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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Irmandades


Vivien Ishaq
Pesquisadora do Arquivo Nacional
Doutora em História - UFF

O culto em torno da devoção a um santo, representado por relíquia ou imagem, fazia parte das práticas do catolicismo ibérico. Devoção particular vivida na privacidade da casa, e devoção coletiva vivida na comunidade de irmãos organizada em torno da eleição de um padroeiro comum, com quem dividiam simbolicamente as incertezas e as dificuldades terrenas. A Igreja pós-tridentina confirmou os poderes dos intercessores, em resposta à reforma protestante que eliminou ou minimizou todos os intermediários entre o crente e Deus: liturgia, clero, sacramentos, culto dos santos e orações pelos mortos. Os santos da Igreja católica seriam os guias e advogados, os confessores, os mestres, os mártires da fé; “seriam eles os personagens intermediários que manteriam a relação entre a vida na terra e a inspiração do céu”[1]. Os católicos praticavam sua devoção em santuários, em oratórios, capelas, igrejas, e também em irmandades. Inspiradas por suas congêneres européias – que atingiriam o milhar no final do século XV –, especialmente as portuguesas, as irmandades fundadas por leigos, desde o século XVI, marcaram com suas festas e procissões a religiosidade vivida no mundo colonial, expressando ser uma célula importante da vida na América.
As irmandades não estavam subordinadas a uma ordem religiosa como as ordens terceiras e se distinguiam das confrarias medievais que, via de regra, eram vinculadas a uma paróquia. Antes da publicação, em 1719, das Constituições primeiras do arcebispado da Bahia, que regulamentaria a vida religiosa do território português, as irmandades fundadas no ultramar era regidas pelas Ordenações do Reino. Esta legislação determinou que as irmandades fundadas por leigos e por eles dirigidas estavam subordinadas às autoridades civis, podendo os prelados visitá-las, porém, somente com "nossa licença, por assim serem de nossa imediata proteção”, estabelecendo, ainda, limites da administração eclesiástica em relação a essas associações.[2].
As irmandades são associações formadas por leigos dedicadas ao incremento da devoção aos santos e santas da Igreja católica. Como a implantação dos bispados e paróquias ocorreu de maneira gradual e diferenciada nas terras lusas na América, concorrendo para que organização da vida religiosa da população ficasse, em grande medida, a cargo dessas associações. Foram elas que dinamizaram o incremento do culto católico pelas diversas regiões do vasto território, exigência do padroado concedido pela Santa Sé à monarquia portuguesa, e disputando com o clero colonial os dízimos administrados pela Coroa portuguesa.
A legislação dotava cada irmandade de autonomia para gestão de seus bens e rendas, que eram arrecadados também por meio de doações de fiéis e das heranças dos irmãos congregados. Cada irmandade era regida por um estatuto ou compromisso, que era submetido à aprovação régia, no qual estava registradas as regras do funcionamento da associação e os direitos e os deveres de seus membros, denominados irmãos ou irmãs.
No século XVIII a organização de irmandades se intensificou na Colônia e implicava, no mínimo, a obtenção de um altar onde se pudesse prestar a devoção ao santo patrono escolhido pelo grupo de fiéis. Era comum que em uma mesma igreja estivesse sediada mais de uma irmandade, e com o crescimento da associação e do volume de recursos arrecadados, a irmandade poderia construir sua própria igreja, existindo ainda a possibilidade de que um irmão abastado arcasse com a edificação da mesma, como foi o caso, por exemplo, da Igreja da Candelária na cidade do Rio de Janeiro. Nos documentos do Arquivo Nacional estão registrados os conflitos decorrentes da divisão de um mesmo espaço pelas diferentes irmandades, a busca de autonomia administrativa, assim como os esforços de arrecadação de recursos para construção e embelezamento das igrejas, pois elas eram o sinal visível da existência da associação para a comunidade de habitantes.
Em suas capelas e igrejas as populações teciam uma rede de relações que iam além de sua participação nos ofícios religiosos. Seus membros, já congregados em torno da devoção ao santo patrono, uniram-se por meio dos laços de solidariedade e de auxílio mútuo, promovendo sepultamentos dignos, sufrágios às almas dos irmãos falecidos, e prestando assistência às suas viúvas e órfãos. A documentação do Arquivo Nacional reunida, por exemplo, no Fundo Inventários, registra o desejo de inúmeros fieis, que motivados pela fé, por promessas, pela vontade de garantir um lugar longe do inferno ardente, pela necessidade de afirmação de sua fortuna perante a sociedade ou mesmo pela busca da eternidade, doavam parte de seu patrimônio às irmandades. Era prática comum dos devotos na sociedade portuguesa e também em suas colônias, designarem suas almas como herdeiras. Os legados eram administrados pelas irmandades, de forma a garantir a realização de missas pela alma do morto, muitas vezes por décadas, tentando, assim, interceder no julgamento final entre o inferno ou o paraíso.
As relações de solidariedade eram soldadas no mesmo espaço da realização dos rituais religiosos; e em razão da sua natureza associativa e de seu caráter eletivo, era também um lugar de sociabilidade. Ser membro de uma irmandade respondia a uma necessidade social inscrita na sociedade colonial, alguém que não participasse da vida religiosa, seja nas igrejas paroquiais, seja nas irmandades, seria de certa forma visto com desconfiança, a possibilidade de denúncia à Inquisição era uma ameaça sempre presente.
O calendário de festas religiosas e procissões proporcionava à população momentos de convívio social, sobretudo às mulheres, rompendo seu cotidiano restrito ao ambiente doméstico-familiar. Nessas ocasiões, nas vilas e cidades, os fogos de artifício eram soltos em frente às portas das igrejas, que ficavam iluminadas durante toda a noite. Cruzes e figas contra o mau-olhado eram vendidas à mesma população, o comércio dos objetos considerados capazes de afastar as desgraças e os malefícios se intensificava, eram vendidas, por exemplo, fitas que pretendiam ter a exata altura das imagens do santo escolhido. Usadas em torno da cintura, inscrevia-se nelas o nome de quem as portava, com a esperança de que amarradas junto ao corpo, removessem dores ou doenças. Nas procissões, cada irmandade concorria para fazer dessa participação o momento de reconhecimento da comunidade. As vestimentas, as cores, as opas e os estandartes utilizados pelos membros de uma irmandade eram sinais de reconhecimento interno e permitiam, igualmente a afirmação de identidade do grupo para o exterior.
Os dias das festas dos santos e santas venerados pelas irmandades de negros, por exemplo, eram ocasiões onde as tradições africanas se manifestavam, sobretudo, durante as eleições de reis e rainhas da irmandade. Momentos de afirmação de identidade cultural, mas também oportunidade de lutar pela sobrevivência de cada irmandade, uma vez que nesses dias havia a arrecadação de doações, que auxiliava a comunidade a manter a associação, tornando-se o único lugar de convívio social dessa população fora do mundo do trabalho. Uma importante função cabia às irmandades que reunia escravos, reservar parte dos recursos das irmandades para a compra de alforria de alguns de seus membros, conforme foi registrado na correspondência da Coroa ao governador da capitania de Rio de Janeiro: “por parte dos irmãos da Senhora do Rosário dessa capitania, se me representou aqui terem alguns irmãos cativos em algumas casas com ruim cativeiro, e por alguns deles se achasse com bastante resgate para se libertarem, não podia fazer a dita Irmandade sem licença minha[3].
Organizadas segundo os diferentes grupos sociais, as irmandades revelavam a estratificação da sociedade colonial. As irmandades de Nossa Senhora do Rosário, por exemplo, reuniam negros forros e escravos. As famílias mais ricas geralmente se reuniam nas Igrejas da Irmandade de Misericórdia e do Santíssimo Sacramento. Uma rígida hierarquia existia entre as diversas irmandades que conviviam numa mesma localidade, expressando o prestígio social das atividades profissionais dos seus membros, das disparidades entre seu nível de fortuna e, em relação direta com esses últimos elementos, dos meios de que cada irmandade dispunha para assegurar um belo desfile numa procissão.
As irmandades coloniais desempenharam uma intenção função de regulação das comunidades paroquiais; reforçando hierarquias sociais, difundindo padrões morais e de comportamento.Eram unidades espaciais mais próximas da comunidade de fiéis e que cumpriram funções religiosas e sociais, auxiliando na resolução de aspectos fundamentais tanto da vida privada quanto da coletiva, tentando assim, atender ou dar melhor resposta às necessidades vividas por parte da população colonial.

[1] Giulio Carlo Argan. L’age baroque. Géneve: Editons d’Art Albert Skira, 1989, p. 77.
[2] Ordenações e leis do Reino de Portugal. Coimbra: Real Imprensa da Universidade, 1833, 10a edição, parágrafo 42, p. 238.
[3] Arquivo Nacional. Códice Correspondência da Corte para o governador Duarte Teixeira e Chaves, 12 de janeiro de 1685
http://www.historiacolonial.arquivonacional.gov.br
O Arquivo Nacional e a História Luso-Brasileira

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

IRMANDADE DA BOA MORTE

Fotos de Lamberto Scipioni
Confraria secreta:
Passados quase 200 anos de sua criação, a Irmandade da Boa Morte ainda se mantém ativa e fechada – somente participam dela as descendentes de escravas com mais de 40 anos.


Mulheres negras fundaram o primeiro movimento feminista no Brasil

Fabíola Musarra

De todos os tesouros que preserva espalhados em suas ruas, a pequena cidade baiana de Cachoeira é detentora de uma das manifestações culturais mais ricas do País: a festa de Nossa Senhora da Boa Morte. Realizada no fim de semana mais próximo a 15 de agosto, a iniciativa – mais do que uma simples comemoração – é um convite para ingressar num mundo onde cultura, tradição, história e magia convivem e se confundem.

Situada na região do Recôncavo Baiano, a 109 quilômetros de Salvador, a cidade “nasceu” de um engenho de açúcar, no século 16. Devido à fertilidade de seu solo e ao intenso comércio, foi um dos principais pólos econômicos da Bahia até o século 19. De seu apogeu, Cachoeira ainda conserva algumas tradições. A festa de Nossa Senhora da Boa Morte é uma delas.

Tributo a Maria:
Desde 1820, as irmãs se mantêm fiéis na devoção a Nossa Senhora. Anualmente, realizam a festa de Cachoeira, cumprindo uma promessa feita por suas ancestrais nos tempos da escravidão.

Participar dessa cerimônia é mergulhar no passado e reviver os tempos do Brasil colonial, do Império e do País independente mas ainda escravocrata. É percorrer uma paisagem onde a energia de escravos mortos ou torturados ainda ecoam. É desvendar a-quele que talvez seja o primeiro movimento feminista negro do País: a Irmandade da Boa Morte, uma organização de mulheres negras que à sua moda resistiu e se rebelou contra os sofrimentos impostos pelo regime escravagista, desde a jornada diária de trabalho de 18 horas nas lavouras aos castigos e mutilações, como o corte dos tendões das fujonas, os açoites em público, os grilhões e brasas em seus rostos, a extração e quebra de dentes a frio e o corte de orelhas e da língua daquelas consideradas mais afoitas. Sem falar dos abusos sexuais.

