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quarta-feira, 30 de junho de 2010

UMA ÁRIA PARA A HISTÓRIA DO BRASIL

por Luiz-Olyntho Telles da Silva

Uma contribuição ao Colóquio nacional sobre

A cordialidade: A crítica da ambigüidade na cultura, na política e no cotidiano

Fernand-Anne Piestre: Caïn – Museu d’Orsay

UERGS
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO RIO GRANDE DO SUL
UNIVERSIDADE ABERTA
13 e 20 de julho de 2005
Auditório do Memorial do Rio Grande do Sul

R e s u m o

O trabalho consiste em uma leitura de alguns pontos do capítulo 5 de Raízes do Brasil, de S. Buarque de Holanda, e de associações daí decorrentes. Desde a proposta de confronto entre família e Estado, passando pela concorrência entre os cidadãos, o conceito de cordialidade é examinado desde a Antígona de Sófocles aos dias de hoje, com uma incisão no período marcado pela segunda guerra mundial. Depois de caracterizar a cordialidade como uma característica comum a todos os povos, ensaiando seu posicionamento como uma ligação entre as pulsões de vida, amorosas, e as de morte, destruidoras (conforme descritas por Freud), o autor destaca a originalidade de S. B. de Holanda em haver reconhecido esta característica no brasileiro, condição primeira no caminho de construção de uma independência simbólica. Buscando exemplificar uma das faces desta cordialidade do brasileiro, o texto finaliza com uma breve e particular leitura da Ópera do Malandro composta por Chico Buarque de Holanda.

Es wird den Menschen offenbar nicht leicht, auf die Befriedigung dieses ihrer Aggressionsneigung zu verzichten.1
SIGMUND FREUD, Die Unbehagen in der Kultur (1930[1929])

A preocupação com a cordialidade é uma preocupação com a ética, e este Colóquio é uma sacudida em direção ao acordar, se me permitem o trocadilho. Quem nos sacode é a Profª. Kathrin Holzermayr Rosenfield, e depois de acordados não podemos permanecer na indiferença.

Isto me lembrou de um certo diálogo entre Costa-Gravas e o Prefeito de uma cidadezinha do norte francês, ao final das recentes filmagens de Le Couperet – um filme sobre o desemprego para a televisão francesa. Quem conta a história é Fernando López em La Nación: Costa-Gravas, horrorizado com as palavras ao mesmo tempo sinceras e amargas - justamente por isto terríveis – do Prefeito, dizendo que hoje Já não se pode fazer nada, teria feito o seguinte comentário: A indiferença é o principio da morte. Vejo ao redor de mim pessoas que, com a experiência, tornam-se um pouco cínicas: são os que dizem que as coisas, de qualquer modo, nunca mudam. Eu resisto e trato de fomentar esta rebeldia. – É assim que escuto a sacudida proposta da Profª. Kathrin: um anátema à indiferença. É desde aí que sua proposta faz laço social e é por isto que eu lhe agradeço o convite. Agradeço por me levar a pensar nesse conceito estranho ao campo da Psicanálise, um conceito no qual eu nunca havia me detido até então.

Estamos preocupados com a ética e ela não é a moral. Quando penso em ética penso nas conseqüências dos atos, do ethos, nossos costumes, nossa casa, nossa pele. Aquilo que fazemos tem sempre uma conseqüência, queiramos ou não, saibamos ou não!

Eu lhes propunha então o trocadilho acordar, com o duplo sentido de tirar do sono / acabar com a diferença. Pois para acordar, no sentido de despertar, nada melhor do que o teatro. Trata-se de possibilitar a um maior número possível de pessoas os instrumentos necessários para a construção da crítica; por isto o teatro.

No texto princeps de nossas discussões, eu diria o capítulo 5 de Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, “O homem Cordial”2, ele começa pelo teatro, com a Antígona de Sófocles. Sua intenção é a de examinar o conflito existente entre os valores do Estado e os valores da Família. Estarão lembrados da montagem desta peça aqui em Porto Alegre por iniciativa - tanto quanto eu sei - da Profª. Kathrin, sob Direção do Luciano Alabarse sobre um texto traduzido pelo Prof. Lawrence Flores Pereira. Não é difícil imaginar uma linha de base para o nosso Colóquio sobre a cordialidade partindo daí com uma aguda incisão no período da segunda guerra mundial, assinalada pela obra de Thomas Bernhard, especialmente sua Praça dos Heróis cuja apresentação poderemos assistir já a partir de amanhã no Teatro São Pedro. É aí, na Heldenplatz, que Hitler, depois de ter pressionado em 12 de março de 1938 seus compatriotas ao Anchluss, à unificação com a Alemanha, profere em 02 de abril seu discurso triunfal sendo saudado efusivamente por uma multidão de Austríacos simpatizantes.3

Examinemos antes um pouco mais o nosso trocadilho, acordar. Ele tem a mesma etimologia da epigrafada cordialidade, ambos originam-se de cor, cordis. Interessante que para o vocábulo acordar, o nosso tradicional Aurélio - o outro Buarque de Holanda - nos dá, como primeiro sentido a conotação de Tirar do sono, despertar, chamar, enquanto a conotação de conciliar, acomodar - própria da cordialidade - irá aparecer como sua décima primeira posição. Já o inestimável Houaiss nos dá duas entradas para o vocábulo: a primeira com o sentido de fazer desaparecer diferenças e, ao contrário do Aurélio, para ele o sentido de fazer sair do sono é a sua segunda entrada. Como se pode ver, desde aqui, os acordos nunca são fáceis. Interessante é que a etimologia de acordar e de cordial remetem ao antepositivo cord, derivado também da mesma raiz latina, com o significado de coração como sede da alma, da inteligência e da sensibilidade.

Minha proposta de trabalho será então a de fazer algumas associações a partir de alguns pontos desse quinto capítulo de Sérgio Buarque de Holanda desde a minha disciplina e tentar algumas considerações.

Seu texto me parece indicar uma divisão em quatro partes: uma introdução em que esboça uma visão ideal da diferença entre a família e o Estado; depois a substituição da ordem familiar por princípios abstratos e sua conseqüente crise; a terceira parte está dedicada ao exame da persistência da estrutura familiar no estado brasileiro e, por fim, o legado daí resultante – a cordialidade, sua função e características.

Estamos em 1936, período de tensão em todo o mundo, e Raízes do Brasil começa, não por acaso, eu diria, com o confronto de nosso país com a Europa.4 Confronto será o recurso utilizado pelo autor ao longo de seu livro. No capítulo 5 ele confronta o Estado com a Família, dizendo que o primeiro não é uma ampliação do segundo. Sua utilização de uma negativa como forma retórica já no início de seu texto só faz valorizar o verbo utilizado para caracterizar a passagem da Família ao Estado, o verbo transgredir: é pela transgressão da ordem doméstica e familiar que nasce o Estado, nos diz ele. A transgressão, definidora de uma passagem de um lugar a outro, diz também da violação de um limite, de uma invasão, por fim, de uma agressão. Seu exemplo da incompatibilidade entre os dois princípios é trágico, e o modo como ele nos conta o núcleo do enredo não é sem dubiedade, obrigando-nos a examinar a tragédia com mais atenção. Ele diz aí que Antígona, ao sepultar Polinice, contra a ordem do estado, atrai sobre si a cólera do irmão, que não age em nome de sua vontade pessoal, mas da suposta vontade [...] da pátria. Ora, quem aí não age, supostamente, em nome próprio, é Creonte, tio de Antígona e não seu irmão! Estamos em pleno ciclo tebano e a tragédia em exame é a tragédia da família de Édipo, de quem Antígona é, ao mesmo tempo, filha e irmã; mas Creonte é irmão da mãe de Antígona, Jocasta, e por isso o interino e claudicante Regente de Tebas. E há ainda um agravante a mais, se queremos examinar este confronto entre a Família e o Estado: não se pode esquecer que o filho de Creonte, Hemon, está noivo de Antígona e, ao saber da morte da noiva, se traspassa morrendo junto dela; a esposa de Creonte, Eurídice, por sua vez, ao saber da morte do filho também se suicida; e ao tomar conhecimento de tudo isto, Creonte também quer morrer. Note-se que é só depois de Creonte reconhecer sua funesta resolução, sua , é só depois de ele reconhecer seus desacertos - como traduz Donaldo Schüler - que o Corifeu acerta: Tudo indica que tarde reconheceste a justiça – uma frase para se pensar, eu diria.

Mais adiante, no que eu considerei a parte dois de seu texto, S. Buarque de Holanda, ainda que sem aludir diretamente á tragédia, criticará a ereção da concorrência entre os cidadãos como valor social positivo. Sim, a concorrência entre os irmãos é algo muito complicado, embora isso não queira dizer que nunca é produtivo. A própria concorrência entre Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda, ao que tudo indica, deu resultados positivos, embora a citada frase do último - criticando o valor positivo da concorrência - me faça pensar que isso não tenha sido sem um custo. O mesmo se pode dizer da concorrência entre S. Buarque de Holanda e Cassiano Ricardo5, quando o último registra a inclusão de seus comentários na segunda edição de Raízes do Brasil. Mas o que me parece importante destacar é a diferença dessas citadas concorrências, das quais eu diria simbólicas, porque centradas na linguagem, de uma outra centrada no imaginário, no especular, situação da qual todos conhecemos um exemplo bem típico. Refiro-me aquele clássico duelo final dos velhos filmes de faroeste em que um diz para o outro: Este mundo é pequeno demais para nós dois. – Pois essa me parece uma frase muito verdadeira. Esse mundo no qual os eternos Etéocles e Polinices, os eternos Caim e Abel vivem, tem que ser mesmo muito pequeno. Como eles não sabem que cada um vive no seu próprio mundo, a imaginária intrusão de qualquer outro roubar-lhe-á, necessariamente, não apenas a metade do espaço, mas sim todo ele. Hesíodo dedicou-se à poesia possivelmente para escapar da briga pela divisão de terras com seu irmão Perses. Essa é uma solução muito usual: um irmão segue sendo fazendeiro, cuidando dos negócios da família, enquanto o outro vai ser doutor; são tentativas de se criar outros mundos para viver. Assim que dizer da concorrência apenas positiva ou negativa não me parece ter muito sentido. Antes de qualquer coisa precisamos saber se ela é simbólica ou imaginária e isso porque parece haver uma concorrência intrínseca ao ser humano, uma concorrência da ordem do real, como diria Lacan, uma concorrência impossível que não cessa de não se inscrever e que tem de vir à tona de um modo ou de outro, seja pelo imaginário, seja pelo simbólico, e isto em todos os níveis, sejam eles internacionais, estaduais ou familiares. Fundamentalmente, o que é preciso ter em conta é que toda esta tragédia de Antígona deriva de uma transgressão de Édipo ao cometer parricídio e incesto. A importância disso consiste no fato de mostrar que a família é constituída desde uma lei mais ampla, uma lei que diz respeito à coletividade. Assim, diria que não se pode pensar no conceito de família antes do conceito de sociedade. São interatuantes, como nos mostrou Freud e depois Lévi-Strauss, com as suas Estruturas elementares do parentesco.

Vejamos um pouco mais sobre essa concorrência. Freud a considera presente em um dos primeiros atos de civilização: o controle sobre o fogo. Esta realização extraordinária e sem precedentes (para utilizar suas próprias palavras6), a qual ele mesmo reconhece ter todas as características de uma conjetura fantástica, consistiu simplesmente na renúncia a um desejo infantil de extinguir o fogo com um jorro de urina. Como testemunhas, Freud invoca o gigante Gulliver, em Liliput, e o Gargântua de Rabelais. A visão fálica das línguas de fogo parecia insuportável e era preciso apagá-las, constituindo tal ato em uma relação homossexual. A primeira pessoa a renunciar a este desejo e a poupar o fogo pôde conduzi-lo consigo e submetê-lo ao seu próprio uso. Apagando o fogo de sua própria excitação sexual, domara a força natural do outro fogo – diz Freud. O que aparece aqui é a importância da renúncia a uma exigência pulsional. Lembrem que vencido o acordado período de governo, Etéocles, por exemplo, nega-se a renunciar ao poder em favor de Polinice resultando esta negação na conhecida tragédia. Se lembrarmos que a alternação do governo tinha sido uma estratégia para escapar da maldição paterna e evitar a guerra, podemos pensar que, uma vez no poder, Etéocles imagina que este o garantirá.

