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domingo, 9 de abril de 2017

6 coisas que você não sabia sobre a Idade Média



Caravaggio (1571-1610) (Foto: Wikimedia Commons)
 
O pão podia dar barato, futebol era ilegal e mais...
Ana Freitas

Você assiste "Game of Thrones", "Vikings", lê "Senhor dos Anéis" e, por causa disso, constrói um monte de suposições sobre a Idade Média. Além disso, tem tudo aquilo que a gente aprendeu nos livros da escola e, em alguns casos, o senso comum dos filmes e dos contos de fadas. Mas os mitos sobre a Idade Média são muitos, sem contar as coisas que a gente não faz ideia mas eram uma realidade naquela época.

Cavaleiros reais não eram bastiões da ética e heroísmo

Todo mundo pensa nos cavaleiros como os grandes heróis de alma nobre e ética social da Idade Média. Nesse caso, Game of Thrones está mais próximo da realidade: não era incomum que cavaleiros saqueassem vilarejos, assassinassem inocentes e estuprassem mulheres.

Futebol era ilegal

Na Inglaterra medieval, um esporte chamado 'mob football' foi proibido por causa da zona que causava. O jogo podia ser jogado por um número ilimitado de jogadores, a bola era uma bexiga de porco (argh) e as regras eram... bom, quase não havia regras. E se o futebol hoje, cheio de regras e só com 11 jogadores, já é capaz de desencadear caos, imagina nesse contexto.

O pão podia dar barato - ou pior, te matar

No verão, os grãos eram escassos - a colheita anterior estava chegando ao fim, mas a nova ainda não estava pronta pra ser colhida. Trigo velho era usado pra fazer pão, e esse trigo às vezes era infectado com ergot, um fungo que, se ingerido, provoca efeitos parecidos com LSD ou até mata em casos extremos.

Eles não bebiam só cerveja

Você já deve ter ouvido falar que na Idade Média só se bebia cerveja ou vinho, já que a água mesmo era imprópria para consumo. É uma ideia engraçada pensar que durante séculos todo mundo viveu bêbado o tempo todo, mas de acordo com alguns historiadores, é só uma lenda. As pessoas tinham métodos pra conferir se a água era pura e por isso tomavam água, sim, mas também bebiam bastante cerveja, mais comum entre os camponeses, e vinho, consumido pela nobreza.

As pessoas não fediam tanto quanto você pensava

A limpeza do corpo, na Idade Média, estava associada com a limpeza da alma. Alguns historiadores dizem que acreditava-se que pessoas sujas eram pecadores. Como o catolicismo imperava, as pessoas se mantinham bem limpinhas. Banhos públicos eram comuns e também era um costume tomar banho junto com convidados, por exemplo. E as pessoas também escovavam os dentes usando alecrim queimado. O motivo: se dor de dente já é difícil em 2014 com anestesia, imagina naquela época?

Animais podiam ser julgados e condenados por crimes

Não era raro que animais fossem julgados e condenados por matar pessoas ou outros crimes, como estragar plantações ou comer comida que não era deles. Geralmente, iam a julgamento animais domésticos, como porcos, vacas e cavalos, e pragas que ameaçavam plantações, como ratos e insetos. Há registros de supostos lobisomens terem ido a julgamento, além de um galo que, em 1474, foi julgado pelo crime de botar um ovo (ele é um galo!).
Revista Galileu

terça-feira, 14 de junho de 2016

As 10 técnicas de tortura mais assustadoras da Idade Média


Métodos terríveis marcaram o período conhecido como "Idade das Trevas"

Rennan A. Julio


A Idade Média não foi um bom momento para se viver. Havia muitas doenças e liberdade era um conceito praticamente desconhecido. Além disso, a conhecida “Idade das Trevas” ficou marcada pela invenção de alguns dos instrumentos de torturas mais assustadores da história.

Nomeada de era de ouro da tortura, decidimos listar as principais técnicas criadas no período da Idade Média. Mas cuidado, as descrições podem ser um tanto desgastantes.

Confira!

1 - Empalamento
Empalamento: uma das técnicas mais terríveis da Idade Média (Foto: Reprodução)



Uma das mais conhecidas técnicas de tortura é a do empalamento. Durante a Idade Média, inimigos tinham seus corpos atravessados por enormes estacas. Normalmente, o processo começava pelo ânus e seguia até a boca. E o mais assustador: a vítima poderia levar até três dias para morrer.

O personagem que ficou mais conhecido pela técnica foi Vlad III, o Empalador (o sujeito que inspirou Drácula). O tirano costumava apreciar uma refeição enquanto observava as estacas atravessando os orifícios de seus inimigos. Estima-se que Vlad tenha matado de 20 a 300 mil pessoas dessa maneira.

2 – Berço de Judas
Brutal artefato utilizado na Idade Média (Foto: Reprodução)



Chamado de Berço ou Cadeira de Judas, essa técnica pode ser considerada uma “prima distante” da empalação. Com um pouco mais de sadismo, as vítimas eram obrigadas a sentar em pirâmides de madeiras lentamente até a morte. Presas por cordas, elas tinham seus orifícios anais ou vaginais “esticados” pelo tronco pontudo de madeira durante dias.

A intenção do efeito era empalar lentamente. Para isso, algumas delas recebiam pesos nas pernas a fim de aumentar a dor e a velocidade. E fora a humilhação, o Berço de Judas dificilmente era higienizado, assim podendo gerar infecções dolorosíssimas.

3 – O Caixão da Tortura
Expostos em praça pública em um caixão de ferro (Foto: Reprodução)



Usado como sentença para crimes como blasfêmia e roubo, o Caixão da Tortura funcionava assim: as pessoas julgadas eram obrigadas a ficar dentro da “cela móvel” durante dias até a morte. Extremamente apertadas, as gaiolas eram penduradas em praça pública para que sofressem exposição ao sol e também para que animais pudessem se alimentar do ser humano, enquanto vivo.

4 – O Balcão da Tortura
O Balcão da Tortura foi considerado o mais doloroso instrumento de tortura do período (Foto: Reprodução)



Consistindo em uma mesa de madeira com cordas fixadas nas áreas superiores e inferiores, o Balcão da Tortura chegou a ser considerado o mais doloroso método de toda cultura medieval.

As cordas se prendiam aos pés e mãos da vítima em uma ponta e a roldanas em outra. Ao torturador, bastava girar as maçanetas para que os membros dos torturados se esticassem em pura agonia. Muitas vezes, os membros chegavam a ser arrancados pelo dispositivo.

No final da Idade Média, a mesa ganhou uma variante: com espinhos de ferro que penetravam nas costas da vítima. Tudo isso para que confessassem seus crimes.

5 – O Estripador de Seios
Experiência brutal: o Estripador de Seios (Foto: Reprodução)


Esse terrível aparato costumava ser utilizado para punir mulheres acusadas de realizar bruxaria, aborto ou adultério. As garras – aquecidas por brasas ou em temperatura comum – do aparelho eram usadas para arrancar os seios dessas mulheres.

O artefato também ganhou uma variante, chamada de ‘The Spider’. Exatamente como o outro instrumento, mas com as garras acopladas a uma parede. Isso fazia com que o torturador pudesse puxar as mulheres até que o estripador ficasse com os seios pendurados. Muitas morriam de hemorragia ou de infecção.

6 – Pera da Angústia
Pera de metal realizada para trazer muita dor às vítimas (Foto: Reprodução)



Esse brutal equipamento era utilizado para iniciar a punição de mulheres, mentirosos, e homossexuais. O aparelho em formato de pera era inserido nas vaginas femininas, no ânus dos homossexuais e na boca dos blasfemadores.

Para que as quatro folhas de metal se abrissem, bastava à vítima “entortar” um parafuso. A pera era capaz de arrancar a pele com sua expansão e mutilar os orifícios das pessoas que a recebiam. O método era conhecido por apenas “abrir” a sequência de torturas.

7 – A Roda da Tortura
Roda da Tortura fazia com que pessoas tivessem seus membros quebrados em praça pública (Foto: Reprodução)



Conhecido por sempre matar a vítima de forma bem lenta, essa era a Roda da Tortura. Com os membros presos em uma roda de madeira, as pessoas viam seus braços e pernas serem atingidos pelos torturadores com grandes martelos de metal. Depois disso, eram pendurados – ainda na roda – em praça pública, para que animais se alimentassem das vítimas vivas.

8 – Serra para cortar ao meio
Pessoas eram serradas ao meio na Idade Média (Foto: Reprodução)



Por serras serem muito comuns na Idade Média, a técnica de tortura foi muito utilizada para matar pessoas acusadas de bruxaria, adultério, assassinato e blasfêmia. Além disso, era costumeiramente usada para ameaçar os acusados, colocando seus familiares nos dentes afiados da serra.

Como funcionava: dois torturadores amarravam as pessoas de cabeça para baixo a fim de deixar todo o sangue fluir; depois disso, pegavam uma serra e atravessavam as vítimas começando pelo meio das pernas. A tortura costumava levar horas.

9 – O Esmaga Cabeças
O Esmaga Cabeças, mais um artefato extremamente brutal (Foto: Reprodução)



Altamente utilizado durante a Inquisição Espanhola, o Esmaga Cabeças – como ficou conhecido – era capaz de causar dores e danos irreparáveis. O instrumento consistia em um capacete ligado à uma barra onde se apoiava o queixo da vítima. Depois disso, o parafuso apertava o capacete comprimindo a cabeça da vítima.

Com isso, os torturadores conseguiam destruir as arcadas dentárias e as mandíbulas. E caso a tortura não parasse, os globos oculares saltavam dos olhos e o cérebro saía despedaçado pelo crânio.

10 – Tortura do Garrote
 
Tortura do Garrote matou muitas pessoas na Inquisição Espanhola (Foto: Reprodução)

Também muito usado na Espanha, o “garrote espanhol” servia para provocar uma morte lenta nas vítimas. Como o torturador possuía controle da corda amarrada no pescoço da pessoa, aos poucos ela ia sendo apertada para que as vítimas morressem asfixiadas.

A técnica foi utilizada durante a Inquisição com o objetivo de conseguir confissões dos acusados. O dispositivo esteve presente no país espanhol até 1975.
Revista Galileu

Quais eram os métodos medievais mais usados para fazer torturas?

