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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O Rio de Janeiro que poucos conhecem

Praias cariocas inexploradas atraem visitantes em busca de sossego enquanto moradores tentam preservar estilo de vida

Texto: Sérgio Adeodato

“O homem com sua sapiência
Transformou tudo em ciência
Reciclando a minha natureza
Mexeu com lixo,
Domou os ventos,
Usou o átomo sem consciência
Causou tristeza, degradação
Coloca em risco toda a civilização
E assim num grande gesto de amor
Já tem gente a refletir
E por mim vive a lutar ...
Um fio de esperança a reluzir...
Produzir sem maltratar
Sou a mãe Terra
Só o seu amor vai me salvar ...
Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar
E aprender a preservar”
Samba-enredo 2005 do Império Serrano

Todos os anos, em fevereiro, a rua Marques de Sapucaí, no Rio de Janeiro, reúne sonhos e desejos de uma multidão de foliões – celebridades, sambistas anônimos dos morros cariocas ou turistas que chegam de longe para forçar os quadris a entrar no compasso do samba. Mas nem tudo é frenesi nesta metrópole no mês do carnaval. Enquanto o sambódromo pulula na explosão de energia das escolas de samba, bem perto dali, dentro ou nos arredores da capital, recantos de natureza pouco explorados, emoldurados por montanhas de mata atlântica e enseadas com praias quase intocáveis, reservam aventuras especiais para quem prefere a tranqüilidade.

Percorremos a rota das praias cariocas inacreditavelmente desertas (ou quase), reduto de visitantes descolados e adeptos do turismo de aventura, dispostos a enfrentar caminhadas em trilhas e viagens em barco de pescadores para chegar a privilegiados pontos do litoral desprovidos de estradas – e do burburinho da folia. Que nos desculpem os mestres-salas e as porta-bandeiras! Decidimos, no final das contas, colocar em prática a mensagem do samba-enredo do Império Serrano, uma das escolas de samba do primeiro time do carnaval carioca, que exalta em 2005 o amor à mãe-natureza. E partimos para as novas experiências.

Na primeira etapa da viagem, saindo do bairro de Copacabana, o carro percorre 280 quilômetros pelas curvas da Rio-Santos até a entrada de um condomínio de luxo, Laranjeiras, um pouco depois de Paraty – e ali fica estacionado. Desse ponto em diante, uma trilha de 50 minutos de subidas e descidas em meio a remanescentes de mata atlântica leva à praia do Sono – um lugar estrategicamente cercado de montanhas, como o Pico do Cairuçu, que escondem por mais tempo o sol ao amanhecer e o cobrem mais rápido ao entardecer – ou seja, o dia nasce mais tarde e escurece mais cedo, um convite para um sono mais prolongado.

Mas pesadelos rondam a tranqüilidade dos nativos. Um deles é o dilema que enfrentam, depois que a captura predatória de peixes pelas redes de arrasto dos grandes barcos pesqueiros começou a eliminar o principal meio de sustento da comunidade. Hospedar visitantes passou a ser uma alternativa econômica, mas também um precedente que pode abalar a tranqüilidade de uma praia quase virgem, onde só se chega caminhando ou em barcos, quando as condições do mar permitem.

Expulso a tapa

De olho nos benefícios do turismo, discute-se na comunidade o projeto de se abrir uma estrada. “Isso seria catastrófico, sem cuidados especiais para evitar a degradação de uma vila que não tem saneamento básico”, adverte a professora Emily Brown, 26 anos, mineira radicada na Inglaterra que conheceu a praia em 2001, se apaixonou por um pescador e ali ficou. “Aqui não temos energia elétrica ou acesso à Internet e, com o ritmo mais lento que na cidade grande, sentimos a vida pulsar, seja na forma das flores, seja no canto dos passarinhos”, conta Emily.

Hoje, a professora ensina inglês para 60 crianças na escola do lugarejo, com apoio de uma entidade americana, a Six Friends Brasil. Muitos alunos chegam aos 12 anos falando inglês fluentemente. No lugar onde os adultos mal sabem falar o português e muitos são analfabetos, expressões como excuse me e I am sorry são comuns. “Os jovens estão se preparando para trabalhar com visitantes estrangeiros aqui ou em restaurantes e pousadas de outras cidades, como Paraty”, explica Emily. Ela admite ter enfrentado oposição dos moradores mais velhos – uma desconfiança logo resolvida.

A descoberta da praia por forasteiros causa arrepios à Maria Joana Alvarenga dos Santos, dona Baíca, 61 anos, nativa que não quer passar de novo pelos conflitos de posse de terra que marcaram a história do lugar. “Um grande fazendeiro espalhou búfalos perto da vila para espantar os moradores, forçando-os a vender as terras a preço de banana”, recorda dona Baíca. Desfecho da pendenga: “O fazendeiro foi expulso a tapa”.

Da Praia do Sono, percorremos uma trilha cheia de mirantes espetaculares de onde avistamos florestas beijando enseadas de mar azul, cercadas pela Reserva Ecológica de Joatinga e pela Área de Proteção Ambiental de Cairuçu. Após 40 minutos de caminhada, chegamos à Praia de Antigos, um lugar totalmente desabitado. Poucos metros à frente, alcançamos a Praia de Antiguinhos e, depois, Galheiras, habitada por um morador solitário – o caiçara Luziano Costa, 52 anos. Ele trocou a pesca pelo trabalho de caseiro. “Não queremos estradas, porque elas costumam trazer favelas e bandidos, e preferimos continuar como no tempo de nossos avós”, afirma Luziano. “Mas precisamos encontrar uma saída, pois a pesca está fraca e os homens da lei proíbem cortar árvore para plantar.”

Dos piratas à cadeia

“A presença de áreas de proteção ambiental está ajudando a manter algumas praias quase intocáveis”, afirma Gabriel Werneck, dono da RioHiking, operadora de turismo de aventuras no Rio, especializada em descobrir refúgios ainda preservados, destinos para visitantes, principalmente estrangeiros, que buscam sossego e contato com a natureza. Rodando pela Rio-Santos, estacionamos o carro em Magaratiba, a 130 quilômetros de Paraty, e de lá zarpamos para a Ilha Grande, antigo esconderijo de piratas que pilhavam barcos carregados de ouro após deixar os portos brasileiros com destino a Portugal, durante o período colonial. O fundo do mar, naquela região, é um cemitério de navios naufragados. Um detalhe faz toda a diferença: nos 36 quilômetros de extensão da ilha, florestas e restingas preservadas por lei, nas quais é proibido desmatar e construir, mantêm para as futuras gerações uma vasta coleção de praias desertas. Além disso, o presídio da Ilha Grande, famoso cárcere de presos políticos na ditadura, manteve restrito o acesso dos visitantes, até ser desativado e implodido em 1994.

Após essa data, a população local multiplicou-se e a região passou a receber um número crescente de visitantes em busca de lugares tranqüilos perto da metrópole carioca. No tempo do presídio, existiam somente duas pousadas na ilha; hoje, são 185 cadastradas, sem contar as clandestinas e os campings. Os porões da cadeia, atualmente em ruínas, passaram a ser atração para quem se aventura a caminhar 13 quilômetros até chegar à Praia dos Dois Rios, partindo da Vila do Abraão, principal povoado da ilha. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro, hoje responsável pelo que restou do presídio, mantém no local uma base de campo e, em 2005, começará a recuperar uma parte dos escombros, para a instalação do Museu do Cárcere e de um centro de visitantes. A rotina pacata do vilarejo, onde moram as famílias de ex-guardas e de ex-presidiários, ficará mais agitada.

Navios naufragados

Rodeado pelos inseparáveis cachorros, encontramos um senhor de barbas brancas e longas – Júlio de Almeida, 74 anos, um ex-detento que chegou ao presídio em 1957 e está em liberdade condicional até o fim da pena, em 2014. Se o passado de condenações o marcou como um jovem perigoso, hoje Júlio é um boa-praça, sempre procurado pelos visitantes. Não é para menos. O anfitrião representa a história da cadeia intransponível devido ao isolamento. Entre os personagens que viveram ali, estavam Leonel Brizola, Castor de Andrade e Madame Satã, o travesti matador do Largo da Carioca, famoso também por fazer shows para os presidiários.