Não é à toa que esse período de mais de 350 anos é um dos capítulos mais sombrios da história das Américas. Mas foi nesse cenário que surgiu a Irmandade da Boa Morte, que é quem até hoje organiza a festa em Cachoeira. Fundada em 1820, essa sociedade de mulheres negras e mestiças, escravas e libertas, tinha duas metas principais: comprar a carta de alforria para a libertação de maridos, filhos e outros escravos, e preservar os rituais das religiões africanas até então terminantemente proibidos, como o culto dos orixás. Posteriormente, foi essa organização que fundou a primeira casa de candomblé keto no Brasil.

Respeito a Oxalá:
Após ritual secreto, as irmãs oferecem uma ceia à comunidade. Nela, o dendê e a carne são expressamente proibidos, num gesto de respeito a Oxalá, que não ”aprecia” esses alimentos.

Passados quase dois séculos de sua criação, a Irmandade da Boa Morte ainda é uma confraria católica de mulheres negras e mestiças que representam a ancestralidade dos povos africanos escravizados e libertos no Recôncavo Baiano. A sociedade ainda se mantém ativa e é fechada – somente podem ingressar nela as descendentes de escravas com mais de 40 anos.

Atualmente, a Irmandade é integrada por cerca de 30 senhoras – houve um tempo em que esse número chegou a 200. Embora neguem, são elas que continuam realizando secretamente os mesmos rituais aos deuses africanos dos tempos da escravidão, incluindo aqueles feitos durante a festa da Nossa Senhora da Boa Morte.

Quitutes nas ruas em troca da liberdade
Como outras devoções marianas, o culto a Nossa Senhora da Boa Morte é um exemplo da inestimável herança deixada por índios, portugueses e negros. Ele foi trazido para o Brasil pelos jesuítas portugueses. Chegou primeiro em igrejas e conventos de Salvador, que realizavam a procissão do enterro de Maria ou procissão de Nossa Senhora de Boa Morte.

Mais tarde, essa devoção foi levada para Cachoeira, onde a festa é atualmente uma das mais famosas do País, ganhando inclusive daquelas organizadas na capital baiana e no Rio de Janeiro em honra a essa mesma santa.

Sinal de luto:
Na procissão do corpo de Nossa Senhora, realizada na sexta-feira, todas as mulheres da confraria vestem-se de branco, cor que simboliza o luto para o povo santo.

Para preservar sua identidade cultural e fugir das terríveis punições impostas pela Igreja católica da época, as primeiras irmãs – as mães, mulheres e irmãs de escravos fugidos – começaram as cerimônias e rituais pedindo a intercessão de Nossa Senhora da Boa Morte. “Elas vendiam quitutes nas ruas para comprar a carta de alforria de outros escravos. Pediam, então, a ajuda de Nossa Senhora para libertar os escravos e conseguir voltar à África de-pois da morte”, conta uma das senhoras da Irmandade. “E nós continuamos a cumprir a promessa feita pelas nossas ancestrais, de sempre agradecer a Nossa Senhora pela ajuda obtida.”

Em Cachoeira, a festa de Nossa Senhora é realizada desde o início do movimento abolicionista. Durante 68 anos, entre a organização da Irmandade (1820) até a decretação da Lei Áurea (1888), as irmãs faziam um ritual secreto e sem as cerimônias católicas. Apenas rezavam suas novenas e faziam o samba-de-roda (uma dança em que os participantes fazem uma roda e batem palmas). Depois disso, é que se celebrava a missa católica.

Ainda hoje a cerimônia preserva seus traços característicos, marcados pela memória do sofrimento dos escravos para alcançar a liberdade. Segundo os pesquisadores, é exatamente este o significado da celebração – o agradecimento a Nossa Senhora pela liberdade conseguida com muito sacrifício, com a realização de várias cerimônias, culminando com a assunção da mãe de Jesus.

Em linhas gerais, a programação da festa de Nossa Senhora de Boa Morte inclui a confissão na Igreja Matriz, um cortejo representando a morte de Nossa Senhora, uma vigília, ceia e uma procissão do enterro da santa. Depois, é celebrada a ascensão de Nossa Senhora, seguida de procissão e de uma missa na Igreja Matriz da cidade.

Embora a mãe de Jesus seja cultuada o ano inteiro, o ápice dessa devoção da Irmandade tem uma data marcada: acontece com a celebração da ascensão da santa. No calendário de duração da festa de Nossa Senhora da Boa Morte, sexta-feira e sábado são os dias dedicados aos cultos sagrados e secretos. Em cerimônia privativa, as irmãs rezam para Nossa Senhora enquanto queimam-se incensos na pequena casa ao lado da Capela da Ajuda, local onde uma imagem de 300 anos de Maria morta é arrumada e velada.

O sagrado dá passagem ao profano
Depois, é feita a saída em procissão do corpo de Nossa Senhora. Durante o cortejo, a imagem tricentenária da santa é carregada pelas irmãs que integram a comissão da festa no ano. Durante toda a procissão, elas são auxiliadas e se revezam no translado do corpo.

Todas vestem-se de branco, têm contas e brincos brancos ou prateados, usam torço muçulmano também branco e carregam tochas com velas acesas. O traje branco é sinal de luto para o povo de santo. A missa de corpo presente é feita em memória das irmãs falecidas. As irmãs retornam com o caixão à sede da sociedade. Velam Nossa Senhora e fazem rituais secretos.

Depois deles, oferecem uma ceia branca (peixes, pães, arroz e vinho) à comunidade. Como no candomblé a sexta-feira é um dia dedicado a Oxalá e como esse orixá “não aprecia” dendê e carne, esses ingredientes são proibidos nessa refeição.

Há quem diga que a ceia branca é preparada para as irmãs falecidas. Assim sendo, é alimento para egum (espírito de uma pessoa que já morreu) e só pode ser comido na sede da Boa Morte. “Há alguns anos, uma pessoa tentou levar comida embora e tomou um soco de um egum, derrubando tudo no chão. Isso foi um sinal de que os alimentos não deveriam ser comidos fora da nossa sede”, recorda uma das integrantes da confraria.

No sábado, na missa e na procissão simbolizando a morte de Nossa Senhora, as irmãs usam seus trajes de gala, as chamadas becas. A cabeça é coberta por um lenço branco denominado bioco. Sobre a camisa branca trazem um pano- da-costa de veludo preto.

Na cintura amarram um lenço branco sobre a saia preta plissada e calçam chagrins (uma espécie de chinelo) brancos.

Domingo é o dia que se comemora a ascensão de Nossa Senhora ao céu. Para celebrar, as irmãs da confraria oferecem uma feijoada à população. Aí sim, começa a festa profana, bem do jeito que o baiano gosta. Ela dá direito a muita comida, bebida e a samba-de-roda. Como toda a festa que se preza na Bahia, a alegria começa com data e hora marcadas... mas só termina quando o fôlego acabar.

Cachoeira, monumento nacional

Considerada monumento nacional e tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico em 1971, Cachoeira é a segunda cidade baiana (a primeira é Salvador) que reúne o mais importante acervo arquitetônico no estilo barroco. Suas casas coloniais, igrejas e prédios históricos preservam a imagem do Brasil Colônia, Império e República, quando por três séculos (do 17 ao 19) o comércio e a agricultura colocaram o vilarejo no ranking de um dos mais prósperos do País. Desde 2002, parte desse passado vem sendo resgatado pelo programa Monumenta, do Ministério da Cultura, e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).

O primeiro passo desse projeto foi a restauração da pequena Capela da Ajuda, uma construção com características medievais e missionárias. A capela foi edificada nos arredores do engenho de cana-de-açúcar, em volta da qual se formou a povoação. Em 1693, o povoado passou a se chamar Vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira. Erguida entre 1595 e 1606 por Paulo Dias Adorno – fidalgo português fundador do povoado que originou Cachoeira –, a Capela da Ajuda foi ainda primeira sede da Irmandade da Boa Morte.

Também já foram restauradas a casa onde nasceu a enfermeira Ana Nery, que cuidou dos feridos na Guerra do Paraguai; a cadeia e a Casa de Câmara. Construído entre 1698 e 1712, esse imóvel foi sede do governo da Bahia em dois períodos: em 1822, abrigou a junta governativa nas lutas pela independência da Bahia e entre 1837 e 1838, por ocasião da Revolução da Sabinada.

Ao todo o Monumenta prevê a restauração de 327 imóveis em Cachoeira. Entre eles, a Igreja da Matriz (construída entre 1693 e 1754, abriga os maiores painéis de azulejos portugueses com cenários bíblicos da América Latina) e o conjunto do Carmo, de 1702 (integrado pela Igreja de Nossa Senhora do Rosário e Casa de Oração da Ordem Terceira, reúne trabalhos em talha dourada e imagens com influências orientais), além da Santa Casa de Misericórdia e do antigo fórum.

O que fazer na cidade

Primeiro freguesia, depois vila, com mais de 300 anos de fundação e elevada à condição de cidade há 166 anos, Cachoeira, ao lado de São Francisco do Conde e Jaguaribe, é uma das três mais antigas cidades baianas. Com toda essa idade e história, Cachoeira abriga, naturalmente, um deslumbrante casario colonial. Todo esse conjunto de sobrados, praças, ruas, becos e ladeiras merece ser conhecido.

Outro ponto turístico de destaque é a Fundação Hansen Bahia. Ela reúne aproximadamente 13 mil peças, entre xilogravuras e matrizes, cópias assinadas e não assinadas do gravador alemão Karl Heinz Hansen, naturalizado brasileiro com o nome de Hansen Bahia.

O prédio da fundação é do século 17 e serviu de hospedagem para o imperador Dom Pedro II, em 1858, e para a princesa Isabel e o Conde d´Eu, em 1885, na inauguração da ponte Dom Pedro II (1822-1885), erguida em estrutura metálica importada da Inglaterra. A ponte interliga Cachoeira e São Félix, cruzando o Rio Paraguaçu. É, por si só, outra atração imperdível da cidade.

REVISTA PLANETA
EDIÇÃO 395

domingo, 28 de novembro de 2010

O perfil instituinte do movimento das beguinas, na Baixa Idade Média

Alder Julio Ferreira Calado

Desafio de monta é o de investigar certas questões relativas à Idade Média. E já foi ainda mais complicado! De fato, vários tópicos desse período histórico se apresentam como terreno escorregadio, cheio de armadilhas à pesquisa historiográfica. Os pesquisadores e pesquisadoras mais experientes são os primeiros a reconhecê-lo. Graças a significativos avanços investigativos recentes – aliás, não apenas no campo historiográfico ; também no campo interdisciplinar -, alguns entraves vêm sendo contornados.