 
 
 Roberto Navarro

Os torturadores da Idade Média usavam de tudo um pouco: de aparelhos que esticavam o corpo das vítimas até deslocar as juntas a objetos perfurantes dos mais variados tipos. Boa parte dos métodos de punição já existia desde a Antiguidade, mas os carrascos medievais também desenvolveram novas formas de tormento, incorporando os avanços tecnológicos da época, como os recém-surgidos dispositivos de relojoaria. A prática da tortura era comum, pois a confissão era considerada a mais importante prova nos tribunais, assim ela precisava ser extraída a qualquer custo. Presos em sombrias masmorras, no subsolo de fortalezas, os suspeitos eram submetidos a suplícios durante semanas e o terror só acabava quando eles reconheciam a culpa, em geral relacionada a casos de roubo, traição política ou assassinato. A princípio, a Igreja se manifestou contra a tortura para extrair confissões, mas, no final da Idade Média, já usava a prática sem cerimônias para punir hereges e suspeitos de bruxaria ou enquadrar pregadores que se afastassem de sua doutrina oficial. No ano 1252, o papa Inocêncio IV publicou uma bula (carta solene do pontífice) autorizando a tortura de suspeitos de heresia. Não era considerado pecado infligir castigos físicos aos acusados, a única recomendação era para que o serviço sujo não ficasse a cargo dos padres... O auge do uso da tortura em interrogatórios aconteceria já fora do período medieval. A partir do século 15, a Inquisição - tribunais da Igreja Católica que puniam quem se desviasse de suas normas - tinha até manuais para orientar carrascos. Vale lembrar que, além do tormento físico, métodos psicológicos também eram utilizados, envolvendo drogas psicotrópicas, extraídas de plantas como mandrágora ou estramônio. Essas poções provocavam terríveis delírios, servindo para "confirmar" que o réu possuía laços com o demônio.

Mergulhe nessa

Na livraria:

História Medieval, Jacques Heers, Bertrand Brasil, 2000

The History of Torture and Execution, Jean Kellaway, The Lyons Press, 2002

Na Internet:

www.shanmonster.com/witch/torture/index.html
Sessão de horror Nas masmorras, vítimas tinham juntas deslocadas e couro cabeludo arrancado

RODA DE FOGO

A roda foi um suplício muito usado a partir do século 12. O prisioneiro era amarrado na parte externa de um grande disco de madeira, colocado sobre um recipiente contendo brasas incandescentes. Ao girar lentamente a roda, o carrasco fazia com que o corpo do torturado ficasse exposto ao calor, até que o réu morresse em conseqüência das queimaduras sofridas

TECNOLOGIA CRUEL

O desenvolvimento da relojoaria na Idade Média inspirou novos instrumentos a serviço da dor. A "pêra" era um aparelho com pequenos mecanismos e molas em seu interior. Ela era introduzida no reto ou na vagina da vítima e, com o uso de parafusos, os mecanismos de relojoaria eram acionados para expandir o volume do objeto, causando graves dilacerações

PESADELO FEMININO

Algumas formas de tortura eram aplicadas exclusivamente às mulheres. A mastectomia (remoção dos seios) era uma delas. A vítima tinha as mamas dilaceradas e em seguida arrancadas, com o emprego de pinças e outros instrumentos de ferro aquecidos. Em certas ocasiões, a mulher era obrigada a engolir os próprios seios e acabava morrendo sufocada

BATENDO AS BOTAS

Forma de tortura popular na Escócia medieval, as botas eram um tipo de "calçado" com o interior forrado por pontas metálicas. O condenado era obrigado a colocá-las nas pernas, enquanto o carrasco as ajustava com um pesado martelo, fazendo com que as pontas penetrassem na carne. Os poucos réus que sobreviviam a tal pesadelo ficavam aleijados ou mutilados

URNA PAULEIRA

Se você gosta de rock, certamente conhece o grupo Iron Maiden, "Donzela de Ferro" em inglês. Mas talvez não saiba que a banda foi batizada com o nome de um instrumento de tortura. Tratava-se de uma urna, em formato de mulher, com o interior cheio de estacas de metal. O prisioneiro era obrigado a entrar na urna e as portas eram fechadas, pressionando as estacas contra seu corpo, o que provocava dolorosos ferimentos

ALONGAMENTO RADICAL

O estrado era uma prancha de madeira com mecanismos para esticar o corpo da vítima. Depois de ter os pulsos e tornozelos amarrados por cordas nas extremidades da prancha, os mecanismos eram acionados lentamente e puxavam o corpo em direções opostas. A vítima tinha as juntas deslocadas e os tendões rompidos e no final podia ser desmembrada

ESCALPO EUROPEU

Outra forma de tortura usada só contra mulheres era a laçada. Ela surgiu na Idade Média, mas foi empregada na Rússia até o início do século 20. Durante as sessões de interrogatório, carrascos enredavam o cabelo de mulheres acusadas de algum crime em pedaços de metal, que eram torcidos até que o couro cabeludo fosse arrancado
Revista Mundo Estranho

domingo, 6 de abril de 2014

Notícias História Viva


Dinamarqueses encontram excrementos conservados de 700 anos

Durante escavação em cidade medieval, arqueólogos acharam barris que serviam de latrina durante século XIV; excrementos ajudam a estudarem alimentação na época  
 Barris que serviam de latrina em cidade medieval são encontrados com conteúdo "conservado" Foto: Huffington Post / Reprodução

Arqueólogos da Dinamarca tiveram uma surpresa durante as escavações na cidade medieval de Odense ao encontrarem barris cheios de excremento de 700 anos (que ainda fedem!), segundo o Huffington Post, citando o site de notícias UPI.

De acordo com os cientistas, os barris medievais estavam em uma área onde se localizavam os “banheiros” da antiga cidade. Para os arqueólogos, a descoberta malcheirosa poderá ajudar a descobrir e estudar melhor a alimentação das pessoas na época.

E parece que os barris conservaram bem seu conteúdo. "Os resultados preliminares da análise mostram que framboesas eram populares em Odense, em 1300. Os conteúdos também conter pequenos pedaços de musgo, couro e tecido, que foram usados ​​como papel higiênico", contou a arqueóloga Maria Elisabeth Lauridsen ao canal Discovery.

Acredita-se que os tambores foram originalmente construídos para o transporte de mercadorias e de armazenamento de peixe, antes de serem convertidos à latrina. "Estamos descobrindo informações novas e emocionantes sobre a vida em Odense durante o século 14", disse Lauridsen.
http://noticias.terra.com.br

domingo, 3 de novembro de 2013

IDADE MÉDIA - OS POBRES COMO MINORIA NECESSÁRIA


Prof. Dr. Cyro de Barros Rezende Filho
Professor da cadeira de História Antiga e História Medieval
Universidade de Taubaté.