“As pessoas de fora representam um grande empurrão para melhorar a nossa vida”, destaca Júlio. É preciso, contudo, tomar cuidado. Várias ameaças rondam o Parque Estadual da Ilha Grande, de 40,8 km². “O desmatamento para instalação de campings, a caça e a coleta de bromélias e orquídeas são as principais”, revela Ibá dos Santos, administrador do parque. Além de um plano com normas para evitar a ocupação desordenada, as autoridades discutem como restringir o número exagerado de visitantes, evitando problemas de excesso de lixo e esgoto. Por enquanto, praias quase desertas como Lopes Mendes, Aventureiro e Feiticeira e as piscinas naturais dos lagos Verde e Azul – só alcançadas por barcos ou trilhas de longo percurso – são um cenário incomum para um balneário situado entre as duas maiores metrópoles do país. No total, são 106 praias – ou 114, se contarmos aquelas que se formam no recuo da maré.

Terra de ex-escravos

Santa tranqüilidade! Não é preciso ir tão longe para explorar paisagens que se mantém como nos tempos em que Estácio de Sá fundou a cidade do Rio de Janeiro, em 1565, na luta contra os corsários franceses atraídos pelo rendoso comércio do pau-brasil.

Com autorização da Marinha, responsável pela área, embarcamos no cais de Itacuruçá, a 94 quilômetros da capital carioca, rumo à Ilha da Marambaia, no extremo da restinga. Cruzamos a Baía de Sepetiba, numa viagem de 50 minutos, na qual é possível avistar várias de suas 365 ilhas e também golfinhos. A Marambaia, nosso destino final, é habitada por cerca de 400 ilhéus, descendentes dos escravos que trabalhavam nas antigas fazendas de café do proprietário Joaquim Breves.

No local, funcionava um entreposto de comércio de escravos, no qual os negros recém-chegados da África eram submetidos a regime de engorda antes de serem vendidos. A ilha chegou a abrigar 3 mil escravos, no auge do ciclo cafeeiro. Com a abolição, muitos ficaram na região, vivendo principalmente da pesca, atividade mantida até hoje.

Além de reivindicar energia elétrica, escolas de nível médio e posto médico, os atuais moradores, classificados como descendentes de quilombolas, lutam pela posse de suas terras. “Não troco esse lugar por nenhum outro”, afirma Dionato de Lima Eugênio, 63 anos, ou “seu” Naná, bisneto de escravos e presidente da associação dos moradores civis da ilha.

A comunidade preserva tradições negreiras, como a prática da capoeira. No cardápio das festas, em vez de peixes, a feijoada é a atração principal, degustada como no tempo dos escravos, quando a casa-grande destinava as piores partes do porco para a senzala.

Civil não entra

O Centro de Adestramento da Ilha da Marambaia (Cadim), da Marinha, ocupa as terras da antiga fazenda. A senzala foi adaptada como hotel para militares e suas famílias e amigos, além de pesquisadores autorizados a estudar a rica biodiversidade da restinga. Alguns animais só existem ali, como a rã Leptodactylus marambaeae. Os lagartos-de-praia, já extintos no continente, continuam vivendo naquele litoral preservado.

Jacarés habitam a Lagoa Vermelha, onde se chega após três horas de uma dura caminhada. Tartarugas sobem à tona a qualquer hora, inclusive em pontos de maior movimentação de barcos, como o cais da Marambaia. “Ainda bem que até hoje não conseguiram tirar as Forças Armadas para instalar resorts nesse lugar paradisíaco em plena capital”, observa o biólogo Roberto Xerez, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

As praias se estendem a perder de vista. Na praia do Sino, encontramos o casal de remadores Alexandre Fitaroni e Fernanda Cabral, que retornava de uma viagem de caiaque de 300 km, entre o Rio de Janeiro e a Ilha Grande, e foram atraídos pela paisagem virgem daquele recanto. Apesar dos avisos indicando área militar, a dupla desembarcou na praia para descansar e secar toda a tralha levada nos apertados caiaques – duas pranchas, barraca, panelas, fogareiro e roupas, entre outros apetrechos.

A alegria não durou muito, pois logo chegou um militar da Marinha ordenando que fossem embora. Eles já estavam acostumados. Na manhã anterior, em outra praia da restinga, foram acordados na barraca e expulsos por soldados do Exército.

Caiaque na baía

Mas a metrópole do Rio de Janeiro ainda reserva outras surpresas para quem está atrás de sossego e aventuras. A somente 40 minutos da movimentada Praia de Copacabana, perto da Barra de Guaratiba, zona oeste do Rio, tomamos uma trilha de uma hora e meia até alcançar enseadas de areia branca e água limpa incrustadas entre montanhas. Ali, nas praias Perigosa, Meio e Inferno, carro não entra. Sinais de civilização nessas paragens, só pegadas na areia – poucas, diga-se de passagem.

Mais surpreendente ainda é a aventura de navegar de caiaque pela Baía de Guanabara – com fama de poluição e tudo. Saindo da Praia da Urca, situada dentro da Fortaleza de São João, remamos 30 minutos até a Ilha da Laje, tendo, ao fundo, a paisagem de cartão-postal da enseada de Botafogo, Pão de Açúcar e Corcovado. A ilha é, na verdade, uma fortaleza de pedra, o Forte da Laje, que serviu para a proteção militar da entrada da baía, mas hoje está em ruínas.

Por meio de uma escada de corda, pendurados sobre o mar, conseguimos entrar na gigantesca estrutura – da plataforma de acesso, situada a cerca de 10 metros de altura, os mais afoitos arriscam um salto para o mergulho. No lugar, ainda existem os canhões e os corredores por onde as tropas se deslocavam. De lá, avista-se os arranha-céus da orla de Botafogo e a imensidão da baía, no exato local onde os colonizadores aportaram para fundar a cidade -- uma história de conflitos com invasores de diferentes origens.

Remar para atingir recantos inexplorados na orla carioca é a especialidade de Simone Miranda Duarte, 45 anos, atleta premiada em provas internacionais de canoagem. Além de oferecer cursos de caiaque nas águas da Baía de Guanabara, Simone é procurada por pessoas que querem fugir do burburinho das praias movimentadas e remar até ilhas situadas nas proximidades, como a de Cotunduba, onde se chega após 45 minutos.

Vale a pena o esforço: a transparência da água permite observar peixes de várias espécies. O mesmo se pode dizer de uma opção ainda mais distante – as inabitadas Ilhas Cagarras, que podem ser alcançadas após uma hora e meia de muito exercíco físico. E quem ainda acha pouco, pode atravessar a Baía de Guanabara e aportar na praia de Adão e Eva, em Niterói – sempre remando.

“É preciso enfrentar desafios para experimentar novos caminhos de convivência com a natureza marinha”, conclui Simone. Ou, como diz o samba-enredo da Império Serrano, citado no início dessa reportagem: “Pra natureza sorrir, o homem tem que mudar/E aprender a preservar”. E, para quem gosta de praia, mas não de carnaval, ficam aqui os versos de outro carioca famoso:

“As praias desertas continuam
Esperando por nós dois
E este encontro eu não devo faltar
O mar que brinca na areia
Está sempre a chamar
Agora eu sei que não posso faltar ...”
As Praias Desertas, Antônio Carlos Jobim

Privilégio de poucos

Quando ocupou o poder, nas décadas de 30 e 50, o presidente Getúlio Vargas tinha a Restinga da Marambaia como um refúgio de privacidade. Da mesma maneira, a primeira dama do governo Figueiredo, dona Dulce, na ditadura dos anos 70, mandava impedir o acesso de qualquer pessoa para que pudesse deliciar-se sozinha nas praias desertas. Mas foi depois que o presidente Fernando Henrique declarou ser aquela paisagem o seu paraíso de verão que o lugar ganhou projeção nacional.

