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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Teoria da conspiração: o suicídio de Hitler foi forjado?


O corpo do líder nazista jamais foi encontrado. E muita gente jurou tê-lo visto perambulando pelo mundo após a 2ª Guerra Mundial
Mariana Nadai

Sugestão da TdF Letícia Duarte
Ilustra Murilo Araújo
Edição Felipe van Deursen 

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

“Sem corpo, não há crime”
Diz a história que Adolf Hitler se matou no bunker onde se escondia, em Berlim, em 1945, ao final da 2ª Guerra. Ele ingeriu uma cápsula de cianureto e, para garantir, deu um tiro na cabeça. Os nazistas queimaram o corpo, para que os restos jamais fossem encontrados. Ou seja, não dá para cravar que ele se matou

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Mortos-vivos
Outros nazistas dados como mortos “ressuscitaram” anos depois. Foi o caso de Josef Mengele, oficial da SS (a polícia do Estado nazista) e médico no campo de concentração de Auschwitz. O “anjo da morte” foi encontrado no Brasil, anos depois, vivendo como o austríaco Wolfgang Gerhard. Sua identidade foi revelada após a sua morte (verdadeira) por afogamento, em Bertioga, SP. Se Mengele estava vivão depois da guerra, por que Hitler não poderia estar?

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

No rancho fundo
A maioria das teorias que diz que Hitler não morreu durante a guerra afirma que ele cruzou o Atlântico para viver na América Latina. O próprio FBI, a polícia federal dos EUA, decidiu investigar uma possível fuga de Hitler após receber cartas de pessoas que acreditaram tê-lo visto vivo. Segundo esses relatos, ele teria saído da Alemanha em 29 de julho de 1945, viajado em um submarino e chegado são e salvo a um rancho no interior da Argentina

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)


Debaixo do nariz
Em 1946, um homem entrou no S.W. Restaurant, em Washington, EUA, para almoçar. O restaurante estava cheio, mas alguém, ocupando uma mesa de dois lugares, cedeu espaço para que ele se sentasse. Os dois não trocaram uma palavra, mas o homem, que também não teve a identidade revelada, estava certo de que o cavalheiro que lhe deu lugar era Adolf Hitler, de bigode e tudo. O relato foi publicado no New York Journal-American

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Na Colômbia
Em 1948, o jornal colombiano El Tiempo recebeu uma carta dizendo que Hitler estava no país. O autor da carta, cujo nome não foi divulgado, seria a pessoa que o ajudou a se instalar em terras colombianas. Ele teria sido contatado pelos nazistas ainda durante a guerra para criar um refúgio nazista. Além disso, o homem teria guiado a comitiva a entrar pela península de La Guajira para se acomodar em uma de suas fazendas

(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

E no Brasil?
No livro Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte, Simoni Renée Guerreiro Dias diz que Hitler se refugiu em Nossa Senhora do Livramento, cidadezinha em Mato Grosso onde ele teria morrido, na clandestinidade, em 1984. Uma foto ao lado de uma mulher negra, com quem ele seria casado, é a principal “prova” da permanência do ditador na cidade, onde ele era conhecido como Adolf Leipzig

Santa ajuda
Para escapar das tropas russas e se alojar em Mato Grosso, Hitler teria contado com uma importante ajuda: o Vaticano. A Igreja teria dado ao Führer um mapa para encontrar um tesouro jesuíta enterrado próximo a Nossa Senhora do Livramento. Para conseguir chegar ao Brasil sem ser descoberto, Hitler teria passado antes por Argentina, Paraguai e Rio Grande do Sul


(Murilo Araújo/Mundo Estranho)

Por outro lado…
Mesmo sem corpo, tudo indica que Hitler morreu, sim, em 1945
De fato, nazistas dados como mortos fugiram para a América. Além de Mengele, Adolf Eichmann (Argentina), Herbert Kucurs (Rio de Janeiro) e Walter Rauff (Chile) foram alguns figurões encontrados no continente
Quanto a Hitler, a teoria mais aceita pelos historiadores é a de que ele de fato se matou em 30 de abril de 1945 junto de sua companheira, Eva Braun. Mesmo sem evidências físicas da morte, “o mundo precisava de um responsável por todo o mal da guerra”, diz o historiador Oldimar Cardoso
Por mais que o corpo do ditador jamais tenha sido encontrado após a guerra, havia testemunhas, como Rochus Misch, guarda-costas de Hitler. Em entrevista à revista alemã P.M History, ele diz que encontrou o cadáver do patrão no bunker, logo após o suicídio
A investigação do FBI de fato ocorreu: os documentos vieram a público em 2014. Mas nada foi encontrado sobre a suposta permanência de Hitler na Argentina, pois havia “escassa informação” a respeito
O FBI também não encontrou informações suficientes para seguir com a investigação da suposta permanência de Hitler em Washington. Mas, francamente, quem iria se esconder logo na capital de um dos países inimigos na guerra?
A tese de Hitler no Brasil é desacreditada por historiadores. A própria Simoni justifica que encontrar evidências físicas é difícil. Ela investigou o suposto túmulo do ditador em Mato Grosso, mas não encontrou material para fazer exames de DNA
O Vaticano é uma cidade-Estado soberana que, por decreto, se mantém neutro em assuntos internacionais. Segundo documentos oficiais, o papa Pio 12 se absteve de tomar partido na guerra. Mas se isso aconteceu na prática, aí é assunto para outra Teoria da Conspiração…

CONSULTORIA Oldimar Cardoso, doutor em didática da história pela USP, e Simoni Renée Guerreiro Dias, pesquisadora e autora de Hitler no Brasil – Sua Vida e Sua Morte
Revista Mundo Estranho

domingo, 14 de setembro de 2014

Cidade de Sarajevo comemora fim de "século de conflito"

Em uma esquina à margem do rio foram disparados os tiros que deflagraram a Primeira Guerra Mundial. Os moradores esperam expurgar os fantasmas de conflitos passados

ANDREW MCDOWALL
DO "OBSERVER", EM SARAJEVO


Deitando uma coroa de flores no lugar em que o arquiduque Francisco Ferdinando e sua mulher Sofia, grávida, foram assassinados, exatamente 100 anos antes, Aleksandar Simec e Alexander Schneider explicavam porque sentiam que a morte do herdeiro do trono austríaco foi uma tragédia para a Europa e para o mundo.

"Se esse trágico evento não tivesse ocorrido, a guerra e milhões de mortes poderiam ter sido evitadas. O fim do Império Austro-Húngaro criou um vácuo político no centro da Europa que foi ocupado inicialmente pelos nazistas e depois pelo comunismo soviético", afirmam.
Antonio Bronic - 28.jun.2014/Reuters 

Atores vestidos como o arquiduque Franscisco Ferdinando e a condessa Sophie Chotek em performance na Bósnia.


"Os Habsburgos [a dinastia imperial austríaca] teriam resistido", diz Schneider, ativista austríaco da Aliança Aurinegra, uma organização que defende a restauração da monarquia austríaca e de uma união centro-europeia que acompanharia os limites do império Habsburgo.

Francisco Ferdinando e Sofia foram mortos a tiros por Gavrilo Princip ao lado da Ponte Latina em Sarajevo, a capital da Bósnia, em 28 de junho de 1914, um ato que deflagrou a Primeira Guerra Mundial. Schneider se inclina para posicionar fotos do casal assassinado ao lado da coroa, e Simec –nascido na Áustria e dotado de nacionalidade iugoslava, ostentando um rabo de cavalo e um broche monarquista no paletó– explica que Francisco Ferdinando desejava criar uma terceira entidade no Império Austro-Húngaro, para os eslavos, como os sérvios, bósnios e croatas. "Ele tinha a ideia de estabelecer uma espécie de Iugoslávia como parte do Império Austro-Húngaro".

Mais cedo naquele dia, a Aliança havia percorrido o trajeto do casal real em Sarajevo, mas em lugar de se deterem no local do assassinato eles prosseguiram até o destino planejado para o percurso do arquiduque, a estação ferroviária.

"Começamos exatamente na mesma hora e viajamos exatamente na mesma velocidade", diz Simec. "Queríamos desfazer o assassinato, simbolicamente".

Ao lado da placa que marca o local do assassinato, a coroa de flores da Aliança tem a companhia de duas outras, e de três ramalhetes. Sob um retrato emoldurado do casal, uma legenda em alemão diz "o objetivo da vida deles era paz para as nações. Sua morte trouxe guerra para as nações".

A dois metros de distância, uma placa provisória e um ramalhete de flores ocupam o lugar do qual Princip disparou. Velas finas de cera de abelha, como as usadas nas igrejas ortodoxas, estão acesas. Bósnio de etnia sérvia e encarado como herói nacional na era iugoslava, o legado de Princip é controverso, hoje. A placa recorda que um memorial a Princip foi removido do local em 1992, quando a Bósnia decaiu à guerra.