Quando Freud retoma sua teoria pulsional em O mal-estar na cultura, me parece importante registrar que ele o faz também pressionado por este mesmo clima de tensão antecedente da segunda guerra mundial. Depois de publicá-lo em 1930, concluindo-o com a esperança do triunfo de Eros sobre a pulsão de destruição, já em 31, fustigado pela então evidente ameaça de Hitler, ele acrescenta uma derradeira frase reveladora de sua dúvida sobre o resultado. Mas o que quero ressaltar é que nessa retomada do desenvolvimento de sua teoria pulsional, depois de começar dizendo com Schiller ser a fome e o amor os motores do mundo, e depois de reconhecer a importância da libido e da introdução do conceito de narcismo, Freud chega aos conceitos de pulsão de vida e de pulsão de morte, sendo que uma parte desta última é desviada no sentido do mundo externo - die Aussenwelt - como agressão e destruição. Mas ambas as pulsões, de vida e de morte, tendem a andar sempre juntas, em feixes, mescladas nas mais diferentes proporções, dificultando seu reconhecimento; apenas o sadismo, como pulsão mais visível, aquela que sempre se destaca, se desintrinca em primeiro lugar, aparece como um vínculo. Freud diz tratar-se de uma besonders starke Legierung7, uma liga particularmente forte entre as tendências amorosas e a pulsão de destruição. – Pois o que me parece é que neste vínculo também podemos situar a cordialidade, como um possível efeito de uma exigência pulsional. Podemos situá-la aí sob a égide da aufhebung hegeliana. A cordialidade, aí colocada, ao mesmo tempo em que supera a agressão, a conserva. Não seria de estranhar que a polidez fosse a forma lapidada, polida, deste diamante bruto.

Isto me parece uma coisa importante de reconhecer, que tanto a tendência ao amor como à destruição fazem parte da vida. Uma não é sem a outra. A vida precisa tanto da morte quanto a morte precisa da vida. A presença da morte nos faz valorizar a vida. Mas não é fácil explicar a um assassino, menos ainda a um suicida que seu ato louco implica em uma demanda de mais vida. É muito fácil confundir as coisas. Quem conhece o Caïn de Fernand-Anne Piestre, mais conhecido como Cormon8, esta enorme tela de sete metros de largura, hoje no Museu d’Orsay, lembra de sua figura desolada e solitária, embora a frente de uma pequena horda, fugindo da presença de Jeová - como diz Victor Hugo em La légende des siècles [1889] - deserto a fora, depois de ter se sentido preterido por Deus e culpado seu irmão por seu mal-estar.

Temos exemplos demais de atrocidades realizadas em nome do bem. Tivemos a oportunidade de escutar aqui a leitura desta impressionante crônica do Aurélio Buarque de Holanda sobre a exposição dos restos de Lampião, Maria [já não tão] Bonita e seus principais companheiros. O cronista parecia estupefato com o ar de festa desta macabra exposição. Gilberto Freyre9 nos conta da truculência dos senhores de engenho capazes de mandar assar vivas escravas negras grávidas, autorizados pelo poder patriarcal. Sabemos, porém, que isso não é coisa só dos nortistas, também temos nossos causos. Diria que entre estes os que mais atraem nossa curiosidade são os que contam das degolas nas revoluções de 1893 e 94, entre federalistas e republicanos - uma distinção que também não é das mais fáceis de entender -, e também na de 1923. Ficaram famosas as degolas de Rio Negro, em dezembro de 93, às vésperas do Natal, período de clássico - para não dizer cínico nem cordial - armistício. O interessante é que não se sabe exatamente o número dos degolados e isto por uma concorrência entre os degoladores que se jactavam de haver degolado um mais que o outro, o que faziam em meio a risadas. Entre estes degoladores, que por certo foram vários, destacou-se, contudo, Adão Latorre, muito possivelmente por ser negro, conforme a opinião do Dr. Sérgio da Costa Franco e do Dr. Blau Souza que fizeram a gentileza de me contar um pouco de suas pesquisas. Supõe-se que só ele tenha matado 300 em um mesmo dia10. Nestes episódios, com vítimas de ambos os lados, muitos dos degolados eram mercenários uruguaios que vendiam seus serviços indistintamente. Para reconhecê-los, na ausência de documentos identitários, pediasse-lhes para dizer a palavra pauzinho a qual, por dificuldades de fonação estavam impedidos de pronunciar; e quando na resposta aparecia o indefectível paussinho os daqui riam enquanto aplicavam a gravata colorada.

Mas isto não foi invenção nossa. A Bíblia conta que no confronto entre os galaaditas e os efraimitas, os primeiros usavam do mesmo recurso pedindo-lhes para se identificar pronunciando a palavra chibolet, sabendo que seu dialeto só possibilitava a pronúncia de sibolet. Na impossibilidade da contra-senha correta, os galaaditas enchiam o vau do Jordão com cadáveres efraimitas11.

Se eu lembro dessas passagens, é para dizer que o recurso da cordialidade, não me parece um privilégio brasileiro. Tenho escutado a Profª. Kathrin dizer que seus patrícios austríacos também usam o recurso da cordialidade. Pois no período antecedente a primeira guerra mundial o acordo estabelecido entre a França e a Inglaterra, com o objetivo francês de escapar do isolamento diplomático em que era mantida pela Tríplice Aliança da Alemanha, Áustria-Hungria e Itália, ficou conhecido como entente cordiale. O recurso da cordialidade parece mesmo estar para todos.

A originalidade de S. Buarque de Holanda está em dizer que o brasileiro é cordial, está em dizer que nós somos cordiais e que o coração abriga tanto o amor como o ódio. Amar bilaquianamente a terra em que se nasce não implica na adoção de nenhum catarismo.

S. Buarque de Holanda cita um sociólogo norte-americano dizendo ter se transformado o empregado em apenas um número. Pois é! E que lhes parece o fato de Costa-Gravas ter utilizado como título de seu filme o signo, penso que tenho de dizer assim – o signo couperet? Couperet se traduz ao português por cutelo, instrumento para cortar carnes em geral e, em particular, a cabeça dos condenados. Se entendermos o signo como aquilo que significa algo para alguém, temos de supor que, só por ler a palavra, as pessoas já sabem do que se trata: desnecessários pedaços de carne dourando ao sol de segunda-feira12.

Para S. Buarque de Holanda a cordialidade é uma máscara através da qual o indivíduo consegue manter sua supremacia ante o social, e isto é tanto mais importante quanto ele necessite desse social para libertar-se do pavor em viver consigo mesmo. Como bom americano – diz o autor – no brasileiro é a parcela social, periférica, a que mais importa. Pois lembrei de um outro estudo desta mesma época, de 1936. Trata-se de um estudo de Kurt Lewin, um Psicólogo Social nascido na Alemanha, em 1890, e que depois trabalhou por muitos anos nos Estados Unidos, até sua morte em 1947. Este texto faz uma comparação entre os alemães e os americanos, tratando em particular desta questão da distância social entre os indivíduos e me parece concordar com Buarque de Holanda.


K. Lewin caracteriza a personalidade de um e de outro como formada por cinco círculos concêntricos, dizendo que enquanto o alemão tem apenas uma camada periférica, social e quatro camadas íntimas, o americano tem quatro camadas sociais, externas e apenas uma íntima. Os testemunhos que ele arregimenta são arquitetônicos: as casas com alto muro e portão chaveado da família alemã por contraposição a casa sem muro e sem chaves nas portas (um pouco como nos contou o M.Scliar do Bom Fim de sua juventude). A conseqüência é serem os americanos aparentemente mais sociáveis e parecidos uns com os outros, mas em compensação, por ocuparem camadas superficiais, as relações se mantêm superficiais e, como diz K. Lewin, após anos de relações relativamente íntimas, os amigos rapidamente feitos se despedirão com a mesma facilidade com que o fariam ao cabo de poucas semanas de conhecimento13. Um número maior de camadas centrais, íntimas, parece ser uma maneira plástica de representar uma menor necessidade de apoiar-se nos outros, propiciando maior independência, mas o que se vê, por exemplo, no episódio da Heldenplatz, é que uma vez penetrado nessas camadas mais intimas não é difícil fazer que a hostilidade para com o vizinho se transforme em hostilidade para com uma raça em particular. Isto nos mostra que a independência que importa não basta ser imaginária, como grande parte das independências protéticas que andam por aí a depender sempre de garantias externas. A independência precisa tornar-se simbólica. Sem ela, tanto os superficiais quanto os, digamos, profundos podem ser facilmente convencidos. Quero dizer com isto, entre outras coisas, da necessidade do reconhecimento da separação do outro para o advento da independência simbólica, e que para isto não basta a cesura do cordão umbilical e nem mesmo as melhores intenções.

Para isso, o primeiro passo é o reconhecimento de nossa própria participação no processo no qual estamos envolvidos. No caso, este: os brasileiros, somos cordiais.

Na esperança de dizer com mais clareza como penso esse advento a uma independência simbólica, queria contar-lhes um caso clínico, ainda que em rápidas pinceladas. Trata-se de uma análise levada a efeito por Jacques Lacan e relatada pelo próprio analisante – Gérard Haddad14.

Haddad é um judeu tunisiano a quem o pai tinha votado à profissão médica. Nascido no período entre as duas grandes guerras, ele tem muitos conflitos com seus pais e, como conseqüência, não quer seguir a profissão escolhida pelo pai e nem a religião da família. Quando procura Lacan ele já é um Engenheiro Agrônomo com um trabalho por ele considerado interessante nas províncias subdesenvolvidas da África e o esboço de um romance embaixo do braço, além de uma neurose obsessiva tangente à loucura. Já está casado e com problemas conjugais atazanantes e, devido às suas inúmeras leituras, interessado na Psicanálise. Já tinha tido uma entrevista com Jean Paul Sartre, que o incentivara a continuar escrevendo, e também com Louis Althusser que lhe devolveu o gosto pela ação no comunismo militante. A ação central de sua análise, no meu entender, consistiu em sua reconciliação com o judaísmo. Ele, que até então jamais pensara que a shoah, o genocídio e as perseguições ao povo judeu tivessem qualquer coisa a ver com ele, termina por visitar Auschwitz e Birkenau onde conhece as valas onde a cada dia se queimavam 20.000 corpos dos filhos de sua gente. Ele descobre assim que o holocausto não foi um crime apenas contra o povo judeu e sim contra toda a humanidade. Entrementes, estuda medicina e torna-se analista vindo a ser reconhecido como um especialista no Talmude de onde tirou, através das diferentes técnicas de leitura e interpretação do mesmo, recursos para melhor qualificar a interpretação psicanalítica. – É isto! Será que consegui com este curto parágrafo dizer-lhes o que entendo por independência simbólica? Será que consigo deixar claro que ao se reconciliar com a religião familiar ele o faz desde um outro lugar que não o da dependência neurótica? Que ele o faz desde um lugar novo e original? Pois é por ter conquistado um lugar destes, novo e original, que um Dvorak é capaz de inspirar-se e compor uma sinfonia. As soluções são sempre originais e idiossincráticas.