Essa extensa faixa de restinga de 42,5 quilômetros, que avança mar adentro na Baía de Sepetiba, Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é uma área exclusiva das Forças Armadas. Exército, Marinha e Aeronáutica desenvolvem, em diferentes pontos da restinga, atividades de treinamento militar. Somente o presidente da República, os militares e suas famílias, salvo raras exceções, podem entrar na área. O presidente Lula ainda não visitou esse paraíso escondido. Motivos para tentação não faltam: a Marambaia, protegida pelos militares, tem um belo acervo de praias, matas, lagoas e manguezais em ótimas condições de preservação.

Rio de Janeiro: Para quando você for

O litoral do Rio de Janeiro é marcado pela presença de restingas, lagunas e baixadas. Na capital, a paisagem reúne amostras dessa beleza cênica: montanhas de floresta e rochedos à beira-mar, lagoas e zonas planas, no passado ocupadas por pântanos ou pelo mar. O Pão de Açúcar e o Corcovado são exemplos representativos desse relevo que emoldura famosas praias urbanas, como Botafogo, Copacabana e Ipanema, e outras situadas na cidade, mas pouco freqüentadas devido à dificuldade de acesso. Na chamada Costa Verde, um dos cenários mais bonitos da costa brasileira, situada entre a Baixada Fluminense e Paraty, as montanhas de floresta beiram o mar, formando baías de águas calmas e cristalinas. Nesta região, existem cerca de 2 mil praias, muitas delas desertas, de acesso exclusivo pelo mar, e mais de 500 ilhas protegidas das intempéries do mar aberto pela Restinga de Marambaia.

Região Metropolitana

As praias mais badaladas do Rio, todo mundo conhece. Aproveite para visitar pontos mais tranqüilos do litoral, de enseadas praticamente desertas, e também situadas na Região Metropolitana. Os passeios duram no máximo um dia, com saída pela manhã e retorno à tarde. Veja mais informações no Centro de Informações Turísticas (Riotur), tel: 0800-70-71808.

Atrações

Praias Perigoso, Canto e Funda.

Trata-se de um conjunto de praias desertas, situadas na zona oeste da cidade. Recomenda-se fazer o percurso com apoio de guias. O acesso é através de uma trilha de uma hora e meia, que sai das proximidades da estrada que liga a praia de Grumari à Barra de Guaratiba. Uma das atrações do caminho é a Pedra da Tartaruga, onde é comum a prática de rappel.

Ilhas do Laje, Cotunduba e Cagarras.

A aventura é chegar a essas ilhas remando em caiaques, cruzando a Baía de Guanabara. Para chegar na Ilha do Laje, onde existe uma fortaleza de pedra em ruínas, a viagem dura 30 minutos e o ponto de partida é a Praia da Urca, situada no domínio da Fortaleza de São João. Ali existe uma escola de caiaque. Para atingir a Ilha de Cotunduba, as remadas só de ida demoram 45 minutos. O local é propício ao mergulho com snorkel. No caso das ilhas Cagarras, o passeio deve ser feito somente por aventureiros de melhor preparo físico, pois a viagem de ida dura uma hora e meia.

Praia de Itacoatiara.

Situa-se no município de Niterói, no outro lado da Baía de Guanabara. A partir da ponte Rio-Niterói, seguir as placas na direção da região oceânica. Quando chegar no Saco do São Francisco, seguir indicação para a praia de Itaipu. Após vinte minutos aproximadamente, há uma placa indicando a entrada para Itacoatiara. A orla da praia, cercada por montanhas, é ocupada por um condomínio residencial de casas. O local é freqüentado por jovens do Rio de Janeiro que buscam recantos alternativos longe dos pontos mais movimentados da capital. É parte do Parque Estadual da Serra da Tiririca. Uma trilha de 30 minutos leva até o Olho do Elefante, uma pedra de onde se avista todo o conjunto de praias oceânicas de Niterói. Outra trilha, após um trecho de mata, acaba numa enorme rampa de pedra, conhecida como Costão. Após meia hora de caminhada íngreme se chega ao cume.

Paraty

Como chegar

A base para chegar a Paraty é o Rio de Janeiro (261 km), pela Rio-Santos. De São Paulo (330 km), indo até São José dos Campos pela rodovia Presidente Dutra e descendo até Caraguatatuba pela rodovia dos Tamoios, segue-se pela BR-101 até Paraty.
Antigo porto exportador de ouro no Império, Paraty é patrimônio histórico nacional, preservando igrejas e casarios coloniais. Do cais, situado no Centro Histórico, partem traineiras de pescadores e veleiros que fazem passeios nas ilhas e praias da região.

Onde ficar

Paraty oferece uma grande variedade de opções de hospedagem, desde as simples até as luxuosas, dentro e fora do Centro Histórico, inclusive no alto da Serra do Mar, que circunda a cidade. Informações: Secretaria Municipal de Turismo, tel. 24-3371-1222, (www.paraty.com.br).

Atrações

Praias do Sono, Antigos, Antiguinhos, Galhetas e Ponta Negra.

É possível chegar ao condomínio de Laranjeiras, a 17 km do centro da cidade, por meio de ônibus ou vans que saem de Paraty. Mas o ideal e mais seguro é ir de carro e na companhia de guias treinados. De Laranjeiras, a caminhada até a Praia do Sono demora 50 minutos. A trilha na Mata Atlântica proporciona vistas exuberantes daquele litoral. A Praia do Sono é uma vila de pescadores que começa a se abrir aos visitantes. Há três restaurantes instalados em palhoças e é possível alugar quartos na casa dos nativos. Antigos (30 minutos após a Praia do Sono) e Antiguinhos (50 minutos) são praias desertas. Galhetas (1h) tem uma única pousada. Ponta Negra é uma vila de pescadores com cerca de 120 pessoas, de onde se pode tomar barcos para conhecer outras praias ainda mais distantes.

Ilha Grande

Como chegar

Saindo do Rio, o indicado é chegar de carro ou ônibus a Mangaratiba (120 km), pela Rio-Santos, de onde partem as barcas para a Ilha Grande diariamente às 8hs. Nas sextas-feiras, há uma barca extra, às 22hs. A travessia demora 1h30. De São Paulo, o melhor percurso é via Angra dos Reis (385 km), de onde saem barcas diárias, às 15h30. A travessia também é de 1h30.

Onde ficar

Existem mais de 150 pousadas de várias categorias na Ilha Grande, a maioria na Vila do Abraão, o principal ponto de entrada da ilha. Há também campings e quartos para alugar em casas dos moradores.

Atrações

Na Vila do Abraão há várias agências de escunas que oferecem diferentes roteiros para conhecer as praias e cachoeiras. Outra possibilidade é alugar uma traineira, combinando preço e o percurso do passeio direto com o pescador. Para visitar praias mais bonitas e desertas, além e usar barco, é necessário caminhar em trilhas. É recomendável substituir chinelos por tênis, pois em alguns pontos se caminha sobre pedras. Ao todo, são mais de 100 praias. As mais visitadas são Lopes Mendes, Lago Azul, Lago Verde e Feiticeira. Para chegar à praia dos Dois Rios, onde ficam as ruínas do presídio, é necessário caminhar 26 km (ida e volta). É também possível alugar barco, mas a viagem dependerá das condições do mar. Recomendamos conhecer as praias situadas no lado oceânico da ilha, como a do Aventureiro, onde fica uma reserva biológica (campings ali são proibidos).
Posto de Informações Turísticas: tel (24) 3361-5508. (www.ilhagrande.com)

Informações

Passeios para praias desertas no Rio, Niterói, Paraty e Ilha Grande e todos os roteiros citados nesta reportagem são oferecidos pela RioHiking Caminhadas e Esportes de Aventura, tel. (21) 2507-4417 ou 9721-0594. (www.riohiking.com.br)
Revista Horizonte Geográfico

A Baía de Guanabara através dos tempos


Muito já se escreveu sobre a baía de Guanabara, cada qual com sua óptica pessoal. A razão disso são seus cenários magníficos, com uma beleza inusitada, de ordem planetária.
por Aziz Nacib Ab`Sáber
Olhando pela janela de seu apartamento, um amigo dizia que nem a rainha da Inglaterra podia desfrutar da paisagem que ele via. Outro companheiro de luta e resistência, olhando para a retroterra das praias, onde se desdobram morros ocupados por favelas, comentava que era certamente "lá que morava a felicidade", sem poder avaliar, à época, a conseqüência e impactos que as imensas desigualdades sociais viriam a ter.