Mas os memoriais estão atraindo muito menos atenção do que uma réplica do carro do casal real estacionada ao lado, onde turistas posam com um homem vestido como Francisco Ferdinando. As edificações que cercam o local ainda mostram marcas de balas de uma guerra mais recente. Entre 1992 e 1995, a Bósnia foi dilacerada por um conflito entre os bósnios muçulmanos e os bósnios de origem sérvia e croata, no qual 100 mil pessoas morreram e Sarajevo foi submetida a um cerco de 1.425 dias por forças sérvias. A cidade vem relembrando o assassinato do arquiduque na esperança de que isso "feche o ciclo" de um século de conflito. Pouco antes da meia-noite, diversas performances aconteceram na Ponte Latina. Às 11h, o horário aproximado do assassinato, turistas e jornalistas enchiam as ruas próximas à ponte e as margens do rio Miljacka, por sob as árvores que acompanham o curso do rio, cujas águas brilham ao sol do verão. Acima avulta a cadeia de montanhas da qual a artilharia sérvia bombardeava a cidade durante a guerra.

"Sarajevo é o foco: os olhos do mundo estão voltados para nós", diz Ivo Komsic, prefeito da cidade. "Nós, de Sarajevo, queremos enviar uma mensagem de nova esperança para as novas gerações, e de um melhor futuro".
Dado Ruvic - 24.jun.2014/Reuters 
O edifício Vijecnica em Sarajevo

Uma das peças centrais da celebração foi um concerto da Orquestra Filarmônica de Viena no edifício Vijecnica, a poucos metros de distância do local do assassinato, com o presidente da Áustria como um dos convidados. O notável Vijecnica, em estilo pseudomourisco e próximo à Ponte Latina, é um símbolo especialmente significativo para Sarajevo: ele abrigava a prefeitura na qual Francisco Ferdinando e Sofia participaram de uma recepção pouco antes de serem assassinados. O edifício mais tarde passou a abrigar a biblioteca da Bósnia e Herzegóvina e foi atacado pela artilharia sérvia durante o cerco, o que causou a perda de cerca de dois milhões de livros. Os moradores de Sarajevo descrevem como o ar estava repleto de pedaços de papel cobertos por elegante caligrafia árabe, que se convertiam em cinza ao cair no chão.

"O Vijecnica é muito importante para nós; é um símbolo de Sarajevo e sua mistura de estilos arquitetônicos demonstra que Sarajevo é um ponto de encontro de culturas", diz Komsic.

O edifício passou por uma restauração que durou 18 anos, mas especialistas em conservação disseram ao "Observer" que ele continua em estado precário. O edifício representa outro ponto de disputa em uma nação que ainda está dividida. Uma inscrição na parede, em inglês e no idioma local (até o nome do edifício é contestado), se refere aos "criminosos sérvios", o que o presidente e primeiro-ministro da Sérvia definem como difamação e os levou a boicotar a cerimônia em Sarajevo.

A guerra não deixou apenas cicatrizes físicas e psicológicas. A Bósnia se divide administrativamente entre a Federação, em sua maioria muçulmana e católica croata, e a República Sérvia, fortemente autônoma, cujo líder, Milorad Dodik, agita regularmente pela independência. Em 27 de junho, no distrito leste de Sarajevo, separado e governado pelos sérvios, Dodik inaugurou um parque que leva o nome de Gavrilo Princip, decorado por uma estátua do assassino.

Para muitos sérvios, Princip é um herói da independência dos eslavos do sul. E 28 de junho era um dia importante mesmo antes de 1914, porque foi a data de uma batalha travada em Kosovo em 1389 na qual, de acordo com o entendimento popular se não com o conhecimento histórico exato, uma derrota sérvia resultou em séculos de opressão pelos otomanos. É essa espécie de complexidade histórica que os encarregados de organizar eventos e exposições precisam encarar, em um ambiente altamente volátil. A Bósnia tem uma eleição geral marcada para o quarto trimestre, e a retórica nacionalista deve ganhar ainda mais força.

Uma exposição especial no Museu Histórico Nacional da Bósnia e Herzegóvina, com apoio do Museu Imperial da Guerra em Londres, foi aberta em 26 de junho, registrando a visita de Francisco Ferdinando, o assassinato e o período da guerra no país. A mostra começa com descrições de viajantes sobre Sarajevo em 1914, e mostra um bazar lotado de artesãos judeus e muçulmanos convivendo com uma cidade nova repleta de parques e de cafés em estilo vienense.

"A ideia não é que nos concentremos em um ou outro lado da história, mas que façamos de Sarajevo a principal protagonista", diz Elma Hasimbegovic, diretora do museu. "Francisco Ferdinando não é o personagem principal, e não estamos nos concentrando na história nacional. Bósnios combateram dos dois lados na Primeira Guerra Mundial, e queremos ver como as pessoas comuns foram afetadas pela guerra, e sua luta por sobreviver".

O museu foi vítima da política étnica do pós-guerra, já que não recebe verbas regulares do governo nacional, da federação, do governo cantonal ou da prefeitura. Passados 19 anos do final do conflito na Bósnia, ele e outras sete instituições nacionais continuam a viver em um limbo jurídico e financeiro –não existe Ministério da Cultura nacional, já que a cultura é alvo de disputas tão ferozes entre os políticos étnicos. Esses políticos são alvo de raiva de todas as partes em conflito, em um país no qual o desemprego é estimado em mais de 40% e o progresso quanto à integração com a União Europeia se viu bloqueado por disputas étnicas. Muita gente sonha com as certezas e a paz da Iugoslávia unida.
Dado Ruvic-27.jun.2014/Reuters 
O ator Jovan Mojsilovic reencena o assassinato de Gavrilo Princip em frente a sua estátua, inaugurada no último dia 27 em Sarajevo


"Os políticos deveriam ser todos mandados para Goli Otok!", diz Milan Bosanac, 79, sérvio da Bósnia, em referência a uma ilha árida no Mar Adriático que servia como presídio político na era comunista. "Tudo vai piorar. Quando o [ditador comunista] Tito estava vivo, tudo era ótimo, todo mundo tinha emprego. Agora centenas de milhares de pessoas estão desempregadas, e não há nada para os velhos".

A vida de Bosanac foi afetada pelo conflito desde a infância: na Segunda Guerra Mundial, sua família lutou com os partidários comunistas iugoslavos, contra os nazistas e os aliados destes. Depois que a guerra irrompeu na região em 1941, o pai dele morreu no campo de concentração de Jasenovac, operado pelos croatas, e a família fugiu para as montanhas Kozara, no nordeste da Bósnia. Um dia, ele se perdeu dos parentes na neve e foi resgatado por uma mulher que cuidou dele por meses.

Com a bengala na mão, Bosanac está sentado em seu apartamento em Grbavica, um subúrbio de Sarajevo que no passado era majoritariamente sérvio mas hoje é predominantemente muçulmano. A família viveu no bairro durante toda a guerra, se protegendo no porão quando os combates se intensificavam, e em certas ocasiões teve de provar sua nacionalidade a combatentes sérvios fanáticos. Eles deixaram a região e foram viver no sul da Bósnia e no Montenegro quando o bairro "mudou de mãos" depois da guerra, diz Stasha, sobrinha-neta de Bosanac, que voltou anos depois para ser "uma forasteira em minha própria cidade, em lugar de sermos forasteiros em terras distantes".

A filha dela, nascida quase uma década depois do final da guerra, também é afetada. No ano passado, as crianças muçulmanas da escola se recusaram a brincar com ela no período que antecedeu o primeiro recenseamento bósnio no pós-guerra, com o recrudescimento da retórica nacionalista para que as crianças, como os adultos, se identificassem como muçulmanas, sérvias ou croatas.

O lema para os eventos da semana passada era "um século de paz depois de um século de guerra". Há poucos países para os quais ele seja mais apropriado, e mesmo para alguns dos que desejam preservar o passado, o aniversário é um doloroso lembrete.

"A Ponte Latina é um símbolo da guerra, e por isso lamento por Sarajevo que a cidade seja vista como símbolo da guerra", diz Mirzah Foco, funcionário da comissão de preservação da herança cultural bósnia, durante uma conferência em Sarajevo. "Estive no exército e pode acreditar: quero esquecer tudo que me aconteceu. Acredite: foi um pesadelo".

Tradução de PAULO MIGLIACCI
Folha de S.Paulo

quarta-feira, 12 de março de 2014

O desmanche de impérios


Ucrânia e Crimeia demonstram a tendência europeia à autodescolonização

TIMOTHY, GARTON ASH, ESPECIAL - O Estado de S.Paulo

Eis outra maneira de pensar o que está ocorrendo na Ucrânia: o último capítulo da autodescolonização da Europa. Após desmantelar o império soviético, no fim do curto século 20, os europeus recuaram para dar fim ao austro-húngaro e o otomano, incluindo Estados sucessores, como Iugoslávia e Checoslováquia. Agora, é o império russo pré-soviético que está sendo desafiado. Pensem no presidente da Rússia como o czar Vladimir, o Último.

O desmanche de impérios é confuso. Impérios não são feitos de blocos de Lego: desmonte-o e terá um bloco vermelho vivo aqui, um amarelo ali. O que decide qual grupo de pessoas em qual pedaço de terra se tornará um Estado? Os compartilhamentos culturais, linguísticos, étnicos e históricos têm seguramente um papel. Também têm os legados de acordos diplomáticos internacionais há muito esquecidos - e divisões territoriais internas de um império ou Estado sucessor multiétnico.

Vontade política local e liderança são cruciais. O mais importante talvez seja a sorte histórica, a fortuna que Maquiavel chama de "o árbitro de metade das coisas que fazemos". Foi esse tipo de mistura de história, vontade, habilidade e sorte que trouxe a Kosovo sua independência ainda não reconhecida universalmente.