Na civilização cristã que floresce na Europa, uma categoria específica de pobres emerge como minoria: aquela necessária à prática da caridade. Os pobres adquirem, na ótica cristã do período, um caráter de funcionalidade: sempre devem existir pobres, para que os “não-pobres”
possam assisti-los, qualificando-se como bons cristãos. Não se pode erradicar a pobreza! O que na Antiguidade era generosidade, na forma de donativos distribuídos pelo Estado Romano (anona), tornou-se, com o cristianismo, caridade, que, juntamente com a fé e a esperança, compõe as virtudes teologais.
Os Padres da Igreja, que nos primeiros séculos sistematizaram a doutrina cristã, filtraram as noções pagãs de humanidade e adaptaram-nas ao princípio da caridade, dando origem aos conceitos medievais de pobreza e misericórdia. Seguindo as palavras de São Paulo, “Cristo sendo rico, se fez pobre por vós, a fim de que fôsseis ricos pela sua pobreza” (idem, II, Cor, 8-9), deram à concepção cristã da caridade uma abrangência que transforma a humildade espiritual em um impulso em direção a Deus, enquanto procuravam aliviar a humilhação material e social dos pobres. São João Crisóstomo escreveu que “Oferecer um copo de água é oferecer um cálice precioso [...] Não honreis a hóstia com vestidos de seda [...] Honrar igrejas suntuosas é zombar de Deus, desprezando-o nos pobres”; Santo Ambrósio de Milão afirmou que “O desprezo pelo pobre é um assassinato”; Gregório de Nissa exortou a que, coletivamente, “[...] alimentemos, vistamos Cristo”; São Jerônimo dizia que o bom cristão “[...] deveria seguir nu, o Cristo nu”; e Santo Agostinho formulou a definição lapidar “[...] do supérfluo do rico como sendo o necessário do pobre” (MOLLAT, 1989, pp. 21-23).
Essa nova concepção de caridade incorporou-se como parte integrante da doutrina cristã, e passou a refletir a prática do cotidiano. Em um episódio passado no século IV, há uma passagem emblemática, na qual São Martinho de Tours, cavaleiro romano, corta com um golpe de espada seu capote, para dar metade dele a um mendigo, às portas da cidade de Amiens. Episódio pleno de símbolos. Era uma sublimação da pobreza, na medida em que o indigente socorrido representava o próprio Cristo. Era também um incentivo à prática da caridade, dirigido, por intermédio de Martinho, àqueles que, possuindo um cavalo e estando armados de uma espada, dispunham de fortuna, poder e força. A simbologia completa-se com o local do episódio: a cena passava-se às portas de uma cidade, o ponto de encontro entre campo e cidade, entre os universos rural e urbano.
Dessa forma, viu-se, no ocidente, a Igreja afirmar que os bens materiais que possuía, na
verdade, formavam o patrimônio dos pobres, enquanto o bispo passou a representar o duplo papel de pastor e de pai dos pobres. O Concílio de Orleans (511) decretou que os bispos reservassem ¼ de seus rendimentos às necessidades dos pobres, enquanto o Concílio de Mâcon (585) proibiu os bispos de se cercarem de cães de guarda, para não mais impedir que os necessitados deles se aproximassem (HEFELE, 1911, III).
Na prática, as igrejas passaram a elaborar listas dos pobres a serem assistidos em cada paróquia, conhecidas como matricula. Em Reims, já em 470, e em Laon, em 490, aparecem listas de matriculados. Por volta de 590, o bispado de Metz arrolava 726 pobres de suas diversas paróquias, que recebiam, mensalmente, doações de trigo, vinho, toucinho, peixe, azeite, queijo e legumes (BRÉHIER, 1936, IV).
A Vida de Santo Elói, obra que cobre o período 588-660, traz uma passagem lapidar: “Deus
teria podido fazer todos os homens ricos, mas quis que houvesse pobres neste mundo para que os ricos tivessem uma oportunidade de redimir seus pecados” (MIGNE, 1885, 87, col. 533). Trata-se da dialética da pobreza.
Com a progressiva ruralização europeia e a corolária decadência das cidades, os bispos vão sendo substituídos pelos monges, como os principais atores da prática da caridade cristã. Os
mosteiros beneditinos, inseridos em um contexto rural, passam a atender aos pobres que já não se encontravam majoritariamente nas cidades. O monge, voluntariamente o pobre de Cristo (pauper Christi), passa a atender aos pobres involuntários (pauperes inviti). A hospitalidade beneditina torna-se lendária. Ricos, pobres, viajantes, peregrinos, todos, sem distinção, recebem, ao menos, acolhida por uma noite e duas refeições, sendo os necessitados alojados na hospedaria dos pobres (hospitale pauperum), o que já denota uma clara distinção social. E, no século IX, o monge encarregado da admissão de estranhos no mosteiro, o porteiro, passou também a ser o encarregado da administração do celeiro, sinal inequívoco dos tempos.
Aos poucos, institucionalizou-se a distribuição de esmolas pelos mosteiros, com a criação da figura do monge esmoler. Entre suas atribuições estava a de recolher todas as sobras das refeições dos monges, para distribuí-las aos pobres. As datas significativas do calendário cristão, como o Natal, a Páscoa, o dia de Todos os Santos, tornam-se ocasiões de distribuição generalizada de víveres aos necessitados (GOGLIN, 1976, pp. 61-66).
É interessante observar que a instauração da ordem feudal ocasionou a superação da oposição pobre-poderoso (pauper-potens) e fez nascer outra, pobre-cavaleiro (pauper-miles). A carência básica dos pobres passou a ser a de justiça e produziu a união de pobres-monges-bispos, em torno de um objetivo comum: “civilizar” a prática da guerra. Por volta de 990, a Igreja conseguiu impor à sociedade feudal a Paz de Deus, que resguardava, das agressões dos
cavaleiros, os considerados indefesos (inermis), tais como monges, padres, freiras, pastores, crianças, viúvas, mercadores, peregrinos e aqueles que iam ou voltavam da missa. Paralelamente, difundiu-se a aceitação da idéia de que os edifícios das igrejas eram um santuário, sendo banida toda violência, em seus interiores. E, a partir do século XI, a Igreja vai insistir na obediência à Trégua de Deus, uma nova concepção que proibia as lutas e os ataques, do entardecer das sextas-feiras, ao amanhecer das segundas-feiras, durante o Natal, a Páscoa e a Quaresma, fazendo do derramamento de sangue, nesses períodos, um pecado mortal (REZENDE FILHO, 1995, p. 26). A Igreja passou, portanto, a resguardar da violência, endêmica na época, a multidão anônima de indefesos (multitudo inermis vulgi), que compunha a população do ocidente europeu, então majoritariamente rural.
Ao se fazer um balanço do período, pode-se afirmar que a funcionalidade da pobreza foi garantida e assegurada pela ação da Igreja, tanto no campo teórico, como na atuação prática. Mas as distorções avolumavam-se e seriam sentidas nos séculos XII-XIII.
Parte integrante do texto: OS POBRES NA IDADE MÉDIA: DE MINORIA FUNCIONAL A EXCLUÍDOS DO PARAÍSO
REVISTA CIÊNCIAS HUMANAS – UNIVERSIDADE DE TAUBATÉ (UNITAU) – BRASIL – VOL. 1, N. 1, 2009.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

IDADE MÉDIA - A JUSTA IRA DOS POBRES




Prof. Dr. Cyro de Barros Rezende Filho
Professor da cadeira de História Antiga e História Medieval
Universidade de Taubaté.
Os séculos XIV e XV são uma época de turbulência para a Europa. Paralelamente à ocorrência generalizada de uma crise tríplice, agrária, demográfica e monetária, somam-se guerras incessantes e o rompimento do equilíbrio da cristandade medieval (Grande Cisma), que eram um prenúncio da crise estrutural do feudalismo. A característica social da época foi a eclosão de numerosas revoltas populares, tanto no campo, como nas cidades, quando os pobres se rebelaram contra a ordem estabelecida, explodindo em justa ira.
Houve uma pauperização progressiva, quer dos camponeses e rendeiros rurais, quer dos trabalhadores urbanos, o que ocasionou uma confluência de carências. Ao lado da dura luta pela sobrevivência, muitas vezes infrutífera, somou-se a falta de justiça, de paz e mesmo de esperança, uma vez que mais e mais pessoas eram atingidas pela pobreza. A posse de um lote de terra, ou de uma colocação laboriosa, deixou de ser a garantia de uma vida digna ou mesmo de sobrevivência, na medida em que a crise estrutural do feudalismo engolfava o corpo social e que o estado de pobreza se alastrava de forma incontrolável, abraçando a todos.
O resultado foi um período de violência endêmica, cuja característica básica foi uma generalizada revolta dos pobres, por toda a Europa. No campo, essas revoltas receberam a denominação de jacqueries, devido à presença massiva dos “Jacques” (homens comuns, homens do povo). Tiveram um caráter anti-senhorial e, por vezes, até anticlerical. Nas cidades, foram dirigidas contra a camada dirigente, o patriciado urbano (FOSSIER, 1970, p. 339s). No universo rural, registram-se revoltas na Borgonha (1308), na Flandres (1323 e 1328), no norte da França, Lombardia e Renânia (1358), na Inglaterra (1381 e 1408-1420), na Catalunha (1391 e 1410 –1414), na Jutlândia (1411), na Dinamarca (1436) e na Noruega, em 1438 (HEERS, 1970, pp. 114-120). E no contexto urbano ocorreram levantes populares em Bruges (1302), em Toulouse (1320 e 1356), nas cidades de Gand, Louvain, Maastricht e Bruxelas (1380), em Londres (1381), em Paris (1382, 1413 e 1418), em Worms, Spira, Francfurte e Mogúncia (1383) e em Florença, em 1378 e novamente em 1478 (ARAGONESE, 1948, p. 32s).
A origem dessas revoltas está no desconforto que a pobreza causa, na injustiça de sua imposição e na vergonha que ela ocasiona. Nas palavras de John Ball, o líder da grande sublevação inglesa de 1381, com base no dito popular “A bondade desconhece os ricos, que obrigam todos os homens a serem pobres”, encontra-se claramente expressa a constatação que segue:

E se todos nós descendemos de um mesmo pai e de uma mesma mãe, Adão e Eva, como podem os senhores afirmar e provar que eles são mais senhores do que nós – salvo que eles nos obrigam a cavar e cultivar a solo para depois virem esbanjar o que produzimos? Eles vestem-se com veludo e cetim, adornam-se com peles de esquilo, enquanto nós nos cobrimos com trapos. Eles têm vinhos, especiarias e pão fino, ao passo que nós temos apenas centeio, farinha estragada e palha, e só água para beber. Eles possuem lindas residências e feudos, enquanto para nós há trabalho e tributação, sempre nos campos debaixo da chuva e da neve. Mas é de nós e do nosso trabalho que provém tudo aquilo que mantém a pompa deles (LINDSAY, 1950, pp. 23 e 46-47).

É desnecessário dizer que a repressão a esses movimentos revestiu-se de caráter violentíssimo, impondo, nas regiões afetadas e nas cidades sublevadas, uma verdadeira paz de cemitério. Em um encontro de interesses comuns, a Igreja facilitou a ação dos poderes instituídos, atribuindo a característica de heresias a muitas dessas revoltas populares, o que facilitou a ação do braço secular.
Mas não foi apenas a Igreja Católica que se posicionou em favor da lei e da ordem. O próprio Martinho Lutero agiu no sentido de apoiar os príncipes contra os pobres em revolta, no episódio conhecido como a Guerra dos Camponeses (1524-1525), que atingiu uma Alemanha já caótica pela ação da Reforma. Afirmando que “Há que estrangulá-los. Há que matar o cão enraivecido que se lança contra ti: se não, ele te matará” (DELUMEAU, 1973, p. 44), ele abençoou o massacre de mais de cem mil camponeses.
Triste desfecho, para uma categoria social que iniciou sua trajetória no universo medieval desempenhando um papel funcional fundamental à existência dos bons cristãos.
Parte integrante: OS POBRES NA IDADE MÉDIA: DE MINORIA FUNCIONAL A EXCLUÍDOS
DO PARAÍSO 

 REVISTA CIÊNCIAS HUMANAS, UNITAU. Volume 1, número 1, 2009.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Poder privado, poder público - Partir das palavras


HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA 2

O historiador francês Georges Duby (1919-1996), especialista em história medieval, é autor de diversos livros que contribuíram para disseminar seu amplo conhecimento relacionado à sociologia e antropologia. Seus estudos sobre as mulheres da Idade Média resultaram nos cinco volumes de "História da Mulheres", coleção que dirigiu com Michele Perrot. Duby também foi coordenador do projeto "História da Vida Privada", que apresenta um painel das instituições e dos costumes que ajudam a compreender o surgimento do homem moderno.
Poder privado, poder público - Partir das palavras

O que era a vida privada nos tempos feudais? Para construir uma problemática eficaz - pois, repito-o, é disso que se trata - o melhor método, creio, é partir das palavras, explorar um campo semântico, isto é, o nicho onde se acha refugiado o conceito. Ao tomar este caminho, tenho além disso a impressão de ser fiel ao espírito daqueles eruditos que, à época que escolhi observar, cumpriam uma função análoga à que cumpro, e que em primeiro lugar eram gramáticos, começavam por estudar um vocabulário para aproximar-se do incognoscível, progredindo do mais conhecido ao menos conhecido.