Mas, isso é apenas um primeiro passo. Muitos obstáculos restam a ser enfrentados e vencidos. De um extenso elenco, aqui destacaria apenas dois: a dificuldade de se trabalhar com escritos e documentos imunes a alterações, após terem sido manuseados e copiados por diferentes pessoas, em épocas de intensa censura e perseguição, como a da Inquisição; e a necessidade de se decodificar adequadamente os diferentes discursos, em seus distintos contextos histórico, econômico, político, cultural

Um exemplo emblemático de se lidar com tais desafios incide nos estudos e pesquisas de textos de autoria feminina (suposta ou efetiva) ou que versem sobre seu protagonismo, precisamente numa época tão marcada por práticas e concepções misóginas. (Ver, por ex., FRANCO JÚNIOR, 1986; MACEDO, 1990)

As mulheres não constituíam certamente o único segmento estigmatizado. A elas se somavam todos os contingentes que viviam à margem e que ousavam transgredir os códigos dominantes: camponeses, pobres, doentes, mendigos, errantes, trovadores, críticos e contestadores da ordem imperante… Dificilmente, porém, se contesta terem sido as mulheres as maiores vítimas do período, até porque elas se faziam presentes nos demais segmentos estigmatizados.

Por outro lado, quanto mais se mergulha na pesquisa sobre a Idade Média, mais se dissipam velhos chavões homogeneizadores desse período milenar. Descobrem-se singularidades surpreendentes. Enquanto se navegava tranqüilamente em águas seguras de superfície, mantinha-se a tendência de se confirmar antigos estigmas sobre esse longo «período de trevas». No momento em que se decide revisitar esse «óbvio» por outros ângulos – os propiciados pela navegação das correntezas subterrâneas -, então, vai-se deparar com cenários surpreendentes.

É, por exemplo, o caso dos movimentos sociais de protesto e de contestação àquela ordem hegemônica. (Ver, por ex., CALADO, 1999). Quantos movimentos sociais, grupos e personagens medievais souberam expressar corajosamente a sua palavra dissonante, ainda que por isso tenham pago com a própria vida! Em determinadas circustâncias históricas e existenciais, é a única opção de se afirmar a vida com liberdade e dignidade, na medida em que se constata que a vida dos Humanos, impregnada de natureza e cultura, distingue-se e transcende a vida de outros viventes. (cf., por ex., COMBLIN, 1999). Para os Humanos dotados de consciência e chamados à liberdade, não serve qualquer tipo de vida. Daí a disposição de se lutar e de se resistir à opressão, sob as mais variadas formas.

Da chamada baixa Idade Média, sobretudo do século XII ao século XV, podemos recolher muitas lições de resistência propositiva. Num período em que a nobreza e a alta hierarquia eclesiástica encarnavam a expressão de um sistema totalitário, nas diferentes dimensões da realidade social, é de se perguntar: de onde suas principais vítimas extraíam tanta força para opor-lhes resistência?

E, no entanto, lá estavam os Goliardos, jovens rebeldes – tidos por uns como vagabundos, por outros como subversivos da ordem social em vigor – a percorrerem os caminhos da Europa Ocidental, com seus poemas iconoclastas, com suas sátiras mordazes, mas também com suas canções de amor, todos reunidos numa coletânea: os famosos Carmina Burana…[1] Os Goliardos fizeram da poesia sua arma principal, uma forma própria de afirmar seu espírito de liberdade, como mostram as linhas abaixo citadas de um de seus poemas, intitulado “Versos sobre o dinheiro”:

O dinheiro reina, soberano, sobre a terra/ É admirado por reis e pelos grandes/ A ordem episcopal, venal, lhe rende homenagem/ O dinheiro é o juiz dos grandes concílios/ O dinheiro faz a guerra, e quando quer, obtém a paz/ O dinheiro é que faz os processos, para que sua conclusão dele dependa/ O dinheiro compra e vende tudo, dá e toma de volta o que deu/ (…) Graças ao dinheiro, o idiota se torna incontestável falante/ O dinheiro compra médicos, adquire amigos prestimosos/ (…) torna barato o que é caro, e suave o que é amargo.”[2] (ap. Wolff, 1995:62).

Qualquer semelhança com situações e personagens contemporâneas não é mera coincidência! A exemplo desta, são muitas as poesias de protesto da época. Outra, por exemplo, conhecida como “Canção da camisa”, atribuída a Chrétien de Troyes, por volta de 1180, levanta seu grito contra a situação de exploração de que são vítimas as mulheres tecelãs:

“Nós estamos sempre a tecer panos de seda/ E nem por isso seremos melhor vestidas/ (…) Mas, os nossos salários enricam/ Aquele para quem nós trabalhamos.” (Le Goff, 1983:65)

Há um leque consideravelmente amplo de grupos e movimentos medievais que apresentam variadas formas de resistência. Além dos já mencionados, há muitos outros, dentre os quais: os Cátaros, os Valdenses, os Begardos, as Beguinas, os Espirituais franciscanos, os Dolcinianos, os seguidores de Wycliffe e Huss, os Anabatistas…

Séculos depois das denúncias das tecelãs inglesas, a situação das classes populares inglesas continuava tão ou ainda mais grave. Não sendo ouvidos em suas denúncias, os camponeses e os artesãos ingleses não tiveram outra saída, a não ser organizar um levante contra seus cruéis senhores, marchando sobre as principais sedes do poder feudo-monárquico-clerical, tal como ocorreu ao Movimento dos Trabalhadores da Inglaterra, em 1381, fato precipitado pela famigerada poll-tax, uma decisão do Parlamento inglês de sobretaxar de novo a massa dos trabalhadores. Nessas incursões sediciosas, destacaram-se, entre outras, as figuras de Tylor Wat, que comandou a marcha sobre a Cantuária, e John Ball, um missionário popular ou um pregador itinerante, conhecido por seus sermões inflamados de enorme repercussão popular. Costumava reunir o povo, aos domingos, e pregar assim:

Minha gente, as coisas não podem ir bem na Inglaterra, nem irão melhorar, enquanto as riquezas não forem postas em comum, enquanto houver nobres e servos, e enquanto a gente não se unir.” (…) “Quando Adão cavava a terra com a enxada e Eva tecia, onde é que estavam os nobres?” (Wolff, 1993:192-194).

Nesse período da Idade Média houve, com efeito, não poucos grupos e figuras humanas que preferiram o sacrifício de suas vidas à submissão à tirania. Desse círculo de resistância fazem parte vários protagonistas – coletivos, individuais, mulheres e homens -, dentre os quais: o franciscanismo radicalizado, os cátaros, albigenses, os goliardos, as beguinas.

Aqui elegemos apenas o Movimento das Beguinas como alvo desta reflexão. Nosso propósito se restringe aos seguintes passos: destamos alguns leves traços sócio-históricos do período contemplado (século XII a século XIV); caracterizamos aspectos centrais do Movimento das Beguinas e, como terceiro passo, buscaremos explicitar seus principais traços instituintes, a partir de elementos biobibliográficos relativos a duas figuras expressivas desse Movimento: Hildegard de Bingen e Marguerite Porète. Por último, tratamos de recolher alguns ensinamentos do Movimento das Beguinas, que podem ecoar em algumas experiências da atualidade.

Embates sócio-históricos da chamada Baixa Idade Média

Com semelhanças e singularidades também características de outros tempos e lugares, o período conhecido como «Baixa Idade Média» ocidental, que se estende do século XIII ao século XV, também comporta traços relevantes, nas diferentes esferas da realidade social. Sua principal marca é a de constituir um período de transição do Feudalismo para o nascente Capitalismo comercial. Entram em profunda crise as estruturas feudais. As alterações se davam em todos os planos: da economia à cultura, passando pela demografia, pela política…

Tempo de crescente ambiência urbana (os burgos), época de significativas invenções tecnológicas, na área agrícola (aprimoramento do arado, do moinho hidráulico…). Também na parte econômica, as atividades comerciais conheceram um surto promissor, resultante inclusive de saques de mercadorias trazidas do Oriente, permitindo o surgimento de uma nova classe (a burguesia), empenhada em suas atividades comerciais, impulsionadas inclusive pelas feiras, influindo na formação dos burgos, no processo de urbanização, no êxodo rural, no crescimento demográfico, no surgimento das universidades, o que implicaria modificações no velho sistema feudal em decadência.

Não menos afetada é a grade de valores. Sopra um vento de liberalização de certos valores, afetando o controle rígido das estruturas religiosas ainda em vigor. Mas, os privilégios ainda reinavam, largamente. E de maneira ainda mais visível, despontavam as desigualdades sociais:

O ambiente em que essas novas heresias surgiram era essencialmente urbano. O desenvolvimento das cidades, após o século XI, colocou em evidência as profundas desigualdades sociais e econômicas existentes entre pobres e ricos. Aos olhos dos leigos ficou visível a diferença entre o que os representantes da Igreja pregavam (humildade, amor, fraternidade) e o que faziam (acúmulo de bens, riqueza material. (MACEDO, 1996, pp. 25-26).

Tempo também de retorno das heresias, agora com nova motivação. Se as heresias que haviam marcado o período que se estendeu do séculos IV ao século VII restringiam-se ao dissenso doutrinário, os movimentos pauperísticos medievais levantam-se para combater a alta hierarquia e seus aliados da nobreza, pelo fosso gritante entre suas prédicas e suas práticas…

Misturam-se, por outro lado, situações e ocorrências de intensa dominação por parte de setores hegemonizados principalmente pelas forças da alta hierarquia eclesiástica e seus aliados, mas, ao mesmo tempo, ainda que com intensidade e ritmo diferenciados, fatos e situações marcados pelo protagonismo, pela capacidade de resistência e pela inventividade, em diferentes domínios, por parte dos setores subalternizados, compostos por mulheres, camponeses, trovadores, mendigos, em resumo, os que compunham as maiorias mantidas à margem daquela ordem social.

Não se trata, por conseguinte, de sucumbir a uma leitura determinista, incapaz de dar conta da diversidade de cenários e de tantos segmentos sociais que se opunham, sob vários aspectos, àquele modelo imperante.

Com efeito, trata-se de um período em que a organização eclesiástica se impunha cada vez mais, a modelar suas estratégias de dominação, inclusive por meio da imposição de sua rigorosa grade de valores. Pela secular expropriação dos bens culturais do conjunto da sociedade, os setores da alta hierarquia eclesiástica iam, a ferro e fogo, consolidando seus privilégios. Tudo em nome de Deus… Escândalos se multiplicavam. E para se manterem e ampliar seu controle sobre o conjunto da sociedade daquele período europeu, os setores privilegiados não hesitavam em recorrer aos instrumentos mais cruéis de tortura e perseguição, de que a Inquisição seria o ponto exponencial.

Eram, em verdade, variados e eficazes os recursos e instrumentos de dominação, inclusive os de caráter ideológico, como o apelo ao controle do corpo – principalmente o corpo feminino, o corpo do camponês, o corpo do pobre, enfim. Armou-se uma vasta e complexa trama de castigos e punições, atingindo as raias da autopunição (cf., por ex.: MACEDO, 1996, pp. 64-71; COMBLIN, 2005), ocasião em que tais instrumentos e recursos alcançavam tal eficiência, que eram os próprios dominados a introjetarem as armas dos moninadores.

Foi asssim que o alto clero vai consolidando e ampliando seu poder, em detrimento do das mulheres, dos leigos, dos camponeses, dos artesãos, dos enfermos, dos prisioneiros, dos servos, etc.