Passados anos - meio século exato - quero contribuir para a recuperação do conhecimento acumulado, escrevendo uma pequena síntese sobre a história fisiográfica e vegetacional da Guanabara, em homenagem a amigos e companheiros que já se foram (José Veríssimo da Costa Pereira, Orlando Valverde, Jean Dresch e Jean Tricart).

Em primeiro lugar, é indispensável dizer que a região da Guanabara apresenta um quadro único para o conhecimento da fachada atlântica sudeste do Brasil. Sua origem remonta à separação do Brasil oriental em face da África ocidental. Uma distensão tectônica foi responsável pela criação de montanhas de blocos falhados, entre as escarpas da serra do Mar e os complexos maciços costeiros de feições majestosas, tais como o Corcovado, a serra da Carioca, o maciço de Niterói e os pontões rochosos que ladeiam a entrada da barra, culminando com o símbolo máximo representado pelo Pão de Açúcar. Há também uma baixada colinosa entre a serra do Mar e os maciços serranos mais próximos da atual linha de costas. E, por fim, a própria baía de Guanabara, que adentra as áreas dos morros e colinas, desembocando por uma barra estreita, entre os paredões rochosos do Rio de Janeiro vis-à-vis os morros de Niterói. E, para complicar ainda mais, a existência de uma pequena bacia paleoceânica em Itaboraí, embutida nas terras baixas onduladas regionais. Afora depósitos de cascalho nos altos das colinas aplainadas do Plioceno.

Os conhecimentos disponíveis sobre as bacias tectônicas, existentes na plataforma continental do Brasil de sudeste, permitem-nos avaliar a amplitude e a complexidade da tectônica de blocos falhados ocorridos no Brasil de sudeste, durante o período Cretáceo. Tudo leva a crer que antes da separação dos continentes, o setor afro-brasileiro de Gonduana era uma espécie de mega-abóbada rebaixada por longos processos erosivos, a qual foi fragmentada pela tectônica de placas, possibilitando a formação do oceano Atlântico. Na atual área continental do Brasil de sudeste existem indicadores concretos da tectônica quebrável, reconhecida como montanhas de blocos falhados (block-mountains).

Identicamente, no território fluminense - entorno da Guanabara - percebe-se todo um arranjo de blocos montanhosos e compartimentos tectônicos. Num entorno mais amplo, percebe-se a mudança de eixos das escarpas da serra do Mar, desde os escarpamentos do litoral norte de São Paulo e sul do Rio de Janeiro, a borda norte do maciço da Bocaina, e o retorno da orientação SSW-NNE na chamada serra do Mar fluminense (Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo). Um conjunto de escarpas com um maciço traçado em baioneta entre o litoral norte de São Paulo e sul fluminense, a borda transversal do maciço da Bocaina e o retorno direcional para a serra fluminense (de novo SSW-NNE). No ângulo norte da baioneta escarpada, a fragmentação tectônica bem marcada que deu origem à larga e colinosa Baixada Fluminense, tendo na frente oceânica a serra da Carioca, o Pão de Açúcar e os pontões serranos de Niterói.

Infelizmente, é impossível reconhecer os detalhes dos blocos falhados onde jazem os sedimentos da bacia de Campos e, separadamente, da bacia de Santos.

A maior parte desses fatos foram reconhecidos e registrados cartograficamente no importante Mapa geomorfológico da Guanabara, do grande mestre Francis Ruellan (1944). Um trabalho extremamente detalhado, elaborado em cima de cartas topográficas convencionais, numa época em que ainda inexistiam imagens de radar ou de satélites. Transformar um mapa singelo em um verdadeiro mapa geomorfológico exigiu observações de campo ao longo de múltiplos itinerários, o que pode ser considerado uma verdadeira façanha técnico-científica. Entrementes, Ruellan inseriu um acréscimo importantíssimo em seu estudo sobre a paleodrenagem subatual da Guanabara, ao noticiar para nós brasileiros, no início da década de 40, que, levando em conta os processos glacio-eustáticos, poderia se saber que o nível do mar esteve dezenas de metros abaixo de seu nível médio atual, no período do Pleistoceno Terminal. Daí se poder afirmar que existia toda uma bacia hidrográfica instalada na base da atual Guanabara, sendo que o antigo rio da Guanabara passava apertado entre o Pão de Açúcar e os pontões rochosos de Niterói. De onde se deduz que o nome Rio de Janeiro, cunhado pelos portugueses, tinha o vezo da intuição.

As flutuações radicais ocorridas entre o Pleistoceno Superior e o Recente são fundamentais para entender fatos relacionados à história fisiográfica da região costeira e à própria história vegetacional do território brasileiro. Convém lembrar sempre que no período Würm-IV Wisconsin Superior, o nível geral dos mares e oceanos estava 95 metros abaixo do atual. Para explicar esse fantástico rebaixamento é necessário saber que a partir de 22 mil anos A.P. (Antes do Presente), ocorreu um período glacial que se estendeu, com algumas irregularidades, até aproximadamente 12 mil anos atrás. Alguns pesquisadores especializados afirmam que o máximo da dinâmica glacial aconteceu sobretudo entre 15 mil e 12.700 anos A.P. E de 12 mil até 6.000-5.500 anos aconteceu uma dissolução das grandiosas geleiras que estavam estocadas nas regiões polares, subpolares e altas montanhas. Denominamos retropicalização esse período fantástico de derretimento das antigas geleiras.

Não podendo meditar sobre o zoneamento paleoclimático que teria acontecido dos pólos ao equador, Louis de Agassiz, estudando os depósitos de piemonte nos Alpes, concluiu que esses depósitos documentaram um período de glaciação generalizada na superfície do planeta Terra: uma teoria dita panglacial.

Estimulado a realizar viagens ao Brasil, acompanhado de excelentes discípulos (1864), Agassiz muito apressadamente identificou linhas de pedras abaixo dos solos vermelhos existentes nos barrancos dos morros da Guanabara e imediatamente as interpretou como fragmentos produzidos por geleiras cavalgantes. Imaginou que elas, ao escoarem pelas vertentes de morros e morretes, teriam fragmentado cabeças de diques de quartzo e arestas de rochas.

O fato básico é que o grande glaciologista, respeitado em todo o mundo cultural de sua época, observou bem e pioneiramente o ocorrer das linhas de pedras (stonelines), porém errou totalmente na interpretação geológica e geomorfogênica.

Costuma-se dizer que um pesquisador tem de saber observar bem, ainda que se possam perdoar interpretações aproximadas ou incompletas. No caso de Agassiz, a conclusão apressada e errônea teve implicações científicas muito graves. Decorreu quase um século para substituí-la por concepções mais exatas e consistentes. Fato que aconteceu durante o importante Congresso Internacional de Geografia realizado no Rio de Janeiro em 1956, quando cientistas de diversas partes do mundo puderam realizar pesquisas de campo em várias regiões do território brasileiro.

Temos salientado a importância das interpretações de Jean Tricart e André de Cailleux a respeito da gênese dos chãos pedregosos representados pelas stonelines encontradas em diversas áreas do Brasil. O grande mestre Tricart dizia para seus eventuais alunos brasileiros que, na região semi-árida do Nordeste, ocorriam manchas de chão pedregoso ocupadas por caatingas arbustivas. E que as linhas de pedras encontradas no Brasil Atlântico seriam o resultado da expansão de climas semi-áridos em certos momentos do período Quaternário.