Nos dicionários da língua francesa compostos no século XIX, ou seja, no momento em que a noção de vida privada adquiria seu pleno vigor, descubro de início um verbo, o verbo privar, significando domar, domesticar, e o exemplo dado por Littré, "um pássaro privado", revela o sentido: extrair do domínio selvagem e transportar para o espaço familiar da casa. Descubro em seguida que o adjetivo privado, considerado de maneira mais geral, também conduz à ideia de familiaridade, agrega-se a um conjunto constituído em torno da ideia de família, de casa, de
interior. Entre os exemplos que escolheu, Littré cita a expressão que se impunha em seu tempo: "A vida privada deve ser murada", e propõe esta glosa, em minha opinião bastante expressiva: "Não é permitido procurar e dar a conhecer o que se passa na casa de um particular".

Todavia, e é isso que marca bem o termo particular, em seu sentido primeiro, mais direto, mais comum, o privado se opõe ao público. Assim, no Littré, estas duas citações, uma de Vauvenargues: "Aqueles que governam cometem mais faltas que os homens privados"; e outra de Massillon: "Nada é privado na vida dos grandes, tudo pertence ao público". Eis-me então remetido à palavra público. Definição, de Littré: "O que pertence a todo um povo, o que concerne a todo um povo, o que emana do povo". Portanto, a autoridade e as instituições que sustentam essa autoridade, o Estado. Esse primeiro sentido evolui para uma significação paralela: diz-se público o que é comum, para o uso de todos, o que, não constituindo objeto de apropriação particular, está aberto, distribuído, resultando a derivação no substantivo o público, que designa o conjunto daqueles que se beneficiam dessa abertura e dessa distribuição. Muito naturalmente, o deslocamento do sentido prossegue: é dito público o ostensivo, o manifesto. Assim, o termo vem opor-se, de um lado, a próprio (o que pertence a tal ou qual), do outro, a oculto, secreto, reservado (o que é subtraído).

Deve-se ficar surpreso de que um nó de significações apareça de tal maneira organizado no seio da língua latina clássica, em torno de duas palavras opostas, publicus e privatus? Na linguagem de Cícero, por exemplo, agir privatim (opondo-se esse advérbio a publice) é agir não enquanto magistratus, investido de um poder emanado do povo, mas como simples particular, em outro território jurídico, e igualmente não é agir fora, aos olhos de todos, no fórum, mas em seu domicílio, no interior de sua casa, isoladamente, separadamente. Quanto ao substantivo
privatum, designa os recursos próprios (novamente, a ideia de propriedade), o uso próprio e, finalmente, ainda, o em-casa (in privato, ex privato: em ou fora da casa).

Quanto a privus, designa também ao mesmo tempo o que é singular e o que é pessoal. Em consequência, no francês do século xix e no latim clássico, a organização do sentido é a mesma; uma raiz, a noção de comunidade popular, da qual procedem dois ramos, um crescendo na direção do que é isento, afastado do uso comum, o outro na direção do que é doméstico, que toca ao indivíduo, mas cercado de seus próximos. Portanto, aquilo que juridicamente escapa, de um lado, a esse poder cuja natureza é especificada pela palavra publicus, poder do povo, e, do outro, à intrusão da multidão.

"História da Vida Privada 2"
Autor: Georges Duby
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 642
http://noticias.bol.uol.com.br

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Decadência cultural na Idade Média


Livro traça decadência cultural na Idade Média

MARCELO COELHO

O tema deste livro é dos mais restritos. Trata-se da descoberta, em 1417, da cópia de um poema filosófico escrito pelo romano Lucrécio, por volta de 50 a. C.

Com um talento jornalístico raro entre pesquisadores acadêmicos, Stephen Greenblatt transformou esse acontecimento num passeio apaixonante pelos palácios de Florença e pelas paredes salpicadas de sangue dos conventos medievais.

O poema de Lucrécio intitulava-se "De Rerum Natura" ("Sobre a Natureza das Coisas", ou "Da Natureza", como prefere a atual edição). Considerado "sublime" na Antiguidade, dele só restavam alguns poucos fragmentos quando Poggio Bracciolini, alto burocrata do Vaticano, encontrou-o nas prateleiras de um convento alemão.

Greenblatt aproveita a deixa para traçar, em páginas arrepiantes, o relato da decadência cultural na Idade Média. A sabedoria da Antiguidade tinha a fragilidade do material de que era feita. Papiros se desfizeram enquanto desaparecia o público interessado em novas cópias.

Restaram os mosteiros, onde o trabalho de reproduzir manuscritos era uma alternativa à atividade mais rude de lavrar a terra. Mesmo assim, as ideias sinistras que temos da Idade Média são confirmadas por Greenblatt.

Não era permitido aos monges perguntar pelo sentido do que copiavam. Santos eruditos como são Jerônimo (347-420) e são Bento (480-547) renegaram seu gosto pelos clássicos, identificando-os ao pecado.

Outra passagem da vida de são Bento é mencionada. Certa vez, o santo percebeu que estava se lembrando, com desejo, de uma mulher. Atirou-se então numa moita de espinhos e urtigas, rolando nela até ficar coberto de sangue.

Elogio da dor, anti-intelectualismo, fervor religioso: os tempos não eram propícios para as teorias de Lucrécio. O poeta defendia a busca do prazer terreno, e descreve o mundo e os astros como produtos acidentais do encontro de átomos à deriva.

"Deriva" ou mesmo "declinação" dos átomos seriam termos mais exatos para traduzir o "clinamen" de Lucrécio, em vez dessa "Virada", que dá o título ao livro de Greenblatt na edição brasileira. É que importa transformar um fato específico numa espécie de evento fundacional. A descoberta do manuscrito de Lucrécio é identificada como "o nascimento do mundo moderno".

Por mais importante que tenha sido a leitura de Lucrécio para Montaigne, o fato é que o mundo medieval já estava em crise antes da descoberta de Bracciolini. Aliás, o florentino só foi parar num convento da Alemanha porque seu empregador, o papa, havia sido deposto e preso numa rebelião eclesiástica.

O entusiasmo de Greenblatt, de todo modo, contagia o leitor; escrevendo num país tomado pela hipocrisia religiosa e pelo declínio da cultura letrada, pode-se entender o ímpeto com que narra essa história de prazer pelo conhecimento erudito.


AUTOR Stephen Greenblatt
EDITORA Companhia das Letras
TRADUÇÃO Caetano Waldrigues Galindo (304 págs.)

Folha de S. Paulo

sábado, 4 de agosto de 2012

A Cavalaria - Da Germânia antiga à França do século XII


‘O historiador tem mais a tomar da
antropologia do que a lhe dar’
JU – Sua obra faz recurso à antropologia ao procurar entender a violência medieval do ponto de vista dos estudos sobre a “faida” ou a prática da vingança. O que permite essa aproximação entre sociedades tão diferentes? Quais os frutos dessa cooperação?

Barthélemy – Estamos longe da Idade Média e não paramos de nos afastar dela. Os leitores não têm necessidade de ler Mauss e seu Ensaio sobre o dom para compreender intuitivamente os artifícios simbólicos em Paris ou São Paulo! Por outro lado, temos cada vez mais necessidade de nos impregnarmos de antropologia, que é a sociologia das sociedades distantes, inatuais, para imaginar um pouco os mecanismos funcionais – as trocas, o recurso ao sagrado–, e creio no final das contas que isso nos torna munidos de melhores ferramentas do que o século XIX. A antropologia da vingança é muito útil para nos ajudar a não dramatizar demais essas guerras feudais sobre as quais se sobrepõe a cavalaria, a reconhecer seus limites, seus códigos e a perceber nela essa forma de conivência tácita ou expressa entre adversários nobres, que está na raiz da cavalaria.
Dito isso, partilho sua inquietude, pois há um risco no uso da antropologia: isso se dá quando se procura enquadrar arbitrariamente as fontes da Idade Média em modelos exteriores. Isso acontece com muita frequência atualmente, sobretudo devido a uma valorização excessiva das “problemáticas” e “modelos” no reino dos historiadores.
JU – No que diz respeito ao estudo da violência, a história medieval pode de alguma maneira contribuir com a antropologia?

Barthélemy – Em minha opinião, muito pouco, porque um medievalista sabe bem menos coisas a respeito da sociedade que ele estuda através de fontes lacunares e aleatórias do que um antropólogo a respeito daquela no meio da qual ele viveu – mesmo que sua abordagem permaneça parcelada e parcial. Foi por isso que escrevi em meu livro Chevaliers et miracles [Cavaleiros e milagres], que os cavaleiros da Idade Média são “quase tão interessantes quanto os Nuer do Sudão, estudados por Evans-Pritchard” – mas, apenas, quase! O historiador tem mais a tomar da antropologia, a título de sugestão, do que a lhe dar. Somos grandes predadores!
JU – Essa expressão, “grandes predadores”, é perturbadora e de certa forma recomenda que voltemos a um ponto anterior. Gostaria que o senhor discutisse um pouco mais detidamente o que entende como “valorização excessiva das ‘problemáticas’ e dos ‘modelos’ no reino dos historiadores”. 

Barthélemy – As doutrinas de Alain Guerreau sobre o “feudalismo”, repercutidas em A civilização feudal de Jérôme Baschet com mais tato, é verdade, são um bom exemplo de modelização excessiva. Ambos vêem na Igreja “a instituição dominante no feudalismo” – em detrimento da cavalaria, que para mim, teria mais direito ao título de instituição dominante! O que para mim é interessante na relação entre a Igreja e a cavalaria, não é reduzi-la a este modelo expedito, mas ver como sua conivência, que é frequentemente patente, por outro lado, nunca pode ser completa. Pode-se e deve-se, portanto, escrever uma história cheia de tensões e de compromissos, marcada por homens e grupos de homens, com seus afetos e estratégias...
JU – As teses que atribuem uma “violência endêmica” à idade Média normalmente advogam a existência então de uma sociedade politicamente invertebrada e carente de mecanismos de justiça pública. Sem aderir à tese da “violência endêmica”, seu livro apresenta a aristocracia guerreira dotada, até o século XII, de um caráter largamente arredio em relação aos poderes superiores, sem que chegue a contestá-los. A ideia de que a violência medieval tem mecanismos reguladores permite discutir algo a respeito da existência de formas eficazes de justiça e de poderes públicos? Como o senhor vê esse problema que praticamente é um divisor de águas na historiografia medieval?

