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terça-feira, 12 de agosto de 2014

O malcheiroso molho que Roma adorava



DIAS LOPES
 JADIASLOPES@GMAIL.COM

Questão de gosto. Os romanos gostavam de temperar a comida com um molho de peixe, conhecido pelo cheiro forte e sabor concentrado e picante.

Revelações preciosas sobre o garum, o molho de peixe que temperava a comida diária dos romanos, acabam de ser publicadas por uma autoridade em história da Roma Antiga. No livro Pompéia - O Dia-a-dia da Mítica Cidade Romana (Esfera dos Livros, Lisboa, 2010) a pesquisadora britânica Mary Beard mostra que a cidade do golfo de Nápoles, soterrada no ano 79 d.C. pelo vulcão Vesúvio, foi um importantíssimo centro de preparação e comércio daquele produto.

Os romanos o apreciavam, apesar do cheiro forte, do sabor concentrado e picante, da fama desabonadora com a qual chegou até nós. O escritor latino Plínio, o Velho, que por coincidência morreu sufocado pelo Vesúvio, tentando salvar vítimas da catástrofe, qualificou-o de "líquido de peixe podre". Mary Bread tem informações substanciosas sobre a família de Aulo Umbrício Escauro, um produtor e comerciante de garum, de Pompéia, que enriqueceu graças à atividade.

Os romanos despejavam o molho em tudo. A difusão do livro do gastrônomo latino Marco Gavio Apício, De re coquinaria, fez com que a posteridade o considerasse romano. Estudiosos contemporâneos, porém, acreditam que o molho foi inventado pelos fenícios, a partir de influência asiática. Eles realmente o preparavam em uma da suas colônias, a cidade de Cádiz, no sul da Espanha.

A arqueóloga italiana Eugenia Salza Prina Ricotti, no livro Ricette della Cucina Romana a Pompei - e Come Eseguirle (L’Erma di Pretschneider, Roma, 1993) vê semelhanças entre o garum e o molho vietnamita nuoc nam e o tailandês nam pla. Os molhos de peixe ainda são populares no Sudeste Asiático.

Outros autores lembram que os gregos já apreciavam o garum e o introduziram na cozinha dos povos helenizados. Teriam sido eles os transmissores da receita aos romanos. A designação do molho viria de garon, nome grego de um peixe utilizado no seu preparo.

Certos detalhes do garum dos romanos permanecem desconhecidos, até porque as receitas, além de imprecisas, variavam bastante. O produto de melhor qualidade era feito à base de peixe caro e, alcançando preço alto, tornava-se objeto de contrabando. De modo geral, elaborava-se o molho em vasos de cerâmica. Acrescentava-se um ou muitos peixes, sempre com o sangue e as vísceras, ou vários frutos do mar. A seguir, colocava-se sal, temperos e se deixava fermentar e apodrecer ao sol durante meses. Algumas receitas levavam vinho; outras azeite ou água do mar. Resultavam diferentes tipos de molho.

O primeiro líquido a emergir da fermentação era o garum. Após a filtragem, estava pronto para o consumo. O líquido do fundo se chamava allec. Também se destinava à culinária, apesar do prestígio menor.

Mary Beard conta que Escauro trabalhava junto com a família. Elaborava e vendia vários tipos de molho. Descobre-se isso lendo as inscrições nas ânforas que o vulcão não quebrou. "O melhor molho de peixe", anuncia uma delas, obviamente em latim. "Também (as inscrições) chamam a atenção das versões (do garum) só de cavala, que eram as mais apreciadas pelos connaisseurs desta iguaria", diz Mary Beard. Segundo ela, como o molho exalava mau cheiro durante a feitura, preparavam-no junto à costa, em vasos enormes de cerâmica.

A loja da cidade fazia a distribuição, guardando-o em seis enormes dolia (vasilhas de barro) e colocando-o em recipientes menores na hora de vender. Mary Beard descreve Escauro como um vitorioso novo rico. "Em meados do século I (...), seu filho com o mesmo nome havia alcançado um dos postos mais elevados do governo da cidade, como um dos dois duoviri anuais", escreveu ela. Foi salto prodigioso. Os duoviri ou duumviri eram importantes magistrados da Roma Antiga. Eleitos em dupla, supervisionavam os negócios públicos, interferiam em delicadas questões administrativas e políticas. Nada desprezível para uma pessoa que subiu na vida à custa de "líquido de peixe podre".
Jornal O Estado de S. Paulo

O manual de campanha eleitoral da Roma Antiga


Maria Cristina Fernandes

Do Valor

Como ganhar uma eleição
Por Maria Cristina Fernandes

O título é o nome de um livrinho escrito 64 anos antes de Cristo. É de grande utilidade na temporada eleitoral que se inicia. Políticos, marqueteiros e estrategistas de campanha sempre se serviram dele. Por razões inversas, o texto também pode ser de grande serventia para o eleitor.

Sua leitura é especialmente esclarecedora para saudosistas de um tempo que nunca existiu. Os conselhos de Quinto Túlio Cícero mostram que política nunca se escreveu com 'p' maiúsculo. Talvez porque seja feita por gente. Sem conhecê-la, o eleitor se torna presa fácil do discurso de que só os bem-aventurados são capazes de fazer a política maiúscula, aquela da mitologia.

O autor é o irmão mais novo de Marco Túlio Cícero, um advogado de 42 anos com ambição de se tornar cônsul, o mais alto posto da república romana. Descendem de um rico comerciante do sul de Roma que mandou os filhos estudar filosofia e oratória na Grécia.

Marco Túlio torna-se um grande orador nos tribunais mas, para chegar a cônsul, precisa enfrentar as resistências da aristocracia fornecedora de dirigentes da república. Quinto manda seu irmão repetir para si mesmo: "Sou um 'outsider'. Quero ser cônsul. Esta é Roma".

O voto era direto, secreto e masculino, mas o sistema eleitoral conferia mais peso aos nobres. "Nunca deixe que o tomem por um populista", diz Quinto Túlio ao traçar a estratégia de aproximação do irmão com a aristocracia. Deveria ficar claro para os nobres que todo movimento em direção ao povo se devia a tática eleitoral.

Marco Túlio não deveria se deixar intimidar pelos concorrentes de sangue azul. Um tinha tido a propriedade confiscada por dívida e comprara uma escrava para lhe prestar serviços sexuais. Outro matara o cunhado, molestava jovens garotos e corrompia juízes nos tribunais. Essas questões não precisam ser explicitadas mas os adversários devem saber que são conhecidas. Estava lançado aí o primeiro tijolo das fábricas de dossiês.

Esta é a primeira parte da campanha. Em que o candidato se assenhora de sua ambição e se torna amigo dos mais aquinhoados de dinheiro e poder para não ser por eles barrado. Numa disputa eleitoral, diz Quinto, há duas tarefas: assegurar o apoio de seus amigos e ganhar o do público: "Você ganhará o dos amigos com gentilezas, favores, conexões, disponibilidade e charme".

Marco Túlio Cícero deve lhes dizer nunca lhes ter pedido nada antes e que chegara a hora de fazê-lo. "Faça-os saber que se você ganhar a eleição agora você estará em dívida com eles".

O irmão não deve filtrar aliados pelo caráter. Numa campanha, diz o irmão, você não deve ter vergonha de cultivar amigos com gente de quem nenhuma pessoa decente se aproximaria - "Você será um tolo se não o fizer". Nasciam as diretrizes das megacoalizões eleitorais.

A segunda parte da campanha deve tratar de ganhar o povo. O primeiro passo é conhecer as pessoas pelo nome. Num eleitorado de 141 milhões a tarefa é em parte feita pela propaganda na TV. Gente do povo é escolhida a dedo para representar na TV segmentos do eleitorado com quem o candidato deve mostrar intimidade.

Chamar os eleitores pelo nome não basta. Eles precisam saber o que vão ganhar com sua eleição. Por isso, Quinto diz que o irmão não deve ter o pudor de prometer, ainda que mais tarde seja necessário convencer os eleitores de que não foi possível cumprir o prometido.

O mais prudente, diz Quinto, é ser vago em relação às promessas. Dizer aos nobres que manterá seus privilégios, aos empresários que assegurará a estabilidade de seus negócios e ao povo que sempre esteve e estará ao seu lado. "A parte mais importante da campanha é levar esperança às pessoas e atrair seus bons augúrios", diz Quinto. Mas seu irmão deveria saber que não seria capaz de fazê-lo se confiasse facilmente nas pessoas. "A política é cheia de falsidade, deslealdade e traições".

Marco Túlio Cícero elegeu-se cônsul. Durante seu governo, um dos adversários derrotados conspirou para derrotá-lo. Cícero desbaratou a conspiração e persuadiu o Senado a declarar guerra ao adversário. Quinto foi eleito para o mais alto cargo da magistratura, cargo que só perdia para o de cônsul, em poder e prestígio. Depois foi governador na província romana que se tornaria a Turquia. Os irmãos Cícero tinham dominado os códigos para conquistar e exercer o poder na república romana, mas não sobreviveriam à guerra civil que daria início ao Império. No ano 43 A.C. seriam assassinados.
http://jornalggn.com.br/

Manual do Candidato às Eleições: Marketing político existe há 2 mil anos



Manual da Roma antiga ensinava a candidato como se comportar para ganhar votos

Felipe Van Deursen

“Você deve constituir amizades de todos os tipos: nomes ilustres, os quais conferem prestígio ao candidato; magistrados, para garantir a proteção da lei. (...) Isso requer conhecer as pessoas de nome, usar de certa bajulação.” Tá, parece, mas não é uma cartilha encontrada nas coisas de um dos mais de 19 mil candidatos às eleições deste ano.

Trata-se de um trecho do Manual do Candidato às Eleições, escrito em 64 a.C. em Roma, por Quinto Túlio Cícero. O autor preparou o manual (Commentariolus Petitionis, no original em latim) para seu irmão, Marco Túlio Cícero, ilustre orador e político que naquele ano se candidatava ao posto máximo da República romana: o de cônsul. O manual, embora curto, tinha conselhos valiosos para Cícero conseguir ser eleito. Fortalecer amizades já existentes e conquistar novas, cobrar favores prestados a quem pudesse ajudar na campanha, decorar o maior número de nomes possível, sorrir para todos, ser generoso, fazer promessas mesmo sabendo que não cumpriria todas, pedir votos na rua, estar sempre cercado de multidões, falar a língua do povo e tornar públicos os podres dos adversários.