Por outro lado, nunca se deve esquecer que, a despeito de toda vigência e de toda eficácia dessas estratégias, nunca faltaram sinais de resistência e de rebeldia por parte pelo menos de certos segmentos dominados, seja em âmbito individual, seja em âmbito coletivo. Disso é prova convincente o leque de movimentos sociais de resistência bem como de figuras que se rebelaram a essa ordem dominante.

Na esteira da resistência irrompem também as Beguinas

O período da Baixa Idade Média caracterizou-se, também, como tempos marcados pela resistência de grupos e de pessoas amantes da liberdade, que se opunham ao sistema totalitário controlado pelo alto clero e seus aliados. Nas palavras de um estudioso do referido período histórico,

Foram dezenas de seitas heréticas que surgiram durante os primeiros séculos da Baixa Idade Média, entre elas podemos citar os joaquinistas, os pseudo-apóstolos, os beguinos e beguinas também conhecidos como Irmãos Pobres da Penitência da Ordem de São Francisco, os arnaldistas, que pregavam uma reforma de clara tendência político-social, os flagelantes, os humilhados, todas elas defendendo uma nova ética cristã e diferindo da igreja na interpretação de algumas de suas doutrinas e dogmas. (PAIS, 1992, p. 58).

Nos diferentes cenários de atuação desses grupos, é considerável a participação das mulheres em quase todos os movimentos de resistência e de protesto contra a dominação totalitária exercida pela alta hierarquia da Igreja e seus aliados. É freqüente, por conseguinte, a presença feminina nos mais diversos movimentos de heresia: dos Cátaros aos “Fraticelli”; dos Valdenses e Albigenses aos Begardos e Beguinas, além de outros de caráter diferenciado, a exemplo dos Goliardos. Neles era notável o nível de participação das mulheres, em alguns dos quais – como no caso das Beguinas – tendo elas exercido um papel de reconhecida influência até sobre membros da hierarquia.

Nos estudos das fontes e documentos relativos a esse período histórico europeu, resulta impactante constatar o grau de protagonismo que se observa, no interior desses movimentos de heresias – alvo maior da perseguição movida pela alta hierarquia – por parte das mulheres, que aliás constituíam um contingente considerável, de variado espectro, incluindo solteiras, casadas, viúvas, camponesas, artesãs, pobres, ricas de nascimento tornadas pobres, sábias, mulheres das letras, leigas consagradas ao serviço dos pobres, entre outras características. (cf., por ex., LE GOFF, 1964; MACEDO, 1990).

Com efeito, nas mais diferentes expressões de resistência a toda aquela estrutura totalitária medieval, as mulheres tiveram um lugar destacado, seja do ponto de vista individual, seja também do ponto de vista coletivo. No que respeita à Baixa Idade Média da Europa Ocidental, por exemplo, elas estiveram presentes entre os membros da corrente radical do Franciscanismo, entre os Cátaros como entre os Valdenses e Albigenses. Protagonismo feminino também fortemente atuante no caso do Movimento das Beguinas, aqui tomado como alvo principal de nosso estudo.

O termo “Beguina” (“Begijnhof”, “Béguinage”) tem origem controvertida. Segundo alguns, estaria ligado a uma antiga tradição do século X, inspirada em Santa Bega[3]. Outros atribuem sua etimologia aos Albigenses: “al-bigen-enses”, enquanto há uma outra versão, segundo a qual teria origem em Lamberto, o gago, um frade de Liège, que teria destinado sua riqueza à fundação de um hospício, em Liège, onde teria acolhido as viúvas e os filhos dos que partiam para as cruzadas. (cf. BIHLMAYER & TUECHLE, 1964, pp. 240-241).

Seja como for, tratava-se de um movimento formado por mulheres devotas, dedicadas à causa dos pobres, com sólida formação humanizadora, de profunda sensibilidade aos valores do Sagrado (“embriagadas de Deus”) e à causa dos pobres, a quem desejavam servir e se consagrar, mas sem o controle rígido dos mosteiros e dar congregações dirigidas por homens, numa sociedade extremamente misógina.

Com relação às Beguinas, afirma um pesquisador nascido nos países baixos, onde tiveram marcante atuação:

As “beguinas” eram moças que não queriam entrar num mosteiro, queriam dedicar a vida ao serviço de Deus e do próximo. Até os 30 anos de idade viviam na casa de uma “beguina” mais velha. Ao completar 30 anos, passavam a viver sozinhas numa casinha. Dedicavam a vida ao trabalho, ao serviço dos pobres, doentes ou anciãos. Realizavam exercício de piedade em conjunto, mas cada uma tinha uma vida independente. Formavam às vezes ruas inteiras de casinhas semelhantes. Em certas cidades formavam uma cidade dentro da cidade (Begijnhof, Béguinage). (…) Em síntese, essas “beguinas” eram leigas, não faziam votos, viviam na pobreza e na piedade. Praticavam a continência, mas podiam sair da vida de “beguinas” quando quisessem. (COMBLIN, 1999, p. 126).

Sem prejuízo de seu trabalho junto aos excluídos da época, convém lembrar que sua atuação se estendia por diferentes campos de ação, inclusive na área das letras e da produção de saberes. Várias delas se notabilizariam como sábias e místicas, com grande influência na formação até de célebres místicos, a exemplo de Ruusbroec, Tauler e Eckhart. Além desse perfil, apresentam outra característica, relativa à sua atuação no campo das letras. E assim, vão se destacando figuras tais como Hildegard de Bingen (1098-1179), Hadewijch de Antuérpia, Hadewijch II, Béatrice de Nazareth (1200-1268), Mechtildes de Magdebourg (1207-1224), Marguerite Porete (1250-1310), Lutgardes de Tongeren, Yvette de Huy, Maria de Oignies, Cristina a Admirável, entre outras.

Convém ainda ter aqui presentes dois aspectos: não apenas a quantidade de nomes femininos ilustres, como sobretudo o caráter de suas produções, valendo ressaltar, como no caso de Hadewijch de Amberes, ter-se tratado da fundadora da língua flamenga, tal o pioneirismo e tal a qualidade atribuída à sua produção literária. (cf. ZUM., 1988; COMBLIN, 1998, ib., p. 127).

No tocante à qualidade dos escritos espirituais das beguinas, tal é sua relevância que, ao debruçar-se sobre as produções místicas dessas mulheres, assim afirma a pesquisadora Émilie Zum:

À medida que são feitas pesquisas nesse domínio, constata-se com maior certeza que esses temas já estavam presentes nos espirituais do século XIII, em particular em nossas beguinas, uma ou até várias gerações antes que Mestre Eckhart os tivesse tomado como seus. (ZUM, 1988, p. 23)[i][4]

Ao nos depararmos com casos tão atípicos, no que diz respeito ao protagonismo dessas mulheres, pelo menos um elemento nos resulta intrigante: como se tornou possível, numa época tão remota e, sobretudo, marcada pelo androcentrismo, encontrar-se elementos de resposta a esse dado? O que se observa é algo paradoxal: a despeito de toda hegemonia androcêntrica, as mulheres – pelo menos aquelas bem nascidas – tinham condições de estudo semelhantes às dos homens. (cf. COMBLIN, 1998, ib.)

Não era raro, àquela época, no caso de famílias de recursos, entregarem algum filho ou alguma filha aos cuidados de um mosteiro, ou mais precisamente, de um monge ou de uma monja. Graças ao acompanhamento desses, pois, os meninos ou as meninas iam aprendendo a ler, a escrever, a rezar os Salmos, a cantar, a tocar algum instrumento musical, aprender o ofício de copistas, além de outras habilidades.

Pelo menos aquelas figuras femininas exponenciais, em que pese toda a adversidade do meio, buscaram e encontraram alguns meios de formação, tendo inclusive tido escolarização, e aprendido o Latim e outras línguas hegemônicas da época, o que lhes permitiu acesso à leitura da Vulgata (com mais freqüência, os Salmos e os Evangelhos), bem como à leitura de alguns clássicos (entre eles, alguns padres da Igreja, a exemplo de Isidro de Sevilha[5], do século VI da era cristã). (cf., por exemplo, PERNOUD, 1996; ÉPINEY-BURGART, 1998).

Nesse contexto formativo, é que passamos a considerar alguns elementos biobibliográficos de algumas figuras femininas identificadas com o ideário das Beguinas, entre os séculos XII e XV, iniciando pela trajetória de Hildegard de Bingen.

Elementos bibliográficos para pesquisar a trajetória de algumas beguinas

Ao longo de mais de três séculos, durante a Baixa Idade Média, é que se deu a atuação das Beguinas, essas mulheres “embriagadas de Deus”, que, sentindo-se tocadas pela Palavra de Deus, tal como os profetas do Antigo Testamento, buscaram atender e ser fiéis aos apelos do Espírito, da “grande Luz”.

Uma consulta especialmente aos textos proféticos e apocalípticos bíblicos (do Antigo Testamento, em particular os livros dos profetas Daniel, Ezequiel, Isaías e Jeremias, mas também o Apocalipse) ajuda a perceber a semelhança dos relatos das visões e profecias produzidos por essas mulheres. Dois aspectos aí se destacam: a forma do chamamento e o relato de visões. É notória, nos relatos vetero-testamentários, a freqüência de expressões como “Ouve e dize”, “Eis o que diz o Senhor”. Trata-se dos aspectos fundamentais componentes do cenário da vocação profética. É constante nas profecias de Isaías, Jeremias e de outros chamamentos, como o feito por Javé a Moisés.

Quanto ao segundo traço a merecer destaque, tem a ver com o relato de visões, expressando a forma como Javé se dirige aos chamados. Na profecia de Joel, por exemplo, lê-se o desejo da parte de Deus, de que os membros do seu Povo – os idosos, os jovens, as jovens – tenham visões, como forma do exercício de profecia. (cf. Livro de Joel, cap. 3).

Com essas observações iniciais, tratemos, a seguir, de fornecer uma breve notícia biobibliográfica de algumas dessas sábias místicas medievais.

A primeira delas é Hildegard de Bingen, região alemã em que viveu, entre 1098 e 1179. Nascida em Bermersheim, de origem de família da nobreza, “filha de baróes”, foi ainda criança entregue pelos pais aos cuidados pedagógicos de Jutta de Sponheim, uma monja beneditina da região, a quem foi confiada a educação da criança. Não se tratava de uma prática estranha à época. As famílias de posse costumavam recorrer a um mosteiro ou a monges ou monjas, para que cuidassem da educação de seus filhos e filhas.

A partir de sua introdução aos ensinamentos religiosos, após os rudimentos da língua, eram-lhes também ministrados conteúdos básicos como cantos, instrumentos musicais, elementos da Sagrada Escritura em Latim, tais como os Salmos e os Evangelhos, inclusive fragmentos dos clássicos, dos padres da Igreja, além de outros ensinamentos e habilidades.

Desde logo, Hildegard revelou-se uma criança talentosa, muito afeita a diferentes áreas de saberes, desde elementos relativos à saúde, aos dotes musicais. Não é à-toa que, já adulta, viria a compor cerca de setenta sinfonias. (cf. PERNOUD, 1988).

Quanto aos seus escritos, Hildegard se apresenta como uma escritora fecunda, havendo produzido um número considerável de obras, versando sobre distintos temas, predominando seus escritos místicos, fruto da revelação divina.