Depois de muitas pesquisas de campo nas mais diversas re-giões do país, voltamos a pesquisar os morros do Rio de Janeiro e colinas da Baixada Fluminense, tendo a sorte de constatar relictos de cactos na base dos paredões rochosos nos arredores da Guanabara, além de mandacarus e xiquexiques em diversos pontos do Pão de Açúcar. Identicamente, em excelentes fotos tomadas por Marc Ferrez nos arredores do Rio de Janeiro, pode-se perceber que existiam relictos de cactos sob a forma de minirredutos em diversos patamares rochosos dos morros regionais. Do que decorre que hoje podemos melhor interpretar o cenário paleoecológico e fisiográfico da região vista em seu todo. E lembrando que entre Macaé e Cabo Frio existe o único setor de caatinga fora da região distante da core area do domínio semi-árido nordestino.

Por último, convém lembrar que o conjunto da Guanabara quando o mar se achava muito distante era um cenário típico das paisagens do Nordeste seco, cruzava colinas através de uma drenagem semi-embutida, passando por um boqueirão dos notáveis pontões rochosos do Pão de Açúcar e os do além-Rio, em Niterói. Se existissem povos pré-históricos provindos do sertão nordestino na época, eles estariam reconhecendo e vivendo numa região costeira dominada pela secura em um ambiente mais frio, com manchas de chão pedregoso e caatingas de diferentes tipos.

Aziz Nacib Ab`Sáber é professor emérito da FFLCH/USP e professor honorário do Instituto de Estudos Avançados/USP.

Scientific American Brasil

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Imagens turísticas do rio de Janeiro: memória, representação, identidade e sedução

Isabella Perrotta
PPHPBC/Cpdoc/FGV
Rio de Janeiro/RJ

Resumo:
Imagens participam da construção de identidades, imaginários e memórias. Desde que viajantes foram se transformando em turistas, a imagem funcionou tanto como representação e divulgação de lugares desconhecidos, quanto como memória para as experiências vivenciadas na viagem. Este artigo analisa imagens que participaram da construção do Rio de Janeiro como destino turístico, na passagem do século 19 para o 20. Especificamente, nos anúncios de hotelaria e nos postais da região portuária.
Abstract:
Images participate of the construction of identities, imaginary and memories. Since travelling were been transforming into tourism, the image functioned in such a way as representation of unknown places, as memory for the experiences lived in a trip. This article analyses images that had participated of the construction of Rio de Janeiro as touristic destination, in the passage of 19 th for the 20th century. Specifically, in advertisings of hotels and postcards of the port area.

Ainda hoje – mundo globalizado, de consumo acessível e bombardeado pela publicidade – as viagens estão mais no âmbito do ocasional ou do extraordinário, que do cotidiano. Viajar é justamente sair do dia-a-dia, e alguns lugares são visitados uma única vez na vida de uma pessoa. Por isso, as viagens sempre fomentaram a memória e estão associadas a objetos que estimulam a recordação. Objetos que levamos para casa como se estivéssemos levando um pouco do lugar visitado. Objetos que podemos presentear, também como se estivéssemos presenteando com um pedaço do lugar visitado.

Viajantes sempre desbravaram o mundo, mas a atividade turística é recente. Começa a se estruturar propriamente na Europa do século 19. O inglês Thomas Cook tem sido credenciado como um dos principais precursores do turismo organizado (de excursões). O que começou, sem fins lucrativos, com o planejamento da viagem de um grupo religioso, passa a ser, em 1845, sua atividade profissional logo oficializada com a empresa Thomas Cook and Son. Seus primeiros itinerários são pela Europa e, em 1872, promove sua primeira volta ao mundo. Thomas já era falecido, mas é a Cook and Son que traz, em junho de 1907, o primeiro grupo de turistas ao Rio de Janeiro, a bordo do navio a vapor Byron (BELCHIOR & POYARES,1987).

A partir da década de 1910 o Rio de Janeiro vai se constituindo em um “destino oficial” de turismo e, como tal, produz imagens para seduzir turistas e para fomentar recordações.

O conceito de turismo

Na passagem do século 19 para o 20 o conceito de turismo ainda não estava consolidado e as viagens ao Brasil eram majoritariamente motivadas por interesses comerciais e exploratórios. E a capital tropical de um império europeu despertava cada vez mais esses interesses...

Ainda em 1887, uma publicação brasileira – Impressões de Viagem Brazil-Europa – vai tratar a viagem enquanto fruição, tanto em relação ao europeu que visita o Brasil, como em relação ao Brasileiro na Europa.

O viajar hoje é indispensável ao espírito investigador, e por toda a parte o homem que se move sente que vive, e as impressões da viagem dão-lhe uma segunda educação.

Os que vêm visitar o novo mundo terão de admirar os grandes rios, serras e montes, colinas e várzeas, vastas florestas, de grandeza e esplendor como outra natureza não há superior.

Os que vão percorrer as terras da Europa aprenderão novos costumes e por toda parte admirarão também o esplendor da natureza e não menos o trabalho do homem. Marcando o progresso do século em que vivemos. Tudo é grande e belo aos olhos de quem viaja; por toda parte novas cenas se descortinam a seus olhos, e para a alma sempre novas impressões, como que a criatura que viaja sente-se livre, sem que nada o incomode. Tudo é alegria (GIOLMA, 1887)

O cenário carioca

Ao longo do século 19, depois da vinda da Coroa Portuguesa para o Brasil, o fluxo de imigrantes no país crescia, e o Rio de Janeiro era sua porta de entrada. Muitos viajantes-pesquisadores produziram farta documentação literária e iconográfica sobre a cidade e o país que, publicadas no exterior, despertavam interesse para com a terra exótica. Mas a viagem oceânica ainda cara e excepcional, as condições de insalubridade do Rio de Janeiro, e suas precárias estrutura urbanística e instalações hoteleiras, eram fatores desestimulantes ao turismo. Turismo totalmente estrangeiro. Por motivos econômicos, culturais e de infra-estrutura, não havia deslocamentos motivados pelo lazer, dentro do território brasileiro. Mas uma pequena elite já viajava para a Europa.

Se no outro tempo era grande essa antipatriótica falta de curiosidade, agora é muito pior: os paquetes a vapor e a facilidade das viagens ao Velho Mundo tiram-nos a vontade de passear o nosso, e é mais comum encontrar um fluminense que nos descreva as montanhas da Suíça e os jardins e palácios de Paris e Londres do que um outro que tenha perfeito conhecimento da história de algum dos nossos pobres edifícios, da crônica dos nossos conventos e de algumas das nossas romanescas igrejas solitárias, e até mesmo que nos fale com verdadeiro interesse dos sítios encantadores e das eminências majestosas que enchem de sublime poesia a capital do Brasil. Hoje em dia uma viagem a Lisboa é coisa mais simples do que um passeio ao Corcovado.

Entretanto, eu estou convencido de que se podia bem viajar meses inteiros pela cidade do Rio de Janeiro, achando-se todos os dias alimento agradável para o espírito e o coração.” (MACEDO, 1991 [1862]: 20)

No início do século 20, as transformações urbanísticas e o modismo do banho de mar vão valorizar as áreas litorâneas da cidade, onde foram construídos grandes hotéis. O Hotel Balneário, na Urca; o Copacabana Palace, em Copacabana e o Hotel Glória, na Glória. Empresas estrangeiras foram responsáveis por levar o bonde para locais que se tornaram valorizados pelo turismo – Leme, Copacabana, Jardim Botânico e Ipanema. O morro do Corcovado porém, que desde os tempos das charretes à cavalo já era uma atração turística, já tinha a sua estrada de ferro (Cosme Velho-Corcovado) desde 1885. Foi a primeira estrada de ferro construída no Brasil para atender a fins exclusivamente de turismo.