“Em Roma, onde havia poder havia corrupção”, afirma Laura Silveira, especialista no assunto e doutoranda em Letras na Universidade Federal do Rio de Janeiro. “E naquela época da República, como era preciso conquistar todos os setores representados no Senado, as dicas eleitoreiras do manual deveriam ser de grande utilidade.” E foram: Marco Túlio Cícero acabou eleito.


Você Sabia
2006? Não: era 64 a.C.
Podres do passado foram explorados na campanha
Felipe Van Deursen

A eleição em 64 a.C. e o mandato de Marco Túlio Cícero no consulado foram marcados por desavenças políticas, golpes baixos, acusações e grandes discursos. Embora o manual tenha ajudado, Cícero não precisou de muito esforço para ser eleito. Seus maiores rivais, Antônio e Catilina, eram homens de passados condenáveis. Quinto Túlio sugeriu explorar isso (“Ambos desde a juventude assassinos, ambos libertinos”, escreveu). Por isso, mesmo não sendo aristocrata, Cícero tinha a confiança da elite.Antônio também foi eleito (eram duas cadeiras de cônsul, com votações anuais) e reconciliou-se com Cícero. Catilina, no entanto, candidatou-se de novo, perdeu e conspirou contra Cícero, sem sucesso. Liderou um exército revolucionário e acabou morto, em 62 a.C. O cônsul condenou à morte os membros da conjuração, mas foi exilado por abuso de poder. Vinte anos depois, o triunvirato formado por Caio Otávio, Marco Antônio e Lépido afastou os irmãos Cícero da política. Os dois foram mortos.


Falam por si
Alguns trechos do manual

Imagem é tudo

“Apesar de os dons naturais valerem muito, (...) um perfil bem forjado pode falar mais alto que a natureza.”

Promessas

“Se você promete (o que o eleitor pede), essa raiva é incerta, futura e se instala em bem poucos. Mas se você nega, provoca irritação no ato e em muitos.”

Rabo preso“Não quero que você ostente isso (a corrupção dos adversários) diante deles de maneira a parecer que já planeja uma acusação, e sim que, pelo simples medo disso, você consiga com facilidade aquilo que busca.”
Revista Aventuras na História

terça-feira, 20 de maio de 2014

Império Romano


Carlos Eduardo Matos
Jornalista e editor de livros didáticos e paradidáticos.
A formação do Império Romano se deu em consequência de muitas ações militares. Foi o militarismo que edificou o império e que também possibilitou muito desse intercâmbio cultural.

Os soldados lutavam em falanges (eles se organizavam em uma formação retangular, em fileiras, e lutavam com longas lanças). Já no século IV a.C., foi adotado um modelo mais flexível, chamado legião manipular. Neste modelo, os soldados se organizavam em três fileiras de infantaria, cada uma com blocos de tropas (manípulos, ou "punhados") com espaços entre si, o que lhes permitia manobrar independentemente do conjunto da linha de batalha. Os soldados mais novos ficavam na primeira linha e os mais experientes, na última.

Outra reforma importante do militarismo romano ocorreu em 100 a.C., com a divisão da legião manipular em dez coortes (uma espécie de milícia) de 480 homens cada. Esses grupos eram equipados com as armas como o pilum (um dardo de arremesso) e o gládio (uma espada curta de lâmina dupla). Além disso, as fileiras de soldados foram abertas aos cidadãos sem recursos, que puderam tornar-se “soldados profissionais”.

Durante a Primeira Guerra Púnica (264 a.C.-241 a.C.), Roma e Cartago, cidade-estado fenícia, disputaram o controle do Mediterrâneo Ocidental. Para enfrentar Cartago nesta guerra naval, os romanos construíram navios com base em uma embarcação cartaginesa capturada. Com a vitória neste conflito, e também na Segunda e na Terceira Guerra Púnica (218 a.C.- 202 a.C. e 149 a.C.-146 a.C. respectivamente), Roma acelerou sua expansão, tornando-se senhora de toda a orla do Mediterrâneo.

As conquistas romanas, intensificadas entre os séculos 3 a.C. e o início da era cristã, fizeram com que o Império acumulasse tesouros e escravos. Questione, então, a turma, quais foram as consequências disso? Com a produção realizada por escravos, as massas pobres de Roma foram apaziguadas pela distribuição gratuita de alimentos. Também ocorreram rebeliões de escravos no império. Entre 135 a.C. e 104 a.C. ocorreram na Sicília a primeira e a segunda Guerras Servis. Em 73 a.C. teve início a terceira Guerra Servil, revolta liderada pelo gladiador Espártaco e esmagada em 71 a.C.

No século 2 da era cristã, quando o afluxo de tesouros e escravos aos poucos diminuiu, a economia da porção ocidental do Império Romano mergulhou em uma crise profunda, enquanto a da parte oriental, mais diversificada, teve melhores condições de sobrevivência. Diante dessa diferenciação crescente, o então imperador Diocleciano nomeou imperadores (augustos) e imperadores auxiliares (césares) para o Ocidente e o Oriente por volta do ano 300; o imperador Constantino fundou Constantinopla, a “Nova Roma”, em 330, fazendo dessa cidade do Oriente a sede do poder imperial, e no governo de Teodósio (morto em 395) o território foi dividido entre o Império Romano do Ocidente e o Império Romano do Oriente.
No âmbito religioso, os romanos absorveram influências dos etruscos (povos que viviam na península Itálica), dos egípcios e da cultura grega – que resultou na magnífica mitologia greco-romana. O ingresso de deuses e deusas “estrangeiros” no panteão romano prosseguiu na fase republicana e no período imperial.

Íris era reverenciada como "Rainha do céu" e, muitas vezes, era representada tendo nos braços o filho Hórus, ainda bebê. Quanto a Mitra, o deus dos soldados, as lendas dizem que era filho de uma virgem e que nasceu no dia 25 de dezembro, em uma gruta. Diz-se que uma estrela anunciou seu nascimento e que pastores foram os primeiros a homenageá-lo.
Revista Nova Escola

sábado, 9 de março de 2013

Império Romano: fronteiras do passado

As muralhas nas divisas foram o início do fim de Roma
Andrew Curry


Este arco assombrava os visitantes da cidade de Thamugadi, fundada pelo imperador Trajano, por volta de 100 d.C., como um povoado civil de apoio ao forte de Lambaesis. As marcas deixadas pelas rodas de carroças e carruagens continuam visíveis nas pedras da estrada
 

 Criado para ser um forte, Corbridge tornou-se depois um povoado civil que contribuía para o suprimento das tropas que guardavam o Muro de Adriano. Hoje as ruínas da glória romana servem de local de brincadeira para Angus Bruchanan, de 8 anos


 Construído ao redor de 300 d.C., este posto de cavalaria à borda do deserto é um dos fortes romanos mais bem preservados no mundo. Abrigando entre 70 e 160 cavaleiros, impedia que nômades árabes atacassem os comboios carregados de incenso e mirra

 Este fragmento de uma vasilha de vidro pintada a mão foi achado perto do Muro de Adriano, em dois pedaços. O objeto foi produzido em uma vidraria na Alemanha e é indício das trocas generalizadas


 A cabeça de dragão levada à batalha na ponta de um mastro e complementada com um corpo de pano


Os soldados romanos entravam em combate equipados com escuro, lança para ser arremessada a curta distância e pequena espada para estocadas e cutiladas, como se pdoe ver neste pedestal encontrado em Mainz, na Alemanha

 Por todo império, Roma impôs sua concepção de ordem. O povoado de Thamugadi foi construído segundo um plano reticular, e tinha mercado, portas cerimônia, mais de uma dúzia de termas, biblioteca e teatro com capacidade para 3.500 pessoas


 Para supervisionar a construção de cidades e fortificações, Adriano esteve em viagem mais da metade dos 21 anos em que comandou Roma. Aqui ele aparece montado e com o braço estendido diante das guarnições que vigiavam a fronteira germânica por volta de 121 d.C.


 Restam poucas pedra do alicerce das 800 torres de observação construídas por soldados romanos ao longo dos 550 quilômetros de fronteira entre os rios Reno e Danúbio


 Uma máscara de ferro, revestida de bronze e prata, descoberta na Holanda, ficava presa ao capacete do cavaleiro por uma dobradiça. Era usada em desfiles - e talvez em combates também

 Era assim que os bárbaros viam este trecho da muralha, que se estende sobre um rochedo perto do vilarejo setentrional de Once Brewed. Ao ser concluído, o muro media 4,5 metros de altura e tinha, de uma costa a outra, 118 quilômetros de extensão

 National Geographic Brasil

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Existe alguma diferença na forma como os escravos eram tratados na Grécia e Roma antigas?