Com efeito, a partir dos seus quarenta e três anos, Hildegard, à semelhança do que se passa com as visões tidas pelos profetas do Antigo Testamento e do Livro do Apocalipse, vai ser constantemente alvo de revelações que lhe são proporcionadas por sucessivas visões, como ordens de Deus. Reagindo a um desses registros, uma pesquisadora comenta: “Não é sem hesitação que se recebe semelhante mensagem. Hildegard fala de sua ansiedade e insiste no caráter muito nítido, imperioso, pode-se dizer, da ordem que lhe é dirigida.” (PERNOUD, 1996, p. 18).

Dentre eles, aqui destacamos: Scivias seu Visiones (“Saiba os caminhos de Deus ou as visões”, produzida entre 1141 e 1151); Liber divinorum operum simplicis hominis (Livro das obras divinas do homem simples, escrita entre 1163 e 1173, e considerada seu trabalho mais completo. São também de sua lavra: Explanatio Regulae Sancti Benedicti (Exposição da Regra de São Bento), Hymnodia coelestis (Hinário celeste), entre outros.

Tudo começa, quando completa 43 anos, e recebe uma visão, instando-a a registrar a ordem divina:

Eis que no quadragésimo ano do meu curso temporal, toda trêmula de emoção, vi um magno esplendor e ouvi uma voz do céu que me dizia: “Ó homem frágil, cinza da cinza, podridão da podridão, diz e escreve o que vês e ouves (…) diz e escreve, não segundo a boca do homem nem segundo a inteligência de uma invenção humana, nem segundo a vontade de compor humanamente, mas segundo o que vês e ouves de celestes maravilhas vindas de Deus. (Hildegard, in Scivias, ap. Hildegard segue a explicar por que somente então passa a tornar público o que, desde criança, vinha tendo, bem como a descrever o caráter dessas visões:

Não tive as visões em estado de sonolência ou dormindo, nem em êxtase, nem por meus olhos corporais nem por meus ouvidos humanos exteriores (…) mas é estando acordada que eu as vejo com meus olhos e com minhas orelhas humanas, interiormente. (Ib., p. 18).

Que mensagens da parte de Deus lhe são confiadas? Uma delas, por exemplo, traz um tom de denúncia contra o clero, em suas ações desregradas:

Os que velam por mim, ou melhor, os padres, que deveriam tornar o meu semblante rutilante como a aurora, e graças aos quais minha vestimenta deveria brilhar como o relâmpago, e meu manto cintilar de pedras preciosas, e meus calçados irradiar a alvura, eis que eles espargiram pó sobre o meu rosto, rasgaram minha vestimenta, ensombrearam meu manto e enegreceram meus calçados. Esses que deveriam ornar cada parte de mim arruinaram-me em cada coisa. (Ib., ap. PERNOUD, p. 120).

O quadro geral alvo dessas denúncias proféticas iria agravar-se sensivelmente, nas décadas ulteriores, justificando o aumento e a intensidade das denúncias por parte de vários movimentos e figuras que se seguiriam a Hildegarde de Bingen.

Um desses movimentos, por exemplo, se notabilizaria a partir de meados do século XIII, percorrendo áreas de vários países europeus (Itália, França, Inglaterra, Espanha). Trata-se do movimento dos chamados Apostólicos, os “Fraticelli”, de forte inspiração franciscana, animado por figuras tais como Geraldo Segarelli e por Frei Dolcino. Insurgindo-se contra os crescentes abusos e escândalos do alto clero e da ordem então dominante, esse movimento tratou de denunciar esse modelo e, ao mesmo tempo, ensaiar, jnnto aos pobres, um projeto alternativo, com base nas primitivas comunidades cristãs. Pregavam contra a alta hierarquia, experienciavam uma vida de pobres entre pobres, na solidariedade, na partilha, na oração, no serviço aos pobres:

A seita dos Apostólicos fundada por Segarelli por volta de 1260 compõe o quadro dos movimentos pauperísticos e milenaristas que floresceram, em grande número, naquele período. Levavam uma vida de muito jejum e roação, trabalhando ou pedindo esmolas, não praticavam o celibato obrigatório. A cerimônica de admissão dos novos seguidores previa o despojamento das vestes em público, para representar a pórpia nudez perante Deus, como Francisco havia feito. Pregavam a obediência às Escrituras, que implicava a desobediência aos pontífices; exercitavam a pregação intinerante pelos leigos. Pregavam a iminência do castigo celeste provocado pela corrupção dos costumes eclesiásticos, a observância dos preceitos evangélicos e a pobreza absoltua. Este último ponto acarretou obviamente a ira da igreja de Roma (http.it.wikipedia.org/wiki/Fra´_Dolcino).[6]

Antes e depois dos Apostólicos, surgiram várias outras místicas, direta ou indiretamente ligadas ao Movimento das Beguinas. Como se sabe, mesmo afinadas com o ideário das Beguinas, nem todas essas mulheres tiveram o mesmo caminho. Nem todas viveram foram dos conventos, algmas até votos formais pronunciaram. O caso de Beatriz de Nazareth evoca esse estilo misto.

Para sublinhar outro relevante aspecto relativo ao percurso existencial de Hildegart de Bingen, convém chamar a atenção para o pioneirismo de suas idéias em relação à Modernidade. Focando justamente esse caráter precursor dessa beguina, e aludindo a duas miniaturas (atribuídas a Leonardo da Vinci), “representando um homem de pé, braços estendidos, destacando-se o círculo que simboliza o mundo”, afirma uma respeitada pesquisadora de sua obra:

Mais de três séculos antes do nascimento de Leonardo, esta visão do homem, braços abertos sobre o globo da Terra, está presente na obra da pequena abadessa das margens do Reno. Entretanto, quanto mais Leonardo da Vinci é estudado, pesquisado, enaltecido e divulgado nos tempos clássicos e modernos, mais a obra de Hildegard – e a de sua época em geral – são esquecidas.(PERNOUD, 1996, p. 69).

Algo parecido também ocorre, aliás, em relação à pretensa exclusividade de autoria dos ocidentais, quanto a descobertas e invenções da Modernidade. O que aí tem havido de omissão ou de usurpação acerca da verdadeira autoria de descobertas e invenções por parte de povos não-europeus é algo espantoso. Sobre isso ver, por exemplo, o recentíssimo estudo realizado por Eduardo Galeano, em seu livro intitulado Espejos. Una historia casi universal, publicado pela Siglo XXI, que ajuda a colocar muitos pontos nos is: acerca da verdadeira autoria de invenções como a da escrita, a da álgebra (ambas inventadas no Iraque)… E o quê dizer sobre o fato de que “As três novidades que tornaram possível o Renascimento europeu, a bússola, a pólvora e a imprensa, haviam sido inventadas pelos chineses, que também inventaram quase tudo que a Europa reinventou.”?

Mas, vejamos um segundo exemplo de beguina: Marguerite Porète, nascida na França, em Valenciennes. Estima-se que tenha vivido entre 1250 e 1310. Pouco se sabe de seus traços biográficos. À semelhança de outras figuras amantes da liberdade, nesse período, o sistema totalitário então vigente encarregou-se de apagar vestígios. O pouco que se sabe, dela e de outras figuras semelhantes, é graças a registros de seus inimigos. Como lembrava um estudioso marxista, seria como pretender-se saber da vida dos opositores de Stalin por meio dos registros produzidos pelos seus apoiadores… Grande desafio! Mas, até esses registros podem atestar elementos de verdade que se quis esconder.

No caso de Marguerite Porète e de outras beguinas, observa-se o furor da alta hierarquia eclesiástica contra a enorme coragem profética de mulheres livres que ousavam compartilhar relatos de suas visões. É o que acontece também a Marguerite Porète, que pertence à mesma corrente das beguinas que sacudiram os fundamentos da cristandade, mesmo tando que pagar caro: Marguerite de Porète seria queimada viva, em Paris, no dia primeiro de junho de 1310, por haver escrito Le Miroir des âmes simples anéanties, uma obra-prima da literatura mística de todos os tempos, que passaria a influenciar figuras místicas como Mestre Eckhart, João da Cruz, entre outras.

O livro produzido por Marguerite Porète é constituído de 139 capítulos, cuja extensão varia entre algo como sete páginas (é o caso, por exemplo, do cap. 118) e meia página (a exemplo do cap. 138). Trata-se de breves relatos circunstanciando, com arte, beleza e profundidade, diferentes dimensões dialogais resultantes da relação amorosa entre o Amor (a Deus) e a Alma (a figura humana, que ela personifica).-Diálogos que nos remetem ao estilo do Livro do Cântico dos Cânticos, muito escanteado, até hoje. “Et pour cause!”

Quê diálogos são aí relatados por esssa mística extraordinária? Vejamos alguns trechos.

Já de início, percebemos algo profundamente impactante. A Autora adverte – e assim se lê em outras passagens – de que se trata de um diálogo aberto e interligível apenas para quem se põe em sintonia com o Amor:

Voz do Amor: Escutai, ó vós, ativos e contemplativos, talvez mesmo aniquilidados por verdadeiro amor, vós que ides escutar alguns prodígios do puro amor, do amor nobre, do amor educado, da alma liberta, vós que ides escutar como o Espírito Santo nela pôs sua vela como em seu navio, peço-vos por amor: escutai com grande empenho e com esse entendimento sutil que tendes em vós, e que se acha bem atento! Do contrário, por não estarem com essa disposição, todos os que ouvirem isso, irão comprender mal! (PORÈTE, 1997, p. 51).[7]

Quem se põe, por exemplo, do ponto de vista estritamente racional, não logrará alcançar a mensagem, apenas acessível a quem se mune com as lentes do coração, do Amor que é o prórpio Deus. Eis por que, no capítulo 5, por exemplo, se acha um dos elementos de profundo entrave na relação com a alta hierarquia que, atribuindo-se qualidades divinas, não tolera o exercício de nenhum dom que não passe pela sua autorização: referimo-nos à relação direta de Deus com as pessoas, sem intermediários. Falando do desejo da Alma, eis o que relata Porète:

Essa alma tem seis asas como os Serafins. Ela não não quer nada que venha por um intermediário, o que é do próprio estado dos Serafins: não há nenhum intermediário entre o amor deles e o amor divino. Recebem sempre a mensagem d´Ele sem intermediário. Do mesmo modo, esta alma a recebe, porque não busca a ciência divina entre os senhores deste mundo, mas com verdadeiro desprezo desse mundo e dela própria. Meus Deus! Como é grande a diferença entre um dom que o Bem-Amado concede à sua bem-amada, por um intermediário, e o que é feito sem intermediário! (PORÈTE, 1997, p. 55).[8]

Para alcançar tal nível de liberdade, há de se dispor ao aniquilamento de si, para que aí reine a própira Liverdade: Deus. Este mesmo Deus que se apresenta para a Alma como um “Longe-Perto que a põe continuamente em união com o seu querer, sem desgosto do que quer que lhe possa suceder.” (PORÈTE, 1997, pp. 230-231).