Alem dos hotéis-cassino à beira-mar, o perfil de montanhas, a Baía de Guanabara, o caminho aéreo para o Pão de Açúcar, a Cascatinha, a Floresta da Tijuca, o cais do porto (o antigo e o moderno), o centro urbanizado à la belle époque – incluindo o canal do Mangue, monumentos arquitetônicos como o Theatro Municipal e a Biblioteca Nacional, o Jardim Botânico e finalmente os festejos de carnaval e a praia mundana e urbana. Todos se tornariam famosos “cartões-postais do Rio”, ao longo da primeira metade do século 20.

Segundo Machado (2002), era desejo do governo brasileiro ver o Rio de Janeiro do início do século 20 – então uma das mais importantes metrópoles da América Latina – retratado em cartões postais, como uma cidade moderna e viável para atrair investimentos e visitantes. “Um bom cartão-postal do Rio de Janeiro não podia mostrar uma cidade imunda, pobre e feia, com ruas estreitas, becos e vielas, nem mostrar gente doente, abatida e mal vestida.” Foi necessária uma grande reforma urbana, que entre outras ações valorizou as áreas litorâneas, para que fosse possível mostrá-la como a cidade moderna e Belle Époque que, retratada por fotógrafos como Augusto Malta e Marc Ferrez, passou a estampar postais e a circular pelo mundo, despertando o interesse pelas paisagens cariocas.

A imagem e o turismo

Anúncios em jornais e revistas, cartões-postais e, posteriormente, cartazes foram as primeiras peças gráficas a serviço do turismo. O cartão-postal, surgido na Europa por volta de 1870, permitiu – em tempos ainda não globalizados – que a imagem das cidades circulassem pelo mundo, despertando interesse e atraindo o movimento turístico. Suas ilustrações privilegiaram as paisagens, reproduzindo inicialmente gravuras e, a partir do final do século 19, imagens fotográficas.

As imagens usadas pelo turismo constroem e/ou reforçam identidades (muitas vezes do âmbito do imaginário), e vendem peculiaridades. Mas, embora anúncios e postais tenham o mesmo objetivo – o de despertar o interesse por um lugar – suas linguagens comunicacionais são bem diferentes.

Enquanto o anúncio e o cartaz funcionam apenas como chamariz, o cartão-postal – que também funciona como publicidade para seu destinatário – tem ainda a função de lugar de memória (de acordo com a categoria de Pierre Nora, 1993). O postal é uma representação de uma experiência do presente, a ser evocada no futuro, quando passará a ser uma lembrança do passado. Indo além, podemos dizer que esta peça iconográfica contribui ainda para a monumentalização de aspectos ou lugares de uma cidade. E ainda: com o passar do tempo – vamos tratar aqui de imagens centenárias – estes passam da memória para a história. No mínimo, podem ser encarados como vestígios de história ou subsídios de pesquisa, à medida que exibem paisagens, prédios, traçados urbanos e até vestimentas que deixaram de existir. É claro que enquanto “lugar de memória”, as mensagens pessoais escritas nos cartões-postais também deveriam ser alvo de análise mas, no pequeno espaço deste trabalho, estamos considerando apenas as imagens e seus suportes e veículos.

Uma outra peça gráfica característica do setor turístico é o selo de bagagem (luggage label – como ficaram internacionalmente conhecidos), muito em voga em todo o mundo entre os anos 1930 e 50. Colado na bagagem dos clientes de grandes e sofisticados hotéis, os distintivos inicialmente serviam para que os próprios hotéis identificassem, facilmente, as malas de seus clientes nos portos e aduaneiras. Sem dúvida preencheriam também a função de lugar de memória, mas logo tais emblemas passaram a ter como função, explicitar o status social do viajante, exibindo em seus pertences as cidades e hotéis por onde passou.

Os souvenires turísticos que hoje são um extenso universo de objetos

que enfeitam paredes, estantes, e geladeiras nas mais remotas partes do globo ou circulam aderidos a corpos de diferentes gêneros, idades e etnias (Castro e Freire-Medeiros, 2006)

também devem ser considerados importantes lugares de memória, mas como surgiram num período posterior ao do nosso recorte temporal, não estão incluídos neste ensaio.

Aqui vamos examinar um pequeno grupo de anúncios publicitários e de cartões postais da passagem do século 19 para o 20. Os anúncios referem-se a hotéis (e seus restaurantes) e são as peças gráficas mais antigas que localizamos, no que diz respeito ao turismo no Rio de Janeiro. Os cartões-postais são fonte muito mais abundante e merecedora de uma considerável bibliografia, mas para este trabalho foram escolhidos alguns exemplares representativos de duas temáticas: hotéis e a área portuária do Rio de Janeiro.

Os hotéis, por serem serviço essencial para o desenvolvimento do turismo na cidade e por terem sido os primeiros, no setor, a se preocuparem com divulgação. A área portuária, por ser indissociável do viajante que entrava e saía da cidade por via marítima.

Estas imagens participaram da construção da identidade da cidade e também da memória que seus visitantes dela levavam. Identidade e memória são construções contínuas e a revitalização da história de um grupo [através de lugares de memória, por exemplo] obriga-o a redefinir a sua identidade (Nora, 1993: 19).

Falar em construção de identidade do Rio de Janeiro deste período, é lembrar que o seu contingente populacional era basicamente imigrante, e que a história da cidade era recente. Até 1808 o Rio era apenas uma colônia com pouquíssima infra-estrutura urbana. Apesar da imagem de exotismo que já tinha sido divulgada no exterior, a própria cidade não via sua natureza turística. Os hotéis do centro da cidade – como será visto no rol de anúncios selecionados – não queriam parecer pitorescos mas, ao contrário, dentro dos padrões internacionais.

A “natureza turística” de um lugar – assim como a identidade ou a memória – é uma construção histórica e cultural. Esse processo envolve a criação de um sistema integrado de significados através dos quais a realidade turística é estabelecida, mantida e negociada, e tem como resultado narrativas a respeito da cidade como destino turística. (Castro e Freire-Medeiros, 2006)

Os hotéis cariocas do século 19, eram pequenos e simples. Localizavam-se em geral no centro da cidade, funcionando em prédios adaptados e não construídos para esta função.

Segundo assinalaram os viajantes que escreveram sobre o Rio de Janeiro, os hotéis eram mais que medíocres e, também em pequeno número (de los rios filho, 2000: 279).

Estes estabelecimentos “inventaram” o hábito do carioca almoçar na rua com “mesas postas” ou serviços de “casas de pasto” (refeições tipo pensão) que eram sistematicamente anunciadas no jornal. Apesar de ter sido também um hotel – o Europa – o responsável pela introdução do serviço à francesa nas mesas do Rio de Janeiro (ibiden).

A medida que a cidade se sofisticava, e com ela sua natureza turística ia sendo construía, os hotéis melhoravam, oferecendo estruturas mais sofisticadas, incluindo os serviços para os residentes da cidade (como almoços, locação de salões de festas, jogos etc). Também afastando-se do centro e aproximaram-se do mar e das áreas mais bucólicas da cidade.

As Imagens

As fontes de análise deste trabalho são imagens, e existe a tentação de encará-las como realidade, principalmente quando são fotografias. Mas teremos o cuidado de não tomar ingenuamente as peças aqui examinadas como retratos absolutos de partes da cidade. Não podemos esquecer que elas pretendiam vender um Rio de Janeiro sedutor ou, pelo menos, interessante turisticamente. Burke (2004) demonstra que a iconografia histórica deve ser tratada como indícios ou fontes a serem interrogadas:

Eu continuo acreditando que os historiadores devem sempre utilizar imagens junto com outros tipos de evidência, e que precisam desenvolver métodos de “crítica das fontes” para imagens exatamente como o fizeram para os textos, interrogando estas “testemunhas oculares” da mesma forma que os advogados interrogam as testemunhas durante um julgamento. (Burke, 2004: ii)

O autor ressalta que as imagens podem ter sido criadas para comunicar uma mensagem própria e que é necessário ler suas entrelinhas, aprender algo que os artistas desconheciam estar ensinando – o que nem sempre os pesquisadores fazem. (ibiden: 18).