Ronaldo Nunes

Há diferenças, sim, mas também semelhanças. Desde o início das civilizações grega e romana, a prática da escravidão era comum - em Roma, a partir do século 8 a.C. e, na Grécia, desde a civilização micênica (1500-1200 a.C.). Nos dois casos, um homem podia se tornar escravo por ter contraído dívida sem honrá-la. Era possível, ainda, passar a essa condição por ter sido vencido na guerra. Nesse caso, a vida do inimigo era poupada para que ele fosse conservado como escravo (daí a palavra latina servus). O comércio ocorria em grandes mercados, regulado por leis que previam o direito do cativo de comprar sua liberdade de volta por meio do acúmulo de um pecúlio. Isso era incomum para os escravos do campo, mas uma opção mais realista para os que viviam nas cidades e faziam biscates. Na Grécia, era rara a libertação de um escravo e o liberto não tinha direitos. Seus descendentes continuavam escravos, e as chances de alforria eram restritas. Já em Roma, era comum que escravos urbanos fossem alforriados, e seus filhos, considerados livres. Os libertos adquiriam a cidadania romana. Outra diferença: entre os romanos, os libertos passavam a ser tratados como parentes do seu antigo dono, herdando, inclusive, seu nome de família. Em duas gerações, não havia mais distinção entre os antigos donos e os descendentes de escravos. Nas duas sociedades, havia punições e maus-tratos: eles podiam ser mantidos acorrentados, marcados a ferro, sofrer mutilações e ser condenados à morte.
Revista Nova Escola

terça-feira, 31 de julho de 2012

Igreja e Império Romano


entre Igreja e Império Romano
Historiador entende que a aproximação
entre as partes se deu fundamentalmente
por iniciativa de clérigos

Em dissertação de mestrado apresentada ao Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, o historiador Robson Murilo Della Torre propõe uma nova leitura dos documentos que tratam da relação entre Igreja e Império Romano durante o principado de Constantino (início do século IV), o primeiro imperador a se declarar publicamente cristão. Ao contrário do que frequentemente registram os pesquisadores do tema, o autor do trabalho considera que a aproximação entre as partes teria se dado muito mais pela ação dos bispos, preocupados em defender e ampliar direitos e benefícios das comunidades cristãs, do que pela iniciativa da corte imperial, eventualmente interessada em obter vantagens com a possível submissão dos fiéis às suas políticas. O trabalho foi orientado pela professora Neri de Barros Almeida.
Della Torre conta que começou a trabalhar com a temática ainda na iniciação científica. Na graduação, durante a leitura dos documentos, um aspecto chamou a atenção dele. Vários autores partiam da concepção de que o Império teria cooptado a Igreja, para que esta lhe servisse de instrumento ideológico. “A partir do contato com esses textos, considerei que a relação entre Império e Igreja merecia ser analisada não tanto a partir dos interesses da corte, mas sim dos clérigos. Temos vários indícios na documentação, principalmente nos escritos do bispo palestino Eusébio de Cesaréia, nos quais meu trabalho se baseou, de que os representantes da Igreja se dirigiam com certa frequência ao imperador para pedir a concessão de benefícios ou a ratificação de direitos ancestrais da Igreja, que não estavam consolidados no direito romano”, afirma.
Entre os benefícios pleiteados pelos religiosos estavam, por exemplo, a obtenção de isenções fiscais, de privilégios jurídicos e de recursos financeiros para a construção de templos. “Esse tipo de relação, vale registrar, antecede Constantino. Já é possível identificar o movimento de aproximação entre Igreja e Império desde meados do século III. Em 270, por exemplo, um bispo pediu ao imperador Aureliano que este revertesse a decisão conciliar que o havia afastado da igreja de Antioquia, no que foi atendido. O dado interessante é que o referido imperador, além de pagão, determinou mais tarde uma perseguição aos cristãos, que acabou fracassada, uma vez que ele morreu antes do início das ações”, relata.
O principado de Constantino, conforme o autor da dissertação, é emblemático no que se refere à análise da relação entre Igreja e Império justamente porque o imperador foi o primeiro a se declarar cristão. “Durante o período em que ele esteve no poder, porém, não ocorreu uma ruptura com um suposto passado idílico no qual os cristãos teriam rejeitado todo e qualquer contato com os poderes constituídos, mas sim o ápice de um processo que já vinha em curso, principalmente por iniciativa clerical”, defende Della Torre. Com Constantino, prossegue o historiador, ocorre uma maior abertura aos cristãos. Cria-se, por exemplo, um novo corpus legislativo para tratar de ações da Igreja. “É importante notar que essa abertura seria em vão se não houvesse o interesse da Igreja em participar e se não houvesse esse histórico de busca pelo poder imperial para defender seus interesses”, insiste.
De acordo com Della Torre, Constantino também foi o primeiro imperador a isentar os clérigos de obrigações civis, como prestar serviços públicos. A justificativa apresentada por ele era de que os religiosos não precisavam deixar suas obrigações com Deus para cumprir tais tarefas. A despeito de as comunidades cristãs terem conquistado inúmeras vantagens junto ao poder imperial no período considerado, a relação entre as instituições nem sempre era tranquila, como assinala o autor da dissertação. No final do século IV e início do V, a negociação entre as partes, dependendo do tema em questão, era bastante espinhosa. Um exemplo nesse sentido era confisco dos templos pagãos, que em alguns casos eram revertidos para a Igreja. “O Império tinha dificuldade de atender a esse tipo de interesse dos clérigos porque os pagãos eram súditos como quaisquer outros. Eles pagavam seus impostos e não ofereciam problema ao poder constituído. No começo do século V, o imperador Arcádio se negou a atender esse tipo de pedido, justificando que a medida poderia gerar tumulto, uma vez que os pagãos cumpriram seus deveres normalmente”, explica Della Torre.
Ainda segundo a leitura proposta pelo pesquisador, embora a aproximação entre Igreja e Império tenha se dado fundamentalmente por iniciativa da primeira, o segundo também auferia vantagens com essa relação. A principal delas, no entender de Della Torre, era o fato de os clérigos não provocarem tumulto, dado que tinham poder para isso. “Na época, não era raro as facções eclesiásticas digladiarem entre si, o que perturbava a ordem pública. Há um episódio ocorrido em Roma, em 366, no qual dois candidatos ao episcopado se enfrentaram no interior de uma igreja. Segundo os relatos de um autor pagão, o resultado do confronto foi a morte de 3mil pessoas. Ou seja, o Império tinha todo o interesse de que esses acontecimentos não se repetissem. Em outras palavras, o poder imperial esperava que a Igreja adotasse uma posição conciliadora e não trouxesse problemas”.
Na opinião de Della Torre, ao lançar o olhar para os acontecimentos do século IV, é possível compreender melhor as questões de hoje. “Penso que um ponto importante do trabalho é justamente pensar como as igrejas já lidaram de modo diferente com o poder secular. Atualmente, a relação das igrejas com as diferentes esferas de governo se dá de forma direta, entre bispos, padres e pastores e as autoridades constituídas. Há uma defesa de interesses muito particular. Eu não vejo, como ocorria no século IV, as igrejas mobilizando fiéis para fazer valer os interesses da comunidade. Exceto no caso da última eleição presidencial, em que o tema do aborto deu o tom dos debates e obrigou as igrejas a se manifestarem publicamente a respeito, a relação entre as partes se dá de modo mais restrito”, considera. De certa forma, continua o historiador, esse novo modelo de relacionamento advém do movimento reformista cristão, que estabeleceu uma clara divisão entre Igreja e Estado, o que não havia no século IV.
A pesquisa desenvolvida por Della Torre, como já mencionado, foi baseada fundamentalmente nas obras de Eusébio de Cesaréia, que produziu vários textos sobre o imperador Constantino. “Tentei relacionar essas obras com a produção literária mais ampla de Eusébio. Além disso, também usei documentos que me permitissem confrontar ou ampliar o que ele registrou, como os escritos de historiadores eclesiásticos do século V. Por fim, utilizei ainda tratados teológicos e textos de autores pagãos, bem como breviários dos século IV”, elenca o autor da dissertação.
O trabalho acadêmico, assinala Della Torre, está vinculado ao grupo de pesquisa do Laboratório de Estudos Medievais (Leme), que envolve, além da Unicamp, USP, Unifesp e UFMG. “A atuação do grupo é muito importante porque congrega outros estudos relativos a essa temática. Tenho colegas pensando a relação entre Igreja e Império a partir de outras perspectivas”, observa o historiador, que contou com bolsas concedidas em períodos distintos pelo Conselho de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
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■ Publicações
Dissertação: “A atuação pública dos bispos no principado de Constantino: as transformações ocorridas no Império e na Igreja no início do século IV através dos textos de Eusébio de Cesaréia”
Autor: Robson Murilo Della Torre
Orientadora: Neri de Barros Almeida
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)
Financiamento: CNPq e Fapesp
Jornal UNICAMP

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Notícias História Viva


Arqueólogos encontram cemitério para pobres da Roma antiga

O complexo funerário simples, data do 1° ou do 2° século d.C., quando o Império encontrava-se em seu auge

DEE - REUTERS
Arqueólogos descobriram um cemitério de quase 2.000 anos de idade na periferia de Roma, um local que oferece um raro retrato da vida dos trabalhadores pobres da era romana.
O complexo funerário simples, que data do 1° ou do 2° século d.C., quando o Império Romano encontrava-se em seu auge, contém cerca de 320 tumbas com restos mortais bem preservados e artefatos como lamparinas e jóias colocados ali para acompanhar os mortos em sua vida no além.
Os arqueólogos descreveram como significativo o local porque oferece um painel das crenças e dos hábitos de um dos setores mais pobres da sociedade romana -- os trabalhadores ou escravos que provavelmente carregavam mercadorias em um porto próximo.
"O aspecto predominante aqui não é a recuperação de artefatos, mas a possibilidade de aprendermos sobre a vida cotidiana de uma pequena amostra dos cidadãos dos níveis mais baixos da sociedade durante o Império Romano", afirmou Angelo Bottini, arqueólogo-chefe de Roma.
"Isso fornece um retrato bastante concreto sobre como as pessoas viveram e sobre suas crenças religiosas", disse Bottini em uma entrevista coletiva realizada para anunciar a descoberta.
Os restos mortais encontrados pertenciam em sua grande maioria a indivíduos do sexo masculino e apresentavam as marcas de uma atividade laboral extenuante e realizada em um ambiente úmido, o que sugeria se tratar de empregados de um porto.
Algumas das tumbas também continham os restos mortais de crianças que usavam ou seguravam colares, supostamente para afastar maus espíritos.
Anéis de bronze, brincos de ouro e um impressionante colar feito com pequenas imagens e pedaços de âmbar contavam-se entre os ornamentos descobertos nas tumbas de crianças, disseram os arqueólogos.
Um dos achados mais impressionantes eram os restos mortais de um homem adulto com uma rara doença congênita que o impossibilitava de abrir a boca -- significando que não poderia ter se alimentado sem a ajuda de outros.
"Antigamente, as pessoas não tinham uma atitude positiva em relação às anormalidades. E tendiam a vê-las de forma muito negativa", disse Bottini. "No entanto, aqui temos uma situação que é totalmente oposta a um comportamento do tipo -- uma pessoa que apresenta um problema grave, mas que teve a ajuda de outros, conseguindo sobreviver."
Os arqueólogos começaram a pesquisar a área perto do aeroporto Fiumicino, em Roma, mais de um ano atrás, depois de terem sido avisados pela polícia sobre a realização de escavações ilegais ali.      09 de junho de 2008

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Últimos suspiros da República romana

PALAZZO MADAMA, ROMA

O filósofo contra o corrupto: Cícero acusa Catilina de planejar uma conspiração contra o Senado/Cícero denuncia Catilina, afresco, Cesare Maccari, 1882-1888


Consideradas um símbolo da vitória da moral sobre a corrupção na vida pública, as Catilinárias de Cícero registram o derradeiro triunfo do regime aristocrático na Roma antiga

Em 63 a.C., Marco Túlio Cícero, o maior filósofo romano de todos os tempos, ocupava o posto de cônsul, cargo máximo do Senado, quando descobriu que um de seus colegas organizava uma conspiração para assassiná-lo. O mentor do complô era o senador Lúcio Catilina, nobre arruinado por dívidas que contava com o apoio de outros homens ricos e militares igualmente debilitados financeiramente para tomar o poder.