Formei esse pensamento sobre o desmanche de velhos impérios há alguns anos quando visitei o desmantelamento do para-Estado da Transdniéstria, na margem oriental da Moldávia, perto da Ucrânia. Em sua estranha capital retrossoviética, Tiraspol, topei com uma grande estátua equestre de um herói czarista, o marechal de campo Alexander Suvorov. A estatua celebra a fundação, pelo militar, daquela cidade no fim do século 18.

Antes, em Uzhhorod, uma cidade sobre a fronteira ocidental da Ucrânia com a Eslováquia, eu havia tropeçado no autodenominado Governo Provisório do Rus Subcarpático - ou Rutênia. O primeiro-ministro era um professor de medicina que simpaticamente me recebeu num pequeno escritório no hospital local. O chanceler viera dirigindo um carro desde sua casa na Eslováquia. O ministro da Justiça fez o chá. Eu quase os persuadi a cantar seu hino nacional, que começa com "Russanos Subcarpáticos, despertai de seu sono profundo". Ridículo! - alguns poderiam dizer. Opereta!

Ocorre que a fortuna faz girar o caleidoscópio da história e, de repente, surge um país internacionalmente reconhecido chamado, por exemplo, Moldávia ou Montenegro. Seus filhos e filhas, sucumbindo ao poder normativo do fato e enganados pelos manuais de história nacionalista, crescem considerando sua condição de Estado como coisa líquida e certa.

Subversivamente, as fronteiras de velhos impérios, então, ressurgem nos mapas eleitorais das novas democracias, como se traçadas com tinta invisível. Os domínios dos impérios austro-húngaro e alemão, no século 19, brilham em laranja, os dos impérios russo e otomano, em azul. Na Ucrânia, na Romênia, na Polônia, partidos e cores variam, mas o fenômeno é o mesmo.

Os liberais gostam de articular princípios universais para a soberania e a autodeterminação de seres humanos. Eles se metem num atoleiro quando se trata de povos. Por que os kosovares têm o direito a autodeterminação, mas os curdos, não? Se Escócia, por que não Catalunha? Se Catalunha, por que não Padânia? Padânia é o nome proposto pela Liga Norte para uma Itália do norte independente.

Não há nenhuma necessidade histórica nesses resultados, e nenhuma justiça universal, mas duas coisas deveríamos aprender de uma experiência de mais de um século de autodescolonização da Europa.

Primeiramente, quando um povo tem um Estado, tende a não querer abrir mão dele. Não é por acaso que o número de países-membros da ONU continua aumentando e não diminuindo.

Esperando nos bastidores estão os integrantes da Organização das Nações e Povos Não Representados (UNPO, na sigla em inglês). Listados entre eles estão os crimeios tártaros.

Ainda mais crucial é a segunda lição. Violência gera violência. O uso da força sempre traz consequências inesperadas. O czar Vladimir pode abocanhar de volta o domínio da Crimeia, mas suas ações reforçarão a independência da Ucrânia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É PROFESSOR DE ESTUDOS
EUROPEUS NA UNIVERSIDADE
DE OXFORD 
Jornal O Estado de S. Paulo

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Guerra dos Cem Anos - A mais longa batalha da história

Uma sucessão de conflitos com mais de um século de existência foi um dos fatores responsáveis pelo término do sistema feudal que já agonizava há muitos anos

Rose Mercatelli



Apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos, como ficou conhecida a disputa entre França e Inglaterra, as duas maiores potências europeias do século 14, durou 116 anos. Segundo os historiadores, começou em 1337 e terminou em 1453. Mas não foi uma luta ininterrupta. Na verdade, aconteceram vários confrontos entre as duas monarquias com vitórias e derrotas para ambos os lados.

De acordo com os dados históricos, o pavio para o início do conflito foi aceso quando, em 1328, o rei francês Carlos IV morreu sem deixar herdeiros. Eduardo III, então rei da Inglaterra, achou-se no direito de reivindicar para si o trono vago. Além de súdito, ele era sobrinho do rei morto, por parte de sua mãe.

Entretanto, nobres franceses também queriam o mesmo. Sob a alegação de que o trono francês só poderia ser herdado por um homem (ou por um pretendente oriundo de uma descendência masculina), a assembleia francesa acabou escolhendo o conde Filipe de Valois, que se tornou Filipe VI (1328 a 1350).

O rei Eduardo não gostou de ser preterido, justo ele que já era dono por herança das regiões da Gasconha (no sudoeste da França, faz divisa com o norte da Espanha), de sua vizinha Guiana (atual território da Aquitânia) e do condado de Ponthieu (ao norte da França). Mas o inglês não discutiu a decisão, reconhecendo Filipe VI como rei da França em 1329 em Amiens e prometendo- lhe obediência.
Ilustração representando a batalha de Azincourt que aconteceu em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França

Interesses comerciais 
Ainda havia outra zona de atrito entre os dois países. A região de Flandres, a nordeste da França, (atual Bélgica e Países Baixos) era um rico entreposto comercial. Afora seu intenso comércio, Flandres ainda era um importante centro produtor de tecidos, que comprava grande parte da lã produzida na Inglaterra. Ainda que a região fosse politicamente subordinada à França, os produtores flamengos, por interesses comerciais, posicionaram-se a favor dos ingleses, fato que desagradou a Coroa francesa.

Apesar do nome, a Guerra dos Cem Anos, como ficou conhecida a disputa entre França e Inglaterra, as duas maiores potências europeias do século 14, durou 116 anos: de 1337 até 1453

A situação piorou quando o conde de Nevers, regente de Flandres, prestou juramento de obediência ao recém-coroado Filipe VI. Com medo que a economia da região entrasse em colapso, os flamengos reagiram. O rei francês, em apoio ao Conde Nevers, interveio no território. Em represália, Eduardo III suspendeu as exportações de lãs inglesas. Sem sua principal matéria-prima, os flamengos resolveram apoiar o monarca inglês que, novamente reivindicava o trono francês, repudiando o juramento de obediência que fez em Amiens. A partir desse ato, não havia outra saída entre os dois monarcas a não ser declararem guerra um contra o outro.

Primeiro período (1337 e 1364) 
Vitórias inglesas 
A França tinha uma população quatro vezes maior do que a Inglaterra. Em compensação, a monarquia inglesa era mais forte. Em 1337, Filipe VI começou o conflito ao atacar a Guiana (que pertencia legitimamente a Eduardo III) e exercer um intenso assédio ao litoral inglês até ser derrotado em 1340.
A cavalaria francesa sofreu em Aljubarrota (1385) outra pesada derrota contra as táticas de infantaria, depois de Crécy e Poitiers

Entre 1346 e 1353, uma epidemia de peste bubônica aniquilou aproximadamente um terço da população europeia. Com os exércitos reduzidos, as batalhas tiveram de ser interrompidas

As Batalhas de Crécy (1346) e de Calais (1347) foram as mais importantes do período. Contando com o apoio financeiro dos mercadores de Flandres, os ingleses levaram a melhor nas duas batalhas, o que permitiu à Inglaterra manter o controle sobre importantes posições ao norte da França, inclusive sobre o Canal da Mancha. O avanço sobre o território inimigo só não foi maior porque os dois países estavam sendo duramente castigados por uma doença mortal.
Ilustração representando a batalha de Azincourt que aconteceu em 25 de outubro de 1415 (Dia de São Crispim), no norte da França

Entre 1346 e 1353, uma epidemia de peste bubônica (chamada de peste negra) aniquilou aproximadamente um terço da população europeia. Tantas mortes fizeram com que a produção agrícola e as atividades comerciais tivessem uma queda abrupta. Com os exércitos reduzidos, as batalhas entre os dois países tiveram de ser interrompidas por conta da situação caótica.

Batalha de Poitiers (1356) 
Quando os combates reiniciaram anos depois, Eduardo III pode contar com a inestimável ajuda militar de seu filho Eduardo, o príncipe de Gales. Em agosto de 1356, aos 26 anos, o príncipe Negro, como era conhecido pela cor de sua armadura, mostrou ser um comandante competente ao invadir a região de Aquitânia (Guiana), para preservar suas bases avançadas.

Eduardo não encontrou resistência por parte dos súditos do rei francês João II, o Bom (1350 a 1364). Os ingleses e seus aliados da Gasconha devastaram e queimaram cidades e campos, deixando o inimigo enfrentar não só a escassez de soldados como também a falta de comida.

João II, entretanto, conseguiu reunir um exército de 20 mil homens e ordenou que empurrassem as tropas inimigas em direção ao mar. Em um primeiro momento, os ingleses realmente bateram em retirada em direção ao sul. Porém, próximo à cidade de Poitiers, o Príncipe Negro conseguiu virar o jogo e capturar João II. Conta a lenda que, durante o cerco, o monarca francês tirou suas túnicas reais, anéis e colares, e se misturou à multidão. Entretanto, apesar do disfarce, foi capturado minutos depois até porque João era a única pessoa que estava de coroa no meio da confusão.

Eduardo logo exigiu um resgate de 3 milhões de coroas para libertá-lo, uma soma colossal que deveria ser paga em prestações. Cinco anos depois, João foi solto mediante o pagamento de apenas parte do seu resgate.

