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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Rapidinhas da História... Utopia



o que podemos entender como utopia? 

Carlos Eduardo Berriel
 – Atualmente existe uma discussão bastante avançada sobre o sentido histórico e literário da utopia, e tivemos inclusive um grande congresso internacional, aqui na Unicamp, visando avançar neste sentido.
Indubitavelmente, a utopia é um gênero literário, de composição mista, pois engloba os campos de reflexão da política, da ética, da religião, etc. Ao contrário da crença comum, a utopia não é, dominantemente, uma visão ficcional do futuro, e sim uma reflexão sobre o presente, considerado este como o complexo de graves problemas sociais e políticos que alarmam o ambiente cultural do utopista. A Utopia de Morus, por exemplo, é uma reflexão satírica sobre os graves problemas que a Inglaterra vivia com a dissolução da comunidade feudal e o surgimento da sociedade capitalista.
A série das obras utópicas, que principia com Thomas Morus, surge quando da substituição da comunidade feudal pela sociedade moderna. De forma muito breve, podemos dizer que a comunidade é uma forma de vida coletiva em que seus membros possuem um lugar pelo simples nascimento em seu âmbito. Pobres ou privilegiados, há lugar para todos. Ao contrário, na sociedade moderna, este lugar deverá ser obtido por um processo de concorrência e eliminação dos derrotados. Na comunidade prevalece o costume e as normas da tradição, na sociedade prevalece o interesse econômico. Nas utopias clássicas não há propriedade privada e, consequentemente, nem ricos nem pobres. Este fato, entretanto, não deve ser visto como um prenúncio do socialismo, embora este movimento, muitas vezes, o considere uma forma de ancestralidade. Já na República de Platão há o comunismo de bens, e mesmo o cristianismo primitivo é fortemente considerado pelos autores utópicos.
A utopia nasce, no começo do século XVI, interessada em sopesar os efeitos desta nova forma de vida associada, com a qual nascia o Estado e a sociedade burguesa. As utopias, então, experimentam virtualmente, através de uma composição de traços satíricos e metafóricos, formas possíveis de Estado que possam conviver com a comunidade dos homens. Este desenho imaginário assume a forma de um ideal político, de uma sociedade onde todos estarão bem.
Muitas são as indagações implícitas às utopias clássicas, dos séculos XVI e XVII: como será o Estado que nasce da traumática superação do mundo feudal? Que características terá, se incorporar o máximo da racionalidade cientíbfica em processo de criação? Diante de um Estado alargado ao limite, como viverá o indivíduo? Mantida a religião na nova sociedade, qual será a sua feição? Absorvida e confundida com o Estado, que então terá uma face sagrada? Será possível ao indivíduo construído pelo Humanismo subsistir diante de um Estado absoluto, sustentado pelo racionalismo burguês?
Estas e muitas outras questões, postas pela realidade, são respondidas pelas utopias – e basta isso para dizer que este gênero se alimenta da realidade mais concreta, e não por devaneios sociais, como afirmam seus detratores.
O peso da herança platônica e de outros autores, como Aristóteles, Luciano de Samósata e Santo Agostinho, é enorme. Comumente uma obra utópica traz em si, de forma criptografada, toda a biblioteca de seu autor. Embora lamentem a perda histórica da comunidade, as utopias iniciais costumam ser otimistas com o Estado moderno, vendo neles um instrumento de superação da miséria material e dos vícios societários, como a preguiça, a exploração e a injustiça. Este é apenas um dos paradoxos típicos da utopia. Há nisso uma junção imaginária entre a justiça da comunidade e as conquistas científicas. A utopia nasce também daquele otimismo sobre as possibilidades humanas de escrever seu próprio destino, individual e coletivo, que é a face mais marcante do Humanismo da Renascença.

O homem atual é capaz de produzir utopias? 

Berriel 
– Historicamente, e dentro de seu estatuto literário, as utopias sempre puderam ajudar a compreensão dos quadros culturais, sociais e políticos que as geraram. Se a utopia tiver uma função social hoje, será a mesma de sempre: criar uma imagem do mundo a partir das opções históricas postas pela realidade. Acredito que atualmente – e há mais de um século – a utopia “típica” não é mais escrita. Em seu lugar existe sua irmã gêmea, a distopia, que é a obra que mostra uma sociedade perfeita em sua malignidade. Desta série podemos citar as obras de George Orwell, 1984 e Fazenda de Animais, e a de Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo. Toda a consciência crítica do século XX dependeu, decisivamente, destas distopias. Uma outra forma da distopia pode ser a ficção científica, um galho da árvore utópica, e que se caracteriza pela dilatação ao extremo dos efeitos que a tecnologia desprovida de controle ético tem sobre a sociedade.

Até que ponto o individualismo atrapalha ou inibe a formação de utopias coletivas na sociedade contemporânea? 

Berriel 
– Curiosamente, a noção de indivíduo, que nasce na Antiguidade grega, teve um grande desenvolvimento no Renascimento e, inclusive, na obra dos pensadores que foram centrais para a utopia, como Pico della Mirandola e Erasmo de Rotterdam. Entretanto, o indivíduo que eles conceberam não era anti-social, e viam a polis (isto é, o ambiente de civilidade em que viviam) como substrato irrenunciável à sua própria existência individual. Se o indivíduo da Renascença considerava possível considerar sua vida como auto-construção autônoma – o homem como autor de si mesmo – estava a um passo de considerar a vida coletiva como passível de ser fruto de uma deliberação racional e livre. É esta mentalidade que tornou possível a utopia, isto é, a ideia de uma polis construída a partir da livre razão de seus cidadãos. O individualismo, que é contemporâneo, aparece como uma supressão da individualidade da Renascença justamente por sua negação congênita do interesse social.

Uma utopia é ou deve ser algo realizável? 
Berriel 
– Sou da opinião de que as utopias, pelo menos nos seus primeiros dois séculos, existem como obras de ficção política, não sendo diretamente propostas de realização efetiva. Possivelmente, nos entornos da Revolução Francesa, elas poderão ter assumido este caráter de propositura, somado à reflexão ético-política. Mas estou certo de que as utopias mais arquetípicas não oferecem um roteiro estrito para ser seguido por engenheiros sociais – que, aliás, surgem apenas após a Revolução Industrial. As utopias são essencialmente ficções nutridas pela filosofia política.


Uma utopia é ou deve ser algo realizável? 
Berriel 
– Sou da opinião de que as utopias, pelo menos nos seus primeiros dois séculos, existem como obras de ficção política, não sendo diretamente propostas de realização efetiva. Possivelmente, nos entornos da Revolução Francesa, elas poderão ter assumido este caráter de propositura, somado à reflexão ético-política. Mas estou certo de que as utopias mais arquetípicas não oferecem um roteiro estrito para ser seguido por engenheiros sociais – que, aliás, surgem apenas após a Revolução Industrial. As utopias são essencialmente ficções nutridas pela filosofia política.
Jornal da Unicamp

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Anarquia - Aqui e agora?


Dois séculos atrás, os anarquistas imaginaram um mundo sem chefes, leis ou políticos. Hoje, a tecnologia está tornando esse sonho - ou pesadelo - mais próximo do que você imagina
Texto Eduardo Szklarz

Que tal viver em um mundo sem hierarquia e sem leis, sem governos nem papas? No século 19, os anarquistas imaginaram uma sociedade assim. Os indivíduos se encontrariam acima dos Estados, criando e dividindo produtos entre si. Não existiriam monopólios, e o conhecimento seria produzido de forma coletiva. Nacionalidades seriam desprezadas, e as mulheres teriam os mesmos direitos que os homens. "O homem só se emancipa e se liberta através do esforço coletivo de toda a sociedade", dizia o anarquista Mikhail Bakunin. Um discurso bonito, mas impossível. Salvo algumas experiências efêmeras, o anarquismo nunca virou realidade.

Será? Hoje, a Wikipedia é a maior enciclopédia do mundo graças ao esforço coletivo dos internautas. Como prega o anarquismo, ela foi formada pelos próprios leitores, que escreveram e editaram verbetes. No ano passado, os brasileiros dividiram entre si mais de 1 bilhão de arquivos de música e levaram milhões de vídeos a sites de conteúdo coletivo como o YouTube. Artistas e bandas famosas, como David Byrne e os Beastie Boys, declararam suas músicas de uso público, como fariam os anarquistas. Fora da realidade virtual, está na moda proteger os animais e deixar de comer carne – bandeiras lançadas pelos pensadores libertários do século 19.

Estamos vivendo em um mundo anarquista?

História das idéias

A princípio, não. "O poder do Estado pode estar menor, mas não foi substituído pelo poder popular", diz o historiador britânico Michael Eaude. Além disso, o espírito comunitário e os movimentos baseados no esforço coletivo sempre existiram. Na Antiguidade, os filósofos taoístas pregavam ideais libertários, e os estóicos advertiam que o homem não devia ceder diante da opressão. Durante a Idade Média, diversas seitas religiosas (como os valdenses e os albigenses) se organizaram num esquema de autogestão fora das ordens do papa. Porém, a união da Igreja com os Estados impedia que essas manifestações coletivistas deixassem de ser marginais.

A coisa só mudou no século 18, quando a diferença entre sociedade civil e Estado ficou clara. Foi quando a Revolução Francesa desbancou o rei, guilhotinou os nobres e ceifou o poder da Igreja. A partir de então, conceitos esquecidos, como democracia, igualdade e liberdade, ganharam força. As pessoas se deram conta de que Estado é uma coisa, sociedade é outra. E se a sociedade se apoderasse do governo? E se pudesse viver sem ele? Com essas idéias na cabeça, o povo saiu às ruas de toda a Europa do século 19, se organizando em torno de duas ideologias principais.

Uma era a do alemão Karl Marx, que via na luta de classes a raiz de problemas como pobreza e violência. Para Marx, a dominação de classes desapareceria só depois que os revolucionários tomassem o poder e transferissem a propriedade para a esfera coletiva. Algo como confiscar todos os bens e dividi-los entre todos. Já o francês Joseph Proudhon pensava diferente. No livro O Que É a Propriedade?, ele afirmou que "a propriedade é um roubo" e "os governos são a maldição de Deus". Ou seja: Proudhon condenava a propriedade privada do mesmo jeito que Marx, mas rejeitava qualquer forma de Estado, mesmo com os trabalhadores no comando. "Como buscam o poder, todos os partidos são variantes do absolutismo", dizia.

Em 1872, seus seguidores romperam com os marxistas durante o Congresso de Saint-Imier, na Suíça. "Eles deixaram claro que a destruição de qualquer poder político era o primeiro dever do proletariado", diz o escritor argentino Eduardo Colombo no livro La Voluntad del Pueblo ("A Vontade do Povo", inédito no Brasil). O segundo passo seria a associação dos indivíduos por meio de cooperativas operárias, que em conjunto formariam uma federação. Várias federações conduziriam à sonhada sociedade libertária, livre de opressão.

Para as cooperativas saírem do papel, Proudhon apostava num tal Banco do Povo, que emprestaria com juro mínimo para que o pessoal levasse adiante seu negócio sem depender de patrão. Na linguagem anarquista, essa prática é chamada de mutualismo. Proudhon se elegeu deputado para conseguir apoio à causa, mas logo viu que o trabalho na Assembléia apenas o afastava do povão. Era um governante que não queria governar. Em vez da democracia representativa, ele propunha a ação direta. Você mesmo faz o que te diz respeito.

O Banco do Povo até chegou a ser criado, mas nunca funcionou direito por causa da língua solta de seu fundador. Proudhon vivia criticando o governo de Napoleão 3º em artigos de jornais. Acabou preso. Mas o caminho já estava aberto para outros libertários. Um deles foi o russo Mikhail Bakunin, que adicionou pimenta revolucionária na receita anarquista. "Destruir para criar!", bradava o grandalhão enquanto fugia das tropas do czar Alexandre 2º. No manuscrito Deus e o Estado, Bakunin denunciava os absurdos cometidos em nome do criador: "Se Deus existe, então o homem é escravo. Mas o homem pode e deve ser livre; portanto, Deus não existe".

Bakunin concordava com Marx sobre a idéia de dividir fábricas, empresas e fazendas entre todos. Mas dizia que ela não deveria ser feita por uma autoridade, e sim por uma decisão do povo, de baixo para cima. O anarcocomunismo ganhou impulso com outro russo, Piotr Kropotkin, cujo lema era "de cada um segundo sua capacidade e a cada qual segundo sua necessidade".