Mas nós, brasileiros, ainda estamos ocupados com uma crítica que nos possibilite uma mais efetiva simbolização das relações do indivíduo com a lei e é neste momento que encontro esta peça do Chico, filho do Sérgio Buarque de Holanda, a Ópera do Malandro, uma ópera que põe em cena uma das faces desta cordialidade do brasileiro e que nos possibilita, se não entender, pelo menos sentir como o brasileiro enfrenta suas questões éticas.

Estarão lembrados de que esta ópera está situada justamente no período central da segunda guerra mundial. Nosso país mostra-se ambivalente, apoiando primeiro os Nazistas, em 1941, e depois os aliados, em 42. É nesta atmosfera que ele situa o enredo da peça. Aí está o malandro, gigolô de prostitutas, querendo se dar bem. Mas a mulher que ele explora, é explorada pelo grande empresário também, surgindo daí o conflito. A solução é entrar no contrabando e amaciar a lei com um presente discreto. Mas a lei reguladora é venal: como a Geni - não por acaso um travesti (na leitura do Ruy Guerra) - ela dá para qualquer um que a pague. E o empresário pode pagar mais para obter mais, quer dizer, paga para apagar o malandro, a concorrência da arraia miúda. Mas como o malandro quando cai, cai bem, trata de erguer-se com a ajuda do capital estrangeiro, internacionalizando assim sua miúda técnica de gigolô: dinheiro em troca de apoio, e assim logo sonha em abrir um banco nacional com estes estrangeiros capitais, em Minas Gerais.


Que beleza
Que riqueza
Tá chovendo
Da matriz
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz.15


Depois que o malandro aparece com retrato na coluna social, consolida-se através do himeneu com a filha do empresário.

E então? Tudo certo? Onde está a falha? – Pois eu diria que na lógica, por querê-la sempre matemática na ilusão de que basta juntar elementos negativos para obter um resultado positivo.

Se o malandro - que parece uma derivação do italiano malandrino, com o sentido de salteador, mas também do latim malandrĭa, uma espécie de lepra (uma lepra social, sem dúvida) – se ele toma um gole de cachaça, não paga e dá no pé, isto permite ir empurrando o problema e engordando as barrigas até lesar o Banco Do Brasil que então, complicado com os investimentos estrangeiros, inverte rapidamente o problema até chegar de volta ao garçom. E quando este vê um desempregado, um ladrão de galinhas, um malandro, vai logo gritando:


Pega ladrão / Pega ladrão

E o ladrão / Autuado
É julgado e condenado culpado
Pela situação.16

Muito obrigado.

Notas:
1. Evidentemente, não é fácil aos homens renunciar à satisfação da inclinação para a agressão.
2. Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil [1936]. São Paulo, Companhia Das Letras, 26ª ed., 1995.
3. http://pt.wikipedia.org/wiki/Adolf_Hitler

4. Embora eu tenha a informação de que este primeiro parágrafo tem uma redação oposta em sua primeira edição, não creio que isto altere o pressuposto do confronto.
5. Cassiano Ricardo, O Homem Cordial e outros pequenos estudos brasileiros. Rio de Janeiro, Instituto Nacional do Livro, 1959.
6. Sigmund Freud, O Mal-estar na Civilização (1930[1929]). Rio de Janeiro, Imago, Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XXI, 1974, p. 109.
7. Sigmund Freud, Das Unbehagen in der Kultur (1930[1929]). Frankfurt am Main, S. Fischer, Sigmund Freud Studienausgabe, Bd. IX, 1974, p. 247.
8. Ver no Google.
9. Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala. São Paulo, Global, 50ª ed. 2005.
10. Imprescindível a leitura de um conto de Jaime Vaz Brasil, Milonga Triste Para Adão Latorre,
11. Jz 12:5-6.
12. Fernando León de Aranoa. Los lunes al sol.
13. Kurt Lewin, Problemas de Dinâmica de Grupo, São Paulo, Cultrix, 1970, p. 37.
14. Gérard Haddad, O dia em que Lacan me adotou. Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2003.
15. Chico Buarque. “Ópera”. In Letra e música 1. São Paulo, Companhia das letras, 1990, p. 164.
16. Chico Buarque. “O malandro”. In Letra e música 1. São Paulo, Companhia das letras, 1990, p. 162.

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Cadê a História que estava aqui?


Cadê a História que estava aqui?
No Brasil, país ambíguo por natureza, a construção das crenças coletivas se faz por caminhos sinuosos. O resultado, muitas vezes, está longe da verdade...
Lorenzo Aldé

Futebol, mulher e religião não se discute. É o que ensina a sabedoria popular. Temas controvertidos, envoltos em paixões e idiossincrasias, melhor deixar de lado para não estragar o bate-papo de botequim. Que tal, então, conversar sobre os personagens e episódios de nossa História? Será que eles entram na roda sem maiores pinimbas?

Nem sempre. Mitos, lendas e incorreções sobre a formação e a identidade nacionais povoam o imaginário coletivo. Muitas vezes a versão se sobrepõe ao fato, seja pela disseminação de interpretações equivocadas, seja pela dificuldade de se definir, preto no branco, o que é a verdade neste país de memórias “mestiças”.

Bom exemplo é a figura de Getulio Vargas. Ditador simpatizante dos ideais fascistas ou defensor dos trabalhadores? Entre os dois extremos do mesmo personagem, é difícil equilibrar-se numa visão isenta. “É quase uma ofensa falar mal de Vargas”, comenta a professora Mariana Melo, baseada em sua experiência com turmas de um curso noturno em uma escola estadual do Rio de Janeiro. Não adianta descrever em detalhes as arbitrariedades do Estado Novo (1930-1937), a censura, a perseguição política. “Mas, professora, ele criou as leis trabalhistas”, retrucam os alunos. Para ela, uma postura compreensível: “Dentro da perspectiva dessa camada social, isso é o mais importante”, pondera a professora, dizendo ser espinhosa também a missão de mostrar aos alunos que as benesses sociais trazidas por Vargas não foram fruto de sua generosidade pessoal, mas resultado de um processo histórico quase inevitável.

Se entre adultos é complicado esclarecer contradições desse gênero, que dirá entre crianças e adolescentes. Este público está habituado a interpretar histórias que tenham vilões de um lado e heróis de outro. “Tem que ter uma definição: é bom ou é mau?”, sintetiza a professora Joana Ferraz de Abreu, que leciona em escolas particulares do Rio. Por isso, ensinar Getulio também lhe dá trabalho, assim como episódios da História mundial. “A Alemanha é a vilã da guerra, mas a Inglaterra também tinha campos de concentração. Claro que tudo depende de que lado do front o país esteve e de quem saiu vitorioso. As crianças americanas, por exemplo, dificilmente aprendem muito sobre a bomba atômica”, compara.

No Brasil, o ato bárbaro cometido pelos Estados Unidos contra Hiroshima e Nagasaki no fim da Segunda Guerra Mundial tem espaço na sala de aula. E repercute até demais, pois o antiamericanismo anda em voga entre os mais jovens. É um dos preconceitos que prejudicam uma compreensão imparcial dos acontecimentos.

Há muitos outros. Os índios aqui eram preguiçosos (quando não “burros”), por isso não funcionaram como escravos. Já os africanos “entendiam o capitalismo” e assim “aceitavam melhor” sua condição e se misturaram harmonicamente aos portugueses. Versões que não caem do céu: estão presentes nos livros didáticos e ganham adeptos ou críticos de acordo com os ventos ideológicos de cada época. Autores hoje consagrados já sofreram patrulha e foram relegados ao esquecimento em momentos adversos às suas teses. Em trechos de Casa-Grande & Senzala (1933), Gilberto Freyre descreve como os negros iam para o trabalho cantando e fala da importância da figura da ama-de-leite, o que sugere que a interação entre senhores e escravos não era tão excludente ou violenta. Por essas e outras, a obra do sociólogo foi desprezada nos anos 1960 e 70, auge do marxismo na academia, por supostamente “atenuar a luta de classes”. Relativizadas como reflexões condizentes com seu momento histórico, as contribuições de Freyre são hoje aceitas como valiosas para se entender a formação cultural do país. Até porque, se por um lado descreve a excepcional (no sentido de exceção, claro) mistura entre portugueses e negros no Brasil (diferentemente do que ocorreu, por exemplo, nas possessões inglesas e francesas na Ásia e na África), por outro também fala das torturas e castigos aos quais os escravos eram submetidos. Ambigüidades tipicamente luso-brasileiras, pois não?

Tem mais. Tiradentes: um herói nacional? Não foi. Naqueles fins do século XVIII, os insurgentes das Minas (por muito tempo tachados de inconfidentes, outra imprecisão histórica fruto da versão oficial da época) queriam a independência regional, nem pensavam em Brasil. E Pedro Álvares Cabral? “Por incrível que pareça, ainda hoje é superdimensionado”, revela Roberto Argento, outro professor de escolas particulares cariocas. A lenda do “descobrimento” acidental no caminho para as Índias, pelo visto, ainda perdura. Político? Tudo corrupto. Percepção que as autoridades atuais insistem em renovar, dia após dia, nos escândalos do noticiário. “Os alunos não acreditam que algum político, em qualquer tempo, tenha feito algo de bom. Quando aprendem sobre as práticas dos coronéis, dizem que é tudo igual até hoje”, diz Joana Ferraz de Abreu. E a participação do Brasil na Segunda Guerra desperta interesse, curiosidade? Que nada: somente risos. “Eles acham piada, desvalorizam, não acreditam que tenha sido importante. Nem quando digo que afundamos oito navios alemães e tivemos 36 afundados por eles, e que perdemos 1.040 homens”, revela a professora.

Às vezes, episódios marcantes para uma cidade ou região são vistos por seus moradores como decisivos para a História do Brasil. Em recente viagem a Recife, a professora Mariana Melo testemunhou, no discurso de vários guias turísticos, a louvação das Batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), com a conseqüente expulsão dos holandeses, como marco inicial da identidade nacional. Talvez os pernambucanos não gostem de ouvir isso, mas nem mesmo no momento da Independência, quase dois séculos depois, estava bem claro o que era ser brasileiro.

Atire a primeira pedra quem não se acha no umbigo do mundo. Ou os cariocas realmente acreditam que a vinda da família real, em 1808, transformou profundamente todo o país? Pois se nem país existia! O impacto na cidade do Rio de Janeiro e seus ecos na Região Sudeste mal se fizeram sentir no Norte e no Nordeste, por exemplo. E nem o bairrismo nos salva da desinformação. Em recente vestibular na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), solicitados a mencionar duas obras arquitetônicas dos tempos de D. João, a maioria dos alunos listou entre elas o Teatro Municipal. Talvez uma confusão espacial, por se localizar próximo ao prédio da Biblioteca Nacional, esta sim uma instituição nascida da Corte portuguesa. O problema é que nem o prédio da BN data daquela época. Como o Teatro Municipal, foi construído nos primeiros anos do século XX, no governo do prefeito Pereira Passos.

Se nem Carmen Miranda era brasileira, a que certeza podemos nos apegar? O futebol é inglês, a banana é asiática, nossos “reis” contemporâneos são tão díspares quanto podem ser Pelé, Roberto Carlos e Xuxa. Sem falar na cultura de massa, que há décadas afunilou os significados de Brasil para o eixo Rio-São Paulo, via tevê. Até a cana-de-açúcar, orgulho do momento na promessa dos biocombustíveis contra o aquecimento global, deve ser questionada como símbolo nacional. Não só porque também foi importada de outras possessões lusas, mas porque o glorioso Proálcool, na virada da década de 1970 para a de 1980, foi feito à custa de outro glorioso orgulho pátrio: a Mata Atlântica nordestina. Repetiremos a dose, agora para cima da Amazônia?