Exército atolado 
Na batalha de Poitiers, o rei João mostrou ser um dirigente atrapalhado, titubeante em suas decisões e pouco hábil ao comandar seus exércitos. Além disso, parte de sua derrota também pode ser creditada ao tamanho de seus exércitos, enormes e lentos, com uma grande quantidade de homens armados com bestas (ou balestras) vestindo pesadas armaduras e montando cavalos protegidos por chapas de ferro.

Todo esse arsenal atrapalhava a mobilidade de seus soldados. Como se não bastasse, durante a batalha, João levou seus cavaleiros em direção a um pântano. Com o peso todo, os cavaleiros franceses ficaram presos no atoleiro e acabaram dizimados pelas flechas inglesas.

O Príncipe Negro, pelo contrário, apostava tudo na velocidade e mobilidade de suas tropas. Sem armadura e levando o arco longo no lugar da pesada besta, um soldado inglês conseguia se mover rapidamente, o que se transformou em uma grande vantagem. Apesar de não terem os efeitos devastadores das balestras, as setas disparadas pelos arqueiros tinham um poder de fogo cinco ou seis vezes superior. O resultado foi mais uma vitória para os ingleses.


A donzela de Orleans

É provável que Joana D'Arc tenha nascido em 1412, em Dómremy, na região de Lorena, na França. Filha mais nova de um casal de camponeses pobres e analfabetos, desde cedo se revelou muito religiosa. Com 13 anos, dizia ouvir vozes de São Miguel, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida que lhe aconselhavam a rezar muito e ir para Orleans para combater os ingleses.

Aos 16 anos, acompanhada de seis cavaleiros, foi ao encontro do Delfim, atravessando o território dominado pelos partidários do conde de Borgonha, aliado da Inglaterra. Portando roupas masculinas, Joana finalmente se encontrou com Carlos VII. Desconfiado, o Delfim, a princípio, não quis atendê-la. Mas depois, convencido de seu discurso, o Delfim lhe entregou a espada, a bandeira e um exército de 4 mil homens que, comandados por ela, libertaram Orleans em 9 de maio de 1429. Joana ainda venceria mais três batalhas: Jargeau, Meung-sur-Loire e Beaugency, nos dias 16 e 17 de junho do mesmo ano.

Na primavera de 1430, Joana D'Arc, ao tentar libertar a cidade de Compiègne, foi capturada pelos aliados do conde de Borgonha. Depois de interrogada e torturada inúmeras vezes, Joana, com apenas dezenove anos, foi queimada viva em Rouen, no dia 30 de maio de 1431, acusada de heresia e bruxaria. Foi o fim da grande heroína francesa da Guerra dos Cem dias.


A paz forçada
A Batalha de Poitiers se tornou o momento mais delicado para a França durante a Guerra dos Cem Anos. Sua derrota resultou no Tratado de Brétigny, que impunha pesadas sanções ao país. Derrotada e sem rei, a França não tinha nenhum poder de negociação e acabou abrindo mão de Calais, Aquitânia e Gasconha para a Inglaterra. No total, perdeu cerca de um terço de seu território.

Em troca, Eduardo III, da Inglaterra, desistia do trono da França e os direitos às regiões da Normandia e Bretanha. No dia 24 de outubro de 1360, foi paga a primeira parcela de 600 mil coroas. O restante seria dividido em prestações a serem saldadas a cada seis meses. Como garantia, 40 nobres franceses ficaram reféns dos ingleses para serem libertados, aos poucos, a cada fatura liquidada.

Mas ficava cada vez mais difícil para o governo francês honrar sua dívida. Quase cinco anos se passaram quando João II finalmente conseguiu voltar para casa em 1364 para morrer quatro meses depois, sendo substituído por seu filho Carlos V. Apesar de sua conhecida generosidade para com os pobres, João passou à história como um rei atrapalhado na política e sem nenhuma capacidade para liderança.

Segundo período (1364-1380) 
Ordem na casa 
Carlos V se negou a pagar a conta exorbitante aos ingleses e, ao mesmo tempo, resolveu dar um jeito na própria casa. Unificou seus exércitos e graças a um notável cavaleiro francês, Bertrand Du Guesclin, organizou seus homens para combaterem em um sistema de guerrilhas. Assim, conseguiu recuperar parte de seu território perdido.

As vitórias permitiram que o rei centralizasse o poder. Dessa maneira, Carlos V, o Sábio, controlou melhor seus nobres, aumentou a arrecadação tributária e organizou o Estado, colocando homens capazes, vindos da burguesia, em altos cargos de confiança.

Em 1377, na Inglaterra, com um pequeno intervalo de meses, morreram Eduardo III e seu filho, o Príncipe Negro. O sucessor foi o neto do monarca falecido, Ricardo II, com apenas dez anos. A morte de Carlos V, em 1380, esfriou o ânimo dos franceses pela guerra.

Terceiro período (1380-1422) 
Tempos de trégua 
No fim do século 14 e nas décadas seguintes, franceses e ingleses se viram às voltas com revoluções internas que exigiam mais atenção do que a guerra entre eles. Dessa forma, começou uma fase de paz não declarada, rompida de quando em quando.

Os franceses enfrentaram problemas muito mais complexos. Em 1380, com a morte de Carlos V e com a ascensão do herdeiro Carlos VI, de doze anos, houve a cisão da nobreza francesa. Os partidários dos duques de Borgonha, considerando Carlos VI incapaz, tentaram tomar o poder várias vezes, mas perderam. Daí resolveram se aliar aos ingleses.

A Batalha de Poitiers se tornou o momento mais delicado para a França durante a Guerra dos Cem Anos. Sua derrota resultou no Tratado de Brétigny, que impunha pesadas sanções ao país

Por sua vez, Ricardo II, então com 22 anos, enfrentou graves distúrbios sociais e oposição de grande parte da nobreza. Dez anos depois, foi sucedido por Henrique IV em 1399. Anos depois, a loucura do rei Carlos VI mais a guerra civil entre os franceses animou o novo rei inglês Henrique V (1413) a reivindicar de novo o trono francês para a Inglaterra. Em 1415, o monarca desembarcou na Normandia, tomando Harfleur.
Os comandantes 
Quem reinou durante o período da Guerra dos Cem anos:

Filipe VI, o Afortunado (r. 1328-1350) * 
João II, o Bom (r. 1350-1364) * 
Carlos V, o Sábio (r. 1364-1380) * 
Carlos VI, o Louco (r. 1380-1422) * 
Carlos VII, o Delfim (r. 1422-1461) *

Eduardo III de Inglaterra (1327-1377) *
 Ricardo II de Inglaterra (1377-1399)* 
Henrique IV de Inglaterra (1399-1413) * 
Henrique V de Inglaterra (1413-1422) * 
Henrique VI de Inglaterra (1422-1461)*
*Datas de início e fim do reinado

Carlos V unificou seus exércitos e graças a um notável cavaleiro francês, Bertrand Du Guesclin, organizou seus homens em um sistema de guerrilhas: conseguiu recuperar parte de seu território perdido

Batalha de Azincourt 
"Aquele que sobreviver esse dia e chegar à velhice, a cada ano, na véspera desta festa, convidará os amigos e lhes dirá: 'Amanhã é São Crispim.' E então, arregaçando as mangas, ao mostrar-lhes as cicatrizes, dirá: 'Recebi estas feridas no dia de São Crispim.'" (A Vida do Rei Henrique V, ato IV, cena III - Shakespeare)

No dia de São Crispim, a 25 de outubro de 1415, a chuva torrencial transformou o campo de guerra em um atoleiro o que, mais uma vez, foi providencial para os exércitos ingleses. A diferença numérica era gritante: 50 mil franceses contra 15 mil arqueiros ingleses e galeses. Mesmo assim, mais uma vez a orgulhosa cavalaria francesa foi arruinada. Alguns historiadores calculam que na Batalha de Azincourt morreram 10 mil franceses contra apenas 1.600 ingleses.

A nova ascensão inglesa impôs, em 1420, o Tratado de Troyes que garantia à Inglaterra todo o norte da França, inclusive Paris. E mais, forçou Carlos VI a deserdar seu filho, o Delfim Carlos VII do trono. Como se não bastasse, o louco rei francês ainda teve de aceitar o casamento de Henrique V com sua filha, a princesa Catarina. Depois do enlace, Henrique V da Inglaterra finalmente tomou posse do trono francês por direito.
Pintura francesa do século XV retratando a Batalha de Crécy, de 1346

Quarto período (1422-1453)
Ajuda vinda dos céus
Em 1422, Henrique V da Inglaterra e Carlos VI da França morreram e os dois tronos, oficialmente, se destinariam a Henrique VI, um bebê recém-nascido. Seu tio, o Delfim Carlos VII (deserdado anteriormente por seu avô,) finalmente foi coroado em 1429, mas ficou apenas com uns poucos territórios do sul da França, enquanto o norte estava nas mãos de Filipe III, o Bom, um fantoche comandado pelo reino da Inglaterra.

Depois de coroado, o Delfim Carlos se dirigiu ao Vale do Loire para comandar resistência francesa. Foi quando surgiu em sua vida uma camponesa que, disposta a lutar por sua pátria, trouxe à França e ao Delfim uma vitória importante ao vencer a Batalha de Orleans. (veja box na página 42).

A última batalha 
Porém, o fim da guerra ainda teria de esperar mais 24 anos. Nesse meio tempo, ingleses e franceses ainda se enfrentaram em mais três combates em 1429: Jargeau, Meung-sur-Loire e Patay. Em 1450, o campo de luta foi em Formigny.