Deus passa a ser o único soberano, como o assinala um dos estudiosos da Autora:

A soberania do Um exige o aniquilamento de toda forma de alteridade suscetível de apequenar sua plenitude. É isso que a bondade de Deus espera da alma: que ela Lhe confie sua própria existência, ou seja: “toda a diferença” que a distinga do divino. Deus, esse ser ciumentíssimo, só tem um desejo: que ela Lhe entregue gratuitamente – “sem nada questionar” – o seu ser, que se confunde, para Porete, com a essência da humanidade: uma vontade livre. (RICHIR, 2003).[9]

Vários elementos que se recolhem desta Autora podemos encontrar em outras do mesmo período. Aspectos como a liberdade, a linguagem amorosa, a relação direta com Deus, entre outros, podem ser observados em outras, também. Além dos textos impressos, já se encontra algum material em páginas eletrônicas. Inclusive a propósito de Marguerite Porète:

Assim, deixando seu ego tornar-se “fogo de Amor”, a alma descobre-se tal qual é e sempre foi: unida ao Amor. Doravante, ela “nada mais quer, porque é livre”. Totalmente realizada num Amor que escapa à razão, ela sobrevôa acima de todas as referências, dos rituais, da oração, da virtude, dos dogmas. Eis por que Marguerite faz a distinção entre a “pequena-igreja… feita de gente governada por Razão” e a “Grande-Igreja” formada pela comunidade de almas livres. São tantas as passagens que suscitaram o furor da autoridade eclesiástica já irritada pelo alto conhecimento espiritual das Beguinas.

Vendo essas idéias uma oposição intensa e um sacrilégio à instituição católica, a Inquisição condena e queima a obra, julgada herética, em 1306. Mas, Marguerite continua a propagar suas idéias entre religiosos e leigos, mas vendo-se isolada como nunca. Porque, se sua mística singular lhe valeu a perseguição por parte da Igreja, ela permaneceu também marginalizada no seio das próprias Beguinas. Em pouco tempo transportada a Paris, em 1310, ela é condenada por heresia e perece dignamente na fogueira. [10]

( http://www.fraternet.com/magazine/etr_0802.htm)

Por meio desses curtos trechos recolhidos de sua obra preciosa, pode-se entender o perfil profundamente místico, ético e profético dessa Autora, o que nos ajuda sobremaneira a compreender toda a carga de ira de que foi vítima da parte da alta hierarquia eclesiástica. Seu processo não deixa dúvidas a esse respeito.

Vale, por último, reter dessa mulher “embriagada de Deus” alguma palavra que nos convida à reflexão:

Eis o que de melhor tenho a dizer e a aconselhar a todos os que vivem sob minha obediência. Assim, digo a todos que ninguém queira ler este livro com a minha inteligência, mas que todos o leiam pela virtude da Fé e pelo poder do Amor, que são minhas senhoras. Eis por que em tudo eu lhes obedeço. Além disso, quero dizer, assim fala a Razão, quem tiver essas duas cooisas em sua vida, isto é, a luz da Fé e o poder do Amor tem permissão para fazer tudo o que lhe agrade, por mercê do próprio Amor que diz à Alma: Meu amor, ame e faça o que quiser.”[11]



Outras mulheres se notabilizaram, nesse período. Tivemos aqui – e rapidamente – ocasião de nos ater a apenas dois casos. Não passam de um aperitivo, a nos convidar a vôos mais ousados. Revisitando seus relatos, suas cartas, seus escritos, não tardamos a chegar a entender por que, por exemplo, não apenas elas, como outras figuras desse e de outros movimentos de resistência, amplamente influenciados pelos Franciscanos radicais, foram proibidos de pregar e de atuar como missionários e missionárias. A alta hierarquia chegou a proibir o povo até de dar-lhe esmolas. Mas, também é certo que ousaram levar a sério a palavra da Sagrada Escritura, de que “é preciso obedecer, antes a Deus, do que aos homens”(At 5, 29).

Considerações sinópticas

Dos rápidos elementos acima trabalhados acerca da contribuição dos movimentos medievais, em especial o das Beguinas, convém sublinhar alguns pontos a recolher como inspiração às lutas e aos desafios dos dias presentes.

Um primeiro ponto que destacaríamos é precisamente a força revolucionária da experiência de luta libertária, quando feita em movimento. Não é por acaso que, em todos os tempos, são os movimentos sociais populares, com seus parceiros e aliados, os protagonistas mais relevantes das mudanças sociais conquistadas.

Também, no caso da Baixa Idade Média européia, essas iniciativas instituintes, inclusive por meio de mobilizações e levantes, a despeito de haverem sido duramente reprimidas, deixaram suas lições. Quando se afirma que liberdade que se preze não vem de graça, nem como dom dos poderosos, mas, sendo uma conquista, só se consegue com muita luta, não é à-toa que se diz. A História está aí a atestar…

Isso não quer dizer que baste uma única iniciativa, nem que elas sejam todas bem sucedidas. De modo nenhum. É preciso saber que arrancar uma conquista social relevante quase sempre supõe um acúmulo de iniciativas, a maioria das quais frustradas, mas chega um dia em que uma começa a dar certo, e compensa as frustrações amargadas e o alto preço social pago.

No caso das Beguinas, como foi analisado, sua ação de resistência se dá mais expressamente no plano cultural, a exemplo dos Goliardos. Desejosas de exercitar sua religiosidade de modo alternativo, isto é, por fora do figurino ditado pelas normas das congregações religiosas, as Beguinas trataram de assegurar as condições para, como se dizia à época, “extra religionem religiose vívere”, ou seja: viver a experiência do Sagrado, fora dos quadros institucionais.

Trataram – pelo menos, várias delas -, por conseguinte, de não aderir a nenhuma congregação, nem à vida em claustro, nem à profissão solene permanente de votos perante a autoridade eclesiástica. Foram viver sua experiência do Sagrado junto aos pobres, a quem se dedicaram, solidárias, em serviços múltiplos, junto aos excluídos da época, junto às “ovelhas sem pastor”: os enfermos, os idosos, os órfãos, as mulheres abandonadas pelos maridos, as concubinas, as vítimas da prostituição…

Eram mulheres livres, ciosas de sua independência, trabalhavam para se manterem. Independentemente de sua origem social – algumas vinham de condições econômicas privilegiadas -, faziam questão de manter um padrão de pobreza como estilo de vida, como testemunho do caráter de sua espiritualidade, em sinal de sua solidariedade aos excluídos da época, e em protesto contra os desmandos e o monopólio clerical da pregação, ao que opunham sua ousadia de pregar publicamente.

Algumas delas se notabilizaram pela sua erudição, como poetisas, como escritoras, a exemplo de Marguerite Porète, francesa, autora de um tratado de espiritualidade escrito em vernáculo, cujas idéias lhe custaram o sacrifício da fogueira pela Inquisição, em 1310; Hadewijch de Amberes, a quem se atribui a fundação da língua flamenga escrita. (cf. Falbel, 1977:81; Comblin, 1998:125-129; Rezende, 1999). Pelo menos sob certos aspectos, o movimento das Beguinas comporta alguns elementos de contribuição ou de certo pioneirismo instituinte quanto a valores feministas, especialmente os que se caracterizam pela valorização da condição feminina.

Nesse sentido, alguns pontos podem ser destacados, como aspectos a serem recolhidos desse rápido exercício investigativo.

Em que pese alguma variação de circunstâncias histórico-existenciais e de estilos, tratou-se globalmente de um movimento de mulheres leigas que buscavam viver a sua fé para além dos muros dos conventos e mosteiros. Isso implicou para uma parte expressiva daquelas mulheres viverem em pequenas comunidades, em casas simples, dedicando-se à oração, ao trabalho (intelectual e manual), e ao serviço dos excluídos daquela época, sem que para tanto se sentissem obrigadas a professar votos perpétuos ou a se integrar organicamente numa instituição eclesiástica, sob o controle masculino da alta hierarquia.

Algumas dessas mulheres se notabilizaram sobremaneira pelo caráter instituinte do seu trabalho e pela qualidade de sua produção intelectual, em diferentes áreas de saberes: da teologia à medicina, da cosmologia à condição humana, em geral. Em alguns casos, foram, sob vários aspectos, precursoras de valores da Modernidade, a despeito da manutenção de um longo e incômodo silêncio.

Seu caráter instituinte ecoa até os dias de hoje. Ficou bem conhecida, especialmente no Nordeste brasileiro, a fecunda experiência das Comunidades Religiosas Femininas Inseridas no Meio Popular (as PCIs), tão bem estudas na pesquisa de dissertação, a Socióloga e Educadora Valéria Rezende (cf. REZENDE, 1999). Eram formadas de religiosas de diferentes congregações que, ousando “romper muros”, trataram de sair dos seus confortáveis conventos para irem fazer a experiência da vida junto com os pobres, nas periferias das cidades e na zona rural: as beguinas do novo tempo.

Referências

BIHELMAYER, Karl & TUECHLE, Hermann. História da Igreja, vol. 2. São Paulo : Paulinas, 1964.

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Alder Julio Ferreira Calado é sociólogo e educador popular, membro do Grupo Interdisciplinar de Estudos Medievais. Autor de, entre outros, Memória Histórica e Movimentos Sociais: ecos libertários de heresias medievais na contemporaneidade. João Pessoa: Idéia, 1999.

Notas:
[1] Ver cuidadosa tradução de parte da extensa obra Carmina Burana, feita por Maurice WOENSEL, Maurice van (Introd. e trad.). Carmina Burana. São Paulo: Ars Poetica, 1994.

[2] Repare, neste item, a semelhança com os versos que dizem “Poderoso cavalheiro é dom dinheiro”, também oriundos da poesia medieval espanhola, salvo engano. Karl Marx, em citação do Fausto de Goethe, em seu manuscrito Terceiro, no item intitulado DINHEIRO (Manuscritos Econômicos e filosóficos de 1844, in Erich Fromm, Conceito Marxista do Homem, Rio de Janeiro, Zahar Editores), também situa a mediação universal do dinheiro (torna o coxo o mais veloz dos corredores, por exemplo) como inversor de valores e de relações humanas com as coisas, as pessoas, o mundo e a realidade como um todo. Rolando Lazarte

[3] “Die Herkunft des Namens Beginen oder Begarden ist bis heute nicht eindeutig geklärt. Erzählungen in Verbindung mit dem Namen der Hl. Begga die in einer späteren Epochl.” (http://de.wikipedia.org/wiki/Beginen)

[4] “Au fur et à mesure des recherches en ce domaine, on constate avec plus de certitude que ces thèmes étaient présents chez les spirituels du treizième siècle, en particulier par nos béguines, une ou même plusieurs générations avant que Maître Eckhart ne les ait fait siens.” (E.ZUM, 1988, p. 23).