Ufanismos sempre devem ser vistos com desconfiança. Mas é claro que parte desses mitos merece ser encarada com bom humor. A origem saxã do nosso esporte número 1, por exemplo, é matéria de almanaque. O futebol é brasileiro e ninguém tasca! Assim como o samba, claro. Inicialmente também derivado de influência européia — a binária e “marcial” polca — foi requebrado no terreiro dos negros com tempero de maxixe até virar essa contradança inimitável pelos gringos. Ponto para a miscigenação brasileira!

Segundo o pesquisador José Miguel Wisnik, da USP, o samba é a síntese da identidade nacional. Foi a solução, ansiosamente procurada no alvorecer da República, para incorporar a incômoda figura do mestiço, até então “nem rejeitado nem admitido”. “A invenção do samba é o ‘desrecalque’ dessa figura que vem à tona para ser símbolo do Brasil”, resumiu Wisnik em encontro sobre as identidades do samba, realizado na Bahia em 2007. Em resumo: o Brasil é mulato. Terra das contradições, onde convivem ordem e desordem, democracia e jeitinho, descontração e violência, natureza e devastação, diversidade e racismo.

Talvez seja esta a nossa sina. Mas antes de naturalizar a bandeira do samba como ideal nacional, fica aqui mais uma pulga para orelhas pensantes. Segundo o antropólogo Hermano Viana, a consolidação do ritmo, entre os anos 1920 e 1930, também foi uma criação intelectual, que atendia aos interesses políticos da época. “O governo precisava impor uma centralização cultural, havia uma indústria fonográfica nascente, e o rádio despontava como o primeiro meio de comunicação de massa”, comentou no mesmo evento.

Se o mulato que dá cara ao Brasil é “inzoneiro” como na canção, basta recorrer ao dicionário para descobrirmos que se trata de um ser “enganador”. Quem sabe, em se tratando de Brasil, nosso dever como historiadores, professores ou simples cidadãos, deva ser buscar não as certezas, mas as incertezas? Elucidar não as verdades, mas os enganos? Explicar para confundir, confundir para esclarecer...

Nesta mesma edição, uma seleção de doze versões enganadoras da História nacional, baseadas em fatos e personagens reais. Parte delas, fruto de “tradições inventadas”, como o historiador Eric Hobsbawm define a prática das nações de distorcer a realidade para engrandecer seus feitos ou reforçar sua identidade. É o caso de “símbolos nacionais” como a cachaça e a feijoada, e da lenda a respeito de antigas civilizações que teriam passado pelo Brasil, como os vikings e fenícios. Outras histórias resultam apenas de confusão ou desconhecimento, como o suposto parentesco entre Oswald e Mário de Andrade e a origem do nome da cidade de Olinda.

Você está convidado a pôr suas próprias crenças à prova. E nós, da Revista de História da Biblioteca Nacional, abertos a receber, por e-mail, outras desmitificações que por acaso você conheça. Afinal, nunca é tarde para desaprender.

Revista de História da Biblioteca Nacional

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Um livro para explicar o país

Editado há 70 anos, "Raízes do Brasil" continua atual e imprescindível

CECÍLIA PRADA

Sérgio Buarque de Holanda em Berlim: artigos bilíngües / Foto: Fundo SBH/Siarq/Unicamp

A mais conhecida obra de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, comemora um aniversário importante – 70 anos. Lançado em 1936 pela editora José Olympio, esse livro forma com Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre (1933), e Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio Prado Junior (1942), uma trilogia de valor incontestável, que vem atravessando gerações e fornecendo um sólido substrato sociofilosófico para o aprofundamento dos mais variados estudos sobre a constituição de nossa identidade nacional.

É evidente que o Brasil de hoje é bem diferente daquele país dos anos 1930, que apenas emergia de uma estrutura patriarcal e agrária para a era da industrialização e da complexidade urbana, para a inserção nos grandes conflitos ideológicos que dominariam o século 20. Mas, neste início do terceiro milênio, por entre os embates da violência generalizada nos quatro cantos do planeta, absorvida a ressaca das frustrações, desmascarada qualquer tentativa de utopia fácil e programada, resta ao ser humano, pulverizado quase diante da complexidade de um universo incompreensível, somente um trunfo, um norte no rumo do seu périplo: o questionamento. Se o cientista devassa os segredos do laboratório para descobrir o mistério da vida, se o astrofísico, o astronauta, lançam um repto ao espaço, o historiador, o sociólogo – o humanista, enfim – continua a remexer ainda as cinzas do passado, à procura de explicações para a configuração das atitudes e idéias que, entrosadas, colocaram os fundamentos da nossa sociedade.

Nesse sentido, Raízes do Brasil permanece um livro atual, imprescindível – hoje como ontem, mas com uma trajetória editorial sui generis, posto que com o correr dos anos aumentou muito o interesse pela obra. Apesar de muito bem recebido pela crítica, só veio a ter uma segunda edição 12 anos mais tarde, em 1948. Em 1969, 33 anos após seu lançamento, contava somente com cinco edições. Mas, com o recrudescimento da repressão política e da luta pela "abertura", repentinamente começaram a multiplicar-se as edições. Entre 1971 e 1987, elas somaram 14, consagrando definitivamente o livro, que foi traduzido para muitas línguas – inclusive o japonês. Para festejar seu septuagésimo aniversário, a Editora Objetiva está para lançar, antes do final deste ano, uma edição de luxo, ilustrada e comentada, que fará as delícias dos bibliófilos e homenageará devidamente a grande figura de Sérgio Buarque de Holanda.

Um novo olhar

O livro, que se tornaria um ícone, foi levado, embrião e projeto, para a Alemanha em 1929, quando Buarque de Holanda foi para aquele país, na qualidade de correspondente dos "Diários Associados". Em artigos bilíngües, publicados dos dois lados do Atlântico, o pensador foi amadurecendo suas reflexões sobre o país que deixara, porque, confessava, sentia uma necessidade de "explicar o Brasil aos alemães". O ponto de vista do outsider, que foi obrigado a adotar, ampliou seus horizontes. Dizia: "Só quando você está no exterior é que consegue ver seu próprio país como um todo. E o Brasil não é fácil de se entender, é difícil". Embora obrigado a aceitar diversos trabalhos para suplementar seu salário de jornalista – chegou a traduzir legendas para filmes da UFA e a fazer pontas em alguns deles –, aproveitou seu tempo para absorver ao máximo a cultura européia e desenvolver um projeto de análise, denominado primeiro "Teoria da América", que depois de muito trabalhado se transformaria, alguns anos mais tarde, em Raízes do Brasil. Esse projeto havia nascido de grandes conversas que mantivera com Prudente de Moraes Neto em 1924 – ano em que ambos haviam fundado a revista modernista "Estética" –, mas só ganharia consistência em Berlim, conforme testemunho do próprio autor: "O contato de terras, gentes, costumes, em tudo diferentes dos que até então conhecia, pareceu favorável à revisão de idéias velhas e à busca de novos conhecimentos que me ajudassem a abandoná-las, ou a depurá-las".

Da "depuração" subseqüente resultou a definição política de Sérgio pelo reforço de uma posição personalista, amadurecida e independente de camarilhas, partidos e arregimentações. Não escondia que deixara o Brasil por se encontrar "em um beco sem saída" (político-filosófico) – frustrada que fora sua iniciação marxista, no seu dizer, "depois de uma conversa tediosa com Otávio Brandão, um dos próceres comunistas no Rio de Janeiro". Mas o amadurecimento, no exterior, de suas posições inegavelmente de esquerda o caracterizam até mesmo como um "radical" – Antônio Cândido de Mello e Souza reconhece nele um raro exemplo, no Brasil, de "radicalidade" coerente, na sua ação e no seu modo de pensar, mas sempre com posições de esquerda "que são as suas". E diz: "Penso que se ele nunca se ligou a uma ideologia política predeterminada foi porque tinha a sua própria linha de radicalidade, nascida da compreensão adequada da nossa história". Os numerosos testemunhos dos que foram seus alunos, assistentes ou amigos insistem sempre no seu espírito "totalmente democrático", que nunca pôde apoiar autoritarismos de qualquer espécie, de esquerda ou de direita – de que andavam prenhes aquelas décadas de 1930 e subseqüentes. Sua profunda coerência o fez pedir a aposentadoria da USP em 1969, em solidariedade aos colegas demitidos pelo regime militar.

A "hibernação alemã" de Sérgio – na expressão de Francisco de Assis Barbosa – seria fecunda também em objetivar sua principal inclinação, o estudo da história, enriquecendo seus conhecimentos com as obras dos historicistas alemães e de Max Weber. Dali por diante ele se destacaria principalmente como historiador, um interesse que acabou por prevalecer sobre o jornalismo e a literatura – não só se distinguira antes como um dos nossos principais críticos literários, mas fizera até experiências de ficção (contos), muito bem-sucedidas. Mas o "escritor", nele, estaria sempre por trás do "especialista" – o sucesso duradouro de suas obras deveu-se antes de tudo à perfeita conjunção de forma e conteúdo, a começar pelo seu livro de estréia, Raízes do Brasil, "um clássico de nascença", como o qualifica Antônio Cândido. Unindo à influência da historiografia alemã a da Nova História de Marc Bloch e Lucien Fèbvre, Sérgio adotava a fórmula deste último, "le parfait historien doit être un grand écrivain", e dizia: "É fora de dúvida que devendo lidar largamente com fenômenos particulares, para revivê-los em suas pulsações e em sua espessura a fim de que se integrem em quadros amplos, onde ganham nova dimensão e significado mais alto, precisa o historiador valer-se de recursos de expressão que não sejam os de mero relatório ou o de uma exposição científica". Sem o que, na sua opinião, se tornaria o historiador apenas um antiquário, um cronista, um arqueólogo. Pois "escrever história é ter uma visão dialética do passado e, eventualmente, de suas conseqüências no presente. É iluminar o passado no presente, ou vice-versa. É o presente que importa e é através dele que compreendemos a condição humana".

Um precioso legado

No prefácio que escreveu em 1967 para a quinta edição de Raízes do Brasil – e que dali por diante, de tão profundo e bem estruturado, incorporou-se por decisão dos editores à própria obra –, Antônio Cândido chama a atenção para o aspecto fundamental do pensamento de Buarque de Holanda: o uso da "metodologia dos contrários, que alarga e aprofunda a velha dicotomia da reflexão latino-americana". Se nos escritores românticos de nosso passado era comum a exploração dos contrastes do tipo natureza/civilização, e se o conflito ambiente/homem já estivera presente em grandes obras, como as do argentino Domingo Faustino Sarmiento ou de Euclides da Cunha, nunca antes a reflexão sobre a realidade social fora tratada em termos "dialéticos" – um "jogo" em que, à ingênua exclusão de um dos termos contrários, substitui-se, como diz Antônio Cândido, "o enfoque simultâneo dos dois; um suscita o outro e ambos se interpenetram e o resultado possui uma grande força de esclarecimento".

É uma nova visão, a que inaugura Buarque de Holanda – remonta às raízes da nossa colonização para revisitar os fatos conhecidos mas nunca vistos em sua totalidade – em sua integração dos diversos aspectos históricos, sociológicos, econômicos, sociais. Na análise do professor Brasílio Sallum Junior, "Sérgio Buarque de Holanda, ao examinar as concepções, instituições e formas de vida gestadas por nossos antepassados, o faz tendo em vista que elas ainda oprimem – como diria Marx – o cérebro dos vivos".

Investiga até as últimas conseqüências o que considera "o fato dominante e mais rico em conseqüências de nossa cultura" – o de que somos uns "desterrados", pois instituições, idéias e formas de convívio foram transplantadas do continente europeu, mais particularmente da cultura ibérica, para o solo do novo continente, tendo sido nosso trabalho através do tempo "manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil". O radicalismo do autor não faz concessões e dá a marca da obra – como quando, após sete densos capítulos, declara que "a sociedade foi mal formada, nesta terra, desde as suas raízes".