Barthélemy – Saber se é preciso falar de Estado nesta ou naquela etapa da história sócio-política pode se tornar uma questão um pouco acadêmica. Penso concretamente que, na alta Idade Média, ainda que uma justiça coercitiva continue por vezes a se aplicar aos servos, aos camponeses, a aristocracia franca que tem comportamentos guerreiros e funções diversas – aí compreendidas as judiciárias –, é bastante autônoma em relação aos reis (que por seu turno ela serve e apoia na defesa da região) na resolução de seus conflitos internos. Assim, ela tem uma experiência com normas e limites da violência intrasocietária.
Essa experiência, se é preciso defini-la, me parece mais “germânica” que “romana”, e eu prefiro as intuições – e mesma aproximações – do século XIX às atuais experimentações romanistas – historiadores que advogam forte continuidade entre Antiguidade e Idade Média. Os historiadores das instituições, no século XIX, evocaram de maneira um pouco vaga o “espírito germânico” onde quer que eles sentissem que havia qualquer conceito ou prática muito diferentes das suas, mas funcionais: em suma, eles lançavam mão dessa etiqueta tantas vezes quanto nós utilizamos hoje em dia as sugestões da antropologia – vingança, propriedade, sacralidade, ritos “germânicos”.
JU – O problema da ruptura, ou não, entre Antiguidade e Idade Média é um divisor de águas entre os medievalistas que efetivamente produz visões de Idade Média muito diferentes. Seu trabalho de fato evita questões academicistas investindo fortemente na leitura documental. Que dados concretos dessa documentação, que o senhor conhece tão bem, o convenceram de que a perspectiva romanista é mais problemática do que as intuições germanistas? 

Barthélemy – Há verdadeiras heranças da administração romana nos reinos bárbaros e no mundo carolíngio, frequentemente subestimadas pelo século XIX (embora não por Fustel de Coulanges), mas como não notar que a sociedade mudou? Na Gália do norte, os romanos ricos se fizeram francos depois do batismo de Clóvis: o duque Lupo, evocado por Gregório de Tours e por Fortunato, é um exemplo muito interessante disso. Ele adotou usos de tipo germânico, isso é, uma moral da honra vindicativa e um ideal de liberdade aristocrática. Chamo isso de “germânico” mas em um sentido muito amplo, aplicável a todas as sociedades de honra aristocrática e de vingança que os romanos acham “bárbaras”.
Haveria nesse sentido uma germanidade dos árabes do tempo do Profeta –que seus descendentes chamaram de “tradição cavaleiresca dos árabes”. E nos mitos de origens troianas dos francos, a partir do século VII, se exprime um ideal germânico – sempre no sentido amplo. Talvez eu esteja errado em manter esse termo “germânico”, que pode se prestar à confusão. Na verdade, eu o utilizo, sobretudo, a exemplo de Jean Flori e de Régine Le Jan, para polemizar contra o romanismo integral de Karl Ferdinand Werner, que para defender seu ponto de vista chega a deslegitimar Gregório de Tours [escritor galo-romano do século VI], dizendo que sua obra não é uma fonte fiável!
É muito importante para a história ulterior da cavalaria o fato de que os termos miles e militia sejam traduzidos e compreendidos, na maior parte de suas ocorrências entre Carlos Magno e meados do século XI, como vassalo e vassalidade, e não como soldado e milícia. Sonho fundar uma associação para a defesa da vassalidade e da cavalaria em história medieval. Você me concederia a honra e o favor de sua participação?
JU – De bom grado! Depois de atribuir à cavalaria uma origem muito antiga, seu estudo se interrompe no século XII. Algo da cavalaria persiste para além deste século?

Barthélemy – De fato, meu ensaio tem por objeto apenas a gênese da cavalaria clássica, para a qual o lugar e o momento de referência são a França do norte, com a Lorena, entre 1130 e 1180, onde ela é abraçada por príncipes. As práticas cavaleirescas sobrevivem muito vigorosamente nos séculos XIII e XIV e vigorosamente até os séculos XV e XVI. Mas essa longa vida da cavalaria clássica já teve excelentes historiadores, especialmente Maurice Keen. Não retiro de meu horizonte, no entanto, acrescentar a meu ensaio de 2007 um segundo volume consagrado apenas à cavalaria clássica. Nesse caso eu trataria, em particular, da maneira como a Igreja e os Estados monárquicos engendraram, desde o século XIII, esforços de cooptação da cavalaria.
JU – O senhor fala em cavalaria dentro do território que corresponde, aproximadamente, à França atual. Há cavalaria em outras partes da Europa cristã ou o que temos nestas regiões deriva da adoção de fantasias literárias provenientes das cortes de língua “francesa”? 

Barthélemy – Seria preciso também neste segundo volume observar a adoção e adaptação dos ideais e práticas dessa cavalaria a quase todo o ocidente cristão. Trata-se de um aspecto daquilo que Robert Bartlett chama com humor e pertinência, de “europeização da Europa”! Mas para voltar à alta Idade Média e ao ensaio A cavalaria, aparecido na França em 2007, é certo que eu poderia ter-lhe dado uma orientação mais europeia se tivesse, por exemplo, nele introduzido páginas da História dos Lombardos de Paulo Diácono [monge beneditino, membro da corte de Carlos Magno que viveu no século VIII]. Mas, de toda forma, os elementos que integram o perfil da cavalaria clássica se encontram no império de Carlos Magno, ou seja, no império dos francos, da aristocracia franca.
Dessa maneira, a honra e o livre-arbítrio são amplamente preservados face ao governo carolíngio. E, sendo dado que é dos códigos e limites da guerra intrasocietária e não da guerra nas fronteiras culturais e sociais (face aos pagãos, aos muçulmanos, aos cristãos celtas) que pode surgir a cavalaria clássica, isso se dá na França capetíngia e principesca no século XI. Com efeito, este é o reino mais central no ocidente, o mais marcado pelas guerras civis e suas civilidades e, por outro lado, um dos mais ricos em aveia e um dos melhores herdeiros da civilização carolíngia.
JU – Seu estudo sobre a cavalaria tem um domínio contíguo do qual o senhor se ocupou em outra obra, os poderes locais. Este me parece um tema da maior importância, sempre latente nos estudos medievais, mas pouco desenvolvido devido às dificuldades de documentação. O que sabemos de fundamental hoje sobre os poderes locais na “França” medieval? De que maneira a cavalaria está aí implicada?

Barthélemy – Sim, os poderes são bastante locais: depois do final do século IX, a França erige castelos em que estão assentados senhores e vassalos, “barões” e “vavassalos de castelos”. No entanto, parece-me que exageraram sua autarquia e autonomia. Na verdade, há verdadeiras redes de castelos, entre as mãos dos príncipes regionais, grandes barões e de alguns prelados ou mantenedores de seu feudo. E em sua recomposição dos principados pós-carolíngios, portanto vassálicos, em minha opinião, é preciso seguir, com alguns reparos, a obra de Karl Ferdinand Werner.
Provavelmente é na casa dos grandes condes – e do próprio rei – que se difunde o ritual de adubamento e é seguramente nas guerras de príncipes que surge o torneio cavaleiresco, pois nelas se encontram adversários que são próximos o bastante para se compreenderem, se estimar mutuamente (e desprezarem juntos a canalha), e que são próximos o bastante para alimentar, entre si, ódios mortais ou querelas de herança. Assim, os torneios dão lugar a um espetáculo e também a um – relativo – fair play!
JU – Uma corrente de estudos sobre a cavalaria advoga que esta surge de uma classe social nova, em ascensão por volta do ano mil, que se consolida por volta do século XII por meio do apoio ideológico recebido da Igreja, que lhe confere legitimidade na medida em que aponta os cavaleiros como praticantes e defensores de ideais cristãos. O resultado mais evidente desse processo teriam sido as cruzadas. Como o senhor vê essas teses a respeito da cavalaria? Que lugar o senhor atribui à Igreja na história da cavalaria?
Barthélemy – Essa questão tem dois aspectos. Primeiramente, você evoca a teoria da ascensão de uma classe nova no século XI. Contra os teóricos da mutação do ano mil, à frente dos quais se encontra Georges Duby, “rompi lanças” na década de 1990, em um “torneio” mais cortês que destrutivo, mas de qualquer forma, o fiz com firmeza, pois, em minha opinião, essa tese é um erro completo. Ela me parece mesmo devastadora, pois, com essa ideia de uma classe ascendente carente de legitimação por volta de 1100, perdemos de vista a emergência de uma classe burguesa urbana, rival dos cavaleiros, face à qual eles se sobrevalorizam elaborando a cavalaria clássica com o apoio real – embora limitado e ambivalente – de seus príncipes.
No que diz respeito à Igreja, penso que ela não participa de nada concernente à mutação cavaleiresca [aquela que dá origem à “cavalaria clássica”] propriamente dita. Ela desaprova os combates frívolos dos torneios – sempre perigosos, a despeito do desejo de não se matarem entre si das pessoas de “boa extirpe” – e ela não toma parte nos adubamentos antes do final do século XII. A ideia e a prática da cruzada, que é uma guerra séria e autoqualificada de justa, assassina e sacrificial, estão em verdadeira antítese com o torneio e portanto com a cavalaria tal como a definimos – e tal como a amamos um pouco –, Maurice Keen e eu. É verdade, no entanto, que uma vez que desenvolveu a cruzada no mesmo momento em que viceja o torneio, a Igreja pode contribuir para a manutenção da presença da aristocracia: é uma outra sobrevalorização, concorrente e, logo, complementar da sobrevalorização propriamente cavaleiresca.
JU – Um certo discurso difundido por vários meios procura estabelecer a história como testemunho de uma longa inamistosidade entre cristãos e muçulmanos. Embora a historiografia comprove amplamente que essa visão é equivocada, ela é forte. Do ponto de vista das relações conflituosas entre cristãos e muçulmanos, a Idade Média pode nos ensinar algo?