Com ou sem diferenças, os anarquistas trataram de colocar suas idéias em prática. Alguns foram para o movimento operário, influenciando os trabalhadores e todo o pensamento de esquerda que segue até hoje. Outros decidiram também criar sociedades perfeitas a partir do zero em lugares distantes como o Brasil (leia quadro na página ao lado). "A anarquia não começaria numa data marcada, mas como um processo contínuo à medida que o homem evoluísse e deixasse o mundo animal", afirma Colombo. Essa é a lógica anarquista: se a sociedade é um produto natural, então o homem não precisa de nenhum fator externo para viver em harmonia. Portanto, todos aqueles que tentam impor leis e governos são inimigos. Tudo muito lindo, muito justo. Mas será que funciona?

Mil caminhos

"Seus seguidores podiam estar de acordo com seus objetivos básicos, mas tinham profundas divergências quanto às táticas para atingi-los", afirma o escritor canadense George Woodcock, autor do livro Anarquistas. Nada mais natural: uma ideologia que é contra o poder não podia mesmo ter uma liderança ou um ideário unificado. Na virada para o século 20, ela se dividiu em um espectro que ia do anarcocomunismo ao anarcoindividualismo, passando pelo anarcocapitalismo (leia quadro nas págs. 68 e 69).

O escritor russo Leon Tolstoi pregava a resistência não violenta contra o Estado, enquanto o italiano Errico Malatesta defendia a greve geral e a expropriação de terras. Já o anarquista russo Sergei Nietchaiev não queria saber de papo: o negócio era partir pro ataque. Em seu Catecismo Revolucionário, ele conclamava seu séqüito a cometer todos os assassinatos necessários e a roubar para financiar as operações supostamente libertárias.

Foi quando começaram a pipocar bombas contra nobres, políticos e delegados na Europa. Uma figurinha temida da época foi o francês Jean Ravachol, que detonava dinamite nas casas dos juízes. Ravachol acabou na guilhotina, mas seus simpatizantes mataram vários líderes. A partir de 1894, em menos de 20 anos, anarquistas mataram dois primeiros-ministros espanhóis, o rei Humberto da Itália, a imperatriz Elizabeth da Áus-tria, o presidente francês Sadi Carnot e, em 1901, até mesmo o presidente dos EUA, William McKinley.

Os parlamentos responderam com leis antianarquistas, e a polícia os tratou como bandidos comuns – cristalizando a noção de que anarquismo é sinônimo de caos. Muitos acabaram acusados injustamente. Nos EUA dos anos 20, os imigrantes italianos Nicola Sacco e Bartolomeu Vanzetti foram acusados de matar dois funcionários de uma fábrica que transportavam o pagamento dos empregados. Resultado: Sacco e Vanzetti acabaram na cadeira elétrica apesar da falta de provas. Muitos dizem que o veredito seria diferente não fossem eles anarquistas. A história inspirou o filme Sacco e Vanzetti e virou título de uma canção da cantora Joan Baez, um dos ícones do Festival de Woodstock.

"Nunca houve muitos anarquistas, exceto na Espanha dos anos 1890-1939", diz o sociólogo Christian Ferrer, da Universidade de Buenos Aires. "Eram alguns punhados, a maioria viajantes. Para ficar longe dos princípios autoritários do marxismo, eles diziam que a revolução tinha que ser antes social que política. E, antes de tudo, pessoal. Muitos se negaram a casar na igreja e a usar cartório. Eram contra a aposentadoria, a esmola e a gorjeta, pois diziam que o ideal era ter um trabalho coletivo. Se fossem assalariados, que pelo menos tivessem um salário digno. Alguns anarquistas deram a seus filhos nomes como Libertário, Perseguido, Germinal, Amanhecer, Aurora e Esperança. Um famoso anarquista colombiano mudou seu nome para Biófilo Panclasta (amante da vida, destruidor de tudo). Os anarquistas também evitavam o bordel, o álcool e o jogo por dinheiro, pois essas coisas paralisavam a razão e impediriam a mudança social. "Podemos rastreá-los hoje em grupos individualistas e anticlericais, estéticas de vanguarda, direitos humanos, no pacifismo, no movimento pelo uso prazeroso do corpo e nos protetores dos animais", diz Ferrer.

Essa gente causou um barulho danado, mas não conseguiu implantar sociedades anarquistas duradouras. "A idéia dos contratos entre pessoas é linda, mas ingênua. Sempre vai ter quem se aproveita dos contratos dos mais fracos", diz Antonio Martino, professor de ciência da legislação da Universidade de Pisa. "Para resolução pacífica de conflitos, nada melhor que regulamentar. E o ideal é ter sanções." Mesmo assim, as idéias libertárias influenciaram o mundo. Talvez você não perceba, mas várias práticas do seu dia-a-dia também derivam dessa fonte. Você estudou em salas mistas, com meninos e meninas? Pois turmas assim eram comuns nas escolas anarquistas do fim do século 19. Por acaso está pensando em juntar com o namorado? Saiba que o amor livre (a livre união entre as pessoas sem casamento ou contrato) era um dos refrões libertários mais de 100 anos atrás.

Liberdade online

A diferença é que hoje, com a internet, os fenômenos libertários não são mais utópicos ou marginais. Pelo contrário. De cara, a internet fez uma baita revolução contra a TV ao juntar o emissor com o receptor da mensagem. No lugar da passividade, a ação direta. A web também abriu a era do conhecimento livre e compartilhado. A largada foi dada nos anos 80, quando o programador americano Richard Stallman bolou um sistema operacional de código aberto e o chamou de GNU (sigla para "GNU não é Unix", em alusão a um sistema operacional da época). Com ele, você mesmo corrige e melhora o trabalho de outros. Em 1991, surgiu o filhote mais famoso do GNU: o Linux, um sistema aberto alternativo ao monopólio do Windows que inaugurou a onda dos produtos feitos por voluntários e distribuídos de graça. Era o início do chamado movimento software livre. Hoje, esse método é usado até em videogames. Nos games mods (de "modification"), o jogador tem acesso ao código- fonte do game, podendo modificar as regras, os cenários e até os personagens.

Em 1994, outra revolução veio com o conceito wiki, baseado na colaboração de todos os habitantes do planeta que tenham conexão a internet. "Não me considero anarquista, mas há algo de anarquismo no wiki já que nele tudo é feito de baixo para cima", disse à Super o programador americano Ward Cunningham, criador do sistema wiki. Não demorou para que esse conceito inspirasse a Wikipedia, a enciclopédia grátis da internet cujos artigos são escritos a várias mãos. Ao contrário dos catataus de quando você era criança, na Wikipedia os textos são alterados pelos leitores à medida que o conhecimento avança. É como o que dizia Bakunin sobre o esforço coletivo para libertar a sociedade.

No mundo dos negócios, a onda wiki inspirou o livro Wikinomics, que está sendo escrito pelo consultor canadense Don Tapscott. "Ao aproveitar a tecnologia da colaboração planetária, os funcionários, clientes, fornecedores e até competidores estão mudando a forma de elaboração de produtos e serviços", afirma ele. Um exemplo disso é o portal YouTube, que reúne 100 milhões de vídeos grátis – 65 mil vídeos novos por dia. O portal abriga de tudo, de vídeos feitos por quem assiste até programas das emissoras convencionais. Com 20 milhões de visitas por mês, essa nova (des)organização vem mudando as regras da indústria do entretenimento. A gravadora Warner se associou ao YouTube para distribuir discos; as TVs CBS e NBS também fizeram acordos para difundir seus seriados; e o cantor Beck já anunciou que as faixas e os clipes do novo cd vão estar de graça no site.

Empresas como o buscador Google, que se baseiam no comportamento de gente do mundo inteiro, também viraram motivo de análise. Em The Wisdom of Crowds ("A Sabedoria da Multidão"), o jornalista americano James Surowiecki afirma que grandes grupos são mais inteligentes que uma elite. São melhores para inovar e resolver problemas. "O melhor grupo de decisão vem de múltiplas decisões de indivíduos independentes", afirma Surowiecki, repetindo o que Proudhon dizia, 160 anos atrás.

Mas essa colméia digital também sofre críticas. Para o cientista de computação Jaron Lanier, que popularizou o termo "realidade virtual", a colaboração planetária acaba com a criatividade individual para formar uma massa sem rosto, que ele chama de "maoismo digital" (em alusão ao regime do ditador chinês Mao Tsé-tung). Para ele, esse esforço coletivo acaba reproduzindo a vida rotineira de uma colméia e nivelando por baixo o produto final. "A beleza da internet é conectar as pessoas. O valor está nos outros. Entretanto, se começarmos a acreditar que a internet em si é uma entidade que tem algo a dizer, vamos desvalorizar essas pessoas e nos fazer de idiotas", afirma.

No campo da ciência, os ideais libertários confrontam-se com a crescente restrição do livre fluxo de informação científica. Um estudo publicado pela Associação Médica Americana em 2002 mostrou que 47% dos geneticistas não puderam ver trabalhos de colegas devido a leis restritivas, um aumento de 34% em relação ao estudo anterior, de meados dos anos 90. Muitos acabam fazendo pesquisas já realizadas por outros cientistas. É aí que entra em cena o Creative Commons, uma ferramenta que conjuga propriedade intelectual com maior acesso. Na prática, o autor continua tendo alguns direitos sobre a obra, mas não todos; e o público se beneficia com mais obras disponíveis. Em pouco mais de 3 anos, essa iniciativa já licenciou 140 milhões de trabalhos na web por meio do Google. "Não somos contra o copyright, que no fim das contas é um monopólio garantido pelo Estado. Porém, contamos com voluntarismo, cooperação, descentralização, bases do pensamento anarquista", diz Mike Linksvayer, do Creative Commons. Para o escritor e teórico de cibercultura Bruce Sterling, esse é o modelo ideal. "Tem forte influência de idéias coletivistas, ao contrário do download de mp3", afirma ele. "Prejudicar os interesses econômicos das pessoas não é coletivismo, mas pirataria."

Ainda mais próximo do ideal anarquista é o chamado copyleft, que faz trocadilho com o copyright (right é direita, left é esquerda): ele permite a reprodução do material para fins não comerciais, desde que citada a fonte. Muita gente duvida que esse sistema vigore um dia. Mas, para Eben Moglen, professor de direito da Universidade de Columbia, esse dia está mais perto do que pensamos. No artigo Anarquismo Triunfante: Software Livre e a Morte do Copyright, ele afirma que o software livre foi o primeiro passo rumo ao fim da propriedade intelectual. "Temos uma visão de como será o futuro da criatividade humana em um mundo de interconexão global."

Comunidades virtuais

A internet também tornou possível a criação das chamadas redes transnacionais. Com o barateamento da telefonia e do transporte entre países, tornou-se possível relacionar-se intensamente com pessoas a milhares de quilômetros de distância umas das outras. "Ao contrário das outras duas formas de organização (o mercado e a hierarquia), a rede é horizontal, recíproca e voluntária", diz a socióloga Kathryn Sikkink, da Universidade de Minnesota. Opa: esses são os princípios do anarquismo de Proudhon!

Há redes de todo tipo – de direitos humanos a meio ambiente – e muitas delas se opõem ao Estado. Em Londres, uma rede de direitos humanos prendeu o ex-ditador chileno Augusto Pinochet em 1998. Até então, nenhum governo tinha tomado essa iniciativa. "Pode acontecer que até integrantes de um governo façam parte da rede. O juiz Baltazar Garzon é membro do sistema judicial espanhol e conseguiu levar adiante a ação contra Pinochet, o que o governo espanhol não queria", diz Sikkink.

Graças ao conceito de rede, estar num lugar já não significa pertencer só à comunidade local, como mostrou Mohammed Atta, líder dos ataques do 11 de Setembro, que freqüentava boates americanas enquanto fazia parte da mais perigosa seita fundamentalista. Podemos também pertencer a comunidades sem importar o local onde vivemos, a exemplo do orkut. Além disso, cada vez mais pessoas moram num país e trabalham em outro, espécies de cidadãos acima dos Estados. Empresas de telemarketing dos EUA contratam funcionários na Venezuela para vender produtos aos americanos (ligando de Caracas).

Mas a rede também alenta o traço anarquista de potencializar o terror. É certo que anarquistas e jihadistas têm metas opostas: uns querem abolir o Estado, outros buscam implantar um Estado ainda mais autoritário, a teocracia. Mas os métodos coincidem. "Para jihadistas, leia-se anarquistas", estampou uma reportagem especial da revista inglesa The Economist no ano passado. Os dois grupos usam a "propaganda pela ação". Kropotkyn dizia que um ato vale mais que 1000 panfletos. Bin Laden não tem dúvida disso: atos como os dele surgiram na história moderna com os revolucionários de esquerda. Se por um lado o conceito de redes nos liberta, por outro propicia distopias como essas.

Rumo ao anarquismo?

Para o bem ou para o mal, os dias de hoje herdaram vários traços do anarquismo. Mas isso não significa que estamos caminhando para uma sociedade sem chefes ou governo. "Boa parte do poder do Estado tem sido ocupado pelas multinacionais – a antítese da organização anarquista de baixo para cima", diz Michael Eaude. Também não basta a ausência de Estado para que a sociedade libertária aconteça. Como dizia o anarquista italiano Errico Malatesta, ela só será possível se a comunidade quiser.