Estuda as duas unidades que formavam a Ibéria – Espanha e Portugal – em relação a um dos conceitos fundamentais de sua obra, isto é, a repulsa pelo trabalho regular e utilitário (pouco digno dos nobres de Espanha e dos fidalgos lusos) que iria permear toda a nossa cultura e resultar em uma certa "incapacidade de organização" ou mesmo anarquia fundamental, que acaba por tolerar, ou mesmo exigir, formas autoritárias: "Em terra onde todos são barões, não é possível acordo coletivo durável, a não ser por uma força exterior respeitável e temida".

Entre espanhóis e portugueses, porém, há uma diferença fundamental no que se refere ao início da civilização urbana – enquanto o espanhol, do tipo "ladrilhador", funda cidades em que parece predominar a linha reta e a ordem da razão, como se fossem um prolongamento estável da metrópole, o colono português, do tipo "semeador", norteado por uma política de feitoria, planta cidades irregulares, espontâneas, crescidas ao deus-dará. Um aspecto que ainda hoje predomina em nossos grandes núcleos urbanos, avessos a planejamentos, estirados segundo as necessidades móveis da população.

É um leque de análises sistemáticas que Buarque de Holanda consegue fazer, partindo do Descobrimento, do início rural da colonização, passando depois ao estabelecimento dos centros urbanos, aprofundando sempre a mentalidade, os costumes, as idiossincrasias dos colonizadores, e das gerações sucessivas, até chegar às características que ainda hoje facilmente ressaltam mesmo ao olhar desavisado: a nossa desorganização, emprenhada de um "jeitinho brasileiro", uma doçura-cordialidade manifesta no predomínio dos diminutivos (basta ver a profusão de "inhos" entre os jogadores da seleção brasileira de futebol), a informalidade no trato – usa-se "você" até mesmo ao dirigir-se ao presidente da República –, os compadrios e nepotismos, a absoluta mistura de esferas entre o privado e o público em todos os setores da vida nacional, até no político. Os próprios santos da Igreja Católica são tratados pelos brasileiros "com uma intimidade quase desrespeitosa", diz o autor, lembrando que a popularidade de uma Santa Teresinha de Lisieux, por exemplo, "resulta muito do caráter intimista que pode adquirir seu culto amável e quase fraterno, que se acomoda mal às cerimônias e suprime as distâncias".

Famoso, e polêmico, é o capítulo sobre o "homem cordial" – um tipo que Buarque de Holanda tomou emprestado ao escritor Ribeiro Couto. Popularizou-se através dos anos uma idéia, errônea, de que fora o autor de Raízes do Brasil o criador e o apologista dessa "cordialidade", que seria o grande legado do Brasil à sociedade global. Reconhecendo embora como virtudes a generosidade, o trato hospitaleiro, demonstrados pela população brasileira – nos costumes derivados do meio social e patriarcal –, ele faz questão de diferenciar essas atitudes das "boas maneiras" de civilidade de outros povos, as quais se revestem na maioria dos casos de uma coercividade rija que pode beirar o ritual, coisa que absolutamente repugna à nossa índole. O nosso povo, que "desconhece qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo", cria circunstâncias sui generis para sua constituição e permanência como entidade social, mostrando-se "livre para se abandonar a todo o repertório de idéias, gestos e formas que encontre em seu caminho, assimilando-os freqüentemente sem maiores dificuldades".

O autor não vê essa "aptidão para o social" como um fator apreciável de ordem coletiva, por "denunciar um apego singular aos valores da personalidade, configurada pelo recinto doméstico". Donde a dificuldade, a impossibilidade quase de estabelecer projetos sociais e de governo de alcance duradouro, e a prevalência de "caudilhismos" e aventuras demagógicas de curta duração. Como se vê, um livro extremamente atual.

Figura humana

Nos numerosos testemunhos de amigos, alunos, colegas de universidade, Sérgio Buarque de Holanda é sempre descrito como dono de personalidade marcante, um homem fascinante, um grande líder intelectual – Sérgio Milliet chamava-o de "homem-ponte" entre dois mundos, o da cultura tradicional conservadora e o da modernidade, e dizia: "Foi com Sérgio Buarque de Holanda e Mário de Andrade que aprendemos a meditar". Mas caracterizado pela afabilidade, brincalhão, boêmio, generoso e extrovertido – nos restaurantes da moda, soprava no ouvido do maître "eu sou o pai do Chico Buarque", para conseguir uma mesa; no tempo em que era obrigatório o uso de beca nos concursos acadêmicos, zombava do formalismo ao passear pelos corredores da Universidade de São Paulo (USP) concedendo bênçãos como se fosse um bispo. Justificou sua recusa a entrar para a Academia Brasileira de Letras dizendo que o estilo acadêmico não combinava com sua personalidade, tanto mais que já estava irremediavelmente comprometido com uma confraria literária que fundara em uma pândega com Jorge Amado e outros amigos, no Recife, tempos atrás – a Ordem dos Hipopótamos Azuis.

A professora Suely Robles Reis de Queiroz, em depoimento dado em 1986, caracteriza-o bem: "Gostava de gente e vivia cercado dela. O seu bom humor, a irreverência sem mordacidade ou amargura, a piada pronta atraíam os alunos e as pessoas em geral, pois quem não gosta de gente alegre, brincalhona, dotada de prodigiosa memória, capaz de continuamente evocar casos interessantes ou engraçados ocorridos consigo próprio ou com outras pessoas célebres?"

O que mais apreciava era reunir em sua casa da rua Buri, no bairro paulistano do Pacaembu – onde residiu com a família de 1957 até sua morte, em 1982 –, grupos de amigos para uma conversa cotidiana. Gostava de beber, de cantar, de noitadas, e dizia que somente dona Maria Amélia o impedira de deixar-se arrastar de vez para a boemia. As palavras do amigo Rodrigo Melo Franco de Andrade o definem bem: "O homem Sérgio é igualmente múltiplo e genuíno na sua variedade. No exercício da chefia de serviço público ou na mesa de bar, como patriarca entre a esposa e os sete filhos ou como delegado a conferências internacionais, ele é perfeitamente ajustado a cada função".


O historiador escritor

Sérgio Buarque de Holanda, nascido em 1902 na cidade de São Paulo e nela falecido em 1982, embora fosse formado em direito nunca exerceu a advocacia. Foi historiador, jornalista, escritor e professor universitário, tendo ocupado várias cadeiras, na área de história, na Universidade do Distrito Federal, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e, a partir de 1956, até sua aposentadoria em 1969, na Universidade de São Paulo (USP). "Raízes do Brasil" foi seu primeiro livro, seguido de mais 12, entre os quais se destacam importantes obras históricas – tanto de cunho didático como dirigidas ao público geral –, estudos de caráter antropológico e sociológico, como "Visão do Paraíso – Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil" e "Índios e Mamelucos na Expansão Paulista", e até mesmo uma obra de caráter literário, como a "Antologia de Poetas Brasileiros da Fase Colonial".

Foi extensa, constante e importante sua contribuição como jornalista para as mais eminentes publicações, no Brasil e no exterior. Teve sempre uma destacada atuação pública no setor cultural, ocupando cargos de relevo – foi diretor do Museu Paulista (Museu do Ipiranga), fundador e diretor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, vice-presidente do Museu de Arte Moderna de São Paulo, presidente da Associação Brasileira de Escritores, seção do Rio de Janeiro. Em diversas ocasiões deu cursos em universidades estrangeiras, nos Estados Unidos, Chile, Peru, México e Costa Rica, e participou de importantes simpósios patrocinados pela Unesco, em Paris e em Genebra.

Foi co-fundador, em 1945, do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980.

Casou-se em 1936 com Maria Amélia Alvim, com a qual teve sete filhos, entre os quais se conta o compositor Chico Buarque de Holanda.

Revista Problemas Brasileiros

sábado, 2 de maio de 2009

Raízes que dão frutos


Raízes do Brasil não é atual simplesmente porque o “homem cordial” sobreviveu, mas por estimular e gerar novas reflexões sobre nossa identidade
João Cezar de Castro Rocha

O provérbio ensina: o hábito faz o monge – não o oposto. Como o alferes Jacobina – do conto “O espelho”, de Machado de Assis – descobriu com alguma inquietude, sem o espelho proporcionado pelo olhar do outro, tornamo-nos invisíveis, sobretudo aos nossos próprios olhos. Habituado a ser reconhecido pela patente de alferes, Jacobina descobre que está sozinho, ou pior, cercado por escravos – possivelmente a forma mais cruel de solidão numa sociedade escravocrata. Longe de seus pares, ele logo começa a duvidar da sua própria existência social. Na cortante formulação de Machado, “o alferes eliminou o homem”.

Sérgio Buarque de Holanda deve ter recordado o conto de Machado ao delinear o perfil do brasileiro médio e estabelecer o conceito de “homem cordial”, para o qual “a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente de viver consigo mesmo”. Raízes do Brasil é uma modalidade do espelho de Machado de Assis – forma através da qual uma comunidade se reconhece.

A sociedade brasileira parece reconhecer-se neste conceito, pois ainda hoje é comum que se aceite a cordialidade como maneira adequada de autodefinição. Os brasileiros, portanto, são cordiais. Por isso, debater a noção é importante, pois se trata de rever o modo de pensar o país que nos coube.

Contudo, na visão de Sérgio Buarque, o homem cordial era uma sobrevivência do passado agrário e, portanto, um anacronismo vivo. A urbanização e a vida moderna inevitavelmente levariam à superação da cordialidade. Logo, o conceito não poderia definir uma brasilidade atemporal. Ninguém se surpreenderia mais do que o autor de Raízes do Brasil com a atualidade do seu conceito!


No mesmo ano da publicação de Raízes do Brasil, 1936, Gilberto Freyre publicou Sobrados e mucambos, obra em que também empregou o conceito de homem cordial. A compreensão dos dois autores, porém, é muito diferente. Enquanto Sérgio Buarque desejava revelar o caráter promíscuo da relação dos domínios do público e do privado, Freyre buscava assinalar “o equilíbrio de antagonismos”, ou seja, a capacidade de conciliação, tristemente célebre na política brasileira – de ontem, de hoje e de amanhã, o leitor acrescentará.

Mas a cordialidade já dispunha de intérpretes mesmo antes desses dois autores. O próprio Sérgio Buarque relata que “Ribeiro Couto teve uma expressão feliz quando disse que a contribuição brasileira para a civilização será de cordialidade – daremos ao mundo o ‘homem cordial’”. De fato, numa carta, datada de 7 de março de 1931 e endereçada ao escritor e diplomata mexicano Alfonso Reyes, Ribeiro Couto lançou a idéia. Na verdade, o poeta e diplomata brasileiro foi menos parcimonioso na definição, vislumbrando no homem cordial uma autêntica herança latino-americana:

“O egoísmo europeu, batido de perseguições religiosas e de catástrofes econômicas, tocado pela intolerância e pela fome, atravessou os mares e fundou ali, no leito das mulheres primitivas e em toda a vastidão generosa daquela terra, a família dos homens cordiais, esses que se distinguem do resto da humanidade por duas características essencialmente americanas: o espírito hospitaleiro e a tendência à incredulidade. Numa palavra, o homem cordial.”

Como todo gesto arqueológico inaugura uma tarefa infinita, recorde-se que Manoel Bomfim, em O Brasil na América, numa seção intitulada “A cordialidade da taba”, já tocara no tema, embora compreendesse a cordialidade como traço característico dos indígenas brasileiros. E num ousado e criativo recuo cronológico, mencione-se a Carta do Achamento, de Pero Vaz de Caminha, lida por tantos como o “documento” definitivo acerca da cordialidade dos indígenas que “acolheram” os navegadores portugueses. Para Ribeiro Couto, o homem cordial revelaria o êxito do processo histórico da miscigenação.