Ao se inteirar dos planos de seu adversário, Cícero convocou uma reunião do Senado e proferiu o primeiro de seus quatro célebres discursos contra Catilina, que ficariam conhecidos como Catilinárias. A intervenção de Cícero se tornou um clássico da política e passou a ser invocada ao longo dos últimos 2 mil anos sempre que um homem público atenta contra o interesse geral da população.

Tomadas como um exemplo de correção no exercício do poder público, as Catilinárias revelam, na verdade, um momento muito específico da história de Roma: aquele em que a República aristocrática lutava para resistir às investidas de generais e políticos amparados por um poder militar cada vez maior.

Por fim, Cícero conseguiu sufocar a revolta de Catilina e deu uma sobrevida de mais alguns anos à República romana. O regime, porém, seria finalmente ferido de morte quando Júlio César cruzou o rio Rubicão e invadiu a península Itálica com suas legiões em 49 a.C.

Trechos do discurso
“Até quando, enfim, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda este teu rancor nos enganará? Até que ponto a tua audácia desenfreada se gabará?” (Livro I, cap. I)

“Agora [tu, Catilina] já atacas abertamente toda a República; chamas para o extermínio e para a devastação os templos dos deuses imortais, as casas da cidade, e a vida de todos os cidadãos, enfim, a Itália inteira.” (Livro I, cap. V)

“Efetivamente nenhuma nação existe que temamos; nenhum rei há que possa fazer a guerra ao povo romano. Todas as coisas externas estão pacificadas (...) resta só a guerra doméstica.” (Livro II, cap. V)

Revista História Viva

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Encontro de Átila e o papa Leão I, o Grande


Obra do século XVIII, de Francesco Solimena (1657-1747), mostra o encontro de Átila e o papa Leão I, o Grande.

A intervenção do pontifíce foi decisiva para preservar Roma.
(Pinacoteca di Brera, Milão, Roma)

sábado, 8 de outubro de 2011

A VIDA NA ROMA ANTIGA


Para se viver em Roma, no tempo de Augusto, era preciso ter coragem, muita coragem. Uma pessoa nervosa não resistiria aos abalos a que o cidadão romano estava sujeito. Os terremotos frequentemente sacudiam a cidade. O Tibre, periodicamente, subia, inundava, submergindo casas e arrastando homens e animais. Os incendios constantes destruiam quarteirões inteiros. E, para completar a lista das calamidades romanas, existia o permanente perigo dos desabamentos de casas.
Havia tambem outros riscos, e não menores, como, por exemplo, caminhar altas horas da noite pelas vielas escuras e desertas. Podia-se topar com os facinoras que agiam protegidos pelas trevas, ser roubado e sucumbir com um punhal atravessado à garganta. Podia-se, igualmente, encontrar um filho-de-papai rico, de regresso da orgia, ainda embriagado, com o seu bando de alegres rapazes, e precedido dos servos portadores de tochas e de lanternas. Aqui o perigo era ser vitima da brincadeira chamada sagatio, muito do gosto dos mocinhos grãfinos de então. Consistia o divertimento em agarrar o pacifico transeunte noturno, atirá-lo muitas vezes para o ar, aparando-o num manto seguro por todos. Os sustos e as emoções do pobre viandante, ora a subir como para o céu e ora a cair no manto, muito alegravam a rapaziada boemia de Roma, após as libações duma farra à maneira classica. Por essa desagradavel função de peteca passou Sancho Pança, como narra Cervantes no episodio da estalagem que D. Quixote tomou por um castelo. Cervantes não reproduz senão uma diversão já muito apreciada pelos moços afortunados da antiga Cidade Eterna. Outro perigo que o passante corria era receber o conteudo de vasos jogado de dentro das casas para as ruas, à noite.
A cidade de Roma pousava sobre barrancos e colinas. Formava-se, em geral, de ruas tortuosas e estreitas, atravancadas de quiosques. É certo que havia os belos palacios, monumentos magnificos, parques e bosques esplendidos, praças pontilhadas de estatuas de bronze, de marmore, templos e porticos ornados das mais raras obras de arte. Mas o panorama geral, a paisagem da cidade verdadeiramente do povo, mostrava um conjunto de vielas sinuosas escalando colinas, com o telhado das residencias fronteiras quase se tocando um no outro - espetaculo, em suma, nada empolgante.
As casas, altas, mal edificadas, não raro vinham abaixo, matando ou ferindo quem estivesse sob seu teto. Em toda casa se padecia do terror de morrer esmagado; as pessoas estavam sempre alertas, prontas para fugir ao menor estalo ou sinal de desmoronamento.
Os senhorios romanos eram homens de muita ganancia. Mandavam fazer casas, para alugar, com material de baixa qualidade e de pouco preço, não somente para obter maiores rendas, como tambem porque temiam empregar capital de vulto e perdê-lo inteiramente nos incendios, que ocorriam amiude. Manifestavam pouca estima pela vida dos inquilinos, porque as habitações, assim erguidas, não ofereciam nenhuma segurança.
Os pavimentos superiores das casas, bem como os telhados, eram de madeira, e as ruas estreitissimas. Isso tudo facilitava a propagação dos incendios, tão frequentes em Roma, alguns dos quais se tornaram celebres, como o que Nero mandou atear, carregando depois a culpa da hecatombe nos cristãos. E tanto foram os incendios que se acredita que o solo de Roma se ergueu com os escombros, sendo hoje mais alto.
Pelas ruas transitavam mascates, cargueiros e carros. Os mercadores gritavam os seus pregões, os almocreves berravam com os animais que conduziam. Nas oficinas rompiam as serras, batiam a bigorna nas numerosas ferrarias urbanas. Juntavam-se a isso o alarido duma multidão frenetica os gritos do poviléo disposto sempre aos tumultos, às algazarras. A cada passo o trafego se obstruia, dada a estreiteza das vias publicas; fugisse então quem tivesse ouvidos melindrosos, porque nas discussões que nasciam reboavam os palavrões mais asperos. Tal é o quadro duma rua populosa da Roma antiga.
Mas, o trafego de carroças somente era permitido à noite. Isso, acrescido das arruaças da soldadesca em folga e por vagabundos em grupos, prolongava o barulho pela noite a dentro, perturbando o sono dos pobres. Dizemos dos pobres, porque somente as casas pobres tinham quartos dando para as ruas. Nas residencias dos ricos, os dormitorios ficavam no interior dos edificios, ao abrigo do barulho noturno. Tambem aumentavam o desassossego noturno as serenatas que os apaixonados organizavam junto das casas de suas amadas. Diz-se que, tomados de paixão, não raro esses seresteiros, ajudados por amigos e parentes, ou unicamente por sua propria audacia, buscavam pela violencia penetrar nas casas e sequestrar as namoradas.
Escreve um autor que as ruas da Cidade Eterna, quando, afinal, o barulho esmorecia, assumiam um aspecto sinistro. Abundavam assaltantes; era mister que as portas fossem bem escoradas. Convinha, nessas horas lugubres, não sair de casa. Era o que faziam as pessoas prudentes.

Neste texto foi mantida a grafia original
Folha da Manhã, domingo, 26 de maio de 1946

domingo, 2 de outubro de 2011

Pesquisa revela uso de armas químicas contra romanos


Um pesquisador da Universidade de Leicester, na Inglaterra, diz ter identificado o que parece ser a mais antiga evidência arqueológica do uso de armas químicas.
Segundo o pesquisador Simon James, cerca de 20 soldados romanos, encontrados em um sítio na antiga cidade de Dura-Europos, localizada no atual território da Síria, foram mortos não devido a ferimentos de espada ou lança, mas sim por asfixia.

Os corpos de soldados romanos foram encontrados em escavações realizadas na década de 1930. Eles estavam em uma galeria estreita, com menos de 2 metros de altura e de largura e cerca de 11 metros de comprimento, e ainda portavam suas armas.

Ao realizar novas pesquisas no local, James buscou descobrir a maneira exata como esses soldados haviam morrido e seus corpos haviam sido dispostos da maneira em que foram encontrados.

James disse que pesquisas na galeria em que os corpos foram encontrados revelaram que os persas, em combate com os romanos, teriam usado betume e cristais de enxofre para incendiar o túnel.

De acordo com o cientista, quando incendiados esses materiais formam densas nuvens de gases sufocantes, o que teria provocado a morte dos soldados.

James apresentou suas descobertas em um encontro do Archaeological Institute of America (Instituto Arqueológico da América)

Cerco

Situada nas margens do rio Eufrates, Dura-Europos foi conquistada pelos romanos, que instalaram ali uma grande guarnição militar.

Por volta do ano 256, a cidade sofreu um cerco feroz do Exército do poderoso império Sassânida (dinastia que governava a Pérsia).

De acordo com pesquisadores, os sassânidas usaram todas as técnicas disponíveis para conquistar a cidade. Os cientistas dizem que foi usada inclusive a construção de minas para abrir brechas nas muralhas e que os romanos se defenderam com contraminas.

"Uma análise cuidadosa da disposição dos corpos mostra que eles foram amontoados na entrada da contramina pelos persas, que usaram suas vítimas para criar uma parede de corpos e escudos", disse James.

"(Os persas) deixaram o contra-ataque romano encurralado enquanto incendiavam a mina, fazendo com que desmoronasse, o que permitiu que continuassem tentando derrubar as muralhas", afirmou.