Até que, em 1453, na Batalha de Castillon, os franceses conseguem recuperar a cidade de Bordeaux, o último reduto inglês. Nenhum tratado foi assinado para declarar oficialmente o fim das hostilidades. No entanto, a rivalidade anglo-francesa ainda perduraria por muito mais tempo.
Saiba +
Cawthorne, Nigel. As Maiores Batalha da História - Estratégias e Táticas de Guerra que Definiram a História de Países e Povos. Editora M. Books. 
Spoto, Donald. Joana D'Arc. Editora Planeta. 
Beaune, Colette. Joana D'Arc. Editora Globo. 
Barker, Juliet. Agincourt - O Rei, a Campanha, a Batalha. Editora Record. 
Perroy, Edouard. La Guerra de Los 100 anos. Editora Akal Ediciones. 
As Grandes Batalhas da História. Larousse Editorial. Larousse do Brasil.
Revista Leituras da História

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

As valas comuns da Caxemira


CATHY SCOTT-CLARK
DO "GUARDIAN"
Em uma noite chuvosa de abril de 2010, um major do 4º Batalhão dos Rajputana Rifles, uma unidade do Exército indiano, chegou a um remoto posto de polícia na cadeia montanhosa que semicerca o Estado da Caxemira, o mais setentrional da Índia.
O major Opinder Singh parecia "apressado", relembra um dos policiais que estavam de serviço. Nas alturas da cordilheira de Pir Panjal, que o major havia percorrido a caminho da aldeia, estava nevando, e suas botas estavam encharcadas. "O oficial informou que na noite anterior seus homens haviam matado três terroristas paquistaneses que haviam atravessado a fronteira no setor de Machil, onde estávamos posicionados", o policial recorda.
Dar Yasin - 25.jun.12/Associated Press
Muçulmanos atacam veículo da polícia indiana durante protesto contra o governo em Srinagar
Muçulmanos atacam veículo da polícia indiana durante protesto contra o governo em Srinagar
"Onde estão os corpos?", perguntou o policial, preenchendo o boletim de ocorrência que daria início a um inquérito formal. "Foram enterrados no local", o major respondeu, antes de partir em seu jipe.
"Não era algo incomum", o policial disse mais tarde aos investigadores, quando questionado sobre os motivos para que não tivesse insistido em ver os corpos ou verificar suas identidades. A Caxemira vive em tumulto desde a separação entre Índia e Paquistão em 1947, e está virtualmente em guerra há duas décadas, com algumas estimativas calculando o total de mortos em 70 mil.
Cruzado por barreiras de arame farpado e redes de defesa contra mísseis, o Estado foi transformado em um dos lugares mais militarizados do planeta, com efetivos de um soldado ou paramilitar indiano para cada 17 habitantes. Os serviços de inteligência e as Forças Armadas paquistanesas treinaram e bancam uma legião de combatentes irregulares que se infiltram pelas montanhas e, em 1989, conseguiram encetar uma insurgência aberta, o que mantém sob constante pressão esse Estado de população majoritariamente muçulmana.
No passado um bucólico lugar de peregrinação para mochileiros e místicos de todas as religiões, a Caxemira se tornou uma das linhas de frente mais belas e mais perigosas do planeta. Machil, o setor no qual Singh conduziu sua operação, é especialmente traiçoeiro, consistindo de uma cadeia de aldeias isoladas ao longo da Linha de Controle (LdC), a linha de cessar-fogo traçada nas montanhas, que dividiu a Caxemira, em 1972.
Aqui, no ar rarefeito, a Índia criou uma barreira temível e, com a ajuda de tecnologia israelense, letal --uma série de cercas parcialmente eletrificadas conectadas a sensores de movimentos e cercadas por uma terra de ninguém pesadamente minada.
Em 30 de abril de 2010, um porta-voz das Forças Armadas indianas em Srinagar, a capital da Caxemira durante o verão, confirmou a história de Singh. "Três militantes foram mortos em um tiroteio", disse o tenente-coronel JS Brar, acrescentando que três fuzis AK-47, uma pistola paquistanesa, munição, cigarros, chocolates, tâmaras, duas garrafas de água, um rádio Kenwood e mil rupias paquistanesas haviam sido encontradas nos corpos dos inimigos abatidos --o kit padronizado de infiltração. O inquérito sobre as três mortes, realizado sem exame dos cadáveres, foi uma simples formalidade.
Mas passados poucos dias, na delegacia de polícia de Panzalla, a 50 quilômetros de Machil, um caso simples de desaparecimento estava causando problemas. Três famílias da Caxemira, da aldeia vizinha de Nadihal, haviam registrado o desaparecimento de seus filhos --o agricultor Mohammad, 19; o pastor de ovelhas Riyaz, 20; e o trabalhador braçal Shahzad, 27.
Os três haviam desaparecido em 28 de abril, e as famílias não se deixaram acalmar pelas explicações dos policiais. Seus apelos não demoraram a atrair a atenção de Parvez Imroz, o mais persistente defensor dos direitos humanos na Caxemira, cuja resposta ao que se tornou conhecido como o "incidente em Machil" criaria um marco na história da região.
Vestido como costumam os advogados da Caxemira, com uma camisa branca engomada e um sóbrio terno escuro, Imroz nas duas últimas décadas se tornou presença constante no alto tribunal de Srinagar, apresentando milhares de pedidos de habeas corpus (uma expressão latina cuja tradução literal é "apresente os corpos"), em nome de famílias que alegavam que seus parentes haviam desaparecido quando em custódia das forças indianas de segurança.
Os processos em geral não tiveram sucesso, e o Exército indiano insistia que as pessoas em questão haviam escapado através da LdC para o território paquistanês, mencionando cenas históricas do início da insurgência que causaram pavor em Nova Déli --milhares de jovens da Caxemira saltando para dentro de ônibus e gritando "Paquistão, Paquistão, lá vamos nós".
Mas o que suas petições conseguiram foi estabelecer um histórico burocrático com base no qual Imroz calculou que 8.000 não combatentes da Caxemira haviam desaparecido depois de aprisionados pelo Exército em um Estado do tamanho da Irlanda --quatro vezes mais desaparecidos que os do Chile na era Pinochet. "O domínio dos militares é sufocante", disse ele ao "Guardian". "E causar o desaparecimento de alguém desperta mais medo que derramar seu sangue".
Imroz passou boa parte de sua carreira em disputa contra as forças de segurança, protegidas por leis especiais. Sob a Lei dos Poderes Especiais das Forças Armadas, os soldados e forças paramilitares desfrutam de total imunidade contra processos a não ser que o Ministério da Defesa autorize seu julgamento.
DOIS PESOS, DUAS MEDIDAS
Usando novas leis indianas de acesso a informações, Imroz obteve confirmação de que, a despeito de centenas de soldados terem sido acusados de homicídio, estupro e tortura, nenhum deles foi processado. Em contraste, os cidadãos da Caxemira são enquadrados à Lei de Segurança Pública de Jammu e Caxemira, sob a qual podem ser encarcerados preventivamente por dois anos caso seja considerado provável que venham a cometer atos subversivos no futuro; de acordo com a Human Rights Watch, há 20 mil pessoas detidas sob essa cláusula da lei.
A campanha de Imroz conquistou outros sucessos. Atraiu a atenção da ONU e, este ano, Christof Heyns, que comandou uma investigação especial das Nações Unidas sobre execuções extrajudiciais, alertou a Índia de que leis draconianas como essas não deveriam existir em uma democracia operante, e precisam ser revogadas.
O preço por confrontar as forças de segurança e os militantes foi pesado. Em 1992, Imroz perdeu seu mentor, um ativista hinduísta assassinado por insurgentes muçulmanos. Três anos depois, ele estava dirigindo para casa quando sentiu um frio no peito. "Caí sobre o volante, sem conseguir entender", diz.
Mukhtar Khan - 13.jun.12/Associated Press
Polícia usa água colorida para dispersar funcionários do governo da Caxemira durante protesto em Srinagar
Polícia usa água colorida para dispersar funcionários do governo da Caxemira durante protesto em Srinagar
As pessoas que o socorreram disseram que ele havia sido baleado. Um grupo de militantes mais tarde alegou que o ataque havia sido um engano. Em 1996, o Exército indiano sequestrou Jalil Andrabi, advogado e colega de Imroz, cujo corpo mutilado foi encontrado depois de três semanas. Imroz se mantinha isolado. Por anos, ele se recusou a casar ou ter filhos, por medo de que sua família se tornasse um alvo.
Em 2002, seu bem-sucedido discípulo, Khurram Parvez, um jovem advogado da Caxemira, sofreu ferimentos graves em um ataque com explosivos que matou seu motorista e uma colega, Asiya Jeelani. Dois anos mais tarde, um atirador que se fez passar por cliente matou outro dos advogados que colaboravam com Imroz.
Em 2005, quando Imroz ganhou o Prêmio Ludovic-Trarieux de Direitos Humanos, cujo primeiro a ganhá-lo foi Nelson Mandela, não pôde comparecer à cerimônia porque a Índia não lhe concedeu um passaporte.
Mas a reputação de Imroz começou a crescer nas regiões rurais, de onde camponeses assustados começaram a afluir ao seu precário escritório em Srinagar, para lhe contar suas histórias. Em 2008, esses relatos permitiram que o advogado realizasse sua mais importante descoberta. Ao investigar casos de desaparecimento em aldeias localizadas em dois dos 23 distritos da Caxemira, entre as quais Baramulla, de onde os três homens de Nadihal desapareceriam em 2010, foi levado por moradores a uma rede, até então desconhecida, de valas comuns e sepulturas anônimas, espalhadas entre as florestas e pomares da região.
De acordo com testemunhas, todas as sepulturas haviam sido escavadas na presença de forças de segurança indianas, e abrigam os corpos de moradores locais. Alguns dos cadáveres eram recentes e outros já estavam fortemente decompostos, o que indica um massacre encoberto que vem acontecendo há anos.