Barthélemy – A guerra santa cristã e a dos muçulmanos se parecem como irmãs, com a diferença de que nesta última os religiosos não enquadram o jihad tão estreitamente como acontece com a cruzada. Acontece que, no enfrentamento, os inimigos se compreendem. Um autor árabe faz o elogio dos mamelucos chamando-os de “Templários do Islã” – mas, em princípio, os Templários não são cavaleiros cavaleirescos mas, sobretudo, soldados e milicianos, termos nos séculos XII e XIII que cabem a eles mais do que a quaisquer outros.
Dos dois lados, não é raro que, a despeito dos princípios, se misture um vivo desejo de glória e de lucro. Acontece por outro lado que na Síria e na Palestina, entre 1100 e 1140, as relações entre os senhores francos e os senhores árabes ou turcos sejam coloridas por negociações, resgates, enfrentamentos lúdicos. Elas lembram mais a guerra feudal do que a guerra santa, e pode-se ter a impressão ao ler Usama ibn Munqidh, de um encontro e de uma conivência entre as duas cavalarias. Isso se mantém, no entanto, uma tendência limitada e passageira, sobre o fundo da guerra intersocietária, bem mais dura que as guerras feudais.
A conivência com os adversários muçulmanos é, em compensação, muito presente – ao lado do ódio pelo outro – no imaginário cristão. Em muitas canções de gesta, o adversário sarraceno é admirado, admirativo, com ele se compactua, mais, ou menos. Veja também tudo o que se escreveu de positivo a respeito de Saladino na Europa do século XIII sem que se encontre algo de comparável no imaginário arabe-muçulmano.
JU – Seu livro começa com uma breve referência às cruzadas que, ao lado dos torneios, concentram as atenções daqueles que pensam em qualificar as ações guerreiras propriamente cavaleirescas, como marcadas pelos ideais da cortesia e da abnegação. As cruzadas são um fenômeno para o qual as explicações ainda me parecem largamente insatisfatórias. O estudo da cavalaria de alguma maneira o ajudou a ter uma visão particular a seu respeito?
Barthélemy – A época das cruzadas corresponde àquela dos torneios, àquela em que a Igreja reprova e interdita formalmente estes últimos – tratando por meio de indulgências o caso dos cavaleiros mortos em torneio. Inicialmente opostas, essas duas práticas acabam por funcionar para a cristandade do século XII e do século XIII, como nossos músculos antagonistas. O torneio treina os cavaleiros para, entre outras guerras, a cruzada. E, mais do que isso, ele os coloca em pecado, ou seja, na necessidade de terem de se resgatar participando das cruzadas.
A ideia de cruzada contra os “infiéis” de fora (muçulmanos) e também de dentro (hereges) contribui muito para essa inflexão do ideal cavaleiresco ainda mais na direção do recrutamento ao serviço da Igreja e das monarquias nacionais, da qual eu falava há pouco.
JU – O cerne de seu estudo a respeito da cavalaria é devedor à antropologia, mas também a um procedimento metodológico típico dos estudos históricos, que é a forte crítica documental. É sempre por meio dela que o senhor estabelece o diálogo com as teses de seus colegas do presente e do passado o que dá uma grande força argumentativa a seu texto. O senhor consegue fazer um balanço do futuro da história? Acredita que ela se manterá uma área de produção do conhecimento autônomo? Continuará fortemente interdisciplinar? 

Barthélemy – Não sei se a história vai manter sua autonomia em relação às ciências sociais, mas eu gostaria! Seria melhor que a antropologia, ou a linguística, ou outras ciências, permanecessem para a história, disciplinas auxiliares. A “problemática” é estimulante, ela protege contra muita ingenuidade e contrassenso, mas é preciso que ela não eclipse todo o resto, que venha a dissuadir os historiadores de observarem bem os textos (ou outras fontes), seus detalhes, suas dificuldades e de buscar neles o novo, o inatingido, tudo o que surge nos documentos cada vez que estes são lidos sob a injunção dos interesses de cada novo momento social, sob a pressão daquilo que lhe é importante e que constitui um novo valor.
A história é feita para que nos desprendamos de nós mesmos nos confrontando com a alteridade do passado, a seu desafio e não para nos confortar. Ela é feita também para nos ensinar a complexidade das sociedades e a dificuldade de seu estudo. Ela é feita, enfim, para nos lembrar do trágico, ou o sabor do destino humano. Gostaria muito que meu livro sobre a cavalaria tivesse contribuído para isso. Será que consegui?
A CavalariaDa Germânia antiga à
França do século XII
Autor: Dominique Barthélemy

Tradução: 
Néri de Barros Almeida e Carolina Gual

Páginas: 
624 páginas

Área de interesse:
 História
Sinopse: O que foi historicamente a Cavalaria? Seus registros na documentação medieval não estão limitados às narrativas ficcionais, e é legítimo perguntarmos que ligação a literatura cortês, que nos fascina com Lancelote, Ivan e Tristão, tem com a Cavalaria tal como nos surge a partir de um quadro documental mais vasto. Em nossa memória, entram em acordo e, por vezes, se diluem em dado comum os conceitos de Cavalaria e cortesia. No entanto, ambos merecem tratamento histórico diferenciado. O que, portanto, define a Cavalaria? Dominique Barthélemy discute essas questões com profundidade e convence-nos do quanto nossa imaginação da Cavalaria é quixotesca e quão mais antiga e complexa é sua realidade documental. (Néri de Barros Almeida)

Néri de Barros Almeida - é professora de História Medieval da Unicamp e coordenadora associada do Laboratório de Estudos Medievais (Leme), que reúne professores e pesquisadores da área atuantes na Unicamp, USP, Unifesp, UFMG e UFG

Jornal Unicamp

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Notícias História Viva

Armadura medieval exigia alto desempenho físico dos soldados

Roupa de até 50 quilos e limitação para respirar demandava mais que o dobro de energia necessária para se locomover.

Foto: Universidade de Leeds
Exame de esforço: para ser soldado medieval exigia físico de atleta



Pesquisadores europeus e da Nova Zelândia analisaram a dificuldade que era guerrear usando armaduras do século 15 e constataram que a vida de um soldado medieval era ainda pior do que contam os livros de história. Exames de esforço em uma esteira feitos por voluntários mostraram que o uso da armadura medieval, um traje feito de aço que pesava entre 30 e 50 kg, exigiu mais que o dobro de energia para a locomoção que roupas normais.

Além do peso, outro problema está na dificuldade para respirar. De acordo com Alberto Minetti, da Universidade de Milão e um dos autores do estudo, a respiração era afetada por duas coisas. A primeira é que a ventilação era mais alta que o normal por causa da adição de carga. “Eles precisavam de mais energia”, disse ao iG. Outro problema estava na restrição da expansão do tórax para respirar. Espremido pelas placas de metal, os soldados eram obrigados a aumentar a frequência respiratória.

“Nós descobrimos que carregar este tipo de peso espalhado pelo corpo requer mais energia que carregar o mesmo peso concentrado em uma mochila” disse Graham Askem, da Universidade de Leeds e um dos autores do estudo publicado nesta quarta-feira (20) no periódico científico Proceedings of the Royal Society B. Ele explica que ao vestir a armadura, pernas e braços eram carregados com o peso, exigindo mais esforço para movimentá-los.

Vale lembrar que nem todos os soldados usavam as armaduras completas. “O arqueiro inglês era levemente protegido e soldados menos nobres também deviam ter armaduras incompletas”, disse Askem ao iG.

A limitação provocada pelas armaduras explica a juventude dos exércitos medievais, devido à necessidade de um alto desempenho físico. “Certamente estes soldados estavam em forma. Caminhar pelos campos de batalha era pesado. Os músculos eram importantes, mas a capacidade aeróbica deles tinha que ser muito alta”, disse Minetti. Ele concorda com a opção do cinema de sempre retratar cavalheiros atléticos e jovens vestindo armaduras.
http://ultimosegundo.ig.com.br

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Para acabar com o mito da 'Idade das Trevas'


Para acabar com o mito da 'Idade das Trevas'
Efervescência cultural medieval fincou alicerces da ciência moderna, mostra livro

Bernardo Esteves

Se você considera os dez séculos da Idade Média um período de estagnação do conhecimento, a leitura do primeiro volume da coleção Breve história da ciência moderna deve lhe surpreender. O livro aponta justamente os avanços das ciências nesse momento histórico e mostra como eles foram cruciais para a revolução científica dos séculos seguintes.

Para entender como os alicerces da ciência moderna se fincaram na Idade Média, no entanto, é preciso voltar alguns séculos no tempo e entender a filosofia natural estabelecida na Grécia antiga por pensadores como Platão e Aristóteles. Por isso, o livro dedica um capítulo ao pensamento grego e mostra como ele inaugura a reflexão sobre temas que seriam o objeto da ciência moderna.

O saber grego chegou à Europa medieval trazido pelos árabes, que constituíram nos séculos 7 e 8 um império que abrangia o norte da África, a Península Ibérica e toda a região do Oriente Médio até a fronteira com China e Índia. Esse império foi o palco de uma intensa efervescência intelectual: estavam localizadas ali a cidade de Alexandria, centro de conhecimento do Egito antigo, a Síria e a Pérsia, que tinham centros de investigação importantes em campos como astronomia ou medicina, e a capital Bagdá, um grande pólo cultural.

O livro mostra como os árabes foram muito mais que simples mediadores do conhecimento helênico, como se apontou durante muito tempo. Além de comentar e expandir os textos que traduziram, eles contribuíram com estudos originais em campos como álgebra ou astronomia, além de terem levado à Europa inovações técnicas na engenharia e novos campos do conhecimento, como a alquimia.

A obra ajuda a desmontar ainda o mito da 'Idade das Trevas' ao mostrar que esse período conheceu avanços técnicos consideráveis em campos como a produção de relógios, a engenharia das catedrais ou a compreensão do movimento. "Esse longo período da história produziu uma grande diversidade de visões de natureza que se confrontaram em múltiplas discussões e embates", afirma o livro.

Os autores -- Marco Braga, Andreia Guerra e José Claudio Reis -- são todos físicos com formação em história e filosofia da ciência e membros do Grupo Teknê, projeto educacional que tem entre seus objetivos a reflexão sobre o fazer científico e a divulgação desse conhecimento.

Convergência de saberes é apenas o primeiro volume de uma coleção que pretende, em cinco livros, abordar a evolução da ciência até os dias de hoje. Os próximos volumes estão em fase de preparação pelos autores: o segundo deve contemplar a consolidação da ciência moderna (séculos 15 a 17), e os demais vão tratar respectivamente dos séculos 18, 19 e 20.