Gilberto Freyre levou tal interpretação a sua conclusão lógica, afastando-se totalmente do projeto de Sérgio Buarque. Ora, o historiador paulista interpretava o passado com olhos na modernização da década de 1930, cuja marca mais importante seria a superação da cordialidade. Já para o escritor pernambucano, em Sobrados e mucambos, o mesmo aspecto representaria uma marca positiva do caráter nacional, e via a cordialidade transbordante principalmente no mulato. Destacava que “o conde de Gobineau, que todo o tempo se sentiu tão mal entre os súditos de Pedro II, vendo em todos uns decadentes por efeito da miscigenação, reconheceu no brasileiro o supremo homem cordial: ‘très poli, très accueillant, très aimable [muito polido, muito acolhedor, muito amável]’.

Para se entender o contexto em que essas idéias surgiram, é importante lembrar que Ribeiro Couto escreveu a carta a Alfonso Reyes em Marselha, quando era cônsul-adjunto na França. De igual modo, Sérgio Buarque concebeu as idéias que ganharam corpo em Raízes do Brasil durante sua estada na Alemanha, de junho de 1929 a dezembro de 1930, época em que trabalhou como correspondente internacional. Gilberto Freyre atribuiu a Casa-grande & senzala inspiração similar e, no prefácio à primeira edição, fala de sua “aventura do exílio” como uma viagem ideal para os estudos e as preocupações que seu trabalho refletia. É como se estivéssemos condenados ao eterno retorno da máxima: à distância, parece mais fácil descobrir a própria terra. Oswald de Andrade, Ribeiro Couto, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, entre tantos recriadores de particulares “canções do exílio”, parecem comprovar a intuição. Aliás, o parágrafo de abertura de Raízes do Brasil ofereceu a célebre fórmula: “(...) somos ainda uns desterrados em nossa terra”. É como se o exílio se transformasse na condição existencial do brasileiro.

Após retornar da Alemanha, Sérgio Buarque publicou alguns textos em que o núcleo do futuro livro já se esboçava. O mais importante desses textos apareceu em 1935, na revista Espelho. O ensaio denominava-se “Corpo e alma do Brasil” e representava um esforço de síntese do futuro livro. A primeira noção tratada nesse texto era a do homem cordial. Sua conclusão, abandonada no livro, torna-se cada dia mais instigante nas circunstâncias de um mundo globalizado: “Hoje somos um povo endomingado. Uma periferia sem um centro”. Teríamos perdido a espontaneidade cordial, comprometendo gestos e intenções num ritualismo avesso à formação histórica brasileira. Delineava-se assim uma geografia incerta, habitada por homens cordiais, desterrados num país-continente.

Em entrevista ao historiador Richard Graham, Sérgio Buarque esclareceu que escreveu seus artigos tentando explicar o Brasil para os alemães. Para ele, “só quando você está longe é que consegue ver seu próprio país como um todo”. Ele conta que pretendia escrever um livro cujo título seria Teoria da América. O livro nunca foi publicado, mas dois capítulos deram origem a Raízes do Brasil e foram tirados praticamente sem modificações daquelas páginas em desordem.


O conceito de cordialidade, síntese da formação social brasileira, já se encontrava nesses textos. O homem cordial seria aquele que vive ao sabor de paixões extremas, dominado pelo coração – em latim, cor; daí, cordial. Ele é o filho dileto da família patriarcal, sentindo-se perdido no mundo impessoal da esfera pública; só se sente em casa na própria casa, na esfera privada, caracterizada pelas relações pessoais e pelo afeto. As conseqüências de tal disposição afetam diretamente a condução da coisa pública: “Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição”. O homem cordial se define por “um fundo emocional extremamente rico e transbordante”. Por isso, sempre favorece o grupo dos amigos, em vez de zelar pelo interesse público.

Sérgio Buarque, contudo, foi otimista, pelo menos no tocante à resistência do comportamento cordial. Para ele, a urbanização na década de 1930 levaria à superação da cordialidade, já que a racionalização dos meios de produção exigida pelo mundo moderno deveria domar os impulsos anárquicos do homem cordial.

No entanto, o homem cordial ainda é nosso vizinho; nos rituais mais simples do cotidiano, lá está ele. A bem da verdade, ele quer dizer todos nós, inclusive o autor e o leitor deste artigo: eu e você, bem entendido. Não se trata, portanto, de adjetivar o comportamento do homem cordial, tampouco de lamentar sua longevidade ou celebrar sua sobrevida. Pelo contrário, devemos prestar a Sérgio Buarque a única homenagem que se deve oferecer a um pensador fundamental: transformar sua obra em estímulo constante para a renovação do pensamento. É preciso abandonar a cordialidade ornamental. O que necessitamos é compreender as estratégias de sobrevivência do homem cordial – isto é, investigar as razões de sua permanência no universo brasileiro. O espelho que produz a imagem. A cordialidade nossa de cada dia. A atualidade de Raízes do Brasil.

João Cezar de Castro Rocha é professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. É autor de O exílio do homem cordial – Ensaios e revisões (Editora do Museu da República, 2004) e organizador do livro Cordialidade à brasileira: mito ou realidade? (Editora do Museu da República, 2005).

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Cheiro de terra


Sérgio Buarque e Oliveira Vianna mostram a ligação entre a tradição rural escravista do Brasil e nossas formas de pensar e sentir social e politicamente
Angela de Castro Gomes

Sérgio Buarque de Holanda e Oliveira Vianna são dois clássicos do pensamento social brasileiro freqüentemente tratados como autores de características opostas. Contudo, os conceitos de “cordialidade”, em Raízes do Brasil (publicado originalmente em 1936), e de “espírito do pré-capitalismo”, em História social da economia capitalista no Brasil (último livro do autor, escrito no fim da década de 1940 e publicado somente em 1987) ocupam uma posição que se pode chamar de equivalência estrutural nos dois livros. Assim, não se trata de minimizar as distinções entre os autores nem de admitir uma equivalência substantiva entre os conceitos. O fato é que ambos são construídos a partir de um diagnóstico sobre o Brasil que trabalha com um mesmo conjunto de elementos básicos e desembocam numa apreciação sobre “o homem brasileiro” surpreendentemente convergente.

Uma das razões que fazem de Raízes do Brasil um livro particularmente estimulante é o fato de não ser um texto fechado. Toda a análise do autor conflui para um dilema muito nítido, para o qual não se dá solução acabada. Este impasse, entretanto, não chega a ser trágico, uma vez que a análise nos acena com a possibilidade de transformar nossa própria dificuldade em vantagem. Já que ela não é um mal estrutural nem uma fatalidade insuperável, torna-se viável pensar e tentar uma saída que emerge como algo original e positivo. Este dilema pode ser percebido através do conceito de “cordialidade”, que não é tratado como uma essência própria, algo inato ao homem brasileiro, mas como uma “mentalidade”, ou seja, um produto cultural construído ao longo de nossa história. O “homem cordial” é o produto síntese da herança colonial portuguesa, responsável pela gestação de uma sociedade em que predominam relações sociais pessoalizadas, afetivas, particularistas e clientelistas. A cordialidade, que é nossa marca registrada, funciona ao mesmo tempo como um obstáculo e uma proteção. Obstáculo por bloquear a instauração de um verdadeiro espaço público democrático onde devem dominar relações sociais impessoais. Mas também uma proteção, pois pode evitar os excessos de uma sociedade moderna ultra-racionalizada, burocratizada e impessoal. É justamente um dilema como este que caracteriza História social, de Oliveira Vianna, e está sintetizado no conceito de espírito do pré-capitalismo. Ele traduz a convicção de que a superação total de uma “mentalidade” é impossível e transfigura uma condição de “atraso e inferioridade” em uma virtualidade capaz de apontar ao país um caminho específico que é, por isso, o mais adequado e melhor.

Além disso, nos dois livros, ambos os conceitos são produzidos a partir de um diagnóstico histórico que tem como momento fundamental o processo de colonização. Tanto Sérgio como Oliveira Vianna (e muitos outros), ao realizarem um esforço para compreender a sociedade brasileira, partem da interrogação sobre a existência ou não de uma “mentalidade”, de uma “cultura nacional”. Se ela existe, suas características só poderão ser traçadas e compreendidas a partir da experiência da colonização portuguesa, o que os remete à ocupação territorial e às questões da grande propriedade e do trabalho escravo. O eixo básico de análise articula nossa tradição rural escravista com as nossas mais profundas formas de pensar e sentir social e politicamente. O tipo de “mentalidade”, de “cultura brasileira” – cordial, pré-capitalista – tem cheiro de terra, não ama o trabalho, obedece ao pai de família e nasceu em Portugal.


A análise de Sérgio Buarque sustenta que a cordialidade é uma realização da cultura ibérica. São as características desta cultura que permitem compreender a exploração colonial aqui estabelecida e, em decorrência, as características do ruralismo que marca a sociedade brasileira: a colônia é um projeto da metrópole. A transfiguração da cordialidade é, assim, a superação da herança portuguesa, abrindo portas para um novo e original caminho, americano, no dizer do autor. De forma sucinta, falar dessa herança é acentuar algumas características fundamentais para o conceito de cordialidade. Em primeiro lugar, na Península Ibérica se desenvolveu o que Sérgio Buarque chama de “cultura da personalidade”, uma forma radical de individualismo em que imperam os sentimentos de responsabilidade e dignidade pessoais. Essa forma de viver o individualismo suscitou desdobramentos importantes no que se refere, por exemplo, ao princípio hierárquico, que nunca chegou a ser impermeável e rigoroso na nobreza lusitana, produzindo uma sociedade caracterizada pela plasticidade e capaz de assimilar novas idéias (liberais-burguesas) sem transformar inteiramente seu tradicional modo de pensar e agir. Em segundo lugar, é devido a essa “cultura da personalidade”, que sustenta uma vivência específica do livre-arbítrio, que é tão difícil, entre os portugueses, o desenvolvimento de formas associativas que propiciem coesão entre diversos grupos da sociedade. É essa cultura, portanto, um dos grandes empecilhos ao “espírito de organização espontânea, tão característico de povos protestantes [...]”. O tema da autoridade, do Estado centralizado, é assim introduzido por força da ausência de formas de agregação social de outra natureza. De modo que, se o livre-arbítrio é um valor radical, qualquer atividade humana que implique submissão a uma lógica distinta da vontade individual é entendida como uma agressão. Esta é, para o autor, a raiz da “invencível repulsa” a toda moral fundada no trabalho, especialmente no manual e mecânico. É também um grande obstáculo para a construção de redes associativas que têm nas relações de interesses materiais uma razão fundamental.

Todas essas características tiveram influência decisiva no tipo de exploração colonial aqui desenvolvida, que seguiu a “ética da aventura”: uma ocupação do território que ignorou projetos de mais longo prazo. O ruralismo, que é a base do Brasil colonial, traduzido pela exploração da grande propriedade com escravos, origina-se dessa “ética da aventura”, que cultiva a audácia, mas também a imprevidência, a instabilidade e a ociosidade. A grande propriedade, autônoma e isolada, e a família colonial são o seu cerne. Como o modelo das relações sociais está centrado na autoridade patriarcal indisputada e pessoalizada, a solidariedade que existe ou que se nega passa pelos sentimentos. Dessa forma, há no Brasil um veto à lógica material de relações sociais, identificada como fria, interesseira e imoral. Aqui, por obra do legado colonial, vigora uma lógica simbólica, ou seja, uma cultura orientada por sentimentos pessoais e morais.

Para Oliveira Vianna, também foi devido ao ruralismo – à grande propriedade com trabalho escravo – que se desenvolveu no Brasil tanto uma ética de rejeição ao trabalho manual como um padrão de sociedade que absorve o homem na grande família e o isola da sociedade mais ampla. O domínio rural – amplo, disperso e isolado –, gerando auto-subsistência, obriga os homens “a viver por si mesmos, de si mesmos e para si mesmos”. Ele “simplifica” toda a nossa estrutura de vida econômica e social, fazendo com que, em nossa sociedade, nada nem ninguém – nenhuma instituição política ou autoridade pública – ampare o “cidadão”. Só o grande senhor é capaz de exercer a função social de proteger e tutelar o homem do povo. O “espírito de clã” é, assim, um fato inevitável, produzindo um tipo de evolução histórica que tornou inexistentes ou inoperantes todas as instituições sociais.