E ninguém imagina que um dia viveremos sem comércio ou dinheiro. "A história nos ensinou que não dá para prescindir do mercado. Não se pode falar em autonomia das pessoas se eliminamos a autonomia econômica", diz o cientista político Fábio Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais. Ou seja: existem vários motivos para a existência da propriedade e do governo. "A sociedade precisa de certa ordem para evitar a barbárie, e o autogoverno é o caminho mais rápido para a barbárie", diz o cientista político Marcus Figueiredo, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). "À medida que o auto-governo se espalha, a ordem social vai sendo quebrada." O problema é que, na história, o Estado já resultou em barbáries maiores que as que a anarquia poderia tornar possível. O cientista político Rudolph Rummel, da Universidade do Havaí, coletou o número de assassinatos que os Estados cometeram no século 20. Na ponta do lápis: 170 milhões. Os mais mortíferos foram URSS (62 milhões), China (35 milhões) e Alemanha nazista (21 milhões).

Anarquistas ou não, o fato é que estamos vivendo uma transformação desse polêmico conjunto de instituições que chamamos de Estado. No século 17, o Estado nasceu por duas concepções principais. A primeira foi a do inglês Thomas Hobbes. Ele dizia que os homens viviam no chamado estado de natureza, em que os temores e as paixões provocavam uma luta de todos contra todos. Para se proteger, não haveria outra saída que se submeter a um governo com o monopólio da força, que Hobbes comparava com um monstro da Bíblia chamado Leviatã. É simples: as pessoas abrem mão de parte da liberdade em troca de proteção.

A segunda concepção vem da Paz de Westphalia, um tratado firmado em 1648 que fez do Estado a mais importante unidade política da Europa, acima da Igreja e dos indivíduos. "Ao contrário da barganha indivíduo-Estado pensada por Hobbes, esta era entre os países. Ou seja: eu reconheço que você existe e não interfiro dentro de suas fronteiras", diz o sociólogo Michael Stohl, da Universidade de Purdue, EUA. Em outras palavras, os Estados nacionais ganharam soberania.

Hoje, esses dois modelos vivem uma grande crise. O Estado não protege um cidadão contra o outro, como provam os ataques do PCC em São Paulo. Ao mesmo tempo, a soberania de muitos países não passa de ficção. Haiti, Somália, Congo e vários outros não conseguem exercer controle nem fornecer serviços em amplas partes de seu território. Nem os superestados, como os EUA e os países da União Européia, exercem o controle do passado. "No fim do século 19, a rainha da Inglaterra governava 20% do território e da população do planeta", diz o sociólogo Fareed Zacharia, editor da revista Foreign Affairs. Nessa época, a supremacia era feita na base de navios e telégrafos; hoje, com os aviões e a internet, os Estados já não cercam as pessoas como antes. "A tecnologia permite que os indivíduos driblem o controle do fluxo de produtos, dinheiro e informação", diz a cientista política americana Janice Thompson no livro Mercenaries, Pirates and Sovereigns ("Mercenários, Piratas e Soberanos", inédito no Brasil).

O Estado também não é um guardião de identidade nacional. A interação entre pessoas de diferentes países está levando à construção da chamada identidade cosmopolita. "Além de se considerar cidadãos de um país, muita gente se identifica com outros valores. A identidade nacional não desaparece, mas convive com uma nova, numa espécie de dupla nacionalidade", diz Kathryn Sikkink, da Universidade de Minnesota.

Essa crise já se reflete nos governos e nas pessoas. Na Suíça, a figura do vereador dá lugar à do conselheiro voluntário, mais envolvido com a comunidade. Outros exemplos mostram que as pessoas já não querem depender do governo para resolver problemas como luz, água, tipo de educação e segurança. Em setembro, 10 mil pessoas assistiram a um show de rap para festejar os 34 anos da favela Godói, em São Paulo. Não havia um só policial para tomar conta: os próprios moradores revistaram as pessoas na entrada. Duas semanas depois, 34 artistas transformaram uma biblioteca pública meio abandonada, a Adelpha Figueiredo, em uma belíssima galeria de arte, onde funciona o Projeto Pari. Detalhe: a exposição não tem curador.

Em 1842, 6 anos antes de Marx escrever O Manifesto Comunista e quando o anarquismo ainda engatinhava na Europa, 236 operários franceses criaram, em São Francisco do Sul, norte de Santa Catarina, o Falanstério do Saí, também chamado de Colônia Industrial Francesa. Foi uma das primeiras experiências do socialismo utópico e do anarquismo do mundo. Os operários deveriam trabalhar por prazer, e tudo o que produziam era dividido. Mas a idéia durou menos de um ano. Com pouca estrutura, pouco acostumados com o trabalho rural e passando por várias brigas, o grupo se desfez. Seu principal criador, Benoit Jules Mure, se mudou para o Rio de Janeiro, virando o difusor da homeopatia no Brasil. A experiência mais longa foi feita por imigrantes italianos no Paraná: a Colônia Cecília. Apesar de pregar a ausência de líderes, a comunidade nasceu com o apoio de dom Pedro 2º, que se empolgou com as idéias dos anarquistas e cedeu a eles 300 alqueires. Três anos depois, quando o Brasil já era República, a Colônia Cecília começou a funcionar em Palmeira, a 80 quilômetros de Curitiba. Chegou a reunir cerca de 200 italianos, entre camponeses, intelectuais e artesãos. Toda a renda era dividida, não havia regulamentos, horários, cargos ou hierarquia. Houve até um princípio de amor livre, com dois homens vivendo com a mesma mulher, sem problemas. Mas a Colônia Cecília logo foi atacada pela miséria. Em 1893, um roubo de dinheiro vindo da colheita de milho fez a colônia minguar. As famílias foram para as capitais, engrossando as primeiras greves do século 20. Entre os que foram para São Paulo, estavam os Gattai, avós da escritora Zélia Gattai, hoje viúva de Jorge Amado e autora do livro Anarquistas, Graças a Deus

Comuna de Paris

Em março de 1871, quando a França cambaleava com a guerra contra a Prússia, revolucionários aproveitaram para instaurar um governo popular em Paris. Organizados em federações de bairros, no melhor estilo de Proudhon, eles aboliram o trabalho noturno, aumentaram salários, perdoaram dívidas, acabaram com o ensino religioso nas escolas, instituíram a educação gratuita, aboliram o alistamento militar e as nacionalidades. Mas não conseguiram manter a situação por muito tempo devido aos ataques dos alemães e das tropas do presidente francês Louis Thiers. Depois de um banho de sangue, os revoltosos finalmente baixaram as armas. A experiência durou apenas dois meses, o suficiente para impressionar o resto do mundo.

Barcelona

No meio da bagunça da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), seguidores de Bakunin tomaram partes da cidade e botaram em prática os ideais do líder anarquista. Até as mulheres pegaram em armas para ajudá-los na luta contra os falangistas (fascistas) e as tropas do general Francisco Franco. Eles fizeram fogueiras com todo o dinheiro que encontraram, derrubaram igrejas e instalaram conselhos de operários na base da autogestão. O anarcossindicalismo já era forte desde 1910, quando a Confederação Nacional do Trabalho (CNT) começou a mobilizar os trabalhadores em todos os níveis: educação, assistência social e moradia. "Essa organização a partir da base mostrou que é possível derrotar um exército e fazer uma revolução", diz o britânico Michael Eaude, autor do livro Barcelona. Mas as vitórias duraram pouco. Em 1937, os anarquistas foram reprimidos pela Frente Popular (guiada pelos comunistas) e capitularam dois anos depois ante o exército de Franco.

Anarco-individualismo

ONTEM: Essa é a cara egoísta do anarquismo, inspirada nas idéias do alemão Max Stirner. Ele falava que era preciso atacar tudo o que contrariasse a vontade do indivíduo e evitar qualquer tipo de vínculo, regra ou moral. "A única regra sou eu", dizia.

HOJE: Psicanalistas afirmam que o pensamento de Stirner sobrevive na visão do progresso próprio, como propõem os livros de auto-ajuda. É aquela coisa do "você consegue vencer", "você pode ultrapassar os obstáculos", que talvez ajudasse mais se essas obras também incentivassem a confiança nos outros.

Anarco-capitalismo

ONTEM: O economista austríaco Ludwig von Mises foi o pai dessa tendência, também chamada de libertarianismo. Seus discípulos são contra o Estado, mas a favor da propriedade privada. Dizem que tudo que os governos fazem, os indivíduos e as empresas podem fazer melhor.

HOJE: Associações de bairro contratam empresas de segurança porque já não querem depender do governo. Fundações como a de Bill Gates doam milhões de dólares para ajudar a combater epidemias. E até mesmo governos do mundo todo passam a terceirizar serviços.

Federalismo

ONTEM: O pensador Joseph Proudhon pregava a organização dos indivíduos a partir de múltiplos contratos: individuais, profissionais e universais. As associações operárias dariam conta do recado usando autogestão e coletivismo.

HOJE: Iniciativas como Creative Commons, Wikipedia e troca de vídeos estão transformando a internet em uma nova forma de organização social. Pessoas do mundo todo compartilham informação e aprimoram os trabalhos de forma coletiva. Esse sistema está sendo incorporado por empresas e grupos de pesquisa.



Anarco-sindicalismo

ONTEM: A espanhola Federica Montseny via no sindicato o principal instrumento da luta anarquista, cuja grande arma era a greve geral. Ela participou da Confederação Nacional do Trabalho (CNT), da Espanha, em que sindicatos se organizavam de baixo para cima sob os princípios de ajuda mútua e ação direta.

HOJE: Acontece o contrário. Os sindicatos deixaram de ser instrumentos de conquista operária, como no Brasil dos anos 70. Ou sofrem de esvaziamento ou de autoritarismo. O anarquista Malatesta já alertava que o sindicato devia ser temporário para não cair nos vícios dos partidos.



Anarco-comunismo

ONTEM: Bakunin e Kropotkyn buscaram um equilíbrio entre a idéia de "indivíduos acima de tudo" e a economia coletivizada. A propriedade estaria nas mãos de instituições voluntárias, que dariam ao trabalhador o direito de desfrutar do produto de seu próprio trabalho.

HOJE: Essa visão floresceu em fábricas e cooperativas onde não existe a figura do patrão nem do empregado. Hoje, mais de 300 empresas de porte médio trabalham no sistema de autogestão. O anarco-comunismo também combina com a ecologia social e sua máxima "agir local, pensar global".



Anarquia revolucionaria

ONTEM: Anarquistas como Bakunin e Nietchaiev pregavam a propaganda pela ação: o assassinato de líderes políticos para dissuadir os cidadãos da política. Em 18 anos, anarquistas mataram 7 grandes líderes mundiais. Os crimes tornaram o anarquismo caso de polícia e são tidos como os primeiros atos terroristas da era moderna.

HOJE: Apesar de lutarem por uma sociedade oposta à proposta pelos anarquistas, os terroristas islâmicos usam táticas criadas por eles. Ataques a bomba em trens do metrô e embaixadas são atos que, como dizia Kropotkyn, "valem mais que 1000 panfletos".

História das Idéias e Movimentos Anarquistas - George Woodcock, LP&M, 2002

Mercenaries, Pirates and Sovereigns - Janice Thompson, Princeton University Press, 1996.
Revista Superinteressante

terça-feira, 30 de agosto de 2011

crítica de "O Poder - História Natural de seu Crescimento"


MARTIM VASQUES DA CUNHA

Quando era um dissidente político, o ex-presidente tcheco Vaclav Havel afirmava que, ao sair de casa, tinha de levar um "pacote de emergência" com cigarros, roupas de baixo, escova de dente e alguns livros, caso fosse preso sem aviso.

Se algum dia eu precisar de um "pacote de emergência", entre os livros escolhidos estará "O Poder - História Natural de seu Crescimento", de Bertrand De Jouvenel.

De Jouvenel foi uma figura polêmica na França de seu tempo. Teve um caso com sua madrasta, ninguém menos que a escritora Colette. Foi acusado de ser fascista. Depois, acusado de ser socialista. Em 1945, escreveu o livro apresentado nesta resenha, enquanto se refugiava da Ocupação alemã em um castelo abandonado com a esposa e os filhos.

"O Poder" mostra as marcas do tempo da sua redação, mas vai além, muito além. Tornou-se também uma profecia dos nossos tempos.

O livro destrói qualquer espécie de ingenuidade que se possa ter a respeito desta palavrinha mágica chamada "Poder". Graças à cumplicidade dos intelectuais e, claro, dos políticos, o Poder - escrito em maiúscula, como se fosse uma entidade viva, com uma lógica idiossincrática, quiçá misteriosa - cresceu exponencialmente no final do século 19 e início do 20.