O primeiro livro foi escrito em linguagem ágil e instigante. Conciso e ilustrado, ele deve agradar ao público leigo jovem interessado por história da ciência. E quem quiser ir além das cerca de cem páginas do livro leva, de brinde, uma bibliografia comentada para maior aprofundamento e dicas de livros de ficção, filmes e quadros que dialogam com os temas apresentados.

Breve história da ciência moderna
Volume 1: Convergência de saberes (Idade Média)
Marco Braga, Andreia Guerra e José Claudio Reis
Rio de Janeiro, 2003, Jorge Zahar Editor
101 páginas


Revista Ciência Hoje

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Notícias História Viva

Estudo desmistifica imagem estereotipada da violência do homem medieval
Jornal de Arqueologia

Os Cavaleiros medievais são frequentemente retratados como homens sanguinários, que gostavam de matar. Mas esta imagem estereotipada poderá ser uma concepção absolutamente errada, como pretende mostrar um estudo realizado pelo investigador dinamarquês Heebøll-Holm do Instituto SAXO da Universidade de Copenhaga.

Os cavaleiros não matavam durante a Idade Média apenas porque lhes apetecia, mas porque eram obrigados ou porque era esse muitas vezes esse o seu trabalho, exactamente como se passa actualmente com os soldados de hoje. O homem não foi nem mais, nem menos, violento na Idade Média do que o é hoje, apesar da existência de uma concepção medieval de violência diferente da que temos actualmente.

A "Psicologia militar moderna permite-nos ler os textos medievais de uma nova maneira, dando-nos pistas para interpretar a violência durante a Idade Média na população em geral, e o uso extremo de violência letal por parte dos cavaleiros medievais", diz Thomas Heebøll-Holm que pesquisa temas relacionados com a violência no final da Idade Média.

"Antigamente, os textos medievais eram lidos vendo nos antigos cavaleiros autênticos heróis que adoravam e glorificando a violência. Mas, à luz da psicologia militar moderna, podemos perceber o custo mental que seria para os cavaleiros a sua participação nas guerras terríveis e extremamente violentas que se realizavam na Idade Média.

Violento por natureza ou violento devido à cultura?
Seriam os cavaleiros violentos por natureza, desfrutando e cultivando com gosto o acto de matar? Ou matavam por algo que lhes foi incutido como sendo o mal apontado por uma sociedade marcada por uma cultura de violência?

Alguns psicólogos acreditam que a violência está latente nos genes humanos, enquanto outros acreditam que é algo que aprendemos através da formação. A pesquisa histórica de Heebøll-Holm enquadra a percepção medieval da violência através destas duas categorias de análise.

"A partir de estatísticas criminais e cartas de perdão, os historiadores podem ver que as pessoas na Idade Média não eram mais violentas do que somos hoje", diz o investigador."Mas elas tinham uma percepção diferente do uso da violência, incluindo a violência letal ", sublinha.

Naquela época, as pessoas tinham as mesmas preocupações sobre a violência que temos hoje, e muitos opuseram-se ao uso da violência. Em algumas situações culturais é que foram forçados a usar essa violência.

O investigador relata uma história de Paris passada no século XIV para exemplificar o conceito cultural da violência medieval. Uma mulher foi espancada até à morte pelo seu marido. Os seus dois irmãos exigiram que o marido e agressor pagasse ou fosse punido pelos seus actos, mas ele recusou.

Embora os irmãos não sentissem qualquer prazer em matar o cunhado, e até tentaram evitar tal acto, eles foram forçados a fazê-lo para restabelecer a sua honra. Quando julgados pelas instâncias legais da época , em vez de punição os irmãos obtiveram absolvição, porque, como era publicamente sabido, o marido havia violado a honra deles ao matar a sua irmã.

No que diz respeito à classe dos guerreiros o que se verificava era que os nobres cavaleiros começavam as suas carreiras bastante jovens durante o período medieval. Desde muito tenra idade eram treinados em batalhas e instigados a participarem em jogos extremamente violentos, onde numerosos participantes morriam.

Para evitar que os jovens se transformassem em psicopatas incontroláveis, eles também foram ensinados a usar a violência apenas quando ela servia para limpar a sua honra, ou num conceito mais actual, a usá-la em prol de uma justa causa.

Mas esses mesmos cavaleiros medievais também aprenderam a ter comportamentos corteses e galantes, nomeadamente com as mulheres. “No fundo a violência era apenas um instrumento que permitia assegurar a honra dos indivíduos, ou não permitir o abuso de terceiros. Isso significava que as pessoas comuns tinham muitas vezes que matar para mostrar ao mundo que as rodeava que estavam dispostas a garantir os seus direitos, nem que para tal tivessem que utilizar os meios mais drásticos", diz Heebøll-Holm.

Cavaleiros medievais sofriam de stress pós-traumático
Apesar de terem exercido a violência na sua forma mais extrema, como a participação em guerras, onde os seus companheiros foram cortados em pedaços pelas tropas do inimigo e onde eles mesmos usavam de uma violência brutal e horrível contra o inimigo, os cavaleiros medievais não eram violentos por natureza. As suas experiências de guerra poderiam deixá-los numa situação muito grave de stress pós- traumático, tal como acontece hoje, diz o investigador.

Durante os seus estudos sobre a violência na Idade Média, Heebøll-Holm deparou-se com um livro escrito por um cavaleiro que viveu na primeira metade do século XIV. " O seu nome era Geoffroi de Charny, e foi um dos cavaleiros mais respeitados na sua época. O livro, que descreve a vida de um cavaleiro, fala sobre as consequências psicológicas de se ser um "militar" na época medieval, e essas consequências assemelham-se fortemente aos sintomas de stress pós - traumático sentidos pelas tropas que fazem as guerras na actualidade".

"De Charny descreve os factores de stress dos cavaleiros medievais, e quando comparados com os descritos pela moderna ciência da psicologia militar, verifica-se que esses factores ou causas do stress pós - traumático são muito semelhantes aos dos veteranos da Guerra do Vietname, por exemplo. Este facto mostra que eles estão muito distantes da psicopatia violenta que a maior parte das pessoas atribui aos guerreiros medievais ", disse Heebøll-Holm.

Fontes: videnskab.dk e ScienceNordic

domingo, 13 de novembro de 2011

Peste negra veio da Ásia há 2.600 anos

A doença, que matou milhões de europeus, chegou pela Rota da Seda



Imagem de uma cultura com organismos bacterianos causadores da peste bubônica (Getty Images)


Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas

A peste bubônica, que matou milhões de pessoas na Europa, se propagou pelo mundo há mais de 2.000 anos a partir da Ásia. A descoberta acaba de ser feita por uma equipe internacional, que fez a reconstituição das sucessivas ondas epidêmicas através da História. Todos os dados foram recolhidos a partir de variedades de bactérias e de uma coleção única de outras 300 variedades. Foram elas que permitiram aos cientistas reconstituir a origem geográfica da doença, sua idade e a dispersão em várias epidemias. O estudo foi publicado no site da Nature Genetics.

Letal quando não tratada, a peste tem como agente infeccioso uma bactéria, a Yersinia pestit, cujo reservatório natural são essencialmente os roedores. A transmissão acontece por meio de picadas de pulgas. Segundo o Museu Nacional de História Natural/CNRS da França (MNHN), co-signatário do artigo (Thierry Wirth e Raphaël Leblois), os resultados apontam para o início da doença na China, há 2.600 anos.

Foi a partir desta região que a peste se dirigiu para a Europa ocidental. Para chegar até os países do velho continente, a bactéria usou um caminho conhecido e bastante utilizado à época: a Rota da Seda (iniciada há mais de 600 anos). Em seguida, migrou para a África, importada pelo navegador Zheng He no século 15, e, mais tarde, acabou se dirigindo para a América do Norte e Madagascar, no fim do século 19.

Pesquisa - Os dados moleculares permitiram reconstituir com uma precisão surpreendente a chegada da peste aos Estados Unidos via China e Havaí e sua propagação a partir dos portos de São Francisco e Los Angeles para o interior do território americano. Os trabalhos demonstraram sobretudo que o conjunto das sucessivas ondas epidêmicas partiu da Ásia Central e da China.

Entre 1347 e 1351, a peste negra, que se expandiu através da Ásia, Europa e África, pode ter reduzido a população mundial de 450 a 350 milhões de pessoas, segundo o University College Cork (Irlanda). Alemanha, China, Grã-Bretanha, Madagascar e Estados Unidos também participaram das pesquisas.
(Com agência France-Presse)
Revista Veja

sábado, 6 de agosto de 2011

Por outra noção de renascimento


Lorenzo Mammì
O Outono da Idade Média é um livro de escrita tão fluente e evocativa, que é fácil esquecer sua pregnância polêmica. Em parte, a responsabilidade é do próprio Huizinga. Formado em filologia indo-europeia, pertencente a uma geração moldada pelas poéticas simbolistas, chegou à história medieval por vias transversas, mais por gosto e oportunidade do que por formação sistemática. Um tom intuitivo e rapsódico permeia o livro. Não obstante, ou talvez justamente por isso, a obra prima de Huizinga é um texto de referência fundamental, não apenas para entender o período que aborda, mas também como testemunha do clima cultural em que foi escrita.

Saiu em 1919, intervindo numa questão candente da historiografia da época: a noção de Renascimento. A esse respeito, Jacob Burckhardt (A Cultura do Renascimento na Itália, 1860) estabelecera um paradigma que começava a ser questionado: para ele, a sociedade italiana dos séculos 14 e 15 produzira os primeiros "homens modernos", caracterizado por individualismo, relação desencantada com a natureza, independência em relação à religião, sentido da história, etc. Parecia uma descrição sólida. Mas, ao descer nos detalhes, embaçava. Todos os traços que Burckhardt indicara como típicos do homem renascentista podiam ser encontrados também em épocas anteriores. Outros aspectos marcantes, como a superstição e o gosto por complicadas alegorias, pareciam traços ainda medievais. O Renascimento seria realmente um fenômeno italiano? Como situar a extraordinária floração artística franco-flamenga, que é do mesmo período?

