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segunda-feira, 20 de março de 2017

Crianças no Egito de Cleópatra morriam por desnutrição


É o que revela um estudo de 20 anos na Necrópole de Saqqara


 A rainha em sua indiferença, em quadro do século 19 | Crédito: Alexandre Cabanel 
Cleópatra VII, a última faraó do Egito, é famosa pelo luxo, tomando banhos de leite e, em certa ocasião, dissolvendo a maior pérola do mundo em vinagre para beber, numa aposta com seu amante, o general Marco Antônio. Ainda que a última história seja provavelmente invenção, numa coisa, nenhum historiador vai discordar: pobre, ela não era.


Como isso se traduzia para o povo? Muito mal, segundo uma pesquisa de duas décadas conduzida pelo egiptologista polonês Karol Myśliwiec, da Universidade de Varsóvia. Sua equipe analisou os restos encontrados de 29 crianças encontradas na Necrópole de Saqqara, na antiga capital Mênfis. A pesquisa completa passou por 500 tumbas, desde o Antigo Reino, há quase 5 mil anos. Mas essas crianças, com idades entre meses até 12 anos, foram enterradas entre os séculos 4 a.C. e 1 d.C., durante o período ptolomaico - a dinastia de Cleópatra - e início do domínio romano.

Segundo a equipe, a maioria dessas crianças morreu de infecções ou parasitoses relacionadas à perda de imunidade ao fim do aleitamento materno. Mas isso não vem sozinho: elas sofriam de cáries, anemia, deficiência de vitamina B e má nutrição em geral. Também sinusite crônica causada pelo ambiente do deserto.

Uma das crianças, cujos dentes indicavam ter 4 anos de idade, tinha o tamanho de um bebê de um ano. "Isso significa um retardamento ou inibição temporária no crescimento da criança ocorreu, provavelmente causado por uma dieta pobre em nutrientes essenciais para o desenvolvimento", afirma a bioarqueóloga Iwona Kozieradzka-Ogunmakin, da Universidade de Manchester.

                                

                       Dra. Iwona trabalhando / Polish Centre of Mediterranean Archaeology UW

Curiosamente, um dos indícios do estado precário de saúde dessas crianças é que a maioria delas não tem marcas diretas das doenças que as levaram. O que, ao contrário do que possa parecer, não significa que eram saudáveis, mas que "sucumbiram às doenças rapidamente por seu sistema imunológico fraco", segundo Dra. Iwona. Quem tem sinais de doenças é porque sobreviveu o suficiente para eles aparecerem - assim, estava num estado menos ruim que os outros.

Outra ausência significativa: o próprio número de tumbas infantis é considerado baixo. Segundo os cientistas, é possível que pais enterrassem crianças nas próprias casas, como já foi visto em outras partes do Egito, ou que os corpos, enterrados em covas rasas perto da areia, tenham sido levados por animais.

O Egito de Cleópatra está longe de ser o país exótico e atrasado que os filmes costumam mostrar. Ela foi a última governante da Dinastia Ptolomaica, gregos descendentes da conquista do país por Alexandre o Grande, em 336 a.C. Com a decadência das cidades-estado gregas, como Atenas, a capital do Egito, Alexandria, havia se tornado o novo centro cultural do mundo grego - prova disso era a Grande Biblioteca, um centro científico de onde vieram coisas como portas automáticas, máquinas de venda e o motor a vapor (que eles só usaram como um brinquedo). Com a conquista romana, o Egito seria também o celeiro do mundo.

A miséria vista no cemitério provavelmente foi azar. Segundo os arqueólogos, secas no rio Nilo provavelmente causavam períodos de escassez, que levam à desnutrição generalizada. As crianças pequenas sofriam mais que todos.
Revista Aventuras na História

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Cleópatra, a alegria dos homens



Com seus encantos, a rainha seduziu os poderosos de Roma, mas não evitou o último suspiro dos faraós