Para Burke, a representação iconográfica é quase sempre menos realista do que parece, e há que se levar em consideração a intenção do artista, do seu patrono ou chefe. Porém a vantagem do uso de imagem, como fonte, é a sua capacidade de fornecer evidências de aspectos da realidade social que as fontes textuais não deixam transparecer.

(…) o processo de distorção é, ele próprio, evidência de fenômenos que muitos historiadores desejam estudar, tais como mentalidades, ideologias e identidades. A imagem material ou literal é uma boa evidência da “imagem” mental ou metafórica do eu ou dos outros. (Burke, 2004: 37).

Em relação às imagens aqui apresentadas, cabe dizer que nos interessa não só o que estão mostrando (seu conteúdo), mas como estão mostrando (sua forma). Assim, a própria linguagem, narrativa e estética, dessa iconografia é também nosso objeto de análise, à medida que participam do discurso identitário e de convencimento.

O artista trabalha de forma subjetiva, elaborando seus próprios conceitos e usando seus sentimentos, seu estilo, sua memória, e até a memória de outros. Mas também pode produzir a serviço de interesses políticos ou econômicos. Chagas (2003) ressalta que os detalhes de uma pintura não são por acaso, pois tudo quer representar alguma coisa. “Tudo compõe o discurso do artista.” (ibiden: 161). Quase podemos dizer, então, que o artista é um operário na fabricação de um imaginário, autoral ou encomendado.

Os artistas operam como se soubessem que, nas suas obras, produzidas para fazer lembrar, não é a verdade o que está em jogo, e sim o acreditável, ainda que numa escala reduzida. Eles são agentes mediadores (gostaria de dizer “agentes de memória”) entre diferentes tempos, entre o acontecimento e a posteridade. Como mediadores individualizados e carregados de subjetividades eles se dirigem por meio dos indivíduos à coletividade; eles dialogam com o imaginário social. (Chagas, 2003:170)

Veremos adiante uma paisagem urbana, em frente ao Hotel Pharoux, que deve ter sido relativamente inventada, e também fotografias de embarcações que, sob determinado, ângulo exacerbam o conceito que desejam transmitir. São imagens seletivas que dirigem-se à coletividade e à posteridade, de forma imensurável (principalmente em se tratando de postais que viajavam o mundo). Por sua vocação para o além, postais, cartazes turísticos e selos de bagagem tornaram-se objetos de colecionismo – categoria que não será tratada aqui – ainda que as coleções também sejam lugares de memória.

Lugares de memória, na concepção de Nora (1993) têm necessariamente existência física e material, sendo seus principais exemplos: arquivos, bibliotecas, museus e pantheons. Por causa desta concretude, transferimos este conceito para os objetos. Especificamente objetos gráficos (imagens impressas). Objetos de memória de viagem.

É curioso que lugares físicos de memória, no sentido genuíno de Nora (1993) – como monumentos e museus – viram pontos turísticos e criam seus “objetos de memória” no sentido que estamos usando: postais e souvenires.

Lugares (ou objetos) de memória nascem e vivem do sentimento de que não há memória espontânea, da incerteza do futuro, da iminência do desaparecimento rápido e contínuo de tudo. Acessando, evidenciando e materializando memórias.

As primeiras imagens turísticas do Rio

Por motivos técnicos inerentes à sua reprodutibilidade, mas provavelmente também pela falta de uma cultura publicitária no segmento, os primeiros anúncios do negócio hoteleiro eram apenas de composição tipográfica, sem adornos ou ilustrações. Os textos – às vezes em língua estrangeira, justamente por dirigirem-se para o viajante ou imigrante – são bastante descritivos e destacam, com freqüência, o nome do proprietário, em geral europeu.

Podemos observar que os hotéis do centro da cidade, como o do Universo, oferecem menos atrativos e tentam conquistar outros clientes, além dos hóspedes, oferecendo serviço de refeições. Já o Murray’s Family, no Alto da Boa Vista (“a 1h e meia do Rio de Janeiro”) propaga as características da natureza aprazível, e em destaque, apresenta: sua localização, a Tijuca, e seu proprietário, John Murray.

Anúncio publicado no Jornal do Commercio, 9/7/1845.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:54.

Anúncio publicado no Hand Book of Rio de Janeiro, 1887.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:105

A gravura abaixo, de S.A.Sisson, c.1858, provavelmente era matriz de anúncio para jornal. É a representação do Hotel Pharoux, um dos mais famosos hotéis cariocas do século 19, que deu nome ao Cais Pharoux, nas suas proximidades, por onde desenbarcavam a maioria dos viajantes que chegavam de navio ao Rio de Janeiro.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:62

A literatura diz que o hotel não era bom (de los rios filho, 2000), mas a arquitetura mostra-se bastante suntuosa e a cena urbana aprazível: homens e mulheres bens vestidos, mucamas, cães, um barquinho, um negro carregando água na cabeça e nada que lembre a possível balbúrdia de região portuária.

O texto em três línguas (inglês, francês, português - nesta ordem) chama à atenção para o fato do hotel dispor de banhos, bilhares e uma vasta sala de jantar “dominando a Baía de Guanabara”. A grande maioria dos hotéis da cidade não dispunham de sala de banhos (existiam casas só para isso) e, neste caso, este serviço é o destaque da fachada, também nas três línguas.

Diferindo em muito do exemplo anterior, os próximos três anúncios seguem estilos semelhantes, apontando para uma linguagem alegórica, mais publicitária, onde se sobrepõem informações diferentes. Nota-se a influência das artes gráficas européias que preconizavam o estilo Art Noveau: letras desenhadas manualmente formando curvas, retratos em ovais, composição orgânica. Todos os elementos fazendo parte de uma mesma matriz de gravura.

Anúncio publicado na revista Mequetrefe nº70, 1876.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:154

Mais uma vez nota-se que os cafés e restaurantes dos hotéis são um atrativo para os moradores locais. Da cornucópia do Hotel Portugal saem ítens do seu cardápio: fiambre, panqueca, goiabada, guisados, vinhos, licores etc. (A cornucópia é em geral representada com frutas e flores, simbolizando fartura ou fortuna).

O Hotel Cruzeiro traz a palavra “Café” na sua própria designação, além da chamada: “Ricos salões para comedorias e Café”. As ilustrações mostram as estrelas do cruzeiro do sul (então, um forte elemento identitário), detalhes da decoração que quer parecer sofisticada; ao fundo, um garçom servindo e nos primeiros planos um par de cavalheiros conversando e fumando e um casal tomando chá, sugerindo a agradabilidade do local.

Anúncio publicado na revista Mequetrefe nº 130, 1877.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:147

O Hotel Argentino destaca a figura de um cozinheiro. As chamadas de texto enfatizam a localização na “rua principal e no ponto mais central da cidade, perto dos bondes” (rua do Ouvidor), “salas e quartos para solteiros e famílias”, “banhos quentes e frios e de chuva” (provavelmente o chuveiro), “cozinha francesa, portuguesa e italiana. Almoços e jantares à lista e à mesa redonda” (à la carte ou tipo buffet).

Nos três anúncios os nomes J.D.S. de Brito, Monteiro Bretas e Salvador Garlucci em bom destaque sugerem ser o nome dos proprietários, com a aparente intenção de personificar o negócio.

O próximo conjunto de três anúncios mostram mudanças estéticas e técnicas. Há uma evidente preocupação com a mudança de tipografias para as diferentes informações do texto, e as molduras e adornos já são matrizes tipográficas, em estilo Art Noveau bem definido.

Anúncio publicado na revista Mequetrefe nº 132, 1877.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987:144.

O texto do Grande Hotel Metrópole chama à atenção para o fato de situar-se “nas faldas do Corcovado”, ser “ocupado na quase totalidade por estrangeiros” e ter “banhos quentes e frios”.

Anúncio publicado no Álbum de Vistas, Comércio e Indústria do Rio de Janeiro, 1900.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 83

O anúncio do Hotel Guanabara refere-se aos banhos quentes e frios, e também à proximidade do banho de mar, na praia da Lapa, mas o destaque é para o fato de ser o prédio “expressamente edificado para recebimento de hóspedes e famílias” – um fato praticamente inédito. O texto do anúncio do Hotel dos Estrangeiros, no Catete, com seus 120 quartos e salão para banquete de 300 talheres, destaca ser este “o mais importante do Brasil, e o que rivaliza em comodidade, asseio, conforto e tratamento com os melhores hotéis da Europa e América”.

Anúncio publicado no Álbum O País, 1902.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 84

Anúncio publicado no Álbum O País, 1902.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 74

E a hotelaria descobre o cartão-postal... Alguns chegaram a ser produzidos a partir de desenhos, mas é evidente que a qualidade comunicacional da fotografia é mais convincente, principalmente nos quatro casos seguintes onde, evidentemente, o objeto de convencimento não são a estrutura ou serviços oferecidos e sim suas localizações. Segundo BELCHIOR e POYARES (1987) a região das Paineiras era considerada a mais salubre e encantadora do Rio de Janeiro.

Cartão-postal, c.1900, Hotel Vista Alegre, na rua do Aqueduto – atual Almirante Alexandrino.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 105

Cartão-postal, c.1900, Hotel Internacional.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 105

Cartão-postal, c. 1903, Grand Hotel Internacional, na rua do Aqueduto - atual Almirante Alexandrino.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 80

Cartão-postal c.1905 - Hotel das Paineiras, na encosta do Corcovado.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 109)

O hotel Avenida, inaugurado em 1908 na Av. Rio Branco, com 220 quartos, foi considerado a pedra fundamental da moderna hotelaria brasileira e provavelmente investiu mais que as empresas mais modestas, na sua promoção e publicidade. Os dois cartões postais abaixo são de 1915 e reproduzem imagens fotográficas. O primeiro, apresenta texto em francês anunciando sua capacidade para 500 pessoas e sua localização central “na avenida mais bonita da América do Sul.”

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 140

O segundo exibe uma panorâmica da av. Beira-Mar e a Glória, vendendo a imagem de uma cidade moderna e arejada.

Reprodução: BELCHIOR e POYARES, 1987: 140

Além dos hotéis e das vistas mais bonitas da cidade, a área portuária do Rio foi muito retratada em postais. Apesar de não ter uma vista encantadora, necessariamente era um lugar por onde o turista teria circulado e, mais tarde, olhando tais imagens, certamente lembraria da vivência ali passada.

Além da geografia do local, são retratadas as situações de trabalho, os mercados, e a movimentação da população que provavelmente caracterizavam aspectos bem diferentes da Europa. Talvez até caracterizando-se numa atração em si...

Imagens mostram embarcações fundeadas na Baía de Guanabara, cercadas por pequenos barcos que iam ao seu encontro para transportar os passageiros para os cais Pharoux ou o dos Mineiros (ambos na região do Largo do Paço – atual Praça XV), pois não existia cais com profundidade na cidade.

Região da Praça XV de Novembro e Ilha das Cobras a partir do Morro do Castelo c.1900.

Editor não identificado, coleção Laire José Giraud. Reprodução Gerodetti e Cornejo, 2006: 18.

Vista do Mercado da Praia do Peixe (proximidades da atual Praça XV onde eram vendidos peixes, frutas e até macaco e jacaré), provavelmente antes de 1904 quando foi parcialmente destruído por incêndio.

Editor não identificado, coleção João Emílio Gerodetti. Reprodução: Gerodetti e Cornejo, 2006: 18.

Circa1905. Editor não identificado, coleção Laire José Giraud. Reprodução Gerodetti e Cornejo, 2006: 18

A modernização do porto, que então passaria a atracar grandes vapores e paquetes, pode não se configurar num ponto turístico, mas certamente significa que a cidade está se modernizando e se aparelhando para receber seus visitantes. O porto, então, continua sendo um assunto para cartão-postal. Um postal, de 1909, retrata a estrutura flutuante utilizada na construção do novo cais do porto do Rio, outro mostra seu resultado, depois da inauguração.

Editor não identificado, coleção João Emílio Gerodetti, publicado em Gerodetti e Cornejo, 2006.

Editor não identificado, coleção João Emílio Gerodetti, publicado em Gerodetti e Cornejo, 2006.

Com esse pequeníssimo grupo de imagens, pode-se perceber um pouco o processo de construção do discurso turístico da cidade e a construção da sua identidade, num momento em que se espelha em referências (gráficas inclusive) européias.

No início do século 2O, o turismo programado vai tornando-se moda na Europa. Novos, distantes e pitorescos destinos são procurados. As viagens oceânicas se intensificam com luxuosos navios cruzando o Mediterrâneo e o Atlântico. As estações termais e o banho de mar, antes com fins terapêuticos, tornam-se sofisticados centros de prazer. A maioria dos hotéis cariocas são gerenciados por estrangeiros que, aos poucos, tentam mostrar profissionalismo, edificando prédios próprios para o fim, melhorando suas estruturas e aprendendo a usar narrativas de convencimento.

Essas narrativas são eletivas – mostra-se ou deixa-se de mostrar o que se quer – fortalecem a identidade da cidade enquanto destino turístico e constituem um repertório de memória enquanto “estoque material daquilo que nos é impossível lembrar”. (Nora, 1993: 15)

Identidades são criadas e estas inventam suas tradições, que tanto podem resultar em lembranças como em esquecimento. A medida em que desaparece a memória tradicional, ou naturalmente outras coisas vão ganhando espaço nas nossas referências, é como se tivéssemos que juntar provas ou acumular vestígios, “testemunhos, documentos, imagens, discursos, sinais visíveis [grifo nosso] do que foi” e não poderia ir. (Nora, 1993: 15)

Lugares de memória são lugares em três sentidos simultâneos, porém em graus diversos: material, funcional e simbólico.

É material por seu conteúdo demográfico; funcional por hipótese, pois garante, ao mesmo tempo, a cristalização da lembrança e sua transmissão; mas simbólico por definição visto que caracteriza por um acontecimento. (Nora, 1993: 22)

O lugar de memória é uma ilusão de eternidade. A indústria do turismo cria objetos físicos para “ancorar a memória” (Nora, 1993: 9), significa dizer que tendo-se passado o tempo da intimidade da vivência de uma memória, passa-se a viver sob o olhar de história reconstruída.

Numa excursão turística é comum não dar tempo de ver “tudo”. O cartão postal é lugar de memória capaz de evocar um ponto turístico que se quer foi visitado, ou uma vista, um ângulo que nunca foi presenciado. Revendo as lembranças da viagem, chega-se a acreditar que estivemos naquele museu ou naquela parte da cidade. As descrições dos outros, e a vivência que tivemos misturam-se. A memória coletiva parece-nos individual. A memória individual é um ponto de vista da memória coletiva que depende de tempo, espaço e dos quadros sociais (Halbwachs, 1990).

As recordações de viagens – fotografias, postais, souvenires – evocam memórias: de experiências vividas, de lugares e de temporalidade. A princípio estes objetos dizem respeito à alguém. Podem dizer respeito a um grupo que troca experiências e memórias. Mas, ao longo do tempo, passam de mão em mão, servem aos colecionadores e historiadores. Deixando de ser o “eterno presente” – memória – para transformarem-se em “representação do passado” – história – (NORA, 1993: 9), e deles faremos uso para descobrir, em nossas pesquisas, alguma coisa que ainda não foi revelada...

Bibliografia:

Belchior, Elysio e Poyares, Ramon. Pioneiros da Hotelaria no Rio de Janeiro. Senac Nacional. Rio de Janeiro, 1987.

Burke, Peter. Testemunha ocular. Bauru, EDUSC, 2004.

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Fundação Getúlio Vargas