O ponto de partida da obra de Huizinga é justamente essa última interrogação. No ensaio incluído na edição brasileira, Anton van der Lam liga a origem do livro a uma grande exposição de primitivos flamengos, organizada em Bruges em 1902. É por volta dessa data que se começa a discutir a existência de um Renascimento nórdico, autônomo e concorrente em relação ao italiano. Huizinga escolhe o caminho oposto, mais ousado. A questão não seria incluir a cultura franco-flamenga na Renascença, mas mostrar como a Renascença permanecia, no fundo, medieval.

A primeira vista, sua posição não é conflitante, e sim complementar à de Burckhardt. O suíço foca sua atenção nas cidades-estados italianas; Huizinga escolhe o Ducado de Borgonha, última floração do feudalismo. Burckhardt acompanha a ascensão de uma nova classe dirigente que é fundamentalmente burguesa, mesmo quando se ornamenta de títulos nobiliários; Huizinga descreve uma aristocracia feudal se fechando paulatinamente em rituais e princípios que perderam sua função originária, e sobrevivem apenas como "jogos" magníficos. O conceito central de Burckhardt é "humanismo"; de Huizinga, "cortesia". Mas a separação não é tão fácil. Visto pela perspectiva de Huizinga, até o humanismo se torna um jogo cortês. O próprio conceito de "estado como obra de arte", central em Burckhardt, adquire outra coloração em Huizinga. Para o primeiro, era vontade de reconstruir a sociedade inteira, esquecendo o passado recente; em Huizinga passa a indicar uma estetização da vida, que encobrisse, sem modificá-la, a feiura do real. E nesse sentido, é claro, encontra-se também na cavalaria medieval.

A discussão teve outros protagonistas e reviravoltas. Pode-se dizer que se encerrou, ou ao menos foi colocada em novo patamar, apenas em 1957, com a publicação de Renascimento e Renascimentos na Arte Ocidental, de Erwin Panofsky. Mas há outro aspecto do livro de Huizinga que destaca sua relevância histórica e sua atualidade: a valorização dos períodos de decadência como momentos em que as convenções culturais, se descolando de sua funcionalidade sócio-econômica, adquirem a forma de um jogo, válido apenas pelas regras arbitrárias que os participantes compartilham. É nesses momentos que os traços característicos de uma cultura mostrariam com mais clareza seu funcionamento. O gesto de Carlos o Temerário, último duque de Borgonha, que encontrou a morte numa guerra contra os Suíços que nada acrescentaria à riqueza de seu reino, era incompreensível para os italianos da época, dizia Burckhardt. Mas é justamente o ponto de vista de Carlos que Huizinga descreve.

Evidentemente, na base desse interesse está uma crise de confiança na racionalidade da história. Atrás do outono da Idade Média, entrevê-se o outono da belle époque. O próprio Huizinga, aliás, se encarregou de estabelecer a ligação (mesmo fingindo que não), numa conferência proferida em plena Guerra Mundial, sobre a importância de modelos semi-míticos nas decisões políticas. Não possui a potência sintética de Burckhardt, nem a precisão cirúrgica de Panofsky. É um historiador-esteta, de extraordinária sensibilidade. Mas toda a historiografia posterior, da arte e da cultura, lhe deve algo. Não é possível ler O outono da Idade Média sem reconhecer, por exemplo, na divisão dos temas e na própria estrutura do texto, uma antevisão do que será, mais tarde, a história das mentalidades da escola dos Annales.

LORENZO MAMMÌ É PROFESSOR DE FILOSOFIA NA USP E CRÍTICO DE ARTE E DE MÚSICA

Jornal O Estadão

sexta-feira, 29 de julho de 2011

A vida num Mosteiro Medieval


Manuscrito do século XI do Mosteiro de Monte Cassino ilustrado com cenas da vida e da época de S. Bento. Da esquerda para a direita e de cima para baixo, as ilustrações representam:

S. Bento escrevendo a sua regra para os monges da sua ordem;

S. Bento nos seus últimos momentos da sua vida;

O funeral de S. Bento e a visão que dois monges, muito distantes um do outro, tiveram do caminho que conduziria ao céu o fundador da sua ordem;

A louca milagrosamente curada depois de dormir na gruta que S. Bento ocupara como eremita,

S. Gregório depois de terminar a sua obra, Vida de S. Bento, de que estas ilustrações fazem parte.


"Não era amena, mas tinha
as suas compensações"


Nos mosteiros beneditinos de toda a Europa medieval, os monges eram arrancados ao minguado conforto dos seus colchões de palha e ásperos cobertores pelos sineiros, que os despertavam às 2 horas da madrugada. Momentos depois, dirigiam-se apressadamente, ao longo dos frios corredores de pedra, para o primeiro dos seis serviços diários na enorme igreja (havia uma em cada mosteiro), cujo altar, esplendoroso na sua ornamentação de ouro e prata, resplandecia à luz de centenas de velas. Esperava-os um dia igual a todos os outros, com uma rotina invariável de quatro horas de serviços religiosos, outras quatro de meditação individual e seis de trabalhos braçais nos campos ou nas oficinas. As horas de oração e de trabalho eram entremeadas com períodos de meditação; os monges deitavam-se geralmente pelas 6.30 horas da tarde. Durante o Verão era-lhes servida apenas uma refeição diária, sem carne; no Inverno, havia uma segunda refeição para os ajudar a resistir ao frio.

Era esta a vida segundo a Regra de S. Bento, estabelecida no século VI por Bento de Núrsia, o italiano fundador da Ordem dos Beneditinos, canonizado mais tarde. S. Bento prescrevia para os monges uma vida de pobreza, castidade e obediência, sob a orientação monástica de um abade, cuja palavra era lei. Luís, o Piedoso, imperador carolíngio entre 814 e 840, encorajou os monges a adoptarem a Regra de S. Bento.

E, por volta de 1000, a regra seguida praticamente em todos os mosteiros da Europa Ocidental inspirava-se na dos Beneditinos, tal como muitos dos edifícios se baseavam no "modelo" delineado para o Mosteiro de St. Gallen, na Suíça, em 820.

A Regra de S. Bento foi formulada quando este era abade de Monte Cassino (no Sul de Itália), abadia fundada em 529 e que continua a ser um dos grandes mosteiros do Mundo. Bento foi o seu primeiro abade, e foi ele quem estabeleceu o modelo de auto-suficiência advogado pelas primitivas regras monásticas — dependência total dos próprios campos e oficinas — que orientou durante séculos os mosteiros da cristandade ocidental.

Em todos os antigos mosteiros beneditinos, a vida era totalmente comunitária. A rotina diária centrava-se naquilo a que S. Bento chamava "trabalho de Deus" — demorados ofícios de complexidade crescente. Tudo o resto era secundário. O trabalho manual que a regra estipulava existia não só para fornecer aos frades alimentação e vestuário e satisfazer-lhes outras necessidades, como também para evitar a sua ociosidade e lhes alimentar a alma mediante a disciplina do corpo. Posteriormente, quando as abadias enriqueceram, sobretudo através de doações de fiéis devotos, os dormitórios comunitários foram substituídos por celas individuais; e foram contratados trabalhadores para cuidarem dos campos, o que permitiu a muitos monges dedicarem-se a outras actividades, nomeadamente o estudo, graças ao qual a Ordem de S. Bento viria a ser tão justamente célebre.

Nos seus jardins murados, os monges cultivavam ervas medicinais; num dado momento— ninguém sabe quando —, ocorreu-lhes a ideia de adicionar algumas ervas à aguardente, inventando assim o licor beneditino. Pode parecer estranha esta associação da vida monástica com o luxo das bebidas alcoólicas, mas o vinho foi sempre uma bebida permitida aos Beneditinos. Ligava bem com as suas refeições simples, constituídas essencialmente por pão, ovos, queijo e peixe. Embora a carne fosse proibida nos primeiros séculos, posteriormente algumas abadias adicionaram aos alimentos consumidos aves de capoeira e de caça, uma vez que o fundador não as mencionara expressamente entre as vitualhas proibidas. Em todas as refeições, porém, reinava o silêncio. Deste modo, a Regra de S. Bento, posto que severa sob muitos aspectos, conseguiu atingir um certo equilíbrio entre a ascese e o comprazimento.

Bento, obviamente, conhecia a natureza humana. Embora os monges fossem obrigados a levantar-se muito cedo, aconselhava-os a "encorajarem-se uns aos outros com indulgência e a atenderem às desculpas dos dorminhocos" e autorizava a sesta durante o Verão. Além disso, o primeiro salmo do dia devia ser recitado lentamente, a fim de permitir que os retardatários apanhassem os companheiros. Recomendava-se o silêncio, mas em termos de "espírito de taciturnidade", e não de completa mudez; de facto, existia uma sala especial, com uma lareira acesa no Inverno, onde os monges conversavam. Igual consideração para com os monges se verificava no fornecimento do vestuário, simples mas limpo, que incluía uma muda do hábito e da túnica interior. S. Bento não desejava imitar o ascetismo extremo das sociedades monásticas do Egipto ou da Síria. No entanto, os banhos, excepto para os doentes, eram desaconselhados como luxo exagerado. De acordo com a sua imutável rotina, os Beneditinos viviam e trabalhavam em obediência absoluta ao seu abade. Eram eles que o elegiam, mas a partir de então a sua autoridade era total e vitalícia. Era o abade quem deliberava sobre a faceta privilegiada do mosteiro — se este deveria primar pela santidade austera, pela cozinha ou pela erudição. No interior das suas paredes maciças, que nenhum cristão ousaria atacar, os mosteiros possuíam bibliotecas nas quais se conservou intacta grande parte da herança literária da Antiguidade durante os séculos em que a Europa foi assolada por invasões e guerras intestinas.

Na realidade, a segurança, tanto económica como física, que os mosteiros ofereciam às respectivas irmandades deve ter constituído um dos seus principais atractivos. Séculos após século, tanto os Beneditinos como os monges de outras ordens religiosas viveram sem temer a fome, a guerra ou o desamparo. E reconfortava-os sempre a ideia de que, no fim, tinham maiores probabilidades de salvação do que os camponeses ou os cavaleiros, que viviam apegados às coisas mundanas.

Texto retirado da Enciclopédia “Ao Encontro do Passado de Selecções" do Reader’s Digest.