Imroz ampliou suas buscas, mapeando cerca de mil locais. Ficou chocado pelas dimensões do problema. As leis indianas requerem que a polícia investigue todos os casos de morte violenta, e que os cadáveres sejam identificados. Mas na aldeia de Bymiar, Atta Muhammad Khan, um homem já grisalho, se apresentou para descrever como havia sido forçado a sepultar 203 corpos não identificados, na calada da noite --homens cujos nomes e crimes não lhe foram revelados. "Alguns dos corpos estavam desfigurados. Outros haviam sido queimados. Não fizemos perguntas", ele revelou.
Na aldeia de Kichama, onde o advogado mapeou 235 sepulturas não identificadas, e em Bijhama, onde outros 200 túmulos foram localizados, a história era a mesma. Em Srinagar, a equipe de Imroz alertou a Comissão Estadual de Direitos Humanos (CEDH). "Suspeitamos que os desaparecidos da Caxemira estão sepultados nesses locais secretos", afirmou o advogado ao publicar um relatório sobre suas descobertas.
A resposta oficial surgiu dois meses mais tarde, pouco depois das 22h de 30 de junho de 2008. Imroz havia terminado por se casar com Rukhsana, uma empresária de Srinagar. O casal tem dois filhos --Zeenish, 12, e Tauqir, 7. A família vivia em Kralpora, um subúrbio arborizado a 13 quilômetros do centro de Srinagar.
Não era um lugar que as pessoas visitassem ao acaso. Rukhsana ouviu uma batida à porta, e quando olhou para fora viu que a iluminação de segurança estava quebrada. "Eu sabia o que isso queria dizer", ela conta. A batida à porta fez com que recordasse os muitos amigos assassinados. Imroz correu para os fundos da casa e gritou para seu irmão, o xeque Mushtaq Ahmad, que morava ao lado.
Quando Ahmad saiu com uma lanterna, um tiro foi disparado, quase atingindo seu filho. Uma voz desconhecida gritou: "Apague a lanterna". Em seguida, uma granada explodiu, e seus estilhaços atingiram a porta da frente. Depois vieram granadas de gás lacrimogêneo, despertando os vizinhos, que destrancaram a mesquita do bairro.
O ímã mobilizou os moradores locais, que cercaram a casa de Imroz. Eles viram dois jipes e um veículo blindado da Força Policial de Reserva Central e da Força-Tarefa Especial partindo em alta velocidade. "Vieram para nos matar", recorda Rukhsana. "Precisamos de proteção". Quando perguntada contra o que sua família precisa de proteção, ela respondeu: "Contra o nosso governo, claro. É a lei da selva".
SILÊNCIO É CRIME
Depois do ataque, a Human Rights Watch apelou ao governo da Índia por proteção a "Parvez Imroz, um advogado premiado como defensor dos direitos humanos", e a situação dele foi debatida no Parlamento Europeu. A família implorou que ele desistisse. "Fiquei aterrorizado", admite Imroz. "Comecei a ter pesadelos. Mas manter o silêncio é um crime".
Tauseef Mustafa/France Presse
Barco navega em lago em frente a picos cobertos de neve na Caxemira
Barco navega em lago em frente a picos cobertos de neve na Caxemira
Imroz e sua equipe redobraram seus esforços, expandindo seu trabalho a 55 aldeias nos distritos de Bandipora, Baramulla e Kupwara. Uma investigação informal conduzida por voluntários e bancada por doações elevou o número de sepulturas anônimas localizadas a 2,7 mil. Nelas estavam sepultados 2.942 corpos, 80% dos quais não identificados.
"Eram imagens pavorosas de uma guerra que ninguém estava reportando", disse Imroz. "Suspeitamos que sejam prova primária de crimes de guerra", acrescentou. "Quem são os mortos, como morreram, por obra de quem, e quem os sepultou?"
A CEDH por fim cedeu ao pedido de uma investigação. O trabalho logo se expandiu. A polícia foi forçada a admitir que havia registrado queixas relativas a 2.683 desaparecidos, em apenas três distritos. E um novo depoimento submetido pelas equipes de campo de Imroz em dois novos distritos, Rajoori e Poonch, mapeou outras 3.844 sepulturas anônimas e valas comuns, elevando o total a mais de seis mil. Restam 16 distritos a investigar, o que faz com que Imroz imagine quantas mortes violentas e sepultamentos clandestinos foram ocultados no território da Caxemira.
Por fim, em setembro de 2011, a CEDH divulgou uma declaração afirmando que a teoria de Imroz estava correta. "Há toda possibilidade de que os corpos não identificados sepultados em diversas covas anônimas contenham vítimas de desaparecimentos forçados". A ONU interveio este ano, e um relatório ao Conselho de Direitos Humanos advertiu a Índia quanto ao cumprimento dos tratados e leis de direitos humanos dos quais o país é signatário. As famílias da Caxemira "têm o direito de conhecer a verdade", e, "caso o desaparecido esteja morto, o direito de recuperar os restos do ente querido, para sepultá-los de acordo com suas tradições, religiões ou cultura".
Depois do desaparecimento dos homens de Nadihal, Parvaiz Matta, um dos pesquisadores de campo de Imroz, foi à aldeia. Fayaz Wani, um amigo dos três, havia testemunhado o ocorrido, e revelou que o Exército indiano havia oferecido trabalho ao trio, em uma transação intermediada por um membro da Polícia Especial, que havia adiantado uma quantia de sete libras a cada um deles "como prova de boa fé", antes de levá-los a um acampamento do Exército em Machil.
MORTE POR RECOMPENSA
As famílias dos desaparecidos prestaram queixa contra o policial, Bashir Lone. "Ele cedeu, admitindo sua participação, e alegando que nove soldados haviam matado os três trabalhadores em um acampamento remoto do Exército, para solicitar recompensas". (O Exército costuma oferecer recompensas financeiras aos soldados que matam militantes.)
Em 28 de maio de 2010, três corpos foram exumados de sepulturas anônimas perto de um dos campos já mapeados por Imroz, no qual o governo alegava estarem sepultados combatentes estrangeiros. Os familiares identificaram Shahzad, Riyaz e Mohammad por suas roupas.
A história de morte por recompensa em Nadihal e as notícias sobre grande número de corpos não identificados levaram centenas de milhares de manifestantes às ruas na metade de 2010. Sentindo a crescente ira, o Exército e o governo central em Nova Déli prometeram investigar, oferecendo, sem ironia, "dialogar com qualquer pessoa na Caxemira que renuncie à violência".
Quando as investigações não apresentaram resultados, a Caxemira entrou em convulsão, com ataques de grupos de jovens armados com pedras contra soldados, policiais e paramilitares, que reagiram com disparos. Os canais internacionais de notícias demonstraram interesse passageiro pelo assunto, indagando se a Caxemira estaria vivendo uma Primavera Árabe. Mas as câmeras não demoraram a partir, e uma repressão furiosa começou a limpar as ruas. As estatísticas do governo mostram a detenção de mais de 5,3 mil jovens da Caxemira, incluindo muitas crianças.
Imroz voltou ao trabalho em 2011, investigando como a Índia havia restaurado a paz. Eu o acompanhei. Ele gravou declarações de pessoas libertadas da prisão e das famílias de prisioneiros. "Os depoimentos são assustadores", diz. A maioria dos jovens alega ter sido torturada, e exames médicos independentes confirmam que muitos tiveram unhas arrancadas e sofreram fraturas.
Um prisioneiro adolescente contou ao "Guardian" que "a polícia começava por nossas mãos e dedos, quebrando-os com as coronhas das armas, e quando estávamos chorando eles nos penduravam pelos tornozelos e passavam pimenta em nossas feridas". Outros alegam que os militares os torturaram com gasolina no ânus. Prisioneiros alegaram no tribunal ter sido forçados à sodomia mútua, gravada em vídeo por um câmera da polícia.
Este ano, Imroz e seus pesquisadores de campo estenderam seus trabalhos a todo o Estado, para investigar a tortura. Suas constatações serão encaminhadas à ONU e à Human Rights Watch dentro de algumas semanas, mas uma versão inicial vista pelo "Guardian" sugere que a tortura é não só endêmica como sistêmica.
Em um grupo de 50 aldeias, mais de dois mil casos extremos de tortura foram documentados, cada um dos quais suficiente para gerar investigação da CEDH. Todos deixaram suas vítimas alquebradas física e mentalmente. Os métodos incluem marcar com ferro em brasa, choques elétricos, afogamento simulado, cortes com navalhas e introdução de gasolina no ânus.
A investigação sugere que um em seis moradores da Caxemira já foi torturado. "Para as 50 aldeias, que oferecem um pequeno retrato do Estado, localizamos 50 centros de tortura do Exército e dos paramilitares", diz Imroz. Os métodos, jargão e até a arquitetura das salas de tortura são os mesmos. "Não estamos contemplando erros individuais de alguns oficiais".
Arquivos liberados sob as leis de acesso à informação demonstram que essas práticas remontam a 1989. Os documentos, vistos pelo "Guardian", revelam práticas horríveis como as de um grupo de soldados da Força de Segurança da Fronteira (FSF) que amputava membros de pessoas aprisionadas e as forçavam a comer sua própria carne.
O "Guardian" localizou uma das vítimas, o pastor Qalandar Khatana, 45. Andando de muletas, os tornozelos protegidos por bandagens depois que seus dois pés foram amputados, ele conta: "Eles me seguraram, um soldado da FSF sacou uma faca e eu desmaiei enquanto meu sangue esguichava". Seu arquivo registra que um investigador do governo confirmou a história e localizou testemunhas.
Outro aldeão, o carpinteiro Nasir Sheikh, perdeu as duas pernas abaixo do joelho e uma mão, e revela: "O cheiro era de morte -urina, fezes, suor. Você sabe que está para ser morto lentamente. Era como ser lançado a um poço onde ninguém pode ouvir seus gritos". Seu arquivo confirma a história e sugere que ele seja indenizado.
A equipe que compila o relatório especial da ONU sobre tortura teve recusados desde 1993 seus pedidos de entrada na Caxemira. Os projetos de lei de combate à tortura estão paralisados na Índia. "Quando é que o mundo começará a perguntar à Índia as mesmas coisas que pergunta à Síria?", Imroz questiona. "Ou será que somos invisíveis, na Caxemira?"
Tradução de PAULO MIGLIACCI.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Por que judeus e palestinos vivem em conflito?