Em História social, Oliveira Vianna retoma e desenvolve essa tese da ausência de formas associativas no Brasil, que tem suas origens nos tempos coloniais e o leva a questionar até a existência de uma “sociedade brasileira”. Por isso, neste livro, ele quer demonstrar como, no Brasil do século XX, ainda vigora em boa parte de nossas “populações regionais” o que vai chamar de “espírito do pré-capitalismo”. Para entender este conceito, ainda que de forma extremamente resumida, é importante lembrar que sua origem está no passado colonial rural: no latifúndio e na força de nossa aristocracia territorial. Se o grande domínio isola o homem, sendo o berço do “espírito de clã”, de uma ética de rejeição ao trabalho e do caudilhismo, ele é também o berço de relações sociais fundadas nos sentimentos que bloqueiam o frio espírito do lucro material e da “ambição sem limites”. Lentamente construída e refinada por séculos, essa “mentalidade” de nossa nobreza territorial emerge como um problema e, ao mesmo tempo, como uma vantagem. Isto porque no Brasil não se construiu uma subordinação maléfica dos interesses sociais e políticos aos interesses da riqueza material.


O espírito do pré-capitalismo, assim como a cordialidade, não é nem uma essência nem uma sobrevivência descartável ou “fora do lugar”. É um traço sociocultural profundo que se liga ao nosso passado colonial e que faz com que, no Brasil, não vigore um modelo de sociabilidade dominado por uma lógica material de interesses racional e impessoal.

As convergências entre os elementos básicos de análise em Sérgio Buarque e Oliveira Vianna não deixam de surpreender. Nenhum dos dois nos dá propriamente uma resposta, uma fórmula que permita resolver a tensão que suas análises produzem. Em ambos pode-se assinalar uma clara percepção de um processo de mudança social instalado no Brasil a partir de 1888, com a Abolição, que se intensifica com a Primeira Guerra e a Revolução de 1930. Um processo muito importante, mas que não é tão drástico nem tão violento. E essas características não o tornam menos desejável ou menos preocupante. O que fica claro é que, no Brasil, processos de transformação social têm sempre sólidos pontos de apoio em nossas mais profundas tradições culturais. Mas, a despeito de as análises dos dois autores conduzirem a pontos muito semelhantes – o que ilustra a fecundidade e a força das categorias com que trabalham e que marcam o campo intelectual de uma época (as décadas de 1910/1940) –, suas perspectivas permanecem distintas. Sérgio Buarque quer, fundamentalmente, compreender a sociedade brasileira; por isso vai às “raízes” culturais de nossa formação e acaba chegando à política. Oliveira Vianna quer, principalmente, organizar o “Brasil real”; para isso, precisa fundar sua reflexão política em uma análise histórico-sociológica, conforme modelo então vigente. Estes percursos não são casuais, e certamente esclarecem a maior margem de liberdade deixada por Sérgio Buarque e o misto de admiração e angústia provocado por Oliveira Vianna.


Angela de Castro Gomes é professora e pesquisadora do CPDOC/FGV e professora titular da UFF, autora de “A dialética da tradição” (Revista Brasileira de Ciências Sociais, nº 12, 1990).

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Tropicus Germanicus


O radicalismo em Sérgio Buarque de Holanda

Tudo teve início com uma simples solicitação. Em 1929, quando Assis Chateaubriand convidou o articulista Sérgio Buarque de Holanda a fazer um roteiro profissional para O Jornal que incluía a Alemanha, a Rússia e a Polônia, não poderia prever como os estudos interpretativos sobre o Brasil ficariam gratos pelo convite.

A estada de Sérgio Buarque na Alemanha se converteu em uma experiência acadêmica que foi responsável pela interpretação progressista do Brasil que seu livro Raízes do Brasil inaugura em 1936. Estabelecido em Berlim, o autor desenvolveu aguçada leitura de autores alemães que influenciaram a maneira como seu país deveria ser examinado. Seja pela construção de “tipos sociais ambíguos”, própria de Simmel, ou mesmo pela utilização de tipos ideais weberianos, como na construção conceitual que Sérgio Buarque traça entre o colonizador-semeador e o colonizador-ladrilhador, “Raízes do Brasil é o único (livro) que se pode dizer que é meio alemão”, segundo Antonio Candido. O caráter sociológico e interpretativo que marcou a primeira grande obra de Sérgio Buarque foi aos poucos se convertendo em um esforço pela pesquisa documental que daria um teor mais histórico a suas obras posteriores, como Caminhos e Fronteiras e Visão do Paraíso.

Dentro dessa leitura interpretativa do Brasil ao modo alemão, Sérgio Buarque apresentava uma certa racionalidade crítica que sustentava uma proposta radical de transformação da realidade política brasileira. Esta proposta que Raízes do Brasil sustentava não poderia ser explicada apenas pela tradição intelectual alemã que embasa a obra. A maneira como o jovem Sérgio Buarque assistia à ascensão do nazismo na década de 1930 o fazia receptivo à esquerda política, o que pode ser percebido em seu livro de 1936 a partir da análise crítica de um passado oligárquico passível de denúncia. O teor revolucionário da obra se apresenta por meio de duas características percebidas por Antonio Candido: a posição democrático-popular da obra que colocava o autor no sentido oposto às interpretações da época e a quebra do fascínio pela tradição luso-brasileira como instrumento de avaliação de nosso passado e determinante de nosso desenvolvimento futuro.

Dessa maneira, o processo de amadurecimento das relações intelectuais de Sérgio Buarque se confunde com o florescer de suas ansiedades políticas cultivadas no fértil solo alemão da década de 1930. A ampliação de sua visão libertária do processo histórico garantiu que sua trajetória política fosse um desdobramento da crítica social que Raízes do Brasil apontava em 1936. Sérgio Buarque foi militante do Centro Brasil Democrático desde sua fundação, em 1978, e na década de 1980, fundador do Partido dos Trabalhadores, admitindo que suas experiências políticas contribuíssem para romper o caráter oligárquico da nação brasileira.


Em 1982, com o crescente brado dos intelectuais pelo fim da censura, Antonio Candido afirmava: “Simbolicamente, era como se houvesse uma ligação profunda entre a aclamação de agora e aquele texto de 1936, segundo o qual só a transferência de poder às camadas espoliadas e oprimidas poderia quebrar o velho Brasil da iniqüidade oligárquica”.

Setenta anos de Raízes do Brasil mostram como o olhar germânico de Sérgio Buarque de Holanda se fixa diante da realidade brasileira.

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Raízes do Brasil explica o país de hoje?


Sérgio Buarque de Holanda ainda é atual? Raízes do Brasil pode ser usado para se entender o Brasil de hoje? A Revista de História foi à PUC-Rio, onde entrevistou quatro alunos do curso de graduação em História para saber o que eles acham de uma das principais obras da antropologia brasileira.

André Luis Campos Salles, 35 anos, considera deturpada a apropriação do conceito de “homem cordial” para explicar as relações pessoais na política nacional.

– Certa vez assisti a uma palestra em que uma professora fazia uso de Raízes do Brasil para falar da corrupção no governo do país. Mas o próprio Sérgio Buarque de Holanda restringia o conceito de “homem cordial” a determinados grupos sociais. Não vale a pena usar essa idéia para explicar o brasileiro em geral. No conceito de cordialidade, você suspende as leis para abrir espaço para uma negociata mais particular. Mas dizer que o brasileiro põe as leis em segundo plano é um equívoco.

Esta não é a opinião de Natália Peixoto, 23 anos. Ela conta que, uma vez, seu carro foi arranhado em um acidente de trânsito e o motorista culpado fugiu. Para dar queixa, ela precisaria de duas testemunhas que não conhecesse. O policial encarregado disse que por dez reais ele transformaria o namorado dela – que estava no carro – em uma testemunha anônima. Ela não aceitou.

– Mas grande parte da população não faria o mesmo. O brasileiro reclama da corrupção na política, mas, diante de conflitos privados, acaba fazendo uso de pequenos subornos.


Maria Aparecida dos Santos, 21 anos, diz que Raízes do Brasil é mais que atual, “pois fala da fronteira tênue que existe entre o público e o privado no país”.

– Não quero dizer que o Brasil dos anos 1930 seja igual ao Brasil de hoje, mas a idéia do livro ainda persiste. Já ouvimos falar de deputados que usam o carro oficial para levar o cachorro ao veterinário, ou de juízes que, ao cometerem uma infração no trânsito, dão uma “carteirada”, fazendo uso do título para escapar ilesos. É o famoso “você sabe com quem está falando?”, frase tipicamente brasileira. Nossas relações sociais são muito porosas.

Patrícia Costa Gregório, 32 anos, discorda e não vê o Brasil como um país tão maleável.

– O Sérgio Buarque dizia que a colonização espanhola foi mais racional que a portuguesa. Mas eu não acho que nossa expansão territorial tenha sido feita tão “ao Deus dará”. Na ocupação da Amazônia, por exemplo, houve um forte planejamento do marquês de Pombal, que também tinha projetos claros de defesa. Acho que Raízes do Brasil nos ajuda a entender o início da formação da nossa sociedade, mas explica principalmente o período da colonização. Não serve para explicar a atualidade. Mergulhar no livro para encontrar o Brasil de hoje é exagerado.

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As Raizes e seus frutos


Setenta anos depois de publicado, Raízes do Brasil mantém sua atualidade e revela o projeto maior de seu autor: examinar possibilidades, direções e limites da civilização no país
Fernando Novais

Atualmente, há uma tendência patente para desqualificar as grandes interpretações do Brasil, principalmente no que se refere aos três livros marcantes da “geração de 30” (Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda), os “Intérpretes do Brasil”, como ficou registrado no ensaio clássico de Antonio Candido (prefácio à 5ª edição de Raízes do Brasil, 1969). Existem duas linhas que seguem esta tendência. Uma delas é a que aponta esses estudos como pouco importantes, pré-modernos e tradicionais, interpretações muito gerais, ultrapassados pela produção da universidade. A outra está ligada aos estudos sobre essas obras, muito em voga nestes dias, centralizados nas investigações sobre as inspirações teóricas presentes nos textos e afirmando a existência neles de ideologia – o que realmente existe – como demérito. Dessa forma, não avançamos muito na compreensão dessas obras e no aproveitamento de suas inspirações.

Ao tomarmos essas tendências dominantes, acabamos por perder certas características específicas da cultura brasileira. Uma delas é essa obsessão pela interpretação geral, presente em todos os momentos decisivos da História – na Independência, na República, na belle époque, na Semana de Arte, no Modernismo de 30. Neste sentido, há um bom exemplo, um intelectual paradigma da modernização: Florestan Fernandes, introdutor da sociologia moderna no Brasil. Depois de ter feito os trabalhos canônicos que fez na academia, ele produziu grandes livros, que culminam em A Revolução Burguesa no Brasil, cuja primeira edição foi publicada em 1975, e volta então à interpretação geral. A explicação que se dá não me convence. É de que ele foi perseguido, expulso, exilado, e voltou a fazer interpretação do Brasil por isso. É claro que isso teve importância – sofreu muito no exílio –, mas estou convencido de que, se tivesse continuado na universidade, também voltaria às interpretações globais.