Segundo James, "isso explica por que os corpos estavam no local em que foram encontrados".

Estratégia

De acordo com o pesquisador, para conseguir matar 20 homens em um espaço como aquele, os persas precisariam de "poderes de combate super-humanos, ou algo mais insidioso".

"Os persas ouviram os romanos construindo seu túnel", disse James. "E prepararam uma terrível surpresa para eles."

"Acho que os sassânidas colocaram braseiros e foles na galeria, e quando os romanos entraram, (os sassânidas) colocaram os produtos químicos e lançaram as nuvens de gases para dentro do túnel dos romanos", afirmou o pesquisador.

"Os romanos ficaram inconscientes em segundos, e estavam mortos em poucos minutos."

Conforme James, o uso desse tipo de geradores de fumaça dentro de túneis é mencionado em alguns textos clássicos.

"Fica claro, com as evidências arqueológicas em Dura-Europos, que os persas sassânidas tinha tanto conhecimento de técnicas de guerra quanto os romanos. Eles certamente conheciam essa tática", disse.

Ironicamente, as minas persas não foram suficientes para derrubar as muralhas, mas os sassânidas acabaram entrando na cidade.

Os habitantes foram massacrados ou deportados para a Pérsia, e a cidade abandonada.
BBC BRASIL

sábado, 6 de agosto de 2011

Notícias História Viva

BBC
Esgoto de cidade soterrada revela segredos sobre Roma Antiga
Arqueólogos fazem descobertas sobre a vida dos moradores de cidade vizinha de Pompeia

Arqueólogos britânicos estão descobrindo como os romanos viviam há dois mil anos por meio de análises de excrementos encontrados sob uma cidade soterrada pelo Vesúvio.


Arqueólogos fazem descobertas sobre a vida dos moradores de cidade vizinha de Pompeia
As fezes e outros detritos foram retirados de um túnel com 86 metros de comprimento que pertencia ao sistema de esgotos da cidade de Herculano.

Vizinha de Pompeia, a cidade também foi coberta de lava após uma erupção do vulcão Vesúvio que soterrou assentamentos na costa oeste da Itália no ano 79 DC.

Os especialistas do Herculaneum Conservation Project acreditam que este seja o maior depósito de excrementos da Roma Antiga já encontrado.

As nove toneladas de detritos, contendo uma variedade de informações preciosas, foram armazenadas em 750 sacos e vêm sendo estudadas minuciosamente pela equipe.

Ao comparar os excrementos encontrados em diferentes pontos do túnel aos prédios localizados acima - como lojas e casas - os cientistas estão estabelecendo que tipo de alimento os moradores comiam e quais eram suas profissões.

A análise revelou, por exemplo, que os habitantes da Roma Antiga comiam muitos legumes e verduras.

Uma amostra também continha um alto índice de leucócitos (células do sistema imunológico humano), indício de infecção por uma bactéria - dizem os cientistas.

Os arqueólogos também encontraram no esgoto de Herculano artigos de cerâmica, uma lamparina, 60 moedas, contas de colar e um anel de ouro com uma pedra preciosa. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.
Jornal O Estadão

domingo, 17 de abril de 2011

A Alimentação dos Romanos

João Luís de Almeida Machado

Hábitos alimentares

Não era comum que os romanos fizessem grandes banquetes (a não ser entre os patrícios, a alta sociedade local, formada pelos descendentes dos fundadores da Cidade Eterna). Seu prato principal era um caldo ou sopa feito a base de trigo, painço ou alguma outra variedade de cereal. Às vezes eles adicionavam carne cozida, sobras de alimentos, ou um tempero feito a base de vinho.

Comida para as pessoas do povo eram feitas à base de centeio ou trigo, azeite de oliva, pequenos peixes, vinho, vegetais produzidos em hortas caseiras e, em alguns casos, até mesmo carne de bode, vaca ou galinha (da criação particular dessas pessoas), queijo e alguns ovos.

Imagem-de-romanos-carregando-vinhos
O vinho era parte essencial da alimentação na Antiguidade
Clássica, derivava entre os romanos da tradição gastronômica
dos colonizadores gregos que povoaram algumas áreas
do território da península Itálica durante o período da
Magna Grécia, época em que criaram colônias em várias
regiões que ficavam as margens do Mar Mediterrâneo.

A expansão territorial iniciada durante o período republicano e consolidada na época imperial fez com que os romanos tivessem acesso a uma enorme diversidade de alimentos próprios das províncias anexadas. Eles passaram então a utilizar, com maior freqüência as ervas e temperos importados para dar sabores diferenciados a seus alimentos e começaram a comer mais peixe e frutos do mar (lagostas, camarões, ostras,...).

As conquistas também permitiram que os vegetais se tornassem mais comuns no cotidiano dos romanos. As uvas e outras frutas foram agregadas as refeições, assim como, a variedade de vinhos tornou-se ainda maior.

Os romanos não dispunham de garfos para se alimentar, por isso, comiam com as mãos. Utilizavam facas (feitas de chifre de rena, alce ou cervo, madeira, bronze e com lâminas de ferro) para poder cortar as carnes. As colheres eram utilizadas para comer ovos, crustáceos ou mariscos e sopas.

João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

http://www.planetaeducacao.com.br

domingo, 20 de março de 2011

Teologia política no séc. IV d.C.: a relevância da Teurgia em Juliano, o Imperador


Daniel de Figueiredo

Sobre o autor[1]

Introdução

“Os bois brancos saúdam ao César Marco.

Se vencer de novo, estamos perdidos.”

(AMIANO, Historia, 25.4.16).

Nesta passagem de sua Res Gestae, Amiano Marcelino, considerado o maior historiador romano da Antigüidade, relata o gosto que o Imperador Juliano (361-363) nutria pelas práticas sacrificiais. Ao compará-lo ao Imperador Marco Aurélio (161-180), Amiano, de forma anedótica, sugere que se caso Juliano houvesse voltado vitorioso da batalha contras os persas, acontecimento que lhe custou a vida, faltariam bois para satisfazer a sua superstição.

Para o homem romano, manter-se fiel a sua religião era manter a sua confiança nos deuses. As classes cultas, como se verificou em ambos os imperadores-filósofos, diferenciavam-se das crenças populares através da a a a a a a a Paidéia[2], não obstante, conservavam as práticas rituais que a religião romana prescrevia. Esta religião se revelava pelo ritual do sacrifício. Não se fazia necessário dizer que se acreditava nos deuses, pois através da prática sacrificial ficava implícita a devoção neles.[3]

Os governos do Imperador Constantino e dos seus filhos, que antecederam ao principado de Juliano, foi um período marcado pelo desestímulo e até mesmo a proibição de tais rituais[4]. Quando Juliano é alçado ao posto de dirigente único do Império, uma das primeiras atitudes dele seria retomar tais práticas publicamente, visto que, segundo Amiano[5], desde criança ele se mantivera inclinado ao culto dos deuses.

A corrente filosófica neoplatônica, que juntamente com o cristianismo dominou a cena religiosa do final da Antigüidade, a qual Juliano era adepto, havia, já no século IV d.C., incorporado diversos elementos místicos orientais. Como um seguidor do filósofo Jâmblico, Juliano também era adepto dateurgia, cujas práticas postulavam, em grande medida, o uso dos ritos sacrificiais como forma de aproximação com o divino. Amiano Marcelino[6] chega mesmo a nos relatar os excessos de Juliano, cujos gastos despendidos com tais cerimônias eram enormes e nunca vistos no passado.

Assim, pretendemos através deste artigo analisar e explicar em que medida a adesão de Juliano a essa forma de concepção filosófica, o neoplatonismo associado às práticas teúrgicas, teria influenciado na maneira como ele a metamorfoseou em uma teologia política[7] em prol de balizar as suas ações como governante. Cabe ressaltar que este momento seria marcado pela apropriação de diversos elementos da Paidéia helênica pelos cristãos como forma de afirmar o seu discurso dentro do Império.

Tal perspectiva de análise se ampara na constatação da estreita relação que o poder político mantém com outros domínios da prática social[8]. O que observamos na Antigüidade Tardia romana, matéria do nosso campo de estudo, é uma interpenetração constante entre o político e o religioso, como se ações desenvolvidas nas esferas material e sensível reverberassem entre si.

Neste sentido é que buscaremos direcionar o nosso entendimento sobre as ações do imperador Juliano não como as de alguém que estivesse deslocado do seu tempo, de um primeiro renascentista, um romântico visionário ou um Dom Quixote lutando contra a “ordem natural das coisas”, maneiras como costumeiramente ele foi rotulado, mas como ações de alguém que agia em congruência com a sua realidade[9], num mundo que passava por intensas transformações em vários aspectos e que legaria grande parte das suas formulações culturais para os nossos dias.

Algumas considerações sobre o pensamento filosófico na Antigüidade Tardia.

A atuação do Imperador Juliano tem as suas raízes marcadas na sua própria formação clássica. Ela irá ocorrer dentro do fluído ambiente histórico-religioso que permeou as relações entre as correntes cristãs e não-cristãs dentro do Império romano tardio. Para entendermos a importância que o homem neoplatônico tardo-antigo dispensava aos rituais que envolviam a sua religião, buscaremos traçar uma breve análise de como o pensamento helênico se configurava no século IV d.C., a fim de demarcamos neste espaço as características apresentadas nas formulações ritualísticas presentes na teurgia.

Até o período helenístico e o princípio da conquista romana do mundo grego, as instituições filosóficas concentravam-se em sua maioria em Atenas. Como resultado do processo de expansão imperialista, primeiramente no período helenístico e posteriormente, a partir do séc. I a.C. com as conquistas romanas, o que se verifica é uma dispersão do ensino filosófico para diferentes cidades desses Impérios. As tendências doutrinais, neste momento, vinculavam-se a quatro grandes escolas: o platonismo, o aristotelismo, o estoicismo e o epicurismo. O ápice desse movimento irá se consagrar quando, em 176 d.C., o imperador Marco Aurélio funda quatro cátedras imperiais, nas quais seriam ministradas essas disciplinas. À parte isso, muitas escolas também seriam patrocinadas por professores particulares de filosofia em diversas cidades do Império.