Eliza Kobayashi
Quase que diariamente os jornais do mundo inteiro noticiam os infindáveis ataques mútuos entre israelenses e palestinos e as diversas iniciativas internacionais de tentar promover, sem sucesso, a paz entre os dois povos. O conflitos entre árabes e judeus, apesar de atuais, têm origem milenar e carregam uma longa história de desavenças religiosas e de disputa de terras. "Desde os tempos bíblicos, judeus e árabes, que são dois entre vários povos semitas, ocuparam partes do território do Oriente Médio. Como adotavam sistemas religiosos diversos, eram comuns as divergências, que se agravaram ainda mais com a criação do islamismo no século VII", conta Alexandre Hecker, professor de História Contemporânea da Universidade Presbiteriana Mackenzie e da Universidade Estadual Paulista (Unesp).


O conflito mais recente entre os dois povos se intensificou a partir da Primeira Guerra Mundial, quando se deu o fim do Império Otomano, e a Palestina, que fazia parte dele, passou a ser administrada pela Inglaterra. "A região possuía 27 mil quilômetros quadrados e abrigava uma população árabe de um milhão de pessoas, enquanto os habitantes judeus não ultrapassavam 100 mil", afirma o professor. A Inglaterra apoiava o movimento sionista, criado no final do século 19 com o objetivo de fundar um Estado judaico na região da Palestina, considerada o berço do povo judeu. Segundo Alexandre, o papel dos ingleses naquele momento era o de criar esse "lar nacional" para os judeus, que vinham sofrendo perseguições e violências em todo o mundo, mas sem violar os direitos dos palestinos árabes que já viviam ali. "Assim, na década de 20, ocorreu uma grande migração de judeus para a Palestina". 

Depois de 1933, com a ascensão do nazismo na Alemanha e o aumento das perseguições contra os judeus na Europa, a migração judaica para a região cresceu vertiginosamente. Os palestinos, por sua vez, resistiram a essa ocupação e os conflitos se agravaram. Após a Segunda Guerra Mundial e o fim do Holocausto, que levou ao extermínio de 6 milhões de judeus, a crescente demanda internacional pela criação de um estado israelense fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovasse, em 1947, um plano de partilha da Palestina em dois Estados: um judeu, ocupando 57% da área, e outro palestino (árabe), com o restante das terras. "Essa partilha, desigual em relação à ocupação histórica, desagradou os países árabes em geral", afirma Alexandre Hecker. 

Em 1948, os ingleses finalmente desocuparam a região e os judeus fundaram, em 14 de maio, o Estado de Israel. Um dia depois, os árabes, insatisfeitos com a partilha, declaram guerra à nova nação, mas acabaram derrotados. "O conflito permitiu a Israel aumentar seu território para 75% das antigas terras palestinas: o restante foi anexado pela Transjordânia (a parte chamada Cisjordânia) e pelo Egito (a faixa de Gaza)", explica o professor. Em consequência disso, muitos palestinos refugiaram-se em Estados árabes vizinhos, enquanto boa parte permaneceu sob a autoridade israelense. "Outras guerras se sucederam por causa de fronteiras, com vantagens para Israel e sempre sem uma solução para o problema dos refugiados". Apesar de algumas tentativas de acordos e planos de paz, a situação atual ainda é de muito impasse, principalmente pelo fato de os palestinos, liderados pelo movimento radical islâmico Hamas, não reconhecerem o direito de existência de Israel. Na opinião de Alexandre, "a guerra entre palestinos e judeus só terá um fim quando for criado um Estado palestino que ocupe, de forma equitativa com Israel, a totalidade do território tal qual ele se apresentava em 1917".
Revista Nova Escola

Como é a convivência entre árabes e judeus na Palestina



Para entender a questão palestina, é preciso diferenciar povos (israelenses e árabes-palestinos) e religiões (judaísmo, cristianismo e islamismo). Existem árabes-palestinos e israelenses que são judeus, cristãos e islamitas (ou muçulmanos). A convivência entre os povos é conflituosa há muitos anos. Uma disputa política marcante ocorreu em 1948, quando a Palestina foi anexada ao recém-criado Estado de Israel. Hoje, esse exército impõe toques de recolher ao povo palestino, mantém mais de 713 barreiras de controle e um muro com 790 quilômetros separando o país do território. Segundo um acordo da Organização das Nações Unidas (ONU), deveriam ser criados dois Estados, Israel e Palestina, mas ele não é cumprido.
Ali El-Khatib, coordenador do Núcleo de Estudos e Pesquisas Árabes da Faculdade de Campinas (Facamp)
Revista Nova Escola

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Refugiados de ontem e de hoje

Keila Grinberg compara a situação das pessoas que fogem atualmente dos conflitos na Tunísia, na Líbia e no Egito com a dos judeus na época do Holocausto.

Keila Grinberg


Refugiado da Líbia em acampamento da Organização das Nações Unidas na Tunísia. Milhares de líbios estão fugindo da guerra civil que se instalou no país após manifestações contra o atual governo. (foto: Spencer Platt/ Getty Images – CC BY 2.0)
Impossível não lembrar do comissário Salvo Montalbano, criação do escritor italiano Andrea Camilleri (1925-), ao ler no noticiário as últimas sobre os milhares de refugiados da Tunísia e da Líbia recentemente chegados a Lampedusa, pequena ilha italiana localizada entre a Tunísia e a Sicília.

O comissário, geralmente sisudo e meio mal-humorado, assistia a um desembarque de tunisianos na cidade imaginária de Vigata, na Itália, quando viu um menininho saltar do barco de mãos levantadas, em sinal de rendição.

“Afinal, de que buraco do inferno vinha aquele garoto”, perguntou-se Montalbano, “se já com tão pouca idade havia aprendido aquele terrível gesto de mãos ao alto, que certamente não tinha visto nem no cinema nem na televisão?”

A imagem é famosa: tirada no gueto de Varsóvia, mostra um menino de casaco e boné com um soldado nazista apontando a arma por trás“A resposta veio rápida: de repente, dentro de sua cabeça, houve uma espécie de relâmpago, um verdadeiro flash. E, dentro desse relâmpago de curta duração, o caixote, o beco, o porto, a própria Vigata, tudo desapareceu e depois ressurgiu reconstituído no granulado preto-e-branco de uma velha fotografia, vista muitos anos antes mas batida havia mais tempo ainda, durante a guerra, antes que ele nascesse, e que mostrava um menininho judeu, ou polonês, com as mãos para o alto, os mesmos olhos arregalados, a mesma vontade de não começar a chorar, enquanto um soldado apontava o fuzil contra ele.” (Guinada na vida, Record, p. 46)

A imagem é famosa demais para merecer descrição minuciosa: tirada no gueto de Varsóvia (Polônia), ela mostra em primeiro plano um menino de casaco e boné com um soldado nazista apontando a arma por trás.


Foto tirada em 1943, quando os soldados nazistas capturaram os últimos habitantes do gueto de Varsóvia (Polônia), onde centenas de milhares de judeus foram confinados em condições sub-humanas durante o Holocausto. (foto do relatório de Jürgen Stroop para Heinrich Himmler)Hoje considerada uma das imagens mais fortes e emblemáticas do Holocausto, ela foi objeto, recentemente, de investigação do professor Dan Porat, da Universidade Hebraica de Jerusalém (Israel), que sobre ela escreveu o livro The boy: a Holocaust story (Hill and Wang, 2010). Porat queria saber quem era o tal menino, se ele tinha sobrevivido à guerra.