Antes ele queria apenas o seu dinheiro (através dos impostos), o seu sangue (através da guerra) e a livre-iniciativa (através da burocracia); agora, quer nada mais nada menos do que a sua alma.

Como bom profeta, De Jouvenel mostra que isso aconteceu sem que ninguém suspeitasse. Na verdade, o argumento mais perturbador é o de que deixamos o Poder invadir nossa vida íntima porque gostamos disso.

Usar o termo "gostar" é um eufemismo. A palavra certa é "idolatrar". É nesta distinção que De Jouvenel supera, por exemplo, Elias Canetti em "Massa e Poder" e se iguala a Ortega y Gasset em "A Rebelião das Massas".

Como Ortega, o escritor francês reconhece que o ser humano só se torna pleno quando aceita a sua existência como um constante naufrágio, repleto de incerteza. O Poder inverte as expectativas: dê a sua alma, ele diz, que darei a segurança que você precisa para continuar a sua vidinha com a paz e o conforto que merece.

O homem democrático aceitou o pacto sem reclamações. Entre a dor e o nada, em vez de escolher a primeira, ficou com o segundo, disfarçado de grandes oportunidades e de sonhos jamais realizados.

Parece um vaticínio terrível, e é. Mas De Jouvenel mostra que a solução existe na capacidade do homem escolher e conquistar a sua própria liberdade - e mantê-la sob constante vigilância. O Poder quer permanecer a qualquer custo, independente das ideologias de esquerda e de direita; e o ser humano também, com a diferença de que ele sempre esteve acima de tudo isso.

Afinal, se não fosse por esse bom combate, valeria a pena viver tal história? Ou será que já escolhemos viver com "pacotes de emergência", um atrás do outro, esperando a prisão sem aviso?

MARTIM VASQUES DA CUNHA é editor da revista "Dicta&Contradicta" e doutorando pela USP.
O Poder - História Natural de seu Crescimento
AUTOR Bertrand de Jouvenel
EDITORA Peixoto Neto


Folha de São Paulo

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Ideologia e literatura


Redigido, em chinês, para ser lido em duas palestras, o texto a seguir, de autoria do Prêmio Nobel de 2000 - que o cedeu com exclusividade ao 'Estado' -, reflete sobre os embates entre a arte da escrita e a política

Gao Xingjian - O Estado de S.Paulo

No decorrer do século 20 foram muito comuns as ocorrências nas quais a literatura foi contida, controlada, dirigida e até produzida e julgada pela ideologia. Isso não se aplicou apenas à criação literária: a história e a crítica da literatura também apresentaram muitas vezes a marca da ideologia. Poderíamos dizer que a ideologia foi o mal do século - contra o qual foi difícil imunizar-se - e, para os autores sortudos o bastante para escapar dessa doença do período, isso significou que seus escritos foram preservados, continuando merecedores de leitura em épocas posteriores.

Para que uma teoria ou ensinamento consista numa ideologia é preciso que haja uma estrutura conceitual filosófica somada à representação de uma visão de mundo que tenha como base valores correspondentes. Entre as ideologias, o marxismo sem dúvida teve a estrutura mais perfeita e a influência de maior alcance, causando um impacto profundo em gerações de intelectuais. Nem é preciso dizer que esse foi o pilar intelectual oficial dos antigos Estados comunistas, mas, durante algum tempo, foi também a principal tendência dos círculos intelectuais de esquerda de todo o mundo. Liberalismo e nacionalismo também puderam ser transformados em ideologias, e se tornaram o pensamento e os valores promovidos por partidos políticos e nações. E, no mundo intelectual - que inclui sem dúvida os domínios da literatura e da arte -, modernismo, pós-modernismo e até o chamado pós-colonialismo tinham o potencial de serem transformados em determinados juízos de valor e até em dogmas inflexíveis.

As ideologias foram inicialmente construídas com o objetivo de explicar o mundo, e também de estabelecer sistemas de valores para a sociedade humana que servissem como base razoável para as autoridades do Estado e as estruturas sociais. Se pensamos na filosofia como algo confinado ao pensamento metafísico, então a ideologia está ligada a juízos de valor a respeito da estrutura e dos muitos tipos de vantagens na sociedade. A literatura, por sua vez, é a articulação livre dos sentimentos e pensamentos dos seres humanos, transcendendo essencialmente a utilidade prática, e quando os autores seguem esta ou aquela tendência ideológica de pensamento, eles perdem sua independência de pensamento. Infelizmente, foi assim que, nos tempos modernos, a literatura perdeu com frequência sua autonomia de pensamento. Foi assim que, nos tempos modernos, a literatura muitas vezes perdeu sua autonomia e se tornou um acessório da ideologia: a literatura do século 20 deixou para trás muitas lições para todos nós.

A substituição da religião pela ideologia foi outro ato de estupidez do século 20. Sob a bandeira do racionalismo, e fazendo uso de dogmas utópicos que mudariam o mundo, um grande número de revoluções incitou a violência que trouxe consigo a loucura em massa - às vezes de alcance nacional - responsável por desastres de uma escala sem precedentes na história humana. A literatura que foi trazida para a estrutura conceitual da ideologia, promovendo a violência e a guerra, criando a idolatria a heróis e líderes e incitando ao sacrifício parece agora ter virtualmente desaparecido, mas prossegue o apelo para que a literatura se envolva ativamente. Tratar a literatura como uma ferramenta de transformação da sociedade a equipara ao exercício de pregação da ética, exceto pelo fato de a ética ter sido agora substituída pelo politicamente correto. A literatura do presente não é capaz de se libertar das amarras da ideologia com tanta facilidade, e aquilo que conhecemos como envolvimento significa o envolvimento na política real. Essa noção de literatura ainda prevalece no mundo intelectual contemporâneo.

Hoje em dia é bastante comum que os intelectuais debatam a política, mas, a não ser que a pessoa se envolva pessoalmente com a política, esse debate não costuma ser mais do que um discurso vazio de impacto mínimo na situação política e na sociedade. Além disso, a política real de hoje é a política dos partidos e, a não ser que os intelectuais se filiem a um partido político e se tornem políticos profissionais, será difícil que façam alguma diferença. Para um escritor comprometido com a literatura e ansioso por influenciar a política, a situação é duplamente difícil, e esse é o estranho dilema que a literatura enfrenta ao se envolver na política. Entretanto, a política não está preocupada com esse dilema enfrentado pelos autores, nem com a ideologia de qualquer teoria política. Caso venha à tona um conflito entre este ou aquele ismo e os interesses reais da política partidária, o partido acabará descartando a teoria, ou então os teóricos farão as revisões e reinterpretações apropriadas de acordo com as exigências da política real, o que leva a mudanças constantes naquilo que é conhecido como politicamente correto.

O autor patético - estou me referindo aqui ao autor que usa a literatura para servir à política - está preso à biga de guerra da política, não mais no controle de si mesmo, brandindo uma bandeira e gritando, mas ele perdeu a própria voz e, é claro, não deixará como legado obras que valham a pena serem lidas. Ainda mais trágico é o fato de propriedade e vida terem sido enviadas ao túmulo, destino de muitos autores revolucionários que sacrificaram a literatura em nome da revolução sob a política centralizada do comunismo. A história não chegou ao fim e, igualmente, o futuro da literatura que serve à política nos sistemas democráticos não é necessariamente maravilhoso. Além disso, a literatura não é como uma mídia e não pode ser o objeto de uma cobertura diária, e cada facção política que conte com sua própria mídia de massas para apresentar de maneira satisfatória suas visões políticas não espera que a literatura tenha algum efeito. Se a literatura participa da política, ela serve no máximo como floreio decorativo da política partidária.

Basicamente, a ideologia estabelece uma teoria para a política real, mas a teoria não determina o lucro, nem o prejuízo nem o poder comparativo real que controlam a política. Invariavelmente, a política é mais uma questão de dinâmica do que de ideologia, e pode estar correta num dia e equivocada no dia seguinte, mantendo-se sempre politicamente correta. O autor que adere a uma ideologia, ou, poderíamos dizer, que acredita num determinado ismo, descobrirá na verdade seus ideais repetidamente abandonados pela política, mas sua frustração e sensação de perda não serão fruto de erros ou defeitos na ideologia. Em vez de tentar revisar uma determinada ideologia, seria mais fácil simplesmente entregar-se ao serviço da política, sendo este o inevitável resultado do envolvimento da literatura na política. Esse tipo de literatura, é claro, perde a independência e a autonomia que são inerentes à literatura, e pertence somente ao âmbito da política partidária.

O autor - estou me referindo aqui aos autores e poetas comprometidos com a criação literária, e não com as opiniões de comentaristas políticos e colunistas de jornais que pertencem a uma profissão diferente - se vê hoje numa posição em que se torna difícil ganhar a vida. A resistência ao alinhamento político e a recusa em se curvar aos modismos e ao gosto das massas gerados pelo mercado, perseverando em vez disso na escrita literária, são coisas que devem emanar inicialmente de uma necessidade interna que exija expressão. De fato essa é na verdade a intenção original da literatura, e poderíamos dizer que assim tem sido desde a antiguidade até o presente, tanto no Oriente quanto no Ocidente. Esse tipo de literatura que transcende a ideologia e a política e transcende o benefício prático consiste num testemunho das condições existenciais da humanidade e da natureza humana.

Na época globalizada atual, os ganhos econômicos reais substituíram concretamente a ideologia ou, dito de outra forma, a ideologia tornou-se hoje um discurso vazio e antiquado, na melhor das hipóteses nada além de um cartaz enganoso no palco político, e por isso não há problema em chamar o presente de era pós-ideológica. A literatura contemporânea teve a sorte de escapar das amarras da ideologia e, se ignorar os modismos gerados pelo mercado e ousar enfrentar os genuínos problemas humanos do presente, então a literatura será salva. O que esse tipo de literatura espera do autor é a sinceridade, ou seja, que ele não evite os muitos problemas reais que afligem a sociedade humana, e é essa literatura sincera e verdadeira que os leitores de hoje desejam.

Purificação. O fim da ideologia não é o fim da literatura, e o fim da ideologia não é o fim do pensamento. O colapso de um século de utopias deveria ter ocorrido há muito tempo, e agora o empobrecimento espiritual tenta seduzir a literatura aos gritos. De fato, a literatura é incapaz de salvar o mundo, o autor não é um salvador e, além disso, o que ele precisa fazer é se livrar de tal papel imaginário, voltando a ser um indivíduo autêntico e frágil para que seja possível ter uma consciência lúcida do mundo humano.

A literatura pode ser apenas a voz do autor individual, mas, quando retratada como representante do povo ou porta-voz da nação, essa voz será certamente falsa, rouca e cansada. Da mesma maneira, o autor não é a encarnação da verdade e da dignidade, e suas fraquezas e defeitos pessoais são de fato tão grandes quanto os das pessoas comuns; aquilo que o diferencia é simplesmente o fato de ele poder purificar-se com a escrita da literatura. Além disso, o autor não é um juiz, não decide a respeito daquilo que é certo ou errado nem julga aquilo que é moral ou justo. Ele certamente não é uma espécie de super-homem e não pode substituir a Deus, mas deve-se reconhecer que o mal de época da inflação ilimitada do ego, assim como a ideologia, foi a grande febre durante algum tempo. Se o autor de hoje for capaz de abolir tais delírios pessoais, adotando uma atitude normal, observando com um olhar inteligente as muitas manifestações da vida no universo ao mesmo tempo em que disseca e analisa friamente seu próprio eu caótico, a obra produzida por sua pena será digna de leitura e releitura.

O autor é um observador da sociedade e da natureza humana. Uma vez que ele descarte o benefício prático, ponha de lado os potenciais obstáculos psicológicos e tenha um claro entendimento de si mesmo, suas observações serão incisivas e meticulosas e, sem que nenhum assunto consista num tabu, ele poderá expor e apresentar de maneira penetrante a verdadeira situação da vida humana. A literatura não se satisfaz em documentar pessoas e eventos reais, e a capacidade do autor de sondar a vida e a natureza humana deriva de suas experiências de vida. Mas ainda mais importante é a capacidade inata do autor tanto de sondar as mais distantes profundezas quanto de usar meios estéticos para relatar linguisticamente as percepções que foram despertadas ao seu redor.

O motivo pelo qual o depoimento da existência humana deixado pelo autor se mantém vívido e poderoso com o passar do tempo não se deve inteiramente à habilidade linguística, estando mais associado ao sentimento estético que o autor concede a seus personagens. Esses sentimentos não correspondem diretamente a simples juízos éticos de certo e errado, consistindo em sentimentos humanos transpostos para os personagens. É claro que esses derivam também da atitude do autor diante de seus personagens, e são precisamente esses sentimentos estéticos que fazem com que os personagens ganhem vida.

Tragédia ou comédia, ou tragédia e comédia e todas as demais emoções e desejos humanos podem ser manifestados de maneira estética. Triste ou divertido, absurdo ou hilário, nobre ou cômico são qualidades concedidas pelo autor, e essa estética intimamente associada às emoções é incomparavelmente mais rica do que a cognição racional. É isso que diferencia a literatura da filosofia. A literatura não é um acessório da ideologia e, apesar de não se propor a comentar a filosofia, ela às vezes chega a entendimentos semelhantes. Enquanto a filosofia toma por base a especulação racional pura, o conhecimento conquistado na literatura está sempre associado à sensualidade e às emoções.

Literatura e filosofia chegam cada qual a um entendimento do mundo e dos seres humanos recorrendo a meios diferentes, mas não cabe debater se uma seria superior à outra. Tanto racionalidade quanto sensualidade são caminhos necessários para a compreensão do ser humano. A literatura pode instigar nas pessoas uma reflexão profunda porque pode revelar o estranhamento e a ansiedade, a busca e a perda de rumo na vida humana com tamanha incisividade, podendo manifestar plenamente os detalhes minuciosos da natureza humana. Essa propensão a inquietar e despertar transcende o politicamente correto e os ensinamentos éticos, sendo muito superior a qualquer coisa que a análise semântica pós-moderna e os jogos de palavras possam oferecer. Mesmo que as experiências de vida do autor por trás da linguagem da literatura sejam transformadas em pensamento, este ainda terá de ser infundido com os sentimentos e percepções do autor ou dos personagens, e situações específicas na obra também precisam ser incluídas, o que faz delas mais do que a pura formulação e definição de conceitos racionais.

Há dois tipos de pensadores: um deles é o filósofo, que se apoia na especulação metafísica racional; o outro é o autor, que se vale das imagens literárias. O primeiro tipo pode ser encontrado nos grandes pensadores da Grécia Antiga, e o último pode ser encontrado nos autores das tragédias e comédias gregas da mesma época. Cada qual recorreu a métodos diferentes para proporcionar às gerações futuras o conhecimento a respeito da situação existencial humana (os dilemas, com frequência) e da natureza humana. Na Europa, durante a Idade Média, quando a escolástica sufocou o pensamento, foi do poeta Dante o entendimento do mundo e das pessoas que se revelou superior. Além disso, Shakespeare foi sem dúvida o maior pensador de sua época e, igualmente, Goethe e Kant foram brilhantes.

Hoje a maré do pensamento pós-moderno parece ter passado e, diante dessa vertiginosa época de empobrecimento espiritual, acho que as pessoas devem buscar inspiração na literatura. A crise financeira e econômica mundial projetou pela primeira vez os economistas ao palco na qualidade de pensadores, enquanto a filosofia se mantém em silêncio. Que rumo a humanidade está seguindo? Serão os seres humanos capazes de prever o futuro, ou será que um novo conjunto de utopias será estabelecido? Ou será que as cartas serão novamente embaralhadas para mais uma rodada de jogos semânticos? Seja qual for a resposta, a literatura pode sem dúvida proporcionar até certo ponto um relato da sociedade na qual as pessoas se veem envolvidas hoje.

É claro que a literatura não se resume a replicar a realidade. A literatura realista foi uma das grandes correntes literárias, e do fim do século 19 até o início do século 20 surgiram grandes números de autores talentosos e muitas obras de notável permanência. Os escritos modernistas do século 20 se voltaram para o mundo do inconsciente das pessoas, abrindo outra área para a literatura. A racionalidade não poderia oferecer respostas para o absurdo da sociedade moderna nem para as questões relacionadas ao significado da existência, e a filosofia tinha igualmente se afastado dos temas tradicionais. Sob os auspícios da ideologia, a literatura que reproduzia a realidade social se transformou em propaganda revolucionária. Sob as condições sociais atuais, será a literatura ainda capaz de refletir a realidade social? É claro que sim: trata-se apenas de uma questão de descartar os ismos, libertar-se da estrutura conceitual e dos dogmas da ideologia, afastar a pregação do politicamente correto, retornar às percepções genuínas do autor e narrar com a voz firme e independente do indivíduo. Mesmo que essa voz seja extremamente fraca ou que desagrade ao ouvinte, trata-se da verdadeira voz de uma pessoa, e isso tem valor enquanto literatura.

Independência espiritual. A literatura é a afirmação que um homem faz de sua própria existência. Apesar de o frágil indivíduo não contar com o poder de mudar o mundo, ele pode manifestar suas opiniões sempre que desejar. É relevante que o autor tenha de fato pensamentos próprios a expor, e que não se limite a meramente repetir as afirmações amplamente difundidas pelas autoridades e pela mídia. A independência espiritual do indivíduo é a própria substância da literatura, e responde pela independência e autonomia da literatura. A literatura não se associa ao poder político nem depende do mercado, consistindo num domínio de liberdade espiritual para os humanos. Apesar de não ser sagrada, ela pode ser protegida dos avanços de outros interesses, e constitui uma parte do pouco orgulho que o ser humano pode ter de si.

O homem existe em meio a todo tipo de restrição na sociedade, e a liberdade não é um direito concedido ao nascer. Um preço deve ser pago, há condições, e ela nunca veio de graça. Mas a liberdade espiritual pertence ao indivíduo, embora seja necessário que o indivíduo a escolha, e a independência e a autonomia da literatura são algo que o autor deve escolher. A liberdade espiritual enobrece os seres humanos, e consiste também num atributo da literatura.

A literatura é o despertar da consciência do indivíduo no sentido de que o autor se arma com esse conhecimento intuitivo quando observa o mundo humano ao mesmo tempo em que analisa a si mesmo. Ele infunde seu entendimento lúcido na sua obra. O entendimento único de um indivíduo em relação ao mundo é inegavelmente o desafio que a existência da entidade individual faz ao seu ambiente existencial. Portanto, o entendimento conquistado numa obra literária sempre traz a marca do autor individual. É precisamente cada uma dessas histórias individuais que faz da literatura algo interessantíssimo e insubstituível. Enquanto a especulação da filosofia se apoia no abstrato, a literatura promove um retorno à vida, às percepções das pessoas vivas e às emoções. Em outras palavras, a literatura começa em lugares que são inalcançáveis para a filosofia, e o tipo de entendimento proporcionado por ela não pode ser substituído pela filosofia.

Quando a filosofia clássica se imbuiu de conceitos e racionalidade para construir um sistema de especulação que proporcionasse ao mundo um exemplo perfeito, tudo aquilo que não pôde ser perfeitamente explicado foi deixado nas mãos de Deus. Entretanto, não há limites para aquilo que a literatura pode dizer, e ela não se apressa em se propor a definir uma certa visão de mundo. Além disso, ela sempre mantém a mente aberta e preenche a consciência das pessoas com pensamentos e infinitas emoções. Por confrontar a vida em suas infinitas variações, a literatura não termina com a morte do protagonista ou do autor, e nem com a conclusão de uma obra.

Cada autor apresenta uma visão única, mas ele não usa essa visão única para substituir os demais autores. Não é como na filosofia, na qual a crítica é a premissa para o estabelecimento de uma teoria que com frequência é promovida como única verdade correta e definitiva. Apesar de a filosofia pós-moderna defender a ambiguidade e até a eliminação do sentido, ela é independentemente disso estabelecida com base na premissa da morte de todas as filosofias predecessoras. A literatura não exclui e não abre para si um caminho por meio da crítica; em vez disso, o que ocorre é que cada pessoa apresenta o próprio discurso, coisa que possibilita uma variedade infinita.

A literatura não faz da crítica social sua missão, e não usa uma visão de mundo pré-fabricada nem um sistema de valores nela alicerçado para julgar a sociedade. Os depoimentos da literatura se valem da estética. A estética emana primariamente da natureza humana, estando intimamente associada à incorporação das influências culturais que se deu no decorrer de um extenso período da história humana. Além disso, ela transcende os tipos de linguagem, e pode ser traduzida e comunicada para todo o mundo. As emoções evocadas pela estética infundida numa obra pelo autor são poderosas, e podem encontrar eco em leitores de diferentes nacionalidades e de diferentes épocas, o que confere à literatura uma riqueza espiritual que deve ser desfrutada por toda a humanidade. Portanto, a estética que um autor infunde numa obra literária pode ser considerada um juízo definitivo que transcende os benefícios práticos, o certo e o errado, o bem e o mal, além dos costumes sociais e a época. Enquanto a obra circular pelo mundo, as pessoas continuarão a lê-la, e as sensações estéticas evocadas por esse testemunho literário transcenderão a história, sobrevivendo por muito tempo.

Estritamente falando, a era não tem significado para a literatura, apesar de cada obra de cada autor trazer até certo ponto a marca de seu tempo. Separar a literatura em diferentes períodos e diferentes ismos é tarefa dos historiadores da literatura, mas nada tem a ver com as criações do autor. O modernismo do século 20 passou a existir após o surgimento de certo número de obras que foram reunidas pelos críticos literários: essas foram classificadas em tal categoria e teorias foram estabelecidas. Isso ajudou a pesquisa literária, mas pouco teve a ver com a criação dos autores. De fato, houve autores que se gabaram de serem modernistas, mas somente depois que seus predecessores e as obras representativas tinham se tornado publicamente conhecidas, familiares, e assim a reunião sob esse rótulo criou uma tendência. O valor literário de uma obra nada tem a ver com rótulos, dependendo em vez disso do entendimento único e da apresentação estética do autor e da obra.

A modernidade foi extrapolada a partir de obras muito diferentes criadas por certo número de autores modernos, e portanto era grande a probabilidade de ela ser transformada em dogma. De fato, a modernidade que se tornou um símbolo da época após a reunião de alguns autores extraordinários e obras notáveis numa mesma categoria tinha na segunda metade do século 20 sido transformada num dogma estético ossificado. Para esse dogma era essencial a subversão, e assim foi criado um modelo para a subversão dos estilos predecessores, e a negação da negação foi vista como o princípio universal que ativava a história, tornando-se a estratégia básica do pós-modernismo. Em última análise, as origens disso estão no marxismo que foi formado pela dialética hegeliana. Quando o marxismo foi apresentado à literatura e à estética, continuar a revolução na literatura e na arte tornou-se a maneira por meio da qual a história da literatura e da arte era escrita.

Privada do rico conteúdo da natureza e das emoções humanas, a estética pós-moderna se transformou em retórica e papo furado e, com a análise semântica substituindo a estética, filosofia e literatura se transformaram em jogos linguísticos, o que levou a um desaparecimento natural do significado. Essa estratégia pós-moderna de subversão não era nem mesmo voltada contra a sociedade, e os problemas da sobrevivência e existência humana desapareceram em meio à linguagem vazia, de modo que restaram apenas símbolos vazios de uma era sem autores e desprovida de obras literárias.

A literatura se vale da linguagem, mas a linguagem da pena do autor é muito diferente dos objetivos de pesquisa de gramáticos e linguistas - e pouco tem a ver com eles. A gramática e a análise e descrição das estruturas e funções gramaticais se preocupam com o extrato mais baixo da linguagem e, independentemente disso, essas podem ser a chave de um aprendizado infinito, assim como é o caso de qualquer disciplina. Mas a gramática é muito distante da literatura. A linguagem da literatura transmite o pensamento, as emoções e o espírito dos seres humanos, e também a rica herança literária da humanidade que ela incorpora. Os autores de cada era simplesmente almejam criar novas formas de expressão e, ao fazê-lo, enriquecem a linguagem. Nesse sentido, o autor é criador e inovador na linguagem do seu povo.

Permanência. Para o autor, a literatura não se constitui em significantes, e sim em vibrantes vozes humanas que contêm cada emoção e desejo humano. Quando o autor escreve, essas vozes ganham vida no seu coração e na sua consciência. A linguagem da literatura pode ser lida em voz alta e também interpretada; ela é dinâmica e pode ganhar vida no palco para ressoar forte entre leitores e espectadores. Aquilo que o autor cria é uma linguagem que reverbera com o som - e não a linguagem à qual se referem ou podem se referir os pesquisadores linguísticos. O autor não se contenta com a linguagem empregada em obras anteriores; ele está sempre explorando novas formas de expressão para transmitir percepções recém-descobertas, e sua busca em meio ao potencial expressivo da linguagem não chegou ao fim. Esse tipo de busca não subverte os feitos de seus predecessores; é empreendido sobre os alicerces das expressões existentes.

Os sinais da época pós-moderna anunciando a morte do autor ficaram provavelmente no passado, assim com as revoluções literárias fracassaram em exterminar os autores, tendo elas mesmas se acabado. O autor e a literatura permanecem, e a história não chegou ao fim. Entretanto, o problema é simplesmente determinar como a literatura vai lidar com as condições e dilemas existenciais do homem moderno em relação à literatura. Terá o autor a coragem de apresentar a verdadeira situação do homem? Será que ele vai encontrar uma forma mais precisa de expressão literária?

O autor é o criador de gêneros literários e da linguagem literária. A literatura não é um relato dos fatos, e essa é a grande diferença entre a literatura e o registro da história. As percepções do autor, o gênero, o método de expressão e o estilo da linguagem são características que se desenvolvem simultaneamente, e todo autor realizado terá preferência por certos gêneros e estilos. Além disso, as associações e a imaginação também são infundidas numa obra. Em cada gênero, da poesia aos ensaios em prosa, da ficção ao drama, o autor ainda pode fazer descobertas, e não há padrões ossificados. As percepções estéticas que o autor deseja transmitir não podem ser dissociadas de uma forma literária específica, e uma estética que tenha como base a forma pura consiste num pensamento vazio e desprovido de sentido, sendo também assim o sentido poético da literatura.

Nesta época em que a política a tudo permeia e a lei do lucro mergulha o mundo na incalculável ganância humana, onde podemos encontrar a poesia? A beleza se tornou gradualmente uma memória distante. O homem - não estou me referindo ao conceito humanista do homem, e sim aos díspares indivíduos da sociedade que nunca antes se viram tão fragilizados ao confrontar a solidão que é a existência humana -, este indivíduo solitário, não carece de poder de pensamento: seu questionamento do significado da existência é hoje mais perspicaz do que em todos os momentos anteriores, e ele enxerga a liberdade como uma necessidade urgente. É preciso dizer que em nenhum período anterior um número tão grande de pessoas se dedicou à escrita. Nesta época de empobrecimento espiritual, a literatura se tornou algo a que as pessoas podem recorrer. Existe a esperança de que um traço de vida possa ser preservado, e isto até certo ponto mostra que a literatura não pereceu. Quanto à dúvida de quando haverá outro renascimento literário, isso só pode depender do acaso histórico, e a literatura, como o destino, é determinada por eventos díspares e ocasionais. / TRADUÇÃO A PARTIR DO INGLÊS DE AUGUSTO CALIL
Jornal O Estadão

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Herbert Spencer - O ideólogo da luta pela vida

Teórico inglês buscou no evolucionismo os mecanismos e objetivos da sociedade, e defendeu o ensino da ciência para formar adultos competitivos
Márcio Ferrari (Márcio Ferrari)

Foto: Hulton Archive/Getty Images

Tendo vivido num tempo de grandes avanços científicos, o filósofo inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o principal representante do evolucionismo nas ciências humanas. Ele intuiu a existência de regras evolucionistas na natureza antes de seu compatriota, o naturalista Charles Darwin (1809-1882), formular a revolucionária teoria da evolução das espécies. É ele o autor da expressão "sobrevivência do mais apto", muitas vezes atribuída a Darwin.

O filósofo aplicou à sociologia idéias que retirou das ciências naturais, criando um sistema de pensamento muito influente a seu tempo. Suas conclusões o levaram a defender a primazia do indivíduo perante a sociedade e o Estado, e a natureza como fonte da verdade, incluindo a verdade moral. No campo pedagógico, Spencer fez campanha pelo ensino da ciência, combateu a interferência do Estado na educação e afirmou que o principal objetivo da escola era a construção do caráter (leia quadro na página 58). "Ele dizia que os conhecimentos úteis, que serviriam para formar os homens de negócios e produzir o bemestar pessoal, eram desprezados em favor do ensino das humanidades, que davam mais prestígio", diz a professora Maria Angélica Lucas, da Universidade Estadual de Maringá.

Para Spencer, havia uma lei fundamental da matéria, que ele chamou de lei da persistência da força. Segundo ela, a tendência natural de todas as coisas é, desde a primeira interação com forças externas, sair da homogeneidade rumo à heterogeneidade e à variedade. À medida que as forças vindas de fora continuam a agir sobre o que antes era homogêneo, maior se torna o grau de variedade.

Biografia

Herbert Spencer nasceu em Derby, Inglaterra, em 1820, e desde a adolescência mostrou ter uma personalidade anticonformista. Aos 13 anos, tentou fugir da educação oferecida por um tio que era pastor protestante, mas teve que voltar à escola, onde se manteve até os 16. Depois disso, deu continuidade sozinho a sua formação, com leituras que se concentraram acima de tudo em ciências. Queria ser inventor e acabou, pelo conhecimento que adquiriu sozinho, trabalhando como engenheiro ferroviário. Paralelamente, começou a publicar artigos em que já defendia idéias liberais, argumentando que a ação dos governos não deveria ir além de garantir os direitos naturais dos cidadãos. Em 1848, tornou-se subeditor da revista The Economist, onde trabalhou até 1853, quando recebeu uma herança do tio e passou a se dedicar apenas a escrever livros – atividade que manteve até a morte, em 1903. Spencer relacionou-se com os principais intelectuais ingleses de seu tempo e manteve um romance com a escritora George Eliot (pseudônimo de Marian Evans). Sua obra teve enorme repercussão dentro e fora da Grã-Bretanha. Alguns dos principais livros de Spencer são: Filosofia Sintética (que publicou em série, com pagamento de assinatura antecipada por seus admiradores), O Homem contra o Estado, Educação Intelectual, Moral e Física e Autobiografia.

Conhecer, só pela razão

Baseado nessa observação, Spencer deduziu um princípio para todo desenvolvimento, que é a lei da multiplicação dos efeitos, causada por uma força absoluta que não pode ser conhecida pelo entendimento humano. Tratase, para Spencer, de uma lei da natureza, uma vez que ele se recusava a levar em conta, para efeito científico, a possibilidade de forças sobrenaturais. O filósofo, herdeiro da linhagem empirista britânica e também influenciado pelo positivismo, era agnóstico e combatia a influência religiosa no ensino e na ciência. O próprio termo agnosticismo, para se referir a uma postura filosófica que só admite os conhecimentos adquiridos pela razão, foi criado por um amigo e defensor de Spencer e Darwin, o naturalista Thomas Huxley (1825-1895).

Período vitoriano marca fim de uma era

A rainha Vitória: governante de uma época
famosa pelo puritanismo.
Foto: Time Life Pictures /Getty Images

Herbert Spencer foi, com John Stuart Mill (1806-1873), um dos dois mais importantes pensadores ingleses da era vitoriana, e o que melhor encarnou as características tradicionalmente relacionadas ao período. O reinado da rainha Vitória (1819-1901), que subiu ao trono em 1837 e governou até a morte, gerou o adjetivo "vitoriano", ao qual se associam puritanismo, austeridade, otimismo e autoridade. Politicamente, o vitorianismo costuma ser lembrado como um tempo de hegemonia do liberalismo. Na realidade, o período foi bem mais complexo, principalmente depois da década de 1880. A partir dessa época, vieram à tona os contrastes sociais, as revoltas operárias, o questionamento das religiões e do imperialismo e as idéias socialistas, antes mantidas mais ou menos na obscuridade – e que inauguraram uma nova era. O período vitoriano assistiu a um acelerado desenvolvimento científico e tecnológico, com a expansão das ferrovias e do telégrafo. Mas nada se comparou ao impacto da teoria evolucionista de Charles Darwin, que pôs em xeque tanto as explicações religiosas para a criação da vida quanto a idéia de que o ser humano ocuparia posição central no Universo. Um dos méritos do pensamento de Herbert Spencer foi propor novas posturas filosóficas com base nesse conhecimento.

De acordo com Spencer, o processo de desenvolvimento segue a mesma lei em todos os campos, da formação do universo à transformação das espécies. Seu entendimento inicial da evolução biológica se baseava na concepção errônea de que as sucessivas gerações de uma mesma espécie herdam das anteriores as características adquiridas do ambiente. Essa era a teoria do naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck (1744-1829), derrubada por Darwin. Ele mostrou que o mecanismo da evolução é a seleção natural, pela qual sobrevivem as variedades animais e vegetais mais adaptáveis às condições ambientais. Tão logo conheceu as conclusões de Darwin, Spencer reformulou sua teoria.

Perfeição industrial

Aplicado à sociedade, o princípio evolucionista universal do filósofo o levou a perceber um processo de individuação permanente, que levaria à crescente divisão do trabalho nos agrupamentos humanos. Desse modo, hordas primitivas e indiferenciadas evoluem para se tornar civilizações cada vez mais complexas, nas quais especialização e cooperação avançam lado a lado. A história dos povos, segundo Spencer, contrapõe sociedades guerreiras, mantidas coesas à força, e sociedades industriais, fundamentadas na competição, mas também na cooperação espontânea.

Ensino dependia da iniciativa privada

Escola britânica do fim do século 19:
novidades da ciência influenciam uma nova mentalidade.
Foto: Hulton Archive/Getty Images

Ao contrário do que acontecia na Europa continental, na Grã-Bretanha do início do século 19 o ensino era um assunto privado. A primeira ingerência pública na educação foi uma resolução aprovada pelo Parlamento em 1802, pedindo aos empregadores que providenciassem instrução para seus funcionários – como não havia obrigação atrelada, o efeito foi nulo. Quando não era paga, a educação britânica dependia da filantropia. Só na década de 1830 o governo passou a reservar uma parte do orçamento para o ensino. Na virada para o século 20, no entanto, quase toda a formação elementar (equivalente ao Ensino Fundamental) já era provida pelo Estado. Herbert Spencer defendeu a escola privada até o fim da vida, porque considerava que a interferência do Estado, sendo igual para todos, poderia sustentar estudantes que não estariam, por natureza, aptos a competir em sociedade. "De acordo com a filosofia spenceriana, seria fatal se o regime da família, em que a solidariedade faz com que o mais apto ajude o menos apto, regulasse a sociedade, onde o que conta é a luta pela vida", diz a professora Maria Angélica. Seguindo outra tradição britânica, Spencer acreditava que a função principal da educação era formar o caráter. Sua defesa do ensino prioritário da ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento sobre o funcionamento da natureza que lhes desse meios de se ajustar às exigências do mundo.

Um prolongamento da dicotomia entre sociedades guerreiras e industriais, para Spencer, seria o contraste entre o despotismo, associado a estágios primitivos, e o individualismo, associado ao avanço civilizador. A sociedade industrial corresponderia, assim, a um aperfeiçoamento natural do sistema econômico e das instituições.

O pensamento de Spencer corresponde a um desejo, muito vivo em sua época, de explicações globais que organizassem os fatos de modo a simplificá-los. No período, foram produzidas numerosas teorias que hoje chamamos de deterministas, por almejarem, no campo das ciências humanas, a exatidão matemática. A noção de que tudo se encaminha para resultados previsíveis e inevitáveis, uma vez que deixadas ao sabor de seu suposto curso natural, levou Spencer e muitos de seus contemporâneos (e também alguns pensadores de outros tempos, anteriores e posteriores) a supor que esses resultados eram também moralmente desejáveis. Nasce daí a idéia, ainda hoje vigorosa, de que a interferência do Estado na vida cotidiana impede os desenvolvimentos considerados normais. "Spencer acreditava que a lei da oferta e da procura devia estender-se da esfera econômica para a esfera educacional", diz a professora Maria Angélica.

Para pensar

Nos dias de hoje, é difícil encontrar seguidores fiéis do evolucionismo de Herbert Spencer, mas muito se fala de uma tendência de pensamento bem semelhante, que é chamada, um pouco caricaturalmente, de darwinismo social. A educação voltada sobretudo para formar jovens competitivos costuma estar relacionada a essa concepção de mundo. Você já pensou até que ponto sua atuação profissional se vincula à idéia de formar jovens para a competição?
Quer saber mais?

BIBLIOGRAFIA
A História da Filosofia, Will Durant, 482 págs., Ed. Nova Cultural.
50 Grandes Educadores, Joy A. Palmer, 310 págs., Ed. Contexto.

Revista Nova Escola

terça-feira, 6 de julho de 2010

TEMPLO DA HUMANIDADE: ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO


TEMPLO DA HUMANIDADE: ARQUITETURA E CONSTRUÇÃO
Alex Nicolaeff
10/12/2009

ORIGENS

Em 1891, a Rua Santa Isabel, no bairro da Glória, teve seu nome mudado para Rua Benjamin Constant, em homenagem ao recém-falecido político e positivista Benjamin Constant Botelho de Magalhães.


O Templo da Humanidade, na Rua Benjamin Constant, antes de 1970:
arborização com pau-brasil, no eixo da rua.
Crédito: Internet.
No mesmo ano, e na mesma rua, foi inaugurada a parte frontal do Templo da Humanidade, imóvel pertencente à Igreja Positivista do Brasil. Isto ocorreu em 15 de agosto, dia da Festa da Mulher, no calendário positivista, e dia consagrado a Nossa Senhora da Glória, no catolicismo.

Benjamin Constant Botelho de Magalhães.
Crédito:
http://membres.lycos.fr.

O prédio completo foi inaugurado em 1897, no dia 1º de janeiro, data correspondente à Festa da Humanidade, naquele calendário. "Integra, no Brasil, a primeira leva de edifícios religiosos não-católicos, 'com aspecto exterior de templo', antes proibidos pela Constituição Imperial de 1824" (CZAJKOWSKI, 2000: p. 93).

No final do século XIX, tivemos: Abolição (1888), Proclamação da República (1889), Encilhamento (1890), nova Constituição (1891) – com separação entre Estado e Igreja –, e Canudos (1896-97). Foi uma década marcada por novos modelos políticos e culturais, enquanto a construção civil recorria à importação de telhas francesas, estruturas metálicas e cimento Portland.

O Templo da Humanidade difere dos padrões arquitetônicos da época pelas novidades no seu aspecto externo, na técnica e nos materiais empregados na construção. Quem visse o prédio pela primeira vez podia ter dúvidas sobre sua finalidade, em face do visual solene da fachada, com ares de templo da Antiguidade Clássica. O observador se deparava com inscrições sérias. A primeira, sobre o portão, alerta: "Os vivos são sempre, e cada vez mais, governados necessariamente pelos mortos".

Inscrições.
Crédito: Alex Nicolaeff.

O ineditismo do Templo da Humanidade sugere examinarmos a religião e as funções a que foi destinado. Para uma aproximação ao entendimento desta arquitetura, ocorrem algumas questões básicas:

· O que é a Religião da Humanidade ?
· Qual é o programa de usos necessário às aspirações e ritos dessa religião ?
· Quais os possíveis antecedentes ?
· Qual foi o aspecto adotado para expressar esse credo, e quais foram seus modelos na História da Arquitetura ?

RELIGIÃO DA HUMANIDADE

O Positivismo consta em dicionários de Filosofia e em dicionários sobre religiões. Como se trata de um templo, traduzimos do Dictionaire des Religions, editado pela Presse Universitaire de France, os textos abaixo:

POSITIVISMO OU RELIGIÃO DA HUMANIDADE

Religião criada pelo filósofo francês Auguste Comte. No seu Cours de Philosophie Positive, Comte propusera sua lei dos três estados da evolução da humanidade: o estado teológico, o estado metafísico e o estado positivo – ou científico. Ao longo da história o estado teológico foi substituído pelo estado metafísico, tendo chegado o momento da substituição do estado metafísico pelo estado positivo. Foi a primeira filosofia de Comte; mas este, após a sua paixão amorosa por Clotilde de Vaux, e da morte desta última, se deu conta da fundamental importância do sentimento, importância que não deverá desaparecer com o advento da era positivista. A existência social está madura para uma regeneração, cujo princípio norteador será um altruísmo esclarecido; mas o ideal altruísta é, por si só, incapaz de revolucionar nossa existência: ele deve ter um fundamento religioso, que Comte propõe na figura do 'Grande Ser', personificação ou encarnação da Humanidade, e de todos os homens e de todas as mulheres do passado, presente e futuro. Esta noção abstrata de 'Grande Ser', associada a diversas concepções de feição teosófica a respeito da Terra – o Grande Ídolo – e do Universo, toma o lugar ocupado por Deus.

Auguste Comte.
Crédito:
www.britannica.com.

A Religion de l’Humanité foi lançada ao mundo em 1848, ano de revoluções; Comte acreditava firmemente que ela se tornaria a religião do mundo contemporâneo, da mesma maneira que o catolicismo foi a religião da Europa feudal. Tendo inventado um Deus, Comte empreendeu, no seu Système de Politique Positive (1851-54) e em outras obras, a tarefa de fornecer à sua religião os 'acessórios' que se mostraram eficazes em outras religiões. Ele refez os sacramentos, redigiu orações, instaurou um sacerdócio de filósofos a serem pagos pelo Estado, e adotou um calendário, no qual cada dia era dedicado à memória de um grande homem. Ele canonizou seu grande amor, Clotilde de Vaux, e determinou que sua imagem fosse reverenciada como a da Virgem Maria no catolicismo.

Clotilde de Vaux.
Crédito:
http://membres.lycos.fr.

Em resumo, segundo o comentário de um crítico, ele criou uma religião que era "o catolicismo sem o cristianismo". O positivismo ainda possui alguns fiéis na França – têm um templo em Paris, à Rue Payenne – e na Inglaterra; mas é no Brasil, e em outros países da América Latina, que ele obteve maior sucesso e que formou uma verdadeira Igreja (PIKE, 1954: p. 255).

Auguste Comte lutou, por toda sua vida, com a pobreza, mas ele pensava que sua morte precederia em pouco o reinado da 'Religião da Humanidade'. Um dos legados mais duráveis deixados ao mundo por Comte é a palavra altruísmo, inventada por ele (PIKE, 1954: p. 88).

PROGRAMA DE USOS

Os arquivos da Chapelle de l’Humanité, em Paris, guardam o Plano Geral de um grande Templo da Humanidade, por Augusto Comte.

Plano Geral de um grande Templo da Humanidade, por Augusto Comte.
Crédito:
www.igrejapositivistabrasil.org.br.

O desenho mostra o prédio implantado na área do 'Bosque Sagrado ou Campo de Incorporação' – com previsão para 20.000 árvores e 15.000 túmulos –, e acessado pela 'Avenida ao templo, por toda parte dirigida para Paris'.

O traçado da planta lembra o das primitivas basílicas cristãs, acrescido de nichos laterais. Tem 100 m de comprimento e 40 m de largura, segundo cotas no desenho.

Estão listados os ocupantes dos nichos, havendo sete de cada lado. À direita de quem entra, temos: 1. Moisés; 2. Homero; 3. Aristóteles; 4. Arquimedes; 5. César; 6. São Paulo; e 7. Carlos Magno. À esquerda, estão: 8. Dante; 9. Gutenberg; 10. Shakespeare; 11. Descartes; 12. Frederico; 13. Bichat; e 14. Heloiza. A abside foi destinada ao número 15. Gran-Ser.

Os personagens selecionados exerceram diversas atividades, em variados períodos e lugares. Há sacerdotes, poetas, filósofos, cientistas, militares, mandatários e artistas. Viveram em tempos bíblicos, no helenismo, no feudalismo e no período moderno. A geografia contempla Judéia, Grécia, Roma, Itália, Inglaterra, Alemanha e França.

A lista é abrangente e universal – ou católica, para usarmos ao pé da letra o sentido da palavra. De fato, Augusto Comte deu amplitude étnica e territorial a uma prática originada no século XVIII, a que foi dado o nome de 'paganismo moderno', por Peter Gay. Segundo este historiador, o 'paganismo moderno' resultou da fusão e interação dialética entre: simpatia pela Antiguidade, tensão com o Cristianismo e anseio por modernidade (GAY, 1977, pp. 8-9), traços marcantes no pensamento filosófico do Iluminismo.

ANTECEDENTES

Certas nações européias começaram a consagrar seus cidadãos meritórios em santuários específicos, sem vínculos com o Cristianismo.

O primeiro na cronologia, feito em 1733, é o Templo dos Britânicos Notáveis [Temple of British Worthies], do arquiteto William Kent, no qual estão bustos de 16 personagens, selecionados em função de seus méritos para a sociedade leiga. Vemos Shakespeare, Locke e Newton, entre estadistas e reis ingleses.

O Templo dos Britânicos Notáveis; arquiteto William Kent.
Crédito:
www.panoramio.com.

Em Roma, a Accademia di San Lucca organizou concurso de projetos de arquitetura para "edifício público monumental, destinado à exibição dos bustos de homens célebres" (1758).

Perto de Regensburg, na Baviera, foi construído um templo dórico de granito para ser o Eliseu Germânico, um novo Walhalla, com imagens de Schiller, Mozart, Goethe e Leibniz, entre outros, projetado pelo arquiteto Leo von Klenze, entre 1821 e1842.

O Eliseu Germânico; arquiteto Leo von Klenze.
Crédito:
http://commons.wikimedia.org.

Em 1806, Napoleão decretou que, num terreno central em Paris, fosse construído um templo em estilo coríntio para a celebração cívica de seu exército, a Grande Armée, e seus heróis. Após marchas e contramarchas, mudou de uso, sendo o prédio consagrado, em 1842, como a igreja de La Madeleine, projeto do arquiteto Pierre Vignon (1809).

La Madeleine de Paris; arquiteto Pierre Vignon.
Crédito:
www.panoramio.com.

O contrário aconteceu décadas antes, em 1791, quando um templo católico se tornou monumento nacional: a Igreja de Santa Genoveva, construída durante o reinado de Luís XV pelo arquiteto Jacques Gabriel Soufflot (1757-1759), e destinada pela Assembléia Constituinte da Revolução Francesa à memória dos 'grandes homens da pátria', com o nome de Panthéon.

ASPECTO E MODELOS

O Plano Geral de um grande Templo da Humanidade, por Augusto Comte mostra apenas a planta do prédio, sem informar sobre seu aspecto ou estilo. A escolha do estilo arquitetônico do prédio foi feita por Miguel Lemos. Ele imita a fachada do Panthéon de Paris, e seu comprimento corresponde a 1/3 da extensão do Panthéon, nos informa documento existente no INEPAC (VASCONCELOS, s/d: p. s/nº).

Miguel Lemos.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Planta do Panthéon de Paris; arquiteto Jacques Gabriel Soufflot.
Crédito: FLETCHER, Banister. Architecture on the Comparative Method. Londres: B. T. Batsford, 1954.

A fachada do Panthéon parisiense impressiona pelo profundo pórtico hexastilo, com três renques de colunas e um de pilastras. A peculiar ausência de duas colunas nos renques internos, diante da porta principal, proporciona um imponente adro coberto, e um agradável deambular. A possibilidade de acesso pelos flancos do pórtico é indicada pelos pares de colunas acrescidas nas extremidades dos mesmos renques. Um pedimento eleva o conjunto sobre o logradouro, acentuando a monumentalidade. A suave escadaria envolve seus três lados.

Fachada do Panthéon de Paris.
Crédito:
www.simonho.org.

Filiado estilisticamente ao Neoclassicismo francês, inspirou-se, o pórtico do Panthéon parisiense, no Panteão de Roma. Este foi construído em plena Antiguidade, no séc. II dC. O grande pórtico tem profundidade semelhante, com três renques de colunas e um de pilastras adoçadas à parede frontal. A peculiar ausência de duas colunas diante da porta é outro traço comum aos dois templos.

Planta do Panteão de Roma.
Crédito: FLETCHER, Banister. Architecture on the Comparative Method. Londres: B. T. Batsford, 1954.

Fachada do Panteão de Roma.
Crédito:
www.panoramio.com.

O PÓRTICO DO TEMPLO DA HUMANIDADE

A distribuição de colunas e pilastras é exatamente igual à do Panthéon parisiense. Aqui, também foi projetada escadaria envolvendo os três lados do pórtico, embora só tenha sido executada a parte frontal. A diferença está nas dimensões e nos materiais. As medidas usadas correspondem a 1/3 do modelo parisiense. Em vez de mármore, usou-se, inicialmente, alvenaria de tijolo, substituída em 1921 por concreto aparente. Esta nova solução parece ser precursora na construção civil do Rio de Janeiro, e sem paralelo na linguagem acadêmica. São de concreto aparente as colunas, suas bases, os fustes e as esperas, no alto.

Planta do Templo da Humanidade, segundo levantamento recente, feito pelo INEPAC.
Crédito: Arquivo do INEPAC.

Fachada do Templo da Humanidade, em 2009.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Base de coluna sobre plinto de granito.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

De concreto, são também os lintéis entre apoios, a abóbada sobre o adro, os caixotões piramidais diante das portas laterais, e o entablamento e tímpano do frontão. O delicado trabalho de moldagem exibe a mesma perícia, tanto na feitura das fundas caneluras dos fustes quanto no acabamento do teto do pórtico. Ainda são visíveis as juntas entre as tábuas das fôrmas, bem como o desenho natural dos veios da madeira.

Caneluras.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.


Fustes.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.
Esperas nos capitéis e entablamento.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Surpreende, também, o acabamento em todo o tímpano, agora deixado perfeitamente liso, nas molduras e nas curvas côncavas e convexas da cornija.

A concretagem foi tão bem realizada que mal se percebem emendas, e as esguias colunas parecem monolíticas. Como terão sido preparadas as fôrmas ? Quais terão sido as tecnologias e habilidades manuais empregadas para a obtenção de semelhantes acabamentos ? Foram inventadas aqui ou trazidas da França ?

O mérito é tanto de quem elaborou e detalhou o projeto arquitetônico, quanto de quem executou as fôrmas e de quem lançou o concreto. Houve um notável trabalho de engenharia e carpintaria na concepção, na montagem, e na moldagem dos componentes do pórtico.

Abóboda, diante da porta principal.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Caixotão piramidal, diante de porta lateral.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

O EXTERIOR

A mesma singeleza no uso de material de origem industrial, deixado aparente, ocorre nos degraus da escadaria do pórtico; são de tijolos maciços e se encontram em bom estado.

Escadaria.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

A visão mais radical de materiais aparentes está nas paredes externas, ao redor do templo. De baixo para cima, se sucedem as alvenarias feitas com pedra-de-mão, canjicado e tijolo. Estas paredes, entretanto, estão sem os acabamentos previstos no projeto existente nos arquivos do INEPAC¹, que indica silhar plaqueado, a ser simulado com argamassa, e capitéis coríntios nas colunas do pórtico. O fato é confirmado pela posição de esquadrias e tacos para trincos que se encontram salientes, à espera das argamassas niveladoras.

Fachada lateral.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Esquadria e taco de madeira.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

TELHADO E ESTRUTURA

A cobertura utiliza telhas de Marselha, com duas águas sobre a nave, e 7 tacaniças em leque, sobre a abside. Dutos de cobre continuam em uso, esverdeados pelo tempo. O corte longitudinal revela 7 tesouras de madeira a sustentar cobertura e forro. Pousam em pilastras de alvenaria feita, sucessivamente, com pedra-de-mão até o piso da nave, com canjiquinha até o nível da passarela de contorno e, finalmente, com tijolo maciço até o telhado.

Telhado: tacaniças sobre abside, mestras na nave e, em nível mais baixo,
sobre coro e vestíbulo. Este corpo intermediário é separado do pórtico por platibanda
com recorte em arco, que lhe esconde as empenas. No início de 2009, ruiu parte do telhado.
Fachada lateral: pilastras com largura constante, alvenaria de pedra-de-mão,
canjicado e tijolo maciço; fenestração regular.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

Sua largura é constante. A profundidade varia, sendo maior até o nível da passarela, por razão estrutural, e também para permitir a engenhosa solução de nichos em recesso no nível da nave. Acima da passarela, a profundidade das pilastras diminui, mantendo-se sempre destacadas das alvenarias de vedação, tanto no exterior como no interior do prédio. A solução é simples e econômica, revelando exemplar coerência estrutural, em função da gradativa redução das cargas. Separa estrutura portante e parede de vedação. As pilastras modulam as fachadas laterais do templo e seguem a organização interna de nichos e vãos. A modulação estrutural está indicada nas elevações do projeto original (ver imagem, mais abaixo).

O piso da nave está apoiado em colunas de ferro, aparentes no grande porão sob a nave e abside. Este porão alojou escritórios e "oficina de tipografia" do Templo Positivista (BARRETO, 1904, p. 4).

ASPECTOS DO INTERIOR

Uma escada com sete degraus leva do vestíbulo à nave, enquanto outros sete conduzem ao porão. Nave e abside compõem um espaço contínuo (32 m X 11 m), com altar ao fundo e nichos laterais. Estes são delimitados na altura por estreitas passarelas que circundam o espaço, a partir do coro situado sobre o vestíbulo. Acima das passarelas, estão as janelas, vazadas nos tramos definidos pelas pilastras. O teto plano, de cor leitosa, funciona como um pano difusor da luz natural.

Nave.
Crédito: www.igrejapositivistabrasil.org.br.

Nichos, passarela e janelas.
Crédito: Arquivo do INEPAC.

Na nave, arcos plenos ladeiam pilastras – com acabamento em escaiola imitando mármore verde, e capitéis na ordem coríntia –, formando nichos cujo fundo verde põe em destaque bustos – feitos pelo escultor Décio Vilares – dos personagens comteanos encimados por palavras: 'Lógica', 'Astronomia', 'Física', 'Química', 'Biologia', 'Sociologia', 'Moral' e, mais adiante, 'Patriciado'. No lado oposto, lemos: 'Pintura', 'Escultura', 'Arquitetura', 'Indústria', 'Música', 'Poesia', 'Política' e, já na abside, 'Proletariado'. Cartelas invocam: 'Epopéia Moderna', 'Indústria Moderna', 'Ciência Moderna', 'Santificação da Família', 'Civilização Militar', 'Catolicismo' e 'Civilização Feudal'.

SÍMBOLOS

Executada em cimento colorido, no piso diante da porta principal do Templo da Humanidade, uma rosa-dos-ventos mostra "a direção da Capela em relação a Paris" (VASCONCELOS, s/d: p. s/nº).

Rosa-dos-ventos.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

A posição da cidade, a 28° do norte, é apontada por um galho de roseira; e na direção descrita, há uma pequena placa colocada sobre o rodapé, na parede frontal do Templo, com a inscrição 'PARIS'.
"A rosa representava, em Roma, durante a Antiguidade, vitória, orgulho, e amor triunfante. Era a flor de Vênus, deusa do amor. No Cristianismo, a rosa branca significa pureza, e a vermelha, martírio. A Virgem Maria, concebida sem pecado original, é considerada a 'rosa sem espinhos' " (FERGUSON, 1989, p. 37).

Tímpano com mandorla.
Crédito: Alex Nicolaeff, 2009.

A mandorla é associada, no catolicismo, à Virgem da Assunção (FERGUSON, 1989: p. 37). O tímpano do Templo da Humanidade mostra mulher com criança no colo, contornadas por mandorla, relevo feito pelo escultor Décio Vilares.
O verde é a cor predominante na decoração interna e em detalhes no exterior do prédio. "A cor verde simboliza o triunfo da vida sobre a morte; sugere caridade, e a regeneração da alma através de obras meritórias; como símbolo de iniciação espiritual, a cor verde é usada ocasionalmente no manto de São João Evangelista" (FERGUSON, 1989: p. 151).
"Uma escadaria de sete degraus, lembrando o número das ciências humanas, dá acesso à Capela" (VASCONCELOS, s/d: p. s/nº). Presença constante na arquitetura descrita, o número '7' tem ainda outros significados simbólicos: "é o número da caridade, da graça e do Espírito Santo. Também foi usado em escritos antigos, como sendo o número da integridade e da perfeição" (FERGUSON, 1989: p. 154).

Zigurate, na Babilônia.
Crédito:
http://verdadeperdida.blogs.sapo.pt.

"O número '7' remete às torres escalonadas com sete patamares, na Babilônia, vistas como centro do Orbis Terrarum, lar original de toda a Humanidade, com o divino entronizado no seu cume. Um estudo remete, a origem deste símbolo, à 'estrutura do pescoço humano, com a sequência das sete vértebras, encimada pela cabeça, coroando-a como um domo' " (RANK, 1975: p. 188).

SEGURANÇA E CONFORTO

O vestíbulo e duas salas laterais são acessados, diretamente do pórtico, por três portas. Na nave e na abside há duas grandes portas em cada parede lateral, dando para o exterior, onde escadas levam às faixas de terreno que ladeiam a construção. Este conjunto de portas permite o rápido escoamento do público. É raro encontrar um auditório tão bem atendido neste quesito fundamental à segurança.
Graças à posição das janelas, próximas ao teto, a luminosidade-ambiente na grande nave é suave e agradável, matizada pelos tons calmantes do verde-musgo usado em pilastras, entablamento e nichos.
Portas e janelas configuram, ainda, um eficiente sistema de aeração: o controle das portas, no nível do piso da nave, conjugado ao das janelas, no alto, estabelece a ventilação cruzada, favorável ao conforto térmico. A fachada lateral leste, voltada para a baía, recebe o sol da manhã e, por muitos anos, colheu também a brisa que vinha da Praia da Glória.

OS CONSTRUTORES

A 21 de setembro de 1890, numa circular assinada por Miguel Lemos, dirigida a todos que simpatizavam com a causa positivista, apresentava esta um plano de empréstimo para a compra de um terreno e construção de uma igreja que servisse de sede para o apostolado. (...) Este empréstimo teve êxito, graças à contribuição dos positivistas e do eficaz apoio do Engenheiro Rufino de Almeida, que subscreveu metade do empréstimo, sendo assim possível adquirir o terreno (...).

Ao Dr. Rufino de Almeida coube ainda, com sua empresa, iniciar a construção do templo, sob a direção direta dos engenheiros positivistas Américo de Viveiros e Trajano Viriato de Medeiros, e a superintendência do mestre de obras Joaquim Alves.

A 12 de outubro de 1890, era realizada a solenidade do lançamento da pedra fundamental (VASCONCELOS, s/d: p. s/nº).

Na pasta 353 do arquivo do INEPAC, há um cartão postal, datado de 1905 e legendado em francês: "Religion de l’Humanité: le Temple Positiviste a Rio de Janeiro, Brésil (em 1894)", com esta data acrescida a mão livre. A fotografia mostra o pórtico, com as colunas feitas em alvenaria de tijolos deixada aparente, sem caneluras. Entablamento, tímpano e corpo intermediário estão revestidos de argamassa. A foto que originou o postal está visivelmente retocada.

Cartão postal (1894).
Crédito: Arquivo do INEPAC.

No mesmo arquivo, há outro postal, este com a legenda em italiano: "Templo dell’Umanitá: via Benjamin Constant, nº 74, Rio de Janeiro. Brasile. – 5 Shakespeare 133 – 14 Settembre 1921", seguida de texto sobre a Religião da Humanidade. Mostra o pórtico feito em concreto aparente, no ano de 1921, pelo arquiteto Cipriano de Lemos (SISSON, 1991: p. 13), que permanece inalterado, em surpreendente bom estado.

Cartão postal, 1921.
Crédito: Arquivo do INEPAC.

PRESERVAÇÃO DO PRÉDIO

O Templo da Humanidade foi tombado, a nível estadual, "em 31 de março de 1978" (CARVALHO, 2000, p. 88), por recomendação de Marina Jacobina Vasconcelos.

Projeto original para a fachada lateral leste, com indicação do acabamento;
note-se a marcação da estrutura.
Crédito: Arquivo do INEPAC.


Projeto da fachada principal; a escadaria envolve os três lados do pórtico.
O nome de Miguel Lemos consta, neste desenho existente no INEPAC,
como Diretor do Apostolado Positivista do Brasil.
Crédito: Foto de Alex Nicolaeff, 2009 / Arquivo do INEPAC.

NOTA
1. INEPAC: Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Departamento de Cultura da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro; órgão criado por João Ruy Medeiros e Paulo Afonso Grisolli em 1975 e dirigido por Alex Nicolaeff desde a criação até 1979.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

· BARRETO, Paulo. As Religiões do Rio: a Igreja Positivista. Paris: Garnier, 1904. Disponível em http://pt.wikisource.org/wiki/A Igreja Positivista; p. 4.
· CARVALHO, Lia de Aquino (org.). Guia do Patrimônio Cultural Carioca: bens tombados. 3ª ed., Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Patrimônio Cultural, 2000.
· CORONA, Eduardo & LEMOS, Carlos. Dicionário da Arquitetura Brasileira. São Paulo: São Paulo Editora Livraria Ltda., 1972.
· CZAJKOWSKI, Jorge (org.). Guia da Arquitetura Eclética no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Centro de Arquitetura e Urbanismo, 2000.
· FERGUSON, George. Signs & Symbols in Christian Art. New York: Oxford University Press, 1989.
· FLETCHER, Banister. Architecture on the Comparative Method. 16th ed., London: B. T. Batsford, 1954.
· GAY, Peter. The Enlightenment: an interpretation: the rise of Modern Paganism. New York: W. W. Norton & Company, 1977.
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· PEVSNER, Nikolaus. A History of Building Types. London: Thames and Hudson, 1997.
· _______________. Dicionário Enciclopédico de Arquitetura. Rio de Janeiro: Editora Artenova S. A., 1972.
· PIKE, E. Royston. Dictionaire des Religions. Paris: Presses Universitaires de France, 1954.
· RANK, Otto. Art and Artists: creative urge and personality development. New York: Agathon Press, 1975.
· REA, Regina M. Dicionário de Belas-Artes: termos técnicos e matérias afins. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura S. A., 1962.
· SISSON, Rachel. "Arquitetura e Positivismo no Rio de Janeiro do Oitocentos". In: Revista dela COPA. Petrópolis: Coordenación para el Patrimonio de las Américas, nov./1991, ano 1, nº 1.
· VASCONCELOS, Marina Jacobina. "Templo da Humanidade". Rio de Janeiro: Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico, do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, do Departamento de Cultura, da Secretaria de Estado de Educação e Cultura do Estado do Rio de Janeiro. Texto datilografado; 5 folhas, sem numeração de páginas; pasta 353 do arquivo do INEPAC; sem data.

Revista Vivercidades