Mais adiante, o que irá se verificar a partir dos séculos III e IV d.C. é um acentuado declínio dessas duas últimas correntes e o aparecimento do neoplatonismo que, de certa forma, correspondeu a uma conjugação de princípios aristotélicos e platônicos. A prática filosófica estava atrelada a um modo de vida, e o modo de vida que essa nova escola viria a adotar, cujos representantes maiores seriam Plotino e seu discípulo Porfírio, consistia nas máximas “viver segundo o espírito”, como na escola de Aristóteles, e “quem contempla deve se tornar semelhante ao que contempla”[10], conforme Platão. Também neste contexto assinalou-se o renascimento da tradição pitagórica, cujo gênero de vida prescrevia interditos alimentares, tabus, conselhos morais, definições teóricas e práticas rituais.[11]

Em síntese, esses princípios estavam dispostos em tratados como as Enéadas, de Plotino e Da abstinência, de Porfírio, que incorporando elementos dos pensamentos de Platão, Pitágoras e Aristóteles propuseram uma doutrina que prescrevia que a vida contemplativa implicava em uma vida ascética. Podemos constatar através de algumas passagens das Enéadas[12] que a união mística para Plotino é atingida não por meio de ritual ou de ações prescritas, mas através da disciplina interna da mente. Já seu discípulo Porfírio, embora se mantivesse fiel aos ensinamentos do seu mestre, possuía certa inclinação pela consulta aos oráculos. Foi através dele que os Oráculos caldaicos seriam retirados do ostracismo. Ele faria, também, algumas concessões ao uso da teurgia, mas advertindo que tal prática era perigosa e passível de bons e maus usos, negando, inclusive, que ela pudesse realizar um retorno da alma ao divino[13].

Quando analisado sob a ótica da longa duração, consideramos que a descentralização das escolas filosóficas rumo ao Oriente, aliado ao progressivo processo de abandono das doutrinas helenísticas de cunho racionalistas pelos filósofos da Antigüidade Tardia, como fatores que contribuíram para a adoção de elementos irracionais pelo neoplatonismo. Podemos observar, de forma geral, que as interferências diretas de agentes espirituais na vida dos indivíduos propiciou a mudança na concepção grega segundo a qual o exercício da razão seria capaz de penetrar na essência das coisas[14]. Dentre outras causas que propiciaram tais transformações, algumas correntes historiográficas das últimas décadas do século passado atribuem como relevantes as incertezas produzidas nos indivíduos pela crise econômica, política e social que o Império se vira mergulhado no século III d. C. Hidalgo de la Vega[15] conclui que esse fenômeno progressivo do pensamento filosófico e religioso aliado ao desenvolvimento social no período é que teria levado ao triunfo do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão. No que pese a relevância de tais interpretações para entendimento do período, somos levados a crer que a preponderância do discurso cristão se deveu pela apropriação de elementos da retórica helênica[16], tendo em vista a estreita aproximação entre as formas de pensar do homem tardo-antigo.

Nesta conjuntura é que irá ocorrer a transformação dos filósofos neoplatônicos, a partir de Jâmblico, em seres divinos com poderes taumatúrgicos propiciados pela prática da teurgia, que lhes permitia deixar este mundo para ascender ao Uno. Embora achemos de difícil precisão, o criador da teurgia, segundo afirma Eric R. Dodds[17], teria sido um mago que viveu nos tempos do Imperador Marco Aurélio, de nome Juliano, filho de um filósofo caldeu de mesmo nome e autor de uma obra sobre daemons[18]. Segundo sugere esse autor, Juliano, o filho, teria erigido suas doutrinas a partir dos Oráculos Caldeus, que foram escritos, provavelmente, e apresentados como uma revelação no século II d.C. Os neoplatônicos do período pós-plotiniano iriam considerar esses escritos como uma Escritura sagrada.

Para os neoplatônicos, o discurso filosófico estaria estreitamente ligado a práticas concretas e a um modo de vida. Mas, para Plotino, a vida segundo o espírito consistia em uma vida filosófica, isto é, na ascese e na experiência moral e mística. Para os neoplatônicos posteriores isso se torna muito diferente. Eles conservavam, sem dúvida, a prática filosófica da ascese e da virtude, mas consideravam igualmente importante ou mesmo, aparentemente no caso de Jâmblico mais importante ainda, o que eles denominaram prática teúrgica.

A palavra teurgia que aparece apenas no século II d.C.; parece ter sido criada pelo autor ou pelos autores dos Oráculos Caldeus, para designar ritos capazes de purificar a alma e seu “veículo imediato”, o corpo astral, a fim de permitir-lhes contemplar os deuses. Esses ritos comportavam abluções, sacrifícios e invocações que utilizavam palavras rituais freqüentemente incompreensíveis.

Aqueles autores acreditavam que o que diferenciava a teurgia da magia é que aquela não pretendia forçar os deuses, mas, ao contrário, submeter-se à vontade deles, efetuando ritos que supostamente eles próprios haviam fixados. Eram os deuses que tomavam a iniciativa e escolhiam os signos materiais necessários para atraí-los, permitindo, assim, o contato com o divino e a visão das suas formas. Pode-se explicar essa atitude pela representação que os neoplatônicos posteriores faziam do papel do homem em relação ao divino. Enquanto Plotino considerava que a alma humana estaria sempre em contato inconsciente com o Intelecto e o mundo espiritual, os neoplatônicos posteriores consideravam que a alma por ter-se encarnado no corpo humano teria a necessidade de passar por ritos materiais e sensíveis para poder voltar ao divino. Aqui podemos vislumbrar um traço análogo ao do cristianismo, segundo o qual é necessário ao homem, corrompido pelo pecado original, a mediação do Lógosencarnado e dos signos sensíveis, os sacramentos, para poder entrar em contato com Deus. Para os dois movimentos espirituais que dominaram a Antigüidade Tardia e que aparentemente opunham-se um ao outro, o neoplatonismo e o cristianismo, o homem não pode salvar-se por suas próprias forças. Ele tem necessidade da iniciativa divina[19].

As crenças e práticas comumente agrupadas como magia, feitiçaria, bruxaria, sortilégios são fenômenos universais na medida em que expressam a vontade humana de transcender o espaço da experiência cotidiana a fim de alcançar outras dimensões através de recursos sobrenaturais. Trata-se de instituições enraizadas na vida das sociedades humanas, não constituindo nada de excepcional. Segundo Marcel Mauss[20], “as noções religiosas, por serem objeto de crenças, existem; existem objetivamente, como fatos sociais”. Observa-se que tais práticas, através de palavras e gestos, permitem aos seus portadores intervir diretamente no curso dos acontecimentos ou antecipá-los mediante atos premonitórios[21].

Jâmblico, como discípulo de Plotino, postula uma explicação científica do universo tipicamente platônica. Tratava-se de uma teoria mística do ser supremo e das suas emanações. Ele enfatizaria a fato de que o teurgista pode, em seu grau mais elevado, ascender para a ordem dos anjos através da graça de deus, podendo, inclusive, participar do eterno processo de criação do cosmos. Contudo ele nunca poderia ser considerado acima e além do status dos deuses por natureza. Nisso resulta a insistente necessidade de Jâmblico de recorrer aos milagres e ao supernatural.[22]

Em seu tratado De mysteriis, Jâmblico afirmaria que apenas a atividade intelectual por ela própria seria insuficiente para o devoto estabelecer a união com o divino. Para ele, a fonte dessa união com os deuses é um esforço intelectual não humano e o culto ritual seria essencial até para o filósofo. Aceitava, por exemplo, que diferentes espécies de sacrifícios seriam apropriados a diferentes graus de divindades. Rejeitava, também, a noção de que os sacrifícios materiais, especialmente os de sangue, estariam destinados apenas a rebaixar os deuses[23]. Assim ele se expressa:

Conhecimento intelectual não conecta teurgistas com os deuses [...] ao invés disso, ele é a perfeita realização dos atos inefáveis, religiosamente realizados e, além de todo entendimento, ele é o poder dos símbolos inefáveis compreendidos apenas pelos deuses que estabelecem a união teúrgica [...] De fato, até se nós não estamos pensando, os símbolos, por si mesmos, pela sua própria vontade, realizam seu próprio trabalho; e o poder inefável dos deuses, para quem esses símbolos elevam-nos, reconhece por eles próprios suas imagens. E não são despertados, por isso, pelo nosso pensamento. (IAMBLICHUS, De mysteriis, II, 11).

Ao nosso critério, julgamos essas considerações relevantes por estarem presentes no pensamento do Juliano. Podemos perceber a forma efetiva como ele iria imprimir a sua marca e a influência do pensamento de Jâmblico na condução política do Império. Em resumo, para o helenismo, de Sócrates a Jâmblico, a verdade está no homem; se ele a esqueceu, pode reencontrá-la pelas suas próprias forças e conseguir identificar-se com ela ao contemplá-la[24]. Esse processo, em seu conjunto, estará expresso nos valores que o Imperador Juliano é representante do patrimônio antigo clássico aliado aos pensamentos de Plotino e seus seguidores.

As finalidades da prática teúrgica em Juliano.

Porém, no entanto, entre todos os príncipes não faltou um, sendo eu criança, segundo recordo, caudilho valente na guerra, bom legislador, fortíssimo por sua palavra e por seu poder, amante da pátria, porém despreocupado em relação à verdadeira religião; devoto de trezentos mil deuses, pérfido para com Deus, benemérito para com a cidade. (Prudêncio, Lib. Apotheosis, 449-454)[25]

A citação acima, em referência a Juliano, é de autoria do escritor cristão hispânico Prudêncio, nascido no ano de 344. Conquanto reprove as atitudes do Imperador como homem religioso, não deixa de destacar as suas virtudes como homem de governo. Mas a memória que ficaria mais comumente registrada de Juliano seria aquela construída pelos polemistas cristãos empenhados que estavam na construção de uma hierarquia religiosa que em certa medida, viesse a servir de suporte político para o Império romano. Historiadores eclesiásticos da Antigüidade Tardia como Sócrates, Sozomeno, Filostórgio e Teodoreto seriam hostis a Juliano. Mas dentre aqueles lhe desferiria ataques mais contundentes destacamos Gregório de Nazianzo, que além de outros adjetivos assim o qualificava:

“[...] o dragão, o apóstata, o espírito altivo, o Assírio, o adversário comum e o inimigo de todos, aquele que encheu a terra com sua fúria e ameaças, que proferiu e cometeu contra o Altíssimo inumeráveis iniqüidades.” (GREGORY OF NAZIANZUS, Against Julian, 4, 1).