[5] Isidro de Sevilla constitui uma das figuras de referência dentre os chamados Padres da Igreja, homens sábios, teólogos, que tiveram grande influência para muito além do seu tempo. De Isidro, afirma-se que “sus ideas filosóficas se encuentran expuestas, principalmente en los Libri Sententiarum y en las Etimologías; el Liber de viris illustribus es altamente interesante como repertorio de personajes de la época y el Chronicon y la Historia de regibus gothorum, wandalorum et suevorum, sus obras históricas más notables. Mas ninguna de las obras del sabio arzobispo es tan representativo como Originum sive etymologiaum libri XX, denominada vulgarmente Etimologías, resumen admirable dela cultura clásica, fruto de vastísima y fecunda asimilación, que se convirtió en indispensable en toda biblioteca de la Edad Media. Las Etimologías, se convirtieron en el texto pedagógico más importante de su época. Los libros I y II están dedicados al Trivium; el III, al Quadrivium; el IV, a Medicina; el V, a Derecho y Cronología; VI, VII, y VIII, a Teología y Cánones; el IX, a Política y Sociología; el X, a Lexicología; XI y XII, a Zoología; XIII y XIV, a Geografía; XV, a Arquitectura y Agrimensura; XVI, a Mineralogía; XVII, a Agricultura; XVIII, a Milicia; XIX, a Marina, y XX, a Artes Manuales. El arzobispo de Sevilla fue canonizado en 1598 y el Papa Inocencio XIII, en 1722, lo declaró doctor de la Iglesia. Y como dijo el sabio de Sevilla: “Perdona para que se te perdone, olvida para que se te olvide”. (Francisco Aria Solis, in http://www.analitica.com/va/arte/documentos/3143478.asp

[6] “Essi conducevano una vita con frequenti digiuni e preghiere, lavorando o chiedendo la carità, senza praticare il celibato forzoso: la cerimonia di accettazione dei nuovi seguaci prevedeva che pubblicamente si spogliassero nudi, per rappresentare la propria nullià davanti a Dio, come aveva fatto san Francesco; predicavano l’ubbidienza alle Scritture, che portava alla disobbedienza ai pontefici, la predicazione ambulante dei laici, l’imminenza del castigo celeste provocato dalla corruzione dei costumi ecclesiastici, l’osservanza dei precetti evangelici e la povertà assoluta. Quest’ultimo punto, ovviamente, portò alle ire della Chiesa di Roma ed i dolciniani stessi furono accusati di depredazioni e accaparramenti decisamente maggiori di quelli strettamente necessari a garantire la loro semplice sopravvivenza”. (http.it.wilipedia.org/wiki/Fra´_Dolcino).

[7] “Amour dit ici: O vous, actifs et contemplatifs, peut-être même anéantis par amour véritable, vous qui allez écouter quesques-uns des prodiges de l´amour pur, de l´amour noble, de l´amour élevé, de l´âme libérée, vous qui allez écouter comment le Saint-Esprit a mis sa voile en elle comme en son navire, je vous en prie par amour: écoutez en grande application de cet entendement subtil qui est en vous, et qui est en grande diligence! Autrement, faute d´être ainsi disposés, tous ceux qui entendront cela, le comprendront mal.” (Porète, 1997, p. 51)

[8] «La souveraineté de l’Un exige l’anéantissement de toute forme d’altérité susceptible d’amoindrir sa plénitude. C’est ainsi que la «bonté» de Dieu attend de l’âme qu’elle lui sacrifie son existence même, à savoir «toute la différence» qui la distingue du divin. Dieu, ce «Trés Haut Jaloux», n’a qu’un désir : qu’elle lui fasse gracieusement don – «sans pourquoi» – de son être, lequel se confond, pour Porete, avec l’essence de l’humanité : une volonté libre. (Commentaire de Luc RICHIR, dans son livre : « Marguerite Porète, Le Miroir des âmes simples et anéanties. Titre de son livre : Marguerite Porèste : une âme au travvail de l´Un. Bruxelles: Ousia, 2003.).

[9]

[10] “Ainsi, en laissant son ego devenir lui-même « feu d’Amour », l’âme se découvre telle qu’elle est et a toujours été : unie à l’Amour. Désormais, elle « ne veut plus rien puisqu’elle est libre ». Totalement accomplie dans un Amour qui échappe à la raison, elle vole au-dessus de tous repères, des rituels, de la prière, de la vertu, des dogmes… C’est pourquoi Marguerite fait la distinction entre la « petite église… faite de gens gouvernés par Raison » et la « Grande Eglise » formée par la communauté d’âmes libres. Autant de passages qui ont suscité les foudres de l’autorité ecclésiastique déjà agacée par la haute connaissance spirituelle des Béguines. Voyant dans ces propos une opposition farouche à la morale et un sacrilège de l’institution catholique, l’Inquisition condamne et brûle l’ouvrage jugé hérétique en 1306. Mais Marguerite continue à propager ses idées parmi religieux et laïcs, plus seule que jamais. Car si sa mystique singulière lui a valu la persécution de la part de l’Eglise, elle demeura somme toute assez marginalisée au sein même des Béguines. Bientôt transportée à Paris en 1310, elle est condamnée pour hérésie et périt dignement sur le bûcher.” ( http://www.fraternet.com/magazine/etr_0802.htm)

[11] “… This is the best, says Reason, that I know how to say and consel all those who live by my obedience. Thus I say to all, that none will grasp this book with my intellect, unless they grasp it by the virtue of Faith, and by the power of Love, who are my mistresses because I obey them in all things. And moreover I wish to say, says Reason, whoever has these two strings in his bow, that is, the light of Faith and the power of Love, has permission to do all that pleases him, by the witness of Love herself that says to the Soul: My Love, love and do what you will.” (http://www.geocities.com/ganesha_gate/porete.html)

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terça-feira, 27 de julho de 2010

O asilo de nossa mae: as regras para recolhimento de meninas desvalidas em fins do século XIX


O asilo de nossa mae: as regras para recolhimento de meninas desvalidas em fins do século XIX

João Valério Scremin
O Asilo de Nossa Mãe foi uma instituição fundada em 1896 e inaugurada em 1898 na cidade de Piracicaba, interior de São Paulo, pelo frei Luiz Maria de São Tiago, da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (OFMCap.), e dirigida por D. Antonia de Macedo, que era madre da Congregação das Irmãs Franciscanas do Coração de Maria e fora ordenada com o nome de madre Cecília do Coração de Maria, no final da última década do século XIX (MARCON, 1992, v. 4, p. 86). A instituição configurou-se como um espaço voltado para o recolhimento, a assistência e educação de “meninas órfãs e desvalidas”.

O Estatuto do Asilo de Nossa Mãe era o documento oficial que estabelecia as normas da instituição. Foi autenticado pelo oficial de registro da cidade de Piracicaba Joaquim Moreira Coelho, em 27 de fevereiro de 1896, o que indica o esforço da instituição no sentido de buscar assegurar a legitimidade de suas ações perante o poder público.

O documento que foi formulado pelo frei Luiz Maria de São Tiago, fundador da instituição, era composto de seis capítulos, 38 artigos e, ainda, dez artigos que compunham as Disposições Transitórias (MARCON, 1992, v. 4, p. 138). Em seu conjunto, o Estatuto afirmava o caráter religioso da instituição.

Seus artigos explicitavam as diretrizes que orientavam a conduta tanto das mestras quanto das meninas que eram recolhidas. O primeiro artigo do primeiro capítulo estabelecia que a instituição se destinava “[...] a educar e sustentar meninas desvalidas, órfãs ou não, sem distinção de cor ou de classe.” (MARCON, 1992, v. 4, p. 132).

Assim, o capítulo I do Estatuto com seus seis artigos regulamentava as competências da instituição, bem como as obrigações a que se submetiam as internas, definindo que:

A aluna uma vez admitida, não poderia retirar-se do Asilo a não ser depois de ter completado a sua educação, salvo casos de precoce desenvolvimento, justo pedido de casamento, expulsão por incorrigibilidade, ou por motivo de moléstia grave, incurável ou contagiosa (MARCON, 1992, v. 4, p. 132).

Definia também o modo da assistência, pois “[...] a aluna uma vez admitida no Asilo, terá por conta deste, tudo quanto precisar para sua subsistência e educação [...]” (MARCON, 1992, v. 4, p. 132-133), e, ao mesmo tempo, a forma como seria estabelecida a educação das meninas ali recolhidas explicitando que

[...] o ensino do Asilo constará das seguintes matérias: 1º Religião; - 2º História Sagrada; - 3º Caligrafia; - 4º Leitura; - 5º Composição; - 6º Noções de Aritmética; - 7º Noções de Geografia e História, com especialidade de Geografia e História do Brasil; - 8º Trabalhos manuais e especialmente de costura; - 9º Civilidade; - 10º serviços domésticos e de cozinha; - 11º Música. (MARCON, 1992, v. 4, p. 133).

Ao visitar o asilo, em 13 de dezembro de 1901, por motivo da exposição dos trabalhos das internas, o Jornal de Piracicaba destacou, ao lado das realizações manuais, “as provas escritas feitas pelas órphans”, que demonstravam seu aproveitamento. Essas provas eram os exercícios de análises gramaticais, geográficas, de estilo e as cartas feitas pelas internas, constituindo, segundo o periódico, “[...] a prova mais evidente do ensino naquelle estabelecimento de caridade.”[*1]

No artigo 32 do capítulo V, o asilo definia-se como um “[...] instituto essencialmente religioso, [...] e que nele não se tolerará qualquer regra, disciplina ou costumes contrário à religião católica, apostólica, romana.” (MARCON, 1992, v. 4, p. 138). Pressupõe-se, nesse sentido, que o conjunto de disciplinas ministradas tinha o intuito de formar meninas que se tornariam ou aspirantes ao hábito religioso ou mães de famílias católicas, pois estas, uma vez ensinadas, passariam a instruir sua prole a obedecer tal doutrina.

Segundo Gavazzoni (2009), a expressão, católico, apostólico e romano provavelmente foi legada pelos frades capuchinhos, confirmando a necessidade de se legitimar a submissão irrestrita à Igreja Romana. A fidelidade e obediência à Igreja Romana são determinadas até hoje pela Regra dos franciscanos, em seu capítulo primeiro que diz: “[...] obediência e reverência ao Papa e à Igreja Católica [...]”. O capítulo segundo reforça esse princípio ao afirmar que os religiosos: “[...] têm verdadeiramente adesão a fé católica.” No capítulo nove afirma-se: “E sempre súditos a Santa Igreja e estáveis na fé católica [...]” (REGRA, 2000, p. 12; 25). A afirmação é muito mais que uma expressão usual, é uma regra de vida a ser observada em todos os institutos religiosos que estão sob a jurisdição dela.

Como principal documento do Asilo de Nossa Mãe, pode-se observar que o Estatuto se constituía em um conjunto de normas definidoras dos conhecimentos que deveriam ser ensinados. Além disso, estabelecia uma série de condutas a serem seguidas, não só pelas meninas assistidas pela instituição, mas também pelas mestras, pelas benfeitoras e até pela diretora.

O artigo 32 do Estatuto do asilo, ao definir a instituição como assistencialista e religiosa, sob a proteção do bispo diocesano[*2] instituía uma cultura escolar marcada por um caráter religioso (MARCON, 1992, v. 4, p. 139). Dominique Julia, ao analisar o conceito de cultura escolar, ajuda-nos a pensar essa cultura construída no interior do asilo quando destaca que, para entender as relações que se estabeleciam na instituição deve-se fazer

[...] a análise precisa das relações conflituosas ou pacíficas que ela mantém, a cada período de sua história, com o conjunto das culturas que lhe são contemporâneas: cultura religiosa, cultura política ou cultura popular. (2001, p. 10).