Não foi o primeiro: em A child at gunpoint: a case study in the life of a photo (Aarhus University Press, 2004‏), o pesquisador Richard Raskin se fez a mesma pergunta. E sugeriu que o impacto causado pela foto está no fato de ela propiciar, como poucas, a identificação entre o observador e o menino.

Hoje ninguém tem dúvidas de que lado está quando vê aquela foto – embora naquela época alguns não tivessem essa certeza. Da mesma forma, Montalbano não hesitou, na história de Camilleri, em tentar ajudar o pequeno refugiado, que o acabou enredando em uma trama que só lendo (e vale muito a pena ler!).

Imigrantes rejeitados
As revoltas que resultaram na deposição dos presidentes da Tunísia e do Egito, bem como na guerra civil que cerca o governo de Muammar Kadhafi na Líbia, produziram, como em qualquer conflito de grandes proporções, um grande número de refugiados.


Manifestantes protestam em uma cidade a 50 km da capital da Líbia contra o regime de Muammar Kadhafi. (foto: Flickr/ Reuters/ Ahmed Jadallah – CC BY 2.0)Só que, enquanto os Estados Unidos e a Europa celebram os movimentos como sinal de modernização e valorização da democracia, nem querem ouvir falar de mais imigrantes em seus territórios.

Há alguns meses, o governo francês emitiu um comunicando declarando que não aceitará nenhum imigrante tunisiano que não seja portador de visto válido. E o ministro da Alemanha rejeitou em fevereiro passado a proposta da Itália de redistribuir os refugiados por vários países.

Pouca gente vem se sensibilizando com os cerca de 30 mil refugiados da Tunísia, da Líbia e do EgitoSem contar o comissário Montalbano e a agência que cuida da questão dos refugiados na Organização das Nações Unidas (ONU), além de algumas outras organizações não-governamentais, parece que pouca gente vem se sensibilizando com os cerca de 30 mil refugiados da Tunísia, da Líbia e do Egito, que desde o início dos protestos em janeiro deste ano vêm tentando chegar à Europa, geralmente por mar.

Destes, estima-se que 800 tenham morrido nos últimos quatro meses em naufrágios. O episódio mais drástico talvez tenha sido o do barco que saiu da Líbia em março, segundo o jornal britânico The Guardian, com 72 passageiros. À deriva no Mediterrâneo por falta de combustível, 61 pessoas acabaram morrendo de fome e de sede, enquanto esperavam o socorro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que não chegou.

Pode parecer meio piegas acabar esta coluna lembrando que refugiado é refugiado, independente de época, lugar, cor e religião. Mas, assim como aqueles que assistiram àquela cena do gueto de Varsóvia provavelmente não sentiram a menor identificação com o garoto, talvez por ele ser judeu, estamos deixando passar algo ao não darmos a devida atenção ao que está se passando agora, neste momento, no Mediterrâneo, talvez por estarmos tratando de refugiados muçulmanos.

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Revista Ciência Hoje

A honra e as revoluções


Livro recém-lançado nos Estados Unidos defende que a preocupação com a honra é um fator essencial para que a sociedade promova mudanças em práticas consideradas chocantes e ofensivas. Keila Grinberg comenta a ideia em sua coluna deste mês.

Keila Grinberg

Para o filósofo anglo-ganês Kwame Appiah, o fim do costume de enfaixar e quebrar os pés das mulheres chinesas para que não crescessem foi motivado pela associação da prática à desonra internacional da China. (foto: Flickr/ DrJohnBullas – CC BY-NC-ND 2.0)
Como as sociedades mudam? A pergunta embala inúmeros historiadores e filósofos, cujas respostas variam conforme a época em que vivem, as teorias nas quais acreditam e suas próprias ambições intelectuais.

Em tempos de ocupação da Wall Street (coração do centro financeiro de Nova Iorque) por jovens manifestantes e revoltas no mundo árabe, o filósofo anglo-ganês Kwame Appiah, professor da Universidade de Princeton (Estados Unidos) conhecido por seus estudos de linguagem, defende uma ideia que parece até meio fora de moda: a honra. Isso mesmo. Para ele, a honra foi um importante motor de mudança nas sociedades nos últimos 200 anos.

Conhecido do público brasileiro por seu livro Na casa de meu pai: a África na filosofia da cultura (Contraponto, 1997), Appiah publica agora a obra The Honor Code: how moral revolutions happen, com lançamento previsto para março de 2012 no Brasil pela editora Companhia das Letras.

Dessa vez, ele tenta entender como, olhando para o passado, nos deparamos com práticas tão chocantes sem que algo tivesse sido feito para modificá-las. Ao se perguntar “o que estávamos pensando que não fizemos nada para acabar com tal situação?”, ele arrisca afirmar que atitudes deploráveis só chegaram ao fim quando a honra – dos indivíduos ou das nações – foi atingida.

Isso teria acontecido na Inglaterra do início do século 19, tanto no caso do fim dos duelos da aristocracia – a certa altura considerados absurdos e ridículos – quanto em relação à proibição do comércio de escravos.

Outro exemplo ocorreu na China do início do século 20, com o fim da prática de enfaixar e quebrar os pés das mulheres chinesas para que permanecessem pequenos. E estaria acontecendo hoje em dia com os crimes de honra contra mulheres no Paquistão, que ainda não geraram nenhuma revolução moral, mas (é o que Appiah espera) ela estaria a caminho.

Ofensa à honra
Para Appiah, nenhuma dessas mudanças teria ocorrido pela força de argumentos morais. Embora a sensibilidade e a compaixão em relação ao sofrimento do outro tenham crescido substancialmente na Europa do século 18, não teriam sido os argumentos morais contra essas práticas que as teriam destruído. As pessoas não deixam de aceitar a situação porque o que está acontecendo é errado. Elas mudam quando sentem vergonha, quando sua honra está em perigo.

Talvez o caso da China tenha sido, dos três primeiros (o quarto ainda estaria por vir), o mais convincente. Séculos e séculos de denúncias contra a prática de enfaixar os pés das mulheres chinesas para impedir que eles crescessem não foram suficientes para acabar com ela. Muito pelo contrário: antes restrita à realeza e às famílias ricas, aos poucos o costume de enfaixar o pés foi sendo adotado por toda a sociedade chinesa, tornando-se cada vez mais popular, até mesmo nas áreas rurais. Ter os pés pequenos, além de ser bonito, era fundamental para ter um bom casamento e um bom status social.

Para os intelectuais chineses reformistas, os pés pequenos das mulheres tornavam a China ridícula aos olhos dos outros paísesSó com as reformas do fim do século 19, a questão dos pés das mulheres chinesas começou a ocupar o lugar que merecia na agenda política do Império chinês. Para os intelectuais chineses reformistas, os pés pequenos das mulheres tornavam a China ridícula aos olhos dos outros países – na verdade, dos países europeus civilizados (embora Appiah não diga, é isso o que ele quer dizer). Para estabelecer relações em pé de igualdade com as outras potências, eles deviam abandonar seus “bárbaros costumes”.

E assim foi. Em 1912, a prática foi proibida na China. Mesmo que ainda tenha persistido em algumas regiões do país até a década de 1940, não deixa de ser curioso que, depois ter existido por mais de 900 anos (desde o século 10), em tão pouco tempo ela tenha chegado ao fim. Hoje só existe em mulheres muito idosas, marcas de um tempo que já passou.

Raízes múltiplas
Mas assim como é difícil atribuir o fim dos pés pequenos das mulheres chinesas apenas à desonra internacional, isolar um único fator como responsável por mudanças tão significativas em sociedades tão diferentes é o ponto frágil do argumento central do livro.

Como toda interpretação ambiciosa e generalizante, ela corre o risco de não resistir a um olhar mais acurado sobre cada um dos casos analisados. Vide a crítica de David Brion Davis, historiador especialista em abolição da escravidão no Império britânico, ao capítulo sobre o fim do tráfico de africanos publicada na New York Review of Books.

O comércio de escravos na Inglaterra no século 19 é outra prática que teria sido proibida por ter se tornado um perigo à honra da nação, mas o argumento é contestado por historiadores. (foto: Wikimedia Commons)Da mesma forma, embora seja impossível compartilhar qualquer simpatia por práticas tão repulsivas como as descritas no livro, também é difícil assumir como universal, ainda que apenas nos últimos 200 anos, o conceito de honra adotado por Appiah.

Mesmo que, como ele afirma, “duelar tenha sido sempre homicida e irracional, diminuir os pés tenha sempre sido de uma dor alucinante; escravidão tenha sempre sido um assalto à humanidade do escravo”, não dá para deixar de pensar que, embora essas três práticas tenham sido de fato sempre assim, elas nunca foram só isso.

Para não parecer a historiadora rabugenta vociferando contra as idiossincrasias dos filósofos, quero dizer que gostei do livro. Contra as muitas vezes cansativas contextualizações dos historiadores, é inspirador ler um texto livre de contrangimentos factuais e compromissos teóricos.

Mas não posso terminar sem dizer que acabei o livro com a sensação de que faltou explicar por que seguimos substituindo práticas sociais deploráveis como a de apequenar os pés das mulheres chinesas por outras, tão deploráveis quanto as anteriores. Nos falta honra? Ou ela não é mais capaz de alimentar revoluções morais?

Keila Grinberg
Departamento de História
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro
Pós-doutoramento na Universidade de Michigan (bolsista da Capes)

Revista Ciência Hoje