraveis capítulos, hostilizar os senhores todo-poderosos, "fazer frente ao caciquismo das tabas e ao patriarcalismo dos velhos das casas-grandes" (pag. 219), mas simplesmente porque obedeciam nisto, e não só nisto, a um puro ideal europeu e classico, no caso o da criança precocemente amadurecida e sensata: o puer senex.
Ideal provindo da antiguidade romana, haveria de permanecer bem vivo, não só no Brasil, mas ainda em Portugal e Espanha, e não só no mundo iberico, mas na propria França seiscentista e setecentista e no resto da Europa, ao menos da Europa catolica. Em seu belo livro sobre La Fontaine pôde escrever efetivamente Vossier que a criança francesa daqueles tempos não era tratada como criança, mas como uma especie de gente grande em miniatura. Ou então como um bicho pequeno. Adulto em potencia ou filho aterrado. Foi o suisso Rousseau, vindo de uma terra calvinistas, quem primeiro revelou aos franceses a criancice da criança, nota ainda o mesmo romanista. E, depois de invocar os retratos infantis de Velasquez e outros pintores, não deixa de lembrar ainda que não havia então trajos especiais para meninos ou meninas (Cf. K. Vossler, "La Fontaine und sein Fabelwerk", Heldelberg, 1919, pag. 2). Tambem no patriarcalismo brasileiro nota o sr. Gilberto Freire "uma tendencia para o traje se uniformizar no do adulto respeitavel - onde os meninos de roupa de homem, cartola e bengala que Rendu achou parecidos com as marionetes das feiras francesas - e as meninas vestidas desde cedo como senhoras...." (pag. 246). Assim, o que para um francês do seculo XIX já pertencia a um passado morto, ainda sobrevivia entre nós e ganhava sabor exotico. Mas não era certamente fruto especifico de nossa civilização patriarcal.
A forma da sociedade brasileira, se tivermos de aceitar noção tão violentamente realista, como essa que nos propõe agora o sr. Gilberto Freire - realista menos no sentido da sociedade atual do que da teologia medieval - não foi suscitada na area da cana de açucar, ou em outra região brasileira particular; mais plausivel é acreditar que veio acabada de Velho Mundo, adaptando-se aqui, mal ou bem, às circunstancias geograficas, etnicas, economicas, proprias às diferentes areas, e assumindo, em cada uma, feição diversa. O alfa da constelação de regiões tão claramente diferenciadas entre si, que se formaram nesta America portuguesa, estaria, pois, na Europa lusitana e iberica, não no mundo da casa grande e senzala ou em alguma outra area regional da colonia.
É claro que qualquer pronunciamento decisivo, neste ponto, há de colorir-se fortemente de noções subjetivas e amparar-se, em ultima analise, sobre simples preferencias pessoais. Não creio, porem, que para a inteligencia de nosso passado e de nosso presente, seja forçoso admitir um principio formal tão elastico, proprio para lisonjear esta ou aquela vaidade regional, servindo a sentimentos, ressentimentos, paixões, preconceitos, conveniencias às vezes momentaneas e quase sempre polemicas. À obra do sr. Gilberto Freire ela nada acrescenta de duradouro. Nem serve certamente, aos seus adversarios, quando se apóiam no mesmo criterio, embora movidos por sentimentos regionais diversos dos seus.

Folha de São Paulo

SOCIEDADE PATRIARCAL - 1ª parte


SOCIEDADE PATRIARCAL - 1ª parte

Publicado na Folha da Manhã, sabado, 10 de novembro de 1951

Sérgio Buarque de Holanda

A publicação, em texto refundido, e consideravelmente ampliado, de "Sobrados e Mucambos" do sr. Gilberto Freyre (2.a edição, 3 volumes, 1.188 pags., Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro e São Paulo, 1951) pode fornecer uma perspectiva habil para os que desejam interpretar todo o alcance da contribuição do escritor pernambucano para o melhor conhecimento da sociedade brasileira.
Com os volumes impressos, esse trabalho verdadeiramente monumental já adquire unidade organica bem definida. Em "Casa Grande e Senzala", primeira parte da serie, estudaram-se o nascimento, formação e definição da sociedade brasileira sob os auspicios da economia patriarcal. Aos cinco volumes até aqui publicados da obra integral, deverá seguir-se um sexto, há muito anunciado com o titulo de "Ordem e Progresso", que abordará o "processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime do trabalho livre". O ciclo organico (nascimento, crescimento, maturidade, declinio, morte da sociedade patriarcal) há de completar-se - descontados, naturalmente, alguns volumes subsidiarios - com uma ultima parte já projetada, que se chamará, de modo expressivo, "Jazigos e Covas Raras".
É possivel que para conhecer a palavra final deste livro seja necessario aguardar ainda a parte final. Como no grande romance de Proust, que o sr. Gilberto Freyre gosta de invocar quando se trata de defender sua obra contra os censores mais impacientes, o ultimo volume daria a chave de toda a construção. Construção naturalmente bem composta e segundo uma ordem velada, mas tão inflexivel em realidade como a ordem que rege os processos biologicos. Destas altitudes podemos rever o curso do caminho trilhado, e já distinguimos na vertente contraria o que ainda falta percorrer.
E a tarefa de quem se proponha, diante de obra tão ambiciosa, ir alem de um simples comentario à margem, como o presente, será grandemente facilitada com a leitura de "Nordeste", publicado quase ao mesmo tempo, em Segunda edição aumentada (Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro e São Paulo, 1951), e que visa ser uma especie de ensaio complementar do trabalho amplo que se iniciou com a publicação de "Casa Grande e Senzala". Ensaio, esse, mais deliberadamente impressionista do que os demais, e que chegou a requerer do autor, segundo sua mesma confissão, um trato prolongado e meio franciscano com a paisagem, a natureza e a gente mais tipica de sua região natal.
Graças, principalmente, àquela estrutura organica, pôde ele dominar, enfim, dando-lhe forma, sentido e valor, um material imenso e muitas vezes incompativel com toda abordagem fundada nos recursos das ciencias da natureza. Semelhante abordagem exigiria, sem duvida, um interesse mais detido pelos condicionamentos ou nexos causais, que relacionam entre si os aspectos frequentemente contraditorios da realidade historica, do que por esses mesmos aspectos, apresentados em cores cruas e sugestivas. O processo, sobretudo cumulativo, do autor, não deixa de realçar o traços que, ferindo fundo a imaginação, parecem animar os acontecimentos de uma vida propria, incapaz de refletir-se em escritos onde prevaleça um rigoroso raciocinio discursivo.
A força de sugestão que cabe nesse processo pode-se dizer que é a de um poeta, de um desses poetas da estirpe whitmaniana, que ele se acostumara a admirar durante seus anos de aprendizagem na America do Norte, não a de um cientista ocupado em medir, relacionar e confrontar os fatos. Ele proprio admite, e defende-a, a presença, aqui, dessa visão poetica endereçada a certas intimidades mais esquivas das coisas do passado, inacessiveis, em geral, ao estudo simplesmente historico ou sociologico; "algumas delas - escreve - só se abrem ao conhecimento ou ao estudo psicologico; varias só ao conhecimento poetico, vizinho do cientificamente psicologico".
A atenção presa aos fatos concretos, mais do que a abstrações e idéias, e empenhada em apreender esses fatos em seus desvãos mais secretos só se torna verdadeiramente eficaz, entretanto, quando movida por um intenso calor afetivo. A sua é uma "visão proxima", amorosa inclusive na repulsa; por isso naturalmente parcial e exclusivista. Seu zelo tantas vezes manifesto em favor da preservação dos estilos e valores regionais em todo o Brasil acha-se em função de um zelo fervoroso - em alguns casos, quase se poderia dizer nostalgico - por certos valores e estilos tradicionais da area dominada, no passado, pela monocultura latifundiaria e em primeiro lugar pela lavoura canavieira, fundada no braço escravo.
Nessas condições chega a admitir, e admite, mesmo, sem reservas, que outras regiões do Brasil tiveram formação até certo ponto dessemelhante; que a presença, ora do latifundio rural e da monocultura, ora do escravo negro não tenha marcado nelas tão decisivamente o passado rural e até o presente; enfim, que o simile mais apropriado para figurar nosso desenvolvimento historico seria o de um arquipelago ou o de uma constelação, não o de um continente compactamente unitario. Sim, mas desde que a forma assumida pela familia de tipo patriarcal, nas regiões onde predominou a monocultura latifundiaria e o trabalho escravo, represente verdadeiramente o alfa dessa constelação.
Este ponto merece exame, porque parece formar o principal dos obstaculos opostos até agora a uma aceitação mais generalizada da perspectiva adotada pelo sr. Gilberto Freyre em sua obra historico-sociologica e dos criterios dependentes dessa perspectiva. Criterios e perspectivas que serviriam, sem duvida admiravelmente, se aplicados a uma parte do nordeste brasileiro e de certo modo às outras areas onde imperou quase sem contraste, entre nós, a grande lavoura açucareira, mas que se revelariam menos aptos para o estudo das demais regiões do pais.
No proprio Nordeste elas mal se prestariam, por exemplo, para as zonas onde a lavoura e mesmo o braço escravo não tiveram papel mais saliente. Ou no planalto paulista, onde, durante a maior parte do periodo colonial, pôde prevalecer, em grande escala, uma forma particular de policultura. Ou ainda no extremo norte, se praticaram largamente a industria extrativa e a coleta florestal. Ou nas terras mineiras e sobretudo nos campos sulinos onde parecem francamente inexistentes muitos dos traços que o autor pernambucano parece prender de modo indelevel ao seu retrato de nossa civilização de raizes patriarcais e escravocratas.
Até onde serão explicaveis e mesmo justificaveis muitas dessas resistencias? Que o assunto parece ao proprio autor, de importancia singular, mostra-o a insistencia com que volta a ele, muitas vezes em tom defensivo e polemico, nas suas ultimas publicações, em particular nesta nova edição de "Sobrados e Mucambos". Aos leitores, por outro lado, e aos criticos, o exame da mesma questão pode fornecer acesso para a melhor inteligencia dessa obra, de sua alta significação e de seu verdadeiro alcance.