Assim, para o autor, o conceito de cultura escolar refere-se a

[...] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). (2001, p. 10).

Nesse sentido, o Estatuto do asilo pode ser lido como um conjunto de normas administrativas de uma instituição assistencialista e educacional que se organiza segundo normas pedagógicas, administrativas, pautadas nos princípios religiosos, que tornavam viável a transmissão dos conhecimentos às meninas e a incorporação de comportamentos sociais ensinados no âmbito da instituição.

Tais condutas, no contexto do Asilo de Nossa Mãe, são “normatizadas” por meio das propostas de seu Regimento Interno, como observamos no artigo 36 do Estatuto, que previa: “Haverá um Regimento Interno, regulamentado a serviço do Asilo e toda matéria própria de um regimento, em desenvolvimento dos presentes estatutos [...]” (MARCON, 1992, v. 4, p. 138). Essa norma tinha como objetivo criar um regulamento interno da instituição que seguisse os parâmetros aprovados no Estatuto.

Paralelamente ao Estatuto, o Regimento Interno do asilo era um documento oficial, utilizado supostamente como um conjunto de normas no interior da instituição, composto de sete itens. Essas normas deveriam ser seguidas pelas mestras e pela diretora do asilo, assim como pelas meninas. A sua organização e escrita, em consonância com o Estatuto, foi feita em 1897, pelo fundador do asilo. Nele estava discriminada a “pirâmide” hierárquica da instituição.

A organização hierárquica seguia o disposto no parágrafo primeiro do Regimento, ficando estabelecido que as irmãs deveriam se ajudar mutuamente conforme as necessidades de cada uma e da instituição. A escolha ou mudança de opinião com relação ao ofício de cada irmã era de responsabilidade da madre e, no caso do Asilo, a responsabilidade era, portanto, de D. Antônia Martins de Macedo ou madre Cecília, quando ela achasse prudente.

A escolha das órfãs, que seriam recolhidas ou não pelo asilo, era definida no segundo parágrafo do Regimento Interno. Nesse item, ficava estabelecido que era de competência da Mãe, junto com duas conselheiras, a escolha das meninas desvalidas que seriam aceitas ou rejeitadas.

Os critérios de seleção também eram complementados pelo Estatuto que, no artigo 4º parágrafo único, previa que, havendo meninas em igualdade de condições, eram recolhidas aquelas que não possuíam “condição” alguma (MARCON, 1992, v. 4, p. 132, 161). Ou seja, o Asilo de Nossa Mãe, apesar de anunciar que recolheria meninas órfãs e desvalidas, supostamente, elegeria estas últimas como prioridade.

De acordo com Gavazzoni (2009), mãe e mestra são expressões muito fortes do franciscanismo. Principalmente o conceito de mãe: “E cada um ame e alimente o seu irmão como a mãe ama e nutre seu filho; e o Senhor lhe dará sua graça.” (SILVEIRA; REIS, 1996, p. 149).

As atribuições de madre Cecília iam além da direção do Asilo de Nossa Mãe e da responsabilidade pela instituição. De acordo com o artigo 4º do Estatuto, ela era também mestra, pois, juntamente com algumas irmãs, era responsável pelas decisões quanto à organização do asilo, em consonância com o artigo 12 do Estatuto[*3]. E, finalmente, mãe, pois tinha sob sua tutela as meninas que adentravam a instituição.

Também exposta no artigo 4° do Estatuto estava a determinação de que a diretora estava “investida dos mais amplos e ilimitados poderes” (MARCON, 1992, v. 4, p. 139), mostrando que toda organização do asilo passava pelas mãos de madre Cecília.

Essa organização era ordenada pelo Estatuto e pelo Regimento que instituíam, respectivamente, normas administrativas, como também sociais e pedagógicas. As atividades de rotina eram distribuídas de “maneira fixa”, transformando-se em deveres profissionais que, na instituição, eram realizadas pelas mestras e demais irmãs. A hierarquia era autoritária, caracterizando-se pelo mando e pela subordinação à madre.

Conforme se viu, os três primeiros parágrafos do Regimento tratavam das competências administrativas e contábeis do Asilo de Nossa Mãe. A partir do quarto parágrafo até o último, ou seja, o sétimo, a ênfase será voltada para as condutas das internas.

As diretrizes estabelecidas nesses parágrafos estariam diretamente relacionadas com os comportamentos ensinados às internas por suas mestras e pela diretora da instituição, como também com o ensino de civilidade, moralização, higiene e das disciplinas escolares que se deveriam ensinar para as desvalidas.

Dentre os direcionamentos explicitados destaca-se a obediência ao horário que ficava, de acordo com o parágrafo 4º do Regimento, “na mão da Mãe”, devendo serem os domingos e dias santos guardados e os demais dias dedicados “[...] para a escola [...] para o exercício de piedade [...] etc. Conforme a Mãe quiser.” (MARCON, 1992, v. 4, p. 161).

No quinto parágrafo, ficou estabelecido que a mãe só dispensaria o silêncio antes das refeições após a leitura de “uma lição sobre a imitação de Cristo”. Como observa Azzi, citado por Marcílio, o silêncio religioso, no contexto das instituições como o asilo, “[...] não quer dizer não falar, mas quer dizer falar intimamente com Deus [...]” (1984, p. 120).

A madre também auxiliava “[...] as meninas a aprontar e desaprontar a mesa.” (MARCON, 1992, v. 4, p. 161). Qualquer conversa fora do recreio devia ser de forma breve e submissa. Ainda no que se refere aos comportamentos, o parágrafo 6º exigia das internas que, “[...] fora da casa irão sempre acompanhadas.” Observa-se que não se permitia às internas fazer “refeições nas casas alheias”, exceto nas casas dos parentes (MARCON, 1992, v. 4, p. 161).

O parágrafo último do Regimento assemelha-se ao artigo 6º do primeiro capítulo do Estatuto, referente às disciplinas a serem ministradas na instituição, com um pouco mais de detalhes sobre as mesmas.

Na escola ensinar-se-á a Doutrina Cristã (História Sagrada), leitura, contas, etc., caligrafia grande e pequena. Compor. Contas (quatro operações), um pouco de canto, civilidade e trabalho de agulha, de lavar, de engomar e tudo o que for necessário para ser uma mãe de família pobre. (MARCON, 1992, v. 4, p. 161).

Ao analisar as propostas disciplinares presentes no Estatuto e compará-las com o Regimento verifica-se uma pequena distinção entre eles. No segundo, não constam as Noções de História e Geografia, nem as especialidades em Geografia e História do Brasil, além de Música, que também foi excluída.

Observa-se também que duas disciplinas, Religião e História Sagrada, propostas pelo Estatuto, foram condensadas em uma só, denominada Doutrina Cristã.

Entretanto, as disciplinas caligrafia, contas, leitura, composição e civilidade foram mantidas no Regimento do asilo, em conformidade com o que previa o Estatuto. Em contrapartida, os serviços domésticos e de cozinha contidos no Estatuto, foram detalhados pelo Regimento, dando uma noção mais precisa do que se propunha ensinar às meninas.

Nota-se uma diferença substancial das disciplinas propostas pelo Regimento daquelas definidas no Estatuto. Essas diferenças podem ser observadas se verificarmos as finalidades a que se visava a elaboração de cada documento. Assim, as disciplinas previstas no Regimento tinham como finalidade: ensinar tudo o que é necessário para uma mãe de família pobre. Em contrapartida, essa informação não constava no Estatuto do asilo, o qual estabelecia, no quinto artigo, que a menina uma vez admitida teria tudo o que fosse necessário para sua assistência e educação (MARCON, 1992, v. 4, p. 132).

É importante destacar que, diferentemente do Regimento – um documento elaborado com o propósito de nortear as práticas cotidianas da instituição e as condutas –, o Estatuto era um documento de domínio público, ou seja, passível de ampla consulta, podendo ser feitos grifos que não interessavam aos propósitos da instituição, que tinha a finalidade deixar mais evidente o seu fim assistencial e educativo.

Observa-se uma notável diferença quando se compara as disciplinas propostas pelo Asilo de Nossa Mãe – tanto no seu Regimento quanto no seu Estatuto – com aquelas que eram propostas pelos colégios das Irmãs de São José de Chamberry, no mesmo período, em especial pelo Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, em Itu, analisado por Ivan Manoel (1996). Assim, pode-se fazer uma distinção entre o que era ensinado a alunas que pertenciam a uma elite social, público-alvo do Patrocínio, e a alunas desvalidas do asilo.

Na definição de Cunha, o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio constituía-se em “uma residência feminina” que tinha como “[...] elemento propulsor, o processo formativo–educativo, de fundamental importância para a educação feminina [...]”, estando seus objetivos ligados à “[...] inculcação de toda a moral cristã da época [...]” (1999, p. 91).

As matérias ensinadas nos colégios das Irmãs de São José, segundo Manoel (1996) eram:

Instrução Religiosa; Gramática Portuguesa; Aritmética; Geografia e Cosmografia; Botânica e História Natural; Noções de Física; História Sagrada e Profana; Caligrafia; Literatura (Gênero Epistolar); Francês; Trabalhos Manuais; Obras de Gosto (Flores, tapetes, bordados e outros trabalhos de agulhas); Lições Especiais: Inglês, Piano, Alemão, Canto e Desenho. (p. 83).

Matérias como Gramática Portuguesa, Cosmografia, Botânica, História Natural, Noções de Física, História Profana, Literatura e Línguas (Francês, Inglês e Alemão) não faziam parte do rol das matérias do asilo especificadas no Estatuto e detalhadas no Regimento Interno da instituição, mostrando uma clara distinção entre as finalidades educacionais de cada instituição e também os objetivos sociais.

Ao comparar as matérias, explicitadas pelo Estatuto e pelo Regimento Interno do Asilo de Nossa Mãe com as que eram ensinadas no Colégio das Irmãs São José de Chamberry, a intenção é ressaltar duas observações: primeiro, em relação às aproximações e distinções entre os objetivos religiosos e educacionais, pois, ambas as instituições são católicas, mas seus objetivos educacionais são distintos; segundo, no que diz respeito aos parâmetros políticos e sociais, bem como às finalidades das instituições, uma vez que o asilo é uma instituição de assistência a meninas pobres e o Chamberry é um colégio para meninas ricas. Pode-se observar que o Colégio das irmãs de São José de Chamberry era atuante na cidade de Piracicaba, pois muitas meninas do município estudavam nessa instituição.

Como nos esclarece Manoel (1996) ao estudar o Patrocínio, a “preocupação da educação católica” não era a profissionalização feminina (p. 83), pois as meninas, em sua maioria, eram advindas das elites da região e não precisariam se encarregar de tarefas que eram assumidas por suas criadas ou empregadas. Em contrapartida, no contexto do asilo, havia uma preocupação em ensinar algumas habilidades para as internas que, ao deixarem o asilo, seriam mães de famílias e, provavelmente, iriam trabalhar, fora de casa, para ajudar no sustento da família.

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Revista Histórica