Essa seria a imagem que seria colada à personalidade do príncipe que perpassou pela história, com raras exceções, identificando-o como “o apóstata”, anacrônico, ursupador e perseguidor dos cristãos. Tal êxito dessa construção pode ser atestado até os dias atuais, onde, não raras vezes, nos deparamos com historiados a qualificar a sua personalidade de forma muito contraditória: confuso, fanático, visionário, raivoso, anormal, falante, isolado, ambicioso, dissimulado, usurpador, astuto, ingênuo, ingrato, calculista, simples, austero e pragmático[26]. Glen W. Bowersock chega a compará-lo a ativistas da atualidade como Lênin e Mao-Tsé-Tung, bem como nos leva a perceber Juliano como um puritano e maniqueísta.

Contudo, estudos mais recentes acerca das atitudes políticas e religiosas de Juliano têm sido conduzidos de forma a ressaltar a sua atuação como governante de um Império que passava por intensas transformações políticas, sociais, econômicas e culturais. Constatamos que a carga negativa construída pelos opositores de Juliano recai sobre a sua memória em vista do real perigo que ele teria representado para a afirmação do discurso cristão dentro do Império romano. É certo que ele nutria uma grande aversão pela estrutura da Igreja que se formava no seu tempo. Além de Juliano considerar a filosofia cristã carente de atrativos, a Igreja nascente estava repleta de controvérsias e discussões dogmáticas intermináveis, lutas fatricidas que, em vista dos nobres ensinamentos do Evangelho, talvez só se justificavam pela busca por poder temporal. Como Amiano Marcelino[27] sugeriria, tais divergências seriam habilmente manipuladas por Juliano a favor da sua causa de promover o helenismo. Exemplo disso é o indulto oferecido pelo Imperador aos cristãos ortodoxos desterrados por Constâncio II, seu antecessor.

Nosso propósito aqui é analisar como Juliano aliou o seu senso político e a sua filosofia numa teologia política em prol da administração de um Estado imerso em grandes transformações. Desta forma, entendemos que desqualificar as concepções filosóficas e religiosas de Juliano na Antigüidade fazia parte do jogo político em curso. Na atualidade, tal atitude denotaria um desconhecimento do seu contexto histórico e de que “o homem religioso assume um modo de existência específica no mundo, [...] [ele] acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando-o real”.[28]

Desta forma, não entendemos suas atitudes como contraditórias ou eivadas de anacronismo. Como um todo orgânico, o seu pensamento seria colocado em prática na condução do seu governo em consonância com a forma de pensar de um homem do seu tempo repleto de idéias, ora conservadoras ora revolucionárias. Devemos destacar que a imissão do sagrado nas formas de conduzir as questões do Estado não foi um atributo específico do breve principado de Juliano (dezembro de 361 a junho de 363). Em larga medida a esfera transcendental foi empregada na formulação do conceito de realeza na Antigüidade (Basiléia), tendo, por exemplo, o Imperador cristão ariano Constâncio II, primo e antecessor de Juliano, usado desse expediente para legitimar a sua autoridade frente as freqüentes usurpações de poder que tiveram curso no Império romano a partir do século III d.C.[29]

O neoplatonismo de Juliano, como destacamos anteriormente, já havia passado por grandes alterações a partir de Jâmblico, a quem ele iguala ao gênio de Platão: “posterior no tempo, porém não em gênio, [...] mestre na verdade divina, o primeiro depois de Pitágoras e Platão”.[30] Influenciado pelos cultos orientais e tendências místicas, ele buscaria uma explicação científica do universo tipicamente platônica e agregada de elementos sobrenaturais. Expressando-se nos seguintes termos: “a verdade é una e una é a filosofia,”[31] Juliano buscava estabelecer uma relação harmônica entre cultura religiosa e cultura filosófica.[32]

Percebemos na obra de Juliano, notadamente em seus discursosHino a Hélios rei e Sobre a mãe dos deuses, uma forma literária marcada pelo gosto da alegoria e pelos símbolos que representavam o mito. Através da reflexão neoplatônica e dos seus sentimentos religiosos, ele via na explicação do mito uma forma de aproximar-se dos desígnios das divindades. Por isso, ele constrói o seu projeto político como uma predestinação divina. Assim, ele irá incentivar os cultos tradicionais pagãos, provavelmente um tanto quanto esmaecidos pela proibição dos imperadores cristãos, e as práticas teúrgicas caldéias como forma de atuação política, ou seja, constituindo uma teologia política que sustentaria as suas ações como governante. Com esse propósito, Juliano buscava legitimar-se perante os deuses e as classes cultas e ricas da sociedade.

Nos anos de sua juventude, numa passagem pela cidade de Pérgamo, conforme nos relata Eunápio[33], Juliano teria ouvido de Eusébio, um discípulo de Edésio da Capadócia, que por sua vez teria sido um dos mais ilustres seguidores de Jâmblico, uma demonstração da sua prática teúrgica. Ele havia assistido ao teúrgo Máximo de Éfeso fazer uma estátua da deusa Hécate sorrir. Eusébio aconselharia Juliano a não se maravilhar com nada dessas coisas, visto que o mais importante, para ele, seria a purificação por meio da razão. No entanto, Juliano ao ouvir este conselho teria respondido a Eusébio nos seguintes termos: “Adeus, e tu fique com os teus livros, porque a mim me há revelado o que andava buscando”.

Após esse fantástico acontecimento, Juliano manteria um estreito relacionamento com Máximo. Ele esteve com o César durante a sua permanência na Gália e posteriormente integraria a corte de Juliano quando feito Augusto. Tal era a afinidade entre ambos que Máximo, juntamente com Oribásio, médico e amigo de Juliano, estaria presente na ocasião que o Imperador fora ferido de morte na batalha contra os persas. Muitos atribuem a Máximo o gosto de Juliano pelo misticismo e pela prática da teurgia que englobava rituais de sacrifícios variados. Para Juliano, a filosofia enriquecida pela teurgia seria o veículo para se chegar a conhecer o mito, pois no sentido oculto deles, dado a conhecer apenas aos iniciados, é que estaria a verdade dos deuses. Ao promover essa união entre a religião e a filosofia ele entendia que os mitos seriam tão necessários para a revelação dos deuses como o emprego dos ritos mágicos seriam para o processo de iniciação.

Juliano irá elaborar uma concepção de realeza teocrática como produto da síntese de sua experiência pessoal místico-religiosa e da reflexão neoplatônica. Ele possuía a convicção que o seu Imperium[34] havia sido decretado pelos deuses, em especial Hélios-Mitra, com a finalidade de recompor os erros dos seus antepassados. Sua missão seria a de reorganizar e revitalizar os valores próprios do helenismo. Sendo seu projeto político predestinado por eleição divina, os sonhos e sinais que ele recebia dos deuses através do mito tinham por finalidade orientá-lo na sua missão de governar o mundo para salvar a humanidade[35].

Segundo Hidalgo de la Vega[36], Juliano justifica a sua ascensão ao poder como instigado pelos deuses a sair da vida contemplativa e exercer o poder político. A sua teoria política se expressa numa cosmogonia que coloca ao Império romano não só um conceito político, mas também religioso, ou seja, uma réplica da organização do céu, reafirmando o caráter divino do seu governante (basileus). O soberano deveria legislar e governar segundo a parte divina do seu ser.

Dessa maneira é que devemos procurar analisar a importância que Juliano dava às práticas teúrgicas como forma de aproximação dos deuses no sentido de guiar a sua conduta pela razão numa legalidade que é requerida e sancionada por eles. Se os deuses expressavam a sua verdade pelos intrincáveis caminhos do mito, as práticas teúrgicas serviriam como suporte para o conhecimento dessa verdade a ser colocada em prática na condução dos destinos do Império.

Como argumentos similares aos de Jâmblico, Juliano acreditava que os deuses haviam depositado traços ou símbolos que eles próprios criaram no mito, nos objetos materiais e no sacrifício animal. Inclusive compartilhava a visão de que diferentes espécies de sacrifícios são apropriadas a diferentes graus de divindade.[37] Jâmblico também afirmava que as “preces sem sacrifício são apenas palavras, enquanto que preces com sacrifícios são palavras animadas, a palavra dando força para a vida e a vida animando para a palavra”.[38]

A excessiva superstição e a paixão pelos sacrifícios por parte de Juliano seriam alvos de crítica até do seu admirador Amiano Marcelino: “Ele [Juliano] foi também chamado por muitos de açougueiro ao invéz de alto sacerdote, em alusão as suas muitas oferendas”. [39] Particularmente condenada pelos cristãos, os rituais de sacrifício de Juliano seriam constantemente satirizados e depreciado pelos historiadores da Igreja:

Com efeito, primeiro ele [Juliano] começa por contaminar com sacrifícios impuros as fontes da cidade de Daphne, para que cada um, ao desfrutar do líquido, participasse da impureza [...] E logo encheu também de impurezas o que estava exposto na agora, pois se regaram em volta os pães, as carnes, as frutas, as verduras e todos os alimentos (Theodoret of Cyrrhus, Church History, 3.11).

Agora Juliano era um constante visitante de Daphne, suas mãos cheias de oferendas e acompanhado por uma multidão de vítimas sacrificiais: e depois de tê-las sacrificado num horrível banho de sangue ele importunaria o deus [Apolo] exigindo respostas dos oráculos para os problemas que iam na sua mente. (JOHN CHRYSOSTOM, Homily on St. Babylas).