Cleópatra Thea Filopator nasceu em Alexandria entre dezembro de 70 a.C. e janeiro de 69 a.C. Era filha de Ptolomeu XII e de mãe desconhecida. Seu nome é grego e significa “a deusa Cleópatra, amada de seu pai”. A dinastia ptolomaica assumiu o poder em 305 a.C. depois que Alexandre, o Grande, incorporou o Egito à Grécia – o primeiro Ptolomeu era general de Alexandre. Apesar da origem grega da família, Cleópatra foi a única do clã a dominar a língua egípcia. Acredita-se que era uma mulher muito culta – além do grego e do egípcio, falava aramaico e latim, entre outras línguas.
Sabe-se pouco sobre sua infância e adolescência. A imagem de Cleópatra que perdura até hoje é a de uma mulher bonita e sexualmente ousada. Fontes antigas enfatizam sua inteligência e diplomacia – dizem até que ela escreveu livros sobre pesos e medidas, magia e cosméticos. Há quem diga que ela foi uma das inventoras da maquiagem. Estudos recentes afirmam, no entanto, que de bonita ela só tinha a pele – banhada freqüentemente com leite de cabra e perfumada com óleos exóticos.
Ptolomeu XII, seu pai, não era nada popular em Alexandria. Ficou no poder graças ao apoio de Roma, pelo qual teve que pagar grandes quantias de dinheiro, arrancando o couro do povo com pesados impostos. Recebeu o apelido de “Auleta”, que significa “tocador de flauta”, porque preferia levar a vida na flauta, tocando e ouvindo música, a pegar no batente. Em 58 a.C., com o clima mais pesado que nunca para ele, refugiou-se em Roma. Sua filha Berenice IV tornou-se a nova soberana com apoio da população alexandrina. Em 55 a.C., Auleta voltou e mandou matar a própria filha. Nomeu seus filhos Cleópatra e Ptolomeu XIII para o trono do Egito e morreu em 51 a.C. Seguindo o costume da dinastia, Cleópatra casou-se com o irmão – que tinha cerca de 15 anos de idade e passou a ser cercado de puxa-sacos, oportunistas e conspiradores de plantão.
Ambiciosa e malandra, Cleópatra sabia que Roma era a nova potência mundial. Se quisesse ficar no poder, teria que ter boas relações com ela. É aí que entra...
JÚLIO CÉSAR
Filho de família tradicional e com uma certa grana, Caio Júlio César (100-44 a.C.) era um advogado que virou político e que depois decidiu seguir a carreira militar. Em pouco tempo no posto de general, fez importantes conquistas e ampliou os domínios do Império Romano. Mas meteu-se numa guerra civil contra a facção conservadora do Senado romano, comandada pelo respeitado general Pompeu. Eles temiam que César estivesse tramando um golpe para virar ditador.
Em uma batalha travada no dia 9 de agosto de 48 a.C., César conseguiu uma vitória surpreendente contra o favorito Pompeu, que fugiu para o Egito. César regressou a Roma e foi nomeado ditador romano (que não é o mesmo que ser ditador no sentido habitual; era um cargo político cheio de regras). Para ajudá-lo nas campanhas militares, nomeou Marco Antônio.
César decidiu ir ao Egito atrás de Pompeu para oferecer seu perdão. Soube então que ele tinha sido decapitado por ordem de Ptolomeu XIII, que pensou estar fazendo um favor a Roma. Enganou-se. César ficou furioso com a barbárie. Usou seu poder para substituir o rapaz pela irmã, Cleópatra. Foi a chance que ela queria para se aproximar do novo “rei do pedaço”
Conta o filósofo e escritor Plutarco (que viveu no século 1) que Cleópatra mandou um grande tapete a César – fazia frio no Egito naqueles dias. Quando desenrolou o presente, o visitante encontrou nada menos que a própria Cleópatra dentro dele. Na maior cara-de-pau, ela disse que tinha ficado encantada com as histórias amorosas do já cinqüentão César (que era chamado de “o calvo adúltero” por seus soldados). E disse que queria conhecê-lo de perto. Conheceu. Aos 21 anos de idade, tornou-se sua amante e consolidou seu poder.
Enciumados, o mano Ptolomeu XIII e uma irmã, chamada Arsínoe, tentaram virar o jogo, com o apoio do Exército egípcio. César botou todo mundo para correr. Arsínoe foi presa e Ptolomeu XIII afogou-se no rio Nilo quando tentava escapar.
Em junho de 47 a.C., Cleópatra deu à luz Ptolomeu XV César – ou Cesarion (“pequeno César”). César reconheceu a paternidade do menino, mas voltou a Roma deixando no Egito três legiões romanas e uma orientação para a namorada: ela devia se casar com Ptolomeu XIV, também seu irmão.
Tudo parecia tranqüilo. Com todo o mundo romano sob seu domínio, César iniciou uma série de mudanças administrativas. Mudou até o calendário – o mês quintilis foi rebatizado de julius (julho). Até que, no dia 15 de março de 44 a.C., numa reunião do Senado, César foi apunhalado até a morte por um grupo de senadores, entre eles seu protegido Marcus Junius Brutus.
Cleópatra não se apertou. Voltou suas armas de conquista na direção de...
MARCO ANTÔNIO
Em 42 a.C., Marco Antônio fazia parte do triunvirato que governava Roma desde a morte de César, dois anos antes. Ele era o comandante da parte oriental do Império e intimou a rainha do Egito para um encontro político. Cleópatra, conhecendo a fama de mulherengo e beberrão do sujeito, chegou arrasando, com todo o luxo a que tinha direito. Ofereceu até um banquete regado a vinho. Desse encontro político (e de outros que se seguiram no inverno seguinte) nasceram os gêmeos Cleópatra Selene e Alexandre Hélios.
Cada um foi para o seu lado, até que, quatro anos depois, reataram o romance. Cleópatra teve então outro filho, Ptolomeu Filadelfo.
No fim de 34 a.C., Marco promoveu um verdadeiro trem da alegria com as chamadas “Doações de Alexandria”. Distribuiu cargos e terras (países inteiros) a Cleópatra e seus filhos – o equivalente a um terço do território romano. Divorciou-se da esposa Otávia e declarou que o filho de Cleópatra com César era o herdeiro legítimo do poder em Roma. Foi um escândalo.
Ultrajado, o general Otaviano – irmão de Otávia, sobrinho de Júlio César e comandante da Roma Ocidental – discursou no Senado, dizendo que a doação de terras conquistadas pelos romanos a uma mulher era uma “afronta imperdoável”.
Os senadores destituíram Marco de suas atribuições e acabaram com a imagem do Egito e de Cleópatra – chamaram-na de feiticeira para baixo. A guerra civil era inevitável. E ela veio com tudo.
O conflito – conhecido como Batalha de Ácio – arrastou-se por meses. Importantes aliados de Marco Antônio mudaram de lado em protesto pelos palpites de Cleópatra. Um dia, sem mais nem menos, ela içou velas e partiu com 60 navios rumo ao Egito. Seu apaixonado marido, sem entender nada, pegou um barco menor e foi atrás dela, deixando os soldados na mão. Até hoje não se sabe ao certo por que ela fez isso. Resultado: desastre. Marco perdeu 5 mil soldados e 300 navios. E caiu numa depressão que teria conseqüências trágicas.
Cleópatra tentou levar sua fortuna para a Índia e lá fundar um novo reino, mas foi atacada no meio do caminho por tribos inimigas de sua dinastia e teve que voltar para trás. Em Alexandria, ficou sabendo que Otaviano estava a caminho para capturá-la. Despachou o filho Cesarion para a cidade de Coptos. A cavalaria de seu marido estava resistindo bravamente aos ataques de Otaviano. Mas Marco, acreditando nos boatos que diziam que sua musa estava morta, suicidou-se com um golpe de espada. A notícia chegou a Cleópatra por volta do dia 30 de agosto de 30 a.C. Para não se submeter à humilhação de ser exibida acorrentada pelas ruas de Roma, deixou-se picar por uma serpente – que alguém tinha trazido para ela num cesto de figos. Era o fim de uma história de amor – e de 3 mil anos de reinado dos faraós no Egito. Aquele que tinha sido o maior império sobre a Terra era agora apenas mais uma província romana.

O que é que a egípcia tem?
Romanos se perguntavam: “o que Júlio César e Marco Antônio viram nessa nariguda?” em 1963, Hollywood levantou a bola de Cleópatra, mas descobertas recentes mostram uma bruxa
A beleza de Cleópatra já era motivo de controvérsia mesmo quando ela ainda estava viva. Os romanos fofocavam sobre os misteriosos encantos da mulher que conquistara, na seqüência, Júlio César e Marco Antônio, os mais poderosos generais da época. Seria o poder mágico de seus perfumes inebriantes? A julgar pelas imagens que chegaram até nossos dias, Marco Antônio era o cão chupando manga, mas Júlio César tinha seu charme – e fama de garanhão. Cleópatra era careca, como quase todo mundo, para evitar piolhos. Durante séculos falou-se sobre o tamanho de seu nariz. O falatório só diminuiu a partir dos anos 60, depois que a atriz Elizabeth Taylor, no auge da beleza, estrelou um filme sobre a rainha do Egito - uma das produções mais caras da história de Hollywood. Ela consolidou a imagem que o mundo moderno tem de Cleópatra – uma deusa com nariz delicado, cintura fina, pele clara e olhos azuis. Mas o sossego da verdadeira Cléo durou pouco, e a polêmica sobre sua beleza acaba de ser reacesa. Uma exposição no Museu Britânico, em Londres, mostrou ao mundo dez estatuetas, a maioria retirada do Porto de Alexandria. Junto com uma moeda de prata de 2 mil anos, as peças retratam a rainha como uma mulher baixinha, roliça, queixuda, de lábios finos e dentes feios. E confirmam o famoso narigão.

Entrevista Com Gente Morta
A volta da rainha da sedução
Cleópatra representou a inteligência, o charme, a força e aginga da mulher egípcia
Texto Soraia Gama
A última rainha do Egito – e talvez a mais famosa entre todas as rainhas de todos os tempos – interrompe dois milênios de silêncio e fala da dor e da delícia de ser o mais antigo símbolo sexual da humanidade. Dá dicas de beleza e sedução e conta que, como toda celebridade, foi alvo de fofocas – a pior delas diz que ela transou com um exército inteiro. Recentemente, teve sua legendária beleza questionada por estudiosos. Veja a seguir o que ela tem a dizer.
HISTÓRIA – Dizem que sua beleza é um mito. Como seduziu homens tão poderosos?
CLEÓPATRA – Não posso forçar ninguém a me achar linda, mas negar que sou muito interessante ninguém pode. Interessante e inteligente. Por mais bela que seja, a mulher não segura um homem por muito tempo sem cultura. Sempre opinei nas ações de César. Ficaria entediada se tivesse a vida das esposas de Roma.

Mas você não era esposa dele. Ser amante não a incomodava?
No começo, eu nem ligava. Tratava-se de interesse político. Eu não poderia deixar o Egito nas mãos do meu irmão mais novo e planejei seduzir César para conseguir o trono. Depois me envolvi, tive medo, insegurança. Eu era muito jovem.

Como aprendeu tão bem a arte da sedução?
A pessoa mais próxima a mim era meu conselheiro. Mas não poderia perguntar a um eunuco como seduzir um homem como o grande general. Então ordenei que me trouxessem uma hetaíra, uma cortesã. Ela me deu boas demonstrações, que pus em prática no primeiro momento com César. No começo, me senti pequena demais diante daquele homem. Com o tempo, fui ficando mais segura. Consegui me soltar, tomar a iniciativa e dominar a situação na cama. Os homens adoram isso.

Você era muito vaidosa?
Como toda mulher é ou deveria ser.

Algum segredo?
Os óleos deixam a pele macia e muito atraente. Com o sol forte do Egito, era preciso um cuidado especial. Eu recebia massagens com diversos óleos diariamente e tomava banhos de leite de cabra.

Você sabe que a maquiagem se originou do kohl negro, que você usava para pintar os olhos?
Sim. Às vezes, eu usava o pó de malaquita, um kohl verde. Essa pintura deixava os olhos lindos e os protegia do excesso de claridade. Hoje, vocês têm facilidades que a gente não tinha naquela época, além da enorme variedade de produtos.
Você tinha alguém que cuidava do seu guarda-roupa?
Quando governei, não existia o conceito de moda. Era tudo muito parecido, não era possível ter exclusividade. O que diferenciava as mulheres nobres eram os tecidos, de muito mais qualidade.

Eram importados?
Imagina! O linho e o algodão são típicos de locais quentes. O Egito produz os melhores, até hoje.

E para os cabelos, havia algum segredo?
Que cabelo? O piolho foi uma praga do Deus hebreu e tivemos de depilar todo o corpo para não propagar a desgraça. Chegamos a usar cera de abelha no alto da cabeça para espantar as moscas, outra praga divina. Eu era careca.

Mas sua franjinha foi eternizada por Elizabeth Taylor no filme Cleópatra...
Mas era filme. Ouvi dizer que essa atriz só usou o que quis durante as filmagens. Foi tratada como se fosse mesmo uma rainha.

Os comentários de que você teve relações sexuais com um exército inteiro de Roma duram até hoje. O que você tem a dizer a respeito?
[Séria] Demorou para você tocar nesse assunto. Só tenho a dizer que fui casada de verdade com dois homens: Júlio César e Marco Antônio. Amei e estive ao lado dos dois até o último suspiro. E não falo mais nada sobre minha vida pessoal.

Julio César era muito mais velho que você. Isso não atrapalhou o relacionamento?
Júlio foi meu primeiro homem e pai de Cesarion. Isso é mais importante em uma relação do que a diferença de idade. Marco Antônio também era uns dez anos mais velho.

Então você sempre gostou de homens mais velhos?
Homens interessantes, com garra e determinação. A idade não importa.

Talvez o assunto não lhe agrade, mas com essa pergunta encerramos a entrevista. Você sentiu medo ao ver a cobra saindo do cesto de frutos na noite em que foi picada e morta?
[Pensativa] Não. Sei que o poder tem seu preço. Um preço alto.

Para saber mais
Quando Éramos Deuses, Colin Falconer, Record, 2004 - Um romance sobre a vida amorosa e política de Cleópatra.
Revista Aventuras na História

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Cleópatra: a rainha dos reis


Cleópatra: a rainha dos reis
Para reviver a glória dos faraós do Egito, Cleópatra seduziu os dois mais poderosos chefes romanos de seu tempo. Um terceiro a derrotou.
Para reviver a glória dos faraós do Egito, ela seduziu os dois mais poderosos chefes romanos de seu tempo. Um terceiro a derrotou.


Ano 51 a.C. Cleópatra, aos 18 anos, torna-se rainha do Egito com a morte de seu pai Ptolomeu XII. É provável que os oráculos profetizassem que a jovem ambiciosa, meio grega, meio macedônica, estava destinada a interferir nos meandros da História. Mas tudo que Cleópatra queria era manter-se no poder. O Egito, celeiro do mundo ocidental e uma das nações mais ricas do Mediterrâneo, representava um troféu muito cobiçado pelos inquietos romanos; afinal, uma centena de anos antes eles haviam começado sua expansão para o Oriente. Mais de uma vez falara-se em anexação e o próprio pai de Cleópatra só conseguiu manter-se no trono distribuindo subornos. Assim, a rainha ainda adolescente sabia muito bem que o caminho para a permanência no poder passava por Roma — e seus governantes. Tornou-se amante e aliada de Júlio César (100-44 a.C.), o primeiro ditador romano. Mais tarde, conquistou as atenções de seu sucessor, Marco Antônio (82 ou 81-30 a.C.).

A história desses romances, misto de desejo e jogo de interesses, repercutiria intensamente na política romana, que passava por um período crucial. A República, implantada em 509 a.C., agonizava em meio à guerra civil. Os generais mais ricos, que podiam pagar seus exércitos, procuravam obter o poder para si. "Nesse tabuleiro de xadrez Cleópatra manobra com habilidade", avalia o professor de História Antiga Ciro Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense. "Num mundo em que os negócios do Estado estavam nas mãos dos homens, ela usou a sedução para vencer como estadista." A personagem Cleópatra, na maioria dos livros de História, encarna como nenhuma outra mulher da Antigüidade o papel de irresistível sedutora. "Mas esta é uma visão deformada", critica Flamarion Cardoso, que se diz um admirador da figura histórica da rainha. "Cleópatra foi uma administradora competente, uma mulher culta, que além do mais devia ter consideráveis dotes eróticos. Apostou na sua estratégia e perdeu. E a História não costuma ter complacência com os vencidos."

Surpreendentemente, apenas há poucas décadas, passou-se a pesquisar com outro enfoque a vida da rainha do Egito. Até então, baseados no que diziam seus inimigos, que por sinal não eram poucos, os textos clássicos a descreveram de maneira extremamente pejorativa— mulher venal, amante de orgias, que conseguiu, com seus ardís, enfeitiçar dois generais romanos. Além das lendas, são poucos os registros históricos dignos desse nome sobre Cleópatra. Para evocar a sua aparência existem algumas efígies em moedas e um busto no Museu Britânico, em Londres. Não se sabe, portanto, se a moça tinha os olhos claros e cabelos loiros dos macedônios, ou a tez morena dos gregos. Parecia ter olhos grandes, boca pequena e bem desenhada. "Se o seu nariz tivesse sido mais curto, toda a face da Terra teria mudado", disse o matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), pioneiro da Teoria da Probabilidade. O nariz era aquilino . O fato é que a beleza não constituía o seu maior atributo. Plutarco, o historiador romano que viveu um século depois, explicava de outro modo o fascínio que ela exercia: "A presença de Cleópatra era irresistível e havia tal encanto em sua pessoa e no seu modo de falar, misturado com uma força singular que permeava cada palavra e cada gesto, que a todos ela subjugava."

Cleópatra pertencia à dinastia de Ptolomeu, um dos generais de Alexandre, o Grande (356 a.C.-323 a.C.), cujo império se estendia do Egito até a Índia. "Alexandre, de origem macedônica absorveu a cultura oriental e se comportou como um monarca divino", classifica o professor de História Antiga Ricardo Mário Gonçalves, da Universidade de São Paulo. "Os sucessores imitaram o seu exemplo." Depois da morte do imperador, suas terras foram divididas, cabendo a Ptolomeu o Egito. Para consolidar seu poder, o general se fez sagrar faraó, retomando as tradições das linhagens que comandaram o país durante três milênios, sob cuja autoridade se desenvolveu uma peculiar civilização de que as pirâmides são o signo mais conhecido. Cleópatra VII Thea Philopator (deusa que ama o pai, em grego) era o seu nome todo. Herdeira da dinastia ptolomaica, gostava de vestir-se como Ísis, a deusa-mãe, de quem se dizia a reencarnação.

Nascida em 69 a.C., na rica Alexandria cujo porto era o mais importante da época, nada mais natural que Cleópatra se sentisse uma deusa. Dos jardins do seu palácio, ela podia ver algumas das maravilhas legadas ao mundo por seus antepassados: a mais famosa biblioteca da Antigüidade, com mais de 700 mil volumes, e um museu freqüentado por sábios do Mediterrâneo. Os Ptolomeu eram patronos das artes e muito do que se conhece hoje de filosofia e ciência gregas foi conservado em Alexandria, a capital do Egito. Do palácio também se avistava a féerica agitação do porto, os monumentos e o magnífico farol, construído por Ptolomeu II, uma das Sete Maravilhas do Mundo. Como regente do Egito, Cleópatra controlava, com a ajuda de administradores gregos, não só a vida da cidade mas a agricultura ao longo do Nilo, de onde provinha a fabulosa riqueza de seu país. Dispondo de poder absoluto, tinha objetivos definidos para o seu reinado, além de obstinação suficiente para dedicar a vida à realização de suas ambições: garantir a riqueza e a independência do Egito e restaurar a glória dos faraós.

Cercada de uma corte corrupta, Cleópatra não tinha escrúpulos. Mandou matar quatro dos cinco irmãos (dois homens e três mulheres) que podiam atrapalhar-lhe os planos. Era porém uma mulher culta. Nas negociações comerciais e nos encontros diplomáticos dispensava intérpretes, sendo a única rainha macedônica a falar o egípcio — além de nove outras línguas. Durante o seu reinado, patrocinou as artes e as ciências e teria, segundo alguns historiadores, escrito duas obras: um improvável tratado sobre pesos e medidas e outro, mais compatível com sua figura no imaginário popular, sobre penteados e cosméticos. Para conquistar a confiança do povo, subiu o Nilo até Tebas, onde presidiu uma cerimônia de culto ao touro sagrado, manifestação do deus Ra. Nos 21 anos em que governou o Egito, evitou que a massa se rebelasse, o que contraria a afirmação de que era odiada por sua crueldade.

Em compensação, logo que se tornou rainha, enfrentou a primeira conspiração palaciana. Como de costume entre os Ptolomeu, Cleópatra deveria dividir o trono com seu irmão Ptolomeu XIII, de apenas 10 anos, de quem era formalmente a mulher. Temendo, com bons motivos, que ela pretendesse governar sozinha, os tutores do irmão-marido a expulsaram para a Síria. Nesse meio tempo, o triunvirato que governava Roma desde 60 a.C. havia se desfeito e César disputava com Pompeu o controle da República. Pompeu foi assassinado em 48 a.C.. no Egito, para onde César se dirigiu com suas legiões. A fim de entrar incógnita em Alexandria e conquistar as graças de César, Cleópatra arquitetou um plano ao seu estilo. Detalhe miúdo, ela se fez embrulhar num tapete, colocado nos ombros de um servo. Pode-se imaginar a expressão do ditador romano, ao ver o que continha o tapete desdobrado aos seus pés. Não espanta que a apresentação tenha terminado na cama. Seja como for, no dia seguinte César entregaria o controle do Egito para Cleópatra. Era um presente sujeito a condições. Em troca, a rainha, que mais tarde deu à luz a um filho apropriadamente chamado Cesário Ihe garantiu riquezas para sustentar seus exércitos.

Assim, apesar do que diziam as más línguas da época, a sedução de César não era cega. Mas, ao voltar a Roma, em 46 a.C., depois de uma vitoriosa campanha na Ásia Menor, o ditador convidou a rainha a visitá-lo. E, para provar a todos que Cleópatra era mais do que uma amante casual, mandou colocar sua estátua no templo dos próprios ancestrais dedicado a Vênus, como se sabe, a deusa do amor e da beleza na mitologia romana. César tinha então 54 anos. Cleópatra, 23. Os dias do conquistador, no entanto, estavam contados. Os inimigos acreditavam que ele pretendia tornar-se rei e instalar o governo do império em Alexandria para ficar junto da amante. Em 44 a.C., num dos episódios mais dramáticos da história de Roma, César foi assassinado por um grupo de republicanos. Sua morte pôs um fim à primeira campanha de Cleópatra pelo poder. Discretamente, retirou-se para o Egito à espera dos desdobramentos que não tardariam, na luta em Roma.

Divulgado por Marco Antônio, o melhor amigo de César, o testamento do finado não mencionava sequer uma vez o nome de Cleópatra nem fornecia indicação de um eventual projeto monárquico. Os conspiradores que acreditavam que a morte de César traria de volta a República tiveram de sair do país. Formou-se um novo triunvirato com Marco Antônio, Otávio — um jovem de 18 anos, herdeiro de César — e Lépido, o maior de seus generais. Logo ficou claro que a ambição dos dois primeiros iria jogá-los um contra o outro. Em 42 a.C., na primeira batalha de que os dois participam juntos, em Filipos, na Grécia, o maior quinhão da glória cabe a Marco Antônio — ou assim parece, já que nessa época Otávio era apenas um rapaz doente. Para consolidar o poder recém-conquistado, Antônio sonha com uma invasão da Pérsia e, para esse objetivo, convoca todos os aliados da República Romana a um encontro em Tarso, na Síria. É a oportunidade que Cleópatra esperava para voltar à História. Sua entrada é nada menos que triunfal. Baseado nos textos de Plutarco, o dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) imortalizaria acenara peça Antônio e Cleópatra, em que a rainha, adornada como Vênus, aparece na popa dourada de um barco com velas de cor púrpura enfunadas ao vento. Cleópatra se faz abanar com plumas de avestruz por meninos vestidos de Cupido, enquanto, ao som de flautas, oboés e alaúdes, escravos movem ritmicamente os remos de prata. A ser verdadeira a cena, Hollywood não terá inventado nada de novo na breguíssima reconstrução de Cleópatra, filmado em 1963, com Elizabeth Taylor. Dado a festas e ostentações, como poderia Marco Antônio resistir? No golpe de misericórdia, Cleópatra, aos 29 anos e no auge de seus encantos, convida o general quarentão para um banquete inigualável. Segundo Plutarco, dai em diante Cleópatra fez o que quis de Marco Antônio: "Ela despertou e inflamou paixões até então adormecidas em sua natureza, abafou e finalmente corrompeu quaisquer resquícios de bondade e justiça que ainda subsistissem nele."Na realidade, o general era emotivo, bêbado e mulherengo", precisa Flamarion Cardoso, da Universidade Federal Fluminense.

Marco Antônio desistiu da campanha da Pérsia e aceitou o convite da rainha para visitar Alexandria. Na bela cidade eles formaram uma sociedade chamada "os que vivem para o prazer", bem ao gosto do general romano. Em 34 a.C., Antônio deu a Cleópatra, como prova de amor, a ilha de Chipre, mais a Líbia e a Síria, a Armênia, a Média (no noroeste do atual Irã) e a Cilícia (sudeste da atual Turquia) — e, é claro, o velho Egito. Em troca, como já havia acontecido com César, a rainha sustentaria com suas riquezas as legiões romanas. Marco Antônio foi um amante mais generoso do que seu antecessor. Numa das festas que promoveu, deu a Cleópatra o título de Rainha dos Reis, repartindo entre Cesário, o filho que ela tivera com César e as três crianças que eram filhos dela consigo, partes das terras conquistadas pelo seu exército. Em Roma, tais doações foram usadas por Otávio para indispor o populacho contra seu rival. Segundo o professor Ricardo Gonçalves, "ao unir-se com Cleópatra, Marco Antônio tornou-se para os romanos um monarca despótico e absolutista. Enquanto Otávio, embora também quisesse o poder absoluto, parecia agir como um defensor da República." Não tardou que ambos se guerreassem. A batalha de Ácio, no leste da Grécia. em 31 a.C., foi definitiva. Embora seu exército fosse melhor preparado, Antônio não conseguiu furar o bloqueio marítimo montado por Otávio. Cleópatra, ao lado do amante, foi a primeira a reconhecer a derrota e fugir para o Egito. Para não perdê-la, Marco Antônio foi atrás, abandonando os que ainda lutavam — pecado imperdoável para um chefe militar. No Egito, o par formou a sociedade dos "inseparáveis na morte". Como bom soldado, ele matou-se com a espada. Cleópatra, porém, tinha apego à vida. Prisioneira dos romanos, com 39 anos, apelou para a velha fórmula, tentando seduzir Otávio. Mas este recusou o jogo. Não restou mais nada à rainha senão suicidar-se, fazendo-se picar por uma áspide, pequena cobra venenosa.

O mito masculino da mulher fatal

Morena, cabelos negros, olhos cor de violeta. Assim era a Cleópatra made in Hollywood, por quem o público masculino suspirava em 1963. Não só o público: o ator inglês Richard Burton, que fazia Marco Antônio no filme, sucumbiu aos encantos, como se diz, de Elizabeth Taylor-Cleópatra e com ela viveu um longo, intermitente e tempestuoso casamento. O episódio, que um dia talvez vire filme também, foi um acréscimo primoroso para fixar no imaginário popular o mito de Cleópatra mulher fatal, cuja dimensão trágica está em ser ela ao mesmo tempo prêmio e perdição para o homem. "Cleópatra é capaz de deixar qualquer homem a seus pés, mas homem algum pode ser feliz a seu lado", resume o professor Flávio Di Giorgi, que leciona Lingüística e Teoria Literária na PUC de São Paulo.

Com uma história que mistura política, intriga, violência, luxo e erotismo, é natural que a arte se apropriasse da figura da rainha do Egito, desde as pinturas que descrevem de forma romântica e grandiloqüente o seu suicídio às peças de Shakespeare e Bernard Shaw e ao romance histórico de Théophile Gautier. Vivendo num ambiente de opulência e sensualidade — a corte dos faraós na faustosa Alexandria — Cleópatra é esculpida como a mulher irresistível que usa o corpo para conseguir o que quer dos homens e depois os descarta. Ou, segundo analisa o psicanalista Renato Mezan, também professor da PUC, "como ela não tem existência real, sendo apenas a projeção dos desejos masculinos, o mito a despoja de sentimentos".
Revista Superinteressante

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A real Cleópatra, muito acima da lenda

A última grande figura do Egito antigo sonhou um destino excepcional para seu país. Seu caráter era apaixonado, e ela exerceu o poder com notável gênio político.
por Marcel Brion

Fragmento de um relevo que se acredita ser um retrato de Cleopatra. A imagem provavelmente esta inacabada ou era usada por escultores como modelo

Após o assassinato de sua filha Berenice, restavam a Ptolomeu Aulete quatro filhos legítimos: dois meninos, ambos chamados Ptolomeu, e duas meninas, Arsinoé e Cleópatra. Quando o faraó morreu, os meninos eram bem pequenos e Arsinoé tinha 14 anos. Quem assumiu o poder, no ano 51 a. C., foi a mais velha, Cleópatra. Aos 17 anos, ela já era admirada por suas qualidades de estadista, inteligência, energia, sentido de grandes projetos e, também, paciência e tenacidade.

Crescera em meio ao tumulto e à angústia da guerra, da invasão. Conheceu a humilhação da ocupação estrangeira, a arrogância e a brutalidade dos romanos, os caprichos rústicos e ruidosos daquela população mestiçada que habitava Alexandria, a docilidade e a resignação dos camponeses curvados pelo peso de milênios de submissão. Por mais que tivesse orgulho de sua ascendência real e de sua herança macedônica, sentia uma profunda simpatia pelo povo egípcio, com suas virtudes ancestrais, seu amor pela paz, sua harmonia com os elementos e as estações do ano.

Ela não era egípcia; seu sangue se constituía de heranças gregas, macedônicas e persas. Pertencia ao Egito pela inteligência e coração. De natureza generosa, orgulhosa e ousada, ela se indignou quando o jugo de Roma pesou sobre aquele país cuja civilização era tão mais antiga e refinada. Acalentou o sonho e a a ambição de livrar seu povo da tirania estrangeira. Todos os atos de seu governo e seu comportamento pessoal indicam que Cleópatra desde sempre acalentou a possibilidade de reinar sobre um vasto domínio, além- fronteiras. É imperioso abandonar o clichê da Cleópatra voluptuosa, ocupada apenas com paixões e prazeres. Ou, ao menos, é preciso reconhecer que, se essa Cleópatra realmente existiu, ela não era sua única face. Seu caráter e seu temperamento afastam qualquer tentativa de delimitação. A obstinação de definir de modo tão apequenado uma personalidade de prodigiosa complexidade não resiste diante das afirmações dos melhores historiadores da dinastia ptolomaica, que reconhecem todos nessa mulher as qualidades e as ambições de um grande rei.

Tinha vícios, mas somava a eles o raro talento de quem tem o verdadeiro gênio político de conseguir que eles concorram para a realização de seus projetos. Sua destreza em compartilhar as derrotas de César e de Marco Antônio não passava de recurso para garantir o domínio sobre os senhores de Roma e, por meio deles, realizar seus desejos e sonhos ambiciosos. Sabia ser uma grande rainha, uma amante que dominava a arte mais refinada das prostitutas e uma menina que se divertia com jogos pueris.

O modo como ela - para conseguir chegar a César - fez com que fosse levada a seu palácio, enrolada num tapete carregado sobre os ombros de seu escravo Apolodoro de Sicília, comprova mais uma de suas adoráveis e originais qualidades e, ao mesmo tempo, mostra sua engenhosidade em inventar estratagemas e astúcias de batalha.

Ao mesmo tempo, era mais sábia e mais culta do que qualquer mulher da época. Falava fluentemente egípcio, árabe, persa, aramaico, etíope e somali, além de suas línguas maternas.

Plutarco afirmou que ela não era bonita. Ela devia o domínio que exercia sobre os homens que se aproximaram dela, exceção feita ao glacial Otávio, à inteligência brilhante, sedutora, feita de mil facetas, viva, fulgurante, capaz de cegar. Cleópatra VII, a mais notável das rainhas do Egito, encontrava-se em situação perigosa no momento de sua ascensão. Ela havia se casado com - e alçado ao poder - o mais velho de seus irmãos, Ptolomeu XII, então com cerca de 10 anos de idade. Esse marido não podia ajudá-la em nada, e além disso ela conservava o título de rei, como fizera anteriormente Hatshepsut, que aparece usando a barbicha postiça ritual, nas efígies. Essa tradição perdera-se com o passar do tempo, mas nos registros fala-se dela como de um rei, e não como de uma rainha, e as moedas a tratam de basileus, não de basilissa.

O exército romano acampava muito próximo de Alexandria. No palácio, o poder era dividido entre três personagens influentes: Aquilas, um egípcio chefe do exército real, Teódoto, um grego de Quios que era preceptor dos reais infantes, e o eunuco e tutor Potino, também grego. Esse trio se orgulhava de governar a mulher e o rei-infante. Já o exército romano lembrava ininterruptamente aos egípcios que sua independência já não mais existia e que os súditos eram da República Romana, não de Cleópatra. Mas a qual fração, ou facção, da república os guerreiros pertenciam: a César ou a Pompeu? A guerra havia sido declarada, entre esses dois aspirantes a ditador. Cada um deles tinha levado suas tropas, e era evidente que só a força das armas decidiria o conflito que ameaçava pôr a ferro e fogo os mundos oriental e ocidental.

Covardia e traição
O Oriente era simpático a Pompeu. O Egito, em particular, lhe fornecia trigo e soldados. O exército acampado em Alexandria tinha devoção pelo vencido de Farsália. Após aquela derrota, Pompeu fora buscar asilo no Egito, onde tinha certeza de encontrar adeptos. Na época, Cleópatra deixara Alexandria. A coalizão formada por Potino, Aquilas e Teódoto havia instigado o povo contra ela. Cleópatra tivera a imprudência de querer se livrar de seus incômodos ministros, e agora eles a obrigavam a fugir para salvar a própria vida. A facção de Potino tinha conspirado de tal maneira que Ptolomeu, inteiramente dominado por eles, aparentava ser o verdadeiro rei, enquanto a sucessora de Aulete era vista como intrusa e usurpadora. Cleópatra partiu rumo ao deserto para reunir algumas tribos nômades que aliciara, contra a promessa de ricas recompensas.

A idéia de invadir o Egito seduzia esses senhores das areias, maravilhados com relatos sobre as suntuosidades alexandrinas. Cleópatra não teve dificuldade de reunir um exército à frente do qual, então com 20 anos de idade, guerreou contra o Aquilas.

Este estava pouco inclinado a aceitar tal conflito; os olhares voltavam-se para Farsália, onde o poderio de Pompeu havia desmoronado. Todos se perguntavam quem seria o novo senhor. Os três ministros, que controlavam como uma marionete o jovem Ptolomeu, único rei do Egito desde a fuga de Cleópatra, tremeram quando Pompeu, derrotado e em fuga, pediu a hospitalidade do Egito.

Cleópatra tinha toda simpatia por Pompeu; quando ainda era rainha, ela havia acolhido seus pedidos de ajuda. Seu jovem irmão e seus ministros só levavam em consideração os perigos que poderiam advir de oferecer asilo político ao fugitivo. Todavia, não ousaram recusar o pedido, pois a tradição mandava que se respeitasse o direito de asilo, até como dever sagrado. Plutarco relata os termos em que o Conselho de ministros debateu essa delicada questão: "Receber Pompeu, disse Potino, é escolher César como inimigo e Pompeu como senhor; recusá-lo, é fazer com que Pompeu nos acuse de tê-lo expulso, e César de o termos obrigado a persegui-lo. O melhor, portanto, é mandar buscá-lo e matá-lo. Assim, submeteremos um, sem precisar temer o outro. Um morto não precisa ser temido".

Cleópatra não tomaria uma decisão dessas caso ainda fosse a senhora do reino. Mas como estava ausente, a covardia prevaleceu. Pompeu foi avisado de que o Egito lhe oferecia hospitalidade e Aquilas foi lhe dar as boas-vindas. Existem poucos episódios tão trágicos na história quanto este, de pérfida recepção, enquanto se tramava assassiná-lo. Enquanto o exército se aglomerava à margem, tendo à frente um jovem Ptolomeu vestido de púrpura, e a frota egípcia se preparava para controlar o mar, Aquilas e os carrascos partiram numa simples barca, para buscar Pompeu. O general tinha consigo o centurião Salvius e o tribuno Septimius.

Sem desconfiar, Pompeu se despediu da mulher Cornélia e subiu na barca. "A distância era longa, da galera até a margem", conta Plutarco: "Como durante o trajeto ninguém lhe dirigisse uma única palavra amável, ele se voltou para Septimius. \\'Se não estou enganado, nós já não guerreamos juntos?\\'. Septimius assentiu com a cabeça, sem proferir nenhuma palavra, sem denotar interesse. Fez-se novamente um profundo silêncio. Pompeu tomou de um pequeno caderno, no qual havia redigido um discurso em grego, que pretendia dirigir a Ptolomeu, e pôs-se a ler. Quando já se aproximavam da terra firme, Cornélia olhava do alto da galera, junto de seus amigos.

Ela começava a se tranqüilizar, vendo os homens do rei aproximar-se em massa do desembarque, como que para recebê-lo com honras. Naquele momento, Pompeu tomou da mão de seu escravo liberto, Felipe, para se erguer mais facilmente. Septimius desferiu o primeiro golpe de espada por trás, trespassando seu corpo; depois dele, Salvius e em seguida Aquilas sacaram seus punhais. Segurando a toga com as duas mãos, Pompeu cobriu com ela o rosto, e sem nada dizer ou fazer que fosse indigno dele, emitindo simplesmente um suspiro, abandonou seu corpo aos golpes".

Laços de intimidade
Alguns dias mais tarde, as galeras de César surgiram diante de Alexandria. Teódoto apressou-se em lhe levar a cabeça de Pompeu, como garantia da devoção do Egito. Talvez temendo uma armadilha, César desembarcou com um exército de cerca de 4 mil soldados e um milhar de cavaleiros, que acamparam na cidade.

O objetivo de César era mediar a questão entre Cleópatra e seu irmão, em benefício de Roma. Queria, sobretudo, que ambos se dessem conta de que estavam à mercê de Roma, e que não havia sentido em brigarem por uma coroa despida para eles de qualquer realeza. Era pouco provável, no entanto, que César pretendesse suprimir com uma penada a autoridade deles para substituí-los por um simples governador romano. Certamente pretendia nomear um dos dois irmãos, ao qual deixaria o título de rei, mas que não passaria de um funcionário de Roma. Assim, Cleópatra e Ptolomeu, ela na fronteira do deserto e ele em Pelusa, receberam o convite de César para se apresentar diante dele a fim de acolher suas instruções. Ptolomeu hesitava em obedecer. Dizia-se que César manifestara grande tristeza e enorme cólera diante da visão de seu inimigo morto. Havia se indignado com o fato de os egípcios, auxiliados por romanos traidores, terem cometido um crime, que agora ameaçava se voltar contra eles. O jovem rei, aconselhado por Potino e Aquilas, permaneceu na expectativa e tergiversava.

Cleópatra, ao contrário, compreendeu que era preciso rapidamente ir a César. Ela dispensou seu exército e abriu mão de qualquer cerimônia: pôs-se em marcha com seu escravo, Apolodoro, um siciliano habilidoso. Ele enrolou a rainha num tapete, que colocou sobre o ombro, e entrou no palácio à procura de César, a quem dizia querer entregar o presente. Foi assim que aconteceu o primeiro encontro entre o general romano e a herdeira dos faraós, numa atmosfera de comédia bufa, que estabeleceu de imediato entre eles ligações de intimidade com as quais Cleópatra contava para assentar seu império sobre o coração e o espírito de César.

Aquela mulher não demorou a conquistar o conquistador. Juntos, eles enfrentaram os ataques do exército de Aquilas e da população rebelada, que não aceitava nem César nem Cleópatra, e pretendia devolver o trono ao jovem Ptolomeu. Os perigos comuns fortificaram a ligação, mas a situação era crítica. Sitiados na parte alta da cidade, não podiam ir de encontro à frota romana. A frota egípcia tinha sido incendiada por ordem de César. Os adeptos do jovem Ptolomeu receberam reforços providenciados pela princesa Arsinoé, que não tinha mais do que 15 anos de idade, mas que exibia bravura e ambição. Ela levava consigo sua corte, seu preceptor, Ganimedes, e seus empregados. O jovem Ptolomeu permitira-se cair na armadilha da reconciliação e havia voltado para Alexandria, onde César o mantinha sob controle.

Arsinoé foi a agente da guerra contra César e Cleópatra. No entanto, seus generais brigavam entre si, e Ganimedes mandou assassinar Aquilas, para dominar sozinho o exército. Essas discórdias enfraqueceram os sitiantes, mas os sitiados também viam sua situação piorar. Tinham sido privados de água; César perdera muitos dos seus ao tentar uma saída. Quase caiu nas mãos do inimigo. Como os reforços pelos quais esperava não chegavam, ele quis ganhar tempo e negociou com os rebeldes: eles exigiam a devolução do jovem Ptolomeu. César concordou e assim perdeu o refém que lhe permitia manter os alexandrinos em xeque.

Certo dia, foi informado de que vinha, do Oriente, um exército em seu socorro, comandado por Mitrídates de Pérgamo. Imediatamente, César e Cleópatra, que cavalgavam juntos à frente de um pequeno grupo de guerreiros, deixaram a cidade, para se juntar a Mitrídates e com ele se precipitar sobre os alexandrinos. Em poucas horas o exército de Ptolomeu e Arsinoé foi dizimado e expulso. Ptolomeu desapareceu; nem seu cadáver foi encontrado.


A resistência alexandrina havia sido rompida. A população daquela cidade, tão pouco egípcia por sua raça e costumes, não mais oprimiria o verdadeiro Egito. Ela não mais se oporia aos projetos de Cleópatra, que, senhora dos sentidos e da vontade de César, poderia realizar seus projetos.

Ela identificara nele uma extraordinária vontade de poder. Era digno de ser associado a seu próprio destino, e capaz de ajudá-la a cumpri-lo. Mal informada acerca das particularidades da civilização romana, Cleópatra quis fazer de César um grande rei. Encarnava a tentadora que lhe propunha a mesma tentação com que seu orgulho e ambição sonhavam.

Para ela, o futuro de César não deveria se limitar ao mundo romano, mas estender-se. Queria que ele aspirasse ao Império do mundo, como Alexandre. Este, porém, não enfrentara barreiras como as erguidas pelas instituições romanas e, sobretudo, os interesses pessoais e muitas vezes mercantis que motivavam senadores e cavaleiros. César era cativo de uma rede de formalidades, obrigações e deveres.

Sabia que se os democratas desconfiassem dessa tendência à realeza não hesitariam em assassiná-lo. Cleópatra tinha sonhado fazer dele seu parceiro, a rainha do império do qual ela continuaria sendo o rei. Mas ele mesmo não se conformava com esse papel.

Contentou-se em passear pelo Egito em companhia dela, descendo o Nilo, mas quando a primavera voltou - momento em que Roma já manifestava sua impaciência -, ele deixou Cleópatra e partiu para o Ponto, a fim de esmagar a revolta de Farnaces. Ao mesmo tempo que os veteranos das legiões guerreavam, Cleópatra dava à luz um filho de César, a quem ela chamou Cesarião. A audácia chocou os egípcios.

O clero dificultou ainda mais as coisas, ao afirmar, segundo a tradição, que a criança era filho de Rá, que havia assumido a aparência de César. Salvava, assim, a legitimidade e o caráter sagrado da realeza. Quando entrou em Roma coroado de louros, César reconheceu o filho e dedicou à Vênus Genitrix uma estátua de ouro que representava Cleópatra.

Ele, entretanto, nunca mais voltou ao Egito. Cleópatra foi para Roma, o que causou escândalo, em especial aos puritanos, pois César era casado com Calpúrnia. Tamanha imprudência promoveu a união dos democratas e puritanos, uns recriminando a César o fato de ele querer tornar-se rei, os outros temendo que ele repudiasse a esposa para se casar com a egípcia, o que criaria dificuldades incontornáveis e poria em perigo a República. Se ela tivesse podido levar César para Alexandria, o centro de ação mundial teria sido deslocado. Abrindo mão de ser somente um homem de política romano, César teria se tornado rei do Egito primeiro, e em seguida imperador do mundo oriental. Por maior que fosse o fascínio de Cleópatra e seu poder sobre o homem que amava, César não compartilhava inteiramente suas esperanças quiméricas. Morreu, aos pés da estátua de Pompeu, assassinado por "republicanos" hostis à ditadura e inimigos da "realeza".

Cleópatra pode ser considerada, de certo modo, responsável por sua morte, em função das instigações e apelos que fazia a seu orgulho, ambição e apetite de poder. Apressou-se em deixar Roma, com o pequeno Cesarião, para escapar à vingança daqueles que a acusavam de ter tido má influência sobre César. De volta a Alexandria, livrou-se do irmão que era uma ameaça e elevou ao poder Cesarião, então com 3 anos de idade. O exército romano tinha partido do Egito rumo à Ásia, para encontrar Dolabela, tenente de César que combatia as tropas senatoriais comandadas por Brutus e Cassius. Cleópatra recebeu de Dolabela o pedido de apoio das tropas egípcias, e de Cassius o de enviar sua frota aos "libertadores", mas manteve-se neutra nessa guerra civil que opunha "cesarianos" a "republicanos".

Ela esperou que o conflito que dividia Roma terminasse, para fazer o exame da situação e verificar qual proveito podia tirar dela. Uma vitória dos republicanos não era desejável, pois ela sabia que não tinha poder sobre libertários austeros como Cassius e Brutus. Ao contrário, o sucesso dos cesarianos lhe daria uma possibilidade de êxito, se fosse Marco Antônio o sucessor de César. Infelizmente, ele dividia o comando com Otávio, que tinha a fama de ser alguém consumido pela ambição, frio e calculista, que se furtaria a fazer o jogo da ambiciosa estrangeira. Somente Marco Antônio parecia útil para a realização de seus grandes projetos.