Folha de São Paulo

AFRICANOS NO BRASIL


AFRICANOS NO BRASIL

Publicado na Folha da Manhã, quarta-feira, 02 de agosto de 1950

Sérgio Buarque de Holanda

Depois dos estudos sucessivos de um Calogeras, de um Simonsen, de um Taunay, entre poucos mais, sobre os numeros de trafico africano para o Brasil, pareciamos ter alcançado o extremo limite de precisão possível em domínio tão naturalmente vago. O milagre do sr. Mauricio Goulart, em seu livro recente sobre a Escravidão Africana no Brasil - Das Origens à Extinção do Trafico (São Paulo, Livraria Martins Editora, S. A., s.d.), está em ter conseguido introduzir neste assunto algumas precisões importantes e mal suspeitadas. E tambem em ter podido construir um livro dos mais ricos e estimulantes que se podiam desejar, a proposito de controversia tão arida e, à primeira vista, tão futil.
Em realidade, essa controversia representa o motivo central do livro do sr. Goulart, e está presente, praticamente, em todas as suas paginas. Mas pretender reduzir a ela a contribuição que nos oferece para o conhecimento da historia da escravidão no Brasil seria diminuir injustamente o significado dessa contribuição. Através de seu minucioso esforço para reduzir a termos plausiveis tudo quanto se tem dito sobre o assunto, apresentam-se novos aspectos, novas formulações do problema, que de hoje em diante deverão ser considerados pelos historiadores.
De qualquer modo, para abordar devidamente o estudo do sr. Mauricio Goulart é inevitavel partir e, um pouco, participar daquela controversia. "Neste assunto, negros," - diz-nos ele (à pg. 98) - "têm sido desprezadas as verdades mais corriqueiras, postas de lado, sumariamente, as conclusões do bom senso". O bom senso manda, por exemplo, que em toda tentativa de fixação do volume do trafico, só se considerem os elementos comprobatorios no seu conjunto e em sua inter-relação. É sobretudo o exame parcial e isolado de tais elementos que conduziu historiadores diversos, e dos mais ilustres, a resultados extremamente divergentes.
Simonsen, por exemplo, fundou-se principalmente no calculo da vida efetiva e da produtividade dos escravos nos engenhos e minas. Calogeras, na taxa negativa de sobrevivencia, aplicada ao total dos negros existentes no país às vesperas da Independencia. O primeiro avalia em três milhões e trezentos mil o numero de escravos importados: o segundo, em dez a doze milhões, na melhor hipotese em oito a nove milhões.
Colocado em face de soluções tão discrepantes, o sr. Goulart inclina-se decididamente para a primeira, a de Simonsen, visto como Calogeras se limitara a um elemento, e elemento que não apresenta correlação com os outros dados do problema. Sua solução - cerca de 3.600.000 negros importados - é semelhante à de Simonsen e rigorosamente coincidente com a de Taunay, na versão final dos seus valiosos "Subsidios para a Historia do Trafico", publicados no tomo X dos Anais do Museu Paulista (o autor serve-se de versão anterior e menos completa, a dos Anais do Terceiro Congresso de Historia Nacional).
Para chegar a tal cifra, ele não deixa fugir nenhum dos numerosos dados da questão, entre eles o numero de escravos necessarios em cada engenho; a produção media anual dos negros, na lavoura do açucar, nas minas, nos cafezais; a porcentagem dos que se aplicariam em outros misteres; a taxa de sobrevivencia; a massa dos que se exportaram da Africa... E é a consideração atenta, bem desenvolvida e documentada, desses elementos, ainda mais do que o motivo central do estudo, que faz, no meu entender, sua admiravel riqueza. Em mais de um caso, pode-se mesmo lamentar que a absorvente presença deste motivo central não deixe o autor fixar-se melhor, mais livremente, naqueles aspectos parciais. Em outras palavras, seria desejavel que os abordasse um pouco menos na medida em que valem como argumento e mais na medida em que possam constituir objeto direto da pesquisa. Pois que a ambição, justificavel em si, de consertar enganos alheios pode conduzir insensivelmente a outro tipo de engano quando se torna empolgante: engano ou exagero correspondente, de algum modo, àquilo que na ciencia linguistica recebeu o nome de ultracorreção.
Quando, por exemplo, no enumerar os calculos quinhentistas, naturalmente imprecisos, sobre os escravos que viveriam então na colonia, é caracteristico de sua prudencia que prefira as cifras mais modestas de um Fernão Cardim e de um Gabriel Soares, às de Anchieta, duas vezes mais altas, ou quase tanto.
Uma das razões propostas, e que me parece má, para a preferencia, está em que a estimativa anchietana contraria os outros dois testemunhos, e que estes, vindos de fontes bem distintas, se harmonizariam bem entre si. A verdade, diga-se de passagem, é que não se harmonizam tanto, pois Gabriel Soares apresenta mais negros para Pernambuco (quatro a cinco mil contra quatro mil), Cardim, mais para a Baía (três a quatro mil contra dois mil). Por outro lado, o total de dez mil, que Anchieta indica para Pernambuco (contra três mil para a Baía), parece condizer melhor com a circunstância de, segundo diferentes depoimentos, existirem mais engenhos na primeira do que na segunda dessas capitanias (66 contra 36, di-lo o proprio Cardim, que faz avultar o numero de negros da Baía). E tambem com o fato das possibilidades de recorrerem os senhores de engenho ao braço indigena serem aparentemente muito menores em Pernambuco, onde Cardim já encontrou bem diminuido o numero de indios em 1583 ("os indios da terra já são poucos", escrevia na "Narrativa Epistolar"), quando no Reconcavo ainda eram fartos e densos seus aldeamentos.
A outra razão sugerida contra o calculo de Anchieta, de que "dez mil negros para os 55 ou 66 engenhos de Pernambuco, seriam negros demais", um "esbanjamento de negros", parece relacionar-se à tendencia, constante no autor, para diminuir a importancia numerica dos que não se empregavam no negocio do açucar. Reiteradas vezes se avaliam aqui em 70% do total os negros que trabalhavam em engenhos de cana (e em 80% , mais tarde, os que se aplicariam na mineração). Ora, considerando que um mínimo de 20 e mesmo de 30% dos pretos desembarcados da Africa seriam "peças femeas", alheias, por conseguinte, àqueles trabalhos, quantos pretos machos ainda ficariam para outros misteres: milicia, serviços domesticos, familiares ou caseiros, todo genero de fabrica e manufatura, sem falar em outras lavras ou lavouras? E sem falar na parte, nada irrelevante, dos que, destinados primeiramente aos engenhos, neles não permaneciam. Dos negros, já dizia em uma das suas cartas, de agosto de 1608, o governador d. Diogo de Menezes, que sendo eles "a maior parte da pobreza dos homens", porque em adquiri-los gastam quanto têm, "quando cuidam que têm cinquenta negros (...) acham-se com menos da metade, porque fogem e metem-se pelos matos, e são tantos os que desta maneira andam, que já fazem aldeias, e andam alevantados e ninguem pode com eles..."
Com razão, opõe-se o autor à cronica de Calogeras, de que das 53.053 peças saidas de Angola para o Brasil, entre 1575 e 1591, conforme o relatorio de Abreu e Brito, todas, ou quase todas, se destinavam ao Brasil. Pondera bem que, nessa epoca, a maior parte iria para as Indias de Castela. Por outro lado, não parece levar na devida conta que o relatorio fala em negros embarcados, e que muitos deles não terão chegado nem à America Espanhola, nem à Peninsula Iberica, nem ao Brasil. Sobre esse ponto, são acordes todos os depoimentos da epoca: um deles ousa dizer que, dadas as más condições de transporte, onde "el mismo olor basta a matar los más", era maravilha que a vigesima parte dos embarcados pudesse chegar ao seu destino. "Não ha quatro meses", exclama, "dois mercadores tiraram para a Nova Espanha, de Cabo Verde, quinhentas em uma nau, e só em uma noite amanheceram mortas cento e vinte..." Esse depoimento está na obra de Tomas del Mercado intitulada Tratos y Contratos de Mercadores, publicada em 1569 e que pode ser consultada em nossa Biblioteca Nacional. O sr. Mauricio Goulart, em outra parte de sua obra (à pg. 275), toma conhecimento de noticias semelhantes, mas desconfiado por principio das cifras muito generosas, associa-as a exageros, liricos ou interessados, de abolicionistas e de traficantes.
Se em determinadas ocasiões, no Quinhentos, sobretudo, a America espanhola recebeu sem duvida mais africanos do que o Brasil, não parece exato que isso tenha ocorrido sempre, como tende a presumi-lo o autor (às pgs. 51, 101,111, 117 etc.). As restrições de carater religioso à introdução de escravos negros, que prevaleceram de inicio em dominios de Castela, e não em terras de Portugal, teriam contribuido, no primeiro caso, para certos escrupulos dos reis catolicos com relação ao seu comercio. E quando esses escrupulos se afrouxaram, não deixariam os soberanos espanhóis de reservar o privilegio do trato a particulares e companhias, que para isso pagavam taxas consideraveis. A proprosito de um dos mais antigos textos conhecidos de acordo para a introdução de negros no Novo Mundo - o acordo de 1542 entre Fernão Cortes e o marquês del Valle, só ultimamente publicado - consta que o intermediario genovês pagava então a soma de sete ducados para cada um dos novecentos africanos que negociasse. E em meados do seculo seguinte, segundo mostra o historiador Clarence Haring, os contratadores deveriam pagar à Coroa de trinta a quarenta ducados por cabeça, alem de uma taxa suplementar de três a trinta reais.
Observa o sr. Mauricio Goulart, para mostrar a maior importancia do trafico com as possessões espanholas, que os assentistas tinham muito mais empenho "em amealhar proveitos com a venda de negros para as Indias de Castela" do que para o Brasil. Mas isto é claro, pois que desfrutavam no primeiro caso de um monopolio exclusivo, que não lhes era dado no segundo, e monopolio que lhes custara avultadas somas. E quanto às constantes queixas dos nossos lavradores sobre a escassez de negros disponiveis, creio que essa escassez deva ser interpretada, não em sentido absoluto, mas apenas em relação com as grandes exigencias da lavoura.
Tudo isso nos leva a hesitar um pouco diante de alguns argumentos usados pelo autor em beneficio da tese defendida. Mas as objeções que seu estudo possa merecer só atingem aspetos parciais do problema e não modificarão sensivelmente os seus resultados. No conjunto, trata-se de contribuição exemplar e já hoje de consulta obrigatoria para quem se disponha a estudar o mesmo problema.

Folha de São Paulo

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Sérgio Buarque de Holanda, o boêmio erudito


Sérgio Buarque de Holanda, o boêmio erudito
O bem-humorado historiador que revolucionou o pensamento brasileiro nos anos 30 com o livro Raízes do Brasil, no fim da vida, em 1982, se definia apenas como "o pai do Chico".
por Cadu Ladeira, com Marcelo Affini
Faz pouco mais de dez anos que Sérgio Buarque de Holanda morreu. Diz a lenda que, quando seus olhos não estavam grudados num livro, eles tinham na mira um bom copo. Parece que o rapaz era travesso. Gostava da noite, de música e, de vez em quando, até brigava por mulher. É pouco provável, no entanto, que o corpulento Sérgio, um erudito que fez folclore com seu monóculo nos meios intelectuais Rio de Janeiro na década de 20, tivesse premeditado tanto, nos idos de 1936, para a sua primeira aventura no mundo dos livros. Mas aconteceu. Raízes do Brasil, uma surpreendente e penetrante reflexão sobre a identidade e as origens deste país e de seu povo, saiu do prelo com lugar cativo na prateleira dos clássicos brasileiros.

Um pequeno ensaio. Na medida exata,. porém, para formar com Casa-grande e senzala, a obra-prima de Gilberto Freyre, lançada em 1933, e Formação do Brasil contemporâneo, publicada mais tarde, em 1942, por Caio Prado Júnior, o trio que revolucionou o pensamento brasileiro durante os agitados anos do Primeiro Período Varguista (1930-1945). Com seus livros, o antropólogo e sociólogo Freyre e os historiadores Buarque de Holanda e Prado Júnior marcaram o nascimento da moderna Ciência Social no Brasil. De lá para cá, suas obras foram revistas, criticadas e até abandonadas durante um certo período. Mas guardaram o mérito típico daquilo que é escrito para ficar: nunca perderam o caráter inovador. "Antes de Sérgio, a história era efeito da atuação de uma elite ou de um grande estadista-herói", lembra Nicolau Sevcenko, 38 anos, professor de História da Cultura na Universidade de São Paulo. "Ele reconstituiu nossa história sem elitismos", completa o velho amigo e historiador Francisco Iglésias, 70 anos, hoje docente da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais.

Não perderam também a atualidade, capaz de reunir em consenso tantas gerações de historiadores. "Depois que surgiu a chamada história das mentalidades, as pessoas redescobriram a importância dos hábitos, das idéias e da cultura para o estudo do passado e revalorizaram o trabalho de Sérgio. Ele ia falava disso há quarenta anos". conta a professora de História do Brasil Colonial, da USP, llana Blaj, 40 anos. O tempo passou, mas Sérgio continua em muitas cabeceiras. Chico Buarque de Holanda, o mais famoso dos sete filhos de Sérgio, está relendo agora a obra Visão do paraíso, escrita pelo pai em 1957 e publicada dois anos depois. "Descobri o Sérgio intelectual depois que ele morreu. Antes, para mim era mais o pai, que aprendeu a gostar de bossa nova comigo.”

Os amigos gostavam de dizer que Sérgio era o historiador mais erudito do país, embora às vezes isso parecesse obra dos céus. Boêmio inveterado e incurável fumante, certa vez o poeta e companheiro Manuel Bandeira tentou explicar como tanta cultura convivia com a mesa dos cafés: "Há uns poucos, muito poucos escritores nossos, cuja formação nos parece um milagre”. A mania de tomar remédios, essa ninguém explicava. Nem as superstições de quem jamais vestia marrom, vivia contando os cigarros para que nunca ficassem treze no maço, mas carregava suas esquisitices com extremo bom humor. "Sérgio era um homem engenhoso, divertido e cheio de irreverência", lembra o escritor Antônio Cândido, 74 anos, o melhor e mais presente dos amigos do historiador."Ele aliava, como poucos, o refinamento no estilo literário e a excepcional erudição com um enorme prazer de viver. Mas, intelectualmente, era demolidor. Queria entender a formação da sociedade e do caráter brasileiros, o significado de conceitos como cidadania numa nação marcada pelo escravismo e o colonialismo", diz Maria Odila Leite da Silva Dias, 48 anos, professora titular de História do Brasil na USP: ainda hoje, ela trabalha na universidade na mesma sala, na mesma cadeira e na mesma mesa de seu amigo, orientador e patrono Sérgio Buarque de Holanda.

Apesar de todos os feitos, como historiador Sérgio veio ao mundo tardiamente. Até 1936, ano da publicação de Raízes, ele simplesmente não existia. Havia o jornalista e critico literário. Um garoto nascido no bairro da Liberdade, em 1902, que aos 19 anos se viu obrigado a deixar São Paulo e amigos como Oswald de Andrade, para mudar com a família para o Rio, onde chegou já trazendo uma idéia fixa escrever, sua paixão da época e de sempre. Daí a se tornar correspondente da revista modernista Klaxon no Rio, por indicação de Oswald e Mário de Andrade, não demoraria muito. Virou também estudante de Direito da Universidade do Brasil — desta vez por indicação de seu pai, o professor de Farmácia pernambucano Cristóvão Buarque de Holanda —, o único curso superior de sua vida, do qual aproveitou mais a companhia de gente como o jurista Afonso Arinos de Melo Franco, Prudente de Morais, neto, o compositor Ari Barroso e o cantor Mário Reis do que propriamente o diploma.

Era na imprensa que a verve de Sérgio falava alto em saborosas polêmicas. Tanto encostou Tristão de Athayde na parede por suas tendências religiosas, que acabou provocando o clássico artigo Adeus à disponibilidade, em que Tristão, o maior expoente do pensamento católico brasileiro contemporâneo, assumiu definitivamente sua profissão de fé. Outras vezes, exagerou, como no famoso artigo O lado oposto e os outros lados, de 1926, que desancava personalidades do porte de Guilherme de Almeida, Tristão, Ronald de Carvalho e até Graça Aranha, seu amigo e patrono da Semana de Arte Moderna, acusados de representantes do espírito acadêmico infiltrados no modernismo.

O artigo caiu como uma bomba no Rio. Sérgio acabou desempregado e tomou o rumo do exílio voluntário em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Foi dirigir o jornal O Progresso, mas não demoraria muito para se desentender com os políticos locais. Resultado: da experiência ficou apenas o apelido de Dr. Progresso e logo o bom filho estava de volta a casa. "Nunca me esqueci de sua figura certo dia em pleno Largo da Carioca, com um livro debaixo do braço, e no olho direito o monóculo que o obrigava a um ar de seriedade. Naquele tempo não fazia senão ler. ...Tanta eterna leitura me fazia recear que Sérgio soçobrasse num cerebralismo... ...Sérgio não soçobrou: curou-se do cerebralismo caindo na farra ... ...Benditos os porres de Cachoeiro do Itapemerim! Eles nos valeram a devolução, em perfeito estado, de Sérgio enfim descerebralizado", lembraria depois Manuel Bandeira no artigo Sérgio, o unticafajeste, de 1952, no Diário Carioca.

Sérgio retomou o trabalho na imprensa carioca, até que, em 1929, Assis Chateaubriand o convidou para ser correspondente de O Jornal em Berlim, onde ficou de l930 a l931. O tempo necessário para que sorvesse as obras dos historiadores Leopold von Ranke (1795-1886) e Werner Sombart (1863-1941), do filósofo Wilhem Dilthey (1833-1911), do sociólogo Max Weber (1864-1920) e outros. "Mas se existe uma influência marcante alemã em Sérgio, ela está no historismo. Conceitos e cultura, para ele, só podiam ser entendidos dentro de um contexto histórico, e talvez venha daí a grande originalidade e criatividade de sua obra”, diz a professora Maria Odila Leite.

De volta ao Brasil, ele ainda tinha muito do impetuoso polemista. Mas sua mente já estava em outras paragens: no projeto de Raízes do Brasil, uma idéia que surgiu ainda no Velho Mundo. O brasileiro que vivia numa Europa à beira do domínio fascista e da guerra, queria entender a personalidade de um Brasil latino e católico, com um pé na vida rural. Recriou a teoria do homem cordial, quinto capitulo da obra, sua maior dor-de-cabeça intelectual: denunciar a docilidade e as relações pessoais paternalistas dos conterrâneos como a explicação para a incapacidade de se integrar à modernidade anglo-saxônica rendeu a Sérgio ataques de todos os lados.

"Ele teve a incrível capacidade de inserir nossa história no contexto internacional não como narrativa, mas um encadeamento de idéias", revela o sociólogo e ministro das Relações Exteriores Fernando Henrique Cardoso, 61 anos. Como Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1878-1956), fundadores da Escola dos Annales e pais da moderna historiografia francesa, Sérgio deu voz ao passado para explicar o presente e recuperou o que permanecia quase invisível. Abandonou as grandes personalidades para encontrar na História os anônimos que construíram a sociedade brasileira.

"Sérgio alternava a interpretação com a descrição detalhada dos fatos que ia buscar em pesquisas de arquivo", conta Maria Odila. Era capaz de produzir obras geniais e abrangentes como Raízes, Visão do paraíso ou o excepcional Da Monarquia à República — quinto volume da coleção História da civilização brasileira, dirigida por ele durante 10 anos — e ao mesmo tempo descer ao detalhismo de Monções, onde desvenda o homem por trás do mito do bandeirantismo e troca o louvor aos desbravadores pela preocupação com o tamanho das canoas usadas pelos paulistas para subir os rios no século XVII, o desconforto da viagem, a sensação de estar em meio a uma selva desconhecida. Ou de Caminhos e fronteiras, no qual reconstrói os primórdios da vida paulista na colônia através do amálgama das culturas indígena e portuguesa. De livro em livro, seus temas inovadores abriam os horizontes da historiografia brasileira.

O sacrifício do jornalista ao historia dor trouxe também outras mudanças para a vida de Sérgio. Em 1936, o boêmio com mais de 30 se casou com a carioca Maria Amélia, filha do desembargador Cesário Alvim, uma união que duraria até o fim de sua vida. Virou então o Sérgio patriarca, o pai de Miúcha, a cantora, Sérgio, Álvaro, Chico, o compositor e cantor, Maria do Carmo, Ana Maria e Maria Cristina. Ainda adorava um bom papo, mas farra agora só em casa. Desapareceu também o carioca Sérgio, que após 25 anos de Rio, em 1946 voltou a São Paulo para nunca mais sair. Na época, veio como diretor do Museu Paulista, substituindo Afonso de Taunay, seu professor nos tempos em que estudava no Colégio São Bento e que publicou o primeiro artigo de Sérgio na imprensa: Originalidade literária, de 1920.A noite e os livros, porém, continuaram sempre sendo paixões. Enquanto a fiel escudeira Maria Amélia administrava a filharada e cuidava das contas, a luz da janela da biblioteca na casa da Rua Buri, no bairro do Pacaembu, costumava varar a madrugada. Lá dentro, na bagunça dos 10 mil livros, da máquina de leitura de microfilmes e da mesinha com a garrafa de uísque, o colírio Moura Brasil, o Sonrisal, o Engov e o maço dos fortes cigarros franceses Gauloises, reinavam até 17 de abril de 1982 todos os Sérgios Buarque de Holanda. O jornalista polêmico, o historiador autodidata, o professor da USP de voz arrastada e chegado adivagações, o erudito que cantava tango em alemão e samba em latim, e o patriarca que se definia, no fim da vida, apenas como o "pai do Chico”. Mas, acima de tudo, o intelectual que produziu uma das mais belas e desafiadoras reflexões sobre as raízes de um pais que se chama Brasil.


Raízes do Brasil, 1936, Ed. José Olympio.Cobra de vidro, 1944, Ed. Perspectiva. Monções, 1945, Ed. Casa do Estudante/1976, Ed. Alfa-Ômega. Antologia de poetas brasileiros da fase colonial, 1952-1953, Ed. Perspectiva.Caminhos e fronteiras, 1957, Ed. José Olympio. Visão do paraíso, 1959, Ed. Cia. Nacional. História geral da civilização brasileira, 1960-1972, 7 volumes (organizador), Ed. Ditel. Tentativas de mitologia, 1979, Ed. Perspectiva.O extremo oeste, 1936, Ed. Brasiliense. Capítulos de literatura colonial, 1991, Ed. Brasiliense.

Revsta Superinteressante

domingo, 11 de outubro de 2009

PIRATININGA: 1532 - 1560

SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA

domingo e segunda-feira, 24 e 25 de janeiro de 1954.
ROMA, janeiro (Via Panair do Brasil) — A fundação, há quatrocentos anos, de um povoado de portugueses apartado doze leguas do litoral atlantico, em sertão quase invio —só acessivel através de asperas veredas, que até ao seculo passado seriam o tormento ou o espantalho dos viajantes— sugere problemas que transcendem o alcance de uma simples historia regional. Em parte alguma das suas conquistas, certamente em lugar algum do Brasil, tinham os lusitanos formado um assento urbano tão longe da costa maritima ou dos rios navegaveis. O principio que, expresso ou não, governa por essa epoca toda a sua expansão ultramarina, manda que as regiões de terra a dentro não se povoem antes de assegurado o povoamento, a defesa e a posse da marinha. O contrario seria desampararem-se, com funesto efeito, as mesmas conquistas, sobretudo se em sitios infestados de inimigos e corsarios.
Precisamente no Brasil, aquele principio, ditado pelas condições especiais de sua metropole européia, que não dispunha de gente numerosa e nem, por isso mesmo, de poderosa milicia, para ensaiar em seu longo imperio uma empresa de molde aparatoso, comparavel à que se vinha realizando nas Indias de Castela, é manifesto já nas cartas de doação das capitanias, onde se estipula que aos donatarios será licito erigirem tantas vilas quantas queiram junto ao mar ou aos rios navegaveis, porem que pela terra a dentro as não poderão fazer, salvo se entre uma e outra corra espaço minimo de seis leguas. A idéia era, claramente, conterem-se os povoadores nas imediações dos portos de embarque e pontos vulneraveis da costa, pois não seriam os colonos em tamanho numero que pudessem ser encaminhados ao sertão sem se despovoarem aqueles sitios. Em resultado de uma tal providencia, o Brasil quinhentista não abriria exceção à regra então dominante no mundo português, que um historiador dos nossos dias definiu sugestivamente dizendo que constava de "uma linha de fortalezas e feitorias de dez mil milhas de comprido" (1)
Mas a exceção existe. Existe, paradoxalmente, no ponto exato onde a barreira das montanhas, que no Brasil acompanham a orla costeira, parece oferecer maior estorvo ao acesso e penetração do territorio. Ainda mais: "O empenho de triunfar sobre esse natural obstaculo e de se instalar serra acima parece perseguir os colonizadores logo depois de familiarizados com o litoral vicentino".
Nada, ou quase nada, sabemos das entradas daqueles portugueses —reinóis ou mazombos, brancos e mestiços da terra— que, antes de chegar a armada de Martim Afonso de Sousa, tinham na ilha de São Vicente um povoado estavel, onde se dedicavam ao trafico de escravos indigenas. Mas não foi certamente por acaso que o capitão português, tendo corrido toda a costa conhecida dos demonios portugueses na America, elegeu aquele ponto para penetrar o sertão e ali levantar pelourinho nos campos de Piratininga. Como, por falta de comodidade, logo se dispersasse essa primeira vila, nem assim esmorece o empenho de povoar o planalto. Passados quase vinte anos, em 1550, o padre jesuita Leonardo Nunes escala, por sua vez, a serra fragosa, encontra ali derramados os cristãos pertencentes ao nucleo disperso, que não tinham tornado ao litoral, e trata de juntá-los novamente. Como não pudessem ter vida civil ou religiosa, por falta de quem curasse disso, fez com que se reunissem todos, desta vez à borda do campo, em torno da pequena igreja que fizera construir. Com razões provaveis supõe Serafim Leite que se tratasse da ermida e povoação, mais tarde vila, de Santo André, o celebre reduto de João Ramalho e de seus filhos mamelucos (2).
O nucleo originario da atual São Paulo é notorio que não foi ali, mas em lugar distante duas leguas para o sertão, à margem do rio que então se chamava Piratininga e, de fato, "onde Martim Afonso de Sousa primeiro povoou" (3). Sabe-se hoje que a fundação dessa nova aldeia, por iniciativa e esforço de Nobrega, ocorreu no dia 29 de agosto de 1553. Quando, a 25 de janeiro do ano seguinte, se inaugurou a casa nova, de taipa, destinada aos irmãos, ainda se conservava no local a velha cabana em que ficara situada a "escola de meninos" do irmão Afonso Rodrigues, diferente da "escola de gramatica", ou de latim, do irmão José de Anchieta. O adjetivo "velhissimo", expressamente aplicado ao edifício ("pauperrimo et vetustissimo... tuguriolum") no texto jesuitico onde vêm consignados estes fatos, não combina facilmente com a suspeita de que datasse apenas do estabelecimento preliminar dos inacianos anterior de cinco meses à fundação oficial e ao batismo do povoado. É perfeitamente natural, por outro lado, a suposição de que subsistisse ainda em 1554, no local, alguma das taperas da vila de Martim Afonso de Sousa. Nesse caso não é audacioso dizer que o povoado de Nobrega se enlaça perfeitamente ao de Martim Afonso e, assim, que as comemorações atuais se hão de referir, não tanto à fundação inicial, como a uma segunda e definitiva fundação. A primeira dataria, em realidade, de 1532.
Nada disso diminui o papel que coube ao Provincial dos jesuitas nas origens da atual São Paulo. Melhor do que outros, melhor do que o primeiro Governador-Geral, soubera ele ver as vantagens, ao menos para o mister da catequese, de uma entrada e fixação nas areas de serra-acima. E ainda que essas vantagens parecessem resumir-se, de inicio, no seu desejo de conservar o gentio da terra livre de contacto assiduo com os colonos, o interesse que depois mostrou na mudança para o novo local dos moradores de Santo André da Borda do Campo —mudança que se fará em 1560 por determinação de Mem de Sá— indica que tal razão não seria preponderante em seu pensamento. E em carta de março de 53, escrita a seu mandado e só agora divulgada por Serafim Leite, diz-se que já era intenção do Provincial ir pela terra dentro e fazer entre os gentios "uma cidade" (4).
Contra esse pensamento, as razões opostas por Tomé de Sóusa, que tratou obstinadamente de embargar o plano de um novo estabelecimento na boca do sertão, obedecem ainda à concepção portuguesa tradicional, que só via em uma tal iniciativa o risco de ficar inteiramente desamparado o litoral maritimo. Esse risco era particularmente sensível no momento em que surgia noticia ou esperança de haver ouro e prata por aquele sertão. À mesma razão alude Nobrega quando tenta discriminar as causas da resistencia do governador. "Porque", observa em carta daquele ano de 53, "fôra abrir as portas a grandes males e a se despovoar esta capitania". Adiante, na mesma carta, justifica-se mais pormenorizadamente aquela noticia, ou esperança, com a alegação de se terem encontrado minas de prata, embora, por falta de quem as fundisse, não se soubesse ao certo o que fosse, "as quais minas", diz-se textualmente, "acharam e descobriram os castelhanos do Paraguai, que estarão daqui desta Capitania (de São Vicente) 100 leguas e está averiguado estarem na Conquista de El Rei de Portugal".
É de todo interesse aproximar-se a essa informação o constante de um documento aparentemente ainda inedito existente no "Archivo General de Indias de Sevilha", onde o espião castelhano Martin de Orue relata os resultados da missão secreta que lhe fora confiada em cedula de sua majestade Catolica, de obter pessoalmente, com a melhor diligencia, em Lisboa, varias informações relativas à expedição de Luís de Melo. Nesse papel, a que tive oportunidade de aludir em outra ocasião (5), declara Orue que, no mês de setembro de 1553, "veio um homem da mesma capitania de São Vicente e vizinho dela, chamado Adão Gonçalves, por parte do capitão daquela terra, o qual trouxe certos metais que houvera da gente do Rio (da Prata), que lhe haviam dado os espanhóis que tinham pousado em sua casa e o que lhes tomou o capitão da terra e parte desses metais diz que eram da Assunção e parte do Piquiri". Acrescenta que, chegando a Lisboa, Gonçalves dera parte do caso a Martins Afonso de Sousa e, feitos dos metais certos ensaios, acharam que era prata e de boa qualidade (6).
A noticia logo se divulgaria em Lisboa e os mesmos Martim Afonso e Adão Gonçalves, juntamente com dois mercadores que tinham seus negocios de açucar em São Vicente, a saber o flamengo João Benyste (isto é Jan Van Hielst, agente dos Schetz de Antuerpia) e o genovês Felipe de Adorno, pleitearam de sua alteza que por nenhum modo permitisse passagem pelo caminho entre São Vicente e Assunção, caminho este que Tomé de Sousa mandaria cegar, por assim convir melhor à real fazenda. Ao mesmo tempo solicitavam lhes fosse autorizado entrar pela terra a dentro em busca de minas e metais, e que onde os achassem e povoassem, pagariam os quintos e direitos pertencentes à Coroa. Outrossim, onde quer que encontrassem os ditos metais, e por espaço de vinte leguas em torno, nenhuma outra pessoa poderia entrar a buscá-los ou descobrí-los.
Segundo o mesmo documento, deferiu El Rei ao pedido, dando aos requerentes o alvará necessario. E seu fim —comenta Martin de Orue— "era ir às minas do Piquiri, porque dizem que aquela terra e ainda a Assunção entram na demarcação do rei de Portugal". Com esse despacho, já em março do ano seguinte saiam de Lisboa, com destino a São Vicente, os ditos Gonçalves e Adorno, decididos a pôr o plano em execução.
Seja qual for a parte de fantasia que possa entrar na relação de Ourue, entregue ao "Conselho de Sua Majestade o Imperador em Valadolid" a 5 de setembro de 1554, suas informações completam e ampliam em partes o que sabemos através das palavras de Nobrega e de Tomé de Sousa. A noticia da existencia de prata no Piquiri resultaria sem fundamento após exames mais acurados do que os que se teriam ensaiado em 1553 no metal ali encontrado. E quando Felipe de Adorno e Adão Gonçalves partiram de Lisboa, em março de 1554 já estava fundada, e com seu nome definitivo, a povoação nova do campo de Piratininga.
Os pretensos achados de minas só indiretamente poderiam ter influido no bom exito do estabelecimento. E no entanto é de todo provavel que de algum modo estimulassem a penetração do territorio. É de crer que a mesma causa tivesse agido vinte e dois anos antes sobre o animo de Martim Afonso quando decidira criar um vila no planalto: por isso ficou dito acima que não seria casual sua decisão de escolher este e não outro ponto dos dominios portugueses para fundar um primeiro nucleo fixo de moradores fora da orla maritima. E tambem não terá sido por acaso —acrescente-se— que, tendo percorrido toda a costa brasileira, foi em São Vicente que obteve seu quinhão ao instituir-se o regime das capitanias.
Em realidade, das terras que quase certamente cabiam na demarcação lusitana da America, era esta, geograficamente, a mais chegada às regiões platinas, já celebres pelas riquezas fantasticas que lhe atribuiam os primeiros navegantes. Já ao sul de Cananéia principiava a area que esses marujos tinham batizado com o nome de "costa do ouro e da prata". Dali os homens da armada de d. Nuno Manuel tinham levado, a partir de 1514, noticias da existencia de um misterioso povo serrano que trazia "ouro batido à maneira de arnez do peito". Ali, segundo se dizia, fora colhido o fabuloso machado de prata que tanto trabalho deveria dar às imaginações quinhentistas. Por ali, conforme tinham apurado marujos castelhanos e lusitanos entre gente da beira-mar, ganhava-se facil acesso ao país do lendario Rei Branco. Do Porto dos Patos, em Santa Catarina, saira o português Aleixo Garcia, um dos naufragos da expedição de Solis para a magnifica jornada aos contrafortes andinos, de onde pudera recolher grande copia de metal precioso antes de ser sacrificado, no caminho de volta, pelos indios carijós. Dessa expedição provinham as peças de ouro que outro componente da armada de Solis, Melchior Ramirez, exibira a Caboto em Santa Catarina. Um companheiro de Ramirez, Henrique de Montes, tambem conservava, consigo, grande quantidade de ouro.
E segundo depoimento de uma testemunha, dizia este à gente da expedição que "nunca ombres fueron tan bien aventurados como los de la dicha armada, que avia tanta plata y oro en el Rio de Solis, que todos serian ricos..." (7). Desse mesmo Henrique de Montes sabe-se que Martim Afonso o levaria consigo como lingua e pratico da terra e não será de admirar se, conhecedor da aventura de Garcia, foi um dos animadores da entrada que o futuro donatario mandou sair de Cananéia rumo ao sertão longinquo, sob o comando de Pero Lobo. Em reconhecimento pelos seus prestimos, apesar do malogro da jornada, foi ele recompensado com uma extensa sesmaria, a mesma que, por sua morte, vitima dos indios, seria dada a um criado do donatario, Brás Cubas.
Se Martim Afonso fixou sua escolha, para a primeira povoação sertaneja, no interior das terras de São Vicente, não no da Cananéia ou de Santa Catarina, a razão estaria em que a adjudicação destas terras à Coroa lusitana tinha menos probabilidades de ser contestada por parte dos castelhanos, inclinados naturalmente a ver ampliadas, tanto quanto possivel as areas de sua demarcação. Os portugueses, por sua vez, pagavam em moeda identica, e vimos como bem mais tarde ainda pretendiam negar os direitos de seus vizinhos sobre Assunção. Contudo uma prudente cautela aconselhava Martim Afonso a não trocar o certo pelo duvidoso ou discutivel, sob pena de deitar a perder todo o seu esforço. Se não faltava entre castelhanos quem reivindicasse para sua coroa a propria São Vicente, tais pretensões eram mais indecisas: prova estava no fato de já existir de longa data no litoral vicentino um povoado de portugueses, e portugueses que mantinham relações amistosas com o gentio de serra acima. Tudo isso era de perfeito conhecimento dos marinheiros espanhóis que frequentavam tais paragens e traficavam com os moradores ou se utilizavam de seus serviços. A simples presença de um tal nucleo onde se incluiam, sem duvida, homens longamente habituados à terra e conhecedores de seus segredos, não era menos, para Martim Afonso, um motivo de boa esperança. Entre esses homens poderia ter colhido o capitão informes sobre a possibilidade de comunicações por terra firme com o Peru ou a Nova Granada. De tal possibilidade há noticia posterior nos curiosos "apontamentos oferecidos a d. João III por certo Diogo Nunes acerca das viagens que realizou em terras peruanas, onde participou da expedição de Mercadillo ao país dos Omagua.
Nesse texto, que Varnhagen encontrou na Torre de Tombo e foi o primeiro a divulgar, diz-se como do Peru se poderia chegar ao Brasil pelo Amazonas, e acrescenta-se: "Tambem poderei ir a São Vicente atravessando pelas cabeçadas do Brasil..." O proprio Varnhagen tentou indentificar o redator do papel com certo Diogo Nuñez de Quesada que em 1544 andou em Lisboa de volta do Peru. Capistrano de Abreu mostra, no entanto, em nota à História Geral do Brasil, a improbabilidade de uma tal identificação. E, por sua vez, associa Diogo Nunes ao mameluco levado do Brasil por Tomé de Sousa, mencionado em uma carta que o embaixador Luís Sarmiento de Mendoza escreveu de Lisboa no ano de 1553. Esse mameluco, filho de um português, tambem fora do Peru ao Brasil levando noticias de ouro e prata. Como argumento em favor de seu alvitre, observava Capistrano de Abreu que "é mais facil existir no mesmo tempo, no mesmo lugar, com os mesmos planos, um só homem do que dois". E ainda acrescenta: "Se Diogo Nunes descendia de pai português e mãe india, é provavel que fosse natural da capitania de São Vicente".
Não obstante tamanhas probabilidades, as conjeturas do grande historiador são prejudicadas pelo seguinte trecho que se lê na relação acima citada de Martin de Orue: "Del peru vyno por el año pasado un pasajero natural português que se dize domyngo nunez natural de moron ques Junto ala Raya de Castilla el qual trajo de veynte a treynta myll ducados este andando persuadiendo al Rey por una conquysta por el (Brasil) para por ally entrar a las espaldas de cuzco". Essa passagem deixa poucas duvidas sobre o assunto. A dificuldade principal para a identificação entre o Nunez natural de Mourão e o dos "Apontamentos", ou seja a diferença nos prenomes, torna-se de pouca monta quando ponderamos que "Domingo" e Diego" são palavras que se podem eventualmente confundir e que, abreviadas, segundo o uso generalizado na epoca, não apresentam diferença alguma.
É certo que as comunicações diretas entre São Vicente e o Paraguai, caminho do Peru, não teriam sido utilizados entre europeus, muito antes da fundação de São Paulo. Do contrario explica-se mal a informação escrita depois de 1554 por d. Mencia Calderon, viuva de Juan de Sanabria, e publicada pelo historiador chileno Morla Vicuña, de que se podia ir a Assunção, de São Vicente "por cierto camiño nuevo que se habia descubierto". Justamente por esse caminho tinham querido alcançar o Paraguai alguns dos naufragos da armada de Sanabria. Nos dois anos anteriores tinha sido ele trilhado por numerosos castelhanos e portugueses que, segundo parece, iniciaram atraves dele um rendoso comercio. Para os castelhanos especialmente, era de grande proveito, depois do abandono da primeira Buenos Aires, por fornecer ocasião de negocios lucrativos com os moradores. Tanto que Tomé de Sousa, em carta de junho de 1553, observava como, em resultado das comunicações frequentes entre as duas cidades, a alfandega de São Vicente rendera, no ano anterior, cem cruzados de coisas que traziam a vender os castelhanos. Já me ocorreu, em outro escrito, apontar alguns nomes de viajantes que nos são conhecidos através de documentos da epoca. Pode-se dizer que essas comunicações constituem, propriamente, uma pré-historia das bandeiras paulistas, ainda que fossem feitas nos dois sentidos e mais ativamente, talvez, por parte dos castelhanos do que dos lusitanos. Contudo, inquieto com as consequencias possivelmente funestas que podiam resultar de tais contatos, principalmente depois das noticias das supostas minas de prata do Piquiri e do Paraguai, o primeiro governador geral ordenou que cessasse de todo o transito. E a partir de então, apesar da viagem clandestina, pelo Tietê, de João de Salazar e seus companheiros —entre eles os dois filhos de Luís de Gois— e, mais tarde, das lutas de Jeronimo Leitão contra os carijós do sul, cessam quase de todo, por longo tempo, os contatos por terra firme com o sul. A propria atração do metal precioso que por essa epoca seria menos forte entre os moradores da capitania do que a caça ao gentio da terra, deveria incliná-los para outras direções. Era esse o resultado das pesquisas de Luís Martins e Brás Cubas como o seriam tambem os dois achados dos dois Sardinhas, pai e filho.
Segundo todas as probabilidades, a um parente do primeiro donatario e do primeiro governador-geral, a d. Francisco de Sousa, se deverá, já em principios do seculo seguinte, a intensificação das entradas em outra direção, que já não será a do Paraguai e do Prata. A bandeira de André Leão, que data de 1601, dirigiu-se para a região do rio São Francisco. E o mesmo rumo tomaria a de Nicolau Barreto, segundo os estudos de Orville Derby, que já hoje nos parecem novamente os mais convincentes, não obstante as conclusões diferentes de historiadores recentes, que resultariam no entanto, de um equivoco na leitura da ata da Camara de São Paulo onde se esclarecem certos pormenores da expedição. E contudo não se perde a lembrança do caminho do sul, revivida, ao contrario, depois que, em 1505, quatro soldados vindos de Vila Rica, provincia do Paraguai, chegam inesperadamente à terra paulista.
Não é improvavel que o projeto inicial de d. Francisco visasse, a partir de São Paulo, localizar mais facilmente as mesmas minas que expedições anteriores tinham procurado a partir das capitanias do centro. É interessante notar-se que, justamente durante seu governo, segundo se apura de documentos existentes no Arquivo Mediceo, de Florença, e ainda mal conhecidos, o então grão-duque de Toscana, Fernando I, pretendeu seriamente criar um estabelecimento no litoral do Espirito Santo, o outro caminho natural para as minas do sertão remoto. E é significativo o interesse que o mesmo grão-duque, mostrou pelas coisas do Brasil, na correspondencia mantida com Baccio de Filicaja, seu sudito, e companheiro de d. Francisco, que o levara a São Paulo como engenheiro das minas. Quando e se forem encontradas a descrição e a relação das suas viagens no Brasil que Baccio escreveu para o grão-duque, é provavel que venham à luz muitos fatos ainda desconhecidos ou mal explicados acerca desse periodo (8). É inegavel, contudo, que a partir de d. Francisco de Sousa, São Paulo estava maduro para a vocação pioneira dos seus moradores. Vocação que germinara contudo desde 1532, com a chegada de Martim Afonso, firmara-se em 1554, quando Manuel da Nobrega, contrariando as opiniões mais tradicionalistas, fundou a Casa de São Paulo —em sitio onde os indios pudessem ter melhor sustento— e se consolida, definitivamente, a partir de 1560, quando, por ordem de Mem de Sá, são mudados para o campo os moradores da vila de Santo André.




Notas

1. - R.H. Tawney, "Religion and the Rise of Capitalism", Londres, 1936, pg. 72.
2. - Serafim Leite S.J., "Nobrega e a Fundação de São Paulo" Lisboa, 1953, pg. 30.
3. - "Cartas de Nobrega" (Rio de Janeiro, 1931), pg. 145.
4. - Serafim Leite, S.J., op. cit., pg. 18.
5. - "Expansão Paulista em fins do seculo XVI e principio do seculo XVII". Publicação do Instituto de Administração da Faculdade de Ciencias Economicas e Administrativas da Universidade de São Paulo (São Paulo, 1948), pg. 11.
6. - MS. do Archivo General de Indias: 25 - 1/14 R.o 22.
7. - Cf R. Diputazione Veneta di Storia Patria, Di Giovanni e Sebastiano Caboto. Raccolte e Documentate da F. Tarducci (Veneza, 1892), pg. 196, ss.
8. - Carta de Baccio ao Cav. Belisario Vinda, secretario de S. A. Serenissima, de Lisboa, 5 de janeiro de 1609. MS do Archivo di Stato di Firenze - Arch. Mediceo - f. 945, c. 60.

Folha de São Paulo

AFRICANOS NO BRASIL


Sérgio Buarque de Holanda

quarta-feira, 02 de agosto de 1950.
Depois dos estudos sucessivos de um Calogeras, de um Simonsen, de um Taunay, entre poucos mais, sobre os numeros de trafico africano para o Brasil, pareciamos ter alcançado o extremo limite de precisão possível em domínio tão naturalmente vago. O milagre do sr. Mauricio Goulart, em seu livro recente sobre a Escravidão Africana no Brasil - Das Origens à Extinção do Trafico (São Paulo, Livraria Martins Editora, S. A., s.d.), está em ter conseguido introduzir neste assunto algumas precisões importantes e mal suspeitadas. E tambem em ter podido construir um livro dos mais ricos e estimulantes que se podiam desejar, a proposito de controversia tão arida e, à primeira vista, tão futil.
Em realidade, essa controversia representa o motivo central do livro do sr. Goulart, e está presente, praticamente, em todas as suas paginas. Mas pretender reduzir a ela a contribuição que nos oferece para o conhecimento da historia da escravidão no Brasil seria diminuir injustamente o significado dessa contribuição. Através de seu minucioso esforço para reduzir a termos plausiveis tudo quanto se tem dito sobre o assunto, apresentam-se novos aspectos, novas formulações do problema, que de hoje em diante deverão ser considerados pelos historiadores.
De qualquer modo, para abordar devidamente o estudo do sr. Mauricio Goulart é inevitavel partir e, um pouco, participar daquela controversia. "Neste assunto, negros," - diz-nos ele (à pg. 98) - "têm sido desprezadas as verdades mais corriqueiras, postas de lado, sumariamente, as conclusões do bom senso". O bom senso manda, por exemplo, que em toda tentativa de fixação do volume do trafico, só se considerem os elementos comprobatorios no seu conjunto e em sua inter-relação. É sobretudo o exame parcial e isolado de tais elementos que conduziu historiadores diversos, e dos mais ilustres, a resultados extremamente divergentes.
Simonsen, por exemplo, fundou-se principalmente no calculo da vida efetiva e da produtividade dos escravos nos engenhos e minas. Calogeras, na taxa negativa de sobrevivencia, aplicada ao total dos negros existentes no país às vesperas da Independencia. O primeiro avalia em três milhões e trezentos mil o numero de escravos importados: o segundo, em dez a doze milhões, na melhor hipotese em oito a nove milhões.
Colocado em face de soluções tão discrepantes, o sr. Goulart inclina-se decididamente para a primeira, a de Simonsen, visto como Calogeras se limitara a um elemento, e elemento que não apresenta correlação com os outros dados do problema. Sua solução - cerca de 3.600.000 negros importados - é semelhante à de Simonsen e rigorosamente coincidente com a de Taunay, na versão final dos seus valiosos "Subsidios para a Historia do Trafico", publicados no tomo X dos Anais do Museu Paulista (o autor serve-se de versão anterior e menos completa, a dos Anais do Terceiro Congresso de Historia Nacional).
Para chegar a tal cifra, ele não deixa fugir nenhum dos numerosos dados da questão, entre eles o numero de escravos necessarios em cada engenho; a produção media anual dos negros, na lavoura do açucar, nas minas, nos cafezais; a porcentagem dos que se aplicariam em outros misteres; a taxa de sobrevivencia; a massa dos que se exportaram da Africa... E é a consideração atenta, bem desenvolvida e documentada, desses elementos, ainda mais do que o motivo central do estudo, que faz, no meu entender, sua admiravel riqueza. Em mais de um caso, pode-se mesmo lamentar que a absorvente presença deste motivo central não deixe o autor fixar-se melhor, mais livremente, naqueles aspectos parciais. Em outras palavras, seria desejavel que os abordasse um pouco menos na medida em que valem como argumento e mais na medida em que possam constituir objeto direto da pesquisa. Pois que a ambição, justificavel em si, de consertar enganos alheios pode conduzir insensivelmente a outro tipo de engano quando se torna empolgante: engano ou exagero correspondente, de algum modo, àquilo que na ciencia linguistica recebeu o nome de ultracorreção.
Quando, por exemplo, no enumerar os calculos quinhentistas, naturalmente imprecisos, sobre os escravos que viveriam então na colonia, é caracteristico de sua prudencia que prefira as cifras mais modestas de um Fernão Cardim e de um Gabriel Soares, às de Anchieta, duas vezes mais altas, ou quase tanto.
Uma das razões propostas, e que me parece má, para a preferencia, está em que a estimativa anchietana contraria os outros dois testemunhos, e que estes, vindos de fontes bem distintas, se harmonizariam bem entre si. A verdade, diga-se de passagem, é que não se harmonizam tanto, pois Gabriel Soares apresenta mais negros para Pernambuco (quatro a cinco mil contra quatro mil), Cardim, mais para a Baía (três a quatro mil contra dois mil). Por outro lado, o total de dez mil, que Anchieta indica para Pernambuco (contra três mil para a Baía), parece condizer melhor com a circunstância de, segundo diferentes depoimentos, existirem mais engenhos na primeira do que na segunda dessas capitanias (66 contra 36, di-lo o proprio Cardim, que faz avultar o numero de negros da Baía). E tambem com o fato das possibilidades de recorrerem os senhores de engenho ao braço indigena serem aparentemente muito menores em Pernambuco, onde Cardim já encontrou bem diminuido o numero de indios em 1583 ("os indios da terra já são poucos", escrevia na "Narrativa Epistolar"), quando no Reconcavo ainda eram fartos e densos seus aldeamentos.
A outra razão sugerida contra o calculo de Anchieta, de que "dez mil negros para os 55 ou 66 engenhos de Pernambuco, seriam negros demais", um "esbanjamento de negros", parece relacionar-se à tendencia, constante no autor, para diminuir a importancia numerica dos que não se empregavam no negocio do açucar. Reiteradas vezes se avaliam aqui em 70% do total os negros que trabalhavam em engenhos de cana (e em 80% , mais tarde, os que se aplicariam na mineração). Ora, considerando que um mínimo de 20 e mesmo de 30% dos pretos desembarcados da Africa seriam "peças femeas", alheias, por conseguinte, àqueles trabalhos, quantos pretos machos ainda ficariam para outros misteres: milicia, serviços domesticos, familiares ou caseiros, todo genero de fabrica e manufatura, sem falar em outras lavras ou lavouras? E sem falar na parte, nada irrelevante, dos que, destinados primeiramente aos engenhos, neles não permaneciam. Dos negros, já dizia em uma das suas cartas, de agosto de 1608, o governador d. Diogo de Menezes, que sendo eles "a maior parte da pobreza dos homens", porque em adquiri-los gastam quanto têm, "quando cuidam que têm cinquenta negros (...) acham-se com menos da metade, porque fogem e metem-se pelos matos, e são tantos os que desta maneira andam, que já fazem aldeias, e andam alevantados e ninguem pode com eles..."
Com razão, opõe-se o autor à cronica de Calogeras, de que das 53.053 peças saidas de Angola para o Brasil, entre 1575 e 1591, conforme o relatorio de Abreu e Brito, todas, ou quase todas, se destinavam ao Brasil. Pondera bem que, nessa epoca, a maior parte iria para as Indias de Castela. Por outro lado, não parece levar na devida conta que o relatorio fala em negros embarcados, e que muitos deles não terão chegado nem à America Espanhola, nem à Peninsula Iberica, nem ao Brasil. Sobre esse ponto, são acordes todos os depoimentos da epoca: um deles ousa dizer que, dadas as más condições de transporte, onde "el mismo olor basta a matar los más", era maravilha que a vigesima parte dos embarcados pudesse chegar ao seu destino. "Não ha quatro meses", exclama, "dois mercadores tiraram para a Nova Espanha, de Cabo Verde, quinhentas em uma nau, e só em uma noite amanheceram mortas cento e vinte..." Esse depoimento está na obra de Tomas del Mercado intitulada Tratos y Contratos de Mercadores, publicada em 1569 e que pode ser consultada em nossa Biblioteca Nacional. O sr. Mauricio Goulart, em outra parte de sua obra (à pg. 275), toma conhecimento de noticias semelhantes, mas desconfiado por principio das cifras muito generosas, associa-as a exageros, liricos ou interessados, de abolicionistas e de traficantes.
Se em determinadas ocasiões, no Quinhentos, sobretudo, a America espanhola recebeu sem duvida mais africanos do que o Brasil, não parece exato que isso tenha ocorrido sempre, como tende a presumi-lo o autor (às pgs. 51, 101,111, 117 etc.). As restrições de carater religioso à introdução de escravos negros, que prevaleceram de inicio em dominios de Castela, e não em terras de Portugal, teriam contribuido, no primeiro caso, para certos escrupulos dos reis catolicos com relação ao seu comercio. E quando esses escrupulos se afrouxaram, não deixariam os soberanos espanhóis de reservar o privilegio do trato a particulares e companhias, que para isso pagavam taxas consideraveis. A proprosito de um dos mais antigos textos conhecidos de acordo para a introdução de negros no Novo Mundo - o acordo de 1542 entre Fernão Cortes e o marquês del Valle, só ultimamente publicado - consta que o intermediario genovês pagava então a soma de sete ducados para cada um dos novecentos africanos que negociasse. E em meados do seculo seguinte, segundo mostra o historiador Clarence Haring, os contratadores deveriam pagar à Coroa de trinta a quarenta ducados por cabeça, alem de uma taxa suplementar de três a trinta reais.
Observa o sr. Mauricio Goulart, para mostrar a maior importancia do trafico com as possessões espanholas, que os assentistas tinham muito mais empenho "em amealhar proveitos com a venda de negros para as Indias de Castela" do que para o Brasil. Mas isto é claro, pois que desfrutavam no primeiro caso de um monopolio exclusivo, que não lhes era dado no segundo, e monopolio que lhes custara avultadas somas. E quanto às constantes queixas dos nossos lavradores sobre a escassez de negros disponiveis, creio que essa escassez deva ser interpretada, não em sentido absoluto, mas apenas em relação com as grandes exigencias da lavoura.
Tudo isso nos leva a hesitar um pouco diante de alguns argumentos usados pelo autor em beneficio da tese defendida. Mas as objeções que seu estudo possa merecer só atingem aspetos parciais do problema e não modificarão sensivelmente os seus resultados. No conjunto, trata-se de contribuição exemplar e já hoje de consulta obrigatoria para quem se disponha a estudar o mesmo problema.

Folha de São Paulo

CLIMA E RAÇA

Os Retirantes - Portinari

Sérgio Buarque de Holanda

terça-feira, 29 de agosto de 1950
Não creio que entre as menores atribuições de um comentador de livros e de idéias figure a de mostrar o interesse amplo de certas obras endereçadas, na aparencia, a reduzidos circulos de especialistas e a estes somente, mas que, não obstante, parecem dignas de maior repercussão. De um livro, por exemplo, cuja publicação recente há de permanecer entre as iniciativas benemeritas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica, e que se encontra, por muitos aspectos, nesse caso, tenho a convicção de que constitui das mais notaveis contribuições que se poderiam desejar para o progresso dos estudos brasileiros. E tambem a de que, não fosse seu titulo, talvez pouco sugestivo para muita gente e capaz de iludir sobre o alcance do conteudo, já teria recebido a atenção que sem duvida merece.
A verdade é que o estudo de Ernst Wagemann sobre a "Colonização Alemã no Espirito Santo" (trad. De Reginaldo Santana. Ed. do Boletim do I. B. G. E., Rio de Janeiro, 1949), só agora posto ao alcance do grande publico brasileiro, embora publicado, primeiramente, há trinta e cinco anos, quando seu autor ainda não alcançara a projeção intelectual que viria a obter depois, está longe de dirigir-se apenas àqueles especialistas ou tecnicos.
Para iluminar toda uma serie de problemas que, dada sua reiteração, às vezes obsessiva, nos quais variados escritos de nossos sociologos, historiadores, geografos, antropologos, pode-se dizer que não pertencem, entre nós, a nenhuma dessas especialidades tomadas de per si, mas se converteram em patrimonio comum a todas elas e, de certo modo, a todos os estudos que vizem à melhor inteligencia dos nossos rumos e destinos nacionais, as observações de Wagemann proporcionam elementos que já agora não poderão ser facilmente desdenhados.
Num país que, como o nosso, se situa, na sua maior extensão em zonas calidas, que futuro está reservado à civilização ocidental, de cuja herança nos orgulhamos e cujos valores desejamos preservar? E ainda: em que grau os povos de raça branca, portadores tradicionais daquela civilização, seriam compativeis com nosso meio fisico e com as condições de vida que esse meio favorece? Até onde, finalmente, as formas de vida importadas de terras frias ou temperadas lograrão subsistir entre nós sem mudança ou, como querem outros, sem degenerescencia?
As observações feitas por Ernst Wagemann referem-se, é certo, a uma area extremamente limitada de nosso territorio e às perspectivas de acomodação a essa area de um unico povo europeu. Mas quando se considere que precisamente os representantes desse povo passam, não raro, por ser dos mais teimosamente aferrados à lembrança de sua terra de origem, ao longo de gerações sucessivas, e dos menos compativeis - como coletividade e raça, se não como individuos - a climas estranhos; quando se sabe, por outro lado, que o Espirito Santo, assim como a parte mais consideravel do territorio brasileiro se insere geograficamente na zona tropical, então certas observações que à primeira vista parecem padecer de uma limitação exclusivista, tomam carater exemplar e tipico. Por esse aspecto, o caso das populações européia, sobretudo germanica, instaladas há mais de um seculo nas terras espiritosantenses, pode ultrapassar em interesse, dado o proprio contraste das situações que naturalmente encerra, o das colonias que se localizam em nossos Estados sulinos, onde o imigrante veio encontrar um clima subtropical ou temperado, que não desafia violentamente sua capacidade de adaptação.
Entretanto, ao passo que o caso do sul, especialmente o do Rio Grande do Sul, já suscitou uma literatura numerosa e respeitavel, que envolve desde os estudos historicos, como os de um Aurelio Porto, até às investigações sociologicas mais modernas e complexas, como as do sr. Emilio Williams - para só me referir à bibliografia brasileira e em lingua portuguesa - o do Espirito Santo permanece virtualmente ignorado e esquecido. Nem o fato de já ter inspirado uma das obras classicas de nossa prosa de ficção - o "Canaan" de Graça Aranha - serviu até aqui de poderoso estimulo contra esse desconhecimento.
Mas não foi apenas entre brasileiros que o caso daquelas dezenas de milhares de colonos germanicos insulados há algumas gerações entre nossas montanhas e florestas, nas bordas da zona torrida, e que às vesperas da guerra de 14 equivaliam numericamente, segundo Wagemann, aos de todas as então possessões alemãs reunidas, pôde provocar grande curiosidade cientifica. É significativo, por exemplo, que em inquerito tão pormenorizado sobre o colono europeu nos tropicos, como o que realizou Grenfell Price, e que a "American Geographical Society" de Nova York fez imprimir em 1939, não se faz sequer menção da existencia dessa verdadeira ilha germanica situada em nossas latitudes tropicais, embora todo um extenso capitulo seja dedicado aos colonos brancos na America do Sul (e na Costa Rica). A quem pretenda conhecer esse problema e não possa investigá-lo "in loco", só cabe o recurso de estudá-lo em obras de alguns especialistas ou viajantes alemães. Nesta de Wagemann, em particular, que acaba de ser traduzida. Ou na de G. Giemsa e E. G. Nauck, sobre os resultados de uma expedição efetuada em 1935 por incumbencia do Instituto Tropical de Hamburgo e cuja tradução nos é prometida. Ou nas extensas e valiosas observações de Otto Maull em seu livro monumental sobre o Brasil: "Vom Itatiays zum Paraguay". Já não me refiro a relator de Lamberg, que tendo percorrido terras capichabas na segunda metade do seculo passado, puderam colher preciosos dados sobre aquelas colonias durante a fase inicial de seu desenvolvimento.
Em muitos casos, as observações feitas por esses pesquisadores obedecem à inspiração de doutrinas raciais e mesmo de ideologias nascionalistas fundadas em tais doutrinas, o que só por curiosa extravagancia puderam oferecer atrativos a certos estudiosos brasileiros. Quando um Nauck, por exemplo, chega a invocar, em 1938, os fundamentos doutrinarios do nacional-socialismo em favor da preservação em sua integridade da pureza racial e cultural dos 40.000 alemães ou teuto-brasileiros estabelecidos entre as florestas capichabas, não vejo como seu ponto de vista tenha precisamente por onde nos encantar. Mas tambem não creio que, tomadas em bloco, as conclusões obtidas nesse caso, e em outros, possam ser fortemente prejudicadas pelo seu colorido racista. Em certo sentido acredito mesmo que a presença de atitudes semelhantes deva ser, ao contrario, um incentivo para que procuremos conhecê-las.
No caso do livro de Wagemann, publicado, aliás, muito antes do surto hutlerista na Alemanha, parece-me que o ponto fraco da recente versão portuguesa, por outros aspectos de tamanha fidelidade, está no empenho do tradutor em limar certas arestas e velar as asperezas de um texto capaz em mais de um caso, de ferir suscetibilidades do leitor brasileiro. Quando, por exemplo, no original, se diz das raparigas de ascendencia teutonica (à pagina 114), que nada adquiririam da graça languida e da elegancia das luso-brasileiras, o que atribui à circunstancia de não se entregarem, como estas, a um constante "farniente" (Nichstum), a tradução suprime o texto talvez desabonador para as brasileiras. Pouco adiante, onde o alemão declara que no clima das baixadas, alguns colonos tendem a degenerar e "abrasileirar-se" (verbrasilianen) o texto do sr. Santana, diz "acaboclar-se". E onde Wagemann, à pagina 141 do original, escreve que, em sintese, "o camponio alemão das matas do Espirito Santo surge aos nossos olhos como uma imagem de robustez, em meio de uma gente depauperada e degenerada" (inmitten eines schwachlichen und entarteten Geschlechts), o brasileiro deixa cair seu ponto final logo depois da palavra "robustez", omitindo cuidadosamente o resto da frase.
Essas pequenas e injustificaveis traições de um tradutor demasiado prudente, não chegam todavia a diminuir a importancia de seu esforço e nem a prejudicar o significado das observações que se compendiam na obra de Wagemann. Em proximo artigo tentarei deter-me em algumas dessas observações.

Folha de São Paulo

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Sérgio Buarque de Holanda - Um leitor especial



Um leitor especial

Livro que reúne textos do historiador Sérgio Buarque de Holanda revela um grande crítico literário

JOSÉ GERALDO COUTO

O espírito e a letra (Companhia das Letras, dois volumes, total de 1.088 páginas), que reúne as críticas literárias publicadas na imprensa por Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), é um livro precioso sob vários aspectos.

Os discípulos ou admiradores da obra do crítico e historiador lerão esses dois volumes como um extenso e rico registro de quatro décadas de vigorosa militância intelectual. Os estudiosos ou curiosos da literatura brasileira moderna encontrarão neles um compêndio de quase tudo o que de importante surgiu no setor entre 1920 e 1959. Por fim, os interessados na própria crítica literária como disciplina específica, terão ali um exercício incessante de reflexão sobre as relações entre texto e contexto, ou, em outras palavras, entre forma e história.

Pois Sérgio Buarque – um dos maiores historiadores que o Brasil já teve, autor de clássicos como Raízes do Brasil e Visão do paraíso – nunca se deixou seduzir pelo canto da sereia da crítica exclusivamente formal, nem recaiu no erro oposto, de considerar o texto literário apenas como "reflexo" ou "sintoma" de uma determinada configuração social e histórica.

Dono de uma erudição quase inverossímil e de um aparato crítico invulgar, empenhou-se desde o início de sua atividade profissional, aos 18 anos, em articular a análise da obra literária, em todas as suas especificidades formais, com o estudo de sua inserção em contextos progressivamente mais amplos: a história literária, a história da cultura e a história humana em geral.

A organização do livro em ordem cronológica – o primeiro volume reúne textos de 1920 a 1947; o segundo, de 1948 a 1959 – permite acompanhar a formação e o aperfeiçoamento do método crítico de Sérgio Buarque, bem como a evolução de seu próprio estilo como escritor. Permite também constatar seu engajamento como aliado do movimento modernista em sua tentativa de se impor e se legitimar no cenário cultural brasileiro.

Por diversas razões, o segundo volume, que é o mais extenso (679 páginas), é também o mais rico e interessante. Primeiro, porque nele aparecem, analisadas pioneira e agudamente, obras de autores mais próximos do leitor de hoje, e de influência marcante na literatura atual. Segundo, porque o estilo de Sérgio Buarque encontra-se ali plenamente desenvolvido e depurado, atingindo um ponto ideal de equilíbrio entre clareza, concisão e profundidade.

As primeiras críticas profissionais de Sérgio Buarque, publicadas em 1920 em jornais como "Correio Paulistano" e revistas como "A Cigarra" e "Revista do Brasil", impressionam pela erudição do jovem autor. Aos 18 ou 19 anos, ele já discorria com desenvoltura não só sobre a obra de um Goethe como também sobre traduções desta em várias línguas. Há até um certo pedantismo nessas primeiras intervenções do crítico, então muito preocupado na definição de um caráter nacional para a literatura feita em nosso país. Alguns desses primeiros textos soam algo distantes para o leitor atual, sobretudo por tratarem freqüentemente de obras e autores que não vingaram, e hoje jazem na obscuridade (Marinella Peixoto, Marques da Cruz, o colombiano Vargas Vila etc.).

O livro ganha interesse quando registra o advento do movimento modernista de 22, ao qual Sérgio Buarque aderiu na primeira hora – na verdade até antes, pois em dezembro de 1921 ele já saudava, na revista "Fon-Fon", o "futurismo paulista". Ao encontrar sua "turma", o crítico parece se encaminhar rapidamente para a superação de um certo desconforto diante de nossa incipiência literária, vista até então pelos padrões europeus. A atitude modernista, ao mesmo tempo cosmopolita e extremamente atenta às coisas do Brasil, dá a Sérgio Buarque uma espécie de bússola pela qual se guiará daí em diante.

Embora continue sintonizado com tudo o que de mais importante ocorre no cenário internacional (tanto europeu como norte-americano), o crítico e historiador passa a dedicar o melhor de sua atenção à produção dos modernistas brasileiros e seus agregados (Bandeira, Drummond, Murilo Mendes, Jorge de Lima, o romance nordestino dos anos 30 etc.).

Uma das maneiras mais estimulantes de ler O Espírito e a Letra pode ser, justamente, observar como Sérgio Buarque abordou, ao longo de 40 anos, todos os movimentos e autores importantes que surgiam: o modernismo da "fase heróica", o romance social de 30 (Graciliano Ramos, Jorge Amado, Lins do Rego), a "geração de 45", João Cabral de Melo Neto, a poesia concreta.

O que impressiona, nesse recorte, é a absoluta abertura de espírito do crítico a tudo o que pudesse trazer algo de novo e enriquecedor à sensibilidade humana, ao mesmo tempo em que seu vasto conhecimento da história literária e cultural permitia-lhe relacionar imediatamente as novas tendências ou autores às mais variadas linhagens e tradições.

Nesse sentido, é exemplar um texto como "Ritmo e Compasso" ("Diário Carioca", 1951), em que Sérgio Buarque analisa o primeiro livro de Décio Pignatari, Carrossel, e o relaciona com a poesia de Haroldo de Campos, que seria nos anos seguintes companheiro daquele no movimento concretista. Na época, à falta de termo melhor, o crítico usa o rótulo então em voga, "pós-modernista", para qualificar a obra dos dois autores. Mas não deixa de notar, já nesse texto pioneiro, a diferença profunda entre a poesia de Haroldo, "de depuração das formas tranquilas", e a de Décio, "uma poesia da mobilidade".

Outro roteiro fecundo de leitura – já que este livro-manancial pode ser percorrido de várias maneiras, além da linear – é acompanhar os temas desenvolvidos pelo autor em séries articuladas de ensaios. "O sentido universal da literatura francesa", por exemplo, merece dois penetrantes artigos publicados no "Diário de Notícias" do Rio de Janeiro em 1949. As relações entre linguagem poética e linguagem científica geraram em 1951 uma polêmica de alto nível entre Euríolo Canabrava e Sérgio Buarque, que publicou uma série de quatro artigos sobre o tema, sob o título "Poesia e positivismo", no "Diário Carioca".

Um exemplo cabal, entre tantos outros, da percuciência crítica e do poder de síntese de Sérgio Buarque de Holanda são os dois artigos que dedicou a Carlos Drummond de Andrade – um de seus poetas preferidos, ao lado de Bandeira – no "Diário Carioca" em 1952, sob o título "O Mineiro Drummond". Lendo-os, temos uma exposição sucinta das relações entre a paisagem mineira e o temperamento poético do escritor de Itabira, e um estudo de como esse temperamento se traduziu num determinado estilo de composição.

É impressionante notar como Sérgio Buarque de Holanda alcançava, em breves textos de jornal, um grau de elaboração crítica raramente atingido hoje mesmo em estudos universitários especializados – o que pode ser visto como um sinal de como decaiu a imprensa literária e de como se deterioraram os estudos acadêmicos de letras.

Pela extensão de seu aparato crítico e pela abrangência de seus interesses (história, literatura, antropologia, sociologia, arte, filosofia), Sérgio Buarque de Holanda foi um intelectual de estatura só comparável à de um Mário de Andrade, que aliás serviu-lhe como uma espécie de mestre e exemplo inspirador.

Estes dois volumes, organizados com dedicação e competência por Antonio Arnoni Prado (autor de introdução e notas úteis e esclarecedoras), são um testemunho inquestionável do gênio crítico do autor. No campo da crítica literária, vêm-se juntar a outra obra fundamental de Sérgio Buarque, Capítulos de literatura colonial, organizada por Antonio Candido e publicada pela Brasiliense em 1991. Colocados lado a lado com a obra historiográfica do autor (que foi também criador e coordenador da monumental coleção História geral da civilização brasileira), esses volumes de crítica revelam uma rara inteligência em plena ação.

Revista Problemas Brasileiros