O verdadeiro problema, o que fica escamoteado por essa rejeição, é pensar que a interpretação é tradicional e não extremamente moderna, como foram essas novas leituras do país a partir da segunda metade do século XX. Portanto, muitas vezes não se enxerga essa modernidade. O fato é que, no Brasil e em outros países, há essa obsessão pela interpretação, comum nos países latino-americanos, nos países periféricos de maneira geral. E tem sido uma tendência avassaladora da globalização dizer que essa prática não tem valor.

Pensando dessa maneira, estive tentando situar os três grandes autores e suas obras. Acredito que a peculiaridade, tanto em Gilberto Freyre quanto em Caio Prado Júnior, e sobretudo em Sérgio Buarque, é a idéia de definir o que é o Brasil, o que é o brasileiro; é a busca da identidade nacional. O que muda em 30, nesses três autores, é que o Brasil começa a ser visto a partir de dentro – e por dentro. Assinalamos isto, Maria Arminda do Nascimento Arruda e eu, na pequena introdução que fizemos ao “Dossiê Intérpretes do Brasil” (Revista da USP, nº 38, jun-ago., 1998).
Essa virada é clássica em Gilberto Freyre, e mesmo em Caio Prado – por isso ele é heterodoxo em seu marxismo. Por isso os marxistas ortodoxos achavam que ele não era bom marxista, porque realmente começa a ver o Brasil deste interior. E eu me lembro de uma entrevista que Caio Prado, pouco antes de morrer, deu à revista da Unesp, Transformação, em que um entrevistador perguntou por que ele, atuando em 1940, escrevia um marxismo não-ortodoxo, já que era membro do Partido Comunista, não ortodoxo. Ele deu a seguinte resposta: “O meu assunto sempre foi o Brasil. Eu adotei o marxismo porque acho que é um bom instrumento para entender o Brasil. Se eu chegasse à convicção de que não era, adotava outros instrumentos. O objeto vem antes do método para mim”. É essa preeminência do Caio, e o que está presente em Gilberto Freyre; por isso ele também é um heterodoxo. No Sérgio Buarque, não. É diferente.


Como, então, eu situaria Sérgio Buarque? A primeira coisa que é preciso dizer é que, em 1936, Raízes do Brasil se mostra atual em dois sentidos. Quando é publicada, a obra revela como seu autor estava em dia com os principais problemas da historiografia. Se nós pensarmos na história geral da historiografia, acho que é possível dizer que o grupo da Escola dos Annales, na França, que marca a historiografia moderna, institucionalizou o diálogo da História com as Ciências Sociais. É isso que está no manifesto de March Bloch e Lucien Febvre; e esse diálogo é institucionalizado com todas as Ciências Sociais; não com uma ou com outra, mas com todas.

Em seu livro, Sérgio Buarque mobiliza, sobretudo, a Sociologia; é um ensaio sociológico, mas para classificar a História. Mas pode-se dizer: trata-se de um movimento tradicional, é um ensaio – como se ensaio carregasse um fato pejorativo por ser ensaio. Isto mostra que ele, apesar de não ter essa formação francesa, estava em dia com movimentos da História. Tanto que, já nos anos 1950, é convidado para um debate no Reencontres de Genève (1954), por Lucien Febvre, para falar sobre “Le nouveau monde et l’Europe”. E ele era o único brasileiro presente.

Em segundo lugar, esse diálogo está ligado à idéia de que Sérgio Buarque se coloca, sobretudo e antes de tudo, como um historiador. A sua marcha segue, dessa maneira, do ensaio sociológico para a História. Ele vai caminhando nessa direção, e seu último livro, sobre o qual vou falar duas palavras rapidamente, é exatamente a culminação desse caminho, quando ele faz sua virada total. Apesar de ter sido, desde o princípio, um historiador. Essa minha posição não é para dizer que a História é mais importante que outra coisa. Acho apenas que assim fica mais inteligível todo esse percurso.

Sobre essa questão do diálogo das Ciências Sociais com a História, proposto pelo grupo dos Annales, perguntava-se: qual é a diferença entre os dois? E que eles diziam: História não tem conceitos. O Braudel dizia que o único conceito de História é o conceito de duração, que não é um conceito, mas uma idéia. A História usa os conceitos das Ciências Sociais. Então, o que diferencia o uso dos conceitos das Ciências Sociais pelo historiador e pelos cientistas sociais? O historiador os historiciza. E como você historiciza? Não há regra. Cada um, com o seu tema, descobre sozinho.


A questão de Sérgio Buarque sempre foi a identidade nacional, fonte inesgotável de seus questionamentos. Alguns leitores, os mais apressados, dizem que isso está “fora da moda”, fora da agenda: que hoje não se estuda mais identidade. E outros dizem mais: doutor Sérgio não estudava identidade, porque ele nunca falou nisso. Mas doutor Sérgio era um escritor, e não começaria nunca um livro dizendo: “O objetivo desta tese é definir a identidade nacional...”. Ele diz então: eu quero entender por que até hoje nos sentimos uns desterrados em nossa própria terra. Sobre o que ele está falando? Até o fim, ele não pensou em outra coisa. Quando ele estuda Metastásio, é porque ele quer entender os árcades mineiros, não porque tem interesse em Metastásio. Há interesse em Metastásio também, mas é tudo orientado. Como Caio Prado, como Gilberto Freyre. É o Brasil, a partir de dentro.

Para essa empreitada, Sérgio Buarque recorre a Weber. Onde está a originalidade? Está no fato de que ele construiu os tipos ideais de uma maneira totalmente nova. Mas não há um exemplo de Weber – ou de weberianos – que construa um tipo ideal, tal como ele construiu “o Homem Cordial”, por tipos opostos. Weber exagera, delimita um objeto, mostra o tipo ideal e depois volta para a realidade, para ir entendendo. E o que faz Sérgio Buarque? Parte de tipos contrapostos, rapidamente esboçados, o semeador e o ladrilhador, o anglo-saxônico e o ibérico, o espanhol e o português, para concluir no “Homem Cordial”, que pode ser lido como um tipo ideal weberiano. Qual era então o seu tema central? O modo de sociabilidade, que ele procurou formular com a idéia da cordialidade, e que depois suscitou um novo debate.

Sérgio Buarque é um grande escritor. Sendo assim, o livro todo é muito bem escrito. Na realidade, há uma mudança de tom, de andamento, ao longo da obra. Sem querer invadir a área dos literatos, eu diria que há quase uma mudança de estilo. Até o quinto capítulo do “Homem Cordial”, ele vai construindo o argumento. Depois, passa a ser mais narrativo, para transformar o estudo em um ensaio propriamente dito somente no último capítulo, “A nossa Revolução”, em que ele está realmente tentando ver quais eram as possibilidades inscritas na nossa formação.

Tudo mais, dali em diante, segue como investigações em torno desse tema. Até quando ele tomou Caminhos e Fronteiras houve quem pensasse que estava falando sobre os limites territoriais e os caminhos dos bandeirantes. Sérgio Buarque fala disso também, mas ele está, antes de tudo, examinando possibilidades, direções e limites da civilização no Brasil. E porque tomou São Paulo no século XVII e a vida material como mote para isso, faz da obra uma experiência absolutamente fantástica.


Quando passa para Visão do Paraíso, publicado em 1959, a mesma questão está presente. Ele, portanto, partiu do que foi esboçado em Raízes do Brasil, e tentou ver isso do ponto de vista do imaginário. Mais tarde, quando faz a História do Brasil, dirige a História Geral da Civilização Brasileira, a partir de 1960, disse-me, assim como para outras pessoas, que queria, sem pressionar autores, dar uma certa unidade, e achava que os capítulos assinados por ele eram capazes de dar essa unidade ao projeto. Sérgio Buarque achou que conseguiu alcançar esse objetivo, mais ou menos, na parte sobre a Colônia. No que se refere ao século XIX e ao Império, ele achou que falhou. E resolveu escrever um outro volume, que é o quinto, Do Império à República, inteiramente sozinho. Do ponto de vista cronológico, o quarto volume da monarquia já tinha chegado até a República – mas ele reescreve tudo. Mas Sérgio, de fato, não gostava do livro. Disse que ia reescrevê-lo em dois volumes, mas não acabou. Ele havia me dito também, várias vezes, que queria acabar essa obra, e só depois iria escrever um trabalho que o perseguiu, e que nunca escreveu, que se chamaria A era do barroco no Brasil. O que sobrou desses escritos, Antonio Candido publicou como Capítulos de Literatura Colonial.

Quando tento analisar Do Império à República, sempre acho muito difícil. Sei que ele funciona de maneira oposta a Raízes do Brasil, uma vez que parte do evento para as estruturas, em vez de partir das estruturas para os eventos. É impressionante. Ele fixa um evento: a queda do gabinete Zacarias, em 1868. Para entender o acontecimento é preciso entender o poder pessoal. Fala, portanto, um pouco do poder pessoal, analisa a Constituição de 1823, que foi derrogada, a Constituição outorgada de 1824, parte para analisar Benjamin Constant, vira, volta, descreve o poder pessoal exercido por D. Pedro. Está ali presente uma análise notável de D. Pedro II, que termina dizendo: “muito lastro para pouca vela”. D. Pedro II era muito lastro para pouca vela – quer dizer, não anda. E esta é a pior observação que poderia fazer sobre um estadista. Eis o fim do capítulo. E dessa maneira ele vai alargando, para entender a crise do regime, a passagem do Império para a República.

O outro momento seria a proclamação da República. Ele planejava reescrever este livro, mais uma vez, de maneira inversa a Raízes do Brasil. Por isso insisto que ele realmente sai da Sociologia e se dirige à História; sai do ensaio e vai para a narrativa concreta. O outro livro, ele queria que fosse feito em dois volumes. O primeiro iria se chamar “O pássaro e a sombra”, devido a um discurso de um parlamentar, acho que foi Nabuco, que teria falado: “não adianta ficar atacando a sombra se não apontar para o pássaro. Vocês ficam criticando o ministério Zacarias, mas preservam o imperador”. E o segundo, que seria sobre a proclamação da República, iria se chamar “A fronda pretoriana”.

Portanto, ele é atualíssimo. Mas se nós pensarmos uma outra dimensão da sua atualidade, quando examinamos o conjunto da obra e voltamos a Raízes do Brasil, lembro-me da polêmica com Cassiano Ricardo, em que ele termina dizendo: vamos parar de discutir. Cassiano Ricardo dizia referindo-se à obra, especificamente ao “homem cordial”, que não se tratava de cordialidade, mas de bondade, e Sérgio Buarque explicava: “Acho que já gastamos muita vela com esse defunto”. Ele estaria falando da possibilidade de o homem cordial já ter morrido? Se eu bem entendo, o que ele está discutindo desde o início na procura dessa identidade nacional são as estruturas do nosso modo de ser, a possibilidade de modernização que está inscrita na nossa formação. Melhor dizendo, a crise presente na modernização que tende a negar os princípios resultantes da nossa formação.

E a conclusão, no último capítulo, é extremamente cética, o que mais uma vez o aproxima do cenário intelectual de 1930, com Gilberto Freyre, Caio Prado Júnior. Ele insinua, projeta, diagnostica: ou nos modernizamos e deixamos de ser o que somos, ou continuamos a ser o que somos, e não nos modernizamos. Isto não é muito diferente de saber se devemos dizer Adeus ao desenvolvimento (título da obra de João Antonio de Paula publicada em 2005), nos resignamos ao ajuste, à globalização, ou se devemos insistir na utopia e em sermos agentes de nossa história. Ele já estava pensando nisso nos anos 1930. To the best of my understanding, a sua atualidade.

* Este texto é a versão editada da conferência proferida no XII Seminário sobre a Economia Mineira, realizado em Diamantina entre 29 de agosto e 2 de setembro de 2006.

Fernando A. Novais é professor da USP e da Unicamp. Autor do prefácio de Caminhos e Fronteiras (edição de 1994) e de “De Volta ao Homem Cordial” publicado em Aproximações – Estudos de História e Historiografia.

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