Após a vitória de Filipos, na segunda metade do ano 42, os chefes do exército cesariano dividiram o poder. Otávio retomou Roma, pois para ele era mais importante permanecer em contato com o Senado e suas facções, enquanto Marco Antônio, tentado pelo papel de rei oriental que era incentivado a desempenhar, de temperamento mais romanesco do que seu parceiro de poder, ficou no Oriente. De natureza generosa, ardente e acessível às ilusões românticas da glória e do amor, ele era uma vítima inteiramente desenhada para Cleópatra. Todavia, ela não tomou a iniciativa. Esperou que ele solicitasse a aproximação.

Marco Antônio estava na Sicília quando convidou Cleópatra a discutir a situação política da Ásia. Ela atendeu ao chamado. Fez-se acompanhar de um cortejo fantástico e teatral, cujos elementos, emprestados à mitologia grega, lembravam o séquito da própria Afrodite. Soube temperar, no entanto, a requintada elegância helênica com cores de desregramento romano, vulgar e violento o bastante para atordoar Marco Antônio. Ele caiu na armadilha. Conseguiu que Marco Antônio mandasse executar todos os seus inimigos pessoais, em especial sua irmã Arsinoé. Cleópatra o recompensou com delícias da "vida inimitável" que os historiadores não se cansam de descrever.

O triunfo de Marco Antônio
Durante dez anos, de 41 a 31 a.C., Marco Antônio não passou de um joguete relativamente dócil. Abandonou a mulher, que era irmã de Otávio, e dessa forma rompeu com aquele homem poderoso e influente, que se tornaria o senhor do mundo romano. Abreviou as estadias na Itália, limitadas a rápidas expedições militares, a fim voltar rapidamente para Alexandria. As conquistas às quais se dedicou foram as que podiam trazer alguma vantagem para o Egito, na Síria, na Cálcica, na Fenícia.

Houve várias tentativas de reconciliação entre Marco Antônio e Otávio, mas jamais um acordo durável e definitivo, pois assim que Marco Antônio reencontrava Cleópatra tudo voltava ao que era. Ela havia lhe dado três filhos: dois gêmeos, encarados como herdeiros divinos: Alexandre Hélio e Cleópatra Selena, e um terceiro, Ptolomeu Filadelfo. Para agradá-la, após a vitória sobre a Armênia, Marco Antônio comemorou seu triunfo em Alexandria, e não em Roma, onde ela e os filhos se apresentaram de maneira fulgurante, como deuses. Embriagada pelo sucesso, passou a usar vestimentas de Ísis nas cerimônias, o que a identificava com a deusa, sem dúvida para realçar ainda mais seu prestígio junto à população autóctone e para afirmar a natureza divina de sua realeza.

É significativo que após o triunfo de Marco Antônio seus filhos tivessem recebido títulos reais: Alexandre Hélio, o de grande rei da Armênia; a jovem Cleópatra, o de rainha da Cirenaica; Ptolomeu Filadelfo, o de rei da Síria e da Ásia Menor. O filho mais velho, Ptolomeu César, tornou-se rei dos reis, e a Cleópatra chamavam de rainha dos reis. Já não se tratava mais de dois reinos: o Egito fazia parte do império futuro, do qual era a província central, o núcleo. Habituados a ver seus soberanos deificados, os egípcios não se surpreenderam que Cleópatra ostentasse o título de deusa e de nova Ísis. Dois obstáculos ainda a separavam do império universal: os partas e Otávio. Várias vezes Marco Antônio havia feito a guerra contra os partas, sem contudo lograr um sucesso marcante. Os partas fechavam o caminho para o Extremo Oriente.

Por seu lado, Otávio era o senhor do mundo romano ocidental; sua política consistia em querer o Egito como província romana. Ele não aceitava a idéia de um império oriental-ocidental. A cada dia tornava-se mais evidente que Roma precisava escolher entre seus dois senhores, um que queria arrastá-la em suas aventuras perigosas, outro que seguia uma política menos brilhante a curto prazo, porém mais segura e vantajosa.

O fim de um Egito
O afastamento formal de Marco Antônio e Otávio consumou a ruptura. Prevendo que seu adversário, uma vez livre, se casaria com Cleópatra, Otávio começou por apresentá-la como inimiga de Roma, declarando guerra contra o Egito. Isso equivalia a colocar Marco Antônio diante da alternativa de renunciar à rainha para cumprir seu dever de romano, ou entrar em confronto aberto, no caso de permanecer fiel a ela. Sabemos qual foi a escolha de Marco Antônio. Em 2 de setembro de 31 a.C., as duas frotas se encontraram em Áccio, onde Marco Antônio foi vencido.

Cleópatra não se conformou com a derrota. Como os romanos eram os mestres do Mediterrâneo, ela concebeu o projeto fantástico de criar um império no Extremo Oriente, naquelas terras da Índia que Alexandre tinha conquistado. Decidiu, então, transportar o restante de sua frota de Alexandria para o mar Vermelho, seguindo o canal, ou mesmo através do deserto. Os cruzados fizeram mais tarde uma tentativa semelhante, com sucesso, mas Cleópatra fracassou. Teria sido mais sábio abandonar Alexandria, refugiar-se no Alto Egito, associar-se aos etíopes, lançando-se contra os romanos com uma tática de guerrilha, que teria podido ser longa e favorável a ela. Essa combinação era bastante razoável. Mas desagradava a Marco Antônio e a Cleópatra, que dilapidaram suas forças em tentativas estéreis, até o momento em que Otávio, que havia entrado sem dificuldade no Egito, chegou às portas de Alexandria. O suicídio de Marco Antônio e de Cleópatra pôs fim à guerra.

Por perfídia, Otávio assassinou o jovem rei Ptolomeu XIV, filho de César. A dinastia dos Ptolomeus, a última dos reis do Egito, se extinguiu, assim como o país enquanto Estado autônomo e independente. A partir daquele momento, seu destino se confundiu com o do Império Romano, e depois ele se tornou mais e mais dependente das nações estrangeiras que o ocuparam. Triste ocaso para uma civilização que teve em Cleópatra um marco indelével.

Cronologia
69 a. C.
Nasce Cleópatra, filha do faraó Ptolomeu Aulete, representante da dinastia grega dos Ptolomeus. Ele iniciou seu reinado em 80 a. C.

51 a. C.
Morre Ptolomeu Aulete e assume o poder
sua filha mais velha, que se torna faraó com o
nome de Cleópatra VII, sem ter ainda completado 18 anos

48 a. C.
A faraó, que deixara Alexandria, guerreia contra Aquilas, que, em coalizão com Potino e Teódoto, instigara o povo contra ela; apresenta-se a Júlio César, enrolada em um tapete, estratagema criado por seu escravo, Apolodoro, o Siciliano

44 a. C.
Júlio César morre assassinado; Cleópatra, que vivia em Roma e tinha um filho dele, volta para Alexandria

41 a. C.
Apresenta-se teatralmente a Marco Antônio, na Sicília, a convite dele

31 a. C.
Marco Antônio é vencido, em Áccio

30 a. C.
Marco Antônio e Cleópatra se suicidam, e o Egito é anexado a Roma

Marcel Brion pertenceu à Academia Francesa.

Revista Historia Viva