Em seu breve reinado, Juliano dedicaria grandes esforços para reconstruir os altares e os templos pagãos que foram destruídos ou absorvidos pela estrutura da Igreja em formação. Tal investimento era acrescido da ânsia por reviver antigas cerimônias e até mesmo inovar quando se tratava de fazer frente ao avanço do cristianismo. Mas acreditamos que, perspicazmente, ele teria também focado os sacrifícios de sangue no seu intento de privilegiar os cultos da sua religião, não apenas por uma questão de piedade para com os deuses. Concordamos com Bradbury[40] que também motivações políticas conduziram as atitudes de Juliano. Para este autor, no ambiente religioso do quarto século, sacrifício de sangue era uma confrontação. Tratava-se de um elemento dos cultos tradicionais que absolutamente os cristãos não poderiam suportar. Parece que tais práticas relembravam-nos das perseguições outrora infligidas a seus antepassados:

No que [...] nem Diocleciano [...] nem [...] Maximiano planejaram jamais, nem Maximiano [...] isso o pensou aquele [Juliano] [...] havia de privar aos cristãos de toda liberdade da palavra, apartando-os dos recrutamentos, das assembléias e celebrações políticas e dos tribunais; com efeito, não se podia utilizar quem não sacrificasse nos altares diante das vítimas [...] E o sábio raciocínio desse príncipe assassino e legislador ilegal [...] era que “é próprio da nossa lei não participar [os cristãos] nem no combate, nem nos juízos, nem possuir nenhuma magistratura, nem considerar nada como próprio, senão viver em outro lugar, e largar as coisas daqui como se não existissem. (GREGORY OF NAZIANZUS, Against Julian, Or. 4, 96-97).

Sobre isso, vejamos a opinião do retórico neoplatônico Libânio, que em carta enviada a Juliano, quando este ainda era César na Gália compartilhava das suas mesmas opiniões. Isso demonstra que Juliano agia em consonância com a forma de pensar da elite pagã da sua época:

Sabendo, pois, com razão que é necessário que cada soldado adore aqueles deuses de que necessitam ao combater, que isto é o fundamental do equipamento e não o escudo, nem a armadura, nem a lança, e no diálogo com os deuses, que tu [Juliano] hás conseguido, armaste tuas tropas com a compreensão dos seres superiores, e voluntariamente correram até os altares competindo nas oferendas de incenso (LIBANIUS, Or. XII, 90).

Juliano absteve-se de infligir a coerção física aos cristãos, como fizera o seu antecessor Maximino Daia[41], ou mesmo exigido deles a prática dos sacrifícios de sangue. Mas, em consonância com a sua teologia política, interpôs barreiras ao acesso à administração e aos serviços do Estado daqueles que não provassem, através dos rituais que a religião romana prescrevia, estarem aptos a comungar com os deuses o seu ideal de bom governo. Esta postura está em consonância àquela lei em que ele proibia os professores cristãos de lecionar os textos clássicos, pois entendia que não se devia ensinar aquilo em que não se acredita.

Contudo, a sua constante presença nos altares, o seu hábito de presidir audiências em santuários e a devoção ao culto das estátuas seria tomado pelos cristãos como uma politização dos assuntos religiosos. Essa clara audácia foi tomada como um desafio por eles. A batalha travada no campo da retórica, que habilmente ambas as partes souberam manipular foi desfavorável a Juliano, pela sua morte prematura. Desses fatos, podemos apreender o ódio recorrente que os historiadores da Igreja se dedicaram a construir uma imagem de Juliano, que para muitos ainda perdura até os nossos dias, como “o Apóstata perseguidor de cristãos”.

Conclusão

Os sacrifícios de sangue constituíam um ritual central para a maioria das religiões pré-cristãs do Mediterrâneo, e o seu desaparecimento é um dos mais significantes desenvolvimentos da religião na Antigüidade Tardia[42]. Theodosius I (379-395) ao declarar o cristianismo como religião de Estado, prescreveria o uso das práticas teúrgicas[43]. Contudo, elas permaneceriam enraizadas entre a população não cristã, como mostra a preocupação do imperador Justiniano em proibi-las durante o seu governo.

A difusão dos cultos orientais e das religiões dos mistérios no Império romano, e o sincretismo religioso que daí resultou, favoreceu o conhecimento das religiões exóticas e as investigações sobre as antiguidades religiosas. O Ocidente cristianizado integraria ao seu cristianismo uma grande parte de sua herança religiosa pré-cristã, de uma antiguidade imemorial.[44] Dessa forma, transformado e como que sublimado, o sacrifício conservou-se na teologia cristã. Hoje, os sacerdotes católicos buscam, pelo mesmo procedimento ritual, os efeitos buscados pelos mais remotos antepassados: o ritmo alternado da expiação e da comunhão.[45]

A própria memória do Imperador Juliano seria sacrificada pelos historiadores da Igreja. Em larga medida e em diversos períodos da história ele seria o “bode expiatório” que serviria para justificar e legitimar posições políticas das classes dominantes do momento.

Podemos afirmar que na história do mundo Ocidental mal terá havido algum período que haja legado aos séculos seguintes instituições tão perduráveis como os Códigos do Direito Romano, a estrutura hierárquica da Igreja Católica e o monaquismo. Nesse período, o pensamento político clássico seria remodelado e adaptado por novas concepções ideológicas relacionadas ao cristianismo.

Buscamos delimitar esse período, não como o fim do mundo clássico, e sim como uma época de transição, onde uma imensa diversidade cultural foi amalgamada gerando novas formas de sociabilidade. Podemos observar, neste período, que tanto as continuidades quanto as rupturas variaram de acordo com o ambientes e temporalidades distintas.

Verificamos que a polaridade das opiniões acerca de Juliano ainda continua a dividir os historiadores, da mesma maneira como dividiu os seus contemporâneos. Naquela época, certamente, pelos interesses políticos que estavam em jogo, hoje, provavelmente, devido a herança de uma documentação rica, mas também contraditória em relação as suas ações. Juliano nos mostra, e isso ficou registrado pelos relatos que dispomos, a figura de um inovador. Suas ações administrativas para o Império, sua noção de realeza e seu apego à lei são prova disso. Ao mesmo tempo, ele travou uma árdua luta para manter as tradições gregas e romanas, o que parece caracterizá-lo como um homem dividido entre dois mundos. Seu amor ao helenismo fazia-o convicto de que os deuses estavam ao seu lado para perpetuar a glória do Império Romano.

Mas o mundo que Juliano almejava manter passava por intensas transformações. O seu curto reinado talvez seja a fonte do fascínio despertado por ele nos dias atuais. Tudo nos leva a crer que se as medidas tomadas por ele tivessem tido tempo de ser implementadas, em vista do seu diagnóstico dos problemas que afligiam o Império, um grande entrave teria se interposto à afirmação do discurso cristão. Juliano estava pleno das dimensões existenciais do homem religioso das sociedades antigas, por isso torna-se fácil compreender a sua profunda vontade de ser, de tomar parte da realidade e revestir-se de poder.

Agradecimentos:

Agradeço à Profa. Dra. Margarida Maria de Carvalho, do Departamento de História da FHDSS-UNESP/Franca, pela orientação na produção deste artigo.

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[1] Graduado em História (Bacharelado e Licenciatura) pela FHDSS/UNESP – Campus Franca (SP)

[2] Paidéia: Para Werner Jaeger (2003, p. 1), Paidéia seria um conceito difícil de definir, assim como outros de grande amplitude, como filosofia e cultura. O seu significado só se revelaria plenamente através da leitura da sua história. Na tentativa de definir esse termo grego antigo, não se pode evitar o uso de expressões modernas como civilização, cultura, tradição, literatura ou educação. Contudo, nenhum desses conceitos pode ser empregado de forma isolada para definir algo que inclui todos eles ao mesmo tempo.

[3] VEYNE, 2009, p. 221-225.

[4] BRADBURY, 1995, p. 331.

[5]AMIANO, , 22.5.1.

[6] AMIANO, Historia, 22.12.7.

[7] Julgamos adequada a utilização do termo “teologia política” visto que, em seus discursos, Juliano desenvolve uma cosmogonia em que será racionalizada como fundamento da sua teoria política de realeza (Basiléia).

[8] COUTROT, 2003, p. 357.

[9] ELIAS, 1994, p.13.

[10] Timeu, 90 a.

[11] HADOT, 2004, p. 213-247.

[12] PLOTINO, Eneadas, I, 6-9).

[13] DODDS, 1947, p. 57-60.

[14] SILVA, 2003, p. 20.

[15] HIDALGO DE LA VEGA, 1995, p. 224-225.

[16] CAMERON, 1991, p. 121-123.

[17] DODDS, 1947, p. 56.

[18] Daemôn pode ser traduzido de diversas maneiras: gênio, espírito, espírito celeste, demônio. Nesta última acepção não deve ser confundido com o termodaimónion traduzido do grego na Bíblia, que tem significado oposto àquele da tradição platônica e neoplatônica.

[19] HADOT, 2004, p. 243-247.

[20] MAUSS; HUBERT, 2005, p. 107.

[21] SILVA, 2003, p. 161.

[22] CLARKE, 2006, p. 35.

[23] BRADBURY, 1995, p. 339.

[24] BRUN, 1991, p. 109.

[25] Apud ARCE, Javier. Los versos de Prudêncio sobre el emperador Juliano, Emer. XLIV, fasc. 1º., 1976, p. 129-141, apud GARCIA-BLANCO, 2002.

[26] BOWERSOCK, 1997, p. 14-15, 20 e 101.

[27] AMIANO, Historia 22.5.4.

[28] ELIADE, 2008, p. 164.

[29] CARVALHO, 2008, p. 221-226.

[30] JULIANO, Hino a Hélios rei, 146 A e B, 150 D, 157 C e D.

[31] JULIANO. Contra los cínicos incultos, 185 C.

[32] HIDALGO DE LA VEGA, 1990, p. 181.

[33] EUNAPIUS, Live of the Sophists, 474-475.

[34] Impérium: concepção romana de poder (VEYNE, 2009, p. 14).

[35] JULIANO, Letter to the Athenians, 284 A-C.

[36] HIDALGO DE LA VEGA, 1995, p. 236.

[37] BRADBURY, 1995, p. 339-341.

[38] IAMBLICHUS, De mysteriis, 4.3; 5.26.

[39] AMIANO, Historia, 22.14.1.

[40] BRADBURY, 1995, p. 346.

[41] EUSÉBIO DE CESARÉIA, VIII, 14.

[42] BRADBURY, 1995, p. 355.

[43] CLARKE, 2006, p. xxvii.

[44] ELIADE, 2